June 30, 2005
An ear that launch'd 500 ships

Robert Walpole, First Lord of the Treasury,
fazendo "eca" diante da orelha de Jenkins
Em 1731, Robert Jenkins capitão do brigue Rebecca, navegando sob a bandeira britânica, foi detido em águas espanholas, ao largo de Havana, pela corveta Esmeralda, comandada por Juan de Leon Fandino, um semi-ex-pirata transformado em membro da guarda costeira de Sua Catolicíssima Majestade em Cuba.
Nos termos do tratado de Sevilha, assinado em 1729, navios ingleses não tinham o direito de violar o monopólio espanhol sobre o comércio com as colônias da Espanha nas Américas; sob o mesmo tratado, a Espanha se comprometia a controlar a pirataria contra as colônias inglesas no Caribe. Portanto, o contrabandista Jenkins e o pirata Fandino já começaram com marromenos quatro pés esquerdos. E a situação piorou ainda mais quando, diante dos protestos de Jenkins contra a abordagem, Fandino perdeu a paciência e went Van Gogh on him, decepando-lhe a orelha.
Jenkins apelou às autoridades coloniais inglesas, e mais tarde ao rei, exibindo a orelha decepada, mas ninguém queria arrumar encrenca com os espanhóis. Reza o mito que, cansado de esperar por uma atitude das otoridad, em 1738 o capitão ca-orêio foi à House of Commons levando a orêia (em um jarro ou um estojo de couro, as versões vareiam e são falsas, anyway), para exigir providências. A oposição começou a encher tão seriamente o saco do primeiro-ministro Robert Walpole que ele decidiu entrar em guerra com a Espanha, em 1739.
A guerra durou três anos, e como era comum naquele período terminou em uma espécie de empate causado por mútua falência (ainda que Espanha e Inglaterra continuassem se defrontando como parte de alianças rivais na guerra da sucessão austríaca que se estenderia até 1748). No século XVI, Christopher Marlowe definiu a beleza de Helena de Tróia com o soberbo verso “was this the face that launch’d a thousand ships?” Jenkins com certeza não era tão bonito, mas sua orelha lançou pelo menos 500 navios a um tremendo pega-pra-capar no Caribe. Not too shabby. E a guerra, uma das minhas prediletas em termos de sheer stupidity (junto com a guerra do futibór entre Honduras e El Salvador), entrou para a história com o nome de “War of Jenkins’ Ear”. Será que num tinha órgão miló pra justificar uma guerra, não? Meu voto é “War of Monroe’s Bosom”.
Nota: Os dois primeiros romances náuticos de Patrick O’Brian, The Golden Ocean (1957) e The Unknown Shore (1959), se passam durante a expedição britânica de circunavegação comandada pelo capitão Anson como parte das operações militares da guerra da orêia. Mesmo sem Aubrey e Maturin, os dois livros são excelentes.
Grandes Vultos dos Anos 70 -08

Barry Alan Pincus (1946- ), aka Barry Manilow
Eu sempre defini Barry Manilow como uma Barbra Streisand sem bingulim, mas confesso que nos últimos anos perdi boa parte da minha antipatia pelo ás no teclado. Não é que ele tenha deixado de ser horroroso, mas, por culpa de um dos perfis diliça que o repórter Bill Zehme nos serve na Esquire como se escrever daquele jeito fosse fácil, acabei adquirindo, a contragosto, certa dose de simpatia pelo pianista mau cabelo.
Manilow nasceu em 1946, no Brooklyn, compôs a trilha de um musical horrível para a Broadway aos 18 anos mas só virou um felômeno pop no começo dos anos 70, quando passou a dirigir a banda de Bette Midler na sauna gay que a tornou famosa (it’s all true, folks). O primeiro sucesso do gênio da música brega foi “Mandy” (1974), regravação de uma composição de Scott English, supostamente sobre um cachorro. Como “Ben”, popularizada por Michael Jackson e dedicada ao rato assassino homônimo, “Mandy” provou o forte apelo da bestialidade junto ao púbrico ouvinte e o single vendeu quatro milhões de cópias.
Dali pra frente, foi só aligria. Manilow compôs e gravou “Can’t Smile Without You”, gravou a übercafona “I Write the Songs”, do Beach Boy Bruce Johnson, e, claro, uma das canções essenciais dos anos 70, “Copacabana” (composta em parceria com Bruce Sussman e Jay Feldman). “Copacabana” (1978) tem tudo –fogo, paixão, ritmo caliente, tragédia amorosa, referências culturais exóticas, pesar, loucura, lantejoulas, pra não falar da admoestação final, pérola lírica advinda do coração amargurado de Manilow (que casou com sua namorada de infância em 1966, se divorciou um ano depois e continua solteiro desde então): “Don’t fall in love”. Sem esquecer, claro, o filme homônimo, que não deveria constar do meu apanhado sobre os anos 70 porque saiu em 1985, mas, what the hell.
Em Copacabana-the-movie, Manilow interpreta o galã Tony Starr, veterano do 13° Batalhão de Pianistas Cafonas na segunda guerra que trabalha como bartender no nightclub Copacabana, em Nova York, enquanto tenta se tornar famoso como compositor. Conhece Lola LaMarr, uma corista, em um programa de rádio, e se apaixona por ela enquanto os dois ganham a vida rebolando na buate. Hélas, Lola troca o convictamente hétero mas pobre Tony por Rico, um malfeitô que precisa urgentemente de um Carson Kressley em sua vida, a leva para Havana mas não faz dela uma mulé honesta. Quando Tony enfim se torna famoso e decide reconquistar a amada, tudo termina em tragédia. Acho que se eu tivesse que salvar um filme da década de 80 da destruição pelos alienígenas, Copacabana seria sério candidato. E ver Manilow being manly é um momento inesquecível da arte cinematográfica. (Não é exatamente que eu ache que Manilow seja gay e não “assuma”. É mais uma questão de “sexo? Yikes!”)
Horror ou não, Manilow já vendeu mais de 50 milhões de discos, todos os shows dele lotam e, mercê da sitcom Will and Grace (Will é devoto "fanilow”), nos últimos anos muita gente passou a admitir que gosta daquele repertório inesquecível. No perfil de Zehme sobre Manilow, o repórter conta que acompanhou o compositor à festa de gala dos 25 anos da gravadora Arista, com a realeza pop presente em peso, e diz que Manilow, que já fez uns 14 mil shows em 40 anos de carreira, estava morrendo de medo de ser vaiado ou ridicularizado pelos cool kids quando subisse ao palco. É sorta endearing que um sujeito que definitivamente não tem nada a provar a ninguém ainda assim se incomode com a opinião de um bando de rappers e roqueiros chapados e pretensiosos. Manilow foi aplaudido de pé, e saiu do palco com os olhos marejados de lágrimas. Strangely enough, tenho certeza de que eu aplaudiria também.
June 29, 2005
Grandes Vultos dos Anos 70 -07

Dona Solange Hernandes (?-?), aqui representada
pelo seu estrumento de trabalho
Os períodos “de exceção” são caracterizados, invariavelmente, pelo poder descomunal conferido a manezinhos medíocres, cujas funções são em geral ainda mais medíocres do que eles. Os dedos-duros profissionais nauseabundos empregados pelo KGB e congêneres, os inspetores de quarteirão calhordas dos nazistas, os intelectuais marxistas e, last but very very least, os censores.
Uma prova disso é que, ao vasculhar o proceloso mar da Internet à procura de referências sobre dona Solange Hernandes, diretora da divisão de censura e diversões públicas da Polícia Federal que ficou famosa nos anos 70 como a personificação da censura, encontrei nada além de referências de gente que, como eu, ficou com esse nome na cabeça como símbolo daquela bizarra era da bolinha preta.
Eu tenho cá minhas dúvidas de que censura, em qualquer forma, mesmo as classificatórias, funcione. Se, à moda americana, um determinado conteúdo violasse mesmo os “padrões da comunidade”, é pouco provável que alguém o pusesse à venda. E essa idéia de que é preciso ter uma classificação etária porque senão as crianças vão terminar assistindo a filme com título como “O P... no C... da P... com B...”, yo, que cazzo os pais dessas crianças tão fazendo que as deixam ir ao cinema sozinhas, anyway?
Pra mim, há três exemplos clássicos da, er, obra de dona Solange, naqueles anos patéticos: o primeiro eu vivo mencionando, e acho que poderia ser resumido como “a cláusula monoteta”: a censura é que dispunha quantos e que proporção dos seios feminis podia enfeitar as capas e ensaios fotográficos das revistas masculinas. É muito engraçado imaginar uma mesa lotada de meganhas discutindo a pobremática do mamilo.
O segundo eu também já mencionei aqui: o uso de bolinhas pretas que corriam esforçadamente pela tela tentando cobrir as pudendas dos personagens de A Clockwork Orange. Eu pagaria uma boa grana por uma cópia em DVD da inusitada parceria entre Stanley Kubrick e Solange Hernandes. E queria muito saber quem foi o gênio da raça que teve essa idéia.
O terceiro é o mais batuta, e mesmo os mais jovens dentre vocês, se costumavam ir a cineclubes ou coisas assim, talvez tenham visto em cópias antigas um exemplar daqueles certificados de censura que eram afixados como primeiro fotograma de um filme, classificando a película. Algumas das rubricas eram previsíveis –o filme era proibido para menores porque continha erotismo, ou violência, ou idéias subversivas. Mas a minha rubrica de censura predileta sempre foi, e continua sendo, “temática complexa”. O legado da inesquecível dona Solange fica bem resumido nessa frase: quando nem o censor entendia o filme mas achava que mesmo assim alguma coisa ali num cheirava bem, tascava um carimbo de “temática complexa” e impedia os menores de idade de assisti-lo. Quando o governo lança cartilha sugerindo que “entendido”, that oh so very 70s expression, é um bom nome pra designar nossos irmãos que fizeram a opção preferencial pelo XY, dá até saudade da dona Solange.
Boi concupiscente, tigre traficante

"Fung Ku?"
"Não. Sae Kew Do".
Às vezes um charuto...: O pessoal do b3ta promoveu um concurso para descobrir qual era o melhor logotipo fálico do mundo, e –ô, batíria!-, a Europa, er, uma vez mais se curvou ante o Brasil. Diz o site que o logotipo manoeuvre sur las derrières que enfeita o post serve como marca a um instituto brasileiro de institutos orientais (provavelmente chamado Fundação Noku). Se eu fosse vocês, clicaria no link pra ver também o maravilhoso logotipo da fábrica tcheca de sarsicha. (E obrigado à penetrante correspondente Cam Seslaf, que encontrou essa pérola na Nerve.)
Aonde a vaca vai: Ainda tem gente que duvida que o Pravda seja o segundo melhor jornal do mundo, e por isso reproduzo aqui o fantástico lead de uma matéria que atraiu minha bestial atenção: “A cow and a bull were caught during an act of love in public, which they arranged in the Kaliningrad region”. Vaca Zvisda entrou numa loja, Boi Rarachô, er, entrou atrás e a natureza seguiu seu curso (com a destruição de oito balcões do estabelecimento). Ó, não tem como escrever nada mais engraçado do que o inglês dos bravos colegas russos, especialmente a parte que diz que transeuntes e seguranças foram incapazes de impedir que os animais completassem o processo reprodutório. Por isso, deixo vocês com o original e vou ali completar um processo reprodutório rapidinho com Ms. McDirty.
Balança da justiça: Outro dia, Uncle Filthy contou a história da dona de casa fortinha que deteve um malfeitor na Rússia sentando em cima dele. Hoje, é a vez de um ladrão romeno de 135 quilos que invadiu uma loja, roubou 500 dólares e decidiu completar o sêuvísso comendo meia dúzia de tortas que estavam em exposição sobre o balcão. Na saída, o rubicundo malfeitor entalou na janela, onde foi encontrado na manhã seguinte por Vasile Mandache, o poprietário do estabelecimento. Se eu fosse o facínora, processava Mandache por discriminação de acesso contra os circunferencialmente distendidos.
“Não, manhê, veio nos sucrilhos”: A Kelloggs decidiu lançar uma nova versão dos sucrilhos de chocolate Coco Pops, dessa vez com o nome Coco Rocks. Infelizmente, na gíria dos elemento obnubilado pelos estupefaciente, Coco Rocks é o nome de uma variedade especial de crack produzida com pudim de chocolate, coisa que a firma só descobriu depois de colocar o produto no mercado. A Kelloggs ainda não decidiu se mantém ou não a marca (mas algum gênio do marketing já deve estar estudando as tendências de consumo do produto entre os junkies). Coco Rocks vai se unir à longa lista de produtos com nomes, er, pobremáticos, como as cuecas chinesas Pansy, o guaraná americano Josta, ou os famosos caramelos de uma multinacional suíça que, em enorme esforço de reportagem, Uncle Filthy conseguiu evitar levassem, no mercado brasileiro, o nome Toffo. Quanto ao Coco Rocks, duvido muito que negócio com nome de cocô desse muito certo no Brasil, aliás. (E sempre achei que Tony the Tiger era nome de mau elemento.)
The naked truth: Sexta-feira, foram removidas as togas que protegiam a peitaria das estalta na sede do Departamento da Justiça, em Washington, desde 2002. John Ashcroft, que deixou a secretaria da Justiça ao final do primeiro mandato de W., se sentia desconfortável dando entrevista diante do peito pelado da estalta. Já Alberto Gonzalez, o novo secretário, apparently wants to keep abreast of developments. Provando que a teoria de Ashcroft sobre a relação entre mulé pelada e a Justiça tem algum fundamento, na Índia as membras de uma quadrilha que extrai madeira sem autorização fazem strip-tease quando a puliça chega. Os gualdinha ficam ou sem jeito de prender as mina ou muito interessados em procurar por armas escondidas, e os marmanjos lenhadores enquanto isso escapam carregando seus nodosos troncos. QED, governador Ashcroft: onde tem mulé pelada, tem sacanaj.
Now there’s motive: A governadora Linda Lingle, do Havaí, assinou a lei que permite que os havaianos deixem suas heranças pros animais de estimação. Se a gente levar em conta os incêndios causados por xixi de gato em máquina de fax que a imprensa mundial noticiou recentemente, é evidente que há criminal masterminds at work, there. Por isso, se alguém chegar em casa e encontrar a gata Geni ou a gata Dorotéia de saiote de hula, o gato Dimitri ou o gato Mercúcio José tocando ukelele, melhor correr.
Update: corrigi o link para o concurso de logotipos. (And thanks, Sílvia Helena.)
June 28, 2005
Full of sound and fury...

...signifying nothing
Se cinema e literatura quase sempre funcionam mal como válvula estética pros momentos pé na bunda, música, por outro lado, parece ter sido criada sob encomenda da Fundação para a Promoção da Melancolia Choramingas. Meu retrato mental de depressão pós-dumping inclui necessariamente o uso indiscriminado da tecla repeat do aparelho de som. O que a música tem e as artes narrativas talvez não tenham com a mesma intensidade é o poder de evocar sem hang-ups analíticos. Na música, você talvez não saiba, mas sente o que está perdendo.
Não é por acaso que proporção tão grande do arsenal pop gira em torno disso –torch songs, para os amores não correspondidos; canções de dor de cotovelo; canções de dor de corno; blues (‘cause we won’t be blue always); e por fim as dirges, as canções de luto. É um pouco como os famosos cinco estágios que supostamente precisamos atravessar para aceitar uma perda –negação, raiva, negociação, depressão e aceitação (e poucos jargões foram mais abusados do que essa proposta da Dra. Elisabeth Kubler-Ross para explicar como pacientes que recebem a notícia de que sofrem de uma doença terminal lidam com o fato). Be that as it may, o método funciona –se não para os pés na bunda, pelo menos para a trilha sonora deles.
Eu admito aqui diante dos meus dois fiéis leitores que tenho um fraco escandaloso por torch songs. A sensação que elas suscitam é um dos meus narcóticos favoritos –aqueles três ou quatro minutos de perfeita combinação entre emoção e estética que servem essencialmente pra me informar (ou melhor: fazer sentir) que não, eu não vô cumê. Ou não, eu não vou cumê mais. Se é masoquismo, a gentil leitora quer saber? Of sorts. É mais uma espécie de consolo aos perdedores: aquilo que não pode ser na vida, o é na música. A música permite que você encontre uma conexão externa com a melancolia que te avassala. E mesmo que a canção te faça chorar e arruíne os resquícios de reputação que te restam junto ao crube dos macho, yo, você descobre que a dor devora menos. E a verdade é que a canção nem precisa ser excelente, pra esse fim. Já conduzi muitos velórios amorosos ao som de canções muito ruins. E that’s cool, porque você pode jogar a canção fora junto com os sentimentos que vai purgar do organismo (e as 16 garrafas vazias de Johnnie Walker Swing).
As canções a que você recorre nos momentos de pé na bunda se tornam dreamcatchers, bonecos de vodu, o espelho no qual você pode contemplar sua dor e saber que, yo, vai passar. Naquele mais clichêbundo dos clássicos do cinema, Casablanca, Messrs. Epstein, Epstein and Koch sabiam perfeitamente disso. Porque Rick acaba dizendo: “Play it, Sam”. O amor era uma pessoa, e virou uma canção, ou 15. E você sabe que vai sobreviver à perda do amor, porque um dia assobia a canção e nem lembra mais o que ela quis dizer. (Ou, se você tem mentalidade utilitária e os escrúpulos de um deputado pefelista, como o meu amigo C., muda o nome feminil que serve de título à bagaça, saca do violão e diz: “Compus pra você -Priscila, Fernanda, Lorena, Marina, Christiane, Renata, Valéria...”)
Grandes Vultos dos Anos 70 -06

Richard Milhaus Nixon (1913-1994), aka Tricky Dicky,
transferindo o poder ao rei Elvis I, depois de Watergate
Quando moleque, minha família vivia se mudando, às vezes voluntária, às vezes compulsoriamente. E, por isso, meu pai recorria com freqüência aos serviços de um dos amigos de infância dele, que se tornara corretor de imóveis. Era um sujeito suarento, com a barba sempre por fazer, resmungão permanente, e usava camisas amarfanhadas que deixavam ver, na região do sovaco, aquelas manchas amareladas de suor não lavado. Eu e sister McNasty tínhamos horror do sujeito. E, um dia, não é que tá lá o Alencar na televisão? Perguntei o que ele estava fazendo no Jornal Nacional, meu pai e minha mãe caíram na risada, e a mamma explicou: “É o Nixon, Fudilsinho. Presidente dos Estados Unidos”.
Richard Milhaus Nixon se formou em direito, serviu na Marinha durante a Segunda Guerra Mundial e, com dinheiro ganho no pôquer (era considerado o melhor jogador de pôquer da Marinha), financiou sua primeira campanha eleitoral e se elegeu deputado federal pela Califórnia em 1946, acusando o adversário de cumunismo. Virou anticumunista profissional, se elegeu senador em 1950 usando a mesma tática e, em 1952, apesar do escândalo sobre contribuições dúbias à sua candidatura que ele rebateu com o famoso discurso do totó, virou companheiro do general Eisenhower na chapa republicana à presidência. Foi vice durante oito anos, e perdeu por margem ínfima a eleição de 1960, quando disputou a presidência com John Kennedy. Aposentou-se por alguns anos mas, aproveitando a insatisfação popular com a guerra do Vietnã e o vácuo de liderança entre os democratas, se elegeu presidente em 1968. Depois de tirar os EUA do Vietnã e de revolucionar a política externa do país reatando os elos com a China e negociando os primeiros tratados de controle de armas com a URSS, Nixon se viu forçado a renunciar por conta do escândalo Watergate, em 1974.
Por uma década, Nixon se tornou o paradigma do “mau político”, do sujeito mentiroso, paranóico, sempre disposto a abusar das ferramentas do poder em benefício ou para proteção própria. Mas o tempo mostrou que a calhordice dele era relativa, e que os métodos escusos que empregou para se eleger e reeleger (a origem do caso Watergate é uma tentativa de grampear a sede do comitê nacional democrata, em 1972, a mando da Casa Branca,) não eram muito diferentes dos truques sujos usado por Kennedy para garantir a eleição de 1960, with a little help from the Mob e os votos dos mortos de Chicago. Em retrospecto, olhando dos anos 90, Nixon parecia um gigante da política –comparado a Ford, Carter, Reagan (ganhar a guerra fria com Reagan no comando é que nem ganhar Copa do Mundo com Zagallo de técnico), Bush pai. Quando Tricky Dicky morreu, em 1994, tinha (re)conquistado a fama de estadista.
Mas o estadista Nixon tinha ainda assim aquele lado Alencar –suarento, mesquinho, covarde, ansioso, quase como se ele não sentisse ter o direito de ocupar a posição que detinha. E se bem tenha conquistado fama por sua ação na política externa, a grande sacada de Tricky Dicky foi apelar, na política interna, ao que ele designou de “maioria silenciosa” –os americanos que não simpatizavam em nada com as mudanças que lhes eram impostas em benefício de todas as “minorias”. A “maioria silenciosa” de Nixon se tornou, passados 30 anos, a maioria ruidosa de Karl Rove. E a ansiedade de Nixon, que o levava a sair em caminhadas noturnas por Washington e ocasionalmente se envolver em discussões políticas com jovens manifestantes acampados em volta da Casa Branca para protestar contra a guerra, de certa maneira humanizou o posto. Em termos pessoais, que o cara mais poderoso do mundo fosse um sósia igualmente fedido e inseguro do Alencar corretor de móveis serviu como incentivo essencial pra que eu desbobasse. Com Nixon, aprendi que a estatura de um homem depende tanto da plataforma quanto dele. E que quase todo mundo, de perto, é bem baixinho.
Our Love Was, Is

"And possibly i like the thrill
Of under me you quite so new"
(For Charlotte, who)
Our love was famine, frustration
We only acted out an imitation
Of what a real love should have been
And then suddenly...
Our love was flying
Our love was soaring
Our love was shining
Like a summer morning
June 27, 2005
Printing the legend

"Success is counted sweetest
By those who ne'er succeed"
Pés na bunda em filme de Hollywood tendem a se concentrar ou no caricato –a mulé que pega o cara na cama com a melhor amiga, o marmanjo que pega a cara-metade na cama com o carteiro- ou em razões nebulosas –exemplo típico seria a mulher que abandona o cara não porque deixou de amá-lo, mas porque ele deixou de ser o cara por quem ela se apaixonou. (Ele se amargurou, ou “se vendeu”, ou negligenciou qualquer coisa que era supostamente essencial ao amor do casal.) Os dois tipos de situação, claro, servem como o mais primário set-up pra Dona Redenção, a musa dos roteiristas. O cara ou a mina sacaneados, no modelo caricato, vão encontrar outra pessoa, e o “verdadeiro amor” –porque, que dúvida, um cidadão ou cidadã que corneie o ser amado não pode amá-lo/a “de verdade”. Ou o sujeito amargurado vai se reencontrar, recuperar a esperança, os valô, e reconquistar a mulé desiludida.
É aquela típica mistura de cinismo comercialóide e estratégia narrativa comprovada e lisa que representa o melhor e o pior de Hollywood. Mas isso quer dizer que, na mais popular das artes narrativas, é raro que alguém retrate o motivo número um de pés na bunda. Na vida real, pés na bunda acontecem basicamente porque a pessoa X ou bem não ama ou bem deixou de amar a pessoa Y. E isso não necessariamente envolve leviandade, sacanagem, desilusão. De vez em quando, a gente não deixa de amar “por”. Deixa de amar ponto. (Ou percebe, admite, que nunca exatamente amou, pra começar.)
A injustiça essencial de uma situação de pé na bunda niquiq X deixou de amar e Y continua amando se traduz mal em termos narrativos, e não porque seja difícil narrar, relatar, a perda, mas porque há uma questão complicada de ponto de vista a ser resolvida logo no começo da história. Se você, como narrador, torna o ponto de vista do dispensador, o único jeito de manter a simpatia da audiência pelo protagonista é, em um certo sentido, culpar a “vítima”. X dispensou, deixou de amar, porque Y whatever. Se você toma o ponto de vista do dispensado, é preciso atribuir a culpa ao outro lado: X foi leviano, X traiu, X “nunca amou”.
Fact is, quase todo mundo passa pelas duas situações na vida (menas Uncle Filthy, que é sempre corno), e exatamente por isso não gosta de ver X retratado como alguém que decida magoar Y por motivos basicamente egoístas, e tampouco gosta de ver Y retratado a um só tempo como objeto passivo e como vítima indefesa de uma decisão alheia completamente respeitável, admissível. Psicologicamente, o espectador, o leitor, embora saiba ou devesse saber que a situação de X e de Y é muito mais complicada do que uma fórmula como essa é capaz de abarcar, prefere a convenção narrativa de que X dispensa Y, ainda que o/a ame, porque Y deixou de ser a pessoa maravilhosa que um dia foi; ou a solução oposta, a de que Y se vê arremessado, pela escrotidão de X, à condição caricatural de corno, é claro que com direito a volta por cima antes do fim do filme.
Ninguém (pelo menas ninguém que não coma de boca aberta ou guspa no chão) gosta de admitir que dispensou ou rejeitou alguém porque a pessoa era too old, too young, too fat, too ugly, too smart, not smart enough, porque alguma outra etc. etc. melhor, porque sentia mais tesão por mulher/homem de etc. maior, porque it felt like trading up, porque deu vontade, por que não? (Uma das coisas muito boas e que passam despercebidas aos críticos que acusam Der Untergang, de Olivier Hirschbiegel, de uma certa simpatia pelo nazismo, é exatamente o fato de que o Führer, yup, justo ele, se vê como um bom sujeito atraiçoado e incompreendido, e o filme mostra isso.) Ou seja, de um lado, nem Adolf Hitler gosta de se ver como féladaputa. Do outro, o cidadão sabe que um dia vai estar na situação oposta, e não quer ser tratado da mesma maneira que tratou passadas/os significant (b)others. E é por isso que Hollywood continua a retratar pés na bunda com base naqueles dois cansados clichês. When the legend becomes fact, print the legend.
Grandes Vultos dos Anos 70 -05

Carlos Ramires da Costa (1963-?), o Carlinhos
Quem era criança no começo dos anos 70 com certeza viveu um pouquinho sob a sombra do “caso Carlinhos”, o desaparecimento do menino Carlos Ramires da Costa, então com 10 anos, seqüestrado no dia 2 de agosto de 1973 e nunca mais localizado. A polícia carioca, já então tão competente quanto hoje, apresentou três diferentes “culpados”, em sucessão, mas nenhuma das acusações colou. O pai do menino acabou se tornando o principal suspeito, e alguns anos mais tarde um sujeito que trabalhava com o empresário João Melo da Costa chegou a ser condenado pelo seqüestro (a condenação foi revertida posteriormente). Trinta anos mais tarde, um cara de Bauru foi apontado como potencial “Carlinhos”, mas os exames de ADN não confirmaram a suposição.
Apesar de todos os esforços do governo militar pra fazer com que o país parecesse djóinha, era uma época tensa. Mesmo para as crianças, ou talvez especialmente para as crianças, era fácil perceber que a situação não era tão sorridente quanto nos diziam. Não é que a gente tivesse qualquer percepção política de que as coisas andavam erradas, claro. Mas os anos 70 com certeza foram uma década propensa a pesadelos. E um caso como o do Carlinhos apertava todos os botões de pânico no inconsciente da pimpolhada. (E mais ainda entre os pais.) Que um menino bonitinho, sorridente e descabelado como o Carlinhos pudesse desaparecer sem deixar traço era quase como que uma confirmação das lendas urbanas que as mães de todas as eras gostam de nos empurrar goela abaixo –o bicho papão, o homem do saco, o delegado Fleury, o pessoal do Extreme Makevoer.
O caso causou comoção nacional –não sei se porque na época aconteciam menos barbaridades desse gênero, ou se porque não se podia falar sobre as outras. Talvez a obsessão nacional quanto ao paradeiro de Carlinhos fosse uma expressão inconsciente da preocupação de todo mundo com os desaparecidos cujos nomes não podiam ser ditos. Ou talvez todo mundo temesse –e pressentisse- que viveríamos para sempre à sombra de muitos “casos Carlinhos”, e que, por repetição, não nos deixaríamos abalar tanto pela futura recorrência daquele pesadelo. Eu não sabia, então, que crianças desapareciam, que crianças vinham desaparecendo ao longo de todo o século –no genocídio dos armênios, no Holocausto, no Gulag, pulverizadas por bombas atômicas ou liquefeitas por incendiárias. O Carlinhos me ensinou –embora eu viesse a demorar mais uns 10 anos pra saber que sabia -sobre a enorme precariedade de todas as coisas que quando inocentes consideramos sólidas e garantidas. E também me deu a melhor arma de terrorismo psicológico de minha infância: “Pára de me encher ou eu sumo que nem o Carlinhos, hein?” E a nonna e a mamma faziam o sinal da cruz.
June 24, 2005
Wacky, weird stuff

"It's just as well the world ended, it wasn't working, anyway"
Sol de rachar coco, eu no parque, lendo placidamente as desventuras afegãs segundo Steve Coll e tomando limonada, enquanto espero a companheira de passeio voltar do banheiro (Fila de banheiro feminino é a maneira pela qual deus –que se existisse, claro, seria homem- permite que os mano se vinguem das moças que os fazem esperar a meia hora regulamentar enquanto dão “os últimos retoques”.) Uma pessoa se empoleira na outra metade do banco, sem pedir licença como é costume por aqui, mas mantenho os olhos no livro. E aí a pessoa desembesta a falar pelo meio de uma sentença (o que aparentemente deve ser muito comum entre os mano e as mina que têm vozes na cabeça).
“...roupa de vir ao parque? Olha o sol, e você de calça comprida. Bota. Cê precisa se descontrair”. Eu, quieto, esperando uma chance de arriscar um olhar pro lado. Vislumbro um braço musculoso ainda que feminino, uma tatuagem de teia de aranha. O volume do monólogo cai, sinto a maluquinha me olhando. Pra meu alívio, a companheira de passeio chega e aparentemente saca a situação. A maluquinha, “hey, sou a B.”. Pausa. “E ele é o...” A companheira de passeio completa a apresentação dizendo meu nome. A maluquinha diz “prazer”, eu levanto e dois metros adiante caímos na gargalhada, ainda ouvindo palavras soltas da admoestação: “O melhor é correr”. A companheira de passeio olha pra trás: “É mesmo”.
xxxxxxxxxxxxxxxx
A prefeitura de New London, cidade do Connecticut que anda em decadência devido ao fechamento de estaleiros e bases navais, decidiu desapropriar residências e entregar os terrenos a uma incorporadora privada para que construa escritórios e um hotel. Os moradores protestaram, o caso foi aos tribunais e chegou à Corte Suprema, que ontem decidiu, por cinco a quatro, que a cidade tem direito de desapropriar os imóveis porque fomentar o crescimento econômico é uma forma de promover o bem comum, mesmo que isso aconteça por meio da transferência de propriedades privadas para outros proprietários privados.
Ou seja, uma prefeitura teoricamente pode desapropriar meu barraco e entregar pro Bill Gates, porque ele vai dar emprego a 35 imigrantes filipinos que cuidarão da limpeza obsessiva que todo bilionário esquisito requer, e 35 empregos decerto servem melhor ao bem comum do que a minha coleção de semiautomáticas. Mas o mais revelador é que foram os liberais da Corte (Stevens, Kennedy, Souter, Ginsburg e Breyer) que votaram a favor da desapropriação, enquanto a tróica direitista dos juízes Rehnquist, Thomas e Scalia acompanhou a opinião dissidente da juíza O’Connor*. Se tem um caso que retrata em microcosmo os motivos para que o povo simpatize com a “revolução conservadora”, there you go: entre “minha casa” e “bem comum”, eu também votaria instintivamente em quem defende o primeiro item, especialmente se o segundo é representado por um hotel.
Melhor correr. É, mesmo.
* O’Connor tascando a lenha: “Os beneficiários provavelmente serão os cidadãos cuja influência e poder sobre o processo político são desproporcionais, entre os quais grandes corporações e incorporadoras imobiliárias”.
Grandes Vultos dos Anos 70 -04


Lynda Carter e a Mulher Maravilha
Até mulé, o mais, er, abundante dos recursos naturais, nos anos 70 era um pobrema. Entre as musas supremas da era, temos, por exemplo, as três Lindas, legítimas representantes cada qual de um dos aspectos essenciais da cafonice da década. Lynda Carter (1951- ) foi cantora, miss, atriz especialista em pontas como góztóza em séries do tipo Starsky & Hutch e Baretta até que, em 1975, conquistou o papel que a imortalizaria, o de Mulé Maravilha. Entre 1975 e 1979, Carter exibiria suas imensas coxas e igualmente imensa falta de talento em 60 episódios de uma das piores séries em uma década notória pela televisão horrível. (O resto de sua carreira inclui um filme hediondo chamado Partners in Crime, de 1984, que ocês precisam ver para crer.) Difícil não amar Ms. Carter.


Blair, a possuída, e Lovelace, a democrática
A segunda de nossas Lindas não merece tanto assim o nome, mas não há como escrever sobre a década sem mencionar Linda Blair (1959- ), que saltou dos comerciais de margarina que fazia desde os seis anos de idade para o papel de endemoniada oficial da década, em The Exorcist, aos 14. Depois de repetir o papel de vítima adolescente em mais meia dúzia de filmes, e de uma tentativa de mudar de imagem e virar sex-symbol (vide foto), Blair se dedicou a uma longa lista de filmes Z do gênero “prisão de muléres”. Mas ninguém esquece a cabeça 360° e o very innovative uso do crucifixo que ela protagonizou. E por fim Linda Lovelace (née Boreman), que em Deep Throat colocou a inovadora prática do boquete na trajetória que o levaria à Casa Branca (ela estrelou Linda Lovelace for President, aliás, em 1975). Depois de se divorciar do marido abusivo que a obrigara a ser estrela pornô (alguém já ouviu essa história?), Lovelace virou ativista em campanha permanente contra a pornografia. Morreu em um acidente de automóvel, em 2002.
Eu sempre achei que a mulé-resumo do cinema e TV dos anos 70, aliás, seria uma combinação das três Lindas –uma boqueteira serial possuída pelo demo, dotada de superpoderes e espantosamente mal vestida. (Mas de preferência coroada pelo hairdo inesquecível que Farrah Fawcett Majors lançou como equivalente moral feminino do mullet em Charlie’s Angels.) Quem sabe os deuses dos remakes me ouvem, um dia.
June 23, 2005
Grandes Vultos dos Anos 70 -03

Uri Geller (1946- ), e amigo entortador
Quem era criança nos anos 70, provavelmente tentou imitar o exemplo de um dos mais ilustres picaretas da década, o paranormal Uri Geller, e dobrar talheres com a força da mente. Eu sempre fui cético, e de qualquer jeito não via muita utilidade nos poderes que ele costumava exibir em inúmeras demonstrações televisivas –entortar garfo e adiantar relógio, ótemo, mas niquiq isso me ajudava com a lição de casa de jogafria?
No entanto, Geller se tornou a prova viva de que absurdos de variegadas ordens eram não só possíveis como aconteciam toda hora. A oprimida minoria dos céticos levava croque todo dia, por conta dele. Depois que os anos 60 abriram a porteira pra toda sorte de misticismo cretino (é fácil acreditar em manifestações sobrenaturais quando ocê passa 75% do seu tempo stoned to the gills, afinal), até gente inteligente e respeitável como Arthur Koestler decidiu dedicar atenção à “paranormalidade”. (Qualquer negócio que tenha de ser designado por vocábulo canhestro como “paranormalidade” não pode funcionar. Vide “cumunismo”.)
Geller terminou desacreditado no final dos anos 70 quando, sob escrutínio mais cuidadoso das câmeras que o haviam tornado famoso, fracassou em repetir seu truque mais popular, o de entortar talheres. Como sempre, nesses casos, as pessoas que acreditavam piamente nas bobagens de Geller se recusaram a admitir que ele havia sido apanhado trapaceando (e, no caso de Geller, ele o foi repetidas vezes, entre as quais por Richard Feynman). Não demorou para que fosse substituído na TV pelo similar nacional Roberto Lengruber, que fazia paralítico andar, curava cego e vendia um “medalhão paranormal” que curava espinhela caída, nó nas tripa e cancro mole. Por que as pessoas acreditariam em um sujeito com sobrenome de anedota em iídiche, ô, me escapa completamente.
O pára-anormal passou os anos 80 longe das câmeras, segundo ele trabalhando para empresas de mineração, localizando metais preciosos com seu poder psíquico e amealhando fortuna da ordem de US$ 50 milhões (nada melhor do que poderes psíquicos para esconder a origem do dinheiro e engambelar a Receita, aliás). Mas voltou ao mercado nos anos 90, como místico, guru de auto-ajuda e artista gráfico (desenhou o logotipo do N’Sync e uma capa para Michael Jackson). Se alguém precisava de mais uma prova de que o paranormal é charlatão, there you go: quem quer que acredite em forças ocultas não desrespeitaria os espíritos da música desse jeito.
So long, and thanks for all the chips

Jack St.Clair Kilby (1923-2005)
Segunda-feira, morreu Jack Kilby, o engenheiro que inventou os circuitos integrados, em 1958. Patenteados por Kilby e pela firrrma para a qual trabalhava quando baixou-lhe a inspiração, a Texas Instruments, os circuitos integrados são a base para o desenvolvimento dos microprocessadores, que hoje em dia existem em praticamente qualquer produto eletrônico com preço superior ao de uma torradeira (e não duvido que existam em algumas torradeiras). Pra não mencionar, claro, o demoníaco instrumento que permite que semiletrados como eu discorram extensamente sobre assuntos que não conhecem, a televisão. Não, I mean, o computador pessoal.
Os circuitos integrados, como o avião, são uma daquelas invenções inevitáveis, que aconteceriam, e aconteceriam marromenos na época em que aconteceram, não importa exatamente com quem fique a fama de pioneiro. (Robert Noyce, então da Fairchild Semiconductor e mais tarde co-fundador da Intel, teve idéia parecida, no mesmo ano.) Ainda assim, Kilby did it. E a invenção dele é tão importante, tão onipresente, que se torna muito fácil esquecer que, yo, um sujeito específico é responsável. Se um operador de site decidisse incluir o nome de Kilby em um desses testes que afligem a Internet, que porcentagem dos respondentes faria alguma idéia de quem se trata, sem googlar? E, no entanto, sem o inventor, nada de quiz monguinho pra que desperdicemos o tempo do patrão durante as tardes de trabalho.
O mito de origem dos circuitos integrados é bacaninha. Kilby, nascido em 1923, começara sua carreira como engenheiro em 1947, em uma empresa chamada Centralab, que fabricava peças para rádios e televisores. Em 1958, se mudou para Dallas, contratado pela Texas Instruments, e, porque ainda não tinha tempo suficiente de casa, não pôde desfrutar das férias coletivas de verão que a empresa adotava como norma. Com isso, passou o mês de agosto sozinho no laboratório quebrando a cabeça sobre como resolver o pobrema mais pentelho da década, para a eletrônica: o das conexões entre os diferentes componentes eletrônicos de um sistema. Em 12 de setembro de 1958, ele apresentou sua idéia, um circuito integrado de germânio, e a demonstrou diante dos chefões da firrrma.
Antes da invenção de Kilby, os componentes tinham de ser conectados por meio de soldas e cabos de cobre; à medida que o número de componentes de um sistema aumentava, o número de conexões necessárias tornava impossível produzir a bagaça em dimensões aproveitáveis e a custo viável. Kilby inventou o método que permite a produção de conexões –circuitos- por meio de fotogravura, o que deu início à corrida pela fabricação de chips contendo cada vez mais componentes (transistores) em espaço cada vez menor.
Kilby continuou trabalhando para a Texas Instruments até 1970 (ajudou a criar a calculadora eletrônica, em 1966), e depois disso se tornou consultor da empresa, professor universitário e pesquisador independente. Ganhou um merecido Nobel de Física em 2000. So long, Jack, and thanks for all the chips.
June 22, 2005
Grandes Vultos dos Anos 70 -02

Oswald de Souza e a Zebrinha: uma dupla bestial
No Bananão, os jogos de azar estão proibidos desde 30 de abril de 1946, por decreto do Marechal-Presidente Eurico Kama Dutra. Quer, dizer, menas os jogos de azar operados pelo governo, o jogo do bicho -desde que pague o suborno regulamentar-, os cassinos clandestinos -os quais, como a Conceição, “ninguém sabe, ninguém viu”-, e os bingos tão eficazmente moralizados pelo presidente Mula.
De 1946 a 1970, os pobres brasileiros se viram reduzidos à loteria federal ou ao jogo do bicho, como forma de ganhar dinheiro sem trabalhar. Mas, em 1969, outro marechal erótico, dessa vez o perverso polimorfo Costa e Silva, assinou a lei que instituía a loteria esportiva. Misturar futibór e jogo de azar era tentação apetitosa demais pra varonil patuléia bananista. O mercado de teste escolhido pela Caixa para a nova loteria foi a pogressista Niterói, cidade que tuméin nos deu o inesquecível Biafra, e em 19 de abril de 1970 rolou o concurso número um da Esportiva, que logo ganhou o carinhoso apelido “loteca” (brasileiros dos anos 70 tinham especial apreço por palavra terminada em “eca”).
A Loteria Esportiva rapidamente virou mania nacional, criando costumes e gírias próprios (e resultando em excepcional crássico do Cinema Novo intitulado Como Ganhar na Loteria sem Perder a Esportiva [1971], com direção do imortal J. B. Tanko e estrelado por Agildo Ribeiro e pela vedete Marta Anderson). Um dos charmes da bagaça era que o comprovante que representava a aposta era um daqueles cartões perfurados usados para alimentar os mainframes jurássicos então em uso nas bolgias da burocracia. Cada concurso trazia treze jogos, e o apostador escolhia entre coluna 1 (o time da casa), coluna 2 (o time visitante) e coluna do meio (que logo, logo virou gíria para designar os alegres rapazes que assistiam futebol mais por apreço à musculatura dos atrétas do que por amor ao esporte).
A loteca também criou, se não um ídolo, pelo menos uma (ou melhor, duas) celebridades: o matemático Oswald de Souza e sua colega de trabalho, a Zebrinha. Souza apresentava um quadro todo domingo no Fantástico em que anunciava os resultados da loteria e estimava, com base neles, o número provável de ganhadores em cada concurso. E a Zebrinha, uma das animações mais toscas da história da televisão universal, comentava em um falsete profundamente irritante, sempre que uma partida apresentava resultado inesperado, “xiii, olha eu aí!” Oswald de Souza, que, por formação, nem matemático de verdade era, virou o matemático oficial brasileiro dos próximos 30 anos, disparando estatísticas levianas sobre assuntos que variam da incidência de doença venérea em carnaval do interiô à produtividade dos operários em dia de jogo do Brasil na Copa –e toda uma geração de jovens devotos do pobre esporte pretão, entre os quais o locutor que vos fala, cresceu tomada de ódio irracional pela Zebrinha, o único personagem de TV mais irritante do que o Topo Gigio. (Aê, se me chamar de coluna do meio eu guspo no aquário dos seus Kikos Marinhos.)
Sex can wait

And if you become an engineer, you'll wait much
longer than you think, dude*
Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três (bananas): Em leilão conduzido na Bonhams, de Londres, três quadros do chimpanzé Congo, pioneiro da arte símia morto aos 10 anos em 1964, foram vendidos por US$ 26.352, enquanto pinturas de Renoir e do guru pop Andy Warhol encalhavam. Uncle Filthy lembrou daquela história de que se ocê trancar 250 chimpanzés digitando aleatoriamente em uma sala durante um ano, é possível que eles escrevam sem querer uma peça do Shakespeare (e produzam muito mais cocô, if I may add). Aparentemente, pra fazer cocô que nem Warhol só é preciso um macaco.
Caninha 51 na área 51: O bravo Pravda, segundo melhor jornal do mundo (depois, craro, do The Sun), continua a contar A Verdade, exatamente como na era soviética, ao informar que todo presidente eleito dos Estados Unidos é levado à chamada “sala verde” da Área 51 para ver cadáuves congelados de alienígenas. O jornal informa também que Bush –desaforo!- não levou o presidente Putin pra ver prizunto alien quando da visita oficial deste aos Estados Unidos. Eu fico só imaginando a agenda da visita: “10h, entrevista coletiva cheia de gafes; 11h, visita aos corpos congelados dos alienígenas; 12h, piada sobre a mancha na careca do Gorby com Bush pai”
My lips are sealed: Uncle Filthy tá sempre de olho em métodos originais de suicídio, e acaba de descobrir mais um na história do jovem tailandês que, depois de brigar com a irmã que se queixava de que ele não tinha pago um empréstimo que ela lhe fizera, colou as narinas e os lábios e morreu sufocado. Ainda que o tradicional guaraná com formicida continue a liderar meu ranking, o método do nosso amigo tailandês com certeza se encaixa entre os 10 mais. (E tem o benefício adicional de dar barato, já que o indivíduo morre cheirando cola.)
Tying the knot... ‘round one’s neck: Na Sérvia, uma das tradições em festa de casamento é dar um tiro em uma maçã, o que supostamente traz sorte aos pombinhos. Mas um policial de 47 anos decidiu usar uma espingarda em lugar de um rezórvi, e feriu 15 convidados com os chumbinho. (A maçã escapou ilesa.) Já em Londres, Hayley Shaw, mulé do apresentador de rádio Tim Shaw, ouviu o marido dizer no ar a uma góztóza que ele estava entrevistando que, por ela, largava a mulé e os filhos. Hayley imediatamente colocou o Lotus Esprit do marido à venda no eBay por 50 pence. Porque os dicumento estavam em nome dela, um felizardo arrematou o carro em cinco minutos. Tim vai pedir divórcio. Para Uncle Filthy, as duas histórias resumem perfeitamente a trajetória de um casamento: começa com tiroteio e termina com apropriação indébita. (Note to self: só ir a casamentos na ex-Iugoslávia como padrinho.)
Oh my god: Pesquisadores da Universidade de Groningen descobriram que dá pra perceber quando uma mulé tá fingindo um orgasmo –basta fazer uma ressonância magnética durante o pega-no-ganzê (é claro que, pros desconfiados, isso acarreta o pobrema de ou instalar um aparelho de 600 mil dólares em casa ou só furumfar no hospital). Uncle Filthy sempre se sentiu lisonjeado que as mina fizessem o esforço de fingir (porque, pô, elas podiam ficar lá lixando as unhas), e por isso considera mais importante uma segunda descoberta da pesquisa: os casais que usavam meias durante a experiência atingiram o orgasmo em 80% dos casos, enquanto os casais sem meias tiveram índice de 50%. O que explica um dos mais bizarros mistérios da indústria pornô, o fato de que os sujeitos e as minas sempre furumfam de meia e (ocasionalmente) de sapato.
The odds are a hundred to one against me: Em Washington, o carro do chefe de polícia Charles Ramsey foi roubado da rua em que estava estacionado perto de sua casa. (Agora sim os cidadãos vão se sentir seguros). E em Heby, Suécia, Carl Zetterlund resolveu comemorar seu 100° aniversário fazendo seu primeiro vôo de helicóptero, acompanhado do filho, neto, e bisneto. O helicóptero caiu, ainda que as seis pessoas à bordo tenham escapado ilesas. Entrevistado pela NoronhaNews, Zetterlund disse que estava disposto a experimentar outro vôo de helicóptero –no seu 200° aniversário.
* Cortesia de cthomasesq, no Flickr, e indicação da Dra. Cam Seslaf, consultora jurídica e feline behavioral expert predileta do nosso estabelecimento.
June 21, 2005
Grandes Vultos dos Anos 70 –01

Evel Knievel (1938- ) tentando pegar o Penha-Lapa
Toda década é ruim, ou muito ruim. Mas a combinação de música ruim, visual ruim, entretenimento ruim, política ruim e general bad karma dos anos 70 é difícil de superar. Vai ver que é porque eu era um jovem e saltitante pimpolho, extremamente influenciável pelo tosco arsenal da era, mas as coisas e figuras dos anos 70 continuam me causando pesadelos e, em uma vã tentativa de combinar celebração, exorcismo e cura para a calvície, Uncle Filthy começa aqui uma série "it's all true" sobre os grandes vultos dos anos 70.
Se você era pimpolho nos anos 70, e se a sua família tinha televisão, inevitavelmente você deve ter visto no Fantástico alguma das façanhas do nosso herói de hoje, Robert Craig “Evel” Knievel. Ele foi operador de perfuratriz em uma mina de cobre, esquiador, sordado, jogador e proprietário estelionatário de um time de hóquei sobre o gelo, guia de caça (cumpria a promessa de encontrar o animal que o freguês quisesse –“ou seu dinheiro de volta”- depredando a fauna do parque Yellowstone*), ladrão, piloto de motocross, vendedor de seguros, dono de uma concessionária de motos Honda. Quando a loja faliu, ele criou uma trupe de motoqueiros para apresentações acrobáticas, estreando em 1966 (mudou o apelido de “Evil” para “Evel” pra não assustar a platéia).
Entre 1966 e 1970, Knievel bateu o recorde de fraturas do livro Guinness, com um total de 35. Para tornar suas apresentações mais espetaculares, Knievel decidiu saltar carros em lugar de saltar poças –começou com 13 e, sempre interrompido pelas fraturas, elevou lentamente o total até 19. Mas o motoboy do mal só ficou famoso quando decidiu tentar um salto sobre as fontes luminosas do cassino Caesar’s Palace, em Las Vegas. Knievel, como sempre, caiu, sofreu seis fraturas e uma concussão, e passou 29 dias em coma. As imagens da queda, registrada por sua mulher que estava trabalhando como operadora de câmera para imortalizar o evento, valeram fama televisiva instantânea quando transmitidas pela ABC.
E foi aí, na primeira metade dos anos 70, que as façanhas de Knievel começaram a chegar ao Brasil, sempre aos domingos, no Fantástico –16 carros hoje, 17 amanhã, 19 no Canadá, 13 caminhões da Pepsi, o fracassado salto com uma moto-foguete sobre o Snake River Canyon, 13 ônibus de dois andares em Londres (nova queda), 14 ônibus Greyhound em Nova Jersey. Knievel teve sua vida transformada em filme (estrelado por George Hamilton), e estrelou ele mesmo um semidocumentário sobre suas aventuras –dois fiascos de bilheteria, mas George Hamilton é o melhor ator ruim do universo e o filme... well, watch it and learn, kids. Mesmo com Hollywood, bonecos de ação e direitos de televisão (e a bicicleta “cross” Yoshida modelo Evel Knievel que era a inveja de todo fedelho americano), o motoqueiro maluco terminou em cana porque surrou com um bastão de beisebol um jornalista que escrevera livro crítico sobre ele, e faliu em 1981.
Knievel é um desses casos incompreensíveis de gente que é famosa por ser famosa (e se tornou famoso no mundo inteiro). Qualquer sujeito da minha geração lembra dele, da sucessão de fraturas e saltos fracassados, da obsessão idiota quanto a aumentar mais e mais o número de veículos sobre os quais ele quase nunca conseguia saltar, anyway. É uma forma de sucesso muito peculiar dos anos 70, a de Knievel: famoso por nada, brega sem remissão, mas por algum motivo estranhamente inesquecível. Provavelmente uma combinação de morbidez (“dessa vez ele VAI si fudê”) e admiração pela persistência em tornar realidade mais uma façanha utterly useless.
No ano passado, depois de muito tempo sem notícias sobre Knievel, achei uma notinha informando que o processo dele contra o site de esportes radicais da ESPN por usar a frase “you’re never too old to be a pimp” como legenda de uma foto que o mostrava ao lado de sua jovem mulher, uma loira extremamente pneumática, e de uma outra senhorita equally well-endowed, foi derrotado nos tribunais. Pobre Knievel. Diguínidadi djá.
* Ele matou Zé Colméia!
Cliffhanger

"Holding hands at midnight, 'neath a starry sky"
Costumavam assistir a qualquer filme de mãos dadas, mesmo depois dos 30. Em casa, no cinema, até em sala de espera de aeroporto, começava o filme, o programa, e ele sem nem pensar esticava o braço e tomava uma das mãos que ela costumava deixar repousando quentinhas sobre o leito das coxas. E se, por qualquer motivo –lenço, drops- ele precisasse retirar a mão com que segurava a da namorada, ela sempre tentava resistir, e ele sorria no escuro da sala de cinema, adivinhando o sorriso dela ali ao lado, os dois concentrados no filme.
Normalmente não trocavam cochichos enquanto a história se desenrolava na tela. Ele sempre antecipava os sustos que ela invariavelmente tomava mesmo nas cenas recheadas dos clichês mais previsíveis, como a do assassino aparentemente morto que de repente apanha o trêsoitão uma última vez para tentar acertar o herói, e nas piores cenas de comédia sempre ria com a risada dela -achasse ou não graça da piada.
Os dois tinham se conhecido em uma fila de cinema, não por acaso mas por intermédio de amigos, e ela sempre brincava que, pelo número de filmes a que tinham assistido juntos, o mais lógico seria que ele tivesse feito o convite para que fossem morar juntos no saguão do AMC25, e não no Tavern on the Green. As opiniões dos dois –sobre o cinema, sobre a vida- coincidiam muito mais do que divergiam. E quando divergiam (ele odiava Tarantino, ela adorava Tarantino), os dois sempre entendiam exatamente por que discordavam e, ainda que se provocassem a respeito das mancadas de gosto mútuas, seguiam tacitamente a regra de “eu vejo seus filme cocô, você vê meus filme cocô”.
Tarde de domingo, foram assistir a um filme esquisito, de um diretor que nenhum dos dois conhecia, tanto achincalhado quanto exaltado pelos críticos dos jornais que costumavam ler. Acompanharam o filme em silêncio, trocando balas, passando e devolvendo a garrafinha d’água, o tempo todo de mãos dadas, ela ocasionalmente apoiando a cabeça no ombro dele. Ficaram até o final dos créditos, os dois ainda quietos –gostavam de ver detalhes idiotas como os nomes das músicas, ou os das firrrma que treinam golfinhos, coelhos, abelhas, whatever seja o bicho do filme.
O silêncio foi se prolongando, os dois caminhando pensativos cinema afora, depois pela rua, de mãos dadas, banhados pelos últimos raios do sol que se punha. Na esquina, esperando o sinal de pedestres, os dois finalmente se voltaram um para o outro, olhos nos olhos. “Melhor filme que já vi na minha vida”, disse ela, com um suspiro, enquanto ele, exatamente ao mesmo tempo, pronunciava: “eca, que bosta, quero meu dinheiro de volta”. Os dois se assustaram, trocaram um sorriso amarelo. Assim que atravessaram a rua, na calçada oposta, ele soltou a mão dela. Voltou para casa com as mãos nos bolsos, nervosamente tilintando as chaves.
June 20, 2005
Cat Fight, Chicago-Style

Women's Building, Feira Mundial de Chicago (1893)
Minha mais velha (you know what I mean, Biz, pô) e querida amiga costumava ser feminista, mas largou subitamente o movimento explicando que “women are not a cause worth fighting for”. É o tipo de declaração com a qual marmanjo num pode concordar sob pena de levar umas chapuletadas, mas em linhas gerais acho que ela queria dizer que é compreensível que os homens sejam machistas e toscos; menos compreensível que as minas sejam tão bitchy com relação às suas congêneres (reparem no cuidadoso uso de “gênero” em lugar de sexo, yo). Sei lá. Feminismo nunca me pareceu absurdo –pelo menos não feminismo à maneira de Betty Friedan, digamos. (Faludi, claro, é completamente lunática).
Lembrei disso porque encontrei uma historinha emblemática a respeito outro dia, lendo sobre a World’s Columbian Exhibition, a feira mundial de Chicago, realizada em 1893. Por sugestão da sufragista e defensora dos direitos femininos Jane Addams, Daniel H. Burnham (futuro criador do Flatiron Building), o arquiteto que coordenava as construções para a exposição, decidiu contratar uma mulé para projetar o Women’s Building. Esbarrou no pobrema de que, basicamente, quase não existiam mulheres arquitetas nos Estados Unidos, back then. A solução foi promover um concurso, vencido por Sophia Hayden, então com 22 anos, uma das primeiras manas a se formar em arquitetura no MIT. Em contraste com os demais figurões da arquitetura* que projetaram os pavilhões da exposição e receberam cada um US$ 10 mil pelo trabalho, o pagamento de Hayden ficou limitado aos US$ 1 mil que ela ganhara por vencer o concurso. Misturando machismo e justificável cautela, Burnham também não deixou que a jovem arquiteta supervisionasse a construção do pavilhão –não era serviço “de menina”, inda mais inexperiente.

Women's Building por dentro (projeto de Sophia Hayden)
Mas a parte da história que me fez lembrar da minha amiga ex-feminista foi o quiproqüó surgido depois da construção. Bertha Potter Palmer, mulé de um ex-prefeito de Chicago, presidia o comitê feminino da exposição, e decidiu pedir às suas amigas high society que procurassem e doassem objetos para decorar o pavilhão. Quando a avalanche de tranqueiras começou a chegar ao local, Hayden, que estava supervisionando o acabamento do edifício, pós-construção, imediatamente protestou: não havia como encaixar tudo aquilo no desenho que ela criara sem transformar o pavilhão em uma “colcha de retalhos”. Palmer fincou pé de um lado, a arquiteta fincou pé de outro, e evidentemente a socialite ganhou: contratou uma decoradora e designer chamada Candace Wheeler para fazer exatamente o que ela queria com o pavilhão, e botinou Hayden. A arquiteta, inconformada, foi ao escritório de Burnham e surtou: gritou, chorou, quebrou coisas e terminou confinada por alguns meses a uma casa de repouso.
O pavilhão foi demolido depois da exposição, e Hayden decidiu virar dona de casa (porque, of course, mulé é histérica demais para a arquitetura). O veredicto dos críticos foi de que o edifício, porque projetado por uma mina, craro, era um trabalho “tímido” e “delicado”. Pra resumir como minha amiga faria se o idioma de origem dela fosse o brasileiro: o pior inimigo do feminismo é a peruagem.
*George B. Post (projetou o edifício da bolsa de Nova York e o Pulitzer Building), Charles McKim (projetou o primeiro e mais bonito dos Madison Square Gardens e a biblioteca da Colúmbia), Richard M. Hunt (projetou o Metropolitan Museum), Robert Peabody (projetou a torre da Alfândega em Boston), Henry Van Brunt (projetou a estação ferroviária de Kansas City, Mo.), Louis Sullivan (pai do arranha-céus em sua forma moderna), e mais o incomparável Frederick Olmsted, criador do Central Park e do Prospect Park, no paisagismo.
Marrr de llama

"Saio da dívida para entrar na História"
Cês já repararam que todo político, executivo e técnico de futebol demitido sai “de mãos limpas” e “cabeça erguida”? Ninguém sai, por exemplo, “de nariz sujo” e “pernas pra que te quero”. Deve fazer parte do manual de retórica barata que os caras recebem quando assumem os postos dos quais virão a ser derrubados em pitorescos bundalelês batizados com brasileiríssima graça como “caso mariolão” ou “escândalo da paçoquinha”. Eu sei que clichês nauseabundos são o stock in trade dos políticos, especialmente os da sagaz agremiação que ora nos governa com presciente sabedoria, mas fiz uma listinha de sugestões pros próximos demitidos –porque o couro decerto vai cumê na terra dos língua-plêza. Em vez do “mãos limpas” e “cabeça erguida”, o demissionário pode declarar:
“Mãos abanando” e “cabeça no mundo da lua”;
“Mãos peludas” e “cabeça de baixo”;
“Mão erguida” e “cabeças limpas”;
“Mão de vaca” e “cabeça feita”;
“Mão única” e “cabeça de alho”;
“Mãos pra cima!” e “cabeça cortada”;
“Mãos de fada” e “cabeça de bagre”...
A lista é longa, e qualquer um dos termos acima é tão verossímil quanto os originais. Ou mais. E pelo menas dá pra fazer bolão na firrrma –“esse Genoílson aí vai dizê ‘mão boba’ e ‘cabeça de pica’, ponho cincão”.
Um velho amigo, inteligente, civilizado, amável e ainda assim petista, apontou que o prazer com que critico a possível falência ética do partido tem um tanto de morbidez, e ele não deixa de ter alguma razão. Mas a verdade é que, por mais que eu deteste o PT, preferiria que esse escândalo, e todos os outros que agora inevitavelmente virão à tona, não acontecesse. A schadenfreude que demonstro quanto à sinuca de bico do esquadrão perdigoto não tem nada de ideológica; é uma reação simples e compreensível àquelas décadas todas em que o PT, comodamente abundado no troninho oposicionista, se oferecia como contraste ético inatacável aos outros remelentos que governavam o país.
Porque no fim, e como sempre, quem tinha razão era Millôr Fernandes, no cântico de um deputado que ele publicou há muito tempo e vou parafrasear pobremente aqui por falta de acesso ao original. Segundo Millôr, o deputado dizia “a mim ninguém compra. A mim ninguém compra. A mim ninguém compra”. E, diante do silêncio da audiência: “Pô, ninguém vai fazer uma oferta?” ‘Nuff said.
June 16, 2005
Um Blog Oco!

Seu Tempo é Valioso. Acrescente a sua Sabedoria!
Uncle Filthy andou muito ocupado nas últimas sete semanas, e por isso vem negligenciando seus deveres de anfitrião: faz tempo que não dou uma espanada na lista de links ao lado, à qual eu deveria ter acrescentado pelo menas meia dúzia de blogs nos últimos meses. Como o empreiteiro do HTML me deixou na mão nas últimas semanas e impediu minha mudança pro andar de cima, aproveito a sexta-feira pra recomendar uns bróg pra gentil leitora, pro amável leitor.
Principio por velho e querido amigo que, nos anos de senilidade, voltou-se, como eu, ao proceloso mar virtual. É raro que um blog tome por título uma descrição honesta de seu autor, e Papalvo é uma das raras e afortunadas exceções. Adispois, o Japs conseguiu encontrar uma pilota de corrida góztóza, o que já merece visita de todos os devotos do belo sexo.
Outro blog que Uncle Filthy lê regularmente é o very aptly named Woman of Affairs, niquiq dona Greta rants like there’s no tomorrow, e fala mal de ómi com invulgar desenvoltura. Também na ala babes with attitude, a manicure, artista práztica e tradutora Nico Hideyo exibe, em Million Dollar Kiss, verve e acidez incomparáveis.
O Fábio, criador de algumas das comunidades mais divertidas na era habitável do Orkut, rejeita suas raízes nativo-brasileiras no not tupy, e o Ulisses conduz sua elegante campanha do “faça um amigo preto” no mimoso uns acidentes. Rafael Lima, que é amigo do micreiro Elesbão, batuca na cara do gol (e convida todo mundo pro Bloomsday. Deve tá di sacanaj).
O Cisco, no Filisteu, escreve bem sobre basquete e notícias bizarras, e a moçada do Insanus opera coletivamente o genial Conversas Furtadas, um dos blogs que leio todo dia (e um dos meus vícios secretos mais antigos -as conversas, não o blog).
Jair Beirola discorre sobre dilemas éticos como o intercurso com paraplégicas, o Roberson fala de Michael Jackson e medicina sem perder o fôlego, e o FH manda bala contra os simpatizantes de Adolf no Contagioso. O Nemerson parece tão entediado quanto eu com as reportagens sobre a loja nova da Daslu.
E, last but very very least, reproduzo aqui um spam: “Por que Paula em Ação é o melhor blog? Paula em Ação, melhor que ninguém, nos faz refletir sobre a realidade. Quantos Blogs você conhece e realizam esta mesma Ação? Paula em Ação tem algo a Acrescentar. Os outros o que acrescentam a sua Sabedoria? Antes de sentar-se diante de um computador para ler um Blog, Pense que seu Tempo é Valioso e Você não deve perdê-lo em Blogs Ocos. Tome uma Atitude Coerente, transforme-se em um Novo Ser”.
(Pena que não Pensei em Batizar a maison Noronha como Blog Oco.)
Blonde Ambition

Some more monkey business: Naomi no novo remake de King Kong
Não é que eu não tenha lá minhas loiras de estimação –Jessica Lange, por exemplo, com ou sem cara de louca varrida, always floats my boat, desde aquele memorável remake do King Kong* e de sua participação especial como anjo da morte em All That Jazz, do Fosse, um dos meus filmes prediletos. Mas confesso que as biondas falam-me menos ao coração, a priori, do que as malignas ruivas ou as morenas curvilíneas. Menas quando a loira em questão é Naomi Watts.


Naomi Watts (1968- )
Não é porque ela é linda –nem sei se exatamente é, aliás- ou porque é muito melhor atriz do que Heather Graham e mesmo assim só faz filme com peito de fora, ou porque usa menos maquiagem do que qualquer outra atriz de cinema não búlgaro. Acho que a culpa é de um determinado sorriso que começa nos olhos e se espalha lentamente pelos lábios, em filme pascácio como We Don’t Live Here Anymore, ou das roupas de perua, caras de vagalba e andar pidão em Undertaking Betty, ou do fato de que Naomi continue aceitando esse monte de papel esquisito em filme que ninguém assiste e trabalhe com toda seriedade do mundo. As if she really cares. Numa profissão de wannabes como Nicole Kidman, Ms. Watts is the real deal, uma atriz tão boa que graças a são jizuis nem precisa se fingir de mocréia pra convencer todo mundo de que sabe interpretar.
*Será que eu só tenho tesão por loira que trabalha em remake de King Kong? Vou ligar pro Dra. Maggie.
June 15, 2005
Hora do Pesadelo

The odd man out
Todo homem odeia discutir a relação. Aliás, todo homem odeia até discutir a felação, se for o caso. E uma interlocutora das mais bacaninhas outro dia apareceu com uma apavorante tese, em conversa de MSN: e se os “monólogos da vagina” fossem literais? Eu morro de medo de imaginar que recado o porto seguro de cada 15 dias estaria me dando, se pudesse falar:
“Kilroy was here”.
“Você não tem mesmo o menor senso estético –camisinha azul não combina com os meus lençóis de linho egípcio cru”.
“Mais pra cima, mais pra cima, mais pra cima, mais pra... Fuggedaboutit”.
“Ai, meus sais, por que sempre aqui? Não dizem que os brasileiros...?”
“Ela bebe e eu é que trabalho”.
“It’s called the landing strip, and you overshot”.
“Pode entrar, mas lembre-se de que daqui a nove meses o Júnior vai querer sair”.
“Cuidado, rapazinho. O nome fio dental tem motivo”.
"Is that all, folks?"
Senhoras de Santana

Proibido para menores: Temática complexa
Quem passou a infância em Sumpaulo marromenos na mesma era geológica que Uncle Filthy talvez também se lembre das Senhoras de Santana. Tratava-se de um grupo de velhinhas que eram tiradas do formol sempre que se tornava necessário protestar contra alguma indecência –mulé pelada, beijo de língua no cinema, cena erótica em novela, o acúmulo de bêubo em determinadas áreas da cidade. Aparecia uma dessas causas clássicas de indignação e lá saltavam as senhôuras de Santana, todas de cabelo azul, vestido estampado, óclinhos, rosário nas mãos.
As senhôuras de Santana eram, claro, todas carolas, conservadoras, e não queriam que o dia raiasse adispois da “longa noite da ditadura”. Com o tempo, se tornaram caricaturas, e hoje em dia ninguém mais lembra delas, do mesmo jeito que ninguém lembra de decisões altamente sagazes da censura dos ditos “anos de chumbo”, como as bolinhas pretas que corriam desesperadamente pela tela tentando tapar as pudendas dos personagens em A Clockwork Orange, ou as regras mamárias das revistas eróticas –não podia aparecer os dois peitos ao mesmo tempo, em foto erótica, e tampouco mamilos. (Tenho certeza de que muitas das dificurdad que encontrei em minha patética vida erótica derivam do trauma de descobrir –para minha surpresa- que as mina tinham DOIS peitos, e cada qual coroado por um mamilo.)
Mas o que é verdadeiramente engraçado nessas reminiscências é que as senhoras de Santana continuam por aí, defendendo outras bandeiras, talvez, mas propondo sempre as mesmas sandices. Tem senhoras de Santana que não querem arremedo erótico de uniforme de enfermeira, em foto de mulé pelada, porque desrespeita a profissão; tem senhora de Santana que não quer foto de mulé pelada, ponto, porque isso avilta a dignidade feminina; tem senhora de Santana que quer proibir revista gay porque influencia adversamente os jovens (aliás, jovens e crianças invariavelmente precisam ser protegidos pelas senhoras de Santana); nos Estados Unidos, tem umas firrrma senhoras de Santana que revendem DVDs dos quais elas excluem todas as cenas de sexo e violência (o que, em caso de filme comprido e chato pra caramba, por exemplo Kill Bill, acaba sendo ótimo –Tarantino é um excelente diretor de curtas-metragens).
Uma das coisas que mais me incomodam sobre censura é essa presunção implícita de que os censores sabem “o que é melhor” pros outros. Nos hilariantes relatos sobre o julgamento do processo contra a Penguin quando eles decidiram publicar Lady Chatterley’s Lover, além de pérolas como “because girls can read as well as boys” na peroração inicial do promotor público, há também diversos exemplos de gente que era contra a publicação do livro em paperback, pela Penguin, porque uma edição a preço baixo tornaria a pôca-vigônha acessível à patuléia. (Edição “pra rico”, OK, na opinião desses caras.) As senhoras de Santana modernas, ao contrário daquelas que ainda marcham de sombrinha nas memórias da minha infância, são um pouco como eles: em lugar de assumir que são pudicas ou moralistas, querem restringir a liberdade de expressão alheia para “proteger” os indefesos –pobres, crianças, jovens, minorias étnicas, enfermeiras, adolescentes sujeitos à nefasta influência dos bichas. Talvez seja só uma das minhas desagradáveis idiossincrasias, mas respeito mais quem defende censura por motivos morais, ainda que pífios, do que quem se esconde por trás daquilo a que supostamente pretende proteger.
June 14, 2005
Uma coisa que eu sei dela

"Boys dream of native girls who bring breadfruit
-whatever they are"
J. P. era um desses escritores por encomenda chamados pejorativamente de hacks. No caso dele, nem tão pejorativamente. J. P. já tinha escrito historinha infantil, bula de remédio, manual de instruções, press release, propaganda eleitoral, lápide, orelha de livro, roteiro de vídeo de treinamento, tese (alheia) de mestrado, resenha de cinema, parecer de leitura crítica, (dois) poemas, mensagem de fim de ano de presidente de empresa. Foi então que, no ocaso da existência ou marromenos com 35 anos, foi convidado a escrever uma coluna em uma revista lida por duas pessoas.
Coisa mais chata do mundo, escrever sem encomenda, ponderava J. P. enquanto fazia malabarismos com a multicolorida coleção de clichês e de misquotes acumulados em década e tanto de matéria paga. Entre um “é preciso endurecer sem perder a brochura” aqui e um “grace under Presley” lá, J. P. sempre se via como um daqueles excêntricos do central casting discursando sandices empoleirados sobre um caixote de sabão no Hyde Park. Até que recebeu a primeira carta de sua admiradora secreta.
Ela se assinava “Island Girl”, e não dizia onde vivia, quem era. A única maneira que J.P. tinha de responder às cartas que lhe chegavam às mãos por intermédio da revista era transformar a coluna em uma imensa carta enigmática, cheia de duplos e triplos e sêxtuplos sentidos, de inside jokes, paródias, referências, citações: uma colcha de retalhos, um palimpsesto.
J. P. tinha certa fobia a ilhas, especialmente porque tinha perdido um frila interessante em jornal ricaço ao citar erroneamente aquele famoso, verso?, sei lá, by whomever, segundo o qual todo homem é uma ilha, ou nenhuma ilha é um homem, ou o contrário. Mas ele a imaginava, ilhoa, dançando hula sob um coqueiro, vestida com um lei e uma daquelas saias de paia, sorrindo oh ever so ironically. Porque, cê vê, J.P. estava desesperançadamente apaixonado pela garota da ilha.
E um dia ela parou de escrever. J. P. deu chilique com os caras da revista, amaldiçoou o correio, e depois começou a vasculhar jornais, procurando notícias sobre tsunamis, erupções vulcânicas, terremotos, tubarões assassinos. Descobriu que o mundo inteiro era feito de ilhas. As quatro últimas colunas que escreveu antes de ser limado da revista eram um frenético, desesperado apelo. Convenceu a editora a publicar seu endereço de e-mail como parte dos créditos. Citou textualmente trechos das cartas da Island Girl. Mas do lado de lá, da ilha, da menina da ilha, o mais completo silêncio.
Como costuma ocorrer aos devotos de São Mose, é claro que os deuses da ironia o conduziram a uma ilha, meses mais tarde. J. P. costuma passear a pé, contornando a ilha toda, hugging the shore, mas evita deliberadamente pensar na menina daquela outra ilha. Ele sente que em algum lugar a chama ainda queima, e olha para o mar não exatamente com fé, ou esperança, mas com a confiança e gratidão silenciosa de quem sente sem nenhum motivo o calor distante e mudo de uma estrela. De vez em quando, J. P. confere pra ver se não tem ninguém olhando, olha o mar com cara de sonso e joga um beijo. Se isso o faz se sentir idiota? Bom, ele sempre se sente idiota. E sabe que ela guarda as colunas na gaveta da cabeceira.
She’s seen the elephant –twice

"Nada de trazer a máquina do Nessa Proka pra banheira, babe"
Dormiu com o elefante: Na escola risonha e franga niquiq fiz o ginásio, quando alguém tinha momentos de sorte imperdoável costumávamos dizer que o elemento “dormiu com o elefante”. Bão, tia Donna Goepport, 55, deve ter feito um ménage à trois com os simpáticos paquidermes, porque este ano ganhou dois prêmios de um milhão de dólares na loteria, um na raspadinha e um na “federar”. O Oswald de Souza gringo estimou que as chances de que algo assim aconteça são de uma em 419 milhões, mas isso é porque os americanos são muito racionalistas e não conhecem felizardos seriais como o nosso mui querido deputado Inocêncio de Oliveira. Não achei foto da dona Goepport, mas espero que ela seja feia pra caramba. (Com dois milhões de dólares em caixa, não por muito tempo.)
Passando um fax pra Boston: Em Kobe, Japão, dois gatinhos que não conseguiram chegar em tempo à caixa de areia resolveram usar uma máquina de fax como pinico, e causaram incêndio que quase destruiu a casa da felizarda velha dos gatos que paga o Whiskas deles. O conselho dos bombeiros nipônicos é que, se a senhora tem gato ou cachorro, tem que ficar de olho nindindond eles, er, tiram água do joelho, por conta do risco de incêndio caso o façam sobre aparelhos elétricos. Minha teoria sobre as velhas dos gatos sempre foi a de que seriam encontradas devoradas pelo simpáticos bichanos DEPOIS de mortas. Mas parece que o Juca, o Oliver e a Dorotéia querem apressar o desfecho.
Mostra a sua referência que eu mostro a minha: Saeed Akbar, gerente de uma firrrma de tradução e interpretação em Fife, Escócia, decidiu que queria “um pouco de excitação” e por isso entrou peladão, carregando uma prancheta, na sala em que entrevistaria uma candidata a emprego. A moça preferiu não mostrar as referências, e Akbar vestiu a roupa e tentou continuar a entrevista, mas ela fugiu e deu queixa à polícia. O ex-zécutivo, ora demitido e condenado a prisão com sentença suspensa, tentou explicar o método dizendo que era uma nova forma de dinâmica de grupo. Uncle Filthy, inventor da Topless Friday lá na firrrma, aprova os objetivos do moço, mas, pô, primeiro ocê contrata e depois assedia, Saeed.
O gêmeo malvado do Evil Twin: Na Polônia, um par de gêmeos idênticos, Lech Kaczynski, prefeito de Varsóvia, e seu irmão Jaroslaw, são favoritos às eleições de setembro (parlamentares) e outubro (presidenciais). Tendo um gêmeo como presidente, outro como premiê e um eleitorado obnubilado pela bebida à maneira habitual dos polaquinhos, não tem mensalão que derrube esses mano. A menos que eles decidam seguir o exótico exemplo de Susilo Bambang Yudhoyono, presidente da Indonésia, que em discurso no sábado deu o número de seu celular e disse que, qualquer queixa, era só ligar. Até a segunda-feira, mais de três mil telefonemas tinham sido feitos, e o número foi tirado de serviço. O presidente agora prometeu mais cinco números pra que as pessoas liguem reclamando que o número para reclamações não está atendendo. Enquanto isso, em Brasília...
Go fly with him: Nessa Proka (not kidding), de Krusevac, Sérvia, diz ter inventado a máquina sexual definitiva pra satisfazer as mulé, mas precisa de garotas ocidentais como pilotos de prova, porque suas conterrâneas não quiseram experimentar a invenção em que ele passou três anos trabalhando, uma máquina de fuc-fuc capaz de dar 180 bombeadas por minuto e equipada com um bingulim de 19 centímetros. Noutra Prika, correspondente da NoronhaNews em Belgrado, disse que não é bem assim: ela tentou usar a máquina mas a engenhoca parou de funcionar assim que a TV começou a transmitir um jogo de futibór.
Torture never stops: Uncle Filthy, como bom direitista, tende a achar que nêgo que usa toalha de mesa na cabeça merece levar uns safanão, e por isso até agora não tinha protestado contra os métodos de interrogatório usados no campo de concentração americano em Guantánamo. Mas safanão é uma coisa e genocídio é outra, yo: os gringos estão usando canções de Christina Aguilera no interrogatório de Mohammed al Qahtani, suposto membro da Al Qaeda e participante dos atentados de 11 de setembro. Adispois, o pobrema de usar a canora Christina como ferramenta de interrogatório é que qualquer um confessa qualquer coisa pra fazer a maritaca calar a boca. (Se colocarem um disco de Ivete Sangalo, Uncle Filthy confessa que matou JFK, Tancredo Neves, Joana d’Arc e Gebulho Vargas.)
June 13, 2005
This is the house that Jack built

"... remember this house"
Quase todo mundo passa a vida embrulhado com questões de grana, trabalho, casa e afeto. São as quatro áreas de preocupação que definem a vida de pessoas as quais, otherwise, têm muito pouco de comum entre si. As artes, no entanto, não falam muito das três primeiras. Proporcionalmente, tem muito mais romance falando da angústia existencial de um solitário caçador de leões-marinhos da Alta Lapônia do que sobre as questiúnculas da vida de um amanuense. Faz sentido, de pelo menos duas maneiras. Primeiro, porque escritor raramente é o tipo de sujeito que passa tempo suficiente trabalhando em firrrma* pra poder escrever convincentemente a respeito da bagaça (não que eles passem muito tempo na Alta Lapônia domando renas, aliás, mas os leitores menos ainda). Segundo, porque vida de escritório é tacanha e chata, o mais das vezes. E em termos de marketing as pessoas provavelmente não querem ser lembradas de até que ponto uma das preocupações essenciais de suas vidas é idiota e mesquinha.
Mesmo assim, eu gosto de arte que tome por tema esses pedaços negligenciados da vida. O fueda é que, por conta da influência nefasta do marxismo, romances que falam de dinheiro, no século XX, tendem a ser livros que fazem aquelas análises ridiculamente esquemáticas sobre as craçe sociau. (E, se a gente pensar bem, O Jogador, do Dostô, é um quase-romance sobre dinheiro que funciona melhor pra mostrar a variedade de atitudes humanas para com o vil metal do que os 300 mil romances marxistas do século passado.) Mas o binômio casa/grana é um dos meus prediletos como tema, e por isso passei o final de semana relendo A House for Mr. Biswas, de Vidiadhar Naipaul, além de ter assistido House of Sand and Fog, que perdi no cinema.
Biswas, seguinte: se vocês não leram, deviam ter lido. O personagem título é um sujeito de ascendência indiana forçado a casar com a filha feia de uma família rica, em Trinidad (que abriga um contingente razoável de descendentes da diáspora indiana do século XIX). O romance gira em torno das tentativas sempre patéticas de Biswas para comprar ou construir uma casa e escapar com a família da mansão Tulsi, que abriga o clã indiano do qual sua mulher descende. O protagonista é o fodido na vida clássico –indiano (e cheio de preconceitos característicos da cultura indiana) em um país de maioria negra, pobre em meio a uma família rica, pintor de placas com dificuldades ortográficas, funcionário público tentando ser honesto em meio aos calhordas, jornalista olhado com desdém porquanto autodidata, pussy-whipped, medroso, turrão. E, por baixo de tudo, irredutivelmente digno, um bom sujeito prototípico que passa a vida tentando não pisar nos múltiplos montes de cocô espalhados em seu caminho um tanto pela sorte, outro por sua encantadora incompetência.
House of Sand and Fog tem alguma coisa em comum com Biswas, no personagem de Ben Kingsley, o coronel Behrani, um imigrante iraniano aos EUA que trabalha como pedreiro mas não perde a pose. Uma cagada burocrática o coloca em confronto com Kathy Nicolo (interpretada, para gáudio do comendador Goiaba, por Jennifer Connely –e quem não ia querer uma faxineira dessa manipulando o esfregão?), cuja casa foi tomada pelo governo e adquirida em leilão pelo coronel. Podia ser um senhor filme, mas, craro, Hollywood intervenes. Ainda assim, vale os cinco mango da locação.
Porque sou um bostinha quatro-zóio cuja idéia de épico é chegar ao cinema só 15 minutos antes do começo do filme, me identifico muito mais com o Sr. Biswas, e até com o coronel Behrani, do que com o solitário caçador de leões-marinhos na Lapônia. Larger than life só a pança, mano. Ou, como diria o mais casa-e-dinheiro dos escritores, “give me my in-tray/My loaf-haired secretary/ My shall-I-keep the-call-in-Sir”. (...) “Give me your arm, old toad/ Help me down Cemetery Road”.
*Com a honrosa exceção de Wallace “the fascination of what’s difficult/ has sapped the blood in my veins” Stevens.
The memory of all that

"...on the bumpy road to love"
Não, não é o cheiro da musa quando sai do banho (aquela combinação de frescor e provocação); tampouco é a visão primaveril da mulher-mais-linda-do-mundo passando de toalha pelo corredor fazendo essas coisas pós-banho para as quais toda mulé precisa de misteriosa meia hora –se bem que, yo, eu seja o mó sucker pras duas coisas. Mas não é bem ali que fica a mágica. Acho que nenhum sujeito está mais apaixonado do que quando, sei lá, lê o jornal em uma preguiçosa manhã de domingo sentindo o cheiro do banho da musa, o efeito alquímico daquela montanha de grana que todo homem secretamente acredita inútil e elas mesmo assim despejam despudoradamente nos cofres das marcas que fazem zóinho de mulé brilhar vislumbrando um paraíso de pele perfeita, mãos inabalavelmente macias, tempo suspenso.
É você ali, sentado ao filete de sol que dribla a retranca da cortina, being manly, thinking manly thoughts (grana, política, futibór), lendo o jornal de trás pra frente embalado pela canção do chuveiro, pelo vapor que emana em discreta pluma por sob a porta do banheiro, absorvendo todos os ruídos familiares e ao mesmo tempo tão exóticos que acompanham aquele ritual do qual a melhor maneira de fazer parte é não fazendo –o estalido da porta do box, o rangido leve do armarinho do banheiro ao ser aberto, os três compassos de canção que ela canta desafinada como um coreano em American Idol enquanto –tenho certeza- se olha no espelho com sobrancelhas zombeteiramente arqueadas, à procura de um fatal cabelo branco.
Seria uma delícia imaginar que, yo, todo aquele prolongado trabalho acontece por minha causa, mas, a essa distância única do isolamento, sei que não é verdade, sei que o banho e todos aqueles trejeitos, hábitos, manias, grunhidos, cuidados são uma declaração de amor por ela mesma. Em fedelho, nunca tive pudores de invadir o banheiro nessas horas e demonstrar meu amor, ou pelo menos minha concupiscência, na clássica forma de uma encoxada na pia. Mas os anos passam, ainda que o tempo pare, e a gente descobre que intimidade pode acontecer ao longe; às vezes, ficar no meu canto -deixando que o ritual se desenrole e absorvendo vicariamente as recompensas- é mais doce do que partir pro abraço. Porque quando ela abre/fecha a porta do banheiro pela última vez e entra sorrindo no quarto, cercada por aquela ciranda de aromas, cabelos cuidadosamente despenteados e olhos mais brilhantes do que o sol que continua a brigar com as cortinas, o tempo pára. E não, não é (só) efeito da linha de produtos anti-rugas da Clinique.
June 12, 2005
Mensalão: rima, mas não solução

(... e as duas mãos lavam a bunda)
A defesa mais velha do mundo em escândalos políticos é “o presidente” (ou czar, rei momo, pajé) “não sabia”. God knows se no passado ela colava melhor do que nos últimos 30 ou 40 anos, mas nunca me pareceu a posição mais inteligente, em termos psicológicos. As pessoas se irritam duplamente, porque ou bem o presidente sabia do imbroglio todo e agora está jogando a patética carta do subordinado calhorda ou ele de fato não sabia e está passando atestado de incompetência para governar. A responsabilidade essencial de qualquer zécutivo é selecionar os melhores subordinados e supervisionar o que eles fazem. Já que um presidente se tornou apenas uma espécie de über-síndico (o posto de chefe de Estado e governo já não tem tons heróicos ou míticos; Lula, ao contrário dos czares e apesar das pretensões, não é “o paizinho do povo”), perder a paciência quando ele recorre a essa desculpa é a coisa mais fácil do mundo.
A segunda linha de defesa é igualmente tradicional no mundo do escândalo político brasileiro: desviar a culpa por uma extensa falha sistêmica para um ou alguns bodes expiatórios. Por um lado, temos a insistência em que “os deputados do PT não levavam mesada”; por outro, a tentativa de empurrar a culpa para um bad apple no partido –e o da vez chama Delúbio, o que atende ao apreço brasileiro por nomes ridículos. Ou seja, nem o presidente, nem o seu partido são culpados -só um picareta aqui, outro ali.
Agora, depois de uma semana, a discussão começa a chegar ao ponto importante, que é a origem da grana. Porque temos aqui um partido pagando propina a deputados de outros –se o dinheiro vem das verbas regulares do PT, das contribuições que eles arrecadam e contabilizam legitimamente, é no mínimo um caso de malversação e de fraude contábil. Se o dinheiro vem de outras fontes –e todos nós sabemos que os partidos sem exceção operam com caixas 2 para pagar por despesas administrativas e eleitorais sempre muito maiores do que as declaradas-, quais são as fontes, e o que esse dinheiro está comprando? Sempre convém lembrar que Collor terminou absolvido, depois daquele fuzuê todo, porque a Justiça brasileira conseguiu a magnífica façanha de apresentar um processo em que só havia réus por corrupção passiva; nenhum corruptor ativo foi identificado. O principal ponto da investigação do novo escândalo, portanto, deveria ser “dar nome aos bois”: de onde vem o dinheiro, com que objetivo foi “doado”, ou extorquido?
E há a questão da credibilidade –Lula vem recebendo crédito por um bom governo, ou um governo razoável, em função de dois fatores: o crescimento da economia e o sucesso em desempacar determinadas reformas estruturais encalacradas, como a da Previdência. O crescimento econômico obviamente deriva da mais favorável conjuntura internacional em 20 anos, para as exportações e o câmbio brasileiros; é difícil elogiar o PT por uma política econômica que é basicamente igualzinha à do governo Ph.D. E, yo, coisa mais fácil do mundo aprovar reformas se você simplesmente vai ao supermercado de deputado safado e compra os votos de que necessita. O escândalo não só coloca em dúvida a competência do governo para governar agora como requer que a gente reavalie o seu histórico. (E torna a hipocrisia das ações do PT contra os seus dissidentes internos como a senadora Heloísa Helena ainda mais insultuosa –como eles pretendem conciliar a expulsão de membros que defendiam posições históricas do partido e a compra de votos a deputados de partidos coligados? Alegar questão de princípio em uma ponta deveria proibi-los de recorrer a expedientes calhordas na ponta oposta, oras.)
Encerro apontando para um momento de ironia cósmica, justiça poética ou puro e simples “deus castiga”: que um partido de retórica notoriamente grotesca e pobre como a agremiação que ora nos governa com indubitável sapiência entre pelo cano em um escândalo chamado “Mensalão”, ô, não tem preço. (E o governo totally merece sifu com palavra que parece saída de letra do ministro Raul Gil, nosso maior especialista nim rima em "ão".)
Lots of life, no style

"But what about goats?"
Americano adora usar a palavra “lifestyle” pra designar fenômenos “sociais” que vão das modas mais transitórias a uma reunião entre 17 pessoas que gostam de unha encravada nos fundos de um supermercado em Boise, Idaho. Quarenta ou 50 anos atrás, o sujeito que defendia uma causa qualquer, meritória ou não, batalhava em silêncio por muito tempo até que a mídia se dignasse a “acatar” a questão que o grupo dele propunha defender. Agora, em função do vertiginoso apetite por notícias preferencialmente descartáveis, a mídia chega para cobrir a fundação da Associação dos Portadores de Tic Nêuvozu de North Bumfuck, New Jersey, mais ou menos umas duas horas antes do primeiro esgar. “Ewall B. Twitchy, que perdeu o emprego como mágico em festa infantil porque seus 37 tic nêuvôzu assustavam as criancinhas, está processando seu antigo empregador, um bufê chamado PartyTrics, alegando que os rictos e esgares são uma condição médica e não deveriam cercear o exercício de sua profissão. ‘I’m good with kids’, diz Twitchy, com um súbito arregalar de olhos seguido por contorção bucal”.
As mulé que se sentem cerceadas no direito de amamentar seus bebês em local público, por exemplo, adotaram o apelido “lactivistas” e fazem manifestações conhecidas como “nurse-ins” niquiq dão o almoço do Joãozinho em via pública. Elas organizaram uma campanha de nurse-ins, e cartas e e-mails de protesto, à rede de cafés Starbucks -na qual algumas unidades pediam às lactantes que amamentassem os bebês no banheiro-, usando como lema a frase “não existe combinação melhor do que café com leite”. Se fosse no Brasil, meu torrão natar, ia aparecer um monte de sem vergonha esticando a xícara na direção da manifestante e ainda pedindo “sem nata”, mas, dada a impecável correção política das firrrma americana, as manhês venceram e a amamentação está liberada em todas as unidades da rede Starbucks.
Porque tenho pouco tic e não pretendo amamentar o Fudilsinho, minha reação diante desses, er, estilos de vida é “more power to then”. (Protestar contra mulé de peito de fora não seria consistente com a minha filosofia, anyway). Mas deveres profissionais me conduziram dia desses a um encontro com o mais bizarro dos “estilos de vida”, o dos assexuados. Um artigo do NYT explica que se trata de pessoas que não sentem desejo sexual (ainda que o presidente de uma organização de assexuados explique que masturbação num tem pobrema: ser assexuado, nesses termos, é não sentir atração sexual pelos OUTROS). Não é dos fenômenos mais estudados –o artigo mesmo diz que só existe um estudo publicado sobre o tema- mas pelo menos um dos especialistas entrevistados relata que, na clínica que ele dirige, a queixa de 75% dos pacientes é a falta de qualquer impulso sexual.
Supostamente deveria ser causa de piada, mas it gives me the creeps, pra ser franco –a idéia de não sentir desejo. A primeira comparação que me ocorreu (confirmada no artigo por um psicólogo) foi a de que não sentir nenhum desejo sexual é como não sentir fome (ou seja, impossível). Se é que esse “estilo de vida” efetivamente existe, e não constitui simplesmente mais uma das milhões de desculpas que todos nós encontramos quando ou porque furumfamos pouco, ou mal, deve ser uma das sensações mais tristes do mundo –nada de coração descompassado quando o primeiro botão se abre, nada de pensar “eu te chamava de torre Eiffel e te escalava todinha” quando passa uma morena linda na rua, nada de ignorar o telefone e deixar queimar o macarrão porque –graças ao Viagra- valor mais alto se alevanta.
Por mais que seja triste o meu estilo de vida –sou, er, membro fundador da Associação dos Assexuados Involuntários do Jardim Joanete- pelo menas no meu caso quem não quer são as prospectivas parceiras. Thank God for small mercies.
June 09, 2005
You say toma(y)to...

"...and I say toma(h)to"
Quando eu tinha seis anos, plantei um pé de tomate em um vaso. O vaso ficava no “quintal”. O quintal, tecnicamente, não deveria ser chamado de quintal, porque era um terraço. (A casa em que eu vivia ocupava o segundo pavimento de uma construção que -no térreo- abrigava um depósito de bebida mulambenta –gasosa, cerejinha, laranjinha, tubaína. De modo que o que chamávamos “quintal” era na verdade um terraço por trás da cozinha.) No quintal, minha vó, que vivia com a gente, tinha uma meia dúzia de vasos, aos quais acrescentei meu mirrado tomateiro. Era lá, também, que eu guardava o meu trator Bandeirante. As idéias de marketing das firrrma que faziam brinquedo eram bem toscas, back then –um trator de pedalar? Just my luck, aliás –no mundo das Tonkas e velocípedes (eu era –e sou- fascinado pela palavra “velocípede”), tico-ticos e bicicletas, só eu tinha um trator. Trator Bandeirante.
Seis anos. Eu estudava à tarde, mas ainda assim acordava cedo, tomava café, ajudava minha vó a tirar a mesa, e depois me aboletava à mesa da cozinha para “fazer lição de casa”, aka “ler gibi mal escondido dentro do caderno”. As cadeiras tinham aquelas pernas finas, de um metal preto frágil como coração de menino, e eram recobertas de plástico vermelho. O tampo da mesa era de fórmica, verde. Os azulejos brancos da cozinha, portanto, eram o elemento que faltava para criar um universo pictórico italiano (e cara que escreve “universo pictórico” termina dando aula de artes em universidade capixaba*). Fazia sentido porque, ainda que eu não soubesse, aquelas americaníssimas revistas Disney que eu lia sem o menor pudor ideológico eram quase todas desenhadas na Itália. Assim que minha vó se distraía um pouquinho, eu escapava da mesa da cozinha e ia pro quintal. Sentava no trator Bandeirante e ficava olhando o pé de tomate, depois de regá-lo cinco vezes mais do que ele precisava ou queria. Esperando o tomate crescer.
Eu nunca mais tive uma planta. Meu pé de tomate durou uns três anos, e a cada safra propiciava uma meia dúzia de tomates que eu arrancava ainda pequenos, verdíssimos, e comia com sofreguidão –tomate cortado ao meio, com sal, como faço ainda hoje. Minha vó morreu há muito tempo. Meu pai. A tia que era a única pessoa a quem eu oferecia uma mordida dos meus tomates. A casa foi derrubada –mesmo a avenida em que ela se localizava mal sobreviveu. Não sei se ainda existe cerejinha, laranjinha ou tubaína. É bem provável que aqueles tomates tenham sido a coisa que esperei com mais ansiedade na vida. Sinto falta dessas coisas e pessoas todas, sim, à minha maneira adulta e um tanto fria. Saudades. Lembro delas com freqüência. Se eu fosse pretensioso, inferiria que o tomate mirrado daquele vaso talvez seja a minha madeleine. Mas o que eu perdi nas décadas que me separam do pé de tomate, do trator Bandeirante e dos gibis foi exatamente a capacidade de esperar com monomaníaca concentração, e a certeza de que eu seria capaz de fazer o tomate crescer com a força do meu desejo, do meu olhar. Se o Fudilsinho que plantou aqueles tomates me visse hoje, o veredicto sairia na hora: jaded, adulto, bundão. Useful to get that learnt.
* E a bunda.
Here's to you, Mrs. Robinson

"Come hither" look, Bronx-style
Uma das muitas coisas de que não gosto em The Graduate é a idéia de que qualquer portador de XY preferisse aquela filha com cara de pão doce de véspera a Mrs. Robinson, interpretada com predatória alegria pela diliça Anne Bancroft. Ô, que sogra, meu são jizuis! Nascida Anna Maria Louise Italiano (o que explica aqueles olhos), dona Bancroft oferece a perfeita mistura de classy broad e someone in specs you can talk to que, pra sujeitos românticos com os quatro pés no chão, como eu, é peculiarmente irresistível. Além disso, a mistura de diva do néo-realismo (a atriz mais parecida com Bancroft é certamente Anna Magnani) e engraçadinha do Bronx explica bem um dos 500 motivos pelos quais ela sempre falou-me ao coração.

Anne Bancroft (1931-2005)
Todo mundo vai preferir lembrar de Bancroft pelos filmes “sérios”, e por The Graduate, mas meu amor pelo cinema Z me obriga a apontar aqui pérolas de seu início de carreira na Fox, tais como Gorilla at Large e Demetrius and the Gladiators. Eu não sei exatamente qual é o melhor filme da longa carreira de Bancroft, mas meu preferido pessoal é The Prisoner of Second Avenue, baseado em peça de Neil Simon, niquiq ela interpreta a mulé infinitamente compreensiva de um Jack Lemmon em momento de colapso nervoso. A cena final, na qual chega a vez dela de sofrer colapso nervoso, é uma pequena pérola da comédia –Bancroft imita o chilique de Lemmon até o mínimo esgar, e é fácil perceber o esforço dele para não cair na gargalhada. Se essas coisas não bastassem pra explicar meu apreço por dona Bancroft, que morreu segunda-feira, resta sempre o fato de que, yo, ela casou com Mel Brooks. Ou seja, por uma vez o mulerão optou pelo funny guy.
Ego-Trip

Grazie tanti, cês tudo
“Quando eu contratei o Fudílson, achava que pagaria um salário e ele exerceria três funções, mas ele logo me ensinou o que quer dizer poli-inválido”, (de um ex-chefe).
"Nossa amizade começou muito bem: fiz um elogio à irmã do Fudílson para o próprio, sem saber que ele era irmão dela. Depois de quase vinte anos de fisioterapia intensiva (em razão das seqüelas daquele comentário), continuamos amigos, mas nunca mais elogiei a irmã dele e mantenho uma distância segura e respeitosa lest he remembers that. Noves fora, não há nada a dizer, já que elogios estão proib...", (de um velho e alquebrado amigo).
“O Fudílson me ensinou que o ciúmes é um sentimento desprezível, antiquado, irracional e contrário à natureza humana. Especialmente se for das outras namoradas dele”, (de uma moça que não quis namorar comigo).
“Se eu tivesse que escolher um irmão... escolheria o meu irmão. Quem é Fudílson?”, (de um amigo que me chama de irmão quando quer dinheiro emprestado).
“Fudílson, best company to walk with along Charing Cross road, along London streets, Rome's streets, Verona's streets, Ravena's streets, Firenze's streets....Sao Paulo streets”, (de uma amiga com que eu costumava mindingar esmolas).
“Em nossa primeira conversa no chat do UOL, há 9 anos, eu usava uma Lettera 22 portátil, acoplada com barbante à lata de Nescau que fazia a conexão. O monitor era uma Colorado RQ, de 14 polegadas, e o navegador, o Cabral 1.5, nunca ia direto ao endereço digitado. Permutamos chistes e galhofas, entremeados de ‘hom´essa!’, ‘cáspite’ e ‘caluda!’, e acabamos ficando amigos -mas tão amigos, que desde então vimos generosamente nos poupando de qualquer convivência”, (de um amigo com quem sempre terei Petrolina).
“Mano sempre preferiu suas irmãs fictícias do que eu. Não gosta de me apresentar para os amigos e prefere pensar que é filho único. Mano Urso roubava minha mamadeira e quebrava minhas bonecas e uma vez tentou rachar minha cabeça com o braço engessado.Ele é o preferido da mamãe e mimado como a peste. Nem sei porque gosto dele, devo ser masoquista...”, (da minha irmã, que tem pobrema).
“Fudílson é o postador maluco no cio”, (de um leitor e autor de blogger bem melhor que o meu).
“*virando os olhos*”, (de uma moça que eu não etc., não).
“Conversar com o Fudílson é fazer arqueologia musical e política sofisticada, com críticas malvadas aos inocentes-inúteis e admiração lógica aos gênios -não muito raramente, um gênio para a maioria era um inocente-inútil-cara-de-pau, ou vice-versa, na opinião do Fudílson”, (de um grande guitarrista).
“He has a knack for being there when you fuck up, and he’ll never let you forget it. (To know him, of course, is to love him, and I dare you to cut that out, you prick.)”, (from a girl I love).
"Ser amiga do Fudílson Noronha é aquela coisa relativo-quântica: independe do tempo e do espaço, ou seja, a experiência é, flui e segue adiante (espero)”, (da minha médica predileta).
“Eu conheço o Fudílson há 23 anos. Não faço a menor idéia de por que continuo falando com ele”, (de um amigo santista).
“Fudílson é assim mesmo, do jazz a reginaldo rossi (ou seria odair josé?), de manuel de barros a yeats. elogio não pode, ou serei descartada - nós: eu e o elogio. isto não é um elogio, mas uma mulher tem que dizer o que ela tem para dizer - xuxu, você é essa imensidão de possibilidades”, (de uma amiga que como eu acha Paulo Coelho um gênio).
“Ele foi meu primeiro chefe. Me ensinou muito. Nunca mais arrumei um emprego”, (do sobrinho-neto de Kim Jong-il).
“Quando eu tinha 10 anos e ele estava me ensinando a tocar violão, Fudílson me explicou que acorde de nona só dava pra tocar em violão de 12 cordas. Ele continua assim”, (de um contrabaixista nêuvôzu).
“Trabalhamos em dupla durante 18 meses e ele nunca me cantou. Viadinho”, (de uma diretora de arte que eu gostaria muito de ter cantado).
“Being a drummer in his band, a sidekick in his posse and the nigga in his crew is really da bomb. My favorite honky”, (do baterista mais cabeça do mundo).
“Fudílson enriqueceu meu vocabulário com palavras como ‘cocréti’, ‘semaulfo’, ‘puliça’ e ‘niquiq’. Want me to use them in a sentence? ‘Niquiq peguei o cocréti, parei no semaulfo e chamei a puliça’. Só ele pra fazer São Paulo parecer divertida”, (de uma pretensiosa amiga carioca).
“Noronha é uncanny, e conhecer o quê e quanto ele sabe é um boqueabrir-se permanentemente, procurar e não encontrar palavras”, (de uma amiga que tem mais generosidade que juízo).
“Fomos juntos a um show no Centro Cultural e um sujeito tentou vender livro de poesia ao Fudílson. Ele recusou, e o sujeito me olhou e disse, ‘bom, ele já está acompanhado de um poema’. Fudílson me chama de ‘meu poema’ até hoje. Meu marido morre de ciúmes”, (assinado “desesperada da Estação Saúde”).
“A tela do meu computador é que sofre quando leio os e-mails do Fudílson. Um conselho: melhor evitar café ou refrigerante na hora em que lerem o que ele escreve”, (de uma ex-freguesa who gives great e-mail).
“Desde que eu o conheci meus amigos se perguntam o porque do meu olhar estranho e vago diante de objetos aparentemente tão inocentes como uma régua T, ou uma cadeira da Bauhaus”, (de uma arquiteta enófila).
“You won’t know Fudílson as well as you ought to until you hear him singing The Who’s ‘I’m a Boy’ in the shower”, (from a former girlfriend who’s not much into showering).
“Ele toca. Ele canta. Ele escreve. Ele traduz. Ele edita. Agora me disseram que ele também desenha. Podia aprender a fazer alguma coisa direito”, (de uma amiga famosa por ter tentado refogar pepinos).
“apesar dos quase dois metros de altura, some com uma facilidade”, (da mais amada subrinha).
“Se o prazo é apertado, se a situação tá preta, se a luz no fim do túnel é o trem chegando, Fudílson pelo menos vai garantir que todo mundo morra rindo”, (de um amigo em era de prazos apertados, situações pretas e trens descarrilados).
State of the Onion

Pin-up, Filthy-style
Confrades, confreiras, dignatários e descamisados, é chegada a hora de prestar contas. Compréto hoje mais um ano de mandato como supremo líder infalível da próspera e feliz Terra Noronha. Houve obstáculos? Sim. Mas houvemos por superar os trupicões da sorte e continuamos a galgar o Mons Veneris da felicidade. Sem a ajuda de vocês, confrades, confreiras, a escalada teria sido mais difícil; o ar, ainda mais rarefeito; a sede, mais intensa; o dógão, um real mais caro.
Não fora o amparo de suas mão peluda, correligionários, a consecução dos nossos objetivos para o exercício 2004/5 provavelmente teria sido impossível. Em 9 de junho do ano passado, prometemos que as calças cresceriam em dois números no exercício que então se iniciava –missão cumprida. Prometemos que manteríamos em 14 o número de dentes ora operacionais, e tecnicamente quase conseguimos. Nossos objetivos financeiros incluíam uma redução de 30% nos cheques sem fundos, em termos de volume –mais uma promessa quase cumprida!- e um acordo que removesse o nome da nação do SPC, infelizmente impossibilitado devido a uma conjuntura internacional desfavorável.
A Terra Noronha ganhou um tapete novo, dois sofás Marabrás, um pôster da Lídia Brondi, e um calendário extremamente decorativo, cortesia da Nogueira Materiais de Construções. Pagamos a conta de luz durante 10 dos últimos 12 meses, e a geladeira –consertada- hoje abriga quilo e meio de acelga em lugar de pilhas amareladas de revistas EleEla e Status. Na guerra da educação, completamos o curso de eletroténico do Instituto Universal Brasileiro, mas admitimos que persistem os pobrema estrutural no que tange a ortografia e concordância.
Em 2004, havíamos prometido arrumar emprego de carteira assinada e largar o trabalho com o Adírso do carreto, mas a alta nos preços do petróleo e o calote argentino nos levaram a adiar por mais um ano essa reforma estrutural que sabemos crucial para o avanço das nossa prostituição. O pograma de ampliação dos recursos genitais empreendido em parceria com o setor privado, representado pelo conglomerado sueco The Extender, resultou em ganho de cerca de um centímetro, menas no inverno, e o pograma de recuperação de áreas descapilarizadas obteve hirsuto sucesso, desde que não entremos na piscina.
Há muito, sim, a comemorar, confreiras, co-irmãos, e caso eu continue a merecer sua confiança por mais um exercício prometo que não deixarei pedra sobre pedra (com as pedra que me lançaste, quebrei a cravica) na apuração dos escândalos que vêm recentemente conspurcando o pundonor da nossa diministração. Cuequinha que mamãe cerziu não mais enfeitará as páginas amarelas do jornalismo marrom. Em 2005/2006, cresceremos 15 centímetros verticalmente e uns cinco nim ôtra direção, e exigiremos da comunidade internacional que passe a nos chamarmo-nos de “estrábico”, porque vesgo é o caralho.
Encerro com agradecimentos aos meus mais leais subordinados, os noronho Mussum e Tição, e renovando meus votos de gratidão pela confiança em mim depositada (conta 666², agência 24, Montepio da Família Evangélica de Nossa Senhora dos Quatro Caralho). Que o diagnóstico final sobre mais um ano de vitórias caiba à mais competente, longeva e imparcial das observadoras: “Uma coisa que eu sempre achei impressionante é como um moço tão bonito pode ao mesmo tempo ser tão inteligente. E nem é porque ele é meu filho”.
Vejo-os de novo em 2006
June 08, 2005
Num faz, e ainda assim rouba

"Governar é superfaturar viadutos"
As pessoas “politizadas”, no Brasil, costumam, craro, ser de esquerda –ninguém que não seja de esquerda usaria uma palavra horrorosa como “politizado” pra se descrever. E entre os politizados paira sempre aquele ar de horror incrédulo para com o povo, porque o povo é “ingênuo”. O argumento chave dos politizados pra explicar o apego do povo a figurinhas difíceis como o engenheiro Paulo Maluf é que a patuléia, “ingenuamente”, ainda acredita no velho chavão do “rouba mas faz”. E, porque o “rouba mas faz” é ingênuo –e anátema- os esquerdistas brasileiras terminam sempre com uma fórmula que, se expressa francamente, poderia ser resumida em “faz que faz, mas pelo menas não rouba”. E esse “pelo menas não rouba” é motivo de imenso orgulho entre os sábios proponentes da, er, “cidadania”.
Tenho uma mui querida amiga que por alguns anos, antes de emigrar, trabalhou no ramo de planejamento urbano em Sumpaulo. Entre outras coisas, o trabalho dela envolvia visitar essas comunidades pitorescamente batizadas como “Jardim Sapo”, “Vila Joanete”, “Cidade Caó”, e perguntar à patuléia local de que os moradores mais sentiam falta em seus bairros. A resposta era sempre “puliça”, em primeiro lugar, e “açougue”, em segundo. Claro que os politizados ignoravam solenemente as duas coisas –a primeira porque puliça é atribuição do governo estadual e eles representavam o município (o que faz muita diferença pros assaltados, let me add), e a segunda porque pedir açougue pra prefeitura, como votar em cara que rouba mas faz, era evidentemente expressão da tremenda ingenuidade do povo –se bem possa representar também que a pesquisa foi feita na hora da janta.
Já eu, que nasci mulambento e trabalhei em lava-rápido, não vejo ingenuidade nenhuma nessas opções. É assim, ó: o populá sabe que, inevitavelmente, o político vai roubar. É da natureza da política brasileira, e pouco importa o partido. O cara que “rouba mas faz” faz alguma coisa e, mesmo que seja viaduto superfaturado do nada pra lugar nenhum, o populá decerto já considerou a hipótese de um dia ter de morar embaixo de viaduto: esse tipo de obra é como um seguro contra o desabrigo. Em resumo, pra muita gente que escolhe o “rouba mas faz”, a presença física da obra representa alguma coisa, enquanto o tipo de prioridade que muitos governos de esquerda propõem, as obras “sociais”, uh oh. Porque o populá sabe como é tratado pelos funcionários públicos e nos serviços públicos quando o governo é de esquerda: igualzinho a quando Genghis Khan era prefeito. Quer dizer, sob critérios perfeitamente racionais, muita gente prefere obra cretina a programas sociais, porque a dinheirama gasta deixa alguma coisa. Não é ingenuidade: é puro amargor.
Enquanto isso, os politizados que não acham que a demanda por puliça e açougue mereça atenção desenvolvem, claro, um plano urbanístico caracterizado por essas coisas que esquerdista adora, assimquinêim centro cultural. Basta vagar um barracão em qualquer periferia que aparece um esquerdista querendo fazer centro cultural. Porque, yo, o populá com certeza vai querer sair de casa onde tá vendo Yoná Magalhães seminua em Irmãos Ferrugem pra fazer um curso de mamulengos. Ou aprender a dançar o lumbago. Ou assistir a uma oficina de artesanato típico do Piauí (tudo que se pode fazer com uma combinação de areia e caveira de burro).
Por isso é que é divertido ler as desculpas esfarrapadas dos petistas agora que começam a surgir todas essas denúncias de que o virginal partido, além de não fazer porra nenhuma, também rouba. Vamos ver se eles se lembram das técnicas cumunistas que decoraram quando eram membros da Libelu(ftal) e partem pra autocrítica. Só espero que não seja em praça pública porque vai voar muito, muito perdigoto.
June 07, 2005
Quando mulé dança nua, chove sapo

Large and in charge
Família unida: Na Carolina do Sul, Marty Cox, 47, sofreu um ataque cardíaco fatal quando estava tentando socorrer o pai, Carlton Cox, 75, que sofreu um ataque cardíaco fatal. A ambulância que Cox chamou antes de morrer colidiu contra um poste, e a ambulância que foi chamada para socorrer os para-médicos da primeira ambulância foi atingida por um raio, que causou incêndio. Infelizmente, o primeiro caminhão de bombeiros a chegar ao local pegou fogo, e o segundo... You know how it goes. Como bom descendente de sicilianos, ninguém mais que eu acredita em família unida, mas, yo, “tal pai, tal filho” tem limites.
Dressed to protest: Jeremy D. Kerr, professor de sociologia que foi expulso de dois restaurantes em Lexington, Kentucky, porque estava vestido de mulé, agora está processando o Georgetown College por discriminação já que a instituição não renovou seu contrato depois que surgiram boatos de que ele andava pela cidade vestido de Dolly Parton. Kerr diz que usa roupa de mulé regularmente para demonstrar “a redução geral da feminilidade em nossa sociedade”. Pô, mano, não tem nada mais tradicionalmente masculino do que se vestir de mulher (eu mesmo usei vestido e atendia pelo nome de “Sheylla” até os 17 anos), mas precisa mesmo da desculpa sociológica? A sigla do Estado é KY, for cryin’ out loud.
Dança da chuva: Em prática que com certeza conta com a mais ampla aprovação dos bravos co-irmãos nepaleses, 100 mulheres decidiram dançar peladas na aldeia de Darbang, cerca de 280 quilômetros distantes da capital Katmandu, para ver se atraíam chuva. Um transeunte local explicou que “o deus hindu Mahadev fica feliz quando vê mulé dançando peladona, e faz chover”. Uncle Filthy vai abrir ainda hoje uma franquia desse culto a Mahadev.
Stick shift: Na Itália, um sujeito cuja carteira de motorista havia sido revogada porque ele é gay reconquistou o dicumento em apelação, e agora quer indenização de 650 mil dólares. O qüiproquó todo começou porque as otoridad disseram que, se ele não era macho o bastante pra servir o exército, não era macho o bastante pra dirigir. Tanto Alexandre Magno quando Ayrton Senna decerto aplaudiriam a sapiência dos discípulos de Benito.
Magnólia e o leitão: Na aldeia de Odzaci, Sérvia, choveu sapo um dia desses (vai ver que as peladonas nepalesas erraram a letra). O pessoal tava lá sentado na praça, torturando uns bósnios, e de repente surgiu uma estranha nuvem que despejou milhares de rãs sobre a aldeia. Slavisa Ignjatovic, especialista em fenômenos climáticos, diz que um redemoinho provavelmente carregou os sapos de uma lagoa próxima e os despejou na cidade, e que se trata de um fenômeno científico conhecido. Vamos ser se ele explica a olimpíada suína que aconteceu recentemente no porcódromo de Moscou, com direito a corridas e partidas de “porcobol”. Sergei Knyazev, vice-presidente da Federação de Porcos Esportivos russa, explicou que os criadores não haviam conseguido treinar os porcos a chutar em gol, e por isso o porcobol é uma espécie de rugby. Alguém parece que bebeu, nessa história, e acho que não foi o porco.
Built for Comfort: Em Ulianóvsk, Rússia, três malfeitores invadiram a casa de uma senhôura de 41 anos para um assalto. A dona de casa era fortinha (120 quilos) e inicialmente ficou sem ação, mas quando os caras começaram a vasculhar o apartamento em busca de objetos roubáveis ela se jogou em cima do elemento que estava mais perto (os outros dois, apavorados, fugiram) e ficou sentada em cima dele durante uma hora, até a chegada da filha, que chamou a puliça. Só os policiais convenceram a dona a sair de cima do ladrão, jovem de 20 anos portando arma de brinquedo cujos braços e pernas ficaram roxos de inchados depois do suplício. (Quem lê inglês deveria clicar o link, porque o texto do Pravda no idioma de Shakespeare e Sandy é uma pérola literária –“120-kilo woman defends her home from burglars mightily”.
June 06, 2005
P de Pedofilia

"Let me undo your utility belt"
Eu não sei como os geeks que escrevem quadrinhos deixaram escapar a oportunidade oferecida pelos escândalos de pedofilia dos últimos anos, mas se eu trabalhasse no ramo, o próximo roteiro inevitavelmente seria “Batman: The Trial”, as follows:
Ninguém sabe o que acontece com Menino Prodígio quando deixa de ser menino; meu pressuposto é que, quando Robin deixa de atender às, er, “necessidades especiais” do Homem Morcego, este usa algum truque secreto do arsenal tecnológico desenvolvido pelas indústrias Wayne com o dinheiro do contribuinte para fazer uma lavagem celebral no rapazelho, e reintegrá-lo à sociedade como se todos aqueles anos pegando no bat-bumerangue não tivessem acontecido.
Robin, sem passado, sem profissão definida, e habituado a usar aquelas roupinhas coloridas e colantes, com a cueca pro lado de fora, vai cambaleando de fracasso em fracasso –prostituição, drogas, petty crime. Termina homeless e, em uma tentativa de assalto contra uma espécie de Jerry Springer que estava cruising pelos becos da Gotham à procura de diversão, é capturado pelos guarda costas do apresentador sensacionalista, e reconhecido por ele (que tem tara por garotos vestidos de super-herói).
O proto-Springer banca o tratamento do ex-Menino Prodígio para que este recupere a memória, e convence-o a denunciar Batman por pedofilia, assédio sexual, e como escravocrata, revelando a identidade secreta do bilionário Bruce Wayne, para desespero do Coronel Cintra. O escândalo faz com que a população se revolte contra os super-heróis em geral –tremendo bando de freaks, afinal-, e a Cinta-Liga da Justiça decide, em reunião de emergência, que a única solução seria capturar Batman e colocá-lo em julgamento.
E se a DC quiser o resto é só escrever para a Fundação Fudílson Noronha de Achincalhe de Super-Heróis Pedófilos, aí no link ao lado.
The penguins are coming


Books do furnish a room!
Se a gente resolvesse aos 17 anos, no limiar da vida adulta, fazer uma lista comprétinha que nem a gaúcha Karla, 19, sobre as coisas que temos certeza nos acompanharão vida afora, 20 anos mais tarde quantas delas poderiam ser lidas sem despertar acesso de riso? Pois é. A minha fica resumida a dois itens: sorvete e livros da Penguin –se bem que agora eu até tenha dinheiro pra comprar livros menos baratos.
Este ano, a Penguin completa 70 anos de competência a preço acessível, e comemora com uma série de 70 livros fininhos e com capas como sempre impecáveis trazendo a fina flor dos autores que compõem seu descomunal catálogo, a 1,50 libra cada. De D. H. Lawrence a Alain de Botton, passando por Plum, Steven Runciman, Jamie Oliver e Flaubert, livro pra todo gosto (e a caixinha com os 70 sai por 70 libras no site da Penguin, link acima).

Penguin mobile library, circa 1950s
Além da série comemorativa, a editora está lançando também Penguin by Design, de Phil Baines, uma coletânea e estudo do design gráfico das capas da Penguin em seus primeiros 70 anos (cuja capa, aliás, podia perfeitamente ser uma foto da minha estante), e Penguin Special, biografia de Allen Lane, fundador da editora, por Jeremy Lewis.
Quando Lane decidiu criar a Penguin, em 1935, seu projeto era vender bons livros ao preço de um maço de cigarros, e é mais ou menos isso que a editora continua fazendo, passados 70 anos. Livro da Penguin é garantia de edição cuidadosa, revisão impecável, os melhores tradutores do mercado -no caso de originais estrangeiros-, notas informativas e completas, capas no mínimo simpáticas. E tudo isso por metade do preço que eu costumava pagar por tradução brasileira podre, capa horrenda, completa ausência de notas, índices excluídos para economizar papel.
Não faço nem idéia de quantos escritores conheci por graça da Penguin, mas minhas estantes continuam lotadas da simpática ave. A idéia de Lane, que muita gente acreditava fosse o dobre de finados para o mercado editorial britânico, na verdade colocou muito mais livros ao alcance de muito mais gente em muito mais países. Sem a editora, eu seria ainda mais burro. Feliz aniversário, pingüim.
The Biggest Brother

"I knew I was getting out as quick as possible after the war was over"
Tô lendo The Biggest Brother, uma biografia razoavelmente pífia do major Dick Winters, imortalizado na minissérie Band of Brothers, da HBO. O autor, Larry Alexander, comete dúzias de errinhos técnicos profundamente irritantes para quem é WW2 buff como eu –se bem que, suponho, inócuos para os “amadores”. De qualquer jeito, é interessante porque mostra um tantinho da vida de Winters antes da guerra, e dedica suas 50 páginas finais à vida pós-heróica de um sujeito que, de acordo com uma meia dúzia de definições do termo, certamente foi um herói.
Um dos riscos de se escrever história em microcosmo, como fez Stephen Ambrose em Band of Brothers, é criar uma impressão de excepcionalidade no que tange aos temas do trabalho –como se aquilo que “justificasse” o projeto fosse a singularidade da Companhia E, 2° Batalhão, 506° Regimento de Infantaria Pára-quedista. Eu sei, e quase todo estudioso do período sabe, que embora Winters e seus comandados fossem soldados especialmente treinados e membros de uma unidade de elite, as experiências deles na guerra se aplicam a literalmente milhões de outros soldados, dezenas de milhares de unidades. Nesse sentido, o heroísmo de Winters e de gente como o sargento “Wild Bill” Guarnere, o cabo Joe Toye, o sargento Don Malarkey, era moeda corrente na Segunda Guerra Mundial, e seus praticantes não eram encontrados apenas entre os exércitos dos “caras legais”. Diz o general William Slim, meu comandante inglês favorito na guerra, que pelos critérios britânicos quase todos os soldados japoneses mereceriam a Victoria Cross, maior honraria militar do Reino Unido.
Mas Winters não era só, ou primordialmente, um herói militar. O motivo principal de minha admiração por ele, aliás, é um causo tratado em “The Patrol”, antepenúltimo episódio da minissérie Band of Brothers. O comandante do regimento solicita uma patrulha na margem oposta de um rio alsaciano, ocupada pelos alemães, em busca de prisioneiros. Winters, em comando do batalhão, não gosta muito da idéia e duvida que seja possível capturar prisioneiros que ofereçam muitas informações, mas despacha a patrulha mesmo assim. A operação é um “sucesso”: três prisioneiros capturados, um soldado americano morto. Na noite seguinte, o coronel ordena nova patrulha, no mesmo local. Winters, sabendo que os alemães estariam prevenidos, simplesmente finge que a patrulha foi realizada, mas deixa que os soldados fiquem dormindo do lado “amigo” do rio. Na biografia, o major, sempre modesto e realista, explica: “Bom, eu não pretendia continuar no exército depois da guerra, ou teria decidido diferente”. Mas ainda assim optou por desobedecer ordens e preservar as vidas de seus comandados, porque sabia –era fevereiro de 1945- que não valia a pena pedir que se sacrificassem por aquele tipo de objetivo.
Esse heroísmo modesto, caseiro, esse exercício de sensatez e consideração em meio ao matadouro da guerra, explica a devoção com que os soldados da Easy Company e do 2° Batalhão seguiram Winters durante toda a campanha do Noroeste Europeu. E a consciência de que a guerra acabaria e de que o mais importante era que vida construir depois que os canhões se calassem diferencia Winters do herói militar prototípico, e o aproxima ainda mais da massa enorme de sujeitos que se tornaram soldados –heróicos e covardes, eficientes e trapalhões- for the duration. Em nossa era de exércitos profissionais e de armas de alta tecnologia que matam por controle remoto, Winters, e os milhões de outros soldados que ele representa, são o Grilo Falante que faz lembrar que os melhores soldados sempre foram civis de uniforme.
June 05, 2005
Auto-ajuda e o robô cagão

What a crappy thing to do
Eu nunca tive coragem de ler um livro de auto-ajuda, apesar de considerar que a experiência deve ser informativa e hilariante. Mas tem alguns clichês do ramo que flutuam por aí e sempre me deixaram intrigado. Por exemplo, aquela história do “se você quer mesmo ajudar, não dê um peixe: ensine a pescar”. Yo, Uncle Filthy já foi alvo dos esforços mendicantes dos melhores profissionais do ramo em uns quatro continentes, e nunca, nunquinha, o mulambento me abordou dizendo, “ô, bacana, me dá um peixe, aí. Uma manjubinha só serve. Aceito atum e sardinha em lata. Aceito até só a lata. Melhor pedir do que robalo”. Esse negócio de ensinar a pescar requer equipamento –o cara vai precisar de vara, de minhoca, de baubanti. E dadas as condições sanitárias das vias aquáticas nas cidades com maior concentração de mulambento, não vai ser ajuda das mais eficientes. Duas horas na marginal do Tietê com um pregador no nariz, e o samburá provavelmente vai registrar um total de capturas de um pé esquerdo de Conga, furado na sola, um pneu careca de Kombi e 127 bagres cegos.
Outra historinha exemplar do mundo da auto-ajuda (ou similar nacional) é a do sujeito cronicamente deprimido que procura um psiquiatra contando que se sente triste, desanimado, pensa em se matar, e o bizi recomenda: “Você deveria assistir o espetáculo do famoso palhaço Birnbaum, que está na cidade, porque ele te fará esquecer todas as tristezas”. E o cara suspira e diz, “eu sou Birnbaum”. Pô, que cazzo de biziquiatra é esse? O paciente chega deprimido ao consultório (código para “me receita logo um Prozac”) e a solução que ele recomenda é ir ao circo? Não só a receita parece abstrusa em termos médicos como, yo, esse cara vai tomar o mó ralo no sindicato dos shrinks porque não recomendou que o mano se preparasse para uma longa, longa terapia, coisa de cinco ou seis anos à base de três sessões lacanianas por semana.
E tem também aquela maravilhosa frase, “denial is not a river in Egypt”. É o que, então? Uma cidade no altiplano da Búlgaria? Um clássico desse discurso contra a negação é a frase “o vício é a solução, não o problema, e precisamos tratar do problema”, mui usada em preleção para gente que passou por experiências de detox. (Eu consigo perfeitamente imaginar o junkie, detido na boca de crack pelos bravos agentes da polícia de Nova Jersey, alegando “opa, mas o mano do detox disse que o vício era a solução”. “Então você tem um pobrema”, retrucaria o sagaz meganha.)
Quando penso em auto-ajuda, lembro sempre de um dos sites mais bacanas em que trupiquei na Internet, o cujo qual divulga um autômato que passa 100% do tempo fazendo o que os seres humanos fazem durante marromenos 70% do tempo, trabalho tecnológico de notável criatividade. Auto-ajuda, da mesma forma que o robô cagão*, parece ou inútil ou ligeiramente insana, como os médicos maravilhosamente interpretados por Graham Chapman em programas do Monty Python. Prefiro me auto-ajudar pensando na imortal Nádia Lippi.
*E em homenagem aos criadores do RoboDump, aqui tem um quiz maravilhoso para ver quem consegue diferenciar serial killers de pioneiros da informática. Muito ilustrativo.
June 03, 2005
Should I Stay or Should I Go?

"A nuclear error, but I have no fear"
(By The Clash)
Darling you got to let me know
Should I stay or should I go?
If you say that you are mine
I'll be here 'til the end of time
So you got to let me know
Should I stay or should I go?
It's always tease, tease, tease
You're happy when I'm on my knees
One day is fine the next is black
So if you want me off your back
Well come on and let me know
Should I stay or should I go?
Should I stay or should I go now?
Should I stay or should I go now?
If I go there will be trouble
An' if I stay it will be double
So come on and let me know...
This indecision's bugging me
(Indecisión me molesta)
If you don't want me, set me free
(Si no me quieres, líbrame)
Exactly who'm I'm supposed to be
(Dígame qué tengo ser)
Don't know which clothes even fit me?
(¿Sabes que ropa me queda?)
Come on and let me know
(Venga, que me tienes que decir)
Should I cool it or should I blow?
(¿Me debo ir o quedarme?)
Should I stay or should I go now?
(¿Yo me enfrío o lo soplo?)
Should I stay or should I go now?
(¿Yo me enfrío o lo soplo?)
If I go there will be trouble
(Si me voy va ver peligro)
And if I stay it will be double
(Si me quedo es doble)
So you gotta let me know
(Me tienes que decir)
Should I cool it or should I blow?
(¿Me debo ir o quedarme?)
Should I stay or should I go now?
(¿Yo me enfrío o lo soplo?)
If I go there will be trouble
(Si me voy - va ver peligro)
And if I stay it will be double
(Si me quedo es doble)
So you gotta let me know
(Me tienes que decir)
Should I stay or should I go?
June 02, 2005
Letter to a girl about friends

"Somebody holds the key"
Thirty seven messages dripping oh so slowly into my mailbox –five of them are offers I can’t refuse to turn my Johnson into a Murggatroyd (have you met ‘The Extender’? Didn’t think so). Then the mortgage offers, about seven of them: you’d be glad to know, dear Ma’am, that your humble servant here has been pre-approved for a 402 grand housing loan (and I am particularly fond of the two thousand extra dollars they added there –this way I can feel safe regarding my well-earned superiority to the poor bastards in the 400,000 bracket). The guys from two banks I have no accounts with need me to update my data for security reasons (and one of them uses a “fireplug@gossipnet” return address). I’ve got a DVD player, an Xbox 360 and a lawn mower completely free of charge, and two foreign guys in trouble with their governments want my help to get access to lots of money stashed somewhere safe (‘you’re looking for trouble, you’ve come to the right place’, as the King used to say.) There’s also the usual assortment of Viagra and Ciallis derivatives (you blabbermouth! you tattletale!) discreetly delivered wrapped in brown paper, and very disturbing porn offerings such as ‘farm girls do it pig-style’. (Are you curious about pig-style? So am I, babe, so am I. And what about this strange obsession with farm girls? Why would a farm girl be a better you-know-what when compared to a city girl? Is it a veggie thing?)
Then there’s a magazine I dropped from my subscriptions around 1973 asking me for a new mailing address so that they can forward me some free copies –old soldiers don’t die, they just disappear, and old databases neither die nor disappear, or so my inbox seems to indicate. A so-called friend is still forwarding badly written jokes against whomever in DC or Brasilia to all the people in his address book, though I haven’t answered him in a year. Amazingly enough, three work-related messages came through amidst the dross. I check the message list twice and yeah, babe, this is the lot.
Do you realize we’ve been trading e-mails almost daily for, what, around 12 years now? (And, yeah, I still remember your Compuserve number-only addy, and the GEnie thing.) It’s not like we’re all Prussian about it, but a day without hearing from you is slightly more melancholy than it should. (‘Come on, punk, make my day’, as you’d very sopranino say, doing your utterly lame Dirty Harriet impersonation.) We were both much deeper when we were younger, or so it seems, Harriet dear, and of course enlightening messages such as “boffed. drunk. tomorrow.” won’t be part of our collected letters edition, but I still smile when I receive them. (In fact, I can hardly believe we used to talk highbrow stuff through the e-mail. What a donnish thing to do. Aw, shucks. Let’s drop this, shall we?)
So this is to lodge an official complaint, you skank, about not getting any from you today. As per the famous quote you used during you run for the Miss Princeton crown, tu es responsible de ce que tu as apprivoisé, or, as you so loosely and adroitly translated it, “you will forever be responsible for those you have ever boffed”. Now sit down that fat bahind of yours and get busy on the keyboard, Missy. Or else I’ll tell everyone about that persnickety nickname for your naughty bits.
Sometimes I feel that
my only friend

"Is the city I live in, the city of angels"
Alguém aí lembra de Heat, thriller que Michael Mann dirigiu em 1995? (O título brasileiro deve ser Cilada Fatal, ou Trama Mortal, ou Confronto Final.) É um daqueles filmes pensados tintim por tintim pra virar cult –elenco liderado por Pacino e De Niro, coadjuvantes de luxo como Val Kilmer, John Voight, Tom Sizemore, Diane Venora (sexy as usual) e Ashley Judd (loira e vamp), trama misturando elementos de noir e de heist flic. Apesar de tudo isso, e do talento inegável de Mann para filmar Los Angeles, Heat é meio morno. Quer dizer, se excetuarmos a participação muito especial de Amy Brenneman como parceira romântica do ladrão interpretado por De Niro.


Amy Brenneman (1964- )
Brenneman, atriz de seriado ruim de TV, no filme é vendedora em uma livraria, onde vê De Niro pela primeira vez; mais tarde, no bar, eles começam a conversar e, long story short, a natureza segue seu curso (that’s twice). Seria uma pick-up scene das mais fuleiras não fossem os olhos espantosos de dona Brenneman: quase parece que tem uma alma, ali. Mann é um desses cineastas “comerciais” que conseguem ao longo da carreira criar uma teia de trechos de filmes amarrados por um tema “sério” comum –no caso dele, o isolamento pessoal nas entranhas da metrópole. E Brenneman é o veículo perfeito para a combinação de solidão, vulnerabilidade and oh such a hungry yearning que o tema requer. Rouba o filme, em seus 15 minutos na tela. E, se você não gosta de thriller, ela também tá gostosinha no filme do Gasparzinho. Se a livraria ali perto de casa tivesse vendedora desse quilate, ô, eu até aprendia a ler.
O teu cabelo não nega

A bad hair life
Por mais que o marketing do cristianismo tenha insistido nesses dois mil anos, a vaidade continua a ser um dos sentimentos dominantes entre as ovelhinhas de são jizuis, e se manifesta em formas de maneira alguma limitadas às roupas ou à aparência. But we live in shallow times, my friends, e as vaidades de aparência são as mais perceptíveis. Não vou sair aqui em cruzada contra o Botox, os implantes de silicone, o branqueamento de dentes, o bronzeamento artificial, a lipoaspiração. Mas, pô, o ponto essencial da vaidade, methinks, é melhorar a aparência do cidadão. O que suscita diversos mistérios, entre os quais o tema do post de hoje: por que, em nome de são jizuis, o cara que tá ficando careca optaria por usar um chinó?
Uncle Filthy estava placidamente instalado no elevador, sem incomodar ninguém, folheando sua cópia da revista Vigília Caminhoneira; a porta se abre, entram dois sujeitos parrudões, de terno preto e camisa branca, shades, ar arrogante, braços cruzados à altura do peito, e, depois que eles sinalizam pro lado de fora, segue-os um sujeito que pareceria uma versão ampliada em 120% do Hervé Villechaize, não fosse um chinó escultural que acrescentava uns 30 gloriosamente falsos centímetros ao seu metro e 30. Aí, mais dois brutamontes vestidos de clone; o elevador desce.
No térreo, alguém comenta que se trata de um candidato sempre derrotado à presidência das Filipinas. Dude, será que ninguém avisou o tampinha aspirante a potentado que muito melhor a calvície do que aquele exótico espetáculo? Pensando bem, será que ninguém avisou Frank Sinatra, Burt Reynolds, Zacarias dos Trapalhões, Ted Danson, William Shatner, Donald Trump? O chinó –e equivalentes femininos como aquelas mulé que pesam 650 quilos e decidem pintar o cabelo de vermelho cobalto- é um argumento muito mais poderoso do que a religião, se o objetivo é combater a vaidade, já que o efeito prático do chinó é desmentir todas essas teorias de que, yo, o importante é a pessoa fazer alguma coisa que a leve a se sentir bem consigo mesma. Porque é mais honesto se olhar no espelho e admitir “careca” do que se olhar no espelho de chinó e achar que ninguém vai perceber. De qualquer jeito, sua caixa craniana vai servir como ponto de referência –e é bem melhor “ali, do lado do aeroporto de mosca” do que “ali, do lado daquele cara com o esquilo morto na cabeça”. Se a genética não colaborou, melhor não instalar uma placa em néon apontando para a disaster area.
June 01, 2005
Serenity Now!

Larry David (r) e Larry Charles, the brains behind
"Seinfeld" and "Curb Your Enthusiasm"
Eu sou consumidor compulsivo de humor –de quadrinhos no jornal a sitcom, de Mussum aos irmãos Marx, não passa um dia sem que eu dedique nem que seja meia horinha ao consumo do meu estupefaciente predileto. E a não ser que você seja um espectador muito, muito peculiar, é difícil negar que, de 1989 para cá, o panorama do melhor humor do mundo passa necessariamente por Larry David.
Pra quem trabalha no ramo do humor, especialmente se o cara é judeu e nasceu em Nova York, a figura tutelar dos últimos 30 anos tem de ser Woody Allen, um dos poucos comediantes que se deu bem em todas as áreas da disciplina –ele começou vendendo gags para os humoristas de night clubs, foi redator no lendário programa televisivo de Sid Caesar (em companhia de pesos leves como Carl Reiner, Mel Brooks, Neil Simon, Larry Gelbart), fez carreira como stand-up comic e terminou chegando ao cinema com What’s Up Tiger Lilly, um filme japonês de espionagem para o qual escreveu diálogos dublados antológicos.
Para a geração que o seguiu, portanto, Allen era o exemplo a ser emulado. E Larry David (nascido em 1947, 12 anos depois de Allen), de certa maneira incorporou ao seu trabalho porções essenciais da persona desenvolvida pelo predecessor –o sujeitinho ansioso e resmungão quintessentially Jewish, sempre razoavelmente desconfortável com qualquer que seja a situação em que está envolvido, compulsivamente neurótico e propenso à auto-ironia. Mas deu o passo à frente que Allen nunca teve coragem de tentar, e simplesmente abandonou qualquer ambição “artística”: os personagens de David, tanto o George Costanza de Seinfeld quanto “Larry David”, de Curb You Enthusiasm, em momento nenhum oferecem qualquer indicação de grandeza.
Allen sempre recheou seus filmes e contos de citações (ou paródias) cabeça –de Flaubert a Kafka, de Tolstói a Bergman. Com base no que David escreve, é impossível dizer se ele é culto ou não (pequenos indícios como as referências irônicas a Death of a Salesman ao longo das temporadas de Seinfeld ou paródias cinematográficas magistrais que às vezes passam despercebidas nos episódios indicam que sim, mas ele jamais faz uma citação explícita.) David opta por deliberada renúncia a qualquer vestígio de grandeza, seja moral, seja intelectual, seja de sentimentos. E –brilhantemente- faz com que todo mundo se identifique com os seus alter egos apenas por meio da patologia e da neurose. Os personagens de David não assistem Ophuls; discutem Star Trek: Wrath of Khan.
E a verdadeira grandeza de tudo que David escreve está exatamente na rejeição àquilo que é grandioso, e até mesmo à autoria (boa parte dos diálogos de Curb Your Enthusiasm são improvisados –e todo mundo que assiste Seinfeld sabe que David escreve os melhores diálogos do ramo). Para o humor de Larry David, não há temas proibidos, e a barreira entre “bom” e “mau” gosto que impera na televisão é solenemente ignorada. David faz piadas sobre raça e racismo, sobre religião, sobre dinheiro, sobre masturbação (dois dos melhores episódios em suas séries giram em torno do cinco contra um). E não perdoa nem mesmo os tabus mais cabeludos –em episódio da quarta temporada de Curb Your Enthusiasm, um rabino convidado a jantar na casa de David diz que vai levar um “survivor”; David entende que se trata de um sobrevivente do Holocausto, e pede ao pai que convide um amigo, também egresso dos campos de extermínio, para que o sobrevivente se sinta menos solitário. Turns out that o “sobrevivente” convidado pelo rabino era ex-participante do reality show Survivor, e é claro que David promove um patético arranca-rabo entre sobrevivente e survivor sobre o que é mais difícil, Auschwitz ou comer minhoca.
O trabalho de David nega, em episódio após episódio, o mito mais caro à arte e ao entretenimento modernos: em Seinfeld e em Curb Your Enthusiasm, não existe um vislumbre sequer de redenção. A vida não faz sentido, o mundo é terminalmente escroto, e você acaba preso, ou morto. Como disse David ao ser aplaudido de pé pelo merecido Emmy que ganhou com o roteiro de “The Contest”, episódio que celebra a punheta na quarta temporada de Seinfeld: “This is all well and good, but I'm still bald”.