May 31, 2005

 

Garganta Profunda


Linda Lovelace for President!

W. Mark Felt, 91, segundo em comando do FBI no começo dos anos 70, admitiu em entrevista à revista Vanity Fair que era ele o famoso “Garganta Profunda”, fonte anônima que divulgou segredinhos sujos do governo Nixon para os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein na investigação do escândalo Watergate. Felt estava no short list de suspeitos há alguns anos, se bem que os indícios mais conclusivos apontassem para Fred Fielding.

Eu admito que sempre tive grande curiosidade quanto à identidade da fonte misteriosa, como em geral tenho sobre todas essas complexas figuras que decidem denunciar, ou lutar de dentro, contra “o sistema” que as abriga e nutre. Os genes sicilianos que me predispõem a uma visão um tanto extremista do conceito de lealdade causam sensação meio ambígua com relação à idéia de aproveitar a posição que uma organização te confere pra minar essa organização. No entanto, sei, racionalmente, que é exatamente assim que funciona e, mais, que é exatamente assim que deve funcionar. Esse espectro do sujeito de lealdades divididas, cuja caracterização pode ir de “patrulheiro” a “informante” e chegar ocasionalmente a ”espião” ou “traidor”, é um fenômeno essencial do século 20, que eu sei lá se sobreviverá no novo milênio. (Tanto as otoridad quanto os veículos de mídia vêm restringindo e reprimindo seriamente o uso de fontes anônimas nos noticiários, por exemplo –os manuais de redação do NYT, do Washington Post e do USA Today foram recentemente emendados nesse sentido, e agora os funças que conduzem briefings para jornalistas em Washington autorizam que seus nomes sejam citados).

É como se a demanda feroz de “pureza”, seja ideológica, seja de crença, engendrasse inevitavelmente essa mixórdia de lealdades divididas em que todos mais ou menos vivemos, e tornasse inevitável a teia de ambigüidades, duplicidades, traições que a gente viu tantas vezes nos 100 anos passados –o privilegiado jovem de boa família britânico que passa 30 anos causando a morte de dezenas de colegas como agente comunista, o coronel do GRU que espiona pros americanos, o diretor do FBI que ajuda jornalistas a derrubar o governo que o conduziu ao cargo, o planejador do Pentágono que vaza documentos sigilosos para a imprensa a fim de tentar pôr fim à guerra que ajudou a criar no Vietnã, o empresário judeu americano que monta uma complicada operação para desviar plutônio dos Estados Unidos com o objetivo de alimentar a bomba de Israel.

Quando os americanos e os burocratas britânicos de médio escalão propuseram a idéia dos julgamentos de Nuremberg, ao final da Segunda Guerra, a reação inicial de Churchill foi como sempre irônica e percuciente: “Melhor não perdermos a próxima”. Porque o princípio instaurado em Nuremberg, o de que não se deve seguir ordens que conflitem com a ética ou a consciência moral do sujeito, por mais que elas venham pelos proper channels, abriu a porteira pra esses gargantas todos –correção de curso evidentemente muito necessária. Um dos heróis dos primórdios dos Estados Unidos, Stephen Decatur, propôs em 1816 um dos brindes mais idiotas da História –“Our country! In her intercourse with foreign nations may she always be in the right; but our country, right or wrong”- e a fórmula vem servindo, cada vez mais esfarrapada,pra justificar toda espécie de barbárie. Já eu prefiro a versão revisada por G. K. Chesterton, segundo o qual “’my country, right or wrong’, is a thing that no patriot would think of saying except in a desperate case. It is like saying ‘my mother, drunk or sober’”. Por mais que cuspir no prato em que se comeu seja escrotinho, é preciso um tipo especial de coragem para fazer o que um sujeito como Felt diz ter feito.

Porque tirar a quadrilha de lá nas urnas vai ser difícil, o wet dream tanto dos liberais em geral quanto dos conservadores que odeiam Bush (e não se iludam: eles são legião) é que apareça um novo Deep Throat pra varrer os mexilhões do templo. Mas a patuléia amadureceu, ou pelo menos se tornou tão cínica quanto their betters, e depois de tantos “something-gates” pífios nos últimos 30 anos aprendeu que quem denuncia é quase sempre tão manipulador quanto aqueles que praticam a falcatrua. O pobrema do novo Deep Throat da política, portanto, caso venha a aparecer, é que, como o novo Deep Throat do cinema, provavelmente termine confirmando o velho chavão de que a história se repete em paródia.

 

O Trig Triste e o Padrinho Ricardão


The tiger ate my homework

“Diz ‘Grrrrrr!'”: Quem muito sofreu nas mão de dentista, como o vosso estimado Uncle Filthy, talvez viva um fugaz momento de schadenfreude com a notícia de que uma equipe de odontologia veterinária de Lodi, Califórnia, passou o sábado tentando dar um trato em um canal de Kubie, 15, simpático felino de 270 quilos morador de um centro de proteção aos tigres no Oregon. Infelizmente, o trig assassino tava dopadão e o tratamento não terminou em momento Roy para os dentistas. Vamos ver como Kubie reage quando sair da anestesia e receber a conta.

Ying, yang, ZING!, POW!, cof: O harmonioso e contemplativo estilo de vida dos monges budistas tailandeses (aposto que cês tavam com saudade de notícias monásticas) foi interrompido por um pega-pra-capar entre os escrete de dois mosteiros, ontem, em plena rua. Boonlert Boonpan, um monge que perdeu a sotaina por conta do imbroglio, diz que a rivalidade era tão forte que ele costumava levar um soco-inglês na mochila pra alinhar os chakras dos monges do mosteiro vizinho quando eles se encontravam pela rua na ronda diária de pedir donativos. Acho que o momento kung fu se deve à campanha do governo tailandês para convencer a largar o cigarro os 75 mil monges que, em notável demonstração de autocontrole, fumam que nem chaminé, no país. Ex-fumante é sempre irritadiço. E Boonlert, exemplificando mais um preceito da milenar sabedoria budista, explicou: “Pô, se os senadores saem na pórrada no Parlamento, por que nóis num póde?” Eu aposto vintão no gordinho careca de saia cor-de-rosa.

Men’s Lib: Dona Jannette Pulido, 23, foi detida pelos gambé de Austin, Texas, porque, er, bimbalhou violentamente o sino de Frederick Parke, exigindo que o moço fizesse sexo com ela uma segunda vez. Parke recusou, e a simpática companheira de cama ameaçou cortar fora o bingulim do moço caso ele caísse dormindo. Uncle Filthy, sempre nostálgico pelos anos dourados da guerra fria e do crepúsculo atômico iminente, aponta com alegria o progresso em direção à igualdade dos séquissu e a escalada em direção ao regime de Mutual Assured Destruction nos folguedos de alcova. E lembra dona Pulido de que duas vezes em seguida só no Bananão, onde o sujeito pode se valer da Caracu com ovo.

A sexta série nunca acaba: Kevin Lambrechts, 48, usou um celular com câmera preso a uma vareta (foto acima) e um jogo de espelhos montado em forma de periscópio pra espiar mulé tomando banho em um acampamento, na Flórida. Apanhado em flagrante delito de olho (e provavelmente ôtras parte) comprido, Lambrechts negou que tivesse passado por perto do chuveiro no momento higiênico. Enquanto a Justiça decide o caso, a puliça do condado de Seminole anunciou que vai mandar consertar os buracos no teto do chuveiro “o mais rápido possível” –assim que todos os guauda puderem dar uma olhadinha.

Deutschland, Deutschland über Alles: Cansados de passar vexame diante dos pitorescos criminosos do Rio de Janeiro, os malfeitores da ordeira Oberhausen, Alemanha, pegaram Reiner Harner, 27, pra santo. Primeiro, ele foi atacado por três facínoras no banheiro da buate local; os elemento levaram sua carteira e 200 euros. Harner chamou a polícia, do celular de um amigo, mas enquanto esperava a chegada dos meganha, na porta do estabelecimento, foi assaltado de novo, por outros três vilões, que levaram seu relógio e seu maço de cigarros. Harner decidiu se encostar na parede pra tomar fôlego e, uau, mais cinco celerados apareceram e, dessa vez, levaram seu casaco e seus últimos trocados. Uncle Filthy, leitor dedicado de Hercule Poirot, usou as pequenas células cinzentas, pesquisou sobre Oberhausen e decidiu que é impossível ter 11 ladrão ao mesmo tempo e na mesma buate em uma cidade de 226.254 habitantes. O que indica que deve ter um time brasileiro de futebol fazendo excursão por lá.

O casamento do meu melhor amigo: Surpreendidos em flagrante delito de fornicação durante uma cerimônia de casamento na Croácia, a noiva e o padrinho ficaram entalados à maneira canina quando a casadoira beldade sofreu um espasmo muscular involuntário causado pelo susto do flagra. Como o casal não conseguia, er, desengatar, os convidados todos aproveitaram para visitar o banheiro em que a, tipo, recepção paralela estava se desenrolando. O enlace para-matrimonial só terminou no hospital, depois que a noiva recebeu uma injeção de relaxante muscular. O noivo decidiu que a festa continuaria, transformada em celebração de divórcio. Aposto que só tocou Reginaldo Rossi.

May 30, 2005

 

The three day rule


"If it's over, and things ended badly, then it's all fair game"

O metódico Evaristo queria namorar. Não queria caso, não queria friends with benefits, não queria transar com mulé casada, não queria nenhum dos sucedâneos de que se vinha servindo há alguns anos. Queria uma namorada. O famoso encontro automático às sextas e sábados. Alguém de cuja companhia ele pudesse desfrutar sem que precisasse fingir uma vida social.

Evaristo era metódico, eu disse. Sentou e fez uma lista sobre o que tinha de ser diferente entre as mulheres que ele arranjava até com alguma facilidade e a namorada que ele queria. Um fator que saltava aos olhos era a questão do imediatismo. Quando o cara tá querendo faturar, o paradigma é “anything goes” e “quanto antes, melhor” (não é à toa que uma pesquisa tenha escolhido como melhor cantada a magistral “nice shoes. Wanna fuck?”) Mas, em namoro, a perfeição vale bem mais do que a pressa.

Evaristo estava metodicamente disposto a “perder” tempo no começo, para recuperá-lo mais tarde. “Não é perder: é investir”, rabiscou, no sopé da lista de prós e contras. Mas ele definitivamente não tinha as manhas. A dúvida essencial de Evaristo era a seguinte: ele não confiaria, como namorada, em uma mulher que tivesse caído no tipo de cantada que ele costumava passar nas mulheres antes de querer namorar. E, no entanto, ele não sabia passar “outro tipo” de cantada –se é que isso existia.

Metodologicamente, calculou Evaristo, o melhor era recorrer a conselhos profissionais; foi a uma livraria e voltou para casa com duas sacolas cheias de livros sobre paquera, tanto dirigidos aos homens quanto dirigidos às mulheres –por deformação profissional, até, Evaristo sempre procurava se manter informado sobre a concorrência. Depois de separar o joio do repôio, Evaristo decidiu que um dos livros oferecia uma abordagem mais ou menos sensata, ainda que comparasse arrumar uma namorada a ser vendedor de carros. O que Evaristo via de bom, no manual selecionado, é que ele não propunha uma série de cantadas, mas sim um método de selecionar e seduzir a mulher almejada (não era só uma coleção de pick-up lines para usar no bar –até porque Evaristo tinha prometido solenemente a si mesmo que não ia arrumar namorada no bar.)

Usando uma versão modificada do método proposto pelo livro, Evaristo abordou uma moça bonita e de humor muito fino em um evento de trabalho. Papearam bastante, jantaram juntos. No final da noite, ela o convidou para subir (estavam em hotéis diferentes). Evaristo, metódico, disse que não, tinha de acordar cedo, mas queria muito, muito, muito mesmo vê-la de novo, quando voltassem à cidade em que ambos viviam. Ela sorriu, fez que sim, escreveu seu telefone em uma embalagem de Trident. Trocaram um beijo discreto nos lábios e ele se foi. Na manhã seguinte, não a viu no evento, e na noite seguinte estava de volta à sua cidade, com o telefone da moça seguramente anotado –no papel de chiclete, no PalmPilot, na memória. Consultando o manual, Evaristo descobriu que precisava esperar três dias antes de telefonar para a menina –para demonstrar que não estava ansioso demais, nem era stalker.

Fazendo das tripas coração, o metódico Evaristo esperou os três dias, desejando secretamente que a moça nunca tivesse ouvido falar da regra dos três dias e decidisse procurá-lo antes do prazo. Em vão. Na tarde do terceiro dia, ele calculou que tinha cumprido a regra, em espírito ao menos, e discou o número que ela mesma tinha anotado: “Casa de Carnes Peçanha”. Desligou, crente de que tinha errado o número, e tentou de novo: “Casa de Carnes Peçanha”. Na terceira tentativa, lembrou de conferir o número: “É do xxx-yyyy?” O açougueiro, de saco cheio, “é, sim, vai pedir alguma coisa ou vai continuar desligando na minha cara?”

Evaristo abandonou o manual, a busca pela namorada, a regra dos três dias. Terminou se casando, três anos mais tarde, com sua dentista. Só voltou a ver a esquiva beldade uma vez: de aliança, em fila de cinema, abraçada ao marido. Ela piscou um olho, aproveitando a distração de seu marido, da namorada de Evaristo. Sorriu, dando discretamente de ombros: “Sinto muito”, foi o que entendeu Evaristo. Se era por falta de closure.

 

"At my age you need Viagra..."


Autocitação (e Viagra chinês) é coisa de impotente

Mais de 40 manos que usam Viagra e outros medicamentos contra a impotência, como Ciallis e Levitra, reportaram cegueira à FDA americana depois de usar a pílula mágica. Tá certo que, nas lides eróticas, o sentido mais importante é o tato, mas, pô, a hora de tomar o remédio passa a ser sério pobrema, se o efeito pode ser da catigoria “isn’t she lovely?”

Digamos que o Viagra supostamente funcione durante duas horas. Se o mano toma antes de sair de casa, fica ceguinho no carro a caminho do apê da amada: combinar acidente de trânsito e ereção é propiciar alegria demais pros tablóides, yo. Já se a namorada, ou similar nacional, vai arrastar o cara pra filme de Lars von Weird ou Pedro Almofadón, o ideal seria tomar logo antes do começo da sessão: um exemplo clássico de males que vêm para bem. Caso o sujeito deixe pra tomar o comprimido discretamente no toalete do Ao Javali Sorridente, depois do filme, é capaz de voltar pra mesa errada (e se a namorada o levou pra ver esse tipo de filme, bem feito). E se toma o Viagra antes de colocar a camisinha, uh oh: perigo, Will Robinson (por outro lado, o fato de que precise usar Viagra dificilmente vai permitir que tome Viagra depois de colocar a camisinha).

Reza a lenda que, um dia, já houve ereção espontânea. Não é exatamente coisa da minha época, mas suponho que –por mais tosca que a prática nos pareça- tivesse lá suas virtudes. Parece estranho imaginar um tempo niquiq era a mulher, ou a situação, que propiciava esse tipo de reação hidráulica. (Talvez seja mais uma característica daquela estranha e tenebrosa era em que os pissôau primitivamente furumfava sem camisinha, o que é o equivalente sexual de usar uma tijela de madeira no beiço). Mas apesar de todas as benesses da moderna tecnologia, com a questão da cegueira erétil sério problema de timing se nos apresenta.

Talvez a solução ideal seja combinar Viagra e bondage: o mano amarra a parceira na cama, tira a roupa, toma o Viagra e deixa a natureza seguir seu curso. Pelo menos dá pra ter certeza razoável de que a pessoa ali do lado é quem o usuário do medicamento presume seja. (E você sempre pode combinar uma senha com a namorada pra esses momentos de intimidade às escuras, que nem nim filme americano de guerra –“ziriguidum”, cê sussurra, “telecoteco”, ela responde. Mas nem pensem em usar o chamado “ô, batíria” seguido pela resposta “ô, pandeirão”, que já estão reservados pra nhonhô Fudílson e Santa Diliça das Longas Coxas.)

Um conselho razoável, pensando bem, é nunca tomar o Viagra na cozinha se você estiver passando o final de semana hospedado na casa da sogra. Outro conselho técnico é, estique bem os braços quando estiver tateando para descobrir o caminho de volta pro quarto. Ninguém quer trupicar e abalroar a geladeira com áreas sensíveis da anatomia.

Passei a minha vida de mocréio sendo consolado pela minha manhê, nas dessêpíssão amorosa, com fórmulas piedosas como “o amor é cego”. Hoje, graças ao Viagra, não só o amor. De qualquer jeito, é uma excelente desculpa pra jovens ousados como o meu mentor intelectual G. Nogueira, que muita vez acordam sem lembrar o nome da mulé que tá dormindo ali do lado. Agora, dude, “eu não vi nada, a culpa é da Pfizer”.

May 29, 2005

 

“Quando ouço falar em cultura...


... vou logo sacando o talão de cheques"*

Eu sei que quem lê esse portentoso diário de frissons eróticos e sofisticadas elocubrações intelectuais deve achar que Fudílson Noronha se apresenta às mulé dizendo “the name is Noronha, Fudílson Noronha”, e pedindo ao bartender uma Jurubeba Leão do Norte shaken, not splonked, mas a verdade é que sou um burocrata de médio escalão numa firrrma. Muitos ano levei trabalhando em firrrma, eu. Sou da época em que o Tetris era novidade, procês terem uma idéia. E, trabalhando em firrrma, participei de todas essas coisas de firrrma: reengenharia, horizontalização, consultoria, torneio de paint-ball, brincar de escravos de Jó(talhão, o carinhoso apelido do nosso então presidente) em curso de integração, aquisição, fusão, reestruturação. The works. Já fui em festa de final de ano reengenheira passada em um picadeiro de circo, para demonstrar a importância do trabalho em equipe (adivinha quem limpou o cocô do elefante?), e já assisti a palestra do general Schwarzkopf em que a cada vez que ele tinha de dizer “concorrentes” ele esquecia e dizia “goddamned raghead bastards”. De tudo isso, aprendi só um truque útil, em palestra de um devogado especialista em negociação. O conselho dele era “ler” a atitude das pessoas com quem estávamos negociando e ouvir a demanda verdadeira por trás da retórica –“por favor, prestem atenção nimim”, o mais das vezes. Parece pífio, mas não é: assim que você percebe que aquele blablablá todo quer dizer “mais dinheiro”, “preciso de ajuda”, “não vou entregar em tempo”, “cês acham mesmo que vou comprar alguma coisa de vocês?”, dá pra sacar as chances de sucesso de qualquer empreitada and cut to the chase.

O que é divertido, nesse método, é que não se restringe de jeito nenhum a aplicações “de firrrma”. E você percebe a verdadeira utilidade dele sempre que ouve, por exemplo, uma caterva de cineastas dizendo que “a sétima arte precisa de mais apoio do Estado”. Isso quer dizer, e só quer dizer, “me dá dinheiro”. Aliás, todo o debate sobre política cultural é passível de redução a essa abrangente rubrica. Os pintores, escultores e serradores de porco no meio estão dizendo “me dá dinheiro”, os, er, profissionais de ssshiatro estão dizendo “me dá dinheiro”, os puétas, os vidiotas e –se bobearmos- até os blogueiros estão sempre, e só, dizendo “me dá dinheiro”. E o mais engraçado é que quanto mais esses sujeitinhos são inimigos ideológicos do mercado, mais eles querem dinheiro. Porque arte, yo, é uma nobre atividade ensinada nas universidades públicas (e meia dúzia de privadas, pun intended,) pra um bando de maconheiros de classe média, e cabe ao Estado protegê-la, como ao mico leão dopado, contra os predadores multinacionais. Já que ninguém tem interesse por comprar a arte desses malinhas, cabe ao Estado continuar pagando a mesada que se acostumaram a receber do papi. Mas o Estado, ao contrário do papi, não tem o direito de dizer “corta esse cabelo, moleque, e se veste como óminho”.

Eu não gosto muito do Henry Miller, mas tem uma cena excelente em Tropic of Cancer niquiq ele fala de um amigo permanentemente bêbado que costumava abordar turistas americanos nos bares parisienses discursando em velocidade de metralhadora, numa ruidosa algaravia da qual as duas únicas palavras compreensíveis eram “você paga”. É assim que eu me sinto quando ouço os pissoau falando de arte. Tô conformado em pagar, aliás –pago pra ouvir Mingus, ler Robert Graves, assistir filme de Vin Diesel-, mas sempre que me convidam pra ver filme brasileiro, yo, acabo recusando: não quero pagar duas vezes. Porque por ação ou omissão, apoio ou isenção, acabam uns merréis públicos caindo no poço sem fundo. E “público”, por mais que eles queiram que a gente esqueça, quer dizer “meu dinheiro”.

Mas o mais assustador, em era de governo dito “de esquerda”, é que os caras de novo planejem obrigar as pessoas a ver a arte que elas financiam sem querer. Pô, pagar estipêndio pra filhinho de papai fazer filminho é ruim o bastante, mas obrigar o cidadão a sair de casa em plena final do campeonato piracicabano de bótcha pra ver Cidade de Deusdéti é crime contra a humanidade. Recebi um dicumento magistral outro dia em que propostas como obrigatoriedade de exibição de filmes nacionais nas salas de cinema e de, er, execução de música nacional no rádio e TV voltavam à pauta como se tudo isso já não tivesse sido tentado, no passado, com resultados que qualquer assinante do Canal Brasil pode conferir em muitas e proveitosas horas de unintentional comedy. Por sorte do povo ignaro que continua assistindo Big Brother, ouvindo funk e só indo em teatro de strip-tease, ainda que seja possível legislar “me dá dinheiro”, até agora ninguém conseguiu criar as leis do “me dá atenção” e “me dá respeito”. E quando um futuro governo sensato cortar toda a verba de fomento à “produção de cultura”, lembrem-se da única boa obra da era Collor and beware: bailarinas são péssimas como flanelinhas.

*Paulo Francis, parafraseando Josef Goebbels, padroeiro da minha profissão

 

But I digress


Picture by Norman Koren, 1971

Um amigo escreveu reclamando que eu faço digressões demais. Não, não exatamente um amigo. Um conhecido, ou talvez, mais precisamente, um colega cuja opinião eu respeito nesses assuntos. Quer dizer, não exatamente nesses assuntos, porque as opiniões dele que conheço são sobre outros assuntos, de certa forma relacionados, mas não idênticos, a estes. Mas, a gente ia falar de digressão. Quer dizer, eu ia falar. Falar não, escrever, porque esse tipo de coloquialismo, se bem gere uma nota de simpatia –ou, pelo menos, assim espero- no texto, pode dar margem a confusão. Não que eu considere que os meus dois –ou três, se incluirmos a Patrícia, ou até quatro, contando o FH- (presumivelmente) fiéis leitores se confundam facilmente com o que eu escrevo, até porque, pensando bem, não haveria motivo para que fossem fiéis, ou leitores, se fosse esse o caso.

Diz o colega, então, que não é exatamente amigo e provavelmente não é leitor fiel (a mim, deixo claro, e não à sua diliça namorada J. –diliça de um ponto de vista completamente teórico, é bom esclarecer), que eu às vezes me afasto demais do que seria o cerne, ou, quem sabe, o tema, dos meus posts, se bem, evidentemente, eu não seja presunçoso o bastante para achar que uma empreitada literária modesta como um blog (“literária”, talvez, entre aspas, para que não precisemos repassar a discussão sobre blog e literatura ainda uma vez) tenha tema, ou cerne. Acho que, para simplificar, correndo claro risco de reducionismo com relação ao raciocínio do amigo ou colega, a crítica seja no sentido de que eu faço que vou mas não vou, em termos de escrita (tem quem prefira, eu sei, o termo “escritura”, mas é galicismo, por um lado, e por outro lado algum dos meus leitores menos fiéis e possivelmente mais sarcásticos poderia muito a propósito redargüir que, “mas que cazzo, Fudílson, isso é um blog ou um cartório de imóveis?”).

Eu talvez devesse explicar ao gentil crítico, e aos meus dois (ou três ou quatro) fiéis leitores, portanto, que percebo que digressão possa ser tomada como defeito (“get to the point, already”, como dizia um professor que encarava com igual ceticismo os meus esforços acadêmicos), mas o uso desse recurso –ou vício, como sei que alguns de vocês certamente diriam- é por causa diquiq eu não tenho certeza de muita coisa (digamos que, se eu fosse escrever “prêt-à-porter”, eu certamente conferiria no dicionário online de francês –tanto o ATILF quanto o Webster, pra garantir- onde a palavra exatamente leva acento –ou, possivelmente, assento, se bem eu tenha certeza dessa última), e por isso as digressões são uma espécie de reconhecimento de que, yo, esse narrador que vos fala –ou, mais precisamente, escreve- de maneira alguma se considera onisciente. Os bizicólogo que acompanham blogs para delinear novas patologias vão certamente se divertir com isso: é muita arrogância do narrador, ainda mais de um blog, ter de esclarecer aos seus dois (três ou quatro) fiéis (ou pelo menos freqüentes) leitores que lhe falta onisciência. Ninguém saca da pena (ou, quem sabe, manipula o mouse com concentração quase erótica) se não for meio arrogante, pô. But I digress.

May 26, 2005

 

Day by Day


"So, come what may, I want you to know"

... and I can picture you oh so clearly as a faceless shadow backlit against the window, carefully watching the street and looking for the car lights you are mysteriously able to discern though there are six billion cars exactly like this in the city. And then you get your purse, you pat yourself checking for any wardrobe mishaps, you check –twice- the purse contents, and walks down the stairs careful not to let your heels click too loudly against the floorboards because Mrs. Krakawski is a light sleeper, and a survivor.

There is that wild lock no hairstyling can keep in place, boldly straying whichever way as you walk to the car, and catches him with his cell phone out, ready to call you. He hurries to open the passenger door, and you wait all ladylike, wearing make-up but not too much, kissing him on the cheek, chatting idly about the office, and the weather, and the dinner party.

He is a native of Duchess County and is able to keep you entertained on the road pointing to childhood landmarks. Paper route, angry dog, his first girlfriend’s home. You try to decide if you’ll let him into your panties tonight, shrugs discreetly: time will tell.

You remember taking this exact same road to try out a new car, some months back, in the snow. You remember thinking of a future, and plans, and you remember peals of insane laughter at a crazy evangelist’s radio show and his promise of hell to all sodomites. You remember the naughty glances exchanged, the heartfelt ‘o fuck’ at not bringing any CDs, the coziness, the very bad coffee bought at a roadside stand just to try on all the thingamajigs the car had to offer –cup-holders, sliding trays, seats foldable every which way.

You remember fudging on your map-reading so as to create a longer trip home, and the sly smile showing fleetingly on the driver’s lips. You think about the road twice taken, you think ‘fuck the heartless bastard’, you slide your hand slowly down the present day driver’s thigh. You decide you’ll surely let him into your panties tonight. You smile, and turn on the radio trying to find a crazy preacher blabbering about sodomy. There’s a song on, instead. Dinah Washington’s ‘What a Diff’rence a Day Makes’. You steel yourself not to cry, you turn your head away from your date's eyes, you fight back the tears. You wish for snow.

 

Lost in the Stars


"Rendam-se, terraqueos!"

Eu já confessei aqui, em passado post cujo link tô com preguiça de procurar, sobre a minha tara por Rosie, a empregadinha robótica de Os Jetsons. E sei que todo nerd tem lá seus momentos de devaneio erótico, entre uma e outra seqüência envolvendo torpedos de fóton e raios phaser, niquiq estende olhar concupiscente às góztóza do espaço. O pífio Star Wars, claro, não tem nada a oferecer nesse quesito. A princesa Léia era popozuda por excesso de space burgers, e a ninfeta Natalie Portman daqui a pouco tá fazendo 30 anos ainda com o pirulito na boca.


Jolene Blalock (1975- )

Mas nem todas as séries e filmes de ficção científica são tão desprovidos de sex appeal. Os filmes de disco voador dos anos 50 quase sempre tinham uma góztózinha de minissaia pra enfeitar o árido isopor da paisagem marciana, e a tenente Uhura (Nichelle Nichols*), ô, batia um bolão no console de rádio da Enterprise (e muito nêguinho passava o episódio dôdjo to boldly go where Uhura’s panties went every day). Outro sex symbol do espaço é a misteriosa Midori Okada, que fazia papel de imperatriz Aura em Nationaro Kido. Pensando nela, qualquer um de nós se tornaria um ser abissal.


Okada e Nichols : caldinho sideral de raças

Mas, como disse o meu mentor intelectual G. Nogueira depois de ver um episódio do derivativo Enterprise niquiq Jolene Blalock assume o papel de vulcano oficial da copa no lugar de Leonard Nimoy, “ma che senhor Spock, que nada”. Quando penso em Blalock, minha reação é sempre virar pro oficial de engenharia e ordenar "beam her down, Scottie". No, Houston, we definitely don't have a problem.

*Nichols cantou com as bandas de Duke Ellington e Lionel Hampton, em começo de carreira

May 25, 2005

 

Well what can a poor boy do


"...except to sing for a rock'n'roll band"

Um bom argumento a favor do “live fast, die young, leave a good-looking corpse” é que colocar o lema em prática evita o triste destino de gente que nem os Rolling Stones. Ver aquele monte de tiozinho rebolando no palco com um guarda-roupa digno de boate de travesti em Governador Valadares é sempre uma experiência deprimente: rock’n’roll, ao contrário do blues, envelhece muito mal. E a experiência deprime ainda mais, aliás, se você, como eu, por acaso considera que eles um dia foram the coolest rock’n’roll band on earth.

Não é raro, entre os fãs mais frenéticos dos Stones, atribuir tudo que a banda tem de bom a Keith Richards, e imputar ao lado franga de Mick Jagger a responsabilidade pelos muitos maus momentos acumulados, especialmente depois de 1980. Por mais que a franguice de Jagger me incomode, porém, nunca é demais lembrar: o cara escreveu pelo menos 10 das mais perfeitas letras da história do rock. Ainda que John Lennon tenha levado fama pela qualidade “literária” das canções dos Beatles, Jagger escreve com igual verve, e poder de observação muito maior. Aliás, se a gente comparar diretamente as letras dos Stones e dos Beatles nos dois anos cruciais que antecedem o lançamento de Sgt. Pepper’s -o álbum que assassinou o rock-, Jagger sai com enorme vantagem diante de Lennon e McCartney.

(Ofereço aqui o disclaimer necessário: pra mim, rock, como qualquer boa forma de música pop, é essencialmente uma arte de singles, canções de três minutos -anyway, nunca mais de cinco- que funcionam à maneira slice of life. “Disco conceitual”, faixa com 12 minutos de duração e experiências eletrônicas –sob o meu critério- são coisa de mongo e merecem ser arquivadas na mesma gaveta que livro do Arnaldo Antunes e vídeo de Koyaanisqatsi.)

Entre fevereiro de 1965 e janeiro de 1967, os Stones lançaram sete singles; os Beatles, entre abril de 1965 e fevereiro de 1967, lançaram seis. Dos dois lados, canções importantes do período não saíram em single (“Under my Thumb”, no caso dos Stones, “Yesterday”, no caso dos Beatles, pra citar dois exemplos). O A Team dos Stones oferece “Satisfaction”, “Get Off of my Cloud”, “19th Nervous Breakdown” “Paint it, Black” e “Let’s Spend the Night Together”, e o dos Beatles vem com “Help!”, “We Can Work it Out”, “Eleanor Rigby” “Strawberry Fields” e “Penny Lane” (as duas últimas no mesmo single, aliás.)

Não vou entediar a gentil leitora, o amável leitor, citando trechos extensos das letras –os links estão aí pra isso-, mas, yo, nem Lennon, nem McCartney se saíram com versos mais percucientes do que “Your mother who neglected you/ Owes a million dollars tax” ou “When I'm watchin' my TV/ And that man comes on to tell me/ How white my shirts can be”. (Pra não falar de “I wanna see it painted, painted black/ Black as night, black as coal/ I wanna see the sun blotted out from the sky”, que é uma visão de mundo extremamente soturna para um disco lançado em pleno verão da psicodelia.) Nostalgia barata, romantismo pífio e sabedoria de botequim são excelente material pra compor rock, mas é o ceticismo pessimista de Jagger que continua a soar verdadeiro 40 anos mais tarde. Pena que ele tenha mantido também o guarda-roupa e as micagens de 1965.

 

A ursa dominatrix e
a banana do Zorro


O presente ideal para sua boneca inflável,
no dia dos namorados

You've been a very naughty bear, Zé Colméia: Na ordeira Zurique, as otoridad determinaram que a simpática ursa dominatrix que vocês vêem aí em cima fosse removida de uma exposição de 600 ursos de pelúcia em escala humana que enfeitam as ruas da cidade. A ursinha dominatrix, batizada “Baervers” (notem o fino humor teutônico), não está autorizada a dividir o espaço da cidade com colegas como o “urso professor” e o “urso esquiador”, porque pode ofender as crianças. Talvez minha infância tenha sido reeeeeally sheltered, mas eu juro que aos oito anos nem imaginaria que a dona Baervers era uma ursa de sacanagem. Por mó da máscara, eu ia mais é achar que fosse uma espécie de mulé-gato. Cada era cos seus fetiche, mano.

Banana, sem pijama: Arthur Bertana, ex-policial tarado do Connecticut, foi condenado a 20 dias de xilindró porque enfiou uma banana de brinquedo nas calças e expunha a fruta aos transeuntes de Stamford como fora um cetro do amor. Bertana foi apanhado colocando uma sacola de compras na frente da área de lazer e exibindo o avantajado pacotão às mulé da plácida municipalidade. O sargento que o deteve, depois de apreender a banana erótica, informou que se tratava “de uma banana de brinquedo, de pelúcia, com um rosto sorridente desenhado”. Tomara que os flashers não se inspirem e passem a desenhar a famosa “cara feliz” no bingulim.

Don Diego de la Benga: Na progressista Doylestown, Pensilvânia, a polícia está à procura de um sujeito peladão que, na noite de sábado, apareceu só de máscara de Zorro no centro da cidade, mostrou o bingulim pra seis moças e escapou correndo. Se os gambé não tiverem certeza de quem é o culpado, esse é um line-up que eu gostaria muito de ver: cinco mascarados com as family jewels de fora e o sargento O’Hara instruindo, “balança um pouco mais, número três”.

Lanchonete Jotalhão: Em 20 de abril, seis elefantes escaparam do zoológico de Seul (vigia de zóinho puxado dá nisso), e três deles invadiram um restaurante, nindindond esmagaram mesas, cadeiras e aproveitaram pra comer umas cenouras. Agora, dona Keum Taek-hoon usou o dinheiro do seguro para reformar o estabelecimento, ora decorado com temática paquidérmica. Em notável demonstração da milenar poesia tão característica da sabedoria oriental, ela mudou o nome do lugar para “restaurante onde os elefantes estiveram”. (Uncle Filthy, aliás, depois de ver um helicóptero chinês designado por nome peculiarmente canoro, perguntou o que queria dizer a palavra, crente de que ouviria designação digna de fantasia de Clóvis Bornay, tipo “fênix dourada da aurora Ming”. O prestativo intérprete respondeu: “Aeronave de decolagem vertical número nove”.)

Cães e gatos: Em Frosinone, os pais de um menino de 10 anos obrigado a fazer dieta só descobriram por que o filho continuava gordo e o cachorro estava emagrecendo quando o totó, furibundo, mordou o pandeirão do bambino ladrão de Papita. E em momento que profetiza o futuro reservado às minhas mui queridas leitoras integrantes* da Associação Velha dos Gatos, Margaret Sue Jamel, 48, foi em cana quando descobriram que ela tinha 193 gatos vivos –e 65 mortos- em sua casa alugada. (Se o gordigno italiano morasse lá, dona Margaret teria uma desculpa pra explicar os 65 gatos mortos.)

Keep it greasy: Na Califórnia, uma moçoila que estava fazendo jogging no parque escapou de uma tentativa de estupro porque tinha passado muita loção de bronzear, o que permitiu que se esquivasse quando o malfeitor tentou agarrá-la no banheiro público em que se havia refugiado da perseguição. Uncle Filthy lembrou de um cliente em seu passado negro e logo apareceu com um lindo slogan para campanha publicitária estrelada pela escorregadia e lépida heroína: “Bronze sempre, mas cenoura só quando eu quiser”.

*Uma salva de palmas peludas para a mais recente membra, Mlle Camille.

May 24, 2005

 

A noiva estava de preto


"Picture the same sweet love nest, see what 30 years can bring"

De vez em quando a gente ouve uma história tão boa, mas tão boa, que tentar melhorar estraga, e por isso vou me limitar a relatar aqui um causo que me foi contado recentemente por um dos protagonistas do episódio.

O jovem J. e a senhorita A. se conheceram na faculdade, no começo dos anos 70. Os dois tinham backgrounds semelhantes –famílias de classe média, “bem de vida” mas não ricas- e se entregaram galhardamente aos esportes característicos dos universitários da época, que pelo que eu sei eram basicamente fumar maconha, falar mal do governo e fornicar depois de show dos Novos Baianos. Os dois, embora as famílias esperassem escolhas tradicionais –médico ou devogado para ele, professorinha para ela- gravitaram pro lado cabeça da existência, um pouco por inclinação e um pouco porque era assim que viviam os “bichos grilos” daquela geração.

Apaixonaram-se (porque toda boa história é história de amor, yo), e depois de algum tempo decidiram que iriam morar juntos, para escândalo das duas famílias. Depois de muita chantagem emocional, mãe dizendo que ia morrer, de um lado, pai fulminando contra a desonra do nome da família, do outro, os dois ligaram o foda-se e disseram, “então tá, a gente vai casar, em vez de morar juntos. Satisfeitos?” As duas famílias suspiraram aliviadas, e a tia favorita de A., senhora carola e bem relacionada com a Igreja, imediatamente começou a fazer sério lobby com o padre de uma igreja histórica da cidade, para que ele realizasse a cerimônia. O padre era velho, resmungão e odiava “esses casamentos de hippie”, mas acabou cedendo à insistência da velha paroquiana.

Diante do fato consumado –pais de um lado e de outro se reunindo para decidir como ajudar o casal, convites, bufê, igreja tradicional, religião à moda antiga, vestido de noiva- foi a vez de o casal entrar em pânico. Como bons bichos grilos daquela estranha era, preferiam mesmo casar descalços, em um parque, ao som do violão dos amigos. Casar na tal igreja, todo mundo vestido de pingüim, em cerimônia presidida por um sacerdote que tinha um programa de rádio contra o comunismo, merecia o supremo adjetivo de demérito: que coisa mais “careta”, diziam eles e os amigos. Tão careta, mas tão careta, aliás, que de comum acordo, um mês antes da data, decidiram desmarcar o casório. Coube à tia carola comunicar a decisão ao padre –e as famílias lá, furiosas, querendo matar os dois pelo vexame diante da Igreja. Pra surpresa de todo mundo, a tia velha cumpriu a missão sem nenhum percalço, e até conseguiu a devolução do dinheiro pago pela cerimônia. “O padre R. é um homem muito mais compreensivo do que vocês imaginam”, disse a tia, admoestando o casal fujão.

Passaram-se dois anos, e os dois, já formados e trabalhando, decidiram que ser bicho grilo era chato pacaraio e que, bão, a gente quer mesmo casar, uai. Comunicaram a decisão às famílias, que fizeram aquela cara de “ai, meu são jizuis”. Mas não existe mãe que resista a um casamento, e a mãe da noiva, dessa vez com a conivência da filha, começou a planejar uma cerimônia com todos os pertences. No entanto, a tia velha se recusou a falar de novo com o padre para conseguir vaga na igreja, alegando que era uma vergonha. Por mais que todo mundo insistisse, a velhinha batia o pé e teimava que não ia. As mães da noiva e do noivo, desesperadas, decidiram que tentariam elas mesmas interceder junto ao iracundo sacerdote e, no dia em que enfim se encontraram pra isso, a tia velha desceu esbaforida do táxi na frente da casa de uma delas e implorou: “Vocês não podem conversar com o padre. Por favor”. As duas, inflexíveis, insistiram até que a tia se viu forçada a revelar o motivo: “Só consegui cancelar o casamento sem briga porque disse que o noivo morreu”.

A senhorita A. e o jovem J. acabaram se casando em outra igreja, apesar de o pai da noiva –ateu e esquerdista-, interferindo no imbroglio todo pela primeira vez, ter sugerido: “ô, por que vocês não dizem que ele ressuscitou? O padre é obrigado a acreditar”. A. foi a única noiva de seu clã a se casar em outra igreja que não a “da família”. E a única das mulheres da família que não se divorciou, em sua geração.

 

Brasil? Deixe-o.


"Erguenu da justiça crava forte"

Suponhamos um país hipotético em que chova demais em certas épocas do ano, ou em certas regiões, e de menos em outras. Suponhamos, ainda, que o governo desse país tivesse decidido seguir a máxima de Millôr Fernandes e criar justiça social pela distribuição equânime de chuva, chateação e falta de lugar pra estacionar. Diante desse dilema, na maioria absoluta dos países o governo daria de ombros e diria, “bão, eu não posso fazer chover (ou parar de chover), tant pis”. Em alguns poucos países, o governo distribuiria uns milhõezinhos aqui e ali para promover pesquisa científica sobre como causar, ou impedir, chuva. Mas no Bananão, e só no Bananão, o Estado criaria uma lei sob a qual a chuva tem de se distribuir de maneira igualitária não apenas entre as regiões do país mas também entre os meses do ano. Porque a única solução que qualquer governo brasileiro encontra para os problemas, tanto os passíveis quanto os impassíveis de conserto, é transferir a responsabilidade por resolvê-los a alguém mais, quem quer que seja.

Com a lei, alguém mais seria responsável por fazer chover –ou seja, o governo teria, er, “cumprido seu dever”, por mais impossível que a tarefa seja para aqueles que dela têm de se encarregar ou por mais impossível que seja fiscalizar seu cumprimento ou responsabilizar alguém caso ela não venha a ser realizada. É muito engraçado que qualquer aparato de Estado brasileiro tenha a tremenda cara de pau de impor uma lei como essa dos 15 minutos de espera nos bancos ao setor privado. (Parece esses pai bêubo que querem proibir o filho de ser maconheiro.) Não é que eu goste de esperar em fila, e nem que eu considere os bancos vítimas inocentes de uma conspiração do governo para transformá-los em vilões como parte da campanha cuzona do Nove-Dêdo para tentar forçar queda nos juros sem assumir as conseqüências políticas da decisão, mas, come on. O banco não tem como dimensionar a estrutura de atendimento dele de forma a garantir que todas as esperas sejam infalivelmente inferiores a 15 minutos, como sabe todo mundo que já foi a única pessoa em uma fila de banco logo atrás de uma velhinha surda, confusa e repleta de carnês de plano de saúde, montepio e crediário das Casas Pernambucanas. Que haja uma norma qualquer (ainda assim, não há motivo nenhum para que seja uma lei,) determinando que a espera MÉDIA seja de no máximo 15 minutos, vá lá. Mas, caso a caso? Quantos caixas e posições de caixa uma agência bancária precisaria ter? A lei obviamente não leva em conta as idiossincrasias de horário e calendário que regem o movimento dos bancos. E finge ignorar o fato de que aumentar o número de funcionários e de posições de caixa para garantir seu cumprimento requereria, claro, tarifas bancárias ainda mais altas, botando ainda mais na tarraqueta cidadã.

É mais um exemplo dessas leis escrotas e populistas em que as otoridad brasileiras são especialistas e, aliás, nem mesmo fazem cumprir com o mínimo de rigor, depois que passa o buzz publicitário. Nenhum outro cidadão, consumidor ou contribuinte no mundo tem tantos direitos –hipotéticos- quanto o brasileiro –e nenhum tem menos maneiras de fazer com que esses direitos sejam respeitados. A única área de competência inegável do governo do Bananão é transferir a responsabilidade pros outros –como o PT vem fazendo agora ao alegar que, yo, os casos recentes de corrupção são todos responsabilidade de outros partidos que por acaso fazem parte do governo (pra surpresa de ninguém, aliás, é exatamente a mesma coisa que o PSDB dizia durante os oito anos em que coube a eles tornar o país ainda mais patético). Enquanto o governo brasileiro continuar considerando que empurrar problema pros outros equivale a resolvê-los, e enquanto os brasileiros se entusiasmarem com vitórias ilusórias como a da lei dos 15 minutos, nada muda. E eu, se fosse a Febraban, em lugar de ficar tentando debater racionalmente a cretinice patente da tal lei, bancava uma imensa campanha publicitária dizendo que, yo, os bancos acatam a nova norma com o maior prazer –no mesmo dia em que ela passar a valer, com o mesmo rigor e as mesmas penalidades, para todos os órgãos, repartições, serviços e agências públicos ou estatais.

May 23, 2005

 

My most Dear Person of
foreign residence,


"Spam! Lovely Spam!"

My name is Fudilson Noronha and I am currently living in internal exile far away from my native Nossa Senhora dos Quatro Caralhos, Brazil. It so happens that my brother-in-law, a respectful advocate by the name of Givanilson dos Santos, is serving a term in prison on account of false accusations during his mandate as the Minster for Coconuts in our federal capital Brasilia. My esteemed brother-in-law, fearing for life, limb and love-stick, has secretly deposited 11 billiard Golden Mangos, the equivalent of around 67 dollar American, in a secret account in foreign bank, and charged me with finding trustworthy person of foreign residence to assist us in retrieving the funds.

My father-of-the-saint (a respectful religious leader of Brazilian cult) has helped me selecting your name from a list of foreign visitors to the site Pandeirao Brasileiro, with a view to requesting your help in retrieving the funds. We will need your full name, bank account and PIN number, as well as portrait of your daughter nekkid, and we are prepared to reward you for your labors to the tune of three billiard Golden Mangos –but don’t hang up. If you e-mail us right now we also send you DVD with hot moments from Brazilian carnival and two blessed Lord of Bonfim wristbands that will keep your Johnson pumping longer, particularly if you pay visit to our Website Milagre da Catuaba to get to know more about the Native Brazilian alternative to Ciallis.

The utmost secrecy is of the essence since both my life and my brother-in-law’s are at stake. You can contact us by going to the psychic nearest your home and asking her to channel the spirit of Caboco Tiao, who will have full power of attorney to conduct business in our behalf. I trust your honesty as person of foreign residence and put my business into your hands, particularly if you female, blonde and a 36D. Please act soon, to our mutual advantage!

 

Curiosidades literárias


"If you can't annoy somebody, there is little point in writing"*

O poeta Dante Alighieri tinha um pavor mórbido de zucchinis. Boa parte das visões aterrorizantes que compõem o seu Inferno são na verdade tentativas de expressar o medo paralisante que ele sentia diante da leguminácea.

Os escritores Henry James e Ford Madox Ford certa feita travaram um duelo, apadrinhados respectivamente por James Joyce e Somerset Maugham, depois de uma troca insultuosa de cartas à seção do leitor na revista Strand em que se acusavam mutuamente pelo uso de prenomes como sobrenomes e sobrenomes como prenomes.

O filósofo francês Jean-Paul Sartre não era verdadeiramente estrábico. Treinou ficar com os olhos tortos daquele jeito com o objetivo de intimidar os críticos.

Wanderlea Brönte, a quarta irmã da afamada família de escritoras, apresentava um talk show sobre literatura na BBC e teria se tornado tão famosa quanto as irmãs caso o rádio tivesse sido inventado no começo do século XIX.

Ernest Hemingway era mulher.

O romancista português O. Pinto Cançado abandonou a literatura por motivo de chacota quando emigrou para São Paulo, onde terminou por abrir a famosa panificadora Rainha da Traição. Atribui-se a ele a expressão “pão sovado”.

Gertrude Stein era mulher.

Entre 1914 e 1918, o vanguardista irlandês James Joyce, empobrecido pela guerra, sobreviveu como vendedor clandestino de palavras-valise na estação ferroviária de Zurique.

O nome verdadeiro do poeta soviético Lev Vladimirovich Prozorovsky era Ivan Vladimirovich Prozorovsky.

J. K. Rowling é homem. E argentino.

Os quatro irmãos Campos –Afrânio, Humberto, Cidinha e Roberto- começaram a carreira cantando como concorrentes do saudoso conjunto vocal Os Integralistas, em um programa de calouros da Rádio Farroupilha, em 1937. O conjunto se desfez quando Roberto subitamente ficou inteligente e Cidinha –née Moacir- se mudou para o Marrocos para fazer operação de mudança de sexo.

O biógrafo e ufólogo inglês Samuel Johnson (famoso pelas revelações chocantes que fez em Life at Roswell) era famoso por sua estrovenga descomunal, e por isso as classes rudes da população britânica ainda hoje designam o bingulim como “The Johnson”. Os franceses, inferiorizados, tentam contra-argumentar com o nariz de Cyrano de Bergerac, ele mesmo escritor, e pai da ficção científica. (Dizem que um espirro de Bergerac deu-lhe a idéia de que seria possível usar foguetes para transportar o ser humano ao espaço.)

O prato predileto do poeta, dramaturgo e ensaísta irlandês Oscar Wilde era sarsicha.

*Kingsley Amis

 

Jukebox


"You can dance, you can jive, having the time of your life"

Trilha sonora é parte essencial da vida, queiramos ou não. E muitas vezes a trilha sonora de determinadas porções de nossa trôpega passagem por esse vale-restaurante de lágrimas é claramente trabalho de alguma entidade maligna. Por mais que o mano aperfeiçoe o controle jedi da mente, tem certas porcarias que simplesmente grudam na zorêia e na memória e, 10, 15 ou 20 anos mais tarde, ressurgem em plena glória de sua interminável ruindade. O poder de evocação sinetésica da música é tão grande que bastam três acordes ou um trechinho very tacky de melodia pra “trazer tudo de volta” –a música faz pela memória marromenos o que o dógão comprado nas barraquinhas ali ao lado do Detran, no Ibirapuera, faz pelas seis últimas refeições.

Um amigo que namora há oito anos com a mesma mina recentemente viu o relacionamento na marca do pênalti porque discordou da patôa quando ela afirmou em público que “The Boy With the Thorn in his Side” era a “nossa canção” deles. O amigo, que como Uncle Filthy prefere ouvir anúncios de achados e perdidos em rodoviária tailandesa do que Smiths, fez “cara de nojinho”, segundo a moça, e o casal botou o Olaria em campo. A patôa intimou o rapaz a revelar qual, então, era a canção deles, em sua desinformada opinião, e o amigo –que nunca imaginara que eles tivessem que ter uma “nossa canção”- terminou dormindo na pia uns três dias ao sugerir que, pra ele, a “nossa canção” era “Pela Dona do Primeiro Andar”, dos Originais do Samba.

Por mais isolamento acústico que o mano instale na vida, há sempre o risco de que música muito ruim venha a ser o marco sonoro de momentos que ele preferiria recordar com acompanhamento menos penoso. Porque a música pop é gosmenta, escorre por todas as juntas, penetra todas as fortalezas, e o cara se apanha lembrando com carinho da canção hedionda de B. J. Thomas ao som da qual deu seu primeiro beijo na vizinha vesga de aparelho no dente. (Uncle Filthy, por exemplo, involuntariamente precedeu uma de suas melhores noites de etc. com um passeio de escuna ao som de “É o Tchan!”*. Amor, ou concupiscência, que supere essa prova, yo, tudo mais superará.)

Pra reconduzir o assunto, aliás, do perigoso terreno da generalização infundada e da galhofa para o palácio da memória, me sinto no dever de alertar que, dude, eu sempre odiei disco music com todas as minhas forças, e que disco music européia é ainda mais imperdoável, o que nos conduz, claro, ao Abba, a mais imperdoável das bandas européias de disco music e provavelmente a pior agremiação musical de todos os tempos (se excluirmos o Hole e os Titãs). Abba always made me puke. E por que a meteórica ascensão dos duremolentes escandinavos coincidiu com momento delicado e sensível da minha vida, yo, I puked quite a lot back then.

E no entanto, quando um convite inesperado me conduziu a um estabelecimento que mistura boliche e roller disco, no final de semana, hei que admitir certa dose de nostalgia quando o Flab Four ribombou das caixas de som com uma versão visceral de “Dancing Queen”. A grande sacanagem da memória é transformar os repulsivos sinais do domínio alienígena sobre a nossa vida em marcos perfeitamente coerentes de um passado pelo menos em tese aceitável. A música nos transporta e integra a um passado do qual jamais fizemos ou quisemos fazer parte, elimina as diferenças que nos pareciam tão essenciais com relação à massa dos manés, e enfim nos torna aquilo que nunca desejamos ser: números na massa estatística de gente de mais de 30 que reconhece instantaneamente os trinados suecos do Abba. Por mais que o coração e a zorêia digam não, a memória nos inclui. Pra terminar citando mais uma pérola da lisofofia pop que ficou tocando insistentemente na eletrola da memória uma noite insone dessas, “all you are is dust in the wind”. E vai soprar música ruim assim lá na Suécia, mano.

*Fudílson: "Maria Alice, vou fazer cas suas parte a mesma coisa que o Tchan fez cos meus ouvido".

 

Useless information...


"...suppos'd to fire my imagination"

Quando os exércitos anglo-americanos invadiram a África do Norte francesa, no final de 1942, preferiram deixar a administração dos territórios por eles ocupados nas mãos da potência colonial, porque não queriam lidar com as dificuldades de manter a ordem entre os milhões de muçulmanos locais. Uma das dificuldades imediatas era o número de atropelamentos de civis (e animais domésticos) muçulmanos pelos motoristas americanos imprudentes, e para evitar as disputas intermináveis a respeito de compensações, os americanos acertaram uma “tabelinha” fixa de indenização com as autoridades francesas. Os americanos concordaram em pagar 25 mil francos (velhos) pelo atropelamento de um camelo, 15 mil por um burrico, 10 mil por um menino e 500 francos por uma menina. (Preciso fazer piada aqui? Não, né?)

Tem também o maravilhoso debate constitucional entre os Federalists e outras facções políticas dos fundadores dos Estados Unidos quando estavam redigindo a Magna Carta do país. Os Estados pesadamente escravagistas queriam que a população negra fosse incluída no cômputo de eleitores para fins de cálculo do número de representantes a que cada unidade da federação teria direito na Câmara. Os Estados da Nova Inglaterra queriam que só os brancos fossem contados para fins de representação, já que haviam sido derrotados em sua tentativa de abolir a escravatura. A solução de compromisso? Cada negro seria contado como o equivalente a três quintos de um cidadão, para fins de representação, mas os escravos, claro, não teriam direito a voto.

E na China, quando um sujeito é condenado à morte, o governo cobra da família não só as despesas do funeral como o preço das balas usadas no fuzilamento e o custo da comida consumida no xilindró pelo malfeitor.

Tem alguma coisa de intrinsecamente maligna nesse tipo de racionalização, como se saber o “preço” de uma vida de alguma maneira legitimasse o ato de tirá-la, ou como se determinar que um negro “vale” três quintos de um honky validasse o racismo, e não o contrário. A única causa que ainda merece adesão, depois do falatório maléfico do século XX, é a idéia de que a vida, qualquer vida, tem valor e nunca vai ter preço. (Se bem que Uncle Filthy se veja forçado a concordar que, yo, camelos com certeza valem muito mais do que crianças.)

May 19, 2005

 

Metamuerfuese de la Mancha


"Porque no tiene, porque le falta, una pata para andar"

Certa manhã, Grigor Pança acordou transformado em barata. Na estalagem da remota aldeia andaluza a que as aventuras galantes de seu senhor, o cavaleiro da triste figura, os haviam conduzido, Grigor Pança contemplava a manhã, atônito. “Ay, caramba!”, teria exclamado Pança, não tivesse se tornado barata. Moveu as antenas incisivamente, ao menos, e começou a encarar, ressabiado, o celeiro que lhe servia de abrigo.

Barata ou não, Pança percebeu que mantinha os velhos hábitos, e sentiu estranha contração em seu ventre cascudo. “Andále, Grigor”, disse, ou melhor, antenou, de si para si, “arriba al guacamole!” Pança não sentiu grande dificuldade em se adaptar aos hábitos alimentares das baratas, já que em sua forma humana comia de tudo, copiosamente, usufruindo das sobras de seu senhor, homem apaixonado, pouco dado a preocupações materiais, e sempre inclinado a esquecer no prato as tortillas, os tacos e –especial predileção do fiel escudeiro Pança- os burritos.

Depois do almoço, e de ver os burritos abandonados no prato pelo cavaleiro cruelmente removidos por dois estalajadeiros mirins dados a bazófias, Pança se viu forçado a assistir, sem nenhuma capacidade de interceder, ao cruel embate entre seu insensato benfeitor e os moinhos de vento de Guadalajara. Agitou as antenas, desesperado, e correu de um lado para outro do pátio da hospedaria qual verdadeira barata tonta. Mas em vão. Dom Quixote levou dois uppercuts no maxilar, abriu o supercílio, teve deslocada a mandíbula inferior. Sancho contemplou, comovido e preocupado, o traslado de seu senhor ao interior da estalagem, onde a espevitada empregadinha em cuja empinada figura o cavaleiro via sua amada Dulcinéia, tornada enfermeira, assumiu qual anjo tutelar uma posição de guarda permanente à cabeceira do leito do fidalgo.

Grigor Pança, evitando os estalajadeiros mirins, os gatos predatórios e a vassoura da obesa cozinheira Carmelita, se esgueirava de quando em quando ao quarto do fidalgo, contemplando-o do chão, preocupado e leal, se bem timoroso. Na terceira manhã, depois de um lauto desjejum que misturava fajitas, cascas de abacate e frijoles, o fiel escudeiro se distraiu fatidicamente ao sol que entrava pela janela do quarto del Quijote e embarcou em uma das sonecas com que costumava ocupar larga parte de seus dias. Foi acordado minutos ou horas mais tarde por um grito agudo, repleto de nojo: “Eek, que cucaracha mas güerda!”, bradou Dulcinéia, abandonando a mão do fidalgo que a acariciava. Quixote, reagindo à maneira belicosa que soía aos de sua classe, imediatamente tomou do penico e o arremessou contra o cascudo e sonolento artrópode que abrigava, sem que ele soubesse, a alma de seu leal amigo. Foi recompensando por Dulcinéia com um beijo na boca. (Entram mariachis cantando “La cucaracha, la cucaracha, ya no puede caminar”...)

Moral da história? Cucaracha güerda só se fuede.

 

A touch of class


"Of course, personally, I think it'd be tacky to
wear diamonds before I'm 40"

Quando some bastard who shall remain nameless decidiu refilmar o delicioso Sabrina, de Billy Wilder, tava na cara que ia dar caca. Greg Kinnear no papel que um dia foi de William Holden? Harrison Ford em lugar de Humphrey Bogart? É como escalar Zacarias dos Trapalhões para o papel de Charles Foster Kane, ou Nathan Layne as Spartacus. Mas o dilema intransponível do filme –e de qualquer refilmagem dessa laia- é quem substitui Audrey Hepburn. (And let’s not talk about Julia Ormond, que tem o charme de uma fatia mofada de pão de forma. Ormond no papel de Hepburn é quinêimq Ru Paul fazendo Scarlett O’Hara –não, pensando bem eu até pagaria pra ver Ru Paul fazendo Scarlett O’Hara.)


Darcey Bussel (1969- )

Nenhuma atriz seria capaz de substituir Hepburn –mas Uncle Filthy acha que existe pelo menos uma mulher no mundo das artes que conseguiria fazer o papel sem passar vergonha nem causar apoplexia aos cinéfilos, e estou falando, claro, de Darcey Bussel, cujas fotos enfeitam o post. Bussel é a principal bailarina do Royal Ballet desde 1988, e embora eu não entenda lhufas de dança, quem já viu a moça no palco deve ter percebido a mistura de sílfide e headbanger que ela encarna com precisão milimétrica.


"What an evening for some Therpsychore"

Eu sei lá se Bussel é uma grande atriz (sei que Julia Ormond não é, anyway); no entanto, ela tem todas aquelas qualidades das estrelas do passado: poise, classe, charme, o look (“we had faces, then”). Duvido muito que não tenha recebido –e rejeitado- meia dúzia de propostas para fazer cinema, aliás. Na galeria de casting imaginário do Fudílson, só ela funcionaria como uma nova Audrey (de bailarina a bailarina). Quem sabe quando Ms Bussel chegar aos 40.

May 18, 2005

 

Office Romance


"Fully 75 percent of employees say they have dated a co-worker"

Devia supostamente ser a coisa mais simples do mundo: afinal, eu gosto dela, e eu gosto dela há tanto tempo, e aposto que ela sabe que eu gosto dela. Aliás, se ela não soubesse que eu gosto dela ela seria burra, e eu não teria motivo para gostar dela.

(Luísa saltita pelos corredores da firrrma distribuindo sorrisos e trocando fofocas rápidas com os colegas, vestida com elegância e uma pontinha –mas só mesmo a menor das pontinhas- de provocação. Luísa é boa gente, a real team-player, e lembra todo dia do conselho materno –“se você não tiver nada de bom a dizer sobre alguém, melhor não dizer nada”.)

Porque é assim, ó: ela é bonita, sim, mas ela não é metida a besta como as outras meninas bonitas, e ela olha pra mim quando ela fala comigo. Sabe quantas pessoas vêm aqui na computação agradecer quando a gente dá o sangue pra completar um trabalho? É, só ela, mesmo. Eu sei que ela deve ter muito marmanjo interessado, porque ela é tão legal, e ela é tão bonita. Mas eu gosto dela. Sei que nenhum deles gosta dela como eu gosto.

(Luísa se lembra, no caminho, de que precisa passar na computação e agradecer os meninos pela noite passada em claro para fechar todos os arquivos da campanha. Luísa sempre se lembra de agradecer todo mundo por aquelas coisas de que as pessoas normalmente se esquecem. Luísa manda bilhetinhos de obrigado, sempre leva alguma coisa –flores ou uma sobremesa- quando a convidam para um jantar, organiza a coleta de dinheiro para comprar presente no aniversário dos colegas.)

Nossa senhora, como ela tá linda, hoje. Eu adoro quando ela vem com essa saia, e sei que é sacanagem admitir mas, pô, não tem como não dar uma olhadinha no decote. Eu tomo cuidado para que ela não me veja olhando, mas, nossa, como ela fica gostosa com essa roupa. E mesmo assim ela continua tratando todo mundo como gente. Tá bom, ela é mais velha do que eu, mas daqui a cinco anos, quem vai perceber a diferença? Eu não quero nem saber, hoje eu falo com ela.

(Luísa entra na computação e caminha de mesa em mesa, cumprimentando os operadores com beijos e afagos nos cabelos, e agradecendo pelo trabalho hercúleo dos últimos dias. Faz questão especial de mimar Marcinho, o novato, que sempre quebra os galhos mais difíceis sem que ela precise se sentir idiota por não saber como o sistema funciona. Os colegas riem do rubor que toma o rosto do adolescente quando ela se inclina para abraçá-lo.)

Ô, caceta, ela já tá indo embora. Será que eu corro atrás dela?

(Os três outros operadores apontam para a cara de apaixonado do colega, que contempla Luísa se afastando corredor afora.)

“Ai”, diz Roger, em péssimo falsete, “eu vou esfregar meus peitinhos nesse gostosão”.

Não, melhor não. Mas da próxima vez...

 

Le vide papier que la
blancheur défend*


"Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!"

Um dos maiores motivos para a falta de obras-primas da literatura nos últimos 50 anos é o telemarketing. Não só porque o telefone interrompe o cara na hora em que ele está enchendo de apostos o redemoinho de sentenças sem sujeito que formam o crucial parágrafo niquiq o ciclotímico protagonista J. Petronilho dos Santos fala de perda e de maria-mole, mas porque ligação de telemarketing demole qualquer senso de sublime (o papel higiênico). O autor de obra-prima tá lá, limpando o monóculo com o foulard, e liga o Wanderley da auto-escola pedindo pra falar com o dono da casa. “Eu sou o dono da casa”, diz o autor de obras-primas, com perfeita dicção etoniana. “O senhor já tem carta de motorista, sêo...?”, pergunta a voz. “Epifânio”, completa o autor de obras-primas, distraído, ao perceber em releitura uma rima involuntária na terceira linha. “Então, sêo Evilásio, o senhor já tem carta de motorista?” O autor de obras-primas responde que sim, já tem. “E tem alguma pessoa aí que tem idade pra estar tiranu carta de motorista, sêo Evaristo?” O autor de obras-primas, tomado de dúvida quanto à regência precisa do verbo “tergiversar”, responde que não. “E o senhor conhece alguém que o senhor acha que pode querer uma carta de motorista da escola Copa 70, sêo Etevaldo?” O autor de obras-primas responde que não, e pensa em bater o telefone, mas não consegue interromper os efusivos agradecimentos de Wanderley. “Brigado, viu, sêo Everaldo? Eu ligo a semana que vem, então, pra ver se o senhor lembrou de alguém”.

O autor de obras-primas pensa em deixar o telefone fora do gancho, mas há sempre a possibilidade de que Isabelle, a especialista em maiêutica da Universidade de Nantes com quem ele mantém ardoroso romance epistolar, decida enfim ligar, vestida em peignoir de seda, nas mãos uma flûte do mais severo Pol Roget. O autor de obras-primas tenta se concentrar de novo no parágrafo abandonado em meio ao terceiro aposto –no qual ele contrasta o sabor imaginado da madeleine e o sabor da queijadinha que J. Petronilho dos Santos não pôde comer na infância devido a um acidente com sua primeira dentição- mas só consegue pensar em expressões como “botocudo”, “cocréti”, nó nas tripa”. O autor de obras primas relembra o verde intenso da relva de Eton, ainda que tenha nascido em Araraquara e não conheça a Inglaterra, e se esforça por exorcizar da memória o som atroz da voz do Wanderley do telemarketing. Tenta todos os truques –prepara uma lista de palavras-valise, redige algumas linhas de inspiração surrealista em modo de escrita automática (“o cocréti de Wanderley resvalou no botocudo de Eton”), abre ao acaso um dicionário de citações -mas sabe que a tarde de trabalho está perdida. Refaz o laço do robe de chambre, contempla as folhas do outono flutuando em preguiçosa espiral descendente na direção do pavimento. “O cocréti é triste, sim, e já li todos os blogs”, parafraseia. Lá fora anoitece.

*Dedicado ao Alexandre, mestre supremo do romantismo realista.

May 17, 2005

 

Hugo Chávez é um
palhaço retrógrado


A marriage made in hell

Eu acompanho há um bom tempo o –excelente- trabalho do Pew Internet and American Life Project, que analisa as tendências emergentes da Internet com base em dados quantitativos (ou seja, rastreando o que os usuários e internautas efetivamente FAZEM online), em lugar do usual “veja pois” oferecido pelos falsos profetas das novas mídias. Em janeiro, o professor Michael Cornfield, da Universidade George Washington, publicou o relatório que produziu para o Pew sobre o uso da Internet na campanha eleitoral americana de 2004, e ontem saiu novo relatório, sobre o projeto de pesquisa dirigido por ele e envolvendo o Pew e a BuzzMetrics, quanto à influência política dos blogs sobre as organizações de campanha eleitoral e a mídia convencional, no ano passado.

Cornfield usou o software e os recursos analíticos especializados da BuzzMetrics para mapear de onde surge e como se espalha “o buzz” –o rumor, a informação sem fonte definida- no contexto de uma campanha eleitoral, e constatou que na verdade os blogs políticos não estão exatamente substituindo a mídia convencional como fonte de notícias ou opiniões políticas, ao contrário do que se anda lendo Internet afora. A tecnologia da BuzzMetrics foi desenvolvida especificamente para analisar e quantificar a divulgação de informações por “word of mouth”, de pessoa a pessoa, sem a interferência da mídia ou dos veículos estabelecidos de comunicação, e o estudo acompanhou 40 dos veículos de informação política de maior audiência durante a campanha eleitoral do ano passado, entre os quais blogs, sites de notícias, os sites das campanhas, programas de TV e fóruns de discussão na Internet.

Sempre que encontro essas infundadas considerações sobre a possibilidade de que os blogs “substituam” a mídia convencional, minha reação instintiva é arreganhar os dentes: afinal, trata-se do tipo de afirmação que cansou de ser feita sobre isso, aquilo e aquele outro na Internet, durante os últimos 10 anos, com os resultados que todos conhecemos. O fato de que muita gente prefira ler blogs a ler jornal –em papel ou online- deriva provavelmente do fato de que, yo, os jornais são muito chatos. Na desesperada busca por uma aparência de objetividade que satisfaça ou ao menos não ofenda os inúmeros grupos de interesses os quais –segundo os apedeutas- compõem a “sociedade civil”, o texto jornalístico padrão perdeu completamente o ataque. Hoje em dia, uma reportagem de jornal “soa” exatamente como um paper do governo ou um relatório de ONG, duas coisas que a gente só lê se for pago pra isso. Blogs oferecem opinião, humor, idiossincrasias de estilo, parcialidade escancarada, uso seletivo dos fatos: concordando ou não com os mongos que os escrevem (present company totally included), a gente pelo menas dá risada.

Sempre que meus amigos cabeça expressam horror sacrossanto diante do predomínio da fofoca e da futilidade na mídia online, lembro de que as colunas de fofoca e a mídia de celebridades exibem muito mais personalidade e verve do que a parte “séria” da imprensa. Dou risada com a coluna do Feltrin ainda que não assista a nenhum dos programas de televisão que ele comenta e mal saiba quem são as pessoas que ele achincalha. Já a cobertura dos cadernos de internacional brasileiros sobre a Venezuela, por exemplo, me irrita em três segundos, porque nenhum deles admite o óbvio: Hugo Chávez é um palhaço retrógrado, e um palhaço retrógrado dos mais perigosos. Mas hoje em dia só um blog usaria essa frase como manchete. O que demonstra ao mesmo tempo os pontos fortes e os pontos fracos da mídia miúda em que desperdiço meu lazer diário, e a razão para que os blogs -thank god for smal mercies- jamais venham a substituir a mídia convencional.

 

O ogro sodomita e a fratura no pênis


You can call me Pablo Pigasso

Este lado para cima: Um tribunal de apelações de Massachussets decidiu que Mr. John “Taco” Doe não tem direito de processar a fulana com quem estava furumfando em 1994 e, em manobra digna do X Games, caiu com o avantajado pandeirão em cima do bingulim da vítima, causando fratura em seu tacape do amô. A recuperação foi “longa e dolorosa” (surprise, surprise) e John Don’t, apesar dos 10 anos transcorridos, ainda não recuperou plenamente a, er, elasticidade genital. Possível diálogo para a cena: “Nããããão, Maria Alice, eu disse salto COM vara, salto COM vara”.

Sonho masculino: Pra levantar o ânimo dos co-irmãos XY abalados pela injustiça acima relatada, Uncle Filthy descobriu em esforço de reportagem que as otoridad americana estão testando uma máquina de raios-X que permite ver o que os passageiros têm embaixo da roupa, na verificação de segurança aeroportuária. Pra quem passou a adolescência inteira sonhando ter visão de raio-X como o Super-Homem, é uma vitória comovente da tecnologia. Magina o número de vagabundo querendo trabalhar como segurança na semana da moda de Milão, quando a máquina entrar em uso.

Demônio tarado: Uncle Filthy rara vez encontrou criatura sobrenatural batizada com mais propriedade do que Popo Bawa, o ogro-morcego que sodomiza visitantes nas ilhas localizadas ao largo de Zanzibar, no Oceano Índico. Popo Bawa, em atitude que confirma sua consistência intelectual, costuma atacar bastante na ilha de Pemba, e Mohammed Juma, um dos sodomizados do Além, diz que a única defesa é ler o Corão. Depois de 12 anos em Sing Sing a Song, the jaihouse Karen Carpenter built, Uncle Fithy –sem desdenhar Alá, que tudo vê,- considera que andar ca bunda colada na parede é outro método bastante efetivo.

O après-vivre de Imelda Bradshaw: Na Cornualha, região inglesa pela qual Uncle Filthy sente inexplicável afinidade, duas balconistas de uma loja de sapatos tiveram que chamar o pároco pra ver se ele exorciza um fantasma que vive bulindo com um par de Manolos exposto na vitrine. Pe. Chris Malkinson disse que de vez em quando uma alma fica aprisionada entre o nosso mundo e o próximo, mas termina indo embora um dia. Enterro, seis mil libras; cobiçar objetos materiais depois de morta: terceira Bolgia do inferno; chegar bem-vestida ao primeiro encontro com o Tinhoso? Não tem preço. (O Sun, melhor jornal do mundo, noticiou o causo com a manchete “exorcising the lost sole”.)

No puedo mis angustias soportar: Na Cidade do México, quadrilhas de malfeitores agora se vestem como mariachis e usam o disfarce para se aproximar de vítimas desprevenidas e assaltá-las. Uncle Filthy, que sempre sentiu intenso desejo secreto de assaltar um banco vestido de Garibaldo, simpatiza com os ladrões e, em sua condição de vítima natural, considera que talvez seja melhor ter a carteira roubada do que ouvir Cielito Lindo, come to think of it.

Pauline, 72, paraplégica comprétinha: O (merecido) anonimato é um grande estímulo para que os mongos saiam pentelhando a torto e a direito, na Internet e na vida real, mas Shirley Irene Wright entrou pelo cano depois de publicar dois anúncios que davam o telefone de suas desafetas, Pauline (72), e Sandy (56), como profissionais do séquissu. Como é comum na ala mau caráter da população, dona Wright é burra pra caceta, pagou pelos anúncios com seu cartão de crédito, e terminou condenada a reembolsar as vítimas do trote pelo preju incorrido, e a 160 horas de trabalho comunitário. Sic semper burraldis.

Pintores, porcos e presuntos: Como Uncle Filthy, cê sempre achou que Pablo Picasso é um engodo e que qualquer um é capaz de pintar mulé com corpo de vaca e três olhos do mesmo lado dos dois narizes? Put your mouse where your mouth is desenhando um rosto à maneira de Picasso, aqui. E se você acha que essa obsessão de Picasso com as vacas é injustiça para com outras maravilhas da criação, talvez prefira desenhar um porco, aqui. O desenho serve como teste de personalidade, e o meu enfeita o post (nem queiram saber que nota tirei em personalidade suína, aliás). Pra terminar como sói a porcos e pintores, a Wikipedia tem uma ótima lista de mortes incomuns, com destaque para o velho e querido Grigôri Rasputin, que, depois de ser envenenado, levar múltiplos tiros na cabeça e torso, receber pancadas na cabeça com um cassetete e ter o bingulim decepado, terminou morrendo de hipotermia, nadando para a margem, depois que o envolveram em um lençol e lançaram o suposto presunto nas águas geladas do Neva por um buraco no gelo; e para Frank Hayes, jóquei que morreu do coração durante um páreo em que montava Sweet Kiss; o persistente pangaré levou o presunto a cruzar o disco final em primeiro lugar, e fez dele o primeiro e único jóquei morto que pagou pule.

May 16, 2005

 

You're fired...


... said The Donald to The Barber

A gentil leitora, o amável leitor, já foi demitido alguma vez? Eu fui. Duas vezes, pra ser exato. É uma dessas situações para as quais não existe manual de etiqueta –se bem que seja parte indissociável da vida mudérna. Dia desses, vi na livraria um livro de auto-ajuda cujo subtítulo era algo como “what would you say during a job interview with Bill Gates?” (Além de “get thee behind me, Satan?”, ou a pergunta era pra ser séria?) Já que nascimento implica morte e casamento o mais das vezes implica divórcio, emprego necessariamente implica demissão. Mas duvido que as editoras apostem em título de auto-ajuda do tipo “101 insultos irrebatíveis para usar contra seu chefe no dia da demissão”. Não; você deve supostamente dedicar corpo e alma à firrrma enquanto estiver empregado e, quando o patrão quiser contratar uma góztóza ou a bolsa de Kuala Lumpur cair em 37% por conta do efeito do tsunami sobre a mandioca, resultando em lastimáveis cortes na nossa folha de pagamentos, o único conselho é reagir com o elusivo fair-play de cavalheiro vitoriano quando acidentalmente entra em banheiro e pega a mulé sem roupa: “Desculpe-me, senhor”, reza a etiqueta, é o reação que distingue o cavalheiro do parvenu – o qual diria “desculpe-me, senhora”. (Eu mesmo tenderia a dizer “pô, tudo isso é seu, mesmo?”, mas jamais me pretendi cavalheiro.)

Grosso modo (tava querendo escrever “grosso modo” aqui faiz seis mêis, yo), há duas catigorias de demissão –aquelas que são culpa do demitido e aquelas que são culpa do demissor. A primeira das minhas experiências se enquadra claramente na primeira catigoria –emprego bêchta arrumado estritamente para pagar as contas e trabalho desempenhado com aquela mistura de arrogância, má vontade e teimosia característica da juventude. Surpreendentemente, ainda que eu não ligasse a mínima pro emprego, sentisse sério desdém pelo patrão e soubesse que trabalho daquele tipo era a dime a dozen, fiquei puto quando o Bwana me demitiu. Como é que um loser daqueles se atreve a demitir um rock star como o young padawan Fudílson de um emprego que era tão claramente indigno de meu brilhantismo? Se eu acreditasse naquela cena de humilhação pública que é requisito essencial de certos gêneros do cinema americano, reproduziria aqui a resposta do patrão –“por mais humilde que seja o trabalho, tem sempre alguém incapaz de realizá-lo”- mas, yo, eu definitivamente não aprendi a lição, não, e continuei vida afora tratando o meu ganha-pão, e o negócio alheio, com altaneira falta de consideração.

A segunda demissão foi catastrófica, porque era um emprego, um projeto e até mesmo uma firrrma aos quais me dediquei com a intensidade quase zumbi que dizem ser necessárias aos fast trackers. E depois de dois anos liderando todos os rankings, recebendo avaliações que nem as que Paula Abdul dá aos cantores jebudos no American Idol e sobrevivendo a fusões, aquisições, confusões e crashes, certa manhã fui chamado à sala do novo CEO para apresentação formal, com direito a abraço canhestro de gringo e tapinhas verbais nas costas. E, 10 minutos depois, de volta ao meu escritório, encontrei um e-mail da firrrma terceirizada que fazia o papel de departamento pessoal informando que eu estava demitido. Quite elegant. Quite devastating.

Tem gente que nasce convicta de seu valor, talento, até gênio, e encara esses acidentes de percurso com aquele espírito de “Ha! Vocês verão meu nome nos luminosos um dia, seus vermes!” Nunca foi o meu caso. Esquizofrenicamente, consigo sempre manter uma certa dose de foda-se quanto às maravilhas do meu trabalho mas sei ao mesmo tempo que meu sucesso –ou lack thereof- no mundo-lá-fora em que as pessoas continuam ganhando notas muito depois de formadas é, sim, uma medida do meu valor. Ou, pelo menos, uma medida da minha aceitação, uma medida da eficiência de meu esforço de adaptação a mores e critérios que não são necessariamente os meus. Porque o pobrema de ser vanguardista ou gênio solitário das artes e cultura é sempre o risco de que você considere que está sozinho -por muito à frente do mundo- quando na verdade o mundo passou rindo a bordo de uma minivan e te deixou para trás. Esse mundo besta do topete do Trump talvez não mereça mesmo dois segundos da minha erudita atenção, mas, se é nele que vivo, ter um emprego, um salário, uma promoção, um escrotório, uma carreira, uma preocupação qualquer que não o meu próprio umbigo é necessário pro meu senso de equilíbrio. E as demissões servem pra me lembrar de que, yo, tanto eu quanto o, er, sistema somos longe de perfeitos. Useful to get that learnt.

 

Princesa Léia Popozuda na Moral


"Eu tenho o cocréti!"

Eu vivo me declarando nerd aqui, ou expressando minha imorredoura simpatia por everything geek, mas aproveito a ocasião para deixar bem claro que, yo, eu odeio Star Wars, dos pronunciamentos dignos de livro de auto-ajuda do Mestre Yakissoba* aos heróis com cara de bundinha que eles insistem em dizer que vão salvar o universo, blablablá. É uma birra que se estende bem além da, er, “saga”, criada por George “eu tenho o marketing!” Lucas. Nunca tive muito saco pra confrontos gargantuescos entre o Bem e o Mal –mesmo os bem escritos como Lord of the Rings- já que, por mais fórrtinho que o Mal seja, o Bem sempre dispõe de algum ingrediente miraculoso que resolve a parada. Não dá nem pra entender por que o Evil Incarnate du Jour se daria ao trabalho de descobrir complexos sortilégios que despertem ou invoquem o Grande Dragão de Saiqueudô quando o mocinho, mesmo que declaradamente mão-mole, só precisa gritar “eu tenho o cocréti” pra fazer a besta-fera virar largatixa.

Tive a honra de dividir um microfone de karaokê e uma porção de tremoço com Lin Dongpu, ídalo em 100 milhões de lares chineses como o mano que dublou Darth Vader para o mandarim nos três filmes originais da série Guerra nas Estrelas. Lin confessa que sente uma certa simpatia pelo Império (não é o único), mas Vader é quase tão chato quanto Yoda. Se o Cocréti tudo resolve, pra que construir a Estrela da Morte, mano? E, yo, cortar a mão do póprio filho é meio drástico como castigo por ter encontrado aquela pilha de revistas SpaceHoncho embaixo do catre antigravitacional do menino. E quanto aos demais astros, Lin, que já participou de uma sessão de fotos com Carrie Fisher, a atriz que encarnou a princesa Léia, comenta, com invulgar elegância, que “she fat but yummy”.

Inda assim, Star Wars tem muitos juicy bits, como as versões pornô e paródias para diversos dos filmes, o famoso trading card que entrou para o primeiro escalão das lendas urbanas porque mostra o robô C3PO com uma estrovenga descomunal (supostamente sacanagem de um ilustrador mal pago), pra não mencionar um dos funks prediletos de Uncle Filthy, “Melô do Estauar”**, o cujo qual contém o imortal verso “princesa Léia popozuda na moral”. A série é, além disso, o wet dream dos white suprematists, porque nos três primeiros filmes os únicos dois blacks escalados para o elenco são James Earl Jones, como a voz do vilão, e Billy Dee Williams, como uma espécie de space pimp, e na segunda trilogia, quando Samuel L. Jones está no comando das tropas jedi, os mocinhos obviamente perdem. Uma das curiosidades mais instigantes quanto à segunda (ou primeira) parte da, er, saga é a escolha de nomes que só podem ter sido soprados por algum brasileiro sacana infiltrado na equipe do brilhante cineasta –nesses últimos filmes, tem uma princesa Amídala, um mané chamado Sypho Dias e um vilão que atende por Count Doku. (E Léia, se as declarações do meu amigo Lin procedem, deve ser redutivo de “Baleia”).

Detesto ser estraga-prazeres quanto a filmes que já vi e meus amigos ainda não tiveram o prazer, como sabe quem lê minhas considerações blogais sobre cinema, mas dessa vez vou revelar, em primeira mão, e sem spoiler alert: o Mal triunfa. (No caso do fedelho que interpreta o jovem Eliakin Skywalker, o mau ator.) Recomendo especial atenção aos personagens, um chamado Mário e o outro Lôchas, que servem como uma espécie de Rosenkrantz e Guildenstern para dar tom shakespereano à tragédia. Na cotação Fudílson, o filme leva um cocréti. (E chewie, em New Jersey back in the day, queria dizer coisa muito diferente, dude.)

* A filosofia jedi parece ter saído todinha de biscoitos da sorte do China in Box, redigidos em Ingriz –“win you won’t when lose you will”.
Update: Cortesia do Rafael Lima (e do Pedro Sette Câmara), agora vocês podem ouvir o "Melô do Estauar".

 

Come Fly With Me


Terminal da TWA, Idlewild (JFK) Airport, foto de Ezra Stoller

Os filisteus como eu costumam se esquecer com facilidade excessiva de que aeroportos não representam só uma ou algumas das paradas na via crucis entre escritório número um e escritório número dois. Eles funcionam não só como ponto de partida para a aventura (vide o frango de borracha –aventura ortodôntica- servido em aviões) mas como portal entre o mundo bidimensional em que nos deslocamos normalmente e o mundo tridimensional que sentimos ao nosso redor sem poder explorar.


Terminal TWA por dentro, projeto de Eero Saarinen

Viajar demais deixa o sujeito jaded: aeroporto, como determinadas áreas da anatomia do sexo oposto, afinal, é tudo igual. De perto ou de dentro, porém, não, não é. Igual é o cinismo ou ceticismo que carregamos como bagagem permanente, mais sacola de canguru afixada ao ventre do que Samsonite a ser perdida por carregador mongo. Sem o cinismo, observados pelos olhos luminosos de alguém que ainda sorri de vez em quando para a vida, aeroportos podem brilhar com a luz cintilante da expectativa.


La Guardia Airport, administration building, circa 1930s

Para sorte dos sujeitos oh so experienced and oh so jaded como o locutor que vos fala, de vez quando um par de olhos como esses pisca um convite, uma observação, uma ironia, uma explicação, tudo ao mesmo tempo, e os aeroportos recuperam o que tinham de mágico antes do cinismo. (E aí, claro, você fica que nem um mongo no aeroporto pensando nela, ou que nem um mongo pensando nela no aeroporto, enquanto a jukebox da memória e do desejo canta “it’s perfect for a flying honeymoon, they say”, e ela dorme como um anjo do outro lado do planeta.) Here’s flying with you, kid.

May 15, 2005

 

The reader over my shoulder*...


Via Lifehacker, os comerciais do Firefox...

Eu nunca fui muito fã dos blogs da Gawker Media, apesar de todo o hype. Acho o Gawker e o Defamer sem gracinha, o Jalopnik e o Wonkette só ocasionalmente divertidos (quanto ao primeiro, well, I’m not that much into cars, anyway), e o Fleshbot too busy, em termos de design, pra que eu leia sempre (ainda que seja um dos bons blogs “de sacanagem”, vá lá). Mas um dos títulos mais recentes da casa, o Lifehacker, é muito, muito cool –se você, como Uncle Filthy, for completamente nerd. Dona Gina Trapani, a blogueira responsável pelo site, oferece literalmente dezenas de links úteis, interessantes ou divertidos todos os dias –como esse aqui, que permite calcular a cor dos olhos dos futuros petizes.

Dona Trapani também indicou uma ferramenta essencial se você publica uma montanha de links em seu blog –o MyBlogLog, que rastreia quais são os links mais visitados no seu site, e permite sastifazer o freguêis, apontando as modalidades mais populares de abobrinha. Instalei a bagaça há mais de um mês, e não pretendo causar embaraços aos meus três leitores contando quais dos links que instalo aqui recebem mais visitas, but you ought to be ashamed of yourselves, you perverts.

Para instalar o serviço MyBlogLog, basta acrescentar uma linha de código ao seu template, logo depois do tag <body>, e a versão gratuita funciona perfeitamente bem para quem –como eu- opera blog de proporções modestas. Há uma versão, também um trecho curto de código, que permite acrescentar ao blog um box mostrando os cinco links mais visitados, mas eu não vou usar, não, em respeito à pôca-vergonha dos leitores. É divertido ver a distância entre os links que eu acho que atrairão mais a atenção docês e aqueles que realmente vos fazem clicar. Kinda humbling, too.

*is probably drooling.

May 12, 2005

 

Teoria da complexidade


Something fishy

Em petiz, quando minha manhê me mandava comprar atum na venda, o procedimento era simples: “ô, sêo Chang, me dá uma lata de atum”, de um lado, o embrulho de papel pardo e o troco, do outro, e transação encerrada. Agora, meu são jizuis, é quase o desembarque da Normandia –umas seis marcas diferentes de atum nas prateleiras do supermercado, pra começar, e todas elas apresentando alternativas de atum sólido, em pedaços ou ralado, tanto em versão standard quanto em versão light, pra não falar da diferenciação entre o atum-em-si e o bonito, o primo pobre do atum que sempre foi vendido como se o fora mas agora não mais. (E aposto que, em supermercado de país com forte minoria judaica, deve ter lata especial de atum kosher, com segregação entre os peixes pescados no Mediterrâneo e no Mar Vermelho.) As latas mesmas agora são cheias de nove-horas –continuam a existir as latas de atum em seu formato e tamanho tradicional, mas os distribuidores também oferecem um pacotinho contendo três latas menores, em vez de uma lata maior, ou uma versão de embalagem com um abridor na tampa, o que dispensa o uso do abridor de lata tradicional . O Fudilsinho hodierno, tadinho, enviado em missão semelhante, se depararia com dilema de proporções hamletianas: tuna be or not tuna be, that is the question.

Tem também o sempiterno dilema sobre o momento certo de dizer “eu te amo”. Admitindo que nem “prazer, Fudílson. Eu te amo”, logo antes de encoxar a mina no ônibus, e nem “PS, eu te amo”, aposto à ata de divórcio são exemplos de timing ideal, quando exatamente are we supposed to say “eu te amo”? E, muito mais importante, quando exatamente as mina tão esperando ouvir “eu te amo”? Uma rápida pesquisa por e-mail resultou, entre os mano, em 16% de “nunca”, 36% de “logo antes de comer”, 16% de “logo depois de comer pela primeira vez”, 16% de “quando ela disser primeiro” e os outros 16% de “macho que é macho não diz essas viadaj”. (Aplicada a igual número de mulé, a mesma pergunta resultou em 66% de “quando for verdade, cazzo”, 17% de “while doing the dirty” e 17% de “quando ele quiser, menos quando for pra pedir desculpa por alguma mancada”.) Talvez seja um dilema menos doloroso que o do atum, mas, pô, por que tanta coisa tem que ser difícil de decidir? (A título de disclosure, eu normalmente fico com a opção que descrevi em primeiro lugar, e devo de dizer que as mina do buzum em geral recebem a declaração com expressão de profundo desagrado.)

Ninguém é mais simpático ao livre arbítrio e à liberdade de escolha do que eu. É bom saber que todas aquelas opções de atum estão lá, que alguém tenha de fato tido a quase insana paciência de descobrir que os consumidores realmente precisam de tantas variáveis. Por outro lado, dude, atum é atum, ou seja, eu nem pensaria em comparar e contrastar as ofertas caso elas não estivessem lá. Fact is, há momentos em que quero escolher não escolher. Por mais que a gente tente ou deseje ser racionalista, milhões de “decisões” que tomamos na vida não são efetivamente decisões: não refletimos sobre elas, porque sabemos –ou acreditamos saber- instintivamente o que é “certo”. Ou simplesmente seguimos o fluxo, acompanhamos a maré. Que proporção da vida amorosa da gente é guiada pelos hormônios e que proporção é guiada pela consciência? Às vezes, ser forçado a escolher paralisa, ser forçado a escolher restringe a liberdade, ao promovê-la. É por isso que gosto tanto de Hamlet, o drama do cara forçado a escolher, que sabe ou desconfia das conseqüências de sua escolha (qualquer que ela venha a ser, aliás). Há momentos na vida em que deixar que o sêo Chang escolha o atum é mais livre, porque mais inerte. Tem horas em que a vida vai, dude: vá junto. Lembro de um momento de infância campestre, a minha usual turma de maloqueiros descendo o plácido rio Buquira, alguns nadando, outros boiando, outros placidamente instalados sobre câmeras de pneus de caminhão usadas como bóias –e um primo, desesperadamente medroso, abraçado com a força dos náufragos a uma tábua usada como balsa, batendo os pés, afoito, contra a força da corrente. “Pára de fazer força, cacete, e deixa a água trabalhar”, disse alguém. No supermercado da existença, às vezes atum é só atum.

 

Guilty Pleasures


Killer thighs

Admito que sempre fico meio constrangido por admirar uma mina só porque ela é bonita, ou gostosa. Eu e brother Gus já tivemos a mesma discussão centas vezes, sobre muitas mulé. Eu: “Ela é burra pra cacete”. Ele: “Mas é góztóza”. Eu: “Meu, ela não consegue interpretar nem uma boneca inflável”. Ele: “Mas é góztóza”. Eu: “E o que cê vai conversar com uma mulé dessa antes e depois de etc? Ela precisa de legenda em toda piada”. Ele: “Mas é góztóza”. Como sabe todo homem, trata-se de um argumento irrebatível. Aliás, se um dia os homens, acuados, tiverem que fundar um movimento pra defender seu direito a sair com as burraldinhas, o lema com certeza tem de ser “Mas É Góztóza”.


Famke Janssen (1965- )

Eu não costumo sair de casa pra assistir um filme só porque tem uma determinada góztóza nele (ao contrário das mina em caso de filme de Rogério Lacerda* e Orlando Pum), mas nim tendo que escolher entre um e outro filme igualmente ruins, aquele que tem góztóza terá preferência. O que explica como eu acabei assistindo a tantos filmes da monumental Famke Janssen, cuja carreira cinematográfica devia ficar cercada de fita amarela de “do not trespass”. A longilínea beldade neerlandesa ficou famosa inicialmente como Xenia Onatopp, a vilã que esmagava inimigos com as coxas em um filme de Bond, e continuou a fazer carreira nas coxas, depois disso –de combustível pra nerds mão-peluda em X-Men e X2 –X-Men United, passando por gangster moll em Monument Ave. e Made, a namorada do alter ego de Woody Allen em Celebrity. Os únicos dois filmes dela com que eu simpatizo um pouco (se bem nenhum dos dois seja grande coisa) são o thriller de pôquer Rounders e a comédia romântica Love & Sex, niquiq a personagem de Janssen, repórter de uma revista feminina, está trabalhando em um artigo chamado “love sucks, and so do I”, sobre as alegrias do sexo oral. Janssen –que estudou letras e creative writing na Columbia- diz que seu escritor predileto é Nabokov. Não parece, a julgar dos papéis que escolhe. Mas –by Jove!- como é góztóza.

* Copyright Noronha: nome genérico para galãs da Globo

May 11, 2005

 

R-E-S-P-E-C-T


"Quem se curva diante dos opressores
mostra a bunda aos oprimidos"

No ginásio, eu tinha um feçô que era uma espécie de almanaque do bad cliché, e o favorito dele sempre foi “vocês estão confundindo liberdade com libertinagem”, o cujo qual, sempre que pronunciado, me arremessava ao mais terrível dos giggle loops (a palavra “libertinagem”, mesmo sem o resto do clichê, continua a ter esse efeito, aliás, passado um quarto de século). A lembrança do clichê hediondo me ocorreu enquanto eu tentava com a maior honestidade descobrir por que correção política me causa hilaridade. O paralelo é claro: correção política é uma maneira de aplicar a todas as coisas uma demão de respeitabilidade -mas respeitabilidade dessa ordem caricata tão cara às otoridad e aos maus professores. Correção política está para os últimos 30 anos assim como peruca e meia de seda estavam para a corte de Versailles. Velhacos bem vestidos continuam velhacos. E por mais que o mano se force ou seja forçado a escrever “transgênero”, mentalmente ele vai estar pensando “traveco”. (O risco inerente da correção política, aliás, é que ela tenha efeito inverso ao que pretende e termine emprestando conotações racistas aos termos supostamente neutros que adota –ou vocês não percebem o desdém incipiente com que os racistas empregam o termo “African-American”?)

Não, don’t fear, nada de rants contra a correção política –que pra mim é fonte de perpétua diversão (chamar convescote acadêmico de “ovulário” porque “seminário” é machista? Come on.) No entanto, a busca renitente por respeitabilidade que os PCs promovem me parece patológica. Há uma diferença essencial entre ser respeitado e ser respeitável, e o que a correção política consegue, no máximo, é tornar suas catigorias “respeitáveis”, com todas as aspas. Temo que o mesmo esteja começando a acontecer, aliás, com os blogs. Minha ogra madrinha, Lady Jules, em debate filosófico dia desses, disse que blogueiro é o rock star do século 21, com direito a groupie e calça de couro. Já tem sociólogo, antropófago, fêçô de literatura e psicanalista cravando as garras no “felômeno blog”, e todo mundo sabe o que acontece quando eles tomam conta do debate. Há umas duas semanas, em Paris, rolou uma conferência chamada “Les Blogs”: perigo, Will Robinson. Quando intelectual francês finca o óclinhos num tema, a diversão sai correndo pela porta oposta gritando “popô niqui mamã passou talquinho jamais será empalhado na Sorbonne”.

Os americanos costumam dizer que o 11° mandamento é “não serás apanhado”, mas Kunta Kinte McWanker-Smith, patriarca do clã Noronha-McNasty, sempre insistiu em que o 11° mandamento, ou o primeiro, pra todos os efeitos, deveria ser “não te levarás a sério”. À medida que aumenta o número de leitores do meu bestiário, me pego penteando o cabelo ou trocando a camiseta furada da campanha de Jacaré do Gás à vereança por uma camisa sociar da Garbo, antes de me sentar ao intimorato CompuBras para postar. Pra recorrer a mais um clichê professoral barato, respeito é bom e (até) eu gosto, mas o único respeito que vale a pena receber é aquele que me é dado voluntariamente por todos os meus três leitores. Meu medo é que esse interesse todo em tratar blog como coisa “de gente grande” elimine a (falta de) hierarquia natural que é uma das graças essenciais do brinquedo. Todo mundo aqui vale o que escreve (eu sei, Maria Alice, tô no setor de 1,99), e o respeito conquistado dessa maneira é muito mais saboroso do que aquele que poderia advir de um veredicto de crítica literária. No dia em que estudante capixaba de neurolingüiça analisar meu blog em tese com título quinêim Idioletos Urbanos na Blogosfera: Um Prolegômeno, fecho o lojinha e volto pra pintura rupestre.

 

Monkey Business


(For Anne-Marie, 10, monkey-draughtsgirl extraordinaire)

I met her in the zoo
Avoiding monkey poo
This girl I’ve tried to woo
Another chance I blew

The day was hot, it’s true
The sky cerulean blue
The monkeys they threw poo
At couples in the zoo

Such joy I never knew
-while dodging monkey poo-
She smiled at me and blew
A kiss; I moved close to

And said ‘I dig your ‘do’
She mentioned her shampoo
I asked her to a Foo
Fighters gig and she said 'you

seem familiar, from Yahoo?'
'Maybe you know me from the hoo
d, I’m the guy from Fordham U
Eng Lit major, 22'

We walk’d around the zoo
And by the penguins’ igloo
We kissed, and ran right to
The gates; she hit the loo

And out we went, right through
The monkey pen; they knew
We were up to no goo
d, and threw a lot of poo

I ducked; she didn’t. Who
Could blame me? She said 'You
Ducked!', and cried, boo-hoo

I left her in the zoo
She smelled like monkey poo
This girl I’ve tried to woo
Another chance I blew

May 10, 2005

 

É blogue lucrativo,
só na mão do Fudílson


Picture by Chris Jordan

A coisa mais chata dos últimos 10 anos é essa mania dos cool kids de implorar admissão nas confrarias dos nerds. Apesar da minha aptidão preternatural para a dança, jamais me candidatei a cheerleader; não fui ao prom, porque a minha manhê tava com pobrema nas bacia; e a única vez niquiq compareci a uma festa que mereceu menção na coluna da Erika Palomino foi porque na época eu fazia uns bico e me contrataram pra esculpir uma estalta de gelo em forma de anta pra homenagear a anfitriã. Mas os cool kids não mostram a mesma reserva. Não posso nem mais comprar wargame na Compleat Strategist sem esbarrar em Vin Diesel, goddamnit!

Quando instalei meu primeiro Netscape 1.0 em um 486, exatos 10 anos atrás, todo mundo que eu encontrava online era nerd, e a Internet era uma maravilhosa coleção de sites produzidos com verve, galhardia e uso indiscriminado do comando blink de HTML. Eu chegava com olheira na firrrma depois de uma noitada discutindo formatação ASCII no chat do Geocities e os meus amigos publiça, todos eles oh so übercool, ignoravam solenemente as tentativas que eu fazia de expor as maravilhas da procelosa rede mundial de computadores supermodérrrna.

De repente, a partir de 1996/7, fudeu: todo mundo invadiu aquele pacato ambiente em que nós nerds tentávamos procriar em cativeiro, e sites como o saudoso I Liek Milk desapareceram em meio à tempestade de marketing desencadeada pelas corporações. Chat? Game over. A imensa e desarticulada simpatia dos nerds foi substituída por um frenesi hediondo promovido por gente que estuda comunicações ou marketing e usa kkkkkkkk pra denotar risada. E o hype todo, claro, se estendeu aos potenciais usos comerciais da Internet. Toda firrrma criou um site –de gigantes aerospaciais a pizzarias, a Internet era o caminho do futuro. Ganhar muito dinheiro, dinheiro fácil, passou a ser o nome do jogo, e todo mundo esqueceu, em meio ao burburinho de fusões, aquisições e IPOs, o quanto do sucesso da rede se devia ao ethos de voluntariado que a criou. E no entanto, dude, muitas, talvez a maioria, das coisas mais legais da rede foram criadas por nerds que não faturaram um centavo com as invenções, e os cool kids, claro, encaravam essa “ingenuidade” com desdém, e inteligentemente apostavam em que fosse possível faturar zilhões distribuindo de graça e online, por exemplo, o mesmo conteúdo que eles vendiam caro no papel.

O crash do setor em 2000 provou quem exatamente era ingênuo e quem era realmente visionário, e os sobreviventes daquela primeira e generosa era da rede encontraram refúgio em guetos disseminados pelas fímbrias da Internet –as redes P2P, o WiFi, os Wikis, os projetos de desenvolvimento coletivo de software “alternativo” como o Linux. E os blogs. Porque os blogs, afinal, são simplesmente uma retomada do espírito descompromissado que a Web tinha antes que os féladaputa a colonizassem com seu excesso de dinheiro e sua falta de ética. Eu, porque a calamidade da “primeira” Internet foi motivo de séria frustração pessoal, custei um tanto a aderir ao novo movimento, mas ó eu aqui travêiz: simpatia, clima amistoso, o jeito anything goes, a possibilidade de conhecer gente completamente diferente de mim por intermédio dessa bizarra mistura de diário e escarradeira virtual -I Liek Blogs.

E agora os féladaputa estão tentando de novo: li pelo menos umas 30 reportagens, nos dois últimos meses, sobre o imenso potencial comercial, o uso corporativo e a “revolução dos blogs”. Yo, revolução é um treco promovido por barbudos que expelem quantidade oceânica de perdigotos quando falam, e resulta sempre na morte de uma carrada de inocentes. E a idéia de comercializar blog me soa tanto cretina –que anunciante vai querer patrocinar rants?- quanto contraproducente, porque muita gente –myself included- escreve blog exatamente pra não ter que agüentar as pentelhações derivadas de ter editores, zécutivos e clientes sempre olhando por cima do ombro, pra garantir que nos mantenhamos “nos limites”. Uma das tristes verdades a que temos todos de nos conformar um dia ou outro de nossas vidas (a não ser que sejamos esquerdistas brasileiros) é a de que quem paga as contas dita a pauta. Aqui, quem paga a conta sou eu.

(Por outro lado, senhor patrocinador, em havendo interesse é só escrever pra venal.vendido@gmail.com; creio que o conteúdo do blog se adapte muito bem a, er, comercializar produtos como vaselina –nobre similar nacional soterrado pela máquina de marketing do KY-, salgadinhos Torcida e calçados esportivos Kichute. Faço três anúncio por cinco real, e aceito tíq.)

 

No Dia do Orgasmo, vestido de cocô


The way of all causes

Desperate housewife: Maria Bruner, 38, preferiu ir em cana por três meses a quitar uma multa cujo valor inicial, US$ 100, terminou subindo para US$ 5 mil por falta de pagamento. O gualda que realizou a detenção contou que Frau Bruner agradeceu muito e disse que melhor três refeições por dia e chuveiro quente na prisão do que marido vagabundo e moleques ranhentos em casa. Mas a mamata pode durar pouco, porque o marido desolado está juntando grana pra tirar Maria do xilindró. Vou pedir parecer de especialista sobre as chances de Frau Bruner de apelar para ficar presa até os filhos saírem da faculdade. (É o que eu faria.)

Feeling shitty: James Skwarok (nomes, como não cansa de repetir Uncle Filthy, são destino) se vestiu de cocô para participar de uma audiência com o governo da província canadense da Colúmbia Britânica, mas foi barrado na porta. O odorífero e sugestivo traje era um protesto contra o esgoto despejado diretamente no Pacífico. Eu posso até discordar da causa do sêo Skwarok, mas registrei a notícia aqui para minha imensa legião de leitores porque, yo, tem coisa mais presciente do que ir conversar com o governo vestido de cocô?

Sex on the beach: Na diagonal oposta do Pacífico, um sujeito teve o seu plácido passeio a beira-mar rudemente interrompido quando encontrou na areia um bingulim, acompanhado dos demais pertences, aparentemente decepado. Convocada, a polícia investigou “a evidência” e concluiu que não era estrovenga, não, mas uma forma de vida marinha. A única coisa que atrapalha o final feliz é a explicação do porta-voz da polícia sobre os métodos investigativos dos bravos xerloques neozelandeses: “Presumo que eles tenham cutucado, espetado e dado uma cheiradinha na coisa, para descobrir a verdade”. Cada país tem o CSI que merece. (Se fosse no Brasil, o Badan Palhares atribuiria a genitália a Mengele.)

Esperantina, Esperantina, Esperantina de Jesus: Adoro encontrar notícias sobre o meu torrão natal na imprensa do Primeiro Imundo, especialmente quando se trata de eventos como o feriado oficial do Dia do Orgasmo, instituído pelo prefeito Felipe Santolia, de Esperantina, Piauí, no dia 9 de maio. O prefeito alega que a cidade é cheia de mulé mal-comida*, e o feriado foi celebrado com uma apresentação de Os Monólogos da Vagina e debates entre sexólogos de todo o Brasil. Dude, se o objetivo era PROMOVER orgasmo, não dava pra ter escolhido alguma coisa menas broxante, tipo visita oficial do Colin Farrell? Com essa agenda, as mina toda vão continuar na esperantina. Update: Mlle Malgardée, correspondente extraordinária da NoronhaNews, descobriu em esforço de reportagem que maio é o mês da masturbação. Melhor avisar as mina de Esperantina.

My name is Christ, Jesus Christ: Peter Robert Phillips Jr. recorreu à ociosa Justiça dos Estados Unidos diversas vezes pra conseguir passaporte, cartão de seguro social e carteira de motorista válida para Washington, todos os documentos portando seu novo nome, Jesus Christ. Agora, de mudança para a Virgínia Ocidental, teve recusado pelo Detran local o pedido de uma carteira de motorista com o nome novo. Uncle Filthy, sujeito notoriamente ressabiado, tende a desconfiar de gente que acha que é Jesus Cristo. Por outro lado, mudar voluntariamente para a Virgínia Ocidental é prova de santidade -mas deve haver jeito mais fácil de fazer com que as mulé digam Omygod. (Talvez comprar casa em Esperantina?)

Por que eu leio o Kama Dutra: Gore Vidal escreveu que, pelo critério de freqüência, o ato sexual mais “normal” é a masturbação (e espero que a mão peluda não tenha atrapalhado a datilografia do venerado homem de letras). No final de semana passado, uma convenção de sexólogos nos Estados Unidos se reuniu para discutir, entre outras coisas, atos sexuais impopulares ou menos freqüentes, entre os quais a sempre injustiçada zoofilia e a asfixia erótica (a não erótica é conhecida como “gravata”). Consultada a respeito da pobremática, uma sábia ex-namorada –erguendo as sobrancelhas de maneira significativa- explicou que não existe ato sexual impopular; existe parceiro impopular. Let’s not name names, shall we?

* E esse negócio de garantir osgarmo pra mulé um dia por ano abre um péssimo precedente. Daqui a pouco elas vão querer usar calça comprida, trabalhar fora e dirigir.

May 09, 2005

 

The butler did it


Raymond Thornton Chandler (1888-1959)

Ray Chandler, além da meia dúzia de romances (mais o inacabado Poodle Springs) e da centena de contos (muitos dos quais reaproveitados sem o menor pudor como parte de romances posteriores), escreveu seis roteiros de cinema -o original The Blue Dahlia e mais cinco adaptações. Numa dessas bizarras ironias peculiares a Hollywood, Chandler acabou encarregado de roteirizar Double Indemnity (com Billy Wilder, e baseado em romance de James M. Cain, um imitador barato de seu estilo), enquanto a improvável dupla William Faulkner (é, aquele mesmo,) e Jules Furthman (do breast western The Outlaw) adaptava para as telas seu The Big Sleep. Quando estavam redigindo a famosa “cena da explicação” sem a qual nenhum filme noir ou whodunit sobrevive, os roteiristas de The Big Sleep descobriram que um dos centos assassinatos que ocorrem ao longo da trama ficava inexplicado. Reviraram o livro à procura da explicação, mas não encontraram, e o diretor Howard Hawks decidiu ligar para Chandler e perguntar quem, afinal, era responsável pela inexplicada morte. Chandler não conseguiu responder na hora, e fez a mesma coisa que os roteiristas: revirou o livro, os dois contos em que a história se baseava e suas anotações, em vão. Ligou para Hawks, completamente sem jeito, e disse que não sabia. Hawks apostou no baixo attention span do público e deixou o crime passar inexplicado, sem atrair nenhuma reclamação (pra sorte dele, isso aconteceu umas duas décadas antes do nascimento da minha irmã, que acompanha trama e continuidade de filmes como um gavião e percebeu a gafe na hora, quando viu The Big Sleep comigo pela primeira vez.)

Tem muita gente que não gosta de filme noir ou whodunit exatamente por causa da famigerada cena da explicação, sob a alegação de que essas cenas “são muito artificiais”. É claro que são. Como marromenos 98% de todas as outras cenas de cinema, a começar das furumfas e dos pós-furumfas com o famoso “lençol mágico” que sempre deixa o peito do cara desnudo e o peito da menina coberto. Já eu acho que a cena de explicação e todos os diálogos anteriores cujo objetivo é demonstrar a construção das possíveis narrativas são o maior charme do gênero. Em um filme “de mistério” (resumindo aí todos os gêneros que se pode enquadrar sob esse rótulo, dos whodunits aos filmes de suspense, passando pelo noir, pelo policial e por certas variedades de filmes que tomam por tema o sobrenatural), o protagonista em geral é alguém que investiga um mistério, e o faz propondo sucessivas narrativas com base nos depoimentos de testemunhas e nos indícios físicos que vai descobrindo. Ao longo da trama, o investigador recolhe dados e refina a narrativa, o que transforma o filme em uma espécie de bolo em camadas, contendo a narrativa que encapsula a verdade –a solução do “mistério”- e todas as demais narrativas passíveis de proposição com base naqueles ingredientes. Assim, a busca de uma solução para o mistério é a busca da narrativa “perfeita”, e o investigador é o rapsodo que recolhe as histórias e as organiza em forma “fit to be printed”.

O poder do investigador, portanto, é o poder de estabelecer a verdade em meio às incessantes tentativas de imprimir a lenda. Não admira que tamanha proporção dos maiores filmes da história do cinema gire em torno de um mistério e de um esforço para solucioná-lo e “estabelecer a verdade”. Citizen Kane, que nêguinho precisa ser muito espírito de porco para excluir de qualquer listinha dos 10 maiores filmes de todos os tempos, deve larga proporção de sua grandeza à maneira pela qual o roteiro de Herman Mankiewicz estrutura a busca –empreendida por um anônimo repórter que serve de Everyman em contraponto ao titânico magnata- pela elusiva “verdade” sobre Kane: Rosebud, as chamas, nenhuma verdade a ser estabelecida. Mas o fato é que, provavelmente mercê da falta de verdades irrebatíveis em meio ao empelotado mingau da vida, quase todo mundo adora uma cena de explicação*. Aquele detetive cheio de maneirismos que reúne os suspeitos em uma sala e explica exatamente como o assassino matou o velho milionário e fez parecer que o quarto estivesse trancado, e no processo inocenta três óbvios suspeitos e promove o romance entre o filho estróina regenerado e a leal governanta, é a imagem solitária da ordem, da verdade e da justiça incorruptível, em meio à cobiça e violência do mundo. Se ordem, verdade e justiça só existem mesmo nessa forma caricata que os filmes de mistério promovem, yo, isso definitivamente não é culpa do Marlowe.

* Eu tinha escrito que “quase todo mundo sente uma avidez atávica por cenas de explicação”, mas “atávico”, como aquela pipoca emaconhada que o Sêo Peçanha vendia no carrinho da porta da escola, é o primeiro passo na very slippery slope towards “onírico” e “catártico”, terminando, claro, em “telúrico”, parceria com Baby Consuelo e participação em disco dos Tribalistas. Sai, Satanás.

 

Girls just wanna have fun


... and boys need earplugs

(Para Santa Diliça das Longas Coxas. Irônico, eu, Maria Alice?)

Todo mundo celebra o fim do sistema patriarcal, mas havia certas virtudes no fato de que os homens controlassem as finanças familiares, especialmente no terreno da música. Deixar que mulher escolha seus próprios CDs é receita pra genocídio auditivo. I’ll go out on a limb, here, pra afirmar que mulé é responsável por 80% da música hedionda que infesta o planeta. Não que as mulé PRODUZAM 80% da música hedionda do planeta, mas, como compradoras de música, yo, impossível evitar a constatação empírica de que é tudo culpa delas. Cês tão achando injusto, é? Vejamos, por exemplo, o caso comparativo de boy bands vs. cantoras vagabas (pós)-adolescentes, ou, como chamamos aqui na maison McNasty, “as pragas gêmeas”. Mesmo que o mano ache que Brittleyy, Christina ou Shereka, la bombshell paraguaya, sejam o ápice do gostosismo -e suponho que alguns deles assim pensem-, não sai comprando disco dessas mina (vídeo pornô sim, when available), e só vai ao show arrastado pela namorada, porque ir sozinho ou acompanhado de marmanjo a um show de Britlley achincalha terminalmente a hombridade do indivíduo. E a música, claro, é tratada com o desdém merecido: show us some boobs, Brit Ley. Já as mulé que vão ver boy band precipuamente porque acham os caras gostosões, deus perdoe, incorrem no tenebroso pecado de gostar da música. Tanto no caso de Shereka, Brrytlay ou Aguillera quanto no caso das boy bands, quem compra disco e vai a show é mulé, e quase só mulé: a culpa por essa praga é delas, portanto.

Aí tem a catigoria “cantora lésbica resmungona”. Nenhum homem –pelo menos nenhum hétero- do planeta tem em sua coleção de discos um CD da Adriana Calcanhoto. Ou de Ani Di Franco, Melissa Etheridge, KD Lang (ressalvado o disco dela com Tony Bennett, que pode terminar incluído nas coleções dos completistas). Se dependesse do consumidor masculino, cantora lésbica resmungona seria uma catigoria desprovida de prateleiras específicas nas lojas de CD. Vai ter sempre quem argumente que as cantoras lésbicas resmungonas não são necessariamente más cantoras ou compositoras (e, movido pela honestidade, admito que pelo menos a primeira metade da afirmação se aplica a Lang, como sabe qualquer um que tenha ouvido a soberba versão a capella que ela gravou para “Skylark”). Mas, como catigoria, cantoras lésbicas resmungonas stink. Não é homofobia, não: é música ruim, mesmo.

As mulé têm todo direito de contra-argumentar com exemplos de música ruim peculiarmente masculina –heavy metal e rock progressivo em todas as suas soporíferas variações servem perfeitamente a esse fim-, mas música ruim de mano costuma ficar relegada ao gueto dos nerds que gostam dela –não sai por aí buzinando nas orêia do transeunte indefeso, ao contrário da música trash que as moçoilas promovem a poder de urros viscerais em show de Justin Timberlake. Podem verificar –tudo que existe de pior na música dos últimos 50 anos, de Paul Anka a Cindy Lauper, Sandy & Júnior e Felipe Dylon, passando por duradouros abantesmas como Madonna e Elton John, é culpa de mulé. (E infelizmente elas têm cada vez mais dinheiro pra comprar disco.)

Em começo de namoro, chega sempre o momento daquela experiência apavorante –fuçar a discoteca da dona Incrênca pela primeira vez. É um tremendo testemunho de que o romantismo não morreu, entre os homens, o fato de que a mixórdia de discos de Sade, Terence Trent D’Arby, Simply Red, Norah Jones, single do The Rembrandts cantando “I’ll Be There for You”, Caetano Veloso zurrando em espanhol, No Doubt, The Very Best of James Taylor, Pet Shop Boys Greatest Hits, Coldplay, Josh Groban, Celine Dion, Culture Club, trilha sonora de Phantom of the Opera e da novela O Clone -Internacional, além de Maria Rita, Ana Carolina, Jewel e todas as outras estelionatárias canoras sem sobrenome, não impeça o coração do sujeito de palpitar descompassado quando a mina sai da sala dizendo que vai vestir algo mais confortável. Mas a longa experiência de Uncle Filthy permite aconselhar: miló desligar o som da tomada antes que ela volte de baby-doll e se lembre de colocar o disco do Clay Aiken.

May 08, 2005

 

Everybody Cryin' Mercy


Russos em Berlim, 1945, by Evgeny Khaldei (1917-1997)

(Pra quem sabe o que a palavra quer dizer. E pra você, santíssima.
E thanks to Mose Allison.)

I can’t believe the things I’m seeing
I wonder ‘bout some things I’ve heard
Everybody cryin’ mercy
When they don’t know the meaning of the word

A bad enough situation
Is sure ‘nuff getting worse
Everybody cryin’ justice
Just as long as there’s business first

Toe to toe, touch and go
Give a cheer, get your souvenir

People runnin’ round in circles
Don’t know what they’re headed for
Everybody cryin’ peace on earth
Just as soon as we win this war

Straight ahead, knock’em dead
Pack your kit, choose your hypocrite

You don’t have to go to off-Broadway
To see something plain absurd
Everybody cryin’ mercy
When they don’t know the meaning of the word

Nobody knows the meaning of the word

 

The Hollow Men


"And I became Death, destroyer of worlds"

Dia de efeméride, parada, análise estratégica, celebração hesitante, estatísticas. Há quase exatamente 60 anos matamos o ogro, ou os nossos ancestrais o fizeram, em nosso benefício, e em meio às incertezas do presente há sempre a memória daquela dia luminoso: o sol da vitória nascendo sobre as ruínas da Europa. Meu treinamento profissional, se bem empregado usualmente para fins que escandalizariam meus mentores, permitiria que eu discorresse sabiamente sobre aquelas coisas todas –balanço de poder, impasse, as ironias que sobrevieram a derrotados como Alemanha e Japão e a vencedores como a União Soviética e o império britânico, “o século americano”, a vitória –45 anos mais tarde- das decadentes democracias que fascistas e cumunistas encontravam tanta facilidade em considerar obsoletas, ou o fato de que, não importa de que brejo o leitor –ou o autor- provenha, a guerra de alguma maneira afetou sua vida. Mas a verdade é que eu passei os últimos três dias pensando nos mortos.

Eles descansam lá em seus monumentos de guerra, valas comuns, cemitérios, registros, arquivos burocráticos, fotos, filmes, memórias, em forma de sombras impressas nas paredes de Hiroshima e Nagasaki pelas explosões nucleares que tudo destruíram mas preservaram a silhueta de pessoas desintegradas. Uma montanha –ou cordilheira- de mortos, um oceano de cadáveres, um país enorme cujas fronteiras são os oito aterradores anos da guerra e cuja população é formada pelos 50 milhões, 80 milhões, 100 milhões de mortos que ela produziu direta ou indiretamente.

(Bala de pistola na nuca; bala de fuzil ou metralhadora na cavidade abdominal; concussão, descompressão explosiva ou dilaceramento causado pela detonação de granadas de artilharia ou bombas aéreas; morte por incêndio; por queimadura causada pelas incendiárias de fósforo -cujas chamas não podiam ser apagadas com água; sufocação causada pela destruição de alvéolos pulmonares por gases venenosos; sufocação causada por monóxido de carbono; envenenamento; fome, tifo; malária; diversas modalidades de febre da selva; crupe; rubéola; outras epidemias; golpes de baioneta; facadas; desabamentos; contaminação radiativa; atropelamento por tanque de guerra; dilaceramento por minas terrestres; dilaceramento por estilhaços ou shrapnel; enforcamento; suicídio por qualquer dos métodos acima citados; colisões aéreas, navais, entre veículos terrestres; ataques de animais selvagens; sede; doenças pulmonares, cardíacas, estomacais; falta de motivo para continuar vivendo.)

A verdadeira parada da vitória é feita desses cadáveres, desses pedaços de gente, dos membros amputados, dos restos calcinados, dos esqueletos que continuam brotando nos velhos campos de batalha da Rússia como lembrete de que nada foi esquecido e nada foi perdoado. E isso é a única coisa essencialmente importante sobre o que aconteceu uma vida atrás: nada esquecer, e nada perdoar. Quando penso na guerra penso nos números, sim, penso nos mortos, penso nos cadáveres deixados para trás como resíduo pela indústria da destruição, penso nos esqueletos que nenhum forno era capaz de calcinar por inteiro, penso nos milhões de chineses e bengalis mortos de fome –definhando lentamente por obra de qüiproquós logísticos causados por uma guerra que em nada lhes importava. Mas nunca me perco nos números, nunca me deixo hipnotizar pelo fascínio macabro e desumano das imagens, pelo desmantelamento visual da mecânica humana. Sempre que a vertigem da racionalização me assola, fecho os olhos e penso não “nos mortos”, mas em um morto, um soldado, uma vítima do genocídio, uma mulher morta por bomba a caminho do mercado. Uma vida besta como a minha, sem nenhuma aspiração altaneira ou possibilidade de grandeza, extinta. E sei que, apesar do alívio por os “bons sujeitos” (e alguns sujeitos realmente péssimos) terem vencido, yo, não tenho nada a comemorar. A única coisa que me é dado fazer pelos mortos é permitir que repousem em paz.

May 05, 2005

 

Hotaru no Haka


Bombardeio incendiário dos EUA contra Tóquio, 9-10/03/1945:
40 km² devastados, 100 mil mortos

War guilt” é um fenômeno característico do século XX, e eu honestamente não sei se vai sobreviver a ele. Nos Estados Unidos, o resquício de culpa pela guerra do Vietnã, que resistiu por uns 10 anos, contados da retirada americana, desapareceu, e o debate que ainda persiste é a velha troca de acusações entre milicos e civis, libs e hardliners, sobre os motivos da derrota. Em nenhum momento houve uma admissão -formal ou tácita- de culpa, de parte de Washington, pelo bombardeio de áreas civis ou pelo uso indiscriminado de cancerígenos como o Agente Laranja, nos anos da guerra. É por isso que me surpreende um pouco constatar que boa parte dos americanos com quem conversei a respeito do assunto acata implicitamente a demanda chinesa de que o Japão se desculpe pelas barbaridades praticadas contra a China na guerra de 1937-1945. No famoso discurso que o imperador Hirohito gravou para transmissão por rádio com o objetivo de dobrar a resistência da linha dura militar nipônica à rendição do país, em agosto de 1945, o monarca não usou nem mesmo uma vez a palavra “derrota”. Se o país tinha –e tem- tamanha dificuldade em admitir a derrota, é compreensível que tenha, igualmente, dificuldade para admitir atrocidades de guerra, ou admitir que estava errado ao cometer agressão contra os vizinhos.

Dos livros que li a respeito, de longe o mais batuta é Warriors of the Rising Sun, do antropólogo americano Robert B. Edgerton, que faz uma análise muito balanceada dos códigos de ética e comportamento dos militares japoneses, da restauração Meiji à Segunda Guerra, mostrando a interação entre a cultura tradicional do país e a modernização, o sentimento de honra nacional e guerreira e as ambições colonialistas e expansionistas do país e das forças armadas. Sem me arvorar em especialista, avento a hipótese de que talvez os japoneses não sintam war guilt porque os bombardeios –incendiários e nucleares- que o país sofreu causaram devastação suficiente para que se vejam mais como vítimas do que como agressores. Ao contrário da Alemanha, a maior parte das barbaridades atrozes das forças armadas japonesas foi cometida no exterior, longe dos olhos da população civil, e contra outros povos –não havia minorias étnicas, religiosas ou sexuais passíveis de extermínio, no Japão. Para um japonês, críticas ocidentais ao colonialismo tardio do país devem necessariamente soar como hipocrisia –afinal, que cazzo eram todos aqueles territórios atacados pelos japoneses em seu período expansionista senão colônias ocidentais? E um país disposto a incinerar civis na escala praticada pelos americanos em 1945 jamais vai ter muita moral para protestar contra a agressão, aos olhos dos incinerados.

Edgerton não justifica as atrocidades japonesas, e muito menos as considera aceitáveis, mas analisa a situação do país racionalmente: “The simples truth is that Japan came onto the world stage at the wrong timetoo late for colonialism and too early for economic power based on the electronics revolution”. E a inevitável opção de um país muito zeloso de sua tradição e autonomia pela criação de forças armadas poderosas com certeza criaria uma dinâmica agressiva –por um lado, as forças armadas se tornariam peça central da industrialização e ganhariam imensa influência política, o que fragilizaria a democracia incipiente e geraria impulsos belicosos; por outro, o fato de que um país visto pelas potências ocidentais como nação de segunda classe criasse forte exército e marinha geraria hostilidade para com o Japão, reforçando o racismo (porque, yo, a visão ocidental do Japão era, no mínimo, tão racista quanto a visão japonesa do Ocidente, então e talvez ainda hoje). E, no que tange à China, os japoneses não se esquecem do “kamikaze”, o vento divino que impediu as invasões chinesas (na verdade mongóis, mas who cares?) do país, no século XIII.

Moralmente, seria ótimo que todos os países admitissem suas culpas de guerra, como a Alemanha fez depois de 1945. Duvido que isso aconteça um dia, e creio que o caso alemão continuará a ser uma exceção à regra. Mas já que o Lulá Omar está em clima apologético –como demonstrou em sua visita à África-, podia aproveitar e pedir desculpas ao Paraguai: dois terços da população masculina do país foram exterminados na nossa guerrinha de quintal contra eles no século XIX.

 

My kind of dame


Lauren Bacall (née Elizabeth Joan Perske), 1924

O ingrediente número um de um bom filme noir é necessariamente a femme fatale; o gumshoe pode até ser bundão (vide Dana Andrews em Laura ou o protodetetive Glenn Ford em Gilda), mas a mulé precisa de alguma maneira convencer o espectador de que, yo, duas piscadas daqueles longos, longos cílios seriam suficientes pra tirar qualquer sujeito do bom caminho. É por isso que a longa série de noirs da dupla Alan Ladd/Veronica Lake, que inclui alguns dos trabalhos mais respeitados do gênero, nunca me convenceu: Lake tem cara de nota de 13 reais. Uma das convenções do gênero noir clássico é a de que a femme fatale sempre promete tacitamente ou sugere implicitamente um largo catálogo de perversões, mas nunca põe as parte na roda, pra usar uma expressão aristocrática; a fim de que essa stasis seja possível, a mulé precisa aliar sedução e mistério, encontrar um delicado equilíbrio entre a oferta física de seus curvilíneos dotes e a esquiva psicológica que faz com que o sujeito se disponha a fazer qualquer coisa pra, enfim, galgar aquela estalta da liberdade. (Por isso, aliás, o noir moderno funciona menas bem: no noir moderno, as mulheres dão.)


Bacall e Bogart em The Big Sleep

Nesse sentido, a femme fatale por excelência é –e só poderia ser- Lauren Bacall, ainda que, tecnicamente, nos grandes filmes noir* em que trabalhou, Bacall jamais tenha sido a mulé maligna. Ela chegou ao cinema por intermédio de Howard Hawks, que recebeu de um editor da Harper’s Bazaar cópias do teste de Bacall como modelo. Os dois concordaram em que a cover girl tinha a melhor bunda do universo, e Hawks assinou um contrato pessoal com a moça e escolheu To Have and Have Not como veículo para sua estréia. Opondo menina Lauren a Humphrey Bogart, com quem viria a se casar, o filme serve perfeitamente como resumo do que Bacall viria a representar: o tremendo sex appeal, o olhar oblíquo, direto e difuso a um só tempo, a voz grave, rouca, repleta de ironia, muito mais madura do que os 19 anos que La Bacall tinha, quando da filmagem; a promessa de infinita sacanagem e ao mesmo tempo o sentimento de que não havia nada de falso naquela aparição. Bacall, na fase noir, é um resumo do que todo homem sonha, mistura de perversa polimorfa e menina da porta ao lado, sedutora mas sem frescura, o tipo da mulé pra quem a letra de The Lady is a Tramp cai como uma luva. E, yo, nada na história do cinema é mais pornô do que dona Bacall dizendo “Oh, maybe just whistle. You know how to whistle, don’t you, Steve? You just put your lips together and... blow”.

*To Have and Have Not (Howard Hawks, 1944); o noir/spy flick Confidential Agent (Herman Shumlin, 1945); The Big Sleep (Howard Hawks, 1946); Dark Passage (Delmer Daves, 1947); Key Largo (John Huston, 1948). Dos não noir, assistam How to Marry a Millionaire (Jean Negulesco, 1953), nem que seja porque traz Bacall e Monroe juntas (e Betty Grable de brinde).

May 04, 2005

 

A Knight's Tale


"The guilty think all talk is of themselves"

É meio asinino dizer que um sujeito nem tão mais velho do que eu é meu ídolo, mas não sei que outro termo usar pra definir meu apreço por Brian Helgeland, que começou a carreira escrevendo roteiros pra filmes de terror baratos e ruins (Highway to Hell, aliás, é não só soberbamente ruim como traz Patrick Bergin no papel do vilão “Beezle”, um redutivo carinhoso para “Belzebu”, o que transforma ruindade corriqueira em uma espécie de grandiosidade às avessas), e depois foi promovido para a A List, escrevendo os roteiros de LA Confidential e Mystic River, dois dos melhores filmes dos últimos 10 anos (além de porcarias como The Postman e Man on Fire).

Helgeland adaptou para o cinema romances noir dos três grandes escritores de thrillers americanos dos últimos 10 anos –James Ellroy, Michael Connelly e Dennis Lehane-, e em dois dos três casos conseguiu o feito de se afastar consideravelmente da trama original e ainda assim manter a fidelidade ao elusivo “espírito” da obra (já em Blood Work, baseado em Connelly, ele se saiu muito, muito mal). Os tropeços ocasionais –maus roteiros, más adaptações-, aliás, só reforçam minha admiração pelo trabalho de Helgeland. “Artistas” podem passar 15 anos pincelando cuidadosamente suas obras imortais (e ainda assim quanta porcaria eles escrevem); já os profissionais fazem o melhor que podem sob as restrições daquele determinado projeto, às vezes se dão mal, and then on to the next job, and let's try and do better. Para ilustrar o que quero dizer com profissionalismo, Helgeland desfruta da rara distinção de ter ganho um Oscar (por LA Confidential) e um Razzie (por The Postman) no mesmo final de semana. As duas estatuetas enfeitam sua lareira.

Como nem a mãe do roteirista dá valô pro trabalho desses mano, Helgeland se tornou diretor. O primeiro de seus filmes –Payback- eu num vi, e dizem que é ruim. O terceiro, The Order, uma tentativa dele de retomar as origens no ramo do terror Z, é ruim pra carácoles. O segundo, A Knight’s Tale, é absolutamente genial. A inspiração –distante- do roteiro de Helgeland é The Canterbury Tales, de Chaucer (a quem ele transforma em personagem do filme), e o ciclo de aventuras serve como pretexto para uma história completamente moderninha niquiq um plebeu, William Thatcher (Heath Ledger), assume a armadura de um cavaleiro morto e se torna astro dos torneios de cavalaria do final da Idade Média. Ao som de rock vulgar e barulhento dos anos 70, o jovem herói conquista a mocinha, é sagrado cavaleiro de verdade por Edward, the Black Prince, e obviamente derrota o vilão. Como sói aos bons filmes fantasiosos, Helgeland simplesmente não explica o que o rock tá fazendo ali, e pulls it off –nêguinho tem que ser muito chato pra criticar o filme por isso (ou por qualquer outra coisa).

Mas o que transforma um filme bom num filme genial é o fato de que A Knight’s Tale ilustra em forma de fábula a gênese da democracia pela humilde via do esporte. Até o século XIX, esporte era coisa de gente rica ou bem nascida; pobre trabalhava 16 horas por dia, seis dias por semana -que mané futibór. E além do aspecto prático –cadê energia para o esporte, com a vida que as pessoas humildes levavam?- havia também a questão do preconceito: os pobres, claro, não nasciam providos de “espírito esportivo”. Quando o jovem William trapaceia para ocultar suas origens e entrar na liça, no filme, ele concretiza um dos mitos fundadores da moderna democracia e economia de mercado: competir em igualdade de condições contra os, er "camisados". (E, claro, a reação dos vested interests, corporificados no conde Adhemar, é usar qualquer truque sujo para impedir que o maltrapilho se dê bem.) Quando a patuléia das arquibancadas, que costuma aplaudir aristocratas, descobre que um “dos seus” está em campo, yo, é uma tremenda catarse. O duque de Wellington costumava dizer que a batalha de Waterloo foi vencida nos campos de rugby de Eton; Helgeland propõe em A Knight’s Tale que a luta pela igualdade também pode começar pelo esporte. Quando vi o filme pela primeira vez, lembrei imediatamente de uma entrevista de Roger Daltrey, do Who, em que ele dizia que, para moleques da geração e classe social dele, os três únicos jeitos de subir na vida eram futebol, música e crime –três dos componentes do filme.

Se eu acredito na tese defendida com tamanha alegria em A Knight's Tale? Claro. E no Coelhinho da Páscoa. Graças a são jizuis, porém, e ao contrário de certos suíços pretensiosos, nunca pensei que o cinema tivesse de ser “verdade 24 vezes por segundo”. Fico bem satisfeito com três gargalhadas (ou cinco assassinatos) por hora. E Brian Helgeland, mesmo ruim, é sempre bom.

 

Pooping hippo, falling cow


"Björn seduced me and left; he doesn't call, he's never around.
Goodbye, cruel world"

Que puerra é essa: No México (e, se existe um deus da unintentional comedy, provavelmente na cidade de Cuernavaca), a ex-trela pornô Lyn May, ora sessentona, criou um creme hidratante à base de sêmen. Segundo a ex-pert, o material elimina rugas e amacia a pele. May seleciona “rapagões atraentes e paga pelo sêmen deles, que é misturado a mel e sementes oleaginosas para produzir o hidratante”. (Que foi, cês ainda tão esperando que eu faça uma piada no fim? There is such a thing as overkill, you know.)

Run Lola Run: Em mais uma prova de injustiça flagrante na guerra dos sexos, Uwe Hakus, técnico da equipe feminina de atletismo da Alemanha, explicou que as mina correm melhor depois de uma furumfa, ao contrário dos mano. Por outro lado, se você é um pulha sedentário como Uncle Filthy e tem uma namorada chegada em jogging, yo, ótimo argumento para um early bird special: “Juro, Maria Alice, o ténico da seleção alemã de atletismo disse que isso vai te ajudar a correr como nunca”. E, se ela reclamar quando você virar pro lado e dormir, depois, a ciência também explica –“juro, Maria Alice, o ténico da seleção alemã de atletismo disse que doin’ the dirty reduz o nível de testosterona masculino e reduz a capacidade contrativa dos músculos”.

Swedes do it... to horses: Começo pelo disclaimer, e já informo que, yo, Uncle Filthy considera que bestialidade e necrofilia são duas predileções injustiçadas na longa história da sexualidade (kinda) humana. Na Suécia, o governo recebeu sexta-feira um relatório sobre a incidência de bestialidade no país, o qual constatou 119 casos reportados no período 2000-2004. Em demonstração de notável instinto democrático, a lei sueca deixou de considerar bestialidade como crime já em 1944 (aliás, bestialidade e homossexualismo foram legalizados de uma só penada). No entanto, a pessoa pode terminar processada por crueldade contra os animais caso a fauna sofra danos físicos ou psicológicos. Cês acham que é coincidência que justo agora Oprah tenha contratado um psicanalista de cachorro pra tratar dos traumas do totó dela?

Grande, grosso e cheio de... neve: Em Laramie, Wyoming, Brandon Arp e Aric Davenport estão sendo processados por obscenidade (com pena de até um ano de cadeia e multa de mil dólares, caso condenados), porque erigiram um membro viril de neve no quarteirão em que moram. A polícia alega que o picolé de bingulim era “ofensivo para outros moradores da área” e violava as leis de obscenidade do Estado. É preciso separar as acusações, considera o Dr. McNasty: pinto de gelo não é obsceno, nos termos da Primeira Emenda, mas eu também consideraria ofensivo se estivesse nevando -em abril!- e alguém instalasse na calçada uma escultura gigante de bimbo: zombar do efeito do inverno sobre as pudendas alheias é sacanaj, pô.

Museo del Chorizo: A Argentina é um país azarado pra caceta. É vizinha do Brasil, todos os barbeiros do país são cegos e quando a música pop resolve homenagear os portenhos, they get Andrew Lloyd Webber. Mas agora os hermanitos resolveram faturar com a desgraça e inauguraram o museu da dívida externa –que não trata só do mais recente calote argentino, mas de todas as moratórias decretadas pelo país desde o começo do século XIX. Espero que eles tenham lembrado de incluir um par de costeletas do Menem no acervo e –como sugestão de fonte de renda para permitir a sobrevivência da instituição- que instalem uma galeria de tiro ao alvo com fotos de todos os ministros da Fazenda da história argentina. (Quando criarem um treco desses no Brasil, ô, quanto tiro eu vou dar no Maílson da Nobréga e na Zélia Cardoso de Melo.)

We’re on the road to nowhere: No swanksigns.org, o usuário pode comentar uma vasta coleção de sinais de trânsito e placas bizarros. (Tanto a vaca suicida quanto o popótis expansivo que ornamentam o post vem da coleção que o site oferece, aliás.) Entre outras pérolas, temos o magnífico cartaz de alerta que diz “you are leaving the ski resort. You can die”, e uma placa de alerta de tsunamis que deve estar vendendo muito bem na bacia do Índico este ano. Só falta o magnífico cartaz admoestatório que costumava pender da parede por sobre o caixa em um dos bares extintos que alumiaram a distante juventude do Uncle Filthy, esclarecendo que “in God we trust; all others pay cash”. (E... wonders never cease.)

May 03, 2005

 

Library Card


"Bookish, withdrawn and easily bored with love"

Já tinha recebido, da Marion, cujo another woman faz muita falta entre os blogs, um convite –atendido por e-mail- para expor meu mau gosto literário, e agora Lorde ASS me desafia publicamente a causar tédio ao púbico leitor com minha lista de livros. Sai dibacho, como se diz na minha terra.

Não podendo sair do Fahrenheit 451,
que livro quererias ser?
La Coscienza di Zeno, de Italo Svevo: "Forse traverso una catastrofe inaudita prodotta dagli ordigni ritorneremo alla salute". Melhor página final da história da literatura. E engraçadíssimo.

Já alguma vez ficaste apanhadinho
por um personagem de ficção?
Lisa, de Notas do Subterrâneo, Dostoiévski. (Minha mulé ideal.) Alberta, a terceira das quatro irmãs com que Zeno Cosini se envolve. A mulher sem nome em “O Ventre Seco”, conto de Raduan Nassar, pra não dizerem que não tem brasileira na lista.

Qual foi o último livro que compraste?
Out, de Natsuo Kirino; A Girl Who I Killed, de Ryou Hara.

Qual o último livro que leste?
The Command of the Ocean: A Naval History of Britain, 1649-1815, de N. A. M. Rodger, que é especialmente recomendável pra quem está lendo Patrick O’Brian. Também li The Gift, do Nabokov, esses dias. (Stunning). E Freakonomics (vide post abaixo).

Que livros estás a ler?
The Cambridge History of Ancient China, mas é difícil de carregar. Na prática, pockets de detetive –Black Out, de John Lawton, Prayers for Rain, do Lehane, Blue Light, de Walter Mosley, e um very crappyChicago Confidential (de Max Allan Collins). Já não se fazem mais plagiários como antigamente.

Cinco livros que levarias para uma ilha deserta?

(Ô, dificuldade.)

Collected Poems, do Philip Larkin
Uma daquelas edições integrais do Shakespeare.
Uma antologia de P. G. Wodehouse
Uma antologia do Raymond Chandler
Um livro em idioma que não sei, por exemplo, finlandês, pra que minha obsessão de aprender novidade encontrasse um objeto.

Três pessoas a quem vais passar este testemunho e por quê?
Subrinha Nibelunga, pra ela poder falar mal dos livros da USP.
Yabbai-san, para copiar a lista.
A formosa arquiteta Juliana, recém-parisienne, pra ver se ela volta a postar.

 

Questão de honra


"I could not love thee, Dear, so much
Loved I not honour more
"


Do império romano ao século XIX, honra era uma das pedras fundamentais da civilização. Impugnar a honra alheia era causa de duelo, tumulto e guerra, e “perder a honra” publicamente era causa de definhamento e suicídio. De lá pra cá, nos últimos 110 anos, digamos, o conceito decaiu e desapareceu do debate público. Hoje em dia, as pessoas falam em “ética” e “honestidade” onde por marromenos 20 séculos usualmente se falaria em honra. (E, aliás, a gente só ouve a palavra “honra” na boca de político safado: “Sou um homem honrado” é a declaração padrão dos calhordas.) Mas nenhum dos dois termos, e nem mesmo a combinação dos dois, substitui perfeitamente a obsoleta idéia de honradez. “Honestidade” é um conceito empregado basicamente no sentido contábil –um homem honesto é como um açougueiro que não rouba no peso, digamos. E um homem “ético” é um sujeito que “age certo”, que respeita um conjunto x de normas de conduta –sejam consensuais, sejam auto-impostas. Mas “honradez” é mais que honestidade ou ética, e maior que a combinação das duas coisas, porque suas origens são emocionais. Homens e mulheres desonrados definhavam. Parece romantismo barato, admito, mas –a menos que todos os escritores mintam (uh oh)- acontecia realmente.

Eu sei, eu sei, essa visão emocional da honra é mais que ligeiramente insana –tem até cara de um daqueles sketches do Monty Python em que Graham Chapman faz papel de oficial do exército. Na era da honra, um sujeito se investia e se revestia de sua honradez; privado dela, estava privado de seu lugar no mundo –e não havia grana que bastasse para comprá-la de volta. (Honrarias sim, mas não honradez.) Um conto emblemático sobre esse tipo de honra que se tornou obsoleto é “The Duel”, do Conrad, que trata de dois oficiais napoleônicos (D’Hubert e Feraud) envolvidos em uma sucessão de duelos ao longo de mais de 20 anos. A mecânica da honra os aprisiona e, porque nenhum dos dois mata o oponente em seus muitos encontros e Feraud se recusa a aceitar qualquer dos embates como satisfação, os combates se renovam a cada vez que o acaso os aproxima, ainda que D’Hubert na verdade nem saiba o que exatamente levou Feraud a desafiá-lo pela primeira vez. No mundo pragmático inaugurado ao longo do século XIX, esse tipo de honradez perdeu completamente o lugar –porque obviamente a honra, nesse sentido, era uma prerrogativa dos cavalheiros, e com o advento da democracia e a ascensão econômica da piãozada, duelar com os “inferiores” era conceder-lhes um status ao qual “não tinham direito”. Mas o costume persistiu, em forma cada vez mais insana, até o século XX, por exemplo entre os estudantes das grandes universidades alemãs. (Passar pela Universidade de Heidelberg sem receber no rosto cicatrizes de duelo era considerado coisa de parvenu, pelo menos até os anos 20.)

Com o fim dos duelos e com a ascensão de mecanismos (supostamente) mais racionais e menos absurdos de resolver disputas, a honra começou a perder importância, substituída pela dupla “honestidade” e “ética”. Porque se o cara não mais se sentia moralmente compelido a arriscar a vida em duelo para defender a honra, se era aceitável, a partir de de um dado momento, recorrer aos tribunais –e não à espada- para punir as ofensas contra a honra, o vínculo emocional que tornava a honra tão poderosa decerto já tinha ido por água abaixo, e honra passou a ser mais um assunto a ser decidido pelos burocratas que infestaram o mundo de 1850 pra frente. Mas as pessoas continuavam a ter expectativas sobre a honradez daqueles que os governam. (Como escreveu Paulo Francis, sempre esperamos que aqueles que nos lideram sejam melhores do que nós.) Harry Truman, por exemplo, apesar das origens humildes, do começo de carreira política propelido por um dos campeões da corrupção eleitoral no Missouri e da formação modesta, sempre foi um homem honrado –honradez antiquada e expressa por atitudes absurdas como mandar uma carta furibunda, da Casa Branca, a um jornalista que havia criticado a estréia da filha do então presidente como cantora lírica. Ou comparecer ao funeral do “Boss” Prendergast, que lhe dera a primeira oportunidade no mundo da política e acabara preso por corrupção. Mas depois de Truman e Eisenhower, bleargh: império dos hipócritas em Washington (a começar de Nixon, que acusado de receber dinheiro indevidamente de empresários, quando candidato à vice-presidência, se defendeu alegando que sim, havia ganho alguns presentes, entre os quais o cachorro Checkers, e "podem me prender, podem me bater, mas não abro mão do meu quirido Checkers").

Ainda assim, nem que de maneira inconsciente, continuamos a esperar honradez da parte de nossos governantes - mesmo em uma sociedade de iguais, como dispõe a democracia, persiste a vointade de que eles sejam melhores do que nós. E muita gente no Brasil acalentava –por desgosto justificado ou não quanto às nossas “elites”- a esperança de que Lulá Omar se provasse mais honrado do que seus predecessores. Afinal, um sujeito que passou anos defendendo intransigentemente os seus “princípios” merece algum respeito, em país tão acomodado, mesmo de parte de quem discorda dos tais princípios que ele propugna. A aliança que ele formou para se eleger e governar já era indicação clara de que, uh oh, São Bernardo, we have a problem. Mas muita gente continuou acreditando -as acusações de abuso da manguaça, procedentes ou não, não impugnavam a honradez do Eneadáctilo Mandatário, e o mesmo se aplica ao churrasco pros amigos dos filhos na piscina do palácio, à saga do Aerolula, à ameaça de expulsão de Larry Rother... Atitudes deselegantes, talvez, mas não desonrosas. E aí vem o sêo Lula e faz aquele discurso recomendando que o brasileiro tire a bunda da cadeira se quiser que os juros caiam. Truman, um sujeito de origens tão humildes e de ascensão tão inesperada quanto Lula, tinha em sua escrivaninha da Casa Branca uma placa onde se lia “the bucket stops here” –ou seja, “a responsabilidade última por tudo que se faz nesse governo é minha”. Já Lulá Omar, como sói aos políticos espinha de minhoca que caracterizam o Bananão, quer que os brasileiros se mexam para resolver o pobrema dos juros. Além da indolência característica das “elites” de que ele insiste não ser parte –no Brasil, a responsabilidade por resolver problemas criados pelo governo é sempre formal ou tacitamente transferida para a população-, o discurso do presidente expõe –pra quem ainda não tinha visto- sua enorme covardia moral. Lula pode até entrar para a História como responsável por um bom governo, se as circunstâncias externas continuarem favoráveis ao país como vêm sendo, mas, yo, podem ter certeza: ele não é um homem honrado.

May 02, 2005

 

Freakonomics


"A Rogue Economist Explores the Hidden Side of Everything"

Um dos livros mais divertidos que li nos últimos meses foi Freakonomics, de Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner. Levitt é professor de Economia na Universidade de Chicago, e Dubner o conheceu quando o entrevistou para uma revista. A especialidade de Levitt é aplicar técnicas de pesquisa empírica usuais na economia a assuntos em larga medida ignorados pelos acadêmicos (um bom exemplo é seu estudo sobre equilíbrio entre diferentes estratégias que usa como base de teste a cobrança de pênaltis no futibór, publicado em 2002). Levitt explica esse interesse em assuntos bizarros contando que seu pai é um médico cuja especialidade é a pesquisa de gases intestinais (apelidado carinhosamente de “rei do pum” pelos colegas) e sua mãe é paranormal e “recebe” livros escritos por espíritos, o que sempre o levou a encarar a vida com alguma estranheza.

Be that as it may, Levitt –que ainda não chegou aos 40- vem se especializando em estudos microeconômicos de questões aparentemente corriqueiras, e os resultados que seus métodos analíticos propiciam são sempre divertidos e ocasionalmente espetaculares. Com a ajuda de Dubner, ele escreveu Freakonomics, trabalho no qual tenta responder perguntas estapafúrdias como “o que é mais perigoso: uma piscina ou uma arma de fogo?”, “o aborto tem alguma influência sobre a incidência de crimes violentos?” e “pais são importantes?” Lidando com perguntas que não costumam ser feitas (ele encontra pontos de comparação entre professores primários e lutadores de sumô, por exemplo, e entre corretores de imóveis e membros do Ku Klux Klan), e com temas que costumam provocar controvérsias, Levitt pelo menos tenta aplicar certa dose de objetividade a debates que são essencialmente emocionais (a posição dele é que existe uma correlação estatística clara entre a decisão judicial que permitiu o aborto nos Estados Unidos, nos anos 70, e a queda nos índices de crimes violentos 20 anos mais tarde –ou seja, pode-se argumentar que a queda no número de filhos indesejados reduziu o número de pessoas potencialmente desajustadas cuja propensão ao crime supera a média).

O trabalho de Levitt é interessante exatamente porque ele não tem medo de recorrer a ferramentas empíricas para tratar de questões moralmente carregadas que em geral são debatidas sem nenhuma base objetiva, por um lado, e por outro não hesita em conferir respeitabilidade acadêmica a temas que raramente atraem a atenção dos estudiosos –sumô, pênaltis, bagels. E algumas das conclusões que ele extrai com base em estatísticas são pura provocação para um e para outro campo no entediante debate sobre As Grandes Verdades que consome os Estados Unidos. Se por um lado ele estabelece que existe uma correlação estatística benéfica entre aborto e queda no nível de criminalidade, dando uma cacetada na direita, por outro puxa o tapete dos esquerdistas que odeiam a NRA ao demonstrar que as chances de que uma criança morra em acidente envolvendo arma de fogo são 100 vezes menores do que as chances de que uma criança morra em acidente envolvendo piscina doméstica.

Mas o mais legal do livro –como bem podem imaginar meus três fiéis leitores, conhecedores de minhas idiossincráticas preferências- é o capítulo seis,”would a Roshanda by any other name smell as sweet?”, no qual ele trata das escolhas de nomes mais características dos brancos e dos negros norte-americanos, e estabelece –com base em extensa pesquisa baseada em documentação do Estado da Califórnia- que, em termos estatísticos, as pessoas com nomes mais caracteristicamente black, como Imani ou DeShawn, tendem a se dar pior na vida do que as pessoas com nomes honky como Molly ou Jake (ou nomes racialmente neutros como Andrea ou Vincent). Mas em lugar de simplesmente alegar racismo, ele (e Roland G. Fryer Jr., um pesquisador negro de Harvard com quem dividiu o trabalho,) analisam uma vez mais as estatísticas e concluem que, yo, os pais que escolhem nomes como Imani ou DeShawn para os jovens herdeiros em geral são mais fudidos na vida do que os pais que optam por Jake ou Molly, e a falta de grana e de estrutura é o principal fator no handicap que os nossos amigos de nome escancaradamente étnico sofrem mais tarde na vida, e não a cor.

Alguns resenhistas criticam o trabalho por sua falta de uma teoria unificadora, mas pra mim esse é um dos pontos fortes do livro: a capacidade de tratar as questões dentro dos limites estreitos que as definem, sem necessariamente desenvolver uma grande teoria sociológica (ou da conspiração) com base em tendências mal e mal discernidas. E, ademais, os autores mantêm um blog, e a gente precisa sempre promover os coleguinhas. Sei lá se é um trabalho brilhante -ou muito útil- de economia, mas the dismal science gets a tad less dismal quando quem trata do assunto é Levitt.

 

Fortress of solitude


"Unreal city, I had not thought death had undone so many"

Cês acham muito cafonas aqueles bares ou restaurantes localizados no topo de edifícios, com vista panorâmica? (Aliás, cafona é usar a palavra “cafona”, que está fora de circulação marromenos desde a época niquiq mulé usava peruca Kanekalon –que as mães guardavam cuidadosamente em crânios de gesso assustadores empoleirados nas penteadeiras de seus quartos, quando a infância era risonha e spooky- e ómi usava uma bolsinha de mão que atendia pelo mimoso apodo de “capanga”. Bad, but not nearly as bad as a fanny pack, yo.) Eu vou ter que admitir aqui diante de todos os meus três fiéis leitores que não resisto a um bar e restaurante panorâmico nem que ofereça jantar dançante e show de música típica da região. E se a bagaça for giratória, então, é nóis na fita três vêiz por semana.

Quase toda cidade fica bonita, vista de cima, de longe –especialmente à noite. “Distanciamento olímpico”, afinal, descreve exatamente essa situação: de cima da montanha, é fácil se sentir poderoso, é fácil ignorar as pequenas e grandes irritações que cercam aquela infinidade de percursos pintados no grande quadro pontilhista da cidade. Mas meu fascínio é de outra ordem. Não observo de cima como quem observa o formigueiro funcionando sob um tampo de vidro. Enquanto meus olhos contemplam aquela ordenada correnteza de faróis e lanternas, de trens rigorosamente pontuais entrecruzando o panorama a intervalos precisos, eu “ouço” a cacofonia daquela gente toda –o mar de histórias que se agita lá embaixo. É, eu sei, essa bestaj do mar de histórias é tão clichê quanto pensar em formiguinhas, mas é hipnótico: contemplar a cidade pulsando lá embaixo como um grande organismo, e saber que cada um daqueles conjuntos de luzes que se movem carrega, uma, duas, quatro, duas mil e quinhentas histórias provavelmente não épicas, mas infinitamente intrincadas, saber que cada uma das partículas de luz que compõem aquela correnteza tem liberdade para alterar seu destino, seu percurso, e que mesmo assim a corrente caudalosa de luzes vai continuar se movendo.

Do 49° andar de um edifício que abriga esse estranho bar e restaurante em que a garçonete pergunta se você vai querer complemento vitamínico com os drinques, a cidade desconhecida ganha o nexo ilusório que a correnteza de luzes oferece –como se as vias expressas que canalizam essas luzes todas indicassem o caminho “natural”. Mas lá, num quadrante sombrio da paisagem, um par solitário de luzes vermelhas pisca por um segundo e desaparece: trabalhador chegando em casa num bairro em blecaute, caminhão de entrega encerrando a rota, veículo de manutenção de parque estacionado para a noite? Mar de histórias: a cidade transformada em uma grade de marcos e fluxos luminosos, mas, yo, quantos corações batendo no interior de todos esses carros. Os Grandes Solucionadores provavelmente olhavam o mundo sempre dessa altitude, sempre supondo reconhecer os marcos, os grandes fluxos. E quanto mais o tempo passa, mais desprezo eu sinto por eles todos. Quanto mais alto a vida te leva, mais importante resistir à tentação do distanciamento olímpico. Porque duas horas mais tarde você vai ser só mais um barulhinho na cacofonia, comodamente instalado por sobre o par de faróis azulados e o par de lanternas vermelhas que te levam pra casa, cortesia de Noguchi Seito, motorista engomadinho.

May 01, 2005

 

Plantão de Puliça


"De braço dado com dois sordado..."

O delegado saiu de sua sala, irritado com a discussão acalorada entre o escrivão impaciente, um investigador com cara de boa gente fazendo o papel do “deixa disso”, os dois soldados da PM e o sujeito alto e esbelto que falava sem parar. O gordinho de camisa colorida, meio ignorado no banco de espera, era o único que não participava da conversa. Mas foi ele que atraiu a atenção do Dr. Hideki: grossas lágrimas lhe escorriam rosto abaixo, e depois de cochichar um pouco com o escrivão, o delegado bateu no balcão com força, interrompendo os protestos do almofadinha: “O que o senhor tem a ver com isso?”, perguntou, com voz de meganha. O almofadinha respondeu: “Aquele filho da puta” –apontou para o gordinho chorão- “é o ex-marido da minha mulher, e fica...” O delegado interrompeu, voz ainda mais áspera: “Isso não é um botequim”.

Depois de ouvir os PMs, conferenciar com o escrivão e o investigador, e interromper mais meia dúzia de tentativas de intervenção do almofadinha, o delegado perdeu as estribeiras: “Mas o que é isso? O Sr. Ayub foi detido porque estava estacionado em frente ao prédio onde tem um apartamento? Onde moram os filhos dele? Como vocês querem que eu enquadre isso?”, tonitroou. O PM sênior tentou explicar que o Sr. Ayub tinha uma garrafa de bebida com ele no carro, que o segurança do prédio em frente tinha chamado a polícia depois de ver aquele cara imóvel por horas ali, bebendo: podia ser um assaltante, né, doutor? E depois, beber ao volante é crime, não é, doutor? “Não com o carro estacionado!”, rosnou o delegado Hideki.

Abordado pelos policiais do Tático Móvel, o elemento, passado o susto, tinha tentado explicar que morava ali em frente, ou melhor, havia morado ali em frente, e que, por saudade dos filhos –a quem não podia visitar porque não era o dia oficial- tinha decidido estacionar ali. “Pra me sentir perto, o senhor sabe”. (Sentado no carro, imóvel, dando uma ocasional talagada na garrafa de Johnnie Walker –o almofadinha, antes de ser interrompido pela décima vez, o acusara até de contrabando.) Os PMs, percebendo que pouco ou nada havia de ameaçador no chorão, haviam tentado confirmar a história com o porteiro que, novo no prédio, respondera: “No apartamento 131? Não, quem mora lá é o Dr. Guilherme e a mulher dele, dona Mônica”. Um interfonema trouxera o “Dr. Guilherme” ao térreo, exigindo dos PMs providências quanto a “esse filho da puta que fica perseguindo a gente”. Por pressão do “Dr. Guilherme”, o imbroglio todo fora conduzido ao 15° Distrito. E o plantonista, delegado Hideki, estava furioso.

Diante de mais uma tentativa de intervenção do Doutor Guilherme, o delegado o escorraçou da delegacia, apesar das ameaças de “eu conheço gente importante, você vai se dar mal!”, e convidou Roberto Ayub para uma conversa em sua sala. Começou em tom de bronca, mas, diante das lágrimas do sujeito, foi amolecendo. “Eu não estava perseguindo ninguém”, foi a única coisa que Roberto disse. “Só que é domingo, e fiquei com saudade das crianças. Não fiz por mal”, e o delegado –ele mesmo separado, com filhos- assentiu, dizendo que entendia, e pedindo que por favor o Sr. Ayub evitasse repetir a cena, e especialmente evitasse a história da garrafa de bebida. A inesperada gentileza do policial agravou a torrente de lágrimas, e Roberto agradeceu muitas vezes antes de se levantar pra ir embora, entregando um cartão ao delegado e dizendo “olha, Dr. Hideki, eu tenho uma loja. Roupas masculinas. É no Bom Retiro, mas é só o senhor me procurar lá e faço um preço especial pro senhor. Gravata de sêda pûra”. O delegado sorriu, o acompanhou até a porta, se despediu com um aperto de mão e, pra irritação dos PMs, fez com que levassem o “elemento” de volta ao lugar onde o carro dele estava estacionado. Ayub, um sujeito com alma de passarinho, entregou um cartão a cada PM ao descer da viatura, e repetiu a oferta feita ao delegado. Os PMs esperaram para confirmar que ele ia mesmo embora. E por obra da implausível simpatia de um militante das classes antipáticas, Roberto decidiu, naquele dia, depois de dois anos de completo desconsolo, que era hora de tomar rumo na vida.

 

The importance of elsewhere


"Here, the souvenir from Edo"

Todo mundo é um pouco caramujo: leva a casa, ou parte dela, para onde quer que se desloque. É uma mistura complicada e indissolúvel de idioma, lembranças, paradigmas, os deuses dos nossos pais, música, TV, livros (pros 3% da população mundial que ainda os lêem). Mas é mais que isso. Embora como qualquer sujeito de razoável bom senso eu sinta forte vontade de guspí quando ouço expressões como “civilização ocidental”, seja a título de elogio, seja como insulto, yo, a verdade é que ela existe, nem que seja na forma de um enorme conjunto de referências tácitas que formam uma espécie de substrato pra tudo que a gente faz ou fala. Não tô apondo nenhum juízo moral a isso; sei lá se a presença da tal civilização ocidental nimim –filho de um cantinho dela que deve ter sido criado para fins de comic relief- é boa, ou má, ou necessária. Sei, no entanto, que ela É. Esses mano tipo assim Platão, São Jizuis, Nero, Michelangelo, Elvis fazem parte do coquetel de todos nós, por mais que a mistura pareça indigesta.

Por isso é que eu nunca me considerei seriamente estrangeiro enquanto estou na área de influência básica da dita cuja. O mais nariz empinado dos países europeus pode me achar jeca e bastardinho –e com razão-, mas eu reconheço instintivamente marromenos 80% do que acontece por lá. Mesmo que eu não entenda o idioma e não capisque as referências estritamente locais, sei do que estão falando, digamos. Não é só um conjunto cultural ou intelectual de referências, aliás: é uma forma assemelhada de utilizar o espaço, uma hierarquia urbana visualmente reconhecível, ainda que longe de imutável. Basta passar meia hora numa determinada parte da cidade até lá completamente desconhecida para você e se torna possível ganhar um certo senso “do que vem a seguir”. (Do mesmo jeito que, em um restaurante de qualquer dos países fortemente influenciados pela tal cultura ocidental, dá pra fazer alguma idéia instintiva de onde fica o banheiro, digamos.) É uma sensação razoavelmente cozy –e admito que, em determinadas situações, seja capaz de entediar.

O verdadeiro “estrangeiro”, pra mim, é um lugar em que as referências me escapam completamente, onde alguém espirra e eu me sinto paralisado de medo de causar ofensa se disser gesundheit, onde os lugares das coisas não são os mesmos, no mobiliário urbano. É uma sensação muito mais estranha do que não entender quase nada do idioma, das placas (aliás, como é que uma cidade desse tamanho vive quase sem placas de rua?), dos costumes –forma-se fila no cinema? Não se forma fila? E essa bilheteira aí tá querendo me dizer que eu preciso escolher aqui que lugar quero? Putzgrila. (Até que alma caridosa me esclarece que a mocinha está tentando me alertar que o filme é falado no idioma local, e não tem legenda –exatamente o motivo para que eu o tenha escolhido, o que também não sou capaz de explicar.) Na minha visita anterior, eu via diversos lugares de fachada discreta identificados por um ideograma que, baseado em meu parco conhecimento do alfabeto de origem do idioma local, eu entendia como “sopa”. Por que cazzo tem tanto restaurante de sopa na cidade, eu me indagava, e por que eles todos são tão discretos? Até que outra alma caridosa me explicou que o ideograma queria dizer “água quente”, thus casa de banho.

Não existe senso algum de ameaça; em nenhum momento, contemplando aquela gente absurdamente bem vestida, discreta, polida e ordeira, dá pra entrar em trip paranóica de medo de multidão desenfreada linchando o demônio ocidental. Mas, yo, me sinto estranho, nessa bela e indecifrável cidade sem centro. A ponto de contrariar o poeta e encerrar dizendo que here, only elsewhere underwrites my existence.

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