July 31, 2005

 

Onwards and Sideways

Dona Carol Darr, do instituto de política, democracia e Interrrnéte da Universidade George Washington, declarou sexta-feira que as pessoas que escrevem e lêem blogs não são “os tristes, os loucos e os solitários”. Em lugar disso, pesquisas demonstram que se trata de "gente capaz de influenciar os outros". Eu definitivamente vim parar no lugar errado, portanto.

Meu namoro com o Blogspot foi curto, mas intenso. Durante oito meses, briguei com ele em média duas vezes por dia (útil). Foi bom, meu bem? Isso vocês, meus dois fiéis leitores, é que devem responder. Quem quiser continuar acompanhando o bestiário Noronha, será recebido com tremoço e bagaceira Mourisca em meu novo tugúrio, na honorável companhia dos mano e das mina do Wunderblogs. Os arquivos, por enquanto, permanecem aqui. (E desculpem o trabalho de alterar links.)

Conferindo os sempre surpreendentes termos de busca que atraem visitantes ao meu den of iniquity, sexta-feira, descobri traços da passagem de um rapagão que, via Google, estava procurando por "brog de mulheres pelada" (sic). Portanto, fecho o lojinha velha e abro o nova com uma leve sensação de dever cumprido.

Obrigado a todos pela atenção, carinho, depósitos na conta bancária da Fundação Noronha, fotos tópiléssi e comentários quase sempre muito mais divertidos do que o texto. Hope to see you all there.

July 08, 2005

 

For what can a poor boy do?


Se for esquerdista? Ficar em casa e culpar o governo.

Liberais e esquerdistas não brigam na rua. Vestem-se de tartaruga ou golfinho para participar de manifestação contra a globalização e ficam sempre com aquela ligeira cara de bunda quando apanham da puliça. Nos bairros em que eu cresci, seriam todos chamados de “cuzão”, que era um tremendo insulto na rua Aurora da minha vida. Seja por respeito instintivo às normas da civilização, seja porque passaram a adolescência sendo vítimas de bullies na escola sem nunca reagir, seja por pura covardia física, eles aparentemente sentem verdadeira repulsa pela violência.

Eu poderia respeitar essa antipatia deles pela violência –há, efetivamente, violência demais no mundo- não fosse um fator seriamente desqualificatório: ela é unilateral. Ou seja, um liberal desse tipo, qualquer que seja o rótulo que desejemos aplicar a ele, está disposto a renunciar à violência como ferramenta da ordem ou do Estado mesmo que os inimigos da ordem ou do Estado não estejam dispostos a fazer o mesmo. Nesse sentido, os liberais que acreditam em ceder diante da violência troglodita das Al Qaedas do mundo porque essa violência tem causas “justas” não são muito differentes dos appeasers europeus da segunda metade dos anos 30, que entoavam exatamente a mesma ladainha com relação a Adolf, Benito e os milicos japoneses. O pobrema com esse approach continua exatamente o mesmo: não se pode apaziguar psicopatas porque satisfazer-lhes as ambições só faz com que elas aumentem. A Al Qaeda não quer promover a liberdade e a democracia no Oriente Médio. Quer impor a tirania islâmica ao mundo inteiro.

É por isso que nada me repugna mais, moralmente, do que um calhorda nauseabundo como Tariq Ali. Para Ali, a culpa do ataque terrorista a Londres é de Tony Blair, e do apoio de Blair às guerras no Iraque e no Afeganistão. Para Ali, a única maneira de acabar com o terrorismo é “o fim imediato da ocupação do Afeganistão, do Iraque e da Palestina”. Ali, e muita gente que se diz liberal, sensível e bacaninha, na verdade aplaude secretamente o terrorismo, porque as atrocidades que os terroristas perpetram “justificam” a sua receita pífia para corrigir os problemas do mundo. Implicitamente, Ali e os liberais e “defensores da justiça global” de sua laia aceitam a Al Qaeda ou seja lá quem tenha sido responsável pela nova série de atentados como exatos equivalentes morais dos governos democraticamente eleitos (e recentemente reeleitos) do Reino Unido e dos EUA, e como representantes legítimos dos povos que –segundo ele- os americanos e os brits estão massacrando.

Porque eu já tive minha cota razoável de brigas –de rua, na escola-, sei de uma coisa que os cuzões se recusam a admitir: há motivos pelos quais recorrer à violência é não só digno como a única saída. Mesmo que você entre na briga e apanhe, pelo menos sabe que há coisas no mundo pelas quais vale a pena brigar, em lugar de ficar assistindo às atrocidades na TV e escrevendo coluninha de “bem feito, Blair”, no momento em que gente com mais coragem e ainda menos senso moral do que os liberais do jaez de Ali sai massacrando civis indiscriminadamente metrópoles afora. O problema é que o retorno do reprimido é inevitável, e todas aquelas ocasiões em que o sujeito foi cuzão na vida e deveria ter brigado ressurgem, nesses momentos, e fazem-no aplaudir os covardes que decidiram agredir -sem mostrar o rosto- pessoas das quais o cuzão sempre teve medo irracional de apanhar. Para sorte dos cuzões, especialmente aqueles que desfrutam da proteção de sociedades cujas imperfeições não se cansam de apontar, ainda há gente disposta a lutar para defendê-los, porque eles seriam os primeiros a terminar em paredón, no paraíso Taliban que o “idealismo” deles ajudaria a criar.

 

Grandes Vultos dos Anos 70 -14


Mulheres da lei

Outro dia, comentando um post aqui, meu dileto amigo Japs lembrou da “loira do banheiro”, uma lenda urbana que varreu Sumpaulo nos anos 70 (tem até comunidades no Orkut dedicadas à moça), mas eu nunca fui de acreditar em sobrenatural. As loiras do banheiro de que me lembro nos anos 70 podem não ser exatamente naturais, vá lá, mas são mais obra da Clairol do que do Além. E nenhuma delas teve mais importância no imaginário punhetil masculino do que Farrah Fawcett (então) Majors (1947- ), cujo muito vendido pôster, acima, à direita, enfeitava as paredes de todos os adolescentes americanos daquela triste década. Farrah interpretava a investigadora Jill Munroe no line-up original de Charlie’s Angels* (as investigadoras de elite nunca foram capazes de capturar o perp responsável pelo crime capilar do qual ela foi vítima). As Panteras, título que a série ganhou no Brasil por obra dos gênios de marketing da Grobo, era a mó sacanagem com as feministas –em tese, enfim havia uma série em que as mulheres eram as heroínas “de ação”; na prática, o método de investigação do trio era colocar um biquinão -cujas calçolas hoje em dia poderiam servir de barraca de camping- e fazer cara de “quero dar” no covil do malfeitô.


Mulheres fora da lei

Farrah não foi a única loira fetiche da década. No ramo policial, a veterana mas ainda yummy Angie Dickinson (1931- ) estrelava o seriado Police Woman, por exemplo, e no segmento de bombshells pré-fabricadas e notórias pela falta de talento ninguém superava Bo Derek (1956- ), a “mulé nota 10” . O contrapeso blonde à garganta profunda de Ms Linda Lovelace, já por duas vezes celebrada nas Crônicas de Noronha, era Marilyn Chambers (1952- ), que depois de ser a loirinha do sabonete Ivory Snow se tornou uma das estrelas pornôs mais quentes da década com Behind the Green Door –mas eu nunca entendi porque a porta era verde, e o que eles queriam dizer com “porta” e “verde”. Sacanagem críptica é um saco. (Um equivalente brasileiro seria ver a formosa moça cuja foto enfeita a embalagem dos palitos Gina como estrela de pornochanchada. Not a bad idea at all.) As loiras dos anos 70, como indica a modesta amostra aqui reunida, eram ruins que nem a década. Mas confesso que se Angie Dickinson decidisse me algemar e me interrogar todinho, eu não abriria processo por brutalidade policial, não.

*Eu sempre tive um gosto excêntrico e my favorite angel, por isso, era Tanya Roberts, que só trabalhou na última temporada da série. Ainda hoje, como coadjuvante ocasional em That 70s Show, dona Roberts mantém as, er, proporções generosas e a voz diliça que atormentavam minha juventude.


July 07, 2005

 

Grandes Vultos dos Anos 70 -13


Michael Caine (l), Irwin Allen (1916-1991), e peruca muito ruim (top)

Na discussão sobre filmes que ocupou o final de semana prolongado, doutora J. apareceu com a teoria de que o conjunto dos filmes de uma década serve mais ou menos como retrato dela –as fábulas morais, os filmes de gângster e as screwball comedies dos anos 30 resumem o ethos da era da Depressão e do New Deal; os filmes de guerra, os noirs e os musicais de produção luxuosa e tacky dos anos 40 expõem o contraste entre a destruição moral e física da guerra e o otimismo da vitória; nos anos 50, os melodramas, westerns analíticos e comédias sombrias, bem como o acabamento refinado da última década em que a cultura pop foi adulta, indicam a dicotomia entre a fachada “arrumadinha”, maniqueísta, e o inconsciente irrequieto da era; os road movies, épicos fracassados e ícones niilistas dos anos 60 demonstram a morte da cultura tradicional e ao mesmo tempo as pretensões intelectualóides e a qualidade pífia da produção “contracultural”. Os anos 70, ocês querem saber? Os anos 70 foram a era do disaster movie.

Em retrospecto, todo mundo pensa na década –em termos cinematográficos- como a era do Brat Pack, quando a velha Hollywood que saiu quase falida dos anos 60 terminou resgatada por Spielberg, Lucas, Coppola e –em menor escala- Scorsese, De Palma, Malick. Mas o sujeito que realmente define o cinema da década é o produtor/diretor Irwin Allen, que depois de criar o conjunto de seriados mais mal feitos da história da televisão, nos anos 60, migrou para a tela grande na década subseqüente e deu a partida para o felômeno dos filmes-catástrofe com The Poseidon Adventure (1972), cujo títalo em português, O Inferno do Poseidon, resume com perfeição os sentimentos de quem se via obrigado a assistir à obra-prima.

Allen, cuja especialidade televisiva nos anos 60 eram seriados de ficção científica toscos derivados da maravilhosa literatura barata das décadas precedentes (Time Tunnel, Lost in Space, Land of the Giants e Voyage to the Bottom of the Sea), inventou um novo gênero, no cinema, unindo desastres implausíveis, efeitos especiais mequetrefes e elencos de astros decadentes reunidos para pronunciar diálogo merecedor de cinco estrelas no Oscar de comédia acidental. Depois de The Towering Inferno, em que satisfez as aspirações eróticas de todas as mulé da geração da mamma ao escalar Paul Newman e Steve McQueen* pro mesmo filme, Allen também produziu e dirigiu Flood! e The Swarm, que é um dos um dos meus filmes ruins mais queridos, com Michael Caine como entomologista encarregado de enfrentar abelhas assassinas.


A carreira de Steve McQueen, going down

A idéia de Allen vingou, e a década viu furacões, avalanches, meteoros, terremotos, montanhas-russas ruindo, diversas formas de acidente aéreo (de piloto com piriri a Boeing 747 submarino) e marítimo, vermes gosmentos, dirigíveis em chamas, abelhas assassinas, formigas assassinas (e o formidável Food of the Gods**, estrelado por ratos assassinos gigantes e baseado em “parte de um romance de H. G. Wells”). Tanto Jaws, de Spielberg, quando o infame remake de King Kong produzido por Dino de Laurentis podem ser enquadrados na categoria disaster movie. E, claro, The China Syndrome, com todo o diálogo pomposo e o, er, alerta quanto aos perigos da energia nuclear, não passa de um filme-catástrofe sem o charme das produções de Allen.

Allen morreu em 1991, depois de ver seu último disaster movie para o cinema, uma continuação de Poseidon, bombar severamente. Mas embora seu nome raramente seja mencionado como influência, os anos 90 seriam caracterizados por uma retomada clara do gênero, com excesso de computação gráfica e uma dolorosa falta de cenas em que a gente vê isopor voando. Se você, jovem e incauto leitor, leitora moça e desprevenida, assistiu a maravilhas como Independence Day, Twister, Deep Impact, The Day After Tomorrow e War of the Worlds, não esqueça: foi tudo idéia de Allen. E essa é uma das raras catigorias em que os anos 70 são claramente melhores que os 2000.

*McQueen exigiu que seu nome e o de Newman viessem juntos nos créditos, e que ambos tivessem exatamente o mesmo número de linhas de diálogo.
** Vale menção honrosa aqui ao verdadeiro Mr. BIG, Bert I. Gordon, diretor de Food of the Gods e pelo menos 10 filmes monstruosamente ruins entre os anos 50 e os 70.

 

How to Perform Strong Man Stunts


"Take that, Rocky!"

Não é sempre que um site merece um post só pra ele, aqui no bestiário do Uncle Filthy, mas também não é sempre que um site oferece preciosidades culturais como o manual How to Perform Strong Man Stunts, que me serve de tema hoje.

Ottley R. Coulter (pai da famosa colunista Anne), nascido em 1890 e morto em 1976, ganhou renome como o primeiro historiador do fisiculturismo, mas não só isso: em 1952, escreveu um livro ensinando aos fracotes como sobreviver no mundo dos músculos. E porque blogueiro e leitor de blog é tudo mirradinho e bundão, cês têm praticamente obrigação de ler o trabalho pioneiro do sêo Coulter, que já na introdução esclarece que “O Mundo Inteiro Ama os Homens Fortes. Ser mais forte que os seus amigos fará com que o vejam como líder natural, e defensor invencível. A força é a verdadeira marca da masculinidade”. Eu, asmático, quatro-olhos, cacunda e com 1,47 de artura, não poderia concordar mais. Besides, Coulter oferece instruções detalhadas para diversas atividades que todo homem necessariamente praticará na vida.

Por exemplo, cês nunca encontraram uma situação em que precisassem rasgar uma lista telefônica ou maço de baralho ao meio? Ele explica como. Pregar prego sem martelo, dobrar prego ao meio ca força dos póprio dedos, ou entortar prego com os dentes? Tá tudo lá. Levantar alguém com uma mão só ou com os dentes? Check.


Group sex, the strong man way

Os conselhos mais úteis, porém, são os que se referem a como sustentar sobre o corpo pesos de até 450 quilos (might come in handy se você decidir partir prum ménage à trois com duas fórrrtinhas), e a seção sobre como resistir se quatro homens tentarem arrastar você de ou para algum lugar (provavelmente para longe das duas fórrrtinhas). Em situações como essas, resta ao verdadeiro homem forte somente uma coisa a fazer: quebrar uma pedra cos póprio punho. E, que dúvida, Coulter explica direitinho o melhor método.

Encerro aqui com as sábias palavras do meu novo guru, na certeza de que os fortões jamais voltarão a chutar areia em minha direção nas aprazíveis praias de Cidade Ocean: “Nada impressiona mais do que a capacidade de levantar um amigo ou um grupo de amigos”. E isso é previlégio reservado exclusivamente ao Homem Forte. (Ou a Angelina Jolie, come to think of it.)

July 06, 2005

 

Grandes Vultos dos Anos 70 -12


"É aqui que precisam de garçom?": sessão solene
do Sindicato dos Fanhos

Excetuada a honrosa exceção do R&B, música designada por sigla num pode prestar. Provavelmente não é culpa dos artistas que um gênero de música feito por universitários em sua maioria brancos tenha, apesar do relativo insucesso de público, ganho a designação “Música Popular Brasileira”, ou MPB. Mas que é uma espécie de justiça puética, é. Porque eles são tudo um bando de cumunista e o “popular”, ali, serve aos mesmos propósitos que o “popular” em República Democrática “Popular” da Coréia –meaning, evidentemente, impopular pra caraco. Apesar de os mepebistas serem longevos, houve sempre algum outro gênero de música efetivamente muito mais popular do que a deles dominando as paradas de sucesso bananais, nesses 40 anos em que, er, “defendem a curtura nacional” –a Jovem Guarda, os bregas, os sertanejos, o rock nacionar, o sambão, o pagode, o funk (e quem não prefere Bezerra da Silva a Gerald Thomas Vandré como crítico social decididamente devia limpar as zorêia).

Um dos motivos essenciais para isso é o fato de que a MPB é dominada por uma sombria e maligna maçonaria conhecida como “Sindicato dos Fanhos”, cuja atuação era especialmente vigorosa nos anos 70. Nunca tanta gente com voz de bode chegou ao mercado fonográfico em tão pouco tempo. Do Ceará, por exemplo, surgiram vozes, er, privilegiadas como as de Ednardo (aquele do “Pavão (sic) Mysteriozo”), Belchior (cuja voz e letras desanimariam os ímpetos eróticos de um John “Taco” Holmes) e o indefectível Fagner, que começou a carreira musicando sem autorização um poema de Cecília Meirelles (o disco, procês verem que até a Justiça do Bananão funciona, às vezes, terminou recolhido, uns 170 anos mais tarde).

Pra não dizerem que eu tô demonstrando preconceito contra nossos bravos irmãos nordestinos, tomo a liberdade de lembrar igualmente os mineiros Beto "Tudo que Morre é Sagrado (mas eu continuo vivo, pô") Guedes e Low. very Low Borges, o paulista Walter "Cabeça Oca" Franco, o carioca Ivan Lins. Mas o jeito bode de fazer música tinha alguma profunda conexão espiritual com o Nordeste, como provam as vozes privilegiadas dos irmãos Elba e Zé Ramalho, e de Amelinha, casada com um dos dois. (Ou os dois.) Amelinha, aliás, tem lugar especial no panteão musical de Uncle Filthy não só porque o disco de estréia dela inclui uma canção-autocrítica percucientemente intitulada “O Coito das Araras” como porque foi na voz da pequena grande cantora que ouvi pela primeira vez a magistral “mulé nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor”. Trocando o “bonita” por “well, you know”, o “carinhosa” por “impiedosa”, o “homem” por “todo mundo”, o “gemer” por “grunhir” e o “sem sentir dor” por “sentindo 'ai, como era grande'”, Amelinha resume perfeitamente o meu, er, relacionamento com os velhos (tipo Chico Xavier de Hollanda) e os novos (esses todos aí em cima) fanhos da MPB.

Quando o tribunal popular do PTaliban resolver me julgar por crime de lesa-cultura nacionar, eu juro que eu queimo um CD com contribuições de cada um dos luminares do Sindicato dos Fanhos, tasco algodão no ouvido, ligo o boom box no tribunal e digo “I rest my case, your Honor”. E, se não der certo, toco o riff de “Smoke on the Water” no berimbau. Esquedista é o mó sucker for sincretimo, yo.

 

O exílio do jumento concupiscente


"E depois ele vira pro lado e dorme, Meritíssimo"

Um verdadeiro etc. de jumento: O enérgico jumento Aga foi exilado para uma ilha deserta, de seu emprego anterior como atração em um parque nacional da Croácia, porque assediava insistentemente as jumentas que coabitavam o parque com ele, em busca de favores sexuais. Os visitantes reclamavam que, a cada vez que iam olhar os jumentos, lá estava o Aga galgando os Himulaias. Aga procurava suas fêmeas favoritas marromenos 16 vezes por dia, e as jumentas por isso passavam o dia se escondendo dele, o que decepcionava os turistas. Como disse Ms McDirty, com ar reprovador: “Dezesseis vezes por dia e elas tavam reclamando?”

Casa da sogra, espeto de pau: Cientistas romenos provaram cientificamente que sogras e genros jamais se entenderão, de acordo com o meu querido Pravda, o segundo melhor jornal do mundo. A “síndrome da sogra” constatada pelos médicos romenos leva o sujeito que mora com a dita a sofrer de ansiedade, nervosismo, complexo de inferioridade e, por fim, impotência. (Nas shakespereanas palavras do poderoso matutino russo, “a man may become an impotent human being”.) A única coisa que Uncle Filthy estranhou é que, quando era casado, passou pelos mesmos sintomas mesmo sem nem morar com a sogra.

Sign of the times: Marina Bai, uma astróloga russa, abriu processo contra a Nasa alegando que a sonda arremessada pela agência espacial americana contra o cometa Tempel 1 vai forçá-la a reescrever todos os seus mapas astrais. Dona Marina quer indenização de US$ 300 milhões (ou US$ 300 mil –accounts vary). Não vou comentar nada sobre o mérito jurídico do processo, e ainda não consultei o astrólogo favorito de todos os bloggers, o Dr. Pedro Sette Câmara, sobre os prognósticos, mas Uncle Filthy vai usar aqui os poderes paranormais que adquiriu entortando colher de sopa enquanto assistia ao Uri Geller no Fantástico e prever que no futuro dona Marina provavelmente vai ter que aprender a ver o sol nascer quadrado.

They’re unreal, but they’re spectacular”: Na Rússia, que contribui cada dia mais para o bestiário de Uncle Filthy, um jovem vestido de mulé foi capturado quando tentava fazer o vestibular no lugar da irmã. Os atentos seguranças da Fuvestya acharam que os peitos da vestibulanda XY eram suspeitos e que talvez contivessem cola para o exame. (O reitor explicou que a suspeita tinha sido causada pelo fato de que os seios da candidata tinham “proporções incomparáveis”.) Apalpando o corpo de delito, os seguranças descobriram a farsa; a inscrição da moça foi cancelada, e a foto do rapaz no momento de exame vai enfeitar todos os churrascos da turma dele pelos próximos 20 anos. Já na África do Sul, uma clínica alertou as portadoras de implantes de silicone na região peitoral de que precisam levar um atestado médico comprovando a bona fides do equipamento em viagens aos Estados Unidos, porque a Alfândega tende a considerar os airbags como potenciais armas terroristas. Eu raramente concordo com as otoridad em seus momentos de paranóia antiterrorista, mas they’ve got a point there. Or two.

Police and thieves: Um moleque de 17 anos roubou uma casa em Neumünster e levou, entre outras coisas, uma câmera digital, que ele testou tirando fotos dele mesmo no local do crime, e depois perdeu. Encontrada pela polícia, a câmera ajudou os gambés a identificar o malfeitor, que foi preso. (E o pessoal diz que a eficiência teutônica é coisa do passado.) Já no Texas, Dave Newman enfrentou a correnteza de um rio para salvar um sujeito de afogamento e, depois que os dois saíram da água, foi preso pela polícia porque estava interferindo com o resgate. Se eu fosse Newman, jogava a vítima de volta na água e ia embora cantando “police and thieves in the streets/ scaring the nation/ with their guns and ammunition”*.

Se Caronte aceitasse Mastercard: Vitaly Malyukov (nomes são destino, repete Uncle Filthy), acrescentou seu nome ao dos grandes inventores da História ao conceber o caixão equipado com botão de alarme. Se você por acaso tiver sido enterrado vivo, com o sistema do Malucóv pode usar um botão instalado dentro do caixão para disparar um alarme na administração do cemitério. Por outro lado, se o país em que você vive não foi competente o bastante pra ter certeza de que você estava morto antes de enterrar, por que seria demonstraria mais competência para atender ao alarme? Eu, de qualquer jeito, mudei meu testamento e, mesmo que nunca tenha usado celular nesse vale de lágrimas, quero ser enterrado com um deles, bem como dois pacotes de Doritos, uma Baré Cola dois litros e as obras completas de Samuel Beckett, já que eu larguei todos os livros dele que tentei começar marromenos por volta da página 16.

* De preferência na versão do Junior Murvin, mas a do Clash é aceitável.

July 05, 2005

 

Renée Zellweger e Tom Cruise em...


"Everybody was kung fu fighting,
those jerks are fast as lightning"

Meus dois fiéis leitores bem sabem que Uncle Filthy é um sujeito conservador não só em suas inclinações políticas mas também, grosso modo (“esse Filthy aí escreve o verdadeiro português postiço”), nas lides estéticas. E é por isso que, nos meus filmes de kung fu, todo mundo tem de ser amarelo, ou, mais especificamente, ter aquela pele esverdeada propiciada pela milenar arte dos diretores de câmera de Hong Kong. E, claro, dublagem com um mínimo de sincronia tampouco é admissível. Nos filmes de kung fu legítimos, o diálogo da cena 13 chega esbaforido à tela por volta da cena 18. (E, de qualquer jeito, consiste basicamente de grunhidos esganiçados que lembram um pouco o estilo musical de Ashley Simpson.)

Nos últimos anos, porém, todo filme americano virou filme de kung fu (menas a suposta comédia com J.Fo e J.Lo, uma exceção que ainda assim provavelmente teria funcionado muito miló se transformada em homenagem ao mud wrestling). Um dos motivos hilariantemente alegados pelos pamonhas “liberais” de Hollywood é que dessa forma os filmes não promovem o culto das armas de fogo. Indeed. Em Charlie’s Angels: Full Throtle, por exemplo, cuja estrela e produtora, a sagaz Drew Barrymore, rejeita o uso de armas, não tem rezórvi mas tem tanque de guerra, mísseis e lança-foguetes variados. É uma maneira notável de combater a brutalidade –sob o percipiente critério (eu disse: critério) de Barrymore, Hiroshima foi o mó peace-in. (Aliás, dois dos mais chichêbundos sujeitos de Hollywood, George “eu tenho o marketing” Lucas e Steven “o Holocausto é meu!” Spielberg, apontaram para a falácia central dessa teoria já há uns 20 anos, ajudados por um piriri catigoria tsunami de Harrison Ford, na mais famosa cena da série Indiana Jones.)

O pobrema da tendência, claro, é o fato de que os atores americanos –excetuado o imortal Chuck Norris- não sabem lutar kung fu. (E a idéia de colocar gente que não sabe lutar kung fu em filme de kung fu não deveria surpreender ninguém, já que hoje em dia eles fazem musicais com gente que não sabe nem cantar, nem dançar, por exemplo.) Portanto, as lutas se tornam uma mistura de coreografias filmadas muito lentamente e aceleradas na montagem, efeitos especiais marromenos tão convincentes quanto os de filme de sci fi dos anos 50 e edição em ritmo frenético à maneira dos videoclipes.

Um dos motivos claros da tendência é o fato de que a única região do mundo em que as audiências de cinema vêm crescendo consistentemente é a Ásia. E Ying Xiong, vulgo Hero, que estreou na China em 2002 e nos Estados Unidos no ano passado, se tornou o primeiro filme estrangeiro não-Brit a liderar as bilheterias americanas (por duas semanas). Hero é a primeira grande produção bancada primordialmente pelas “três Chinas” (continental, Hong Kong e Taiwan) a se dar muito bem nos mercados de massa internacionais (apesar das críticas que o filme recebeu no exterior por demonstrar simpatia ao governo cumunista).

Já que o crescimento de bilheteria deve vir essencialmente de lá, que a Ásia é a região mais resistente à penetração da cultura americana e que a produção local começa a mostrar capacidade de enfrentar Hollywood até nos Estados Unidos, o número de filmes de kung fu de branco deve continuar crescendo – (e todo mundo conhece o velho chavão sobre serviço de branco). Quando digo que o senhor Miyagi é o personagem de cinema mais importante desde Atticus Finch, yo, eu nunca falei mais sério.

 

Grandes Vultos dos Anos 70 -11


Leonid Ilíich Brezhniév (1906-1978)*

História sempre foi minha matéria predileta, na escola, mas meus amigos que detestavam o assunto tiveram muitos anos de felicidade educacional garantida porque, por mais que mudassem os presidentes de outras, er, plagas, na União Soviética el fodón era sempre o Brezhniév. Equipado com sobrancelhas mais hirsutas que a barba do Fidel e com mais medalhas por falsa glória militar do que o nosso querido vizinho general Stroessner, Brezhniév presidiu à patética decadência da União Soviética por 14 anos, marcados por decisões humanitárias como invadir a Tchecoslováquia em 1968, em defesa do socialismo, e internar todos os dissidentes no hospício já que, yo, só maluco rejeitaria as alegrias da vida soviética.

Os livros de História insistem em dizer que camarada Leonid Ilíich pereceu depois de longa e socialista enfermidade em 1982, mas todo mundo sabe que na verdade ele morreu sufocado pelas férreas coxas de Olga Korbut em um triste acidente de cunnilingus, durante o congresso do PC soviético em 1978. Nos quatro anos que se seguiram, a URSS foi governada pelo cadáuve empalhado do bravo Brezhniév (o índice de aprovação ao presidente subiu de 108% para 132%, no período).

Governar morto sempre foi apanágio das lideranças cumunista –Lênin, morto no famoso atentado de 1921, governou até 1924, e só não durou mais no poder porque a ciência da refrigeração ainda não houvera atingido sua plena síntese marxista. Stálin, morto em jogo de roleta russa contra Lavrenti Béria em 1951, ficou no poder até 1953, quando um cachorro fez xixi** na perna dele durante a reunião do Politburo e Krushchóv decidiu que a palhaçada tinha ido longe demais. Tito foi morto pelos nazistas em 1943 e ainda assim governou a Iugoslávia até 1981. (E Bóris Iéltsin, se não exatamente morto e ainda que ex-cumunista, governou em profundo coma alcoólico entre 1997 e 1999.)

A equipe de titereiros que operava Brezhniév logo conseguiu outro emprego manipulando o fantoche de Konstantin Tchernenko (que tinha morrido em 1975 mas teve o corpo preservado em um barril de vódega, just in case), e depois cuidou do camarada Deng Xiaoping até 1997 e voltou à pátria para trabalhar na equipe do governo Iéltsin até o final de 1999. Os velhos titereiros bolcheviques encerraram suas carreiras reencontrando o Deus de seus ancestrais, e colaboraram para manter o Papa João Paulo II acenando de sua sacada no Vaticano até este ano. Sic transit Gloria Menezes.

A arte de governar morto perece com eles. (A não ser que Marco Maciel se candidate a presidente no ano que vem.)

* Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética, Herói Capilofacial do Proletariado e pioneiro da maquiagem masculina.
** Uma singela homenagem ao leitor Ulisses.

July 04, 2005

 

"There is no safety in numbers,
or in anything else"*


(Para Maria de Lurdes, with love and thanks)

Não sei se começou como maneira de obrigar os fedelhos a prestar atenção em aula de matemática, mas americano é obcecado por estatística esportiva. (Há empresas de porte considerável que vivem disso, por exemplo o Elias Sports Bureau, fundado em 1913.) E nos dois esportes favoritos dos gringos, o beisebol e o futebol americano, há uma correlação direta entre predomínio estatístico e vitória –o time que liderar estatisticamente na maioria das categorias, muito provavelmente ganha o jogo. O lado quantitativo do esporte tem precedência sobre o qualitativo, para usar um jargão desprezível.

Não admira que eles torçam bastante o nariz pro nosso futebol, porque é um dos esportes em que toda essa maçaroca de números que indicam avassalador domínio de A sobre B não impede que B vença jogos e campeonatos. No futebol que eles chamam de soccer, um time pode ter 60% de tempo de posse bola, chutar a gol 15 vezes, ter 12 escanteios a seu favor, e ainda assim perder por três a zero. É o tipo de –aparente- contradição que futuca o pragmatismo dos gringos e impede que eles percebam a poesia do jogo, ou a possibilidade de que uma partida seja satisfatória pra quem joga e quem assiste mesmo que termine com placar de zero a zero.

Esse apego deles ao controle numérico, ao acompanhamento estatístico, ajuda a explicar, por exemplo, o fato de que tenham perdido a guerra do Vietnã –McNamara e os whiz kids lá dele extrapolavam números precisos sobre o número de tropas necessário para cobrir cada área, o número de missões de bombardeio, os suprimentos requeridos, a correlação entre gastos de munição e inimigos exterminados. No papel, parecia tudo perfeito. No chão, uh oh. (E o mesmo, aparentemente, começa a acontecer no Iraque: as tropas de ocupação americanas alegam controle –estatístico- sobre porções do país nas quais ninguém se arrisca a penetrar apesar disso.)

Já o Brasil, me parece, é o pólo oposto. Para nós, estatísticas não funcionam. O país bate recorde de crescimento no mesmo mês em que o número de cheques sem fundo também bate recorde. Os bilhões investidos em educação não educam ninguém. As coisas acontecem contra a lógica, contra a matemática. Não é por acaso que o nosso esporte, o futibór, provavelmente a única coisa em que o Bananão incontestavelmente lidera o mundo (excluído, claro o cancro mole), seja aquele que menos se atém às obviedades estatísticas. (Uma das melhores histórias apócrifas sobre Garrincha é a de que, depois de ouvir uma longa preleção do técnico Feola sobre o que a seleção brasileira teria de fazer em campo pra neutralizar um determinado oponente, se tenha saído com a preciosa pergunta: “Mas, sêo Vicente, o adversário tá avisado?”)

Maravilhas como Garrincha, que pipocam de quando em quando por sob o lábaro que ele ostenta estrelado, hélas, machucam mais ainda, porque a cada vez que decido mandar essa merda toda pastar e adotar cidadania albanesa, surge repentinamente a lembrança de alguns desses milagres inimigos da estatística que cintilam em meio às ruínas da nossa longa queda sem apogeu –que estatística, meu são jizuis, explica Machado, Bandeira, Bananére, Villa-Lobos, Jobim, João Gilberto, Millôr? Porque em meio ao monturo brilham as estrelas, dói muito mais a despedida. Mas ninguém melhor do que eu sabe que é preciso partir. Portanto, farewell, my lovely. E obrigado.

* James Thurber

 

Grandes Vultos dos Anos 70 -10


Sujismundo dos Santos (1971- )

Nos anos 70, a ambivalência intrínseca do Bananão era ainda mais pronunciada. De um lado, a obsessão com superlativos -a ponte Rio-Niterói era a maior do mundo, o rio Amazonas era o maior do mundo (“por volume de água”? Who cares?), a Transamazônica era a maior rodovia do mundo. Do outro, de vez em quando rebrilhava por sob a dose intragável de megalomania a velha preocupação brasileira com o “sou pobre porém limpinho”.

É uma das minhas frases prediletas. Não faço a menor idéia sobre a origem e, se foi algum escritor que inventou, o cara merecia estalta em praça pública. Não porque “pobre porém limpinho” represente bem os nossos pobres (que sempre me pareceram peculiarmente sujinhos), mas porque representa com perfeição as aspirações das otoridad e da classe média quanto aos Dejanílsons que trabalham de porteiro em nossos condomínios.

Na psicologia barata do Bananão, o “pobre porém limpinho” representa a banda positiva do espectro enquanto o “favelado” representa a negativa. O “pobre porém limpinho”, claro, “conhece o seu lugar”. É humilde, industrioso, agradecido pela roupa velha que ganha de presente. Não toma porres, não assalta, não encoxa menina de família no buzum, e usa instintiva e nada ironicamente expressões como “bacana”, “dotô” e “chefia” ao se dirigir aos seus nem tão pobres -mas também limpinhos-, er, superiores na escala social. O “pobre porém limpinho” é fodido na vida mas conformado. Não ofende, não ameaça.

Em 1971 e 1972, o governo decidiu fazer uma campanha publicitária com o suposto objetivo de combater os hábitos higiênicos insatisfatórios da patuléia mas na verdade para promover o ideal do “pobre porém limpinho”, e as telas de TV foram invadidas pelo Sujismundo*, um pobre porém sujinho que sujava tudo que encontrava ao seu redor. (Sujismundo é –surpreendentemente- branco, ainda que eu ache que isso se deva ao fato de que seria difícil mostrar a sujeirinha no rosto de um personagem de animação preto.) O Sujismundo, com aquele terno amarfanhado de pobre procurando emprego e a propensão a arremessar porcaria, se tornou o mó ídolo entre as crianças. (A ponto de preocupar as otoridad, que supunham que a simpatia pelo sujinho poderia derrotar os propósitos da campanha.) Ainda assim, a campanha “pegou”: lembro distintamente que as crianças se chamavam umas às outras de Sujismundo quando faziam caquinha na escola.

O Sujismundo, como o Cascão e outros heróis do fuck-lore bananal –por exemplo o Cafajeste Simpático-, é o melhor retrato de uma década iniciada com euforia megalômana e terminada em sauve qui peut, sob os auspícios daquele presidente que preferia cheiro de cavalo ao cheiro de povo. E essa imagem aí do Sujismundo astronauta (que eu não conhecia, em criança,) é um resumo diliça do ethos brasileiro, então e agora: continuamos burros e pobres e sujinhos, mas temos programa espacial, porque um dia o Bananão cumprirá nossa missão histórica: to boldly throw trash where no man has ever thrown trash before.

*Criação de Ruy Perotti e da Lynxfilm

July 01, 2005

 

Blockbusters

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(Minha singela homenagem aos criativos executivos,
produtores, diretores e roteiristas de Hollywood)

The Catcher in the Rye: Holden Caufield, jovem estudante desajustado, é expulso do colégio e volta a Nova York à procura da irmã mais nova, Phoebe, descobrindo que ela foi seqüestrada por terroristas islâmicos. Caufield imediatamente toma o jatinho de seu pai executivo e vai ao Himalaia onde passa três anos meditando e treinando artes marciais orientais. Volta, localiza os seqüestradores de sua irmã em uma plantação de centeio e cobre todo mundo de pórrada, inclusive a irmã. Termina em um hospício marcial oriental no Himalaia.

Little Women: Meg, Jo, Beth e Amy March levam uma vida pobre e modesta na cidade de Northern Bumfuck, NJ, até que descobrem que seu pai, soldado na guerra do Iraque, foi aprisionado pela Al Qaeda. Meg se casa com um ricaço e emigra para a posh Southern Bumfuck, NJ, Beth morre em um ataque terrorista com antraz e Jo e Amy vão para o Himalaia e passam diversos anos treinando artes marciais orientais com o professor Bhaer, um monge budista. As duas libertam o pai do campo de prisioneiros de guerra mas terminam cercadas em uma fábrica de kibes de Bagdá. Quando elas acham que tudo está perdido, surge Meg, que também passou anos no Himalaia treinando artes marciais orientais, drop kicks o malfeitor Raghead Zarqawi, e liberta a família. Laurie, o menino por quem Jo era apaixonada mas rejeitou, termina se casando com Amy. Jo abre uma escola de treinamento de artes marciais orientais no Himalaia, e se casa com um iaque.

Imitation of Life: Beatrice Pullman e sua filha Jessie estão na pindaíba desde que o marido morreu, e por isso as duas vão para o Himalaia onde aprendem artes marciais orientais e a fazer panquecas, sob a tutela da professora Delilah Johnson, uma afro-americana. Beatrice convida Delilah para voltar aos EUA com ela, como sócia de uma fábrica de panquecas, mas os planos das duas são ameaçados pelo Ku Klux Klan, que seqüestra Peola, a filha de Delilah, e a transforma em branca. Beatrice e Delilah cobrem os mano do KKK de pórrada, restauram a negritude júnior de Peola, e incrementam sua receita de panqueca incluindo molho shoyu. Tornam-se o primeiro casal lésbico oficialmente casado pelo supremo lama do Himalaia.

Taxi Driver: Travis Bickley é um taxista desajustado que, rejeitado por sua amada, Betsy, planeja limpar as ruas de Nova York dos maus elemento. Passa seis meses estudando direção defensiva e artes marciais orientais em uma auto-escola do Himalaia e, na volta à sua cidade, cobre Harvey Keitel de pórrada porque Judas Iscariotes não tinha sotaque do Brooklyn. Travis termina contratado como segurança da campanha presidencial de John Kerry, e cobre todo mundo de pórrada quando os democratas perdem a eleição. Costuma repetir sempre o bordão “are you talking to me?” porque perdeu o Viennatone em um treinamento de jiu-jetson no Himalaia.

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Brás Cubas era um homem gentil e solitário. Traído pela amante Marcela em conluio sinistro com seu melhor amigo, Pablo Escobar, Brás Cubas foi dado por morto. Mas ele não morreu. Passou dois anos no Himalaia treinando artes marciais orientais, e voltou transformado em Chapolim Colorado, o vingador do Catete. Fazendo justiça com as pópria mão, quebrando pilhas de telhas Brasilit e espancando os asseclas do maligno casal com uso liberal de canos e conexões Tigre em product placement regiamente remunerado, Chapolim pune os vilões e se casa com a Moreninha. Passam a lua de mel no Himalaia.

Karate Kid V: O senhor Miyagi está em perigo -foi seqüestrado por uma cadeia de academias de caratê franqueadas chamada “Hairy Fists”. Daniel-San se une a Julie-San para procurar o sansei -todas as pistas indicam que os vilões o mantêm prisioneiro em sua fortaleza secreta no Himalaia. Mas o governo do Himalaia não agüenta mais receber atores americanos para filmagens em locação, e por isso Daniel-San e Julie-San vão para Salvador, onde se matriculam na Academia Brown de Capoeira, Lambada e Guerra Bacteriológica (aka Acarajé). Disfarçados de percussionistas, os dois invadem a fortaleza dos Hairy Fists, e servem acarajé a todos os asseclas, criando uma tremenda fila no banheiro. O senhor Miyagi, libertado, imediatamente ordena que os dois discípulos varram em lentos movimentos circulares toda a neve do Himalaia. Daniel-San e Julie-San cobrem o senhor Miyagi de pórrada. “I won TWO Oscars, you slimy yellow bastard”, grita Julie-San, histericamente, provocando uma tremenda avalanche no Himalaia.

 

Something happened on
the way to the office


(Shit happens. Not always, tho.)

With gold dust at my feet
On the sunny
Siiiiiide
Of the
Street

 

Grandes Vultos dos Anos 70 -09


I don't feel love...

Reza a lenda urbana que Donna Summer (1948- ) costumava atingir o, er, píncaro do prazer sexual repetidas vezes –comprovadas pelos ui ui uis com que enfeitava seu desempenho vocal- enquanto gravava as sandices disco com que dominou as paradas de sucesso no final dos anos 70, comecinho dos 80. Possa ser. Mas duvido que a causa da alegria fosse a música, porque a música, baby, era ruim pra caralho. (Ou similar feminil.) Summer tentou cantar rock no começo dos anos 70 e, porque não conseguiu fazer sucesso, acabou tomando o caminho de muito músico americano fracassado e foi parar na Europa, onde conheceu Giorgio Moroder. Aí, como diria o Gus, fudeu. A união entre o eurotrash eletrônico de Moroder e o soul-pra-alemão-ver de Summer resultou no pesadelo disco. Salve-se quem puder.


...it's more like a ringing headache

Summer, porém, estava longe de ser o pior no pacote das divas disco. A minha verdadeira heroína do período é a indefectível Maria Rosario Pilar Martinez Molina Baeza (1952- ), a magistral cantora e violonista de flamenco Charo, que fala sete idiomas incompreensivelmente e gravou meu hit predileto dos dancing years, “Dênnz A Lirôu Bit Clôuza”, além de difundir o uso da expressão “cuchi cuchi” por toda a cristandade. Se Summer unia o ardor renascentista do italiano Moroder, a eficiência teutônica dos estúdios de Munique onde gravou seus primeiros hits e o peculiar swing dos cantores de churrascaria afro-americanos, a opulenta Charo acrescenta ao mix doses generosas de fúria espanhola e salerosidad caribenha Se bem eu reconheça os méritos de GloriaI Will SurviveGaynor, das bravas similares nacionais Miss Lene e Lady Zu e das magníficas forrrtinhas do Weathergirls (“It’s Raining Men!”), foi Charo que me ensinou que mulé boa tem mais ou menos 75% de travesti. (E a entrevista dela no talk show de Ru Paul é um dos momentos soberanos da very bad TV dos anos 90.) Cuchi, cuchi.

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