April 29, 2005

 

And now for something
completely different...


If you needed proof...

Gentil leitora, amável leitor, aproveito a modorra dessa tarde de sexta-feira para comunicar que a regularidade suíça dos meus dois posts diários talvez passe por oscilações involuntárias, daqui até marromenos a metade de junho, porque deveres profissionais vão zoar com os meus horários. Para desgosto de todos os apreciadores do bom português, porém, pretendo continuar postando, se bem que não prometa nada quanto a freqüência, horários e conteúdo.

Como presente, deixo uma pequena coleção de links near and dear to my heart, a começar pelo site que ilustra o post, e passando por um oráculo eletrônico que ajuda a descobrir se o encontro dessa noite vai terminar em réla-bucho, sem esquecer de um novo hit do pessoal do Rather Good, cuja “We Like the Moon” Uncle Filthy pretende tocar como trilha em seu iminente matrimônio, e de uma desanimadora lista das piores coisas que podem acontecer com você (gradadas em “dolors”, a unidade universal de medida de incômodo). E recomendo especialmente uma visita a esse site aqui, ó, que resume com elegância quase renascentista o que eu gostaria de dizer a todos vocês. (Em breve, novas instalações.)

 

Heróis, nazistas e mulheres seminuas


Take that, you evil rock!

A Taschen, uma das minhas editoras favoritas (apesar de viver lançando livros imprescindíveis –como GOAT- a preços que eu não tenho coragem de pagar) lançou um maravilhoso estudo sobre as revistas de aventuras voltadas ao público masculino americano entre os anos 50 e 70 –histórias implausíveis, dicas sexuais hilariantes, e mil ilustrações contendo basicamente mulheres maravilhosas em trajes sumariamente ridículos e ostentando prateleiras sobrenaturais. Vale fácil, fácil os 40 dólares. (E a entrevista com o decano desse tipo de ilustração, Norm Eastman, que os pervertidos em geral esquecem de ler porque fica no final do volume e tem menos desenhos, é uma obra prima in and of itself.)


"Man's Adventure Magazines in Postwar America", by Taschen

Eastman conta muita história legal, por exemplo a de que costumava desenhar as capas da revista não só sem ler as histórias mas antes de elas serem escritas. Revela que uma das modelos que usava para seus desenhos era Shere Hite, que depois ficou famosa com o relatório Hite sobre a sexualidade feminina; Eastman diz que Hite costumava lhe fazer perguntas sobre a sua vida sexual, o que ele achava estranho, e que não acreditava quando ela dizia que era para um livro que estava escrevendo. E quando o entrevistador conta que os desenhos originais dele são vendidos a colecionadores por milhares de dólares, Eastman demonstra incredulidade, e conta que –quando as revistas do gênero fecharam- não encontrou nenhuma galeria que o representasse, mas que agora apareceram dois sujeitos para tentar vender o trabalho dele no eBay. Velha história: um gênio da arte de desenhar mulé seminua, ignorado pela crítica. Thank God there’s Taschen.


Torso -twisted, by Claire Kayser

Aproveito pra recomendar o elegante blog fotográfico Xupacabras, que me honrou com inclusão na lista de links e não só é bonito pra caramba como também me apresentou o trabalho de Claire Kayser, fotografia da Louisiana cujo portfólio inclui, além de excelentes fotos de mulé pelada, belos quadros à maneira de Van Gogh. Tanto o site de dona Kayser quanto o Xupacabras valem a visita pra todo mundo que gosta de fotografia. (A barra de links do blog é uma preciosidade, aliás.)

April 28, 2005

 

I'm wrong about everything


"You win the argument at the end of every night"

Miss Fancy Pants (aka Nandinha Tópiléssi, rainha da bateria da FAAP), jovem e fiel leitora aqui do meu bestiário, terminou viciada em stumbleupon, como todo mundo mais, e foi premiada com um link para a página de Mil Millington, que gentilmente me transmitiu. O sêo Millington, em meritória iniciativa, anotou para a posteridade os motivos das discussões entre sua namorada e ele. Ainda que a página demore cent’anni pra baixar, é uma experiência magnífica, porque mostra que não, não estamos sozinhos no vasto universo das desavenças sentimentais completamente ridículas. A lista é preciosa em sua diversidade: eles brigaram para determinar se é melhor cortar o kiwi ao meio no sentido do comprimento ou da largura, por exemplo; discutiram para decidir se o fato de que a namorada pretendia cortar ela mesma o cabelo do filho que ainda não tinham era um bom jeito de economizar dinheiro ou o caminho mais curto pra levar o fedelho à terapia; quebraram o pau acusando um ao outro de deixar a porta da cozinha aberta; é muito engraçado, e parece absurdo, até que madame memória pigarreia com a estridência usual e, putz...

Uncle Filthy e a namorada voltando de carro pra Sumpaulo, final de viagem. A namorada está falando dos escritores paulistanos de que só o Fudílson lembra e pergunta se o Alcântara Machado tinha escrito algum romance sobre futebol. Respondo que não. “, então porque deram o nome dele pro estádio?” Estádio? “O Pacaembu, ”. Não, Maria Alice, o Pacaembu chama Paulo Machado de Carvalho. “Não, eu morei a vida toda pertinho de lá. É Antônio Alcântara Machado”. Não, Maria Alice: Paulo Machado de Carvalho, dono da TV Record, chefe das delegações brasileiras à copa de 58 e 62... “Você nunca pode admitir que está errado”. Acabamos voltando pra casa via Pacaembu, um desvio de só uns oito quilômetros. Paulo Machado de Carvalho em letras garrafais, eu segurando a risada. “Você é insuportável quando está certo”.

Outra namorada, outro continente. “Você coloca sua toalha molhada no cabide de cima do banheiro, e por isso a minha nunca seca”. Desculpa, Maria Alice, foi sem querer. “Por que você sempre coloca sua toalha no cabide de cima?” Vai ver é porque eu sou mais alto, Maria Alice. “E por que você não guarda seus livros nas prateleiras mais altas da estante, então?” Eu guardo, Maria Alice. “Você acha que ser mais alto é grande vantagem, mesmo”. Na verdade, Maria Alice, ser alto só serve pra causar dor nas costas em viagem de avião. “Vou trocar a toalha de lugar”. Pode trocar, Maria Alice. (No dia seguinte, a tolha dela está no cabide de baixo, em cima da minha.)

Não, Maria Alice, caceta, eu não estava olhando para a sua amiga a festa inteira. “Não se faz de sonso, Fudílson”. Juro mesmo, Maria Alice. Eu nem sei direito de que amiga você está falando. “Você olhou pra mais de uma das minhas amigas?” Não, Maria Alice, não olhei pra amiga nenhuma. Mas e se tivesse olhado? “Ah, você queria olhar!” Não queria olhar, mas poderia ter olhado se as suas amigas não fossem tão peruas. “Ah, quer dizer que se não fossem minhas amigas ou não fossem peruas você teria olhado”. Claro, Maria Alice, olhar não tira pedaço. “Como você é cínico!” Pô, Maria Alice, só tô tentando salvaguardar o meu direito de hipoteticamente olhar pra uma mulher que seja ou não perua e seja ou não sua amiga. “Seu galinha”. Sua control freak. “Bem que minhas amigas disseram que você não prestava”. Aliás, bonita a renda do sutiã da sua amiga.

 

Galinha não: senhor Galinha


"Dois pra mim também"

(Pro Gus, Edu, Adrian e outros, er, membros da injustiçada catigoria)

Nêguinho* costuma passar a adolescência sonhando (eu tinha um amigo, aos 14, que sabia exatamente o que ele diria no dia em que ganhasse o Oscar –mesmo que não soubesse Oscar diquiq-, e hoje é gerente de alguma coisa em uma firrrma de plano de saúde, por exemplo). Diferente de quase todos os meus coetâneos, quando tinha 16 eu sonhava basicamente com o dia dourado em que chegaria aos 30. Os anos intervenientes –golden youth, pra tanta gente- me pareciam um Everest de chatice a ser galgado com aquela mistura de dor e tédio que caracteriza as, uhn, "grandes empreitadas". “It builds character”, como diz o pai do Calvin sobre acampamentos. E só isso é motivo suficiente pra não querer passar pelo processo.

Quando você chega aos 30, o que era considerado chatice nos 15 anos anteriores passa a ser considerado personalidade. Talvez não porque você tenha se tornado menos chato, mind, mas porque o mundo ou a parte dele que vive em contato com você decide que, yo, esse mala não vai mudar, mesmo. Eu lembro direitinho do que senti no 30° aniversário, uma exultação imensa –“dude, eu nunca mais vou ter que fingir que gosto da melhor-banda-de-rock-do-mundo-neste-semestre”. Pra minha sorte ainda maior, aliás, com 29 brotaram-me os primeiros fios grisalhos no cabelo e, se meus méritos não justificavam respeito algum, as cãs me valiam pelo menos a cortesia reservada aos sobreviventes. (Afinal, cortesia automática para com os velhinhos é simplesmente uma forma de congratulá-los pela sobrevivência, dada a escassez de méritos aparentes na catigoria, como bem sabe todo mundo que se depara com o universal fenômeno da velha que empaca o supermercado todo porque pára o carrinho na transversal.)

E tem também, claro, o raramente mencionado fato de que, aos 30, o balanço de poder na guerra dos sexos talvez comece a se inclinar um pouquinho a favor dos mano, ou pelo menos a se desinclinar um pouquinho do favoritismo total concedido às mulé até lá. Com 30, o cara provavelmente já teve sua cota de amores não correspondidos, desilusões, pés na bunda. E pela primeira vez contempla o panorama feminil com alguma calma –as mulheres de 30 e muitos que cansaram do marido e olham maliciosamente pra ele, as mocinhas de 19 que confundem aquele ar de ressaca permanente dos solteiros ou descasados de 30 e poucos com experiência, as moças da mesma idade que optaram por a little less conversation, a little more action. Se o cara não for parecido com o Frankenstein (ou talvez mesmo que seja), tiver um mínimo de dinheiro e não for burro como uma porta (ou talvez mesmo que seja), yo, a vida aos 30 e depois pode ser –enfim- divertida.

Porque o mundo não suporta ver ninguém se divertindo, é claro que esses caras de 30, 30 e tantos, 40, são todos acusados de imaturidade, inconseqüência, “idade do lobo”, whatever. Mas que nada: um dos traços que distinguem a maturidade é exatamente fazer aquilo que se quer apesar dos resmungos do universo. Mais de metade dos romances de pink lit e das comédias românticas giram em torno disso, aliás: o famoso “fear of commitment” que supostamente aflige os homens 30something mercê de sua imaturidade ou calhordice (basta ver que, num treco desses, se um homem foge do altar, é invariavelmente retratado como calhorda; se uma mulé foge do altar, é sempre retratada como very romantic). A verdade é que as mina é que optam por não aproveitar a tremenda vontade de commitment que muitos caras sentem quando são mais jovens, porque estão ocupadas namorando pleibas, burraldos bonitões e professores da faculdade, ou tendo caso com alguém do escritório. Aí, de repente, quando decidem que é hora de casar, todos aqueles caras pra quem elas não davam quando tinham 18 ou 20 se tornam subitamente muito atraentes. Mas depois dos 30 eles enfim descobriram que podem ou devem dizer não.

Do mesmo jeito que se dão o direito de ouvir uma faixa de um disco do Strokes e pensar “cazzo, isso não passa de falso Velvet requentado e kinda sucks”, esses mano não querem saber de ouvir wedding bells. Ou –porque afinal a maioria deles termina um dia casando ou vivendo com alguém- optam por ouvi-los só quando lhes convier. O que exatamente há de imaturo nisso? (E, yo, podem me chamar de McChicken.)

*Antes que me acusem outra vez de racismo, reitero que meu uso de “nêguinho” é como pronome indefinido brasileiro mudérno.

April 27, 2005

 

Horny Hippo, Exploding Frog


"She blinded me with SCIENCE!"

Traques batráquios: De todas as maneiras de morrer que as lendas urbanas alardeiam, sempre tive especial predileção pela combustão espontânea. Mas na Alemanha, mais de mil sapos em uma lagoa de Hamburgo incharam, incharam e terminaram explodindo, o que é quase tão bom quanto. Os sapos vinham inchando desde o começo do mês, e de repente começaram a explodir. As otoridad não fazem idéia do motivo para a hecatombe, já que a lagoa tem água tão limpa (ou suja) quanto a de outros corpos aquáticos vizinhos niquiq os sapos não morrem. O sapo não lava o pé mas continua querendo entrar de qualquer jeito na festa do céu.

Zaftig and horny: Quando as gordinhas americanas estão tentando xavecar alguém em serviço de paquera, costumam se definir como “zaftig” ou “BBW” (“big beautiful woman”). Mas Bullette, 53, a hipopótama mais velha da Alemanha, faz da idade e da corpulência partes essenciais do seu sex appeal, e na semana passada foi apanhada em flagrante delito de furumfa com seu marido, Ede, no zoológico de Berlim. Bullette já teve 20 filhotes e, porque é considerada velha demais para continuar procriando, os veterinários –espantados com o interesse renovado da BBH em séquisso- decidiram administrar um anticoncepcional para controlar os riscos de saúde que o furor uterino da moça acarreta. Se a pílula (que tem o tamanho de um pão francês) não funcionar, Uncle Filthy recomenda que os veterinários convençam Ede a discutir a relação: não tem concupiscência que resista.

Oferta do Peru: Graciela Yataco, 18, atriz e modelo peruana, cansou de ganhar 60 dólares por mês e, para ajudar a mãe doente e permitir que o irmão continue na escola (clichê, clichê, meu reino por um clichê), decidiu colocar a virgindade em leilão, causando revolta no país. Mas terminou rejeitando a proposta de um canadense que supostamente estava oferecendo US$ 1,5 milhão to get first dibs, e optou por se manter pura. Ó, não vou criticar os pruridos morais da menina Gracia mas, se ela me passar o e-mail do canadense, Uncle Filthy might consider. (Melhor receber pela virgindade do que pagar pelo exame de próstata.)

Vírus inteligente: Na Romênia, surgiu um vírus de computador chamado Win-32.Antiman.A que destrói apenas os arquivos eletrônicos de áudio e vídeo contendo música “manele, que é uma espécie de mistura de música cigana com electro. Eu não tenho rancor especial por música cigana, mas se o vírus puder ser adaptado pra outras catigoria, ô, que festão eu vou fazer na Maison McNasty! Uma família de vírus que catassem MPB, whiny rock, baticum, boy bands e girl singers, com especial virulência reservada aos grunhidos de Madonna, Morrissey e Phil Collins, iluminaria minha melancólica senectude. Os hackers são a única parte da economia em que Uncle Filthy ainda confia.

Código atrás das barras: Se você estiver interessado em tatuar um código de barras na nuca, como é meio moda aqui entre os anencefálicos, esse site cria um modelo personalizado com base nos dados que você fornece. O meu enfeita o alto do post, e será tatuado em minha testa na próxima vez que eu sair do Gonzalez Y Gonzalez depois de 16 tequilas. Você acha que suas atividades dúbias podem te levar à cadeia? Descubra aqui qual será o seu apelido na penitenciária. O meu, 3 dollar bill, é de certa maneira a história da minha vida. E se a combinação de tequila, tatuagem e prisão levá-lo a querer calcular sua expectativa de vida, melhor não usar esse site: segundo eles, eu morri em 2002. A única coisa que me consola pelo óbito prematuro é esse excelente gerador aleatório de valores de família: it feels exactly like home.

Decadência e queda: Um dos motivos para que a política moderna seja infinitamente menos divertida do que no passado é a falta de cognomes para os governantes. Carlos, o Calvo; Pepino, o Breve; João Sem Terra; Felipe, o Belo; Manuel, o Venturoso; Otto, o Ocioso; Carlos, o Malvado; Carlos, o Louco; Luís, o Gordo; Fernando, o Inconstante, Henrique, o Impotente, Ivan, o Terrível... Os sobriquets dizem muito sobre as figuras e as mazelas de seus reinados. Mas como ficaria um sistema como esse aplicado ao Brasil mudérno? Figueiredo, o Eqüino? Tancredo, o Quase? Sarney, the Unready? Fernando, o Cocainômano? Fernando, o Pomposo? Luiz Inácio, o Perdigoto? Colaborem, colaborem. A Fundação Noronha agradece.

 

Pest from the Past


Futuro serial-killer

Todo mundo tem aquele casal de amigos que causa constrangimento público ao usar endearments ligeiramente patéticos no restaurante, quinêim: “não é mesmo, ucho?” E o cara, olhando de esguelha pros amigos malévolos, murmura, “é sim, (pigarro), ucha”. Não é que chamar o/a cara-metade por apelido carinhoso seja inadmissível, mas há sempre a questão do foro. No restaurante, em mesa com três outros casais compostos respectivamente por duas pessoas que se odeiam, duas pessoas que se chifram mutuamente com o mesmo jardineiro e duas pessoas que conhecem ou o fofucho ou a fofucha marromenos desde que nenhuma festa existia sem um disco do B-52, dude, convenhamos, wrong place, wrong time.

Outro perigo, nessa catigoria, é a mãe. Sujeito que leva namorada ou potencial namorada para conhecer a mãe –um ritual universalmente aceito de que a bagaça está ficando séria- passa a macarronada toda de coração na mão temendo o momento em que a nobre matriarca vai abrir o baú, sacar da kriptonita (os 237 álbuns de fotografia), e discorrer longa, longamente, sobre os piores momentos na tundra de uma infância very sheltered: o dia em que ele usou fantasia de coelho em uma peça da escola, as audições na escola de piano, o fato de que as garotas do primário (estudei no Instituto Padre Chico) corriam atrás do sujeito gritando “lindo, lindo”. O cara lá, semanas ou meses se esforçando pra parecer dark, brooding and mysterious, e a mamma mostrando foto em que ele aparece fingindo que toca uma guitarra de prástico com três cordas, ao lado de um bonequinho do Ronnie Von: pô, manhê, I won’t be getting any nookie tonight.

Administrar a intimidade e editar o passado são duas coisas que me preocupam permanentemente, e que se relacionam estreitamente nos, er, desvãos escuros da alma. Tem coisas que, uns 40 anos atrás, jamais seriam mencionadas em público, e agora alimentam programas de televisão niquiq mulheres cujos maridos as trocaram pelas sogras debatem com homens que fizeram operação de mudança de sexo mas sentem falta de fazer xixi em pé, tudo isso mediado por um apresentador que é uma espécie de cheerleader da patuléia indignada. Não trago nenhum trauma, da minha prosaica infância –não fui abusado de maneira alguma, e na última vez em que minha mãe tentou me dar uma (merecida) sova, quanto eu tinha marromenos oito anos, ela terminou abrindo o pulso, sob meu corinho jubiloso de “deus castiga, deus castiga”. Mas continuo certo de que o psychobabble vigente, o qual dispõe que expor publicamente os traumas, taras ou vícios é uma maneira de “normalizá-los”, constitui tremenda sandice. Se a vida te sacaneou em um período no qual você era incapaz de se defender, contar isso ao mundo não vai reduzir a dor. Pelo contrário: vai te enquadrar permanentemente na categoria dos freaks, ou servir como uma espécie de muleta universal –“ih, liga não: o Fudílson levava muito tapa na orêia quanto era criança e ficou assim, coitâââdo”.

Portanto, Maria Alice, quando eu te chamo de “benhê” na frente dos nossos amigos, yo: I don’t really mean it. Viu, ucha?

April 26, 2005

 

Some girls...


..."they're so pure, some girls so corrupt"...

...te desafiam para um braço de ferro, te olham nos olhos, sorriem, mal conseguem cerrar o punho em torno do teu punho, fazem uma sucessão de caretas dignas de Conan, o Bárbaro, e, quando você ri, relaxa e permite que vençam, te socam com mãozinhas brancas e dizem que você não deveria ter deixado;

...te encaram do banco à frente no ônibus com uma nuca indignada e eloqüente que afirma “eu sei exatamente o que você está pensando, rapá”, mesmo que você (ainda) não saiba, porque está seriamente concentrado no que Lothar von Falkenhausen tem a dizer sobre o fim da era do bronze na China;

...te ligam e –em tom professoral- explicam veementemente um problema, enquanto você tenta em vão interromper o discurso e explicar que, yo, minha senhora, creio que a senhora sem querer acabou ligando pro ramal errado;

...te questionam com ar dubitativo e cético quanto à organização das suas estantes, e tamborilam as unhas curtas, de esmalte impecável, contra o MDF das prateleiras, procurando traços de poeira e claramente pensando “humpf, homens”;

...te recebem em trajes menores no horário combinado e sorriem com um olho maquiado e o outro não, avisando que tem uísque embaixo da pia e um jogo de basquete na TNT (e você nem pergunta se vão demorar pra se arrumar porque já sabe a resposta);

...te escrevem um e-mail quilométrico em resposta às três linhas que você enviou propondo um almoço e, depois de discorrer sobre o monofisismo, a cláusula filioque, a persistência dos Caimitas (think Bible, not Dorival), esquecem de responder ao convite;

...te elogiam pela elegância da gravata mas mudam imediatamente de opinião quando perguntam onde você comprou e você explica que ganhou de alguém;

...break your heart as you knew they would, yet you can’t help but admire their style.

 

Ch-Ch-Changes


What you have become is the price you paid
to get what you used to want

Cês acreditam que o mundo um dia vá funcionar com um dinheiro só? Eu me confesso eurocético: sempre achei que a união monetária européia, esdrúxulo filhote de uma demorada cópula burocrática, não daria certo, e que os países todos se arrependeriam muito de abandonar suas moedas pelo euro. Turns out I was wrong, as usual. Por mais que os italianos me digam sentir saudade daquelas notas de lira do tamanho de meia página de jornal, pouquíssimos deles voltariam atrás, na prática. Mas será que um dia a gente vai poder viajar por um mundo de moeda unificada (minha sugestão de nome pra esse dinheiro hipotético, aliás, é “marcopolo”)? Provavelmente não no tempo que me resta da vida. Mas em 50 anos? Não dá pra dizer que é uma perspectiva impossível. Nem mesmo improvável.

Tanto a SEC quanto a FDIC, que regulamentam os mercados de valores e os bancos americanos, respectivamente, estão promovendo um padrão de contabilidade chamado XBRL. É uma linguagem eletrônica universal para registro e apresentação de relatórios contábeis, baseada nos princípios da linguagem unificada XML (que tanto suplementa quanto parcialmente substitui o nosso querido HTML, e funciona em qualquer plataforma). Com a XBRL, idem: as categorias contábeis são organizadas em taxonomias adaptadas às diferenças regulatórias e metodológicas entre países e agências de fiscalização, as required, mas os tags individuais usados para os itens de um balanço permitem reorganização automática e imediata para apresentação sob qualquer outro método contábil cuja taxonomia conste do banco de dados XBRL. Ou seja, um balanço reportado em XBRL de acordo com as normas contábeis brasileiras pode ser convertido, com um apertar de botão, em balanço padrão FASB. Isso teoricamente permitiria comparar e contrastar instantaneamente toda sorte de resultados financeiros. E poderia servir para evitar malabarismos contábeis como os praticados pela Enron.

As firrrma, nem preciso dizer, estão torcendo o nariz para a idéia, até agora, mas a FDIC, por exemplo, a partir de outubro vai exigir que os balancetes trimestrais que os bancos têm de apresentar a ela cheguem em formato XBRL. Muita gente desconfia do método dizendo que é complicado demais, e que os proponentes do sistema, entre as quais as grandes empresas de auditoria, o tornaram propositalmente complicado como maneira de garantir clientes cativos de consultoria. Pode ser. Mas a idéia de um padrão que permita analisar comparativamente o desempenho de empresas localizadas em mercados diferentes e operando sob culturas e normas diferentes é uma tremenda força unificadora. Se “pegar”, claro.

Como mostram as fusões anunciadas na semana passada entre a Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) e a rede de transações eletrônicas Archipelago e entre a bolsa eletrônica Nasdaq e o mercado eletrônico Instinet, as forças de mercado operam no sentido da consolidação do setor financeiro –não só dos agentes mas da infra-estrutura que o serve. Se a NYSE realmente abandonar os 213 anos de tradição do pregão de voz (o que as análises da fusão consideram inevitável), e se a tendência for realmente de que todos os mercados passem a negociar todas as ações, we’re in for a very big change. Quando a fusão proposta entre as bolsas de Londres e Frankfurt fracassou, em 2000, eu achei que era uma prova da persistência das tradições e das diferenças culturais. Com a chegada do padrão XBRL e as fusões de bolsas nos EUA, yo, vai ver que não, e que uma unificação de mercados e padrões possa resultar, um dia, que eu pague tudo em marcopolos na minha viagem à China. That will probably suck.

(Ah, e falando em mudança: Kuttiyamma, 29, uma mulher indiana com traços de hermafroditismo, resolveu fazer operação de mudança de sexo para poder casar com seu amor, Lora, 25. Depois de pagar 50 mil rúpias pela operação, Kuttiyamma, now Binu, descobriu que Lora, sua namorada e sobrinha, estava noiva de outro homem, e decidiu processar a menina para recuperar o preju sofrido com a operação. Lora, em entrevista exclusiva à NoronhaNews, explicou: “Se era pra fazer operação de colocar bingulim, ela podia ter colocado um maior, pô”.)

April 25, 2005

 

If...


...Rudyard Kipling visited Gonzalez Y Gonzalez

If you can walk with sluts and keep your pants on
If you can order Sauza with no slur’d vowels
If you discern the babe who has implants on
If you can eat burrito and hold your bowels
If you won’t sing that tune by Jon Secada
If you walk to the gents when you should run -
Yours is the bill –who ordered enchilada?
And –Goddamnit!- you’ll be hungover, son!

 

Money don't get
everything, it's true


Old school basketball at its best: Bill Russell
blocking a dunk by Wilt Chamberlain

O basquete foi inventado nos Estados Unidos, e por um branco (o canadense James Naismith, em 1891) –ainda que Cedric the Entertainer costume dizer que um preto é que teve a idéia de cortar o fundo da rede e evitar a necessidade de manter uma escada permanentemente encostada à tabela. De sábado passado até a metade de junho, porque começaram os playoffs da NBA, vou ignorar os amigos, desdenhar os prazeres da carne e assistir ao maior número possível do total de entre 60 e 105 jogos que terão de ser disputados para determinar o campeão da temporada 2004/2005. Mas não temam: não pretendo postar todo dia discorrendo sobre as diliças do meu esporte predileto.

Basquete é o único esporte legitimamente street dos Estados Unidos. Os dois outros esportes de grande popularidade no país requerem mais equipamento e não podem ser jogados em escala reduzida, ao contrário do basquete (mesmo softball e flag football requerem espaço e equipamento especializado). E tanto beisebol quanto futebol americano distinguem fortemente entre as especialidades –as funções de ataque e de defesa, nos dois esportes, são executadas por times completamente separados. Ou seja, não dá pra jogar nenhum dos dois na rua, com três amigos em cada time. Já basquete funciona bem em settings urbanos (qualquer inner city americana oferece em média 50 quadras de basquete para cada diamante de beisebol ou campo de futebol), e pode ser jogado até one-on-one. A combinação desses fatores –a condição de esporte “urbano”, a necessidade de pouco espaço ou equipamento- faz do basquete o mais black dos esportes, por aqui. (Ainda que o número de negros nos times de beisebol e futebol americano também seja alto.)

Raça e racismo, claro, são o grande albatroz da cultura americana desde os anos 50, pelo menos, e na NBA –uma grande corporação ridiculamente branca administrando um esporte barulhentamente negro- as tensões afloram periodicamente. Por um lado, temos os zécutivos impondo regras de bom-mocismo completamente artificiais para limitar o estrago que o estilo de vida exótico dos jogadores negros faz em termos de aceitação da liga pelos espectadores majoritariamente brancos (jogador de basquete anda com um séquito –dito “posse”- de 10 ou 12 amigos e agregados, em Humvees com calotas folheadas a ouro, e muitos deles têm a propensão de manter haréns –ou no mínimo têm filhos com seis ou sete mulheres diferentes).

Já a NBA quer que os mano “sirvam a comunidade”, tipo, leiam para criancinhas underprivileged ou, preferencialmente, criem fundações para apoiar causas absolutamente não controversas. Os jogadores negros, de sua parte, reclamam constantemente de que a organização –e o mundo- é racista. O caso mais hilário é o de dois (então) jogadores do Portland TrailBlazers, detidos pela polícia em uma estrada do Oregon uns três anos atrás, porque vinham a marromenos 130 por hora num Humvee amarelo ovo, ziguezagueando entre a mão e a contramão da estrada. Quando a polícia os fez parar, saiu aquele fumacê comprometedor assim que abriram a janela do Humvee, e os vigilantes rodoviários encontraram meio quilo de maconha dentro do carro. Os jogadores –grandalhões, tatuados e chapados- acusaram a polícia de racial profiling, claro.

Fact is, os mores culturais dos jogadores da NBA são todos derivados da cultura street negra –e os jogadores americanos brancos mais jovens adotam completamente o estilo, das tatuagens à gíria, passando por tentativas pífias de dreadlock. O armador (branco) Jason Williams, hoje no Grizzlies, ganhou fama no Sacramento Kings com o apelido “White Chocolate”. As entrevistas dele pareciam letra de rap: incompreensíveis e hilárias ao mesmo tempo. E a camisa mais vendida da NBA (um forte indicador da popularidade relativa do atleta entre a molecada que acompanha o esporte) é a do armador (negro) Allan Iverson, do Philly 76ers, que nas horas vagas grava gangsta rap e a cada duas semanas vê algum membro de seu séquito envolvido em briga ou tiroteio em buate. On the other hand, a grana da NBA é majoritariamente branca –a maioria dos espectadores dos jogos, dos telespectadores e compradores de produtos “assinados” são honkies. E, dos 30 sócios majoritários de times da NBA, um total de UM é negro –Bob Johnson, fundador da Black Entertainment Television, premiado no ano passado com a –very token- concessão do Charlotte Bobcats, um novo time da liga.

Começando com a era Bird/Magic Johnson, nos anos 80, e especialmente a partir da ascensão de Michael Jordan, a NBA virou very big business. LeBron James, o primeiro selecionado no draft da temporada 2003/2004, tinha 18 anos e saltou direto do segundo grau para o basquete profissional. Antes de disputar sua primeira partida pro, já tinha assinado US$ 90 milhões em contratos esportivos e publicitários. Os direitos de transmissão televisiva da NBA para o período 2002/2008 foram negociados por quase US$ 5 bilhões (e isso só pros Estados Unidos). O ingresso mais barato disponível para uma partida de playoff, hoje, custa US$ 40, mas o preço médio efetivo de venda é da ordem de US$ 190. Um jogador no máximo razoável como Allan Houston, do Knicks, ganha US$ 15,9 milhões por ano. (O Knicks, aliás, the team all new yorkers love to hate but love, está gastando US$ 110 milhões por ano em salários e não chegou aos playoffs esta temporada –nos últimos quatro anos foi aos playoffs UMA vez, no ano passado, e terminou eliminado pelos “vizinhos” do Nets –um time tão fudido que joga em um ginásio na beira de uma estrada.) E é sempre hilariante ver patrocinadores correndo pra cancelar contratos biliardários com jogadores que se envolvem em incidentes desagradáveis –Kobe Bryant, um dos poucos “bons moços” dinásticos oficiais da NBA (o pai dele, “Jelly Bean” Bryant, jogou na liga), passou boa parte de 2004 encalacrado com uma acusação –absurda- de estupro, que a promotoria mesma acabou abandonando dada a precariedade do caso, e a correria dos patrocinadores que o usavam como garoto-propaganda para exercer morality clause e ejetar o moço era digna de um filme de Billy Wilder.

Os playoffs da NBA são feitos de grana, raça e racismo, justiça poética (Kobe Bryant armou para expulsar Shaq do Lakers e o time não vai aos playoffs pela primeira vez em 11 anos), muitas incertezas (o favorito ao título este ano sequer esteve nos playoffs do ano passado), veteranos se aposentando in a blaze of glory (Reggie Miller, 39, 32 minutos e 15 pontos por jogo), preocupações mórbidas da TV quanto a audiência (porque os dois maiores mercados televisivos do país, Nova York e Los Angeles, não têm times nas finais), preocupações quanto a um possível confronto de sete jogos entre o Detroit Pistons e o Indiana Pacers (na temporada regular, jogadores do Pacers bombardeados com cerveja pela torcida do Pistons invadiram a arquibancada pra descer bifa nos engraçadinhos), temores quanto à renovação do contrato coletivo entre a liga e o sindicato dos atletas (em 1999, o fracasso dessas negociações levou a uma temporada de basquete com metade da duração usual). O basquete, cês querem saber? Continua a ser o melhor do mundo. (E dois brasileiros têm –creio que pela primeira vez- chance real de título na NBA.)

April 22, 2005

 

Couch Potato, Hidden Wild Boar


It's stupid season!

Quando eu repito insistentemente pros meus três fiéis leitores a divisa ancestral do clã McNasty, “pior é possível”, levo vaia ou sou chamado de Hardy Har-Har. Well, I read the news today, old boy, e descobri que o Legislativo da Califórnia está tentando proibir o acesso, no Estado, a um mimoso serviço de caçadas online chamado Live-Shot. Funciona assim: o mano se inscreve, pagando 15 dólares por mês, e tem acesso online ao conjunto de câmeras que cobre toda a área de uma fazenda nas colinas do Texas (where else?). Aí, se quiser mandar bala em algum dos animais confinados por lá, paga mais uma penca de taxas que chegam a 500 dólares por animal e, controlando um mecanismo que acopla um rifle de caça à câmera dotada de comandos de movimento, o Elmer Fudd virtual pode mandar bala nos antílopes, porcos selvagens e outras vítimas oferecidas em holocausto. Ou, se quiser só um tiro ao alvo light, paga seis dólares para dar 10 tiros remotos contra um alvo de papel.

Eu sei, eu sei, nêgo que come bife derrapa perigosamente no terreno da hipocrisia ao falar mal de caçador, mas, pô, mano, imaginar o gorrrdo de pijama sentado em casa and going Rambo contra meia dúzia de porquinhos é -pra não rebuscar muito o que sinto a respeito- completamente repulsivo. (E o mais mala é imaginar os texanos enchendo as burras com isso enquanto causa meritória como a da Freenet, que oferece uma maneira de hospedar sites anonimamente a fim de escapar à censura e aos abelhudos, sua frio a cada mês para obter doações que lhe permitam cobrir o suntuoso orçamento de US$ 2,3 mil dólares que mantém o sistema funcionando.)

Um axioma da publicidade do Bananão é que anúncios comparativos diretos não funcionam porque brasileiro sempre torce pro mais fraco (e é perfeitamente possível imaginar o corinho de “bicha, bicha” pro matador, se no Brasil tivesse tourada). Talvez eu seja brasileiro demais pra ver graça em caçada, mas de qualquer jeito é difícil discordar da senadora estadual californiana Debra Bowen, proponente da proibição, quando ela diz que caçadas online não têm “nada de esportivo”. Os operadores do site se defendem alegando que o sistema foi criado para atender caçadores com dificuldade de locomoção ou que sofram de deficiência física. E isso é ainda pior, dude: caçador com deficiência física vira cocréti em 30 segundos, diante do leão. Ficar sentadinho na cadeira de rodas matando, via Web, um porco que não tem chance nenhuma de revidar (ou fugir, já que o rancho é cercado), bleargh duplo.

Pra tentar combinar as virtudes tecnológicas do serviço e uma certa dose de diversão, portanto, eu sugiro instalar um sistema desses no Congresso; por 25 reais, qualquer brasileiro tem direito a mirar online e descarregar o trêsoitão na vocelência de sua preferência. O pobrema, claro, seria encontrar vocelências no Congresso em horário comercial, porque brasileiro só tem banda larga na firrma, mano. Mas o método pode ser adaptado pra show de boy band, encontro de blogueiro em churrascaria e até, se o domínio osama.com estiver disponível, para um jogo em que o terrorista suicida virtual pilota, de casa, o 767 que vai se chocar contra o edifício de sua preferência. I’ve got first dibs on anything ever designed by Oscar Niemeyer.

 

She MAKES me feel


"Soul is the ability to make other people feel what you're feeling"

Quando o mano fica apaixonado, apaixonado mesmo, “com cara de quem viu passarinho verde”, como dizia minha tia Hilda, ele padece de um monte de vontades patéticas, daquelas que –confessadas aos amigos sem querer em mesa de bar- geram apelidos inesquecíveis como “chaveirinho de etc.” Mesmo assim confesso que, yo, meu anseio romântico é fazer com que a musa sinta aquilo que Aretha Franklin evoca em forma de terremoto quando canta “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”. A B section, niquiq ela diz “oh baby, what you’ve done to me/ You made me feel so good inside/ And I just want to be/ Close to you, you make me feel so alive”, meu são jizuis. E, vejam, não é a melodia, muito menos a letra, mas o punch. Ninguém –nem divindades como Ella e Carmen McRae- cantou assim, antes. Ninguém voltará a cantar assim.


Ms Franklin and Brother Ray: Spirit in the Dark

Aretha Franklin nasceu em 1942, em Memphis, filha do reverendo C. J. Franklin, um dos pregadores batistas mais famosos dos Estados Unidos. Assinou seu primeiro contrato como cantora de gospel em 1956 (em trio com as irmãs Emma e Carolyn), teve seu primeiro filho em 1958 e, em 1960, seguiu o exemplo de alguns outros cantores de raízes religiosas e assinou com a Columbia. Nos seis anos com a gravadora, lançou bons discos, mas os executivos não conseguiam decidir se a queriam como cantora de jazz, de cocktail music ou de blues, e só quando se transferiu para a Atlantic, em 1966, Aretha se tornou –sem nenhuma contestação- a rainha do soul. Acompanhada por uma banda mostly honky (Chips Morman e Jimmy Johnson, g, Spooner Oldham, p, Tommy Cogbill, b, e Roger Hawkins, d), e gravando no estúdio Fame, em Muscle Shoals, Alabama, ela registrou 25 faixas, lançou dois LPs e colocou quatro canções entre as Top 10 das paradas de sucesso em seu primeiro ano de gravadora. (E estamos falando de material como “Respect”, A Natural Woman”, “Chain of Fools”, “I Never Loved a Man”.) Em 1968, Ms Franklin foi parar na capa da Time, e continuou gravando álbuns magistrais até a metade dos anos 70, quando a disco music assassinou o soul. Se vocês encontrarem essa coletânea, Uncle Filthy garante: é a melhor coisa que uma coleção de discos pode incluir. Mas fujam de Aretha: From These Roots, autobiografia escrita em parceria com David Ritz: a diva fala basicamente das alegrias do soul food de Detroit (o que explica seu tamanho atual) e dos vestidos que usou em seus principais shows. Larguei na página 60.

April 21, 2005

 

I've seen the elephant,
and drank it too


"I could easily learn to prefer an elephant to any other vehicle..."

A cerveja mais popular da Tailândia porta a marca Beer Chang –“Cerveja Elefante”- e a Thai Beverages, fabricante do very aptly-named product, pretendia abrir seu capital na bolsa de Bancoc. Um protesto de dois mil monges budistas, mês passado, fez com que a bolsa reconsiderasse a decisão, e recentemente surgiu o anúncio de que a inclusão das ações no pregão seria adiada sine die, ainda que Charoen Sirivadhanbhakdi, dono da Thai Beverages, seja chapinha do primeiro-ministro tailandês Thaksin Shinawatra. Antigamente, monge budista costumava atear fogo às vestes em protesto contra a ditadura católica de Ngo Dinh Diem no Vietnã do Sul. Agora, eles batem tambô contra a inclusão da Cerveja Elefante entre as ações cotadas em bolsa –ainda que a cerveja mesma continue a ser vendida normalmente. “Ponha uma tromba na garganta”: taí um slogan que eu proporia, si fosse publicitário.

Já no Camboja, cujos monges budistas são chegados a uma cervejinha e a xavecar as mina da barraquinha que vende a dita cuja, como sabem os meus três fiéis leitores (viu, Patricia?), a cervejaria tcheca Budejovicky Budvar venceu o mais recente round de sua batalha contra a Anheiser-Busch, fabricante das cervejas Budweiser. O grupo tcheco, olha só, se localiza na cidade de Budweiser (Budvar) e vende cerveja com esse nome desde o século XIV; os americanos registraram a marca Budweiser no mundo inteiro, porém, e querem impedir os tchecos de usá-la. No Camboja, a corte suprema deu vitória à Budejovicky Budvar, que pode continuar vendendo cerveja com a marca Budweiser no país. Por mais que os monges cambojanos bebam, though, seu consumo representa marromenos 0,03% do mercado mundial de cerveja. Fico imaginando o dia niquiq a Nabisco registrar a marca “Piracicaba” –lá embaixo, na Brasília, o pobre vendedor reduzido a entoar “pamonha, pamonha, pamonha do, er, hum, lugar onde o peixe pára”.

Falando ainda em monges budistas, morreu hoje –aos 100 anos- o escritor japonês Fumio Niwa. Filho de um monge budista, ele estudou para se tornar monge mas abandonou a religião quando se formou na universidade. Era um dos mais famosos e queridos escritores japoneses, e The Buddha Tree, uau: wish I could write half that well. Ele tem mais um ou dois títulos traduzidos em francês, e sua bibliografia em idioma que leio pára por aí. Pena, porque escreve ainda mais miló do que Ozu dirigia. (Niwa, aliás, foi correspondente de guerra junto à Oitava Frota, do almirante Gunichi Mikawa, nas Ilhas Salomão, em 1942/3, e se alguém sabe de livro "de guerra" dele traduzido pra qualquer idioma com letrinha “das nossa”, agradeço por demais.)

Agora eu vô ali tomá uma Cerveja Elefante e tascá fogo na rôpa de uns monges budistas. Avisa Sahib que de tarde eu vô num vim.

 

"Bentinho" não, mêrmão!


I like the Pope; the Pope does not smoke dope

Eu não só sou ateu como me tornei ateu especificamente em reação a muitos aspectos do misticismo católico, mas ainda assim não consigo evitar uma certa sensação de ridículo quanto leio –em referência ao Papa morto e ao Papa posto- classificações como “tendência conservadora da Igreja”. Yo, dude, como assim, “tendência”? E por que simular espanto com a idéia de que a Igreja seja conservadora? Eles agem não só orientados por dogmas –“ponto fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como certo e indiscutível, cuja verdade se espera que as pessoas aceitem sem questionar” - como também sob o peso de dois mil anos de tradição. A idéia de que a Igreja “se modernize” para acompanhar os tempos e os costumes, se bem recebida com dose um tanto maior de prontidão nos últimos 40 anos, não é proposta que uma instituição milenar (e por uma vez a palavra é aplicada sem hipérbole) possa –ou deva- acatar levianamente. Porque abandonar tradições e atenuar dogmas acarreta o risco de perder a alma –literal e figurativamente.

O contra-argumento óbvio é que viver no mundo moderno sob um conjunto de normas desenvolvidas por maluquinhos e peixeiros há séculos e milênios é completamente inviável. Dã. Eu sou ateu, esqueceram? Claro que é completamente inviável –quanto mais estreita a adesão aos dogmas e à tradição, menos possível viver bem no mundo moderno. Mas, dude, abandonar todos os dogmas e tradições abala o duplo pilar da Igreja: o sistema moral irrefragável, de um lado, e a fé completamente irracional, de outro. (E não tomem “irracional” por insulto, aliás.) Se o resultado do aggiornamento for transformar a Igreja em uma espécie de Xou da Xuxa, e se a todo dogma for aposta uma cláusula de escape, qual é o ponto de manter a bagaça? Melhor partir logo pra produzir hóstia em versão nacho, bar-b-q e spicy hot.

O Papa Bento 16 dedicou parte de sua primeira homilia a rejeitar explicitamente o relativismo moral. É um resumo perfeitamente lúcido do que a Igreja tem a dizer, e uma análise muito clara do papel que cabe a uma instituição como ela em meio à retórica barata da correção política e do resmungo perpétuo. É evidente que, porque discordo da posição da Igreja sobre marromenos 90% das questões, dou graças a deus por viver em um mundo relativamente laico e sob um sistema menos autoritário do que o ideal católico disporia. Mas, yo, seria tolice e presunção supor que a Igreja deva concordar comigo. Enquanto houver uma firme garantia institucional de separação entre Igreja e Estado, a insistência da Igreja quanto a posições insanas como a campanha anticamisinha me incomoda menos do que ver uma Igreja hippie incomodaria.

Conversando com amigos brasileiros “de esquerda” e lendo coisinhas aqui e ali, saquei que uma das coisas que mais os incomoda na hierarquia do catolicismo é a tendência à censura. Pô, meu, na “constituição” cristã, o terceiro mandamento institui a censura como pedra fundamental da Igreja, ao proibir os fiéis de pronunciar em vão o nome do Senhor. Que a Igreja censure as sandices marxistas da Teologia da Libertação me parece, portanto, perfeitamente natural. A Igreja não é uma sociedade de debates. E jamais pretendeu ser uma democracia. Se Boff, Küng e os demais censurados não estiverem satisfeitos com o silêncio que lhes é imposto, podem sempre renunciar à batina e procurar emprego como professores de Teologia marxista em Cuba (basta trocar “Deus” por “Fidel Castro” nos textos). A idéia de promover uma síntese entre marxismo e catolicismo é uma dessas típicas cretinices dos anos 60 que o mundo faria muito bem em esquecer. (Como esqueceu –pelo menos fora do cativeiro da academia- todas as demais fusões entre o mumbo jumbo marxista e formas respeitáveis de pensamento –ninguém mais fala em biologia marxista, genética marxista ou cinema marxista. E Receitas Proletárias de Vladimir e Nadezhda –destaque para “criancinha na grelha”- infelizmente está fora de catálogo.) Bento 16 deu umas cacetada nos cumunista quando isso ainda fazia diferença. That’s good enough for me. Se congratulação de ateu não é blasfêmia, desejo-lhe um pontificado feliz.

April 20, 2005

 

"I've got a tiger by the tail..."


"It's plain to see
I won't be much when you're through with me"

Vítima do sistema: O romeno Danut Mester, 38, foi preso em flagrante no meio de um assalto, uma semana depois de concluir sentença de prisão de 13 anos, por roubo. O criativo meliante está processando o governo da Romênia e quer indenização de 300 mil dólares, porque não foi devidamente reabilitado. Fica a sugestão pros simpáticos assassinos do Rio de Janeiro: quando algum transeunte inconveniente for atingido por bala perdida, eles já sabem como recuperar o custo da munição desperdiçada.

Coqueiro que dá exorcismo: Na Índia, o “homem santo” Senthil Kumar prometeu exorcizar os maus espíritos que assolavam o corpo escultural de Selvi Dhanalakshmi. O método do exorcismo? Kumar despiu a paciente, usou cânfora aquecida para massagear os seios e palmas das mãos da moça e, no momento t’esconjuro, quebrou uns cocos na cabeça da possuída. Portanto, além do ramo de arruda na orêia e da guirlanda de alho ao pescoço, se a amável leitora, o gentil leitor quiserem escapar do tinhoso agora carece também usar um chapéu de coco. Tara esquisita e religião bizarra é o que não falta no mundo.

Sodoma on the beach: Até o começo dos anos 70, as leis de alguns dos Red States americanos definiam qualquer forma de sexo que não papai-e-mamãe entre casados como “sodomia”, de acordo com a Bíblia. Essas leis caíram, mas nas ilhas Fiji um turista australiano e um cidadão local foram condenados porque fizeram sexo gay e tiraram fotos eróticas um do outro. Laisenia Qarase, o primeiro-ministro, justificou a condenação alegando que, segundo a Bíblia, sexo entre homens é pecado. Já na Geórgia (americana, não a do Cáucaso,) um moleque de 19 anos foi condenado a 10 anos de prisão porque, quando tinha 17, fez sexo consensual com uma dimenó que tinha 15. O promotor justificou a condenação alegando que sexo com dimenó é sempre estupro e que 10 anos é a pena mínima prevista pela legislação estadual para crimes sexuais. Do jeito que a coisa vai, a única forma de sexo que não será reprimida é exatamente aquela que mais merece repressão: o coito para fins reprodutivos. Crescei e múltiplo orgasmo, como recomenda o livro santo.

O furo no ofurô: Um xerloque nipônico foi detido em flagrante delito de invasão de banheira na noite de sexta-feira, em Nara. O indômito policial exagerou no saquê durante o happy hour e acabou se acomodando no ofurô de uma casa localizada a cerca de 50 metros da sua. Uncle Filthy usou essa mesma desculpa quando a delegada Rosimeire o flagrou acompanhado de uma loira tingida na banheira do motel Repouso do Caubói, em 1978, mas ninguém acreditou quando ele disse “essa não é minha casa? Essa não é minha mulé?”

Máquina de fazer ping: A polícia de Seattle está investigando o misterioso caso de um mano que pegou fogo quando estava passando por cirurgia cardíaca de emergência, em 2003. Reza a lenda urbana que o sujeito queimou até morrer depois que o álcool usado para limpar sua pele foi incendiado por um instrumento cirúrgico. Depois de ver ca mão a radiografia de uma tesoura cirúrgica esquecida na cavidade abdominal de um paciente, cortesia do Doctor Ox, o mais eminente contrabaixista cirúrgico de Sumpaulo, tenho mais esse motivo para trocar a medicina pelo uso do alho, coco e arruda, que pelo menas não são inflamáveis.

Cat lady my ass. Call me Rambo: Em Wyman, no rústico Maine, dona Mildred Luce, 90, agarrou uma onça pelo rabo para salvar o gatinho de estimação. Smudge, 20, não deve ser um dos gatos mais ativos do mundo, convenhamos, e nonna Mildred dia desses olhou pela janela e viu a onça com a cabeça do felino na boca. Ela saiu correndo pro quintal e cutucou a onça com uma pá de neve mas, quando o malvado invasor não abandonou a presa, nonna Mildred decidiu que a melhor solução era segurar a cabeça da onça com a pá enquanto puxava-lhe o rabo com a mão livre. Smudge escapou em baixa velocidade para dentro de casa, perseguido pela onça que, confusa, acabou trancada no banheiro por dona Luce. Eu sempre soube que as velhas dos gatos eram capazes de tudo pra proteger os bichanos, mas segurar rabo de onça é acima e além do dever. Smudge e a nonna Mildred passam bem, e a onça passou desta para melhor.

 

Mais números, mais nomes


"Nom d'un nom d'un nom!"

No departamento drowning by numbers, aliás, a manipulação de estatísticas nem sempre é inócua. Por exemplo, uma very unholy alliance entre os desocupados da ONU e os governos safados de países africanos vem trabalhando para arrancar dinheiro dos países ricos a fim de constituir um fundo de fomento às telecomunicações e tecnologia no continente, e entre outras sandices o presidente senegalês Abdoulaye Waye alegou, no ano passado, em convescote nova-yorkino das Nações Unidas, que Manhattan dispunha de mais linhas telefônicas do que o total africano agregado. Um relatório do Banco Mundial não só nega a “estatística” como diz que cada morador em um raio de 50 quilômetros de Manhattan precisaria ter cinco linhas telefônicas, para confirmar os números de Waye.

Teoricamente, quanto mais dinheiro dado em ajuda às nações pobres, melhor, não importa que mentiras sejam usadas à guisa de estatística. Fact is, ajudar governo ladrão e safado como a maioria dos africanos (e, pra não dizerem que sou racista, brasileiros e latino-americanos igualmente) é uma maneira de perpetuar a pobreza. No fim, governantes e suas famílias enriquecem; os concerned citizens e burocratas da assistência comodamente instalados no Primeiro Mundo dormem com a consciência tranqüila; e aquela abstração nada estatística, o “africano comum”, continua morrendo de fome e doença –e sem telefone pra chamar a ambulância que de qualquer jeito foi vendida no mercado negro ou é usada como motel sobre rodas pelo primo em segundo grau do ministro dos Correios, Tambores e Telecomunicações.

No departamento what’s in a name, ontem minha estimada manhê ligou pra perguntar se o Papa novo tinha escolhido o nome “por causa daquele santo preto que eu ponho café”. Depois de horas mind-numbing traduzindo a homilia de Benedito XVI, saí rolando de rir pelos corredores da firrrma. Desde a semana passada, essa história dos nomes –o bom nome, o nome certo- não me sai da cabeça. Por exemplo, li uma notícia sobre uma banda de rock brasileira que estava se desfazendo niquiq os integrantes se chamam Chorão, Pelado, Marcão e Champignon (e “Marcão”, em gíria mano paulista, não é simplesmente um aumentativo de Marcos). Com esses nomes, eles estavam fadados ao sucesso. (Já os substitutos dos três membros expelidos só incluem um bom rocking name, “Pingüim”.)

Nomes podem não ser destino (o maior strike rate feminil entre os meus conhecidos foi obtido por um sujeito chamado “Dalton”), mas eu continuo achando que se Alois, o pai de Adolf, tivesse mantido o nome de família original, Schickelgruber, a carreira do menino não teria seguido exatamente o mesmo percurso propiciado pelo sobrenome “Hitler”. (“Heil, Schickelgruber”? Come on.) Não é por nada que a velha Hollywood tenha optado por mudar o nome de Archibald Leach para Cary Grant. Eu mesmo, desde que optei por Fudílson Noronha como nom de plume, perdi peso, ganhei cabelo, recebo em dólar e como muitas mulé. (Ligue pro 1406 e peça o seu Kit Fudílson.) Enquanto vocês não decidem mudar de nome, Etevaldo, Maria Auxiliadora, Pauderley, Goréti, pelo menas vão lá botar café na estalta de São Bento, que ele agora tem mais pudê.

April 19, 2005

 

Habemus Papam!


... and the Throne of Peter goes to...

Pra não prejudicar o processo de eleição pontifical, usei minhas prerrogativas como CEO da NoronhaCorp. e publisher da Noronha News e retardei a publicação de relatório obtido segunda-feira -em épico esforço de reportagem- por Giuseppe Faccia di Schiafo, nosso sagaz correspondente romano. Preocupados com a perpetuação do poder conservador na Igreja, alguns cardeais liberais contrataram uma consultoria de marketing, meses atrás, para determinar quem seriam os candidatos ideais para modernizar o Papado, quando João Paulo II fosse promovido a santo. Segue abaixo o short list sugerido pelos consultores, acompanhado de algumas observações:

Nelson Mandela, 86, África do Sul. Prós: Tem estatura moral, bom trânsito entre os líderes mundiais, lida bem com a mídia, é africano e seria muito bem visto como o primeiro Papa não caucasiano. Contras: Não é católico, tem mais de 80 anos.

Madre Teresa de Calcutá (Agnes Gonxha Bojaxhiu), 95, Macedônia. Prós: O trabalho assistencial e evangélico incansável em uma das regiões mais pobres do mundo, acesso fácil aos meios de comunicação, ótima aceitação junto ao eleitorado feminino, intransigente apego à doutrina da Igreja, laureada com o Nobel. Contras: Mulher, já morreu.

Tenzin Gyatso, o Dalai Lama, 69, Tibete. Prós: Reforçaria a tendência ecumênica da Igreja, poderia usar sua influência em Hollywood para atrair astros internacionais de cinema como porta-vozes do catolicismo, ajudaria a difundir a fé entre os asiáticos. Contras: Não acredita em Deus, acredita em reencarnação (ou seja, o Papa nunca morreria, caso ele fosse eleito).

Bono Vox (Paul David Hewson), 44, Irlanda. Prós: Sua imensa popularidade entre os jovens, que JP2 definiu como o futuro da Igreja, facilitaria muito a promoção dos ideais católicos. Conhecido pelo trabalho assistencial e pelas muitas viagens. Possível ganhador do prêmio Nobel da Paz. A Irlanda merece. Contras: Sexo, manguaça e rock’n’roll; a possibilidade de que ele indique The Edge para o cardinalato.

Hillary Clinton, 57, Estados Unidos. Prós: Ela fala pra caramba, sabe o que é melhor para a vida de todo mundo, sofreu o martírio de ter um marido galinha, e ninguém quer correr o risco de vê-la na presidência dos Estados Unidos (o Papa pelo menas não tem armas nucleares). Contras: Ela fala pra caramba, é defensora do aborto, e é mulé.

Doutora Ruth Westheimer (née Karola Ruth Siegel), 76, Alemanha/Estados Unidos. Prós: Já que aparentemente falar de sexo ocupa marromenos 75% do tempo do pontífice, a doutora Ruth pelo menos tem certo grau de preparação para o assunto (e o sotaque dela quando pronuncia "copulation" é a dose perfeita de comic relief para uma prédica). Contras: Judia, defende o sexo depois do casamento. (Alternativa: Dr. Jairo.)

Beyoncé Knowles, 23, Estados Unidos. Prós: Dois hectares de coxas, apelo junto aos jovens e às minorias étnicas, consegue acompanhar qualquer coreografia, acostumada a dividir o palco com rappers e falastrões variados. Contras: Os fiéis talvez ainda não estejam preparados para a minibatina. (Mas nós estamos).

 

Lies, damn lies and statistics


"Four shalt thou not count, nor either count thou two,
excepting that thou then proceed to three
"


Números parecem emprestar respeitabilidade a inúmeras modalidades de bullshit. Lembro, da infância, essa sensação de que matemática –apesar de minha facilidade em aprendê-la- parecia um tanto parente da prestidigitação, provavelmente por influência de O Homem que Calculava, leitura inevitável pros cidadãos da minha idade. De modo que nunca me impressionei, reverente, com números brandidos à maneira de clavas. A primeira vez em que senti esse odor meio charlatão nos números foi cortesia do sagaz deputado Delfim Netto, que era então ministro da Fazenda ou do Planejamento, não tenho certeza, e justificou um dos primeiros surtos de alta da inflação –que viriam a caracterizar os 15 ou 20 anos seguintes da história bananal- alegando que o chuchu tinha subido demais. Meu pai, que não era muito amigo dos números, comentou: “Manda ele enfiar o chuchu...”

E agora a gente vive cercado de pseudo-estatísticas. Um programa de rádio em São Paulo, por exemplo, papagaiou recentemente o “dado” de que 15% dos brasileiros (ou seja, por volta de 28 milhões de pessoas) são deficientes físicos. A não ser que eles estejam incluindo unha encravada, dude, não, não é verdade. Um teste empírico simples basta para comprovar. Na minha família –lado paterno e materno somados, com três ou quatro gerações coexistindo- deve ter mais de 100 pessoas, mas digamos 100 for the sake of argument. Total de deficientes físicos: zero. Na família da pessoa que estava comigo no carro ouvindo o programa, mais de 100 pessoas, também, e número de deficientes físicos igualmente zero (ou um, se contarmos um dedo perdido como deficiência). Ou seja, só pra compensar a ausência de deficientes físicos nessas duas famílias, alguma outra família de 100 pessoas em algum lugar precisaria ter assimquinêim uns 44 deficientes físicos. Not bloody likely. É claro que ninguém vai comprar essa briga e sair discutindo com o lobby que divulga esse tipo de número sobre o evidente exagero da estimativa, porque, yo, é feio discutir com deficiente físico. O que, aliás, promove atitude exatamente oposta à que o lobby almeja promover.

Dada a negligência das otoridad brasileira para com os cidadãos –deficientes ou não-, até entendo que o lobby recorra à dança dos números para “provar” seu ponto. Mas a prática obviamente se estende a outras áreas em que não existe uma nobreza de propósitos equivalente, como por exemplo o chororô das gravadoras, dos estúdios de cinema e das firrrma de software quanto ao dinheiro “perdido” com a pirataria. Além de eu ter minhas dúvidas sobre a lisura dos números quanto a cópias piratas vendidas (todas as estimativas são fornecidas pela “vítimas”, que não explicam de que maneira as obtêm), o cálculo do dinheiro perdido é hilário: eles simplesmente catam esse número de cópias não vendidas que inventaram em primeiro lugar e multiplicam pelo preço de varejo de uma cópia “legítima” em cada mercado. Quando o motivo básico para a existência do mercado pirata de CDs, DVDs e software é que os preços cobrados pelo artigo genuíno inviabilizam a aquisição do produto. A adolescente filipina que paga o equivalente a dois dólares pelo CD pirata da Brittlleyy não está “roubando” 17 dólares em faturamento à gravadora, porque ela não pagaria 17 dólares pelo disco, anyway. Supor que todas as cópias piratas vendidas seriam transformadas em cópias legítimas vendidas, ao preço muitas vezes estapafúrdio imposto pelas gravadoras, é uma tremenda picaretagem estatística.

De fato, o que está fazendo falta é uma estatística sobre esse “efeito contramão” na –deus me perdoe- “globalização”. Porque a pirataria é o equivalente civil do que as corporações mesmas fazem ao transferir fábricas, atividades e empregos para países em desenvolvimento, aproveitando os diferenciais de custo de mão-de-obra. Sob a lógica do capitalismo, nada mais natural do que encontrar maneiras de compensar localmente a disparidade de renda e manter a, er, integração econômica com o Primeiro Mundo, na via oposta, e pirataria é uma delas. Seria interessante analisar uma comparação entre o que as empresas que recorrem a outsourcing offshore deixam de gastar ao transferir atividades para países jeca e o que as grandes empresas deixam de ganhar, nesses mesmos mercados, por conta da pirataria. Pena que esse número não sirva a nenhum lobby.

April 18, 2005

 

The wild brunch


...eight down, 42 to go

Um hábito americano (e norte-europeu) que sempre me pareceu bizarro foi o de comer que nem pedreiro às sete da manhã, antes do trabalho –rins fritos, mate, really? Eu, que por anos me contentei com uma maçã e um espresso tomado em pé enquanto esperava o elevador, fico até ruim dos estrombo quando vejo os mano encaçapando ovos com bacon no diner, marromenos às oito da manhã. Mas obviamente sou um vendido, proto-imperialista e serginho & lacraio do capitalismo porque hei que confessar que, yo, me likes the brunch.

Aproveito pra fazer as ressalvas aplicáveis: em dia de semana, nem pensar, e em horário infra-humano quinêimq oito da manhã menos ainda. (Aliás, oito da manhã nem pra etc. serve: ô disgrama de hora.) Dizem que o termo brunch foi cunhado pelo inglês Guy Beringer, em uma revista extinta em 1895 chamada Hunter’s Weekly. Dado o gênero da publicação, a idéia de combinar desjejum e almoço provavelmente derivava da necessidade de caçar o prato principal primeiro, anyway. Mas my near and dear friend Adrian tem uma teoria muito melhor sobre o brunch: o inventor da moda sabia que o mundo precisava de uma refeição que nos permitisse começar a beber umas seis ou sete horas antes do pôr-do-sol.

Faz sentido –eu mesmo não bebo cerveja e tenho uns pobrema quanto a pedir uísque enquanto o sol brilha, mas em brunch, who cares? Tem pianista de jazz tocando, tem mina razoavelmente gostosa ainda com a roupa do sábado à noite, e os seus cinco melhores amigos estão tão dispostos a começar a beber cedo quanto você. Eu gosto do brunch do Iridium, especialmente quando Bob Dorough está tocando, gosto do Superfine (no Brooklyn), mas a Clinton Street Baking Co. é o mais miló. Comida legal, garçons bem educados (a coisa mais rara do mundo na cidade), e um omelete duca, por 8,50, o que é ainda mais duca diante dos hambúrgueres de 20 mangos que a gente acha por aqui. Depois de dois manhattans, um omelete e sorvete, você sai à rua cambaleando, cantando "it may seem funny, honey, funny as can be, but if we have any children I want'em all to look like me", e, yo, tá sol.

Fica aquela leve sensação de devassidão, claro: é como se você se tornasse por cinco minutos um desses terceiros filhos estróinas em romance de Agatha Christie, vivendo sustentado pelo pai, sempre sonhando com a próxima dose de gim. Prum sujeito como eu, cuja única ambição na vida era ter nascido rico, o feeling é deveras agradável. E mais divertido ainda quando desavisado membro do audaz sexteto sugere uma caminhada “digestiva” no parque (a “geração saúde” is o so easy to hustle.) Eu nunca acreditei muito em peer pressure, mas a expressão de profundo desânimo na cara de todo mundo que mesmo assim acabou aceitando o convite, ah, não tem preço. (E da próxima vez acho que vou propor 40 quilômetros de bicicleta.)

Com brunch, crueldade e limonada da barraquinha perto do tanque de nautimodelismo do Central Park, Uncle Filthy um dia vai ganhar carteirinha de New Yorker (e provavelmente tocar pandeiro na Unidos do Salta-Pocinhas em pleno carnaval da rua 47, que brasileiro nostálgico, ô, que miércoles).

 

My Life: Director's Cut


Omar Naim dirige Robin Williams em The Final Cut

Naquela velha discussão sobre quem “faz” os filmes, quase todas as partes levam crédito: produtores, diretores, roteiristas, até atores (ainda que atores, de acordo com wise old John Ford, sejam “gado”). No entanto, todo mundo que trabalhou um pouquinho no ramo sabe que as disciplinas “acessórias” agrupadas sob o simplório título “post-production” (ou, no Brasil, “finalização”) têm papel essencial. Sem trilha, edição de som e, acima de tudo, edição bem feitas, nenhum filme presta –e muito filme nhaca é salvo do lixo completo pelo trabalho dos editores (vide Black Hawk Down).

Omar Naim, jovem cineasta libanês, foi direto ao ponto em seu primeiro longa, The Final Cut. Em uma sociedade de um futuro não muito distante, os pais que têm grana podem optar por fazer com que seus filhos recebam, ainda durante a gestação, um chamado “implante Zoe”, que grava todas as imagens e sons que a pessoa encontra na vida. Depois da morte do usuário, seus familiares podem usar o implante Zoe para recordar o mundo –literalmente- pelos olhos do falicido. Para isso, recorrem aos serviços de uma profissão que tem um tanto de guilda e um tanto de sacerdócio, os “cutters”, que editam –em uma maravilhosa engenhoca com cara retrô chamada “guillotine”- o material registrado no implante, criando uma “rememory”, uma espécie de bestofe em vídeo de uma vida.

É uma das premissas mais elegantes para um filme distópico ou de ficção científica desde 12 Monkeys –muito mais inteligente do que a do very overrated Matrix, por exemplo. Não vou discutir detalhes do filme porque está em cartaz por aí, mas a tese central, de que arte e memória são essencialmente trabalho de edição, é exposta sem didatismo e sem blablablá excessivo ainda que o protagonista seja Robin Williams. Filmado em vídeo digital e repleto de detalhes inexplicados e diliça (por exemplo, todos os carros que ocupam as ruas da cidade sem nome em que o filme transcorre são modelos vintage), o diretor só dá uma derrapadinha ligeira no final, quando escorrega para o campo do thriller.

Eu sempre gostei de Snake Eyes, de Brian de Palma, pelo bravo –se bem fracassado- esforço de demonstrar que a verdade das câmeras não é tão verdade, e o velho chavão “uma imagem vale mais do que mil palavras” não vale nem as oito palavras que desperdiça. Naim se sai ainda melhor ao falar de privacidade, câmeras onipresentes, memória, liberdade e sobre o inevitável esforço de editar a vida que todo mundo termina empreendendo por covardia, culpa, sensory overload ou em busca daquela fugaz vagalba, a respeitabilidade. Pra quem gosta de distopias amenas, não se incomoda com Robin Williams e sabe que a edição final da vida nunca vai ser feita pelo vivo, o filme de Naim é ótima pedida. (O título The Final Cut, aliás, é deliciosa ironia, vindo de um diretor novato e cucaracha: no jargão dos estúdios, “final cut” é o poder de edição final, ou seja, de determinar efetivamente o que aparece na tela, que normalmente só é concedido aos diretores mais fodões –e às vezes só a posteriori, como prova a epidemia de versões “director’s cut” que surgiu pra arrancar dinheiro dos trouxas na era do DVD.)

April 15, 2005

 

No lugar de uma carta


(For the girl that got away)

Don't Let Me Be Misunderstood
(Benjamin/Marcus/Caldwell)

Baby, do you understand me now
Sometimes it seems that I get mad
Well don't you know that no-one alive
Can always be an angel
When things go wrong I seem to be bad
I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood

Baby, sometimes I'm so carefree
With a joy that is hard to hide
And sometimes when it seems that
All I have to do is worry
Then you're bound to see my other side
I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood

If I seem edgy, I want you to know
That I never meant to take it out on you
Life has its problems and I've got
More than my share yeah
But there is one thing that I'll never do
('cause I love you )

Oh, oh, oh, baby, don't you know I'm human
And I have thoughts like any other one
Sometimes I find myself all alone and regretting, yeah,
Some foolish thing, some little simple thing that I've done
I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood

Baby, in my darkest hour, 'twas you who came along to guide me
I felt your fingertips upon my forehead
I'm begging you to stay, don't run away
Stay beside me, yeah
'Cause I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood

 

Sweet Inspirations


Sylvia, Estelle, Cissy e Myrna (l to r)

Aretha Franklin, Otis Redding, Sam & Dave tinham outra coisa em comum, além de serem cantores de soul soberbos e contratados do complexo Atlantic/Stax na segunda metade dos anos 60: os backing vocals impecáveis das Sweet Inspirations. Cissy Houston, Sylvia Shamwell, Estelle Brown e Myrna Smith emprestaram suas harmonias a quase todos os astros dos dois estúdios, e também gravaram alguns discos como grupo, sem grande sucesso. (A filha de Cissy, Whitney, é que acabou se tornando estrela, 15 anos mais tarde.)


The Sweet Inspirations, circa 1967

Backing vocal é uma profissão ingrata: se o cara erra demais, perde o emprego fácil, porque nada atrapalha mais um lead singer do que backing desafinado; se canta bem demais, perde o emprego, porque rouba os holofotes reservados aos astros. As Sweet Inspirations nunca tiveram medo de cantar bem demais, e o trabalho delas na versão de Aretha para “Respect”, gravada originalmente por Otis Redding, é ao mesmo tempo sexy e hilariante. Na forma original, “Respect” é uma daquelas canções típicas de nêgo macho –o cara reclamando que trabalha muito, sustenta a vagalba, chega em casa e não recebe o respeito desejado. Cantada por uma mulher, a canção se torna uma espécie de hino feminista repleto de sarcasmo: “Your kisses are sweeter than honey/ But guess what, so is my money/ all I want from you is that you give me my proper/ When I get home”, e o backing, genialmente sacaninha, com “sock it to me, sock it to me, sock it to me”: dona Aretha não queria só respeito do marido que sustentava; não, queria também ser etc. comme il faut. Mas só quem presta atenção nos backings vai perceber. Thanks for the inspiration, ladies.

April 14, 2005

 

Such a hairy situation, Jeeves


Sweet beard of youth (Carson City, 2003)

Eu raramente admito plágio, mas se não fosse o trabalho pioneiro da Mariana o esforço de reportagem com que vos mimoseio aqui teria sido impossível. Porque foi no Gatochy que encontrei a foto e o link para o campeonato mundial de barbas e bigodes, cuja edição deste ano acontece no dia 1° de outubro, em Berlim. Com 17 categorias diferentes premiando barbas, cavanhaques, suíças, costeletas e bigodes, o torneio teve sua primeira edição oficial em 1990, em Höfen/Enz, Alemanha. A partir de 1995, de novo em Höfen/Enz, a competição se tornou bienal. Trondheim (Noruega) sediou o campeonato de 1997, Ystad (Suécia) o de 1999, Schömberg (Alemanha) o de 2001 e Carson City (Estados Unidos) o de 2003.


Let's not split hairs

Eu sempre fui devoto dos personagens hirsutos –quase qualquer foto das guerras vitorianas, por exemplo, inclui oficiais com nomes dignos de Plum Wodehouse, como “coronel Ffoulkes-Gorringer, of the King’s Own Queens”, portando esculturas capilo-bucais à maneira de Salvador Dalí (cujo bigode, aliás, define uma das categorias na olimpíada dos fígaros). E o Conde Vrônski, um dos meus heróis literários, entre uma bimbalhada e outra com a Karênina passa a maior parte do livro tendo os bigodes aparados, encerados e esculpidos pelo rabugento valete Timofei. Pra mim, cofiar o bigode torna qualquer sacanagem ainda mais luxuriosa. Aliás, porque não sou fumante, minha atividade natural post-coitum é cofiar os bigodes, para que readquiram a concêntrica simetria ditada pelas normas das associações do setor.


Ystad, 1999: the winners

No passado, a barba espessa, o bigode luzidio, eram indicação de masculinidade (“ter bons bigodes” quer dizer “ter aspecto varonil”). Hoje em dia, pelo menos nos países anglo-saxofônicos, quando o sujeito é gay mas quer ocultar o fato saindo acompanhado por uma dama, usa-se designá-la “beard”. A exemplo de muita coisa vista como altamente macha no passado, barbas e bigodes se bandearam mais para o espectro gay da banda estética. Mas eu sou tradicionalista, e com o apoio moral da World Bear and Moustache Association esforçar-me-ei por ostentar bigodes à chomberga, barbas cerdosas, dreadlocks axilares. Emulando mestres como Franz Pills, Karl-Heinz-Hille e o Conde Vrônski, reencontrarei meu barbudo interior. Sigam-me os que forem mão-peluda!

 

A rose, by any other name


"...that which we call a rose
By any other name would smell as sweet"

Lendo notícias online dia desses, fui informado de que Rossano Maranhão continuaria à frente do Banco do Brasil. Tá bom, o cara não tem culpa do nome, e pode ser até que o “Rossano” seja nome de família e que o prenome do sujeito seja alguma coisa inócua que nem “Antônio”. Mas, em se tratando do Brasil, odds are que ele chame mesmo Rossano. Na mitologia pessoal do Uncle Filthy, as mina chamada Rossana é tudo... Deixa pra lá. Mas que é perigoso deixar um cara chamado Rossano no comando do maior banco do país, isso é. Porque um prenome desses é evidentemente causa de profundo trauma de infância –cês já imaginaram ser o único disinfiliz chamado “Rossano” em uma escola com 50 Pedros, 50 Rafaéis e 50 Tiagos?

Antes de alterar meu nome no cartório pra Fudílson Noronha, nunca tive esse tipo de pobrema. Fui batizado com um dos nomes mais comuns em minha geração, se bem o(s) sobrenome(s) sejam complicados. Mas sou testemunha do sofrimento de meninos amaldiçoados com nomes como Roniel, Waldomir, Sanderlei, Emmanoel. Se o Brasil fosse civilizado quinêimq os Estados Unidos, esses meninos oprimidos na infância se vingariam à maneira apocalíptica, fazendo chacina na escola ou subindo a um campanário e fuzilando uns 35 Jacks, Bobs, Maries e Susans. Mas não: os Ranulfos e Inocêncios brasileiros sempre dão um jeito de ir parar no governo e extrair vingança muito mais cruel e duradoura.

Meus leitores portugueses decerto me corrigirão se eu estiver enganado, mas parece que em Portugal meu avozinho, como na Itália, durante muito tempo vigorou uma norma sob a qual crianças só podiam ser registradas com os nomes constantes de uma lista aprovada pelas otoridad. Nêguinho chega ao cartório determinado a batizar o herdeiro com nome como Wandergleyson, Upanixádio ou Deutério e o intransigente notário faz que não, aponta para o livro e propõe: “Que tal João Alfredo?” É uma providência eminentemente sensata.

Em um de seus raros momentos de mancada, o pardo imortal da Avon diz que uma rosa, sob qualquer outro nome, teria olor igualmente doce. Não fica bem a um reles Fudílson discordar de Shakespeare, mas se rosa chamasse cocréti a veia puética dos coleguinhas de profissão seria muito mais difícil de encontrar coa agulha. (Ainda que verso clássico como “o cocréti no cume nasce” tenha lá seus méritos.) Pra quem não acredita no poder dos nomes, yo, tenta presentear a namorada com um buquê de rododendros. Se vocês querem desrespeitar autoridades como Machado de Assis, Philip Larkin e Uncle Filthy e fazer filho mesmo assim, prestenção: João pode ser prosaico, João pode ser comum, mas nenhum menino quer responder chamada na escola quando a professora pigarreia, lê duas vêiz e termina enunciando “Tiglat-Pileser?”

April 13, 2005

 

Yeah, pigs fly, and some
of them even write blogs


O felizardo que vai ganhar um final de semana
com Fudílson em Alpinópolis

Meu visitante número 500: Às 17h55min de ontem, this very humbre brog recebeu seu visitante número 20.000, o que, descontando as paradas obrigatórias da mamma e do meu parole officer, deve querer dizer que marromenos 500 visitas apareceram –aqui e na saudosa Maison Noronha- pra tomar café requentado e comer pão doce, desde o dia 31 de agosto de 2004. O detentor do IP acima leva um kit Fudílson, com direito a compacto de Agnaldo Timóteo cantando “Meu Bem” (aka “Girl”), uma foto autografada do Noronha e um modem US Robotics 14.400. Para celebrar o sucesso, se bem eu não possa prometer escrever melhor, fiéis leitores, prometo no mínimo escrever menos. Agradecemos a preferência.

“Onde fica o guichê do assalto?”: Tentando assaltar um banco na Áustria, o audaz criminoso passou um bilhete pro caixa exigindo dinheiro. O arguto bancário respondeu que era o guichê errado, e o assaltante acabou indo embora de mãos abanando. Criminal masterminds abound, claro, mas Uncle Filthy ficou pensando cá com seus botões que essa idéia de guichê pro assalto é eminentemente aplicável ao Bananão. “Vim aqui subornar alguém pra cancelar minhas murta”, diz o munícipe no Detran. “Corrupção é ali naquele guichê, ó”.

Sex and the city, sex and the stars: Em Nova York, um tribunal de apelação decidiu que a cidade tem direito a restringir a operação de sex shops, livrarias e cinemas eróticos, e bares topless. Mayor Mike disse que não quer saber de baixaria nos bairros residenciais da cidade, em meio às escolas, creches e templos dos nova-yorkinos. Uncle Filthy se lembrou imediatamente da lei municipal paulistana que proibia a operação de fliperamas em raio de um quilômetro de qualquer escola (ou seja, everywhere). Fat good that did. Já os pais que acham que filho nerd está menos sujeito a aberrações sexuais alheias should better watch for Otto Hohm, “Comandante do Corpo de Fuzileiros Navais no Clube dos Oficiais da Frota Estelar” e “Oficial Diplomático Chefe”. O trekker –criminoso sexual condenado- aparentemente usava Jornada nas Estrelas para atrair meninos e show them the dark side of the moon. Terminou preso pela polícia de Dayton, Ohio. Eu sempre achei que tinha alguma perversão rolando na espaçonave Enterprise –aquelas malhas Cacharel não enganam ninguém.

Dez em furumfa, cinco em estudos sociais: O novo escândalo de professora perva que cata aluno, em Manhattan, ficou ainda mais apimentado quando surgiu a notícia de que Rhianna Ellis, 25, que aparentemente teve um filho de um aluno que acaba de completar 18 anos, deu só 6,5 de nota pro rapaz no curso de estudos sociais. Eu mal e mal consigo ficar escandalizado com uma professora de 25 envolvida com aluno de 17, e meu querido New York Post ainda quer que eu fique indignado porque ela deu nota baixa pro amásio? Pô, dude, get a grip. Nos meus anos de escola tinha aquela famosa piada do “deu pra passar?” Aplicada ao jovem seduzido pela tia Ellis, a resposta seria: “Não. Comi”.

Juventude socialista: Quando eu era moleque, os dois cumunistas-símbolo do Brasil –Prestes João e Amazonas João- tinham cada um uns 350 anos. E Marx, como Dom Pedro II, já nasceu de barbas brancas. Por isso, não estranhei nem um pouco o fato de que a Juventude Socialista da Suécia tenha registrado um sujeito de 73 anos como membro. Na pátria do nudismo escandinavo, os partidos levam uma subvenção do governo de acordo com o número de membros registrados, e os jovens socialistas saíram registrando qualquer um pra engordar os cofres do movimento. Kiell Olof Feldt, ele mesmo socialista, e ex-ministro, escreveu um artigo no jornal pra reclamar da trapaça, alegando que seu cartão de membro da juventude socialista havia expirado 50 anos atrás. Marromenos junto com o socialismo, if I may add.

Porcos Olímpicos: Se você tem medo de permitir que seu filho assista “Porcos no Espaço” porque esses caras que manipulam fantoches são todos pervertidos que nem os trekkies, resta sempre a olimpíada porcina de Xangai, com eventos de pista, saltos e natação. O jovem Tan Yizhou, 8, que entregou a medalha de ouro a um dos suínos olímpicos, comentou: “Jamais pensei que porcos pudessem ser tão inteligentes”. E Uncle Filthy jamais pensou que chineses pudessem ser tão tontos.

YOU’re miserable?!?: Ouvir rádio em carro sem ar condicionado e sob canícula impiedosa é uma tortura, especialmente quando toca Smiths –tem pouca coisa mais intolerável na história da música, e ouvir aquela franga chata se esgoelando no yodel pra dizer que “heaven knows I’m miserable nowtakes the cake. Se você tá se sentindo miserável, Morrissey, dear, imagina o ouvinte.

 

Meu charlatão predileto 2, o retorno


O clã Churchill, circa 1960

Por que o Churchill é charlatão, afinal? Essa é a questão fascinante sobre a carreira de um cara que tanta gente chama de “homem do século”. Pra mim, começa por essa disposição quase brasileira de trocar de partido em nome de estar sempre no poder. Trocou os Tories pelos liberais, mais tarde trocou os liberais de Asquith pela dissidência liderada por Lloyd George, que se aliou aos conservadores para formar um governo de coalizão em 1916, e, em 1924, depois que os conservadores puxaram o tapete de Lloyd George e puseram fim à coalizão, voltou ao seu partido original. Churchill –por mais exótico que isso possa parecer- sempre se viu como outsider batalhando por ter seu valor reconhecido. Talvez em função da história de seu pai, talvez porque fosse filho de um dos ramos menores da aristocrática família dos duques de Marlborough, talvez porque não tivesse tanta grana assim e tivesse de escrever como um mouro para sustentar o ritmo de vida fino a que estava acostumado, talvez porque sua mãe fosse americana e frowned upon pela sociedade como “dadeira”, depois da morte de Lorde Randolph. E as convicções políticas de Churchill, se bem impecavelmente democráticas, o eram a um modo bem antiquado –democracia ótimo, mas não para os esquerdistas ou os cidadãos das colônias (chefe do Home Office, no pós-guerra, mandou o exército reprimir os protestos anarquistas usando metralhadoras; secretário das Colônias, apoiou o infame “Massacre de Amritsar”, praticado por tropas sob comando britânico contra civis indianos). Churchill vivia em um mundo anacrônico, e acreditava na grandeza do império britânico em uma forma que havia deixado de existir em sua primeira juventude, e esse apego ao império, ao grande ethos histórico britânico, norteou e distorceu sua vida e carreira.

Porque os conservadores precisavam de uma “fachada” liberal, Churchill passou por diversos postos ministeriais nos governos Tories dos anos 20 –incluindo desastrosa estadia como Chanceler do Erário, em 1924. A decisão de retornar ao padrão ouro abandonado na guerra, que Churchill assinou sem entender por recomendação de Norman Franke, presidente do Banco da Inglaterra, é causa direta da crise de 1929, de acordo com Lorde Keynes. Depois de ser afastado para posições menos daninhas, Churchill acabou rompendo com Stanley Baldwin, o novo líder Tory –e o motivo de seu afastamento do gabinete foi a disposição do governo de aceitar o autogoverno indiano, em médio prazo. Mais tarde, Churchill explicaria seus anos na wilderness política durante a década de 30 alegando que sua oposição ao nazismo o tornava pouco palatável ao governo apaziguador. Not quite.

A crise de 1929 levou os trabalhistas ao poder e, mais tarde, em 1931, à criação de um estranho governo de coalizão entre trabalhistas e conservadores, que não tinha lugar para Churchill –o qual àquela altura ainda equiparava trabalhistas a comunistas. Churchill, como Lloyd George, manteve seu posto no Parlamento, mas ninguém acreditava que qualquer dos dois veteranos tivesse chance de voltar ao governo. Os dois usaram o rearmamento alemão e a ascensão de Hitler como ferramenta política –Churchill defendendo ação imediata contra os nazistas, Lloyd George defendendo uma aproximação com a Alemanha. Quando a guerra se tornou inevitável, em 1939, o governo de Neville Chamberlain se viu forçado a encontrar vaga no gabinete para Churchill, que começou a Segunda Guerra Mundial ocupando o mesmo posto que ocupara na Primeira, o de Primeiro Lorde do Almirantado. E ele repetiu na Noruega, em maio e junho de 1940, o fiasco de Gallipoli. Mas dessa vez quem rodou foi Chamberlain, e Churchill se tornou primeiro-ministro no dia em que os alemães invadiram a França e os Países Baixos, 10 de maio de 1940.

Toda a reputação de grandeza de Churchill se baseia, efetivamente, em suas ações como primeiro-ministro nos seus primeiros meses de governo –Dunquerque, a queda da França, a Batalha da Grã-Bretanha. Provavelmente pela última vez na história, retórica à moda antiga foi usada com força suficiente para convencer um país completamente derrotado de que era possível resistir e vencer a maior potência militar do mundo. Quem quer que tenha ouvido os discursos de Churchill, mesmo em quinta mão, como eu, percebe a paixão, lá, a veemência avassaladora –frases como “blood, toil, tears and sweat”, “we shall defend our Island, whatever the cost may be, we shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender”, “never in the field of human conflict was so much owed by so many to so few” se tornaram citações universais. E o espírito que essa retórica engendrou sustentou a determinação britânica nos momentos mais sombrios, quando o país era o solitário bastião da liberdade contra o nazismo.

Mas Churchill como líder de guerra, pfui. Vivia interferindo –mal- nas decisões militares, lotava as mesas de todo mundo com memorandos “action this day” contendo propostas completamente impraticáveis, tinha sonhos diplomáticos impossíveis, insistia nas escolhas estratégicas erradas. Por mais que fosse adorado pelo cidadão comum, o povo britânico sabia que a era dele tinha passado –tanto que foi o único dos grandes líderes da guerra a perder o poder pela via eleitoral, no intervalo entre a derrota da Alemanha e a do Japão. E os anos que se seguiram à guerra foram uma espécie de repetição dos anos 30 –em seu afã de retomar o poder, Churchill adotou o cumunismo como novo nazismo, assumiu a paternidade da expressão “cortina de ferro” cunhada pelo meu coleguinha Zé Goebbels e conseguiu voltar ainda uma vez ao governo, claro que em forma de paródia.

Quando comecei a ler sobre a era, como todo mundo me deixei seduzir pelo culto a Churchill. E mesmo consciente de todas as falhas do sujeito –um líder cuja carreira poderia ser resumida pela expressão “talk is cheap”- não consigo evitar admirá-lo, talvez por motivos diferentes dos originais. Hoje, Churchill é meu ídolo por conta de seu amor à democracia, de seu humor e porque estava, afinal, completamente certo sobre o nazismo e sobre o cumunismo, ainda que pelos motivos errados. De qualquer jeito, diante desses bundinhas que ora nos governam, Sir Winston é um colosso. Melhor mesmo que caras como ele não existam mais. Não estamos preparados para a grandeza, ainda que com pés de barro.

April 12, 2005

 

Esse coqueiro que dá coco


"É bom, olhá mulé sem sutiã..."

Seria perfeitamente possível datar a decadência do Brasil com base no definhamento do samba exaltação. Porque os autores dessas micro-sinfonias brasílicas definiram a mais peculiar das artes do Bananão: o óbvio hiperbólico. Quando ouço um verso como “ah, esse coqueiro que dá coco”, putz, meu coração batuca qual pandeiro. Em qualquer outro país, ninguém se sentiria obrigado a chamar a atenção da choldra para o fato de que, yo, o coqueiro dá coco. Mas no Brasil a gente vive sob a regência psicológica daqueles paradoxos tão freqüentes na Física moderna: a “lei natural” pode simplesmente ser o acaso repetido inúmeras vezes e, portanto, que o coqueiro dê coco é sem dúvida motivo para um samba exaltação*, ou no mínimo uma corrente de e-mail.

Muitas coisas bacanas a exaltar, tenho eu. Por exemplo, como é que ninguém dos meus amigos blogueiros aí escreveu, até agora, sobre a dona Vera do Serenus? Os comerciais de Serenus (que eu pronuncio para rimar com Uranus) são um verdadeiro túnel do tempo, e a única objeção que tenho aos proprietários da tendinha onde o produto é misturado em latões de 10 galões é a falta de cojones pra batizar o produto à maneira clássica brasileira -vide “Regulador Xavier”. Outra medida da decadência brasileira é essa –em vez de Passiflorina, Um Minuto e Regulador Xavier, a dona Vera e a Flávia agora usam Serenus. (Whose anus?) Se o produto chamasse Tira-Carranca Noronha, eu comprava uma grosa pra levar de volta.

Sempre tive a mó inveja dos posts em que amigos se gabavam dos exóticos termos de busca que haviam conduzido visitantes aos seus blogs. Eu, com meus dois leitores, até hoje tinha zilch a relatar nesse departamento, mas eis que os servidores da Fundação Noronha detectaram um leitor que nos foi encaminhado pelo Cadê, do Yahoo, em busca de “implante de cabelos na genitália”. É com lágrimas nos olhos que vejo, enfim, minha expertise ser reconhecida em um dos campos niquiq eu, modéstia à parte, esbanjo conhecimento (que as testemunhas se manifestem). Obrigado, visitante. Espero que meus inúmeros posts sobre o assunto tenham servido para esclarecê-lo sobre esse hairy business.

Aproveito pra encerrar o meu trabalho blogueiro do dia à maneira brasileira, deixando o paletó pendurado na cadeira. Se você, amável leitora, gentil leitor, quer mesmo ler mais sobre o Churchill, passaminhã. Que hoje à tarde eu vô num vim.

*Já que, afinal, a polícia não protege, a Saúde não cura, o governo não administra, a Justiça não faz justiça, a Educação não educa, os capitalistas não capitalizam, os cumunistas não cumungam...

 

Meu charlatão predileto


"Rum, buggery and the lash"

Eu sempre me interessei pacaramba por política –se não necessariamente pelo horse trading, pelo toma-lá-dá-cá que caracterizam a atividade, ao menos pela mecânica toda da representação, a maneira pela qual os partidos se constituem, os sistemas eleitorais, legislativos. Mas nunca tive um político por ídolo. Aliás, essa idéia de que um político possa ser um ídolo é coisa que morreu antes da minha geração, provavelmente com JFK, aquele bastardo fingidor e tagarela. Mesmo Maggie Thatcher, a mulé dos meus sonhos, não era exatamente um ídolo. Sempre admirei o jeito antiquado dela de efetivamente liderar o governo, o país, em lugar de esperar pelas pesquisas de opinião pública e encontrar uma maneira politicamente correta de ser 54,37% a favor e 45,63% contra o aborto. (É a diferença essencial entre a Baronesa Thatcher e Clinton, um sujeito com quem igualmente simpatizo, mas não admiro. Maggie foi derrubada do poder pelo próprio partido, porque insistia em defender a imposição de um tributo politicamente impopular, o poll tax. Enquanto Bill, well, quase perdeu o poder porque não conseguia manter o bingulim embaixo da cueca.)

Os dois políticos a quem admiro quase tanto quanto admiro Duke Ellington ou Dostoiévski obviamente estavam fora da parada antes de eu nascer (minha Utopia sempre foi retrô). Prometo um post sobre Truman para entediar meus dois leitores no futuro, mas hoje o assunto é Winston Churchill, que morreu 40 anos atrás. Viajei discutindo Churchill no avião, dia desses, com um sujeito simpático, culto e velhinho que estava lendo um dos volumes da biografia “oficial” chuchilliana, por Martin Gilbert. Pra debater o assunto, tive que organizar minhas idéias a respeito do mano, e enfim encontrei uma definição sumária para ele: Churchill não era um conservador clássico, mas um anacronismo up-to-date. Começou a carreira política como Tory, seguindo os passos do pai, Lorde Randolph, o qual viveu uma daquelas histórias de terror vitoriano que fazem a alegria dos biógrafos freudianos. Randolph Churchill (1849-95) era um dos jovens líderes em ascensão no Partido Conservador, mas sofria de sífilis (a doença predileta de Lorde ASS) e se viu alijado do gabinete. Dadas as idiossincrasias do sistema eleitoral britânico, porém, continuou sendo reeleito para o Parlamento até morrer, e passou os últimos nove anos de sua vida fazendo discursos cada vez mais insanos na House of Commons –anos esses que levam o jovem Winston dos 12 aos 21 anos, idade das mais influenciáveis.

Churchill, depois de passar pelo exército (tomou parte na última carga de cavalaria “clássica” da história da guerra, em Ondurman, Sudão, 1898), e pelo jornalismo de ação, cobrindo a guerra dos bôeres, se elegeu para o Parlamento, como Tory, em 1900, determinado a “limpar a honra” do pai and all that crap. Mas nunca foi um sujeito firmemente ideológico, e quatro anos mais tarde se bandeou para o Partido Liberal, até 1922, para retornar aos Tories em 1924. Com David Lloyd George, Churchill se tornou o jovem astro dos gabinetes liberais que se sucederam sob Henry Campbell-Bannerman e Hubert Asquith, a partir de 1906 e, depois de um ano controverso como secretário do Interior, ganhou o posto de Primeiro Lorde do Almirantado, ou seja, ministro da Marinha, em 1911. Era um dos principais postos do governo em período de corrida armamentista severa com a Alemanha imperial, e Churchill supervisionou a reforma e modernização da Marinha Real, organização altamente tradicionalista (acusado de melecar as tradições navais, aliás, Churchill respondeu com o maravilhoso “Tradições navais? Rum, sodomia e chibata”.)

Quando a guerra chegou, em 1914, Churchill respondia pela linha tradicional de defesa da Inglaterra, a Marinha, e defendia a estratégia bélica tradicional da Inglaterra, subvencionar aliados para que conduzissem a guerra terrestre e, ao mesmo tempo, promover expedições militares que aproveitassem a superioridade naval britânica em terras distantes ou teatros secundários de guerra (arrebatando mais algumas colônias no processo). O que funcionara miraculosamente contra Napoleão 100 anos antes fracassou miseravelmente contra a Alemanha e seus aliados em 1914/1915, e Churchill se viu alijado do gabinete como bode expiatório pelo fracasso em Gallipoli, a tentativa britânica de remover da guerra a Turquia, aliada da Alemanha. Com 42 anos, Winston deixou o governo e voltou ao exército, comandando um batalhão de infantaria na Flandres. Quase todo mundo considerava que sua carreira política tivesse acabado.

(Continua.)

April 11, 2005

 

Signed, sealed, delivered


"But if you try sometimes, you might just find
You get what you need (oh, baby)"

Quando meu amigo Mike terminou o segundo grau, selecionou a meia dúzia de universidades de seus sonhos e se candidatou a todas, acrescentando umas duas ou três menos oníricas como rede de segurança. De acordo com a mãe dele, Mike passava o dia todo esperando o carteiro na esquina, pentelhando o coitado pra que lhe entregasse logo as cartas das universidades. Pra escapar ao assédio (i)moral, o carteiro começou a entrar no longo quarteirão em que Mike vivia, em Queens, já tendo nas mãos todas as cartas dirigidas à casa dele. Depois da terceira rejeição, Mike desistiu de esperar pelas cartas na esquina e, depois que todas as suas universidades preferenciais se despediram dele com uma polida recusa, parou de abrir a correspondência. A carta de aceitação de uma das universidades alternativas foi entregue pelo carteiro, preocupado com a ausência do adolescente mais ansioso da ilha, diretamente à mãe de Mike, que ficou sabendo antes do felizardo que my bro tinha não só sido aceito mas receberia bolsa na risonha e franca Ru(im)tgers U.

Esse post era pra ser sobre a ansiedade de esperar alguma coisa que vem pelo correio, uma resposta, um presente, uma benção sobre a qual não se tem controle e surge como deus ex mailman. Se bem nerd confesso, e devoto de todas as modalidades de comunicação eletrônica (meu templo predileto é a Tendinha Virtual Casa do Cabôco Pai Gates), eu tenho idade bastante, e sou nostálgico o bastante, pra admitir que, yo, há um certo special thrill em receber alguma coisa “no papér”. Mesmo um não. E os raquíticos devotos do racionalismo, entre os quais me incluo, são especialmente suscetíveis a essa espécie de sortilégio –todo culto precisa de símbolo, afinal, toda abstração precisa ser materializada de alguma maneira como pedra de toque para a mágica. (Vide as tais canetas trocadas como sinal de respeito na mitologia do MIT, indindond, aliás, Mike-o-rejeitado hoje trabalha.)

Tô velho demais pra emular meu amigo e fazer tackle no carteiro assim que ele desponta na rua Tangará, mas não velho demais pra perguntar –duas vezes- pro metafórico porteiro se o pacote chegou. Pode ser que, como no caso do Mike, o dénouement da história surja em forma de you can’t always get what you want (e se algum de vocês duvida da importância dos Stones pra sobrevivência da civilização, som na caixa aí, mano: you have a lot to learn). Uns 20 anos atrás havia um burraldo que, em nauseabunda mistura de marxismo e hippie crap-ism, ficou famoso citando o charlatão barbado pra alegar que “all that is solid melts into air”. Quando o problema real, claro, é exatamente o contrário –a urgente necessidade de que essas coisas dispersas no ar coalesçam em forma passível de ser vista ca mão. Please Mr Postman, look and see.

 

Movimento Cocrétista: Um Prolegômeno


Ousadia ortográfica é uma das marcas do cocrétismo

Santa Diliça das Longas Coxas, minha santa de particular devoção, recomenda em e-mail que eu obrigue todo mundo a me chamar de senhor. Pódiscrê. Tenho a idade, tenho as cãs, e ainda assim todo mundo continua a me tratar com o vago desrespeito reservado aos imberbes. E, to add insult to injury, agora, além do desrespeito genérico que sempre me foi reservado, tenho de arcar com desrespeito específico expresso por frases como “ah, ele é um desses caras que escrevem blog”. Dedico extenuantes 15 minutos por dia aos meus posts, e acho a maior sacanagem ser agrupado com as mana que usam o diário virtual para reclamar do Ricardo Afonso, aquele estróina, e com os rapaiz que usam expressões como “tocanu o terrô”, acompanhadas de cascatas de kkkkkks.

Depois de prender o dedo na máquina de café e aproveitar os 15 minutos antes da chegada dos bravos sordados do fogo para reflexão, decidi que respeitabilidade requer fachada, e pra que eu não mais seja classificado como “um desses caras que escrevem blog” (ô, raça), podem considerar esse post aqui como ata de fundação do Movimento Cocrétista. A milenar tradição do cocréti, afinal, pervade a cultura brasileira. E o cocréti é bastardinho como nós. Ninguém tem certeza da receita. As origens étnicas são dúbias, e a análise etimológica da palavra cocréti data seu uso de 1871. Diz o Houaiss que os puristas não recomendam o uso do vocábulo, visto como galicismo, recomendando a substituição por “bolinho”. Yo, todo mundo sabe que cocréti não é bolinho.

Cocréti é inclusivo –o dono do bar pode garantir que é feito de carne de primeira, mas ninguém realmente tem certeza quanto ao que tem lá dentro. Cocréti é pansexual (muitas catigorias diferentes de fiéis optam por agasalhá-lo). Cocréti convive bem com a diversidade (em estufa de lanchonete, você vê lá o cocréti dividindo espaço com a coxinha, o ovo cor-de-rosa, o bolinho de bacalhau, em um maravilhoso sincretismo culinário). Como a namorada perversa polimorfa que gosta de se vestir de enfermeira e de sargento da SS, o cocréti pode ser tudo aquilo que você quer que ele seja.

Confesso que sempre me senti inferiorizado diante dos irmãos Campos, dos irmãos Campana, dos irmãos Warner, dos irmãos siameses, de todo mundo que enfrenta o mundo acompanhado, enfim. Com o Movimento Cocrétista, chamo a mim os bons. Com muito ziriguidum e telecoteco, com muita angst e zeitgeist, os cocrétistas chegaram pra tocá o terrô na, er, “cena cultural brasileira". kkkkkkkkkkkkkk

Inscrições no terceiro guichê à esquerda com a Dona Brígida. (É, Brígida. Vai encarar?) Carece duas fotos três por quatro.

April 08, 2005

 

What will survive of us is love


"Only an attitude remains"

“Ridículo” era uma das tuas palavras prediletas –como qualificativo, admoestação, crítica e premonição, era raro que uma conversa passasse sem que você a empregasse, com aquele teu estranho “r” que não tinha o ronco do RR e nem era suave como o R brando. Quando a gente via anciões de 30 anos se comportando bizarramente, você sempre me olhava e me fazia prometer que não, a gente não seria ridículo daquele jeito quando atingíssemos a vetusta idade daquela gente patética. Ou, me golpeando com o punho que ostentava um dedo médio saltado à maneira de soco inglês (aqueles socos doíam, ô), cê me encarava com severidade prussiana e ordenava “não seja ridículo, menino”.

No limiar da autonomia, a gente encarava o mundo adulto com um fascínio horrorizado –os rituais de acasalamento, a necessidade incontrolável de contar vantagem, o comportamento bizarro em cerimônias, a liberdade material e a ausência de disciplina que, estranhamente, pareciam torná-los tão mais infelizes. Porque a gente lia muito, e aqueles romances “naturalistas” todos em que um narrador explica tintim por tintim, em terceira pessoa, o que se passa nas cabeças, almas e encanamentos dos personagens, a chusma que observávamos parecia estranhamente unidimensional, rude, grotesca, meio pintura rupestre. E porque acreditávamos devotadamente nessa “vida interior” riquíssima que os livros expunham, não era exatamente como antropólogos aos selvagens que observávamos a estranha fauna –havia uma certa repulsa, de nossa parte, um fascínio meio horrorizado. Eles eram todos, para resumir como você resumia, “ridículos”.

Sabe, B., eu agora tenho a idade que eles tinham e –talvez em função da tua ausência- não consigo evitar meus momentos de ridículo. Às vezes, chafurdando nele, fico imaginando se as coisas poderiam concebivelmente ter sido diferentes, caso você tivesse sobrevivido. Mas o dirty little secret que vou te contar aqui, com atraso de quase 20 anos, é que a consciência de que estamos sendo ridículos não evita que o sejamos. A crueldade com que você e eu classificávamos todo mundo era privilégio do nosso isolamento: da janela do apartamento, quase todo mundo parece gordo na piscina. Lá embaixo, baby, você descobre que é um dos caras que ficam segurando a barriga.

Do alto de sua prussiana empáfia, é bem provável que você nem lembre da Dri, aquela namorada magricela que demonstrava amor por mim com cartões desenhados a mão contendo promessas tocantes e ortograficamente pobremáticas de fidelidade e paixão (ou, como escreveria a Dri, “paichão”). Well, ela te odiava, anyway. Dizia que era fácil achar todo mundo ridículo, sendo loira, gostosa e rica. Eu sempre descartei as críticas dela classificando-as sob a rubrica “ciúme”. But she had a point there, didn’t she? Porque em meio à tua profusão de paqueras, namorados, enroscos e casos eu era a constante da tua vida, vai ver que eu me achava loiro, rico e gostoso honorário, nem sei. Fact is, I wasn’t.

Quando saí de casa para uma cintilante carreira de garçom/aspiring musician/bad college undergrad, combinamos aquelas coisas patéticas que os jovens costumam, entre as quais reencontros a cada cinco anos –e porque você seria a melhor arquiteta do mundo e eu um astro-pop-sem-ser-mongo, aproveitamos logo pra marcar esses encontros em Firenze. Sonhar baixo, afinal, é coisa de ridículo. Não sei se acidente de automóvel aos 18 anos mereceria tua palavra predileta, baby, mas meu mundo ficou muito mais pobre e muito mais ridículo sem você. Quando vou a Firenze e passeio pelo Boboli, meus olhos se enchem de lágrimas e meu coração transborda de lembranças tuas. As meninas de 13 anos maquiadas como se fossem piranhas e acendendo um cigarro no outro que ficam na porta da escola ali perto talvez me vejam passar com os olhos vermelhos e comentem “ih, olha que turista ridículo”. Você, no prussiano céu de arquitetura impecável que inevitavelmente deve ter projetado e executado nesses 18 anos de ausência, decerto ouve e rola de rir.

 

You'll always find me near
the babe with the voice


Anita Belle Colton, aka Anita O'Day (1919- )

Um dia, no carro, marromenos três da manhã, bêbado, bêbado, uns 20 anos atrás, Lucy estava fuçando com o dial do rádio e, depois do silêncio e daquele delicioso chiado que antecedia a diversão, na era do vinil, surgiu do alto-falante uma voz rouca, um terço sacana, um terço brincalhona, um terço haunting, cantando “you’ll always find me near the man with the horn”: goosebumps. Não é de bom tom admitir essas coisas, e a Fundação Noronha defende os valô familiar, mas uma das coisas que eu amo quanto a música é que, yo, música é um tesão. Quite literally. E, da legião de cantoras que Uncle Filthy relembra cofiando o bigode, de olho rútilo e cara de já cumi, Anita O’Day é, de muito longe, a mais inspiradora. (Ella canta melhor, of course, mas tem um lado meio infantil; Blossom é outro tipo de diliça; e Perla, a flor paraguaia da guarânia... let’s not go there.)


Anita O'Day e o gênio da fotografia de jazz, William Claxton

Anita O’Day começou a carreira como cantora-garçonete em Chicago, em 1939, passou pela orquestra de Gene Krupa, e gravou seu primeiro hit em 1944, com a orquestra de Stan Kenton –“And Her Tears Flowed Like Wine” (se vocês encontrarem a versão original, com a “letra de sacanagem” mais tarde alterada para evitar censura, lucky bastards you all are). Como no caso de uma penca de grandes cantoras, seus grandes anos foram passados sob contrato com a Verve (1955-1963) e, no período, tudo é muito, muito bom. É até sacanagem escolher favoritos, mas “Peel Me a Grape”, written by a very young Dave Frishberg, é uma das minhas canções inesquecíveis –e a voz que não esqueço, claro, é a de Anita. Todo mundo diz que ela é excelente em uptempo tunes mas nem tanto em baladas. Pernacchia, mano: basta ouvir a retromencionada “The Man With the Horn” ou “Stars Fell on Alabama”. Anita O’Day é tão diliça, mas tão diliça, cantando, que nem tento mais usar seus discos como trilha sonora na hora de etc. Porque termino esquecendo a mulé.

Short list: Pick Yourself Up, Anita O’Day Sings the Winners, All the Sad Young Men, Anita Sings the Most (With Oscar Peterson), Anita O’Day and Billy May Swing Rodgers & Hart, Anita O’Day and Billy May Swing Cole Porter, Time for 2 (With Carl Tjader). Tudo isso on Verve.

April 07, 2005

 

If they ask me, I won't write a book


(Primeiro capítulo do meu romance, que morrerá inédito, hélas -cortesia de uma velha inimiga who shall remain nameless)

1978 foi só o pior dos anos, mesmo. Notório pelo primeiro (e único) "campeonato moral" conquistado pelo escrete canarinho, ô. Eu tinha 16.

Vida de classe média baixa: meu pai tinha um Opala, 73, branco, motor 2.500. Nossa casa tinha 2,3 quartos, e minha mãe 3,2 filhos. De qualquer jeito, por mais que me falhe a memória aritmética, mais de um fedelho por quarto. Era uma daquelas casas em que, saindo-se da cozinha, do cimo da escada que conduzia ao quintal via-se a casa da vizinha, espelho invertido, tanque a tanque, e lá embaixo, na brisa cálida, lençóis Santista e camisetas Hering baloiçando, baloiçando em seus varais de plástico verde escuro.

Minha peça de roupa favorita era uma camiseta com um desenho em que um gato crumbiano se espremia dentro de uma garrafa, sobre a legenda "happiness is a tight pussy". Ê, escola Pink and Brue! Não muitos anos antes, houvera a praga das camisetas pseudobélicas, com US Army escrito pra todo lado. No campeonato do mau gosto, eu ficava, e ainda fico, com a bichana (ops!) apertada, mesmo. Quer dizer, não que eu soubesse stricto sensu do que se tratava, Ah, não.

Experiência erótica, exceto as revistas de mulé pelada que ainda não podiam, como disse o poeta, expor o púbis das raparigas em flor, era olhar, da torre de vigia logo ao sul da cozinha da mamma, o varal da vizinha onde o sol acalentava ingenuamente as calçarolas das minas ao lado -e um sutiã saudavelmente 46, sim, sim, sim. Quer dizer, a menos que o 46 pertencesse -deus me livre retroativamente- à vizinha em si, uma daquelas mulheres quarentonas que portam buço e cabelos de um vermelho impossível e costumam atender por "Dona Eulália" nos pesadelos.

Pesadelos havia muitos, naquela época. Era mais ou menos oito e meia da longa noite da ditadura. Hora do "Jornal Nacional", yo. Ou seja, a impressão de que todo mundo estava permanentemente mentindo para mim era não só pervasiva como completamente justificada. Não que eu fosse particularmente difícil de enganar -uma boa parte das mal traçadas que se seguem provarão de maneira inconteste que "otário" é classificação amena preste vosso humilde escriba.

Mas era tudo muito, muito transparente. Tinha, por exemplo, a sempiterna "Lei Falcão", sob a qual os candidatos surgiam, nas telas da propaganda eleitoral, como santinhos toscos daqueles distribuídos em missas de um passado pavorosamente cafona do qual eu mal podia acreditar ter escapado (supunha) impune. Eram dois os partidos, apenas. Quer dizer, se excluirmos as tais "sublegendas". E os candidatos apareciam em retratos de casamento tirados por tias fantasmagóricas, sempre de olhos esbugalhados e com ternos na linha caldinho de raças. Hoje, tantas eleições mais tarde, vejo a virtude do método: não nos prometiam nada, eles. Menor a decepção quando seu desempenho se revelava digno de seus retratos.

E tinha também o Coutinho. Tudo bem que futebol seja o ócio do polvo –ou que o fosse naquele época em que fundos de investimento e multinacionais dos laticínios ainda não dedicavam suas verbas de marketing a bancar salários astronômicos pros nossos Edinilsons. Mas o Coutinho, se você, gentil leitor, gosta um mínimo de futebol, era sacanagem. Primeiro, tinha o vocabulário reengenheiro avant-la-lettre -aliás, era a única coisa avant que existia na cabeça do técnico. Capitão Coutinho, ele. Direto dos bancos da Sorbonne de nossas destemidas forças armadas pro banco de reservas da seleção brasileira. Clausewitzeano. Ensinando o Rodrigues Neto a falar "schwerpunkt". Do capitão, guardei o apreço pela expressão "ponto futuro" -a saber, o lugar a que o jogador que tem a posse da bola deve encaminhá-la na suposição de que lá encontrará um colega posicionado para dar continuidade ao movimento tático. Algo, diga-se, que ninguém jamais houvera imaginado nas canchas do nobre esporte bretão, avant Coutinho. E tome diagrama. Me lembrava aqueles desenhos animados do Pateta em que o professor Ludovico traça diagramas abstrusos tentando explicar uma jogada de beisebol. Que termina invariavelmente com o Pateta engolindo o taco.

(Não continua.)

 

Turcos, chineses e a lei da gravidade


Pergaminho arquitetônico turco

Qualquer pretexto pra ir a Londres é um bom pretexto, mas a exposição da Royal Academy of Arts sobre as civilizações turcas no período 600-1600 é sem dúvida o melhor em muito tempo. Com mais de 350 peças (entre as quais as portas entalhadas de harém criadas pelo arquiteto Sinan para o sultão Murad III, em 1578), e um catálogo de 496 páginas obtido por Uncle Filthy de maneira maliciosa e sorrateira, a exposição, alas, se encerra em 12 de abril, e eu num consegui ir. Se você já sentiu aquele impulso surdo de sair migrando a cavalo, saquear umas cidades, degolar uns infiéis, brandir um iatagã, aproveite para pelo menas visitar o site e dar uma bizoiada, enquanto ainda está online. Vale muito a pena.


Mocinhas discutindo filosofia

Enquanto isso, no Forum Grimaldi, em Mônaco, turistas e monegascos podem se consolar quanto à morte daquele lucky bastard visitando uma mostra com 120 trabalhos de Helmut Newton, fotógrafo morador de Mônaco morto no ano passado, organizada por sua viúva, June Newton. Pra quem se acostumou a ver os trabalhos fetichistas e as mulé pelada que caracterizam a obra do inventor da gravidade, a exposição se concentra no aspecto moda de sua carreira, com fotos em geral coloridas e exibindo mulé de roupa. (Se bem o espírito fetichista ocasionalmente triunfe e o leve a colocar uma modelo de coleira, fotografada de quatro numa cama, em catálogo para a Hermès.)


Caixa para sutra, com detalhes em ouro

Já no prosaico e entediante Met, a galeria de arte decorativa chinesa recebe uma exposição sobre as artes no reino de Zhu Di (1360-1424), imperador da era Ming que se tornou conhecido pelo nome dinástico Yongle. Depois de ascender ao trono, em 1403, Yongle assumiu o papel de patrono das artes, e promoveu contatos culturais entre as culturas chinesa, indiana, tibetana e japonesa, além de encomendar a produção da primeira grande enciclopédia da China (e do mundo), que viria a ter mais de 11 mil volumes. Mas a empreitada que mais me atrai, no reino de Zhu Di, são as seis primeiras das sete grandes expedições de navegação do almirante Cheng Ho –viagens de descobrimento, exploração, diplomacia e comércio realizadas por frotas de entre 50 e 100 navios, quase um século antes de Colombo. (Infelizmente, nada sobre elas na mostra.) A exposição fica em cartaz até 10 de julho e o museu (5ª Avenida com 82) está aberto das 9h30min às 17h30min (fecha segunda), e até as 21h na sexta e sábado. Ingresso a US$ 15. (Uncle Filthy entra como senior citizen e paga 10, though.)

April 06, 2005

 

Teologia da Libertação


"We call it Biggus Dickus..."

Dulce et decorum, mas não na minha: Na Holanda, a população está pedindo a remoção do Monumento à Libertação, um gigantesco obelisco de cobre que sobe e desce de acordo com a intensidade da luz, além de soltar chamas pelo topo nas ocasiões festivas. O monumento, cujo objetivo é celebrar a rendição alemã, em 1945, na aldeia de Wageningen, seria oficialmente inaugurado em maio, comemorando o 60° aniversário do final da guerra, mas infelizmente parece demais com um gigantesco bingulim, e a população holandesa não quer ser lembrada da manoeuvre sur las derrières que os nazistas executaram contra o país em 1940. Uncle Filthy, no interesse da comunhão entre os homens, sugere que, se o governo neerlandês quiser mesmo manter o obelisco, pelo menos use KY.

Wheelchair catfight: Kim Jerman acabou herdando a coroa e a faixa de Miss Cadeira de Rodas Wisconsin depois que a vencedora original, Janeal Lee, apareceu em pé numa foto publicada pelo jornal de sua cidade. A decisão de privar Ms Lee do título causou controvérsia na comunidade dos concursos de miss handicapped, porque apesar de ela conseguir ficar em pé e andar por até 15 metros, a ex-miss sofre de distrofia muscular. A irmã de Lee, Sharon Spring, que disputava o título de Miss Cadeira de Rodas Minnesota, abandonou o concurso alegando que, olha só: “Já não me sinto confortável apoiando uma organização que, em lugar de promover mudanças positivas, opta por perpetuar estereótipos e requer que as participantes ocultem suas capacidades em público”. Right, porque a melhor maneira de afirmar a dignidade dos portadores de deficiência física é organizar um concurso de miss cadeira de rodas em que a mulé não vive em cadeira de rodas. Useful to get that learnt. Vou avisar todas góztóza de pé quebrado de que o caminho para a fama está enfim aberto.

“Parem aquele rim!”: Robert Mihaly, um ladrão romeno que já está em cana por roubo, vai agora ser processado por tráfico de órgãos, depois que um check-up médico na penitenciária mostrou que ele só tem um rim. Mihaly alegou que o rim fora removido anos atrás, mas a falta de registros médicos sobre a cirurgia levou as autoridades a processá-lo por ter supostamente vendido o rim a uma estrangeira. Vou consultar minha adevogada predileta para determinar se um homem e seu rim podem ser encarcerados separadamente, ou se cabe recurso.

Comida em 23 minutos ou matamos o entregador de fome: Ming Kung Chen, 35, entregador do Happy Dragon, restaurante chinês do Bronx, passou três dias preso no elevador de um prédio ao qual foi para um delivery. O restaurante chamou a polícia uma hora depois do horário de retorno calculado para Ming, no sábado, dando parte de seu desaparecimento, mas o que espantou Uncle Filthy é que ninguém no prédio percebeu que o elevador estava parado há três dias, e com um china lotado de cartons de frango xadrez e chow mein lá dentro. Vá ser distraído assim na China, mano.

And the Throne of St. Peter goes to... Father Dougal: Nas muitas matérias sobre os favoritos à sucessão do Papa, a gente sempre encontra a cotação das casas de apostas para os principais candidatos. A repórter do Washington Post ganhou imediato status de eligible bachelorette no panteão do Uncle Filthy, terça-feira, ao apontar, entre os candidatos apostados, o Padre Dougal MacGuire. Eu sei que um dos meus dois fiéis leitores não é chegado em sitcom, e portanto talvez não saiba que o Padre Dougal (Ardal O’Hanlon), da inóspita Craggy Island, Irlanda, é um dos personagens de Father Ted, o seriado mais blasfemo da história da televisão. A diliça repórter Stephanie McCrummen atribui ao Padre Dougal odds da ordem de mil por um. Mas Uncle Filthy recomenda a todos os cardeais que visitam seu blog: votem MacGuire ou arderão nas chamas do inferno.

My country, wrong or wrong: Brasileiro que fala mal de brasileiro que fala mal do Brasil é quase sempre brasileiro que fala mal de americano que fala bem dos Estados Unidos.

Update: Eu sei que é "dulce et decorem", professor Pasqualis.
Outro update: Papo de bebedouro sobre quem representa a maior perca, entre os mortos dos dias recentes. Roman, cínico, diz que é o Papa; Uncle Filthy, quatro-zóio, diz que é o Bellow; Sahib, realista, diz que é o príncipe -ele comeu Grace Kelly, for cryin' out loud.

 

Do go changing, to try
and please me


"Nada perdura a não ser a mudança"

Uma das queixas freqüentes dos ómi com relação às mulheres é a de que, no período pré-acasalamento, as mina parecem, ou pelo menos se declaram, fascinadas com todas as desagradáveis idiossincrasias que carregar duplo X acarreta, mas, assim que a história se firma, bumba, lá saem elas sugerindo que o cara corte o cabelo de outro jeito, pare de fumar, use lentes de contato em vez daquele óculos permanentemente engordurado e com haste remendada por SuperBonder, e nunca, nunca mais vista camisas xadrez. É uma das pequenas traições de que a vida a dois é composta, e representa, claro, o inevitável rito de passagem do mundo romântico e nebuloso do “fazer a corte” para a vida prática. (Paquerar, afinal, quase sempre envolve certa dose de fingimento. É o chamado “teste do futibór” -ou da NBA, no meu caso-: ninguém admite em começo de namoro que assiste toda e qualquer partida de futibór que passe na televisão, ou que lê Contigo e não conecta a Internet sem passar pelo Glamurama.)

Um dia desses ouvi a versão reversa dessa história, de uma amiga que sempre foi notória pelo estilo, digamos, generoso de se vestir –decote abissal, fenda grande cânion na saia, “perna gostosa é pra ser exibida”. Agora que, no elegante termo selecionado pela moça, “fisgou um otário”, ela lida a cada dia com o Santo Ofício fashion do rapaz, que não quer que ela ofereça aos macambúzios usuários do metrô certas paisagens usualmente reservadas aos muito íntimos. Em versão livre, a moça disse outro dia que “pô, antes de a gente namorar ele não parava de conferir minha prateleira”. Curioso, encarreguei o Instituto Noronha de conduzir uma pesquisa informal entre as decotadas, e descobri que marromenos noventaedoze por cento das respondentes tinham história semelhante a contar. Em resumo, assim que o sujeito, er, “conquista” a musa, ele imediatamente muda o nome pra Mulá Omar e espera que ela ande de burqa o resto da vida.

Até mesmo o mais sincronizado dos namoros requer que as pessoas mudem, para o fazer funcionar. E quando a dona Increnca ou o sêo Rizmungo decidem, er, verbalizar as mudanças que consideram necessárias na aparência e comportamento do(a) significant (b)other, pessoas maduras, racionais e adultas não deveriam tomar as sugestões como insultos, methinks. É claro que estar apaixonado envolve necessariamente uma suspensão do comportamento maduro, racional e adulto (ninguém escreve soneto pruma mina movido pelo racionalismo, alas), e é fácil guardar mágoa de certos pedidos –“pô, Maria Alice, eu nunca imaginei que você desaprovasse a minha coleção de action figures!”. Mas o que me preocupa mais é a consideração oposta, na verdade: a responsa que me cabe quando sou eu que solicito uma mudança. Minhas implicâncias são pouca mixaria, já adianto aqui –nunca mandei namorada alongar a saia, parar de fumar ou pelamor de deus guardar os airbags no painel. Mas tem sempre uns detalhezinhos que me incomodam e não resisto a mencionar, mesmo que em tom de piada. Que uma mina ouça os resmungos e decida usar esmalte rosa clarinho em vez de roxo termina sendo um Taj Mahal de romantismo, na escala Noronha de live and let live. (E resta sempre a esperança dos óclinhos.) Now thanks for that, babe.

April 05, 2005

 

Educação Sexual


"Birds do it, bees do it"... e eu continuo não comendo ninguém

Estudei boa parte da vida em colégios religiosos, o que serve ao menos para explicar meu ateísmo e meu uso barbaresco de latim. A combinação entre colégio religioso e adolescência quase sempre resulta em momentos sublimemente patéticos de educação sexual. A primeira palestra “séria” que ouvi sobre o assunto foi pronunciada pelo Pe. Dutra, um sacerdote estranhamente parecido com Jorge Luis Borges (e cego como ele) que “orientava” os meninos, no São Luís. Padres de 300 anos não são exatamente a fonte ideal de sabedoria sexual, convenhamos (se bem que ter palestra sobre doin’ the dirty com a então “sexóloga” –whatever that might mean- Marta Suplicy teria sido infinitamente mais assustador). Em meio a uma bateria de pigarros e eufemismos que deixou todo mundo completamente incerto quanto a exatamente que partes de que anatomia o bravo clérigo estava indicando, a sábia recomendação final do Pe. Dutra foi a de que, se a gente fosse a um baile, não deveríamos usar calças apertadas, e nunca, de maneira alguma, poderíamos permitir que, durante a dança, a porção neerlandesa da anatomia se envolvesse em encontro consonantal com o similar feminil. Useful to get that learnt, especialmente porque ele nos explicou que era pouco cavalheiresco deixar que a borbulhante prova de nosso entusiasmo erótico entrasse em contato com as mina já que, yo, elas provavelmente ficariam muito excitadas e um gentleman jamais coloca uma dama em situação delicada como essa. Pra um bando de fedelhos de 11 ou 12 anos, que de mulé só recebiam risadinha sarcástica, a palestra foi uma revelação.

Semanas mais tarde, Pe. Dutra admoestou a choldra discente quanto aos perigos das doenças venéreas, entre as quais a popular blenorragia (pra desgosto do Breno, um moleque da terceira turma, que dali por diante ganhou o apelido “Gonô”). O Pe. Dutra explicou que, em caso de infecção no bingulim, o único remédio era introduzir na uretra um dispositivo que ele descreveu como “um guarda-chuva”, que seria aberto lá dentro com o intuito de, puxado para fora, remover o material infectado. Todo mundo saiu daquela palestra vesgo e cas mão na posição “barreira de futibór”, e o Wladimir, que era filho de um urologista, inconformado, perguntou ao pai se a informação procedia. O Dr. Pecoraro ficou furioso e armou o maior salseiro no colégio, e dali por diante o Pe. Dutra se limitou à orientação espiritual. (Mas nenhum de nós jamais esqueceu o guarda-chuva, como recente encontro em aeroporto com my sixth grade buddy Ragaibe imediatamente deixou claro.)

Marromenos por essa época, voltando do futibór com meu pai, passei por mais um momento sex talk. O sêo Luigi, ressabiado e sem jeito como lhe soía, puxou assunto dizendo que "bom, meu filho, você sabe que os homens e as mulheres são diferentes por causa do..." Pausa dramática, olhar tímido, e eu, sacaneando: “Batom?” Depois de umas três respostas como essa, sêo Luigi, começando a duvidar da minha hombridade inerente, recorreu a um clássico didático, falando das florzinhas e das abelhinhas. Infelizmente, ele tinha perceptíveis deficiências culturais no campo da botânica, e na interpretação dele a florzinha punha um disco do Barry White, a abelha caprichava na Acqua Velva, e nove meses depois nascia um jardim. Constrangido diante do constrangimento paterno, decidi que era sacanagem ficar lá enrolando, e mencionei em veloz sucessão os 32 sinônimos de genitália masculina e feminina que eu conhecia. “Você já...?”, perguntou o sêo Luigi, aliviado mas suspeitoso. Deixei que ele interpretasse meu aceno como preferisse, a conversa morreu, e não precisei responder que não, sêo Luigi, eu num já, não.

Minha educação sexual, portanto, principia pelo fato científico de que se você usar calça apertada e dançar música lenta com a moça, ela imediatamente se torna desvairada bacante, te derruba no chão e te faz ómi, mas infelizmente, no processo, é provável que te cause uma doença venérea a ser curada com aplicação local de guarda-chuva ao bimbo. (E, se você tem medo de abelha, melhor não colocar aquele disco do Barry White.) Não dimira que eu só tenha perdido a virgindade com 27 anos. (“Senta aqui e me conta tudo, meu filho”, pra citar um clássico da anedota. “Não consigo sentar, paiê”.)

 

Give it back to the Indians


"Old New York is new and phony..." (Dopo Teatro, l, and Fez, r)

Entre os inúmeros defeitos que ostento, um certo apreço nostálgico pela antiquada idéia de boemia continua a me fazer cambalear pela cidade quatro ou cinco noites por semana. Gosto de bar, de jogar conversa fora, de saber que se for sozinho ao lugar X vou encontrar outros tantos vagabundos dispostos a conversar veementemente sobre nada. E também gosto das regiões –vá lá- “boêmias” da cidade, onde grana teoricamente conta menos e a carga de frescura discriminatória que caracteriza o “sucesso” new-yorker é bem menor. (Os beócios daqui supõem que entrar em lugar onde nem todo mundo é admitido denota alguma espécie de superioridade, e portanto se sujeitam mansamente à tirania dos bouncers de casa noturna, manés com sotaques falsos que anotam reservas em restaurante e mâitres d’ com cara de Eric von Stroheim.)

Infelizmente, Nova York é, também, a cidade em que o pelintra Donald Trump ficou biliardário com uma mistura de especulação imobiliária desenfreada, ostentação e mau gosto arquitetônico ímpares, e enorme desdém pelas normas éticas (se os bancos não tivessem medo de cair arrastados por ele, e portanto parassem de emprestar dinheiro prum cara leveraged up to his ears, Trump teria falido 10 ou 15 anos atrás, para alegria de Uncle Filthy). E os americanos acreditam, com a mistura de completo cinismo e tocante ingenuidade tão característica do país, que é possível engarrafar mágica e vender. Por isso, meu bairro aqui, o East Village, vê cada vez mais construções dirigidas aos manés que –como eu- querem viver “no coração da boemia”, mas com equipamento Sub-Zero e jacuzzis niquiq os peitos siliconados das moçoilas flutuem impavidamente. E, com isso, claro, a boemia é escorraçada do bairro, porque os aluguéis se tornam caros demais.

O Luna Lounge, quartel-general das bandas indie, em Ludlow Street, está para encerrar suas atividades, e no final do mês passado o meu querido Fez Under Timer Café fechou as cortinas. Nos dois casos, a culpa é do mercado imobiliário –o prédio do Luna foi adquirido e vai ser demolido para a construção de mais um co-op e o aluguel do Fez ficou caro demais para que a casa mantenha as portas abertas. (E dois outros pilares do downtown boêmio, o CBGB e o Tonic, também correm o risco de fechar por conta de aumentos de aluguel e calamidades correlatas). I don’t really give a crap about indie rock, mas o pessoal do Luna Lounge é de uma simpatia sem tamanho, e você sempre pode tentar abafar o barulho da banda jogando pebolim (vício antigo do locutor que vos fala). Já o Fez era um dos meus lugares prediletos na cidade –não só pela conexão Mingus* (vi meu primeiro show da Mingus Big Band lá em 1992) como por outras pérolas –o stand-up lunático de Amy Poehler, o primeiro show de Imani Coppola, o fato de que é um bar cuja entrada fica escondida nos fundos de outro bar, o décor cada vez mais faded de puteiro marroquino, os belgas simpáticos timidamente perguntando se eu era vendedor de “le pot”, as moças de óclinhos vintage e meias sete-oitavos que me pagaram uísque, o Manhattan explosivo de Lisa Bonforte... Vai me fazer uma puta falta.

E aproveito pra recomendar mais dois lugares antes que o féladaputa do Trump ouça falar deles e corra para comprar e transformar em churrascaria –no Town Hall da rua 43, uma das casas de música mais tradicionais da cidade, uma vez por mês rola um programa chamado “Broadway by Season”, niquiq o crítico e radialista Scott Siegel seleciona repertório de musicais de uma determinada temporada da Broadway, convida cantores e músicos para interpretar as canções mais importantes e explica um pouco as composições e o contexto dos trabalhos. Ontem, a revista tratava da temporada 1945, e pude ouvir coisas que nunca tinha ouvido ao vivo, de musicais como Billion Dollar Baby (Comden, Green, Gould) e The Firebrand of Florence, música de Kurt Weill e letras de Ira Gershwin. Dado o programa delicioso, ainda mais complementado por jantar no jardim (fechado) da Trattoria Dopo Teatro (risotto de profumo di bosco al tartufo, ô, meu são jizuis), quase esqueci de que daqui a seis meses, provavelmente, todos os lugares de que eu mais gosto na cidade estarão fechados. Just my fucking luck.

* Mingus buffs, don’t fear (much, or yet): A Mingus Big Band (Orchestra, tecnicamente, but I don’t buy the distinction) se mudou pro Joe’s Pub, parte do complexo Papp, do outro lado da rua em Lafayette Street, toda quinta, shows às 23h e à 1h30 min.

April 04, 2005

 

Epitalâmio


"The groom is nervous, he answers twice"

Demonstrando tremenda falta de originalidade, os créditos se iniciam com o nome dos produtores, seguidos, em exemplo democrático de shared billing, pelos nomes do astro e da estrela na mesma tela, enfeitados de inicial do meio em um caso e de segundo nome insuspeitado (Mariana Cristina? Really?), no outro. Astro e estrela foram meus companheiros de cinema, inúmeras vezes –tanto por detrás das câmeras quanto diante das telas. Se eu esperava alguma surpresa no roteiro? Pra falar a verdade, não. Logo que decidiram escalar os dois para o mesmo filme, eu já sabia como seria o final. Aliás, todo mundo sabia –menas, como é de praxe nesses casos, os dois usual suspects.

Renato, pra pagar pelo menos em parte seus inúmeros pecados, começou a carreira como meu estagiário, numa empresa que já nem existe. Teimoso, sabichão e metido a besta, não encontrei outra maneira de me livrar dele do que indicá-lo para emprego de gente grande em um concorrente. Mari, escolhida unanimemente para uma vaga de sex toy júnior na criação depois de enviar um currículo enfeitado por foto topless, resistiu por seis dolorosos meses ao meu assédio, mas acabou cedendo, e trocou o mundo da dança topless pela direção de arte. Para minha sorte, não fui eu o irresponsável a apresentá-los. Mas a bestialidade e o satanismo compartilhados decerto são parte essencial do magnetismo animal que fez com que seus aparelhos ortodônticos se emaranhassem desde o primeiro beijo. Amor de nerd, todo mundo sabe, é uma merda, mas considerei meu dever como militante ecológico promover por todos os meios ao meu alcance a reprodução em cativeiro do jovem casal.

O que as maquiavélicas maquinações do magistral McNasty uniram, nenhuma mulher separa –nem mesmo a canadense ruivinha com quem encontrei Renato atracado numa festa de final de ano em 2004. Mari sabe que o papel da mulé no matrimônio é perdoar e compreender, ainda que não perdoe nenhum entregador de pizza. Os dois propõem passar vergonha diante de familiares e amigos, mês que vem, o mês das ruivas, digo, noivas, e embora provavelmente me tenham mandado convite por engano, estarei presente mesmo que apenas em espírito de porco. Ninguém gosta que um pentelho conte o final do filme, mas não resisto: Renato e Mari vão ser felizes para sempre. E quando nos encontrarmos na casa de repouso para os jantares reminiscentes que serão mister no crepúsculo senil de minha existênssa, ajeitarei cuidadosamente a dentadura, com um estalido irritante, e olharei com lágrimas nos olhos para os dois, por sobre meus 14 graus de lente, dizendo, com um chiado asmático: “I told you so”. (É, é no ano que vem, Renato.)

 

American Lives


"Ev'rything free in America!
For a small fee in America!
"


F. Scott Fitzgerald, escritor de enorme elegância e sujeito melancolicamente autodestrutivo, saiu-se com um aforismo que –se bem tenha uma ponta de verdade no caso dele- virou objeto de permanente abuso por parte dos subliteratos. É aquela famosa história de que “a maioria das vidas americanas não tem segundo ato”. Soa sábio, world-weary, e “justificou” um maremoto de má literatura baseada na premissa de que quando o protagonista não consegue realizar seu sonho, ou fracassa de alguma maneira, o grande Zé Fernandes celeste gonga o sujeito, game over, pode morrer de cirrose. Todas aquelas mulheres lindas que vão pra Hollywood sonhando com o estrelato e terminam putas ou manicures, todos aqueles aspirantes a escritor de faces louçãs e zóinhos brilhantes engolidos impiedosamente pela selva de pedra: no second act for any of them.

E como a cultura pop americana oscila periodicamente entre os pólos cínico e piegas do contínuo emocional, todas essas vidas sem segundo ato só podem ser salvas por um outro clichê, esse infelizmente não redigido por Fitzgerald: o da redenção. No modo redentor, a história leva a aspirante a atriz tornada puta a encontrar sua verdadeira vocação servindo como enfermeira de crianças caolhas leprosas em Botsuana. Ou força o escritor fracassado e alcoólatra a confrontar seus, er, “demônios interiores” e demonstrar nobreza d’alma em alguma situação completamente falsa niquiq usualmente ele tem de fazer um discurso público admitindo que sim, mentiu, pecou, encoxou freira no buzum, mas o amor, a arte, a justiça social enfim ensinaram que blablablá. Todo mundo aplaude, rolam os créditos e aí supostamente começa o second act na vida do sujeito.

A verdade é que quase todas as vidas têm segundo ato, terceiro ato, sétimo ato, continuação em Vida Americana 2: A Ira de Khan, reunion tour 20 anos mais tarde, retrospectiva póstuma no canal E! revelando que o ex-vivo foi gay de armário desde os 12 anos. A maioria das vidas americanas parece interminável, até, mas o predomínio do clichê não permite que o, er, “artista” trate do segundo ato (as honrosas exceções incluem, como sempre Billy Wilder, em Sunset Boulevard, aquele mais cruel dos filmes sobre alguém que de certa maneira recusou a “vida americana” e não morreu catastroficamente quando deveria). Um dos motivos pra que eu goste de assistir cerimônia do Oscar na casa da mamma é que, quando entra aquela seqüência de tributo aos mortos do ano anterior, ela invariavelmente comenta, sobre alguns dos espécimes: “Nossa, ele(a) ainda tava vivo(a)?”

É bizarramente interessante que, na mais adaptável e mais móvel das sociedades modernas, predomine justamente o clichê do one shot at your dream, e aí calamidade. Uma das virtudes mais sólidas dos Estados Unidos é permitir que o sujeito exiba sua incompetência em múltiplos campos de atividade (vide Bush, George W.) até que descubra onde amarrar o burro. Poucas culturas viram tamanha inclinação a mudar de casa, cidade, Estado, religião, profissão, focinho e, acima de tudo, tamanho de sutiã. Adaptação é a menos celebrada das virtudes, talvez porque envolva reconhecer limitações e abandonar sonhos, mas existe uma poesia especial nas aspirantes a atriz que se tornaram bartenders, casaram com um Shriner que conheceram bêbado em uma convenção, e enriqueceram em Lower Bumfuck, Kansas, vendendo cosméticos Mary Kay, pride of Texas. As vidas americanas são quase que exclusivamente segundos atos, e Fitzgerald decerto teria percebido, se as 37 doses de uísque diárias não o tivessem derrubado antes do fim do espetáculo.

Nota: a inspiração para o post veio de The Sixteenth Minute, de Jeff Guinn e Douglas Perry, um livro sobre o que acontece com as celebridades quando acabam os tais 15 minutos de fama. Não li, porque as celebridades de que eles tratam kinda bore me, mas a idéia parece bem legal.

April 01, 2005

 

Trifles light as air


"Quem não tem ciúme não ama", Agostinho, bispo de Hipona

Recentemente me tornei devoto de uma santa estreante que os asmáticos concupiscentes como eu conhecem por Santa Diliça das Longas Coxas, e Santa Diliça se manifestou em forma de e-mail ao fiel que vos escreve dizendo que, se visse outra menina beijando o namorado, e escapasse ao ataque do coração, enchia a mulé de mordidas e tapas –“nada carinhosos”, ressalvou- e xingava a dita cuja até a sétima geração. Minha co-âncora Ms McDirty, que eu sempre achei too cool for school, outro dia saiu-se com uma manobra digna da federação Nova Jersey de feminine wiles –eu estava esperando por ela em um bar, e uma moça, em pé ao meu lado, puxou conversa. Ms McDirty entrou, avaliou de longe a situação e imediatamente atravessou a sala, encostou no balcão e deu um chega-pra-lá calipígio na moça, encaixando o pandeirão entre a minha banqueta e o considerável patrimônio histórico da visitante.

Do lado masculino da história, a situação não é nada melhor. Meu velho amigo Johnny brigou feio com a mulé, outro dia, porque ela decidiu ir a uma festa “vestida de chacrete”, nas consideradas palavras do mano. (Conhecendo os dois como conheço, ela deve ter mostrado uma nesga de coxa e o Othello do Brooklyn Velho se sentiu agredido em sua hombridade patriarcal, pódiscrê.) E um outro amigo, who shall remain nameless, ainda que casado de novo continua morto de ciúme da ex-mulher, e pressiona os filhos impiedosamente, tentando obter informações sobre a vida amorosa da moça. (Médica, fazendo doutorado e criando um casal de fedelhos? Eu poderia resumir pro amigo, se ele me escutasse: slim to none, dude.) E a ex-mulé não é tão inocente assim do monstro de olhos vesgos, porque “deixou escapar”, num desses canhestros encontros que a existência de filhos parece promover entre ex- e futuros, que o cabelo cerdoso do um dia cônjuge agora noivo era, tipo, implante. (E é.)

Se bem eu contenha multidões, como quer Walt Disney, entre os 70 passageiros do Expresso Fudílson não tem nenhum ciumento (o que provavelmente quer dizer que, excetuados os dois celibatários e os 38 que não comem ninguém porque não conseguem, tem marromenos uns 30 cornos nesse buzum). Uma ex-namorada -que uma vez me seguiu de carro até o estabelecimento em que eu faria plantão e ficou plantada na porta até me ver sair às quatro da manhã- costumava dizer que não ter ciúme implica não gostar. (E desculpa de aleijado é muleta.) Eu discordo, e poderia aduzir em minha defesa que, nas minhas rodas de adolescência, ciúme era considerado o ápice do uncool (uma das covers prediletas no nosso repertório, afinal, era “The Kids Are Alright”, do Who, que começa por “I don’t mind/ other guys dancing with my girl/ That’s fine/ I know them all pretty well”.) Besides, o primeiro grande amor da minha vida era uma dessas mocinhas que se divertem mais causando ciúmes do que causando etc. aos pretendentes. Enquanto eu tentava desesperadamente fingir que não ligava descobri, pra meu completo espanto, que não ligava, mesmo.

Meu ancião interior sabia, mesmo aos 16 anos, que não existe posse, excetuada a delicada e transitória ilusão criada pelo nobre esporte do réla-bucho –e sabia disso não porque reconhecesse intrinsecamente a existência daquela misteriosa porção que toda mulher reserva e não entrega a ninguém, mas porque desconfiava de sua recíproca, em mim: beyond all this, the wish to be alone. São essas bobagens –não a educação dispendiosa, o robusto salário, ou as marcas de distinção que o mundo confere –que te fazem aquilo que você vem a se tornar: porque você sabe que a posse é impossível, jamais supõe a permanência das coisas, e mantém sempre o olho aberto para a mágica daquele momento fugidio em a que a ilusão da posse se materializa nos teus braços -sem que por isso deixe de saber que, yo, por mais que você tente segurá-la, ela sempre, sempre vai embora.

 

First boredom, then fear


"I have wished you something
None of the others would"

Normalmente começo a sexta-feira com um post sobre mulé –uma espécie de macumba virtual pra garantir que o final de semana surja enfeitado das resplendentes curvas características das nossas oh so better halves. Mas hoje não é dia, porque ontem nasceu Lorena, a muito ansiosamente aguardada filha de um casal de amigos em São Paulo. O bebê morreu sete horas mais tarde. E mesmo que se trate de amigos distantes, I don’t have the guts para as habituais piadinhas sobre guerra dos sexos com que entretenho meus dois fiéis leitores.

Eu sei, eu sei: diante da minha deliberada indiferença dezenas de milhares de bebês, de crianças, morrem a cada dia nas porções perebentas do mundo. Em sua passagem de sete horas pela vida, a pequena Lorena –como todos esses fantasmagóricos infantes que os conscienciosos arremessam sem dó contra o meu sentimento de culpa- nem teve chance de ser uma pessoa, uma potencial diliça para ocupar a seção beauty queen de um blog qualquer daqui a 20 anos. Nasceu presente dos deuses, morreu estatística. Essa transformação de gente em estatística, claro, é uma maneira de racionalizar a dor –números, supostamente mais objetivos que palavras ou sentimentos, são entidades abstratas. (Nada que tem número é único.) Mas a dor ainda dói.

E o que eu tenho a dizer sobre isso, dessa vez, excepcionalmente, é um sonoro “aqui procês”. O. e P., os dois em seus early 30s, tentaram por alguns anos ter um filho pelas vias convencionais; depois, passaram por tratamentos de fertilidade, cheios das mais bizarras regras sobre onde, quando e como etc., que os dois encararam com enorme senso de humor, agüentando galhardamente a zombaria impiedosa dos amigos. Frustrados com o insucesso, decidiram recorrer à inseminação artificial, e com isso incorreram em nova batelada de obrigações, inconveniências, irritações –sempre unidos na determinação de superpovoar o mundo um pouco mais, e sem nunca perder a capacidade de rir do ridículo a que se viam submetidos.

Não estive por perto nos meses finais de gravidez, mas sei que P. –advogada- teve de abandonar a banca nas últimas semanas, porque cuidados especiais se tornaram necessários. Quem foi ao baby shower da Lorena conta que P. estava “cintilante”, se bem que nauseada, e que a casa estava preparada até os últimos detalhes para receber a futura diliça. Afinal, foram anos de espera, esforço, desconforto, tirania médica, gastos: se algum casal provou o quanto queria um filho, O. e P. decerto são sérios candidatos. Talvez viessem a ser maus pais, God knows –superprotetores, exigentes, sei lá mais quantas maneiras de loucura familiar decerto existem-, mas não há como duvidar de que Lorena teria a melhor recepção que alguém pode esperar ao chegar em terra incógnita.

O poema pelo qual my main man Philip Larkin ficou mais conhecido começa com
They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.

e eu mesmo decidi, desde 1913, sonegar a procriação porque, entre ele e Machado, yo, como argumentar? Mas isso não quer dizer que eu seja incapaz de sentir ainda que tenuemente a dor paterna dos outros, e de lamentar a injustiça cruel, aleatória, féladaputa, de uma vida que faz isso com gente como O. e P. Sempre falo demais, mas dessa vez não sei o que dizer, o que fazer, como ajudar. Conheço bem as fórmulas rituais de consolo –“vocês vão conseguir da próxima vez”, “Deus vult”, “quem sabe vocês podem adotar”- e espero sinceramente que ninguém as esteja pronunciando. Se eu rezasse, estaria rezando agora para que eles fiquem –na medida do possível- bem, que sobrevivam –juntos- à avassaladora sensação de tanto amor desperdiçado. Como não rezo, e não me conformo, só me resta recorrer a um clichê: se a vida te dá limão, mano, manda a vida se foder.

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