March 31, 2005
He liked the dead

John Huston dirigindo Under the Volcano, 1984
Como sabem os muitos bons entendedores que existem entre meus dois fiéis leitores, uma penca dos títulos de posts (e lots other stuff) aqui são citações, arremedos ou paródias, que freqüentemente passam sem crédito mas que admito francamente como plágio, se algum mala resolver aplicar contra mim o mesmo tipo de crítica jumenta que já li aplicada ao Paulo Francis, por exemplo. Ontem, usei como título de um post um verso que eu sabia que era citação mas não lembrava de onde. Fiquei arrancando os cabelos, crente de que meus cansados neurônios tinham enfim pidido pinico, e hoje tomei o caminho dos fracos e googlei a bagaça, descobrindo, um tanto estupefato, que se trata de um poema do Pound sobre/para Walt Whitman. (Um bom poema, aliás, se é que o meu juízo sobre poesia vale alguma coisa.)
Como meu ídalo “Shorty” Neuberger, dois posts abaixo, eu sempre fui homem da catigoria 30 a 50 por mês –livros lidos, no meu caso, infelizmente. Não admira que essas coisas aconteçam –um monte de destroços literários surgem com um plop à superfície do proceloso mar da memória, e só são jizuis sabe de onde surgiu a latinha de Manteiga Aviação que vejo ali, ó. Eu não lembrava absolutamente nada sobre esses versos do Pound, que está longe de ser um dos meus puétas favoritos, anyway, embora eu tenha perdido o tempo requerido pelo sindicato dos wannabes lendo Cantos e as traduções chulé que ele cometia. Mas de vez em quando –plop!- olha lá um “what thou lovest well remains, the rest is dross”.
Como castigo por ter googlado, porém, hoje passei o dia encafifado com outro verso, “he liked the dead”, que em minha vaga lembrança vem acompanhado de algo como “for him, the grass was verdant, not green”... E já que tinha decidido ser bundão e googlar tudo, mesmo, em lugar de exibir hombridade e vasculhar a memória até descobrir, arrisquei de novo: zilch. (Ou, na verdade, retornos demais pra vasculhar.) Nas garras da obsessão, recorri ao mais humilhante dos artifícios e liguei pra Professora Lucy -a única pessoa que leu mais bobaj do que eu- in her uppity Princeton lair, e ela zombou, zombou mas acabou colaborando, identificando o culpado como Malcolm Lowry. No entanto, nenhum dos dois achou o cazzo do poema online, ainda que eu tenha lembrado, com o empurrãozinho, que aparentemente se trata de um elogio ao Edgar Allan Poe. Alguém aí sabe que poema é esse? Em que livro está? Ajude o Uncle Filthy a não perder seus três últimos cabelos naturais. Quem quebrar o galho ganha um post personalizado com direito a foto erótica de Henriqueta Brieba e tudo.
Have you ever been experienced?

"Nothing is great or little other than by comparison"
Quando as pessoas lembram do Gulliver, de Jonathan Swift, costumam se concentrar nas aventuras dele em Lilliput (a terra dos pequeninos) e Brobdingnag (a terra dos gigantes). Mas a parte mais interessante de Travels Into Several Remote Nations of the World, pra mim, é a visita a Luggnagg, onde ele descobre uma raça de imortais –porque a imortalidade dos struldbrugs é completamente literal: eles simplesmente não morrem, mas continuam envelhecendo, decaindo. Quando penso em experiência, penso logo nos struldbrugs –se a imortalidade é assim, teria sido melhor não saber, por um lado; por outro, o acúmulo de experiências é um pouco como esse perpétuo envelhecimento: porque você tá senil, não necessariamente aprende com elas, mas o sedimento fica, aquele imenso monturo de coisas que afetam –em geral de maneira adversa- o teu deleite com o que quer que a vida traga de novo.
Tem uma poesia especial na “primeira vez”, toda primeira vez. E se você é amaldiçoado com uma memória como a minha, vai ter sempre seus momentos struldbrug e comparar a sinfônica magia da primeira vez em que ela tirou a roupa na sua frente com o arremesso desmazelado de peças casa adentro, uma noite qualquer do futuro. Não é que a beleza tenha desaparecido (ou, aliás, que os efeitos sejam inferiores em termos de concupiscência, aquela mais fudilsoniana das palavras), mas resta sempre uma diferença ranheta entre o prazer de se saber o que vai surgir por sob as vestes e o prazer de não saber. Pros outros mongos que, como eu, já saltaram de pára-quedas, é fácil explicar: parte do frisson, afinal, é exatamente não saber se vai abrir.
Eu não sou idiota (cartas de discordância no terceiro guichê à esquerda) e sei perfeitamente que experiência é útil, e que economiza trampo, tempo, nos salva de erros, evita sofrimentos. Mas o preço é cruel: nunca mais sentir aquele peculiar friozinho na barriga. Na gíria da guerra civil americana, dizia-se que os soldados que passaram pelo primeiro combate “had seen the elephant”. E depois do elefante, claro, todo cavalo é galinha, ou algo assim.
Minha única quimera, meu santo graal, minha pedra filosofal, é exatamente encontrar maneiras de reconciliar o assombro e a experiência. Durante anos, música e literatura mantiveram esse poder, na minha vida (literatura e música dos outros, let me add, que a experiência me ensinou a não ser pretensioso). Mas até nisso tenho sentido o efeito da law of diminishing returns. Não é que tenha deixado de lado meus velhos amores; o problema é a freqüência muito menor com que encontro livros ou discos que me transformam num chato intolerável daqueles que saem disparando e-mail pros amigos dizendo “dude, ocê TEM que ler ou ouvir isso”. E a deserção dos meus fiéis escudeiros deixa apenas o desanimador campo das aventuras galantes como fonte de maravilhas. Amor, como sabem meus dois fiéis leitores, termina sempre diante da dotôra Rosimeire, no plantão da madrugada da delegacia da mulé. Mas é o único field of endeavor em que “possibly i like the thrill/ of under me you quite so new”. Infelizmente, a prática requer a colaboração da mulé (ou similar nacional, que eu não discrimino as maiorias, não). Hélas.
March 30, 2005
Dinosaur Dung and
the Thinking Beauty

90, 60, 90, 156...
Bonitinha mas extraodinária: Um programa de TV esloveno queria provar que as top models são todas burraldas, mas quando fizeram com que a sinuosa ex-Miss dona Iris Mulej passasse por uma bateria de testes de inteligência, o QI da mocinha terminou avaliado em 156. Uncle Filthy sempre preferiu as mina inteligente, e a Srta. Mulej, Miss Universo em 2002, provou sua sabedoria ao declarar que gostaria de fazer sexo com um marmanjo e mais três mulé. Só falta virar pizza às duas da manhã.
Cidadão Cane: Na sorridente Novosibirsk, cientistas russos constataram que levar umas bengaladas na bunda libera endorfinas, e portanto combate a depressão, reduz o apetite, ativa os hormônios sexuais e reforça o sistema imunológico. A Dra. Marina Chuhrova, uma das pesquisadoras envolvidas, diz que aplica regularmente bengaladas no pandeirão de 10 pacientes, os quais “inicialmente não gostavam muito mas agora pedem mais” (provavelmente cantando o lerê e chamando a dotôra de “mistress”). E tudo isso por apenas 100 doletas a sessão. Em Novosibirsk, melhor tomar cuidado antes de perguntar “what’s up, Doc?”
Bedbugs are biting, spouses aren’t: Segundo a National Sleep Foundation, 75% dos americanos adultos têm problemas para dormir, o que causa pobremas no casamento, no trabalho e pode gerar falta de sexo (aparentemente isso não é “pobrema no casamento”). Mais de um terço dos mano e das mina que alegam problemas para dormir dizem que isso prejudica sua vida sexual porque estão sempre com sono na hora de doing the dirty. Por isso, estimada leitora, na hora de escolher seu parceiro de cama, prefira sempre um insone. (Mensagem da F. McNasty Foundation for the Advancement of F. McNasty.)
“Só acredito vendo”: Em Cedar Rapids, Iowa, um sujeito que é considerado cego para todos os fins jurídicos conseguiu aquela mais rara das façanhas golfísticas, o hole-in-one. Joel Ludvicek, 78, que enxerga apenas borrões indistintos, acertou uma tacada de mais de 150 metros direto no buraco, e não acreditou quando os amigos o informaram da façanha. Por que eu tô contando essa história aqui? Porque o sêo Ludvicek justificou a incredulidade dizendo: “Eles já tinham feito isso antes”. Sacanear velho ceguinho no golfe é quase tão legal quanto aquela famosa piada do “pára de girar ou então eu prego o outro pé”.
“É grande; é mal-cheiroso; é o Texas?”: Em Central Point, Oregon, o Crater Rock Museum ganhou imensa popularidade desde que colocou em exposição diversos exemplares de cocô fóssil de dinossauro. Frank Callahan, diretor da instituição, revela, em momento de indiscrição profissional, que a maioria dos adultos que visitam o museu dão uma cheiradinha no cocô, obviamente inodoro. Limito-me a observar que, se eu visse uma pilha de cocô do tamanho de um Dodge Polara, fóssil ou não fóssil, botar meu nariz lá perto seria a última idéia que me ocorreria.
Meaty, Beaty, Big and Bouncy: Eric Neuberger recorreu à ciência para aumentar o tamanho de seu bingulim, mas infelizmente o ganho de volume resultou em perda de eficiência e ele está processando o cirurgião (ir)responsável por sua quase impotência. Neuberger alega que, antes do obelisco, ele era capaz de “praticar o intercurso entre 30 e 50 vezes por mês” e depois ficou reduzido a uma furumfada mensal apenas. Além disso, os pobrema causados pelo implante o forçaram a largar a escola e prejudicaram sua capacidade musical. Será que a minha adevogada predileta consegue explicar por que uma cirurgia desse tipo conduziria a uma perda de talento musical? Inquiring minds want to know. Enquanto isso, fico invejando os “30 a 50 intercursos por mês” de “Shorty” Neuberger. Wish I were that lucky, dude.
Let there be commerce between us

"Freedom in economic arrangements is itself
a component of freedom broadly understood..."*
Na feira da Union Square tem goiaba chinesa, banana caribenha, tâmara jordaniana, bolsa “Gucci” hondurenha (extra-oficialmente), pêssegos da Geórgia, laranjas da Flórida, abacaxis havaianos, vendedores multinacionalmente poliglotas e, duas vezes por semana, pelo menos um consumidor brasileiro. Sempre que ouço um idiotinha waxing stupid sobre “globalização”, lembro da feira –não só como prova irremissível de que globalização não é uma decisão política a ser debatida (quem protesta contra a gravidade ou as marés?), mas também porque, yo, o que eles acham que acontecia, por exemplo, no velho fórum romano?
Quando você visita os mercados romanos –tanto o gigantão, em Roma, como o que foi escavado em Arles, na Provença, ou o de Ostia Antica- não é preciso muita imaginação pra recriar o que rolava lá –os boxes que vendiam tâmaras da Arábia Pétrea, limões da Triclínia, azeitonas de Épirus, faisões da Dalmácia, adagas da Hispânia Tarraconesis, vinho da Gália Narbonense, pistache da Mesopotâmia... Se a conquista militar era a base do império, o comércio era sua corrente sangüínea, e era o comércio que aglutinava o processo de civilização –parte considerável dos territórios romanizados gravitaram na direção do império por força das trocas comerciais realizadas nas barricadas de fronteira.
Comércio não é épico, o mais das vezes –e pode até ser cômico (vide o exemplo dos Sea Monkeys/Kikos Marinhos, fraudando as crianças do mundo geração após geração). Mas sempre foi uma daquelas forças invisíveis que alteram profundamente a vida cotidiana. Sem o comércio, sem os anônimos pioneiros que o promovem e fomentam, o macarrão não seria a comida nacional da Itália, o chá não seria a bebida da tradição britânica, e as fitas de vídeo Sonny, Sone, e Suny não teriam se tornado best sellers na Galeria Pagé. E não fosse a vontade de encher os cofres da família, as fantásticas viagens do comerciante Marco Polo (com seu efeito decisivo sobre a era dos descobrimentos) jamais teriam sido empreendidas.
As antigas cidades-estado da Fenícia –Aradus, Batrun, Beirute, Biblos, Sidon, Tiro, Trípoli e Ugarit- são a mais subestimada das forças civilizatórias. Os navegadores e comerciantes fenícios inventaram o alfabeto, desenvolveram as mais avançadas técnicas têxteis, difundiram as tecnologias da antiguidade no mundo inteiro. Moedas fenícias foram encontradas na China, na costa leste da África, por toda a Europa; os fenícios projetaram e construíram o templo de Salomão, em Jerusalém, desenvolveram os métodos mais avançados de mineração de cobre, na Cornualha, fundaram colônias por todo o Mediterrâneo. E nunca invadiram ninguém, provando que o comércio é um veículo de enriquecimento tão eficaz quanto a pilhagem (ou mais). Tiro, a mais influente das cidades fenícias, aliás, resistiu bravamente aos exércitos do babilônio Nabucodonossor (por 13 anos) e aos macedônios de Colin Farrell (por um ano, mas na tela só por cinco minutos).
P. J. O’Rourke disse uma vez que o colapso do comunismo se deve ao fato de que ninguém quer ser obrigado a usar sapatos búlgaros, e é exatamente por isso que o comércio é importante: porque multiplica a liberdade de escolha do consumidor, não importa o preço do artigo que esteja à venda. Utilidades ou futilidades, necessidades ou luxos, souks, fóruns romanos ou shopping centers nos subúrbios das metrópoles, o comércio é a expressão onipresente e mais viva da civilização. Todo mundo enriquece com ele, por mais que os malinhas protestem. E quando as goddamned goiabas chinesas sorriem seu sorriso falso para mim da barraquinha na feira, eu rezo a Mercúrio**, deus de minha peculiar devoção, pra que um dia haja goiabas brasileiras à venda em todo lugar.
* São Milton Friedman
** Hermes, o mensageiro dos deuses entre os gregos, foi “reformado” para uso romano, recebeu um nome derivado da palavra “mercari” e virou deus do comércio. Na imageria romana, Mercúrio muitas vezes é representado não só usando as sandálias aladas (não búlgaras) como um saco repleto de moedas. O animal que lhe é consagrado é a galinha. Como é que Uncle Filthy podia ser devoto de outro deus?
March 29, 2005
A natureza é mulé-macho,
mulé-macho sim, sinhô

"Why, why, tell'em that it is human nature"
Os do-gooders da Oxfam resolveram uma questão semântica que parecia atormentar toda a imprensa brasileira, a qual passou semanas em hamletiana indecisão quanto ao sexo do tsunami –era “o tsunami isso”, “a tsunami aquilo”... Agora, com relatório que diz que o tsunami atingiu as mulé com muito mais intensidade do que atingiu os marmanjo, a Oxfam esclarece a controvérsia: o tsunami é macho, porque gosta de bater em mulé.
Disparando estatísticas sobre o número muito maior de vítimas entre as mulé e os pimpolho, a Oxfam expõe uma teoria catastrófica dos gêneros (ainda que, em determinado ponto do texto, um vislumbre de bom senso desponte e os caras admitam que maybe, just maybe, o número maior de sobreviventes entre os homens se deva ao fato de que mais homens sabem nadar e mais homens sabem subir em árvores).
Essa patética tendência a politizar até a direção em que o vento sopra é um dos motivos para que as ONGs sejam tratadas com a mistura de desdém e impaciência que em geral lhes é reservada de parte de gente que tem mais o que fazer. Catástrofes são neutras –se um terremoto derrubar um estádio de futebol em dia de final de campeonato, 80% dos mortos vão ser homens. A não ser que a Oxfam pretenda ajudar as mulheres da bacia do Índico de maneira prática, promovendo cursos de natação e de alpinismo arbóreo, melhor perder o tempo dela –e o meu- com atividade mais útil do que preparar esses relatórios cretinos.
It's Always Fair Weather

"We'll find the romance and danger waiting in it"
Eu gosto de musicais –o que, na opinião dos meus amigos straight, é indicação de certo pendor pela boiolice; já os meus amigos gay não se sentem muito entusiasmados com a minha potencial adesão porque eu gosto dos musicais “errados” –i.e., tenho horror a Judy Garland. De qualquer jeito, a objeção principal aos musicais, da parte dos meus amigos gay and straight, parece ser a de que o gênero é peculiarmente irrealista –“pô, meu, o cara tá andando pela rua, aparece uma orquestra do nada e ele começa a cantar”. E minha resposta a isso é uma bela pernacchia. Musicais não são mais peculiarmente irrealistas do que filmes de terror, ou comédias eróticas estudantis, ou westerns, ou filmes de kung fu –pra não mencionar filmes de ação mudérnos. Todos os gêneros requerem dose considerável de suspension of disbelief e, no caso dos musicais, atingir esse estado é ajudado –e não atrapalhado- pela música. Na inauguração do Palladium McNasty, last weekend, o horário nobre foi todo ocupado por musicais –a saber, os três filmes imortais da parceria Gene Kelly/Stanley Donen/Arthur Freed.

"Let the stormy clouds chase
Everyone from the place"
O primeiro, On the Town (1949), marca o passo inicial na fuga às convenções dos musicais. Com música de Leonard Bernstein, Saul Chaplin e Roger Edens, e letras de Betty Comden e Adolph Green, o filme gira em torno de três marinheiros (Kelly, Frank Sinatra e Jules Munshin) que, em meio à Segunda Guerra, têm 24 horas de licença em Nova York. Com muitas coreografias filmadas em locação e com papéis “muderninhos” pras mina (das três caras-metades do filme, só Vera-Ellen tem papel passivo; as duas outras –Betty Garrett e a megadiliça Ann Miller- tanto trabalham em profissões “masculinas” quanto saem catando os homens, em lugar de esperar que eles as catem), On the Town satirizava não só meia dúzia de convenções dos musicais como a sacrossanta Marinha americana (um trechinho da seqüência-título do filme mostra os três marinheiros em momento “entrei de gaiato no navio"). E a mocinha “ingênua” dança vestida de odalisca estilizada em uma barraquinha do parque de diversões em Coney Island.
Falar sobre o segundo, Singin’ in the Rain, é meio, er, chover no molhado (e, de qualquer jeito, Stephen M. Silverman, biógrafo de Donen, esgotou o assunto em Dancing on the Ceiling.) Green e Comden respondem pelo libreto, uma vez mais, e as canções, se bem não tão geniais quanto o trabalho de Bernstein, funcionam perfeitamente no contexto do filme. A seqüência-título é um daqueles raros momentos que transcendem o cinema e ganham poder de mito (acho que, do cinema do século XX, só esse trecho de Singin’ in the Rain e o vagabundo de Chaplin merecem o status), e “Make’em Laugh”, com Donald O’Connor, é uma representação visual digna de um grande desenho animado para o aspecto maníaco e autodestrutivo do humor. Plus, on a personal note, como Cyd Charisse tá gostosa, meu são jizuis amado.

"Situation-wise, I’m none the wiser"
Mas o meu predileto, contrariando a opinião de todos os críticos respeitáveis de cinema, é o terceiro e derradeiro trabalho do trio, It’s Always Fair Weather, um dos primeiros musicais “pra adulto” (e o melhor deles, até Cabaret e All that Jazz, 20 anos mais tarde). O filme trata do reencontro de três amigos de exército que combinam se reunir 10 anos depois do final da guerra, no bar em que se despedem ao retornar do campo de batalha, em Nova York. Kelly quer se tornar agente de teatro e cinema, mas, passados 10 anos, é um empresário de boxe macambúzio pressionado pela Máfia a manipular resultados de lutas; Dan Dailey, que sonhava se tornar pintor, casa com a filha do dono de uma agência de publicidade e vira executivo; e o italianinho Michael Kidd, que tinha ambições culinárias, dirige uma lanchonete chinfrim. O reencontro, portanto, é razoavelmente brochado, e os três ex-amigos só querem uma desculpa pra ir embora.
E aí entra o elemento que transforma o filme de “bom” em “genial”: Dolores Gray, apresentadora de um talk-show de TV, descobre os planos de reencontro e decide fazer uma reportagem sentimentalóide sobre o assunto. Para isso, envia a sempiternamente góztóza Cyd Charisse como emissária encarregada de convencer os relutantes war buddies. O retrato da burrice, precariedade, incompetência técnica e cupidez amoral da televisão, em sua infância, é uma premonição apavorante do que o futuro traria. Porque amargo e extremamente ranheta para com a TV, que a maioria dos americanos idolatrava back then, o filme fracassou nas bilheterias, e a parceria entre Kelly, Donen e Freed se desfez. É um veredicto sintomático: o mundo esperava que os musicais respeitassem as convenções róseas do gênero. Amargura, corrupção e sonhos frustrados, ainda mais se subglamourizados por mongos televisivos, provavelmente cut way too close to home para aquela mitológica entidade, “o espectador médio”. Pena, porque a coreografia da seqüência em que os amigos se reencontram é uma das mais espetaculares da era dos musicais, e a trilha de André Previn é very cool. (And did I mention Cyd Charisse is smoking hot?)
March 28, 2005
Ace in the Hole

"This town is full of guys
Who think they're mighty wise"
Uma das coisas mais divertidas dos últimos anos é a capacidade que o mundo reencontrou de se dizer escandalizado por qualquer bobagem –do mamilo fugitivo da tia Janet a “revelações” chocantes como a de que o pessoal usualmente furumfa muito, bebe muito e fuma quantidades descomunais de maconha na universidade. Oh, really? Dona Natalie Krinsky, por exemplo, tá tentando desesperadamente agarrar seus 15 minutos de fama com o romance “Chloe Does Yale”, niquiq ela supostamente “conta tudo” sobre a fodelança que chacoalha os marmóreos portais de tão augusta instituição. A autora, que respondia por uma coluna de sexo no jornal da universidade, mistura um tantinho de Sex and the Sweetie, duas pitadas de Bridget Jones, umas cenas de furumfa que valem mais ou menos sete estrelas na escala de unintentional comedy, e o resultado, ô, que dó. Mano precisa de muita capacidade de se sentir chocado pra protestar contra a dona Krinsky.
Nos últimos anos, o setor econômico que mais cresce nos Estados Unidos é a indústria da indignação. Eu morro de curiosidade de saber que porcentagem desses manés que marcham em cidade jeca para protestar porque a vida de Mrs. Schiavo “é sagrada” apóia a pena de morte. Aposto que bate pelo menas nos 70%. (Certas vidas são com certeza mais sagradas do que outras.) Faz sentido, afinal, já que o projeto social favorito dos modernos conservadores é reconstruir a sociedade vitoriana –excluído o refinamento intelectual e a boa educação, mas mantendo, claro, a deliciosa hipocrisia que levava a classe média a esconder das crianças o fato de que mesa tinha perna. E o mais terminalmente chato é ter de fugir da inevitável conversa a respeito do assunto com o porteiro, o sujeito da contabilidade em que tropeço no bebedouro, o taxista quirguiz. Pode parecer antipático da minha parte, but I don’t really give a crap. Por que eu tenho que ter opinião? E que diferença a minha opinião faria, anyway?
Não pensem, aliás, que eu uso a expressão “indústria da indignação” levianamente –shitloads of money are made com esse tipo de “controvérsia” artificial. Os jornais, TVs e sites adoram um “fato noticioso” como esse, porque não é fato e nem tem notícia, o desenlace demora semanas, a cobertura custa démerréis e os manés clicam sem parar para ler sobre a última apelação, a enfermeira que viu o presque-defunto mexer o canto direito da sobrancelha esquerda, a médium que falou com o esprito da mulé e tem certeza de que ela não quer morrer. O gênio Billy Wilder, que cantou tantas bolas com décadas de antecedência, tem um filme exemplar sobre o felômeno –seu primeiro fracasso de público, aliás. Em Ace in the Hole, Kirk Douglas faz um jornalista fracassado (Charles Tatum) que teve de sair de Nova York e está bebendo até morrer como repórter em um pasquim de West Bumfuck, New Mexico. Quando um desabamento aprisiona um mineiro na caverna da mina, Tatum –tentando comprar sua volta à civilização- manipula a situação, e retarda o resgate, até que o caso se transforma em notícia nacional –e o mineiro morre. Em 1951, o filme bombou seriamente e foi detonado porquanto “cínico” e “amargo” demais. Wilder, depois de três ou quatro exílios e de ver boa parte da família exterminada pelos nazistas, deve certamente ter pensado “time will tell”. And it sure did.
It will all end up in tears

"A world torn loose went by me"
Uns 10 dias atrás, Mr. Clumsy aqui rasgou a camisa preferida, que voltou recentemente a ser usada depois de involuntária hibernação causada pelo meu prolongado affair com as banha. Os danos não foram desastrosos –o rasgo aconteceu naquela fenda da manga que antecede o punho- mas superavam minha capacidade de remendo (e, adispois, não consigo costurar nada sem usar minha touca, meu dedal doirado e meu ovo de cerzir, que ainda não chegaram da província). A solução padrão pra essas situações sempre foi a mamma, claro, mas mandar FedEx com sêuvisso e sem presente é mais ou menos equivalente, na liturgia do clã Norogna, a dizer que Paul Newman é gay, ou outro crime de lesa-majestade. Felizmente, dona Elizonda, na redoubtable NYC French Cleaners, 3rd Ave., deu um jeito de remendar o estrago, depois de me olhar com aquela cara de reprovação que mulé faz pra homem que trata as roupas da mesma maneira que trata as significant (b)others –“the bastards”- e de resmungar “such a nice shirt, such a little careful”.
Porque se trata da minha camisa predileta, claro, eu já tinha decidido continuar usando, com ou sem conserto –afinal, o mais das vezes, se não preciso manter o paletó, arregaço as mangas, mesmo. E dona Elizonda, profissional consumada, escondeu seu trabalho na parte interna da manga –dá pra sentir o remendo por baixo se você passar o dedo no local exato, mas fica invisível, pra todos os efeitos práticos. Portanto, vesti a camisa pruma ocasião comemorativa, sábado, e, guess what, passei a noite inteira me preocupando com o remendo.
Porque a verdade é que você sabe que –por mais invisível- o remendo está lá; houve uma quebra de continuidade, e a superfície perfeita e aparentemente inexpugnável do tecido se rompeu, revelando não só sua fragilidade mas a estranha mecânica daquilo que se esconde e revolve por baixo. O rasgo não é importante só pelo dano que possa vir a causar, mas porque reafirma a transitoriedade das coisas; e por mais que a superfície do tecido pareça perfeita àqueles que a observam de fora, você não consegue esquecer a fragilidade do pano, e isso te faz self-conscious, hesitante, cagão. O descaso sorridente com que a camisa costumava ser arremessada quartos afora se torna coisa do passado; depois do rasgo, você volta a lembrar que não, nem você nem o tecido são especiais.
E o primeiro rasgo, claro, é o mais doloroso. Mais tarde, muitos rasgos e remendos mais tarde, você já esqueceu a unicidade vertiginosa que o tecido ostentava; como em uma colcha de retalhos, nem percebe qual é o pano que servia de base. Portanto, o maior perigo do primeiro rasgo é sempre a tentação de jogar a camisa fora, porque você sabe que, embora os remendos funcionem, eles jamais poderão se equiparar à beleza inconsútil do tecido primevo que um dia recobria tuas imperfeições com um toque de mágica, sabe que, quando alguém elogiar a camisa, em algum lugar do teu coração e memória uma vozinha irritante vai dizer “yo, você devia ter visto quando era nova”. Truth be told, elegância não vem da roupa, mas da confiança de quem a ostenta. E o remendo que te roça o braço é um lembrete permanente de que as coisas já foram perfeitas, um dia, e o teu descuido as rasgou. Embora a culpa caiba a mim e não à camisa, já não sei se ela é minha preferida. O primeiro rasgo se torna, nesse sentido, o último, porque definitivo. For nothing now can ever come to any good.
March 25, 2005
Old Tories, New Friends and
a Modern Major-General

"Foucault foi o primeiro gay a não ter medo de galinha"
“Mr. WordPerfect” é o apelido –acompanhado de irreprimível esgar que mistura inveja e admiração- pelo qual Alexandre Soares Silva é conhecido aqui na maison McNasty. Tem gente que admira atletas, tem gente que admira modelos. Eu sempre admirei, acima de tudo, as pessoas que escrevem bem. E Lorde ASS, by Jove, sure does. Para testar a validade da alcunha, selecionei uma batelada de posts dele, ao acaso, e a autópsia revela: o cara não desperdiça UMA palavra. Prum bostinha prolixo como eu, concisão é a mais inatingível das virtudes, e o meu estimado colega a esbanja. Besides, o Alexandre tem aquela qualidade que os velhos ingleses designavam como “a nice turn of phrase”, algo que em português um tanto obsoleto eu traduziria por “prosa escorreita”. Ou seja, não só o que ele tem a dizer é em geral pertinente, percuciente and uproariously funny como a forma pela qual o faz exibe aquelas proporções clássicas que combinam rigor e beleza, em qualquer linguagem.
Blogs, claro, funcionam como uma espécie de ação entre amigos, e o meu já mereceu elogios generosos* do Alexandre em mais de uma ocasião. Se bem tenhamos, aparentemente, uma enorme afinidade de gostos, adianto aqui o disclaimer de que não, não conheço o Alexandre (como não conheço em pessoa a maioria dos autores listados à esquerda) e, ao contrário do que alguém me sugeriu em e-mail recente, ele e eu não “conspiramos” para tratar simultaneamente de determinados assuntos em nossos respectivos blogs. Inspiração sim, conspiração não. Mas compartilhamos de uma certa inclinação passadista e da simpatia por figuras que usualmente não constam dos panteões literários oficiais –Wodehouse, O’Brian (e O’Brien), John Dickson Carr. Bem como –suponho- de uma vontade secreta de ser Tories, mas Tories na era do Earl of Beaconsfield, of couse. Além disso, tem pouca coisa mais divertida do que aquela fugidinha matinal ao blog do Cavalheiro do Beri-Beri para encontrar, por exemplo, pérolas como o post dele sobre o medo à galinha, e seu efeito fundamental sobre a civilização (e mais café guspido no monitor).
Tenho amigos blogueiros que não entendem a graça do Alexandre, e outros ainda que o consideram uma espécie de Belzebu direitista dedicado a achincalhar nêguinhos, minas e baitolos. Não que ele precise do meu apoio ou da minha defesa, mas, pô, gente, o objeto da sátira alexandrina não é exatamente o negro, o gay, o pobre, a mulé, e sim a linguagem empregada pelas pessoas obsessivamente preocupadas em “defender” (ou “represent”) o negro, o gay, o pobre, a mulé. Como bom cavalheiro, Alexandre sabe conduzir uma polêmica sem jamais resvalar no ad hominem. O mesmo, infelizmente, não se aplica a boa parte de seus interlocutores, o que provavelmente o terá levado à triste decisão de desativar os comentários em seu blog. O fato é que suas afirmações -“quando uma mulher está fazendo força para ser mulher ela se limita a falar de, e pensar em, relacionamentos fracassados, abortos, e vários tipos de sentimentos asquerosamente delicados. A feminilidade, se é um estado a ser alcançado, é notavelmente parecida com a chatice”- são engraçadíssimas, machistas ou não. Enquanto classificar o autor de “machinho fascista”, como já li por aí, hélas, não é.
Uma dessas histórias que jazzman bêudo conta pra satisfazer os anseios folclóricos de entrevistador honky dispõe que, em 1955, o pianista Horace Silver, em show durante temporada em Philly, permitiu que McCoy Tyner ocupasse o piano para uma canja. O público pediu bis, pediu tris, e quando o moleque (Tyner tinha 17 anos) enfim levantou da banqueta, Silver deu-lhe um aperto de mão –cada vez mais forte, não largava mais. Tyner foi ficando sem jeito, e Silver riu e disse: “Não se preocupe, eu só tô tentando quebrar esses dedinhos”. É mais ou menos como reajo a cada vez que o Alexandre posta –a mais completa admiração temperada por uma inveja disgramada. Para sorte dos muitos leitores que fazem de seu blog uma parada diária, ler o que Lorde ASS escreve me diverte demais para que eu recorra à violência. Encerro citando mais um brilhante koan do mestre: “É estranho, também não sei explicar, mas continuo escrevendo aquilo que eu penso, e não aquilo que você pensa”. And thank you for that, dude.
* Valeram-me, por exemplo, links nos blogs da Marion, da Mariana e da Carla, três diliças transatlânticas que se tornaram leitura cotidiana para o Uncle Filthy.
Camelinho da Páscoa,
que trazes pra mim?

"I find Hollywood really toxic"
Rachel Weisz é mais uma dessas atrizes lindíssimas que só fazem filme horrível – como sabem os meus dois fiéis leitores, elas sempre foram o meu ponto fraco. (Um deles.) Pra sorte da moça, o pai húngaro e a mãe austríaca legaram a ela uma beleza agressiva, completamente Mitteleuropa: olhos intensos, um rosto que oscila com facilidade entre inocência e Kama Sutra. Muitas vêiz azarada em termos de companhia masculina na tela –Keanu Reeves, Brendan Fraser e, no mesmo filme, os dois caras mais mão-mole do cinema moderno, Jude Law e Joseph Fiennes-, dona Weisz é uma daquelas atrizes que justificam fazer porcarias como Constantine e os filmes da franquia A Múmia alegando que a grana que faturam permite que se dediquem aos independentes, no tempo que lhes resta.

Rachel Weisz (1971- )
Longe de mim querer chover na parada da dona Weisz, mas os independentes que ela faz costumam ser ruins de doer, talvez até piores do que as Múmias (que pelo menas oferecem a luminosa presença de Dwayne “The Rock” Johnson, o terceiro melhor ator do universo). Pra não dizer que não recomendo nenhum dos filmes da moça, cês podem tentar Io Ballo da Solla, do charlatão Bertolucci, que no mínimo oferece momentos, er, cândidos de Weisz e Liv Tyler (infelizmente não juntas). Ou, já que sou fã do Michael Winterbottom, posso marromenos recomendar I Want You, um noir não esquemático que quase, quase dá certo. Deixo-vos com as sábias considerações da bela sobre camelos: “Não tenho empatia nenhuma por camelos. Não gostei nem um pouco de sofrer abusos de parte dessas criaturas horrendas, horrendas, horrendas, no Oriente Médio. Eles não gostam de gente”. O to be the hump between those thighs, como diria meu primo Abdullah McNasty, camel driver to the stars.
March 24, 2005
For those about to rock,
shut your pie-hole

Spinal Tap: the best fake rock band ever
Acidentes de percurso profissional me levam a lidar com crítica e/ou entrevista de roqueiro, quando em vez. E, dude, como eles se levam a sério –acho que nenhuma outra catigoria (afora os atores) se leva tão a sério quanto roqueiro. Até os artistas plásticos que afligem as décadas recentes e ganham a vida com blablabla teórico (porque incapazes de desenhar, pintar ou esculpir) demonstram momentos (se bem programáticos) de auto-ironia. Mas roqueiro, ô, quanta angústia. Que crítico de rock (em geral um sujeito trintão ou quarentão esbanjando adjetivos indevidos para elogiar pós-adolescentes*) leve a nhonha a sério é compreensível: afinal, a reputação de presciência deles depende desse poder de descobrir a melhor banda do universo a cada três meses. (E, claro, crítico de rock –excetuado o genial Lester Bangs- jamais pede perdão pelo sofrimento auditivo que inflige aos ouvintes, mercê dessa compulsão.)
Se eu tivesse paciência, pesquisaria entrevistas de roqueiros para provar uma correlação que me parece muito clara, em termos anedóticos: quanto mais a banda ou músico é apontado como genial, menos o cara se diverte, ou admite que se diverte. E quanto mais o sujeito é acusado de breguice, maior a probabilidade de que tanto ele quanto a platéia se divirtam imensamente nos shows. Exemplos claros para esses dois pólos podem ser encontrados no nauseatingly boring Billy Corgan (ex-Abóbras Bobas) e no espirituoso (really) Jon Bon Jovi. Não estou comparando, com isso, a qualidade da música que os dois mongos produzem –pra mim, tanto um quanto outro são tão bem-vindos quanto som de britadeira em manhã de domingo. Mas Bon Jovi pelo menos é desencanado o suficiente para aceitar com certa dose de graça o fato de que rock is meant to be stupid. Nem sempre o é, granted, e muita gente aprendeu a manipular com elegância a tacanhice da forma e produzir música de razoável criatividade (guardadas as devidas proporções, evidentemente –o mais criativo dos álbuns de rock tem menos idéias musicais do que dois minutos de Mingus, ou seis compassos de Stravinsky).
E temos também as questiúnculas acessórias, que são ainda mais irritantes. Um roqueiro o mais das vezes é um sujeito que escolheu dedicar o tempo dele à música, naqueles anos em que as pessoas adquirem, vá lá, “formação cultural”. Isso quer dizer que em lugar de se informar sobre filosofia, literatura, política e economia, ele dedica horas de seu dia a tirar tintim por tintim o riff de uma música do AC/DC. Uns 15 anos depois, quando enfim se torna famoso, obviamente sabe muito pouco sobre quase tudo, mas o fato de que algumas centenas de milhares ou alguns poucos milhões de fedelhos ouçam fervorosamente as platitudes que ele despeja em suas canções fazem com que, yo, o cara se ache mesmo um profeta, e passe a dar palpite a torto e a direito sobre causas e situações com as quais têm familiaridade nenhuma. (E nisso, como em muito mais no rock, boa parte da culpa é dos Beatles –vide “Woman is the Nigger of the World”, de John Ono, canção que Uncle Filthy premiou com o “Troféu Arnaldo Antunes de vá ser chata assim na casa do caralho”.)
Pra mim, é inconcebível que o sujeito realize seus sonhos juvenis, escape à tortura de arrumar emprego e se torne roqueiro, jogador de basquete, qualquer coisa dessas –e mesmo assim não se divirta. Até porque, dude, se a carreira resulta em um mar tão grande de angústias, é perfeitamente viável sacar da parcela do dinheiro que não tenha sido roubada por empresário ou gasta sustentando vagaba e comprando drogas, mudar de nome e abrir uma borracharia. Como propunha Frank Zappa –compositor cuja temática lírica sempre se ateve à idiotia fundamental do rock- “shut up and play yer guitar”.
*vide post recente do comendador Goiaba
Spring is here, I hear

"Love is just a ghost
Spring arrived on time"
Nevasca tardia: é primavera, tecnicamente, e no entanto a cidade acorda amortecida sob uma capa espessa de neve, que os pés dos transeuntes vão lentamente pulverizando e transformando em uma espécie de lodo. Ontem vi o começo da nevasca, da janela do apartamento de 53º andar em que gente que mal conheço celebrava não sei exatamente o quê. Passei seis uísques tentando lembrar os versos latinos sobre a neve, mas que nada. Era atque amemus pra lá, odi et amo pra lá. Memória sempre foi meu pior inimigo, dude –“nescio, sed fieri sentio et excrucior”, que traduzo pobremente como “não sei, mas sinto acontecer e a dor é excruciante”.
“Não sei, mas sinto acontecer”: é uma fórmula patética pra alguém que sempre bateu ponto no relógio dos racionalistas. E quando o resultado é “excrucior”, que buesta. O gentil anfitrião senta ao piano e toca uns 10 compassos de “Spring is Here”, e my date for the party me empurra até lá e me acusa de saber todas as letras. Circunstancialmente, eu sei essa letra –Larry Hart-, e sei o recitativo. Mostro ao anfitrião como tocar –“once there was a thing called Spring/ when the world was writing verses like yours and mine”- e acrescento o “spring can really hang you up the most” de outra canção. Ele ri, me oferece o posto de entretenimento não remunerado, mas volto para o meu lugar, na janela. Excrucior? Não, na verdade. Não se pode definir como “excruciante” a sensação de que as coisas aconteceram como inevitavelmente aconteceriam.
“Life has stuck a pin in the balloon”, there’s Hart for you: irônico e pungente, um judeu gay de um metro e meio que bebeu até morrer aos 48 anos (em uma ironia que ele decerto deve ter apreciado, sua última letra foi para “To Keep My Love Alive”, canção que narra as centas maneiras pelas quais uma mulé assassina seus cônjuges, incluindo “Sir Atherton indulged in fratricide/ He killed his dad and that was patricide/ One night I stabbed him my my mattress side”). Dizem que Hart bebia porque sofria de major unrequited love pelo parceiro Richard Rodgers, hétero. História provavelmente apócrifa, como quase todas essas são, but it rings true: uma parceria como a deles é sem dúvida uma história de amor, e os românticos irrecuperáveis bebem até morrer exatamente porque acreditam que o amor não tem limites. Nescio, sed fieri sentio et excrucior.
Marco um almoço aqui, uma ida ao cinema acolá: os amigos de Miss T. são gente finíssima e, se bem eu jamais vá ser exatamente a alma de uma festa, ao que parece minha presença foi apreciada. Saímos de braços dados, desesperadamente à procura de um táxi (muito longe pra voltar a pé, no meu caso, crosstown e salto alto, no dela), e caminhamos em silêncio sob a neve irregular, que cai em grandes flocos com um lento splóóóótch –como uma espécie de cocô de passarinho gigante. Sob o toldo de um condomínio com nome pretensioso em que nos abrigamos de algumas rajadas mais fortes, ela me beija. Odi et amo. Quare id faciam? fortassi requires. (É tudo uma questão de quem eu amo e de quem eu odeio, Catulo, dear.) Spring will really hang you up the most.
March 23, 2005
Espantalhos, despertadores,
góztózas, tarados

Separated at birth? (O sombrio mistério do dedo perdido:
torno ou sabre de luz?)
Os espantalhos eletrônicos que aqui gorjeiam: Os chineses importaram dos EUA um espantalho eletrônico para afastar os pássaros que fazem ponto no aeroporto de Pequim –boa porcentagem dos acidentes de aviação envolve passarinho zonzo atropelando Boeing. O espantalho é um gerador de ruídos que supostamente espantam os pássaros (provavelmente uma versão de “We Are the World” pelo elenco de American Idol), mas os passarinhos chineses não se assustaram com as ameaças estrangeiras. Fosse no Brasil, com sua longa tradição de galeto suspeito e churrasco de gato, era só convidar o pessoal do pagode pruns cocréti na cabeceira da pista. Às vezes é miló ser low tech.
“Branca, branca, rendada, preta, OBA!”: Kazuhide Uekusa, economista japonês, foi julgado e condenado por usar um espelhinho para bizoiar as calçolas de uma normalista nipônica, em abril de 2004, na escada rolante de uma estação de trem. Um dos diletos amigos de primeira adolescência do Uncle Filthy chegou a colar um caco de espelho no Bamba, para obter efeito semelhante, mas ao contrário do pusilânime oriental não foi apanhado em flagrante ou condenado a pagar multa de 500 mil ienes, nem perdeu o emprego na universidade ou as boquinhas como comentarista econômico de TV. Mas a parte mais legal da punição, pra mim, foi o fato de que a promotoria exigiu que o professor entregasse o espelhinho. Really? E o que mais, vão passar um fax com a foto de Uekusa para todas as lojas de espelho do Japão, proibindo-as de atendê-lo? Espero que o nosso nobre correspondente Rafael dirima as dúvidas jurídicas suscitadas pela medida. Com você, Yabbai.
To kill a mocking clock: A New Scientist da semana publica reportagem sobre brilhante invenção do laboratório de mídia do MIT: um despertador que, quando o mano aperta o botão soneca pra dormir mais 10 minutos, muda de lugar. Certas pessoas near and dear to Uncle Filthy’s heart vão tascar muito sapato no escuro tentando acertar o volúvel Clocky. Aposto que já tem coreano desenvolvendo um híbrido de Clocky com robô lutador de Tae Known Do, pronto a reagir com cuteladas a cada vez que o usuário sonolento desce porrada no relógio.
A fórmula do amor: Uma das graças soberanas de viver em país rico é que os acadêmicos descolam verba pras pesquisas mais estapafúrdias, como prova o trabalho do Dr. Hans-Werner Bierhoff, da Universidade do Ruhr, em Bochum, o qual conduziu um estudo cuja conclusão científica é a de que os parceiros em uma relação romântica precisam fazer cinco elogios para compensar cada crítica que façam a(o) significant (b)other. Portanto, rapazes, a cada vez que vocês quiserem emitir alerta adiposo para as namoradas, o esquema funciona assim, ó, de acordo com a legítima tecnologia alemã: “Nossa, Maria Alice, como você está gostosa, hoje. Adorei o esmalte. Será que você podia me explicar de novo o que o diretor queria dizer com Closer? (Eu sou meio lento.) Demais aquele fish à la banana que ocê calcinou ontem. Não, joanete pode ser sexy, baby. Escuta, essa calça te deixa gorda”. Quem conseguir escapar sem uma frigideirada na cabeça ganha o troféu McNasty.
Que bagagem: No Canadá, a população votou pela remoção de uma estátua chamada “The Baggage Handler”, que costumava enfeitar uma rotatória de trânsito em Penticton. A estalta mostrava um cara peladão carregando uma mala, e com o passar do tempo sofreu diversos ataques de vândalos, entre os quais a excisão sumária da, er, bagagem frontal do sujeito, apelidado “Frank”. O artista queria 20 mil dólares para consertar a obra emasculada, mas a cidade preferiu pagar 300 mangos e mandar o eunuco escultural pro mesmo limbo que abriga as malas desaparecidas em vôo.
She feels pretty.. and smart: Desiree Goodwin está processado a universidade Harvard por discriminação, alegando não ter sido promovida a nenhum dos 16 postos a que se candidatou na instituição, desde 1999, porque era vista como "apenas uma garota bonita” sempre vestida de modo muito “sexy”. Uncle Filthy, que já sentiu na pele o peso da discriminação que o mundo cruel pratica contra gente bonita ou góztóza demais, se solidariza incontinenti com o processo de dona Goodwin e, morasse em Massachussets, decerto formaria uma ONG exigindo o direito de ser atendido por bibliotecária góztóza. Chega dessa absurda reserva de funções para mocréios e mocréias. Desde que Denise Richards provou que é possível, sim, ser sexy e física nuclear, em um filme de Bond, eu antecipava o levante dessa massa oprimida de mulerão. Pódiscrê. Góztóza unida jamais será vencida. E enquanto Brad Pitt não ganhar o Nobel de Química, a injustiça perdurará.
A game always worth the candle

"Rain, wind and fire! The secret, bestial peace!"
Não sei se é um traço comum entre todas as turmas de moleques e adolescentes (não sei, aliás, se ainda é comum ter uma turma, à moda de décadas passadas), mas –fedelho criado em família grande e morador contumaz de apartamento- dediquei larga porção daquela era risonha e franga a uma atividade que sempre associei a turmas: os jogos. Pebolim, snooker, War, Scotland Yard, Diplomacia, Banco Imobiliário –em petiz (ô, como é difícil arrumar um pretexto pra usar a elegante palavra “petiz”) eu terminava jogando alguma coisa todos os dias. Pra não falar dos jogos de cartas. (Lembro perfeitamente do dia em que, aos seis anos de idade, tive que separar uma briga de meninas porque a Mirela tinha acusado a Karina de passar o mico pra frente sem esperar a rodada regulamentar de quarentena. Levei o mó arranhão no braço.)
No final desse período, já hirsuto e dimaió, arrumei um emprego/estágio em uma firrrma que produzia simulações –tanto jogos de tabuleiro de base histórica quanto projetos usados, por exemplo, para treinamento em empresas- e com isso estendi por mais algum tempo minha juventude de jogatina. Porque eu era um tanto cabeça naqueles anos (mea culpa, mea culpa), dediquei algumas horas de leitura aos jogos, tanto em seu aspecto puramente analítico (teoria dos jogos e que tais) quanto à psicologia da coisa (os bizi me “explicaram” a importância dos jogos para a, god forbid, “socialização” dos petizes -oba!-, como se a unhada da Karina não tivesse demonstrado esse fato dolorosamente quase 15 anos antes).
Hoje em dia, se bem eu assista àqueles filmes dos anos 50 e 60 em que o marido tem uma roda de pôquer com profunda, profunda inveja, raramente jogo –quer dizer, pelo menos raramente jogo em grupo, porque adoro videogame (e quem nunca jogou GTA ou Bad Mojo que atire a primeira pedra). Vai ver que não preciso mais de socialização. (No entanto, se me permitem a digressão, vasta proporção das idiotias reengenheiras e assemelhados a que fui submetido em todos esses anos trabalhando pra firrrma metida a besta termina envolvendo alguma variedade de jogo –em certa ocasião memorável, um torneio de paintball niquiq o odiado chefe terminou com as costas do macacão cobertas de manchas de disparos dos subordinados a quem liderava em batalha –os deliciosos dias do fragging, tão querido dos sordados americanos no Vietnã, não morreram, afinal.)
Apesar de meu apego a jogos meio cabeça, quando penso no assunto hoje em dia a maior saudade é de um jogo de baralho sumamente idiota, chamado Mau-Mau, que minha turma mais querida de amigos (uma mistura de vizinhos, colegas de banda e companheiros de escola) virava noites jogando antes de Thomas Edison inventar a eletricidade. É um desses jogos em que vence quem descartar primeiro todas as cartas que tem na mão, governado pela regra de que o descarte tem de ser do mesmo naipe ou do mesmo número da carta que está no topo da pilha. Como costumava dizer o Silvinho, em voz de Chacrinha, “não requer prática nem tampouco habilidade”, mas tem lá seus truques: determinadas cartas penalizam o jogador seguinte, ou anterior, fazendo-o comprar do monte; ou servem como coringa; ou “viram” a ordem de descarte; ou fazem um jogador perder a vez.
A graça peculiarmente brasileira do mau-mau é o fato de que, na prática, vencer é menos importante ou divertido do que impedir que o outro vença. O jogo, pelo menos na forma como minha turma sempre o praticou, tinha aquela deliciosa carga de maldade (que meus genes sicilianos especialmente apreciam) gerada por um espírito de união cujo ethos único é sacanear o próximo. Os mano da teoria dos jogos, os bizicólogos que discorrem de modo tão erudito sobre a socialização e os consultores que criam joguinhos inanes para fomentar o team spirit provavelmente preferem ignorar esse aspecto dos jogos, mas o mau-mau me ensinou –sem nenhuma necessidade de teoria- que a modalidade mais comum, mais fácil e provavelmente mais agradável de união é a união CONTRA alguém, ou alguma coisa. Tenho saudades do tempo em que união para sacanear o próximo era prática estritamente confinada ao baralho, e dos amigos que sabiam perfeitamente disso. Assim, Carlão, Edu, Johnny, Júlio, Karla, Penélope, Priscila, Renata, Ricardinho, Serginho, Silvinho, Simone, Teca: mau-mau procês. And I miss you all.
March 22, 2005
Ê, ô, ê, ô, o Anhanguera é um terrô

Botando o Olaria em campo
Meu pai cresceu em família de 10 irmãos –se incluirmos nonno Ercole e nonna Herminia no cômputo, ele constituía minúscula e oprimida minoria corinthiana num lar dividido entre tricolores e palestrinos. Sêo Luigi e quase todos os irmãos eram jogadores razoáveis de futebol, e bons dançarinos (um deles, Guy, continua, passados os 60, a ser um exímio pé de valsa). Para o clã Norogna, futibór era coisa muito séria, e a paixão pelo esporte infectou a geração que se seguiria –tanto eu quanto meus primos éramos torcedores fanáticos desde moleques e, porque a história se repete em fezzo, passei a ser a minoria corinthiana oprimida em meio a um mar de palmeirenses e são-paulinos. Com duas diferenças essenciais, though: quando o babbo, nascido em 1941, virou corinthiano, o time ganhava tudo, enquanto eu passei a infância naquela longa seca de títulos que valeu ao escrete mosqueteiro o apelido “faz-me rir”. Plus, eu sempre fui grosso. Terminalmente. Em qualquer posição. Em qualquer modalidade das lides ludopédicas –campo, salão, várzea, gol a gol no quintal da tia- Uncle Filthy sempre viu a bola nascer quadrada.
Nonno Ercole era assíduo freqüentador de um clube de futebol de várzea da Barra Funda, o velho bairro operário paulistano em que a família vivia, e quase todos os seus filhos passaram pelo lendário esquadrão do Anhanguera, presença imprescindível nos torneios matutinos do CMTC Clube. A divisão de interesses dos freqüentadores do clube era claríssima –os mais jovens jogavam bola, os mais velhos jogavam boccia, todo mundo bebia pra cacete, mulher não entrava e qualquer pretexto servia pra convencer os silvícolas a sair na porrada. Se bem meu pai e meus tios sonhassem ver os respectivos filhos honrando a camisa vermelha e branca do “Bambambam da Barra Funda” (marchinha carnavalesca que servia de hino ao Anhanguera), quase nenhum deles continuou morando no bairro depois de casado, e com isso minhas visitas ao clube foram poucas –se bem infalivelmente divertidas.
Os velhos italianos que formavam a base de sócios eram todos, claro, muito racistas, ainda que os muitos anos de Brasil tivessem servido pra que aprendessem a conviver bem com os afrodescendentes que começaram a ocupar o bairro e, com o tempo, conquistar vagas no time do Anhanguera –afinal, os jovens italianinhos tinham todos se mudado para bairros “granfa”, como diziam os nonnos com desdém. O primeiro negro a se tornar sócio do clube, e provavelmente o primeiro negro a descer bordoada em um italiano e ser aplaudido pelos velhinhos, era um sujeito forte, alto, ferroviário aposentado prematuramente depois de um acidente de trabalho. Quando abandonou a cancha, se tornou juiz oficial dos jogos do Anhanguera, e seu fino senso de patriotismo local rendeu muitos pênaltis dúbios e impedimentos inexistentes em benefício das hostes alvi-rubras. Porque o juiz tinha perdido um braço em infeliz encontro etílico com uma locomotiva, obviamente os velhos corneteiros italianos o apelidaram “Polvo”.
Na última vez em que fui ao Anhanguera eu tinha uns 14 anos. O jogo era um “contra”, e os adversários eram moleques de uma metalúrgica do ABC, todos excelentes jogadores. Apesar dos melhores esforços do Polvo e do uso liberal do jiu-jitsu pela zaga do Anhanguera, o jogo já estava três a zero pros visitantes no primeiro tempo quando o juiz se viu obrigado a marcar uma falta contra o time da casa. O faltoso, um moleque mulato com cara de mau caráter, imediatamente xingou o juiz de “aleijado filha da puta”, e o Polvo usou a mão que lhe restava para aplicar-lhe sonora bolacha. O time adversário imediatamente se escondeu atrás do gol, perto do tapume, e o time do Anhanguera pôs fim ao jogo brigando entre si, metade defendendo o juiz, metade acusando-o do hediondo crime da imparcialidade. No meio da confusão, o que mais se ouvia eram os palavrões que o Polvo bradava, em italiano impecável –era “figli puttane” pra cá, “affanculo” pra lá. Meu avô sorriu com a bola de boccia na mão: “É por isso que eu amo esse clube”. Quando morreu, só de sacanagem, deixou instruções severas para que o Polvo fosse um dos carregadores do caixão -do lado em que não tinha braço, claro.
Let me be the judge of that

"Senhor juiz, pare agora"
O juiz que está presidindo ao julgamento de Michael Jackson é o rei da gag order: para impedir que as pessoas envolvidas com o assunto falem publicamente sobre o caso, e assim alimentem o fuzuê idiótico da mídia, ele usou o poder da supertoga e determinou que todo mundo cale a boca, sob as penas da lei. O juiz –Rodney Melville-, ao contrário de alguns de seus colegas envolvidos em celebrity cases precedentes, parece razoavelmente sensato, mas, dude, tenho certeza de que ele se contempla ao espelho antes de dormir e fica imaginando se escolheu a profissão certa.
Já eu fico imaginando por que qualquer pessoa escolheria ser juiz –não só juiz “de verdade”, mas juiz de futebol, por exemplo. Suponho que parte do apelo seja a grana, a perspectiva de emprego garantido e relativamente bem remunerado pelo resto da vida. Mas será que em nenhum momento as considerações morais relacionadas ao cargo se fazem sentir, na hora de optar por ser um profissional do martelo? E não, eu não quero dizer no senso mais elevado, aquele que potencialmente envolve responder pela vida de um sujeito passível de sentença de morte –essa questão já foi debatida por gente muito mais competente do que eu e, er, não temos um veredicto conclusivo. Na condição de legítimo devoto da pouca mixaria, o que me interessa mais é de que maneira um juiz decide, por exemplo, um caso de contrabando, tendo em vista que quase todo mundo cometeu o delito, em pequena escala, ou dele se beneficiou. Será que o juiz, do alto de seu púlpito, não pensa nunca um “oops, who am I to judge?” (e responde com “you’re the judge, you idiot”.) Ou essas pequenas mixarias que são consideradas crimes em muitos lugares –dirigir bêudo, ser apanhado com três cigarros de maconha, fazer contabilidade criativa na hora de declarar impostos: todos os juízes do mundo estão infalivelmente “acima” delas?
Eu tô perfeitamente ciente do argumento de que a presença do juiz pode servir exatamente pra que esse tipo de fator seja levado em consideração –que um ser humano falível esteja encarregado de julgar a falibilidade humana deveria ou poderia ser uma espécie de garantia de que o rigor da lei as written seja atenuado pelo bom senso. Mas não é isso exatamente que me preocupa. Pra mim, o que fascina é imaginar por que o juiz se acha apto a, ou mesmo deseja, ser juiz. Minha amiga Flávia Andréa, bizicóloga das estrelas, uma vez disse que o mais provável motivo para que um sujeito deseje ser juiz de futibór é que odeie a mãe, e portanto ouvir o corinho em que o estádio elogia as práticas profissionais de sua progenitora seria não um castigo, mas uma sastifação. Eu sei lá, mas a mim parece que é preciso haver alguma coisa de slightly disturbed, ou patológico, na personalidade de quem ganha a vida como juiz.
Outra amiga, que se tornou juíza e por isso shall remain nameless (era uma pessoa normal quando nos conhecemos), diz que eu “leio” demais, quanto a isso. Ser juiz é um trabalho técnico como outro qualquer (e, pra enfatizar o argumento, ela aponta para partes do meu passado negro como redator de propaganda eleitoral em benefício de candidato scary creepy). E eu até que concordo. Mas esse lado “técnico”, no caso de um juiz, também tem implicações assustadoras. Exemplo rapidinho: se você é juiz num país onde um sistema de apartheid é parte da norma legal, um monte de decisões tecnicamente corretas à luz da lei serão necessariamente decisões moralmente erradas à luz da decência.
Uma boa parte da liturgia do Direito tem por objetivo estabelecer e preservar o caráter dual dos juízes –por sob a toga pode haver um homem, mas os paramentos todos do posto indicam que, ali, o homem representa a majestade da Lei. (E aquelas perucas que os juízes usam nas cortes Brit tem alguma coisa de drag queen about them: devem querer significar que, como o cego Tirésias, juízes são homens que já foram mulé, ou vice-versa, o que sinalizaria tremenda imparcialidade.) Em um dos contos de Gog (1931), de Giovanni Papini, o protagonista (biliardário que enriqueceu por meios ilícitos e dedica a velhice a percorrer o mundo conhecendo pessoas célebres –reais e imaginárias) é apresentado a um sujeito que criou uma máquina (possível precursora do computador?), a qual, alimentada com todos os fatos referentes a um caso, não só determina quem é e não é culpado como calcula com exatidão matemática o castigo. Desde que o software não seja produzido pela Microsoft, a idéia –se bem fantasiosa- continua a me parecer menos repulsiva do que ter um bestalhão de peruca lá fingindo onisciência enquanto abafa os bocejos (ou, como aconteceu recentemente em um desses Estados jecóides do sul dos EUA, tipo, er, propicia prazer aos seus naughty bits por sob a bancada). I rest my case.
March 21, 2005

I resolve to call her up
A thousand times a day
And ask her if she'll marry me
Some old-fashioned way
But my silent fears will grip me
Long before I reach the phone
Long before my tongue has tripped me
Must I always be alone?
Yours for the taking

Body and soul (with no particular place to go)
Todos os sinais verdes para ele: o cabelo que ela ainda trazia levemente desordenado no ponto que ele amarfanhara à maneira brincalhona de um adolescente, a alegria nos olhos que não se desviavam dos dele por um segundo sequer, os lábios ligeiramente inchados formando uma moldura cherry red para o sorriso e a ponta da língua rosada que surgia de vez em quando como um lembrete de que, yeah, sex included, o vestido azul marinho que desenhava uma estranha janela trapezoidal para o colo, a corrente escura que acentuava os ossos salientes das omoplatas e o aclive dos seios, com um pendant cuja ponta repousava exatamente no limite superior do cleavage. No carro, o estranho, lento e torto percurso que ela escolheu de Duchess County para a cidade, Van Morrison sendo Van Morrison –too long in exile-, o movimento incisivo e coordenado das pernas a cada vez que ela trocava de marcha no Mustang stick-shift, expondo um palmo de coxas níveas, o zumbido da bebida, a voz pastosa entre os países baixos, o coração e o cérebro recomendando go, go, go, mas o sopro gelado na boca do estômago disparando ordens de cease and desist.
Dada a oportunidade, todo mundo pode ser calhorda. Ele sabia. Tinha sido. Sabia, mais: voltaria a ser. Mas não necessariamente naquele dia, naquela hora. Em meio à música e ao zumbido do vento que sibilava pelos pontos mal vedados de atracação da capota conversível, ele se ouvia sendo flirty, sendo –a seu modo- charmoso, sendo naturalmente –esperava- engraçado, e cronometrava as pausas e as reações dela –as risadas, os olhares intensos lançados nos trechos retos da estrada, a capacidade incomparável e inesperada que ela demonstrava de alimentar o innuendo, e fazer dele uma estranha bola de neve quente, cheia de promessas, ou uma espécie de ovo de páscoa gelado por fora mas repleto não de bombons e sim de sacanagem, ou até melhor, de promessas de sacanagem de um tipo que ele sonhara durante anos, e exatamente com uma mulher como ela. “Carrots, silence, exile”, ele disse, tentando destraduzir o mote de “astúcia, silêncio, ervilha” que Van Morrison e aquele outro irlandês tarado lá lhe haviam sugerido depois do terceiro Jameson, e a risada dela enchendo o carro, os ouvidos, a alma.
Homens –pelo menos os românticos irrecuperáveis como ele- passam anos sonhando com momentos como aquele –a mais desejável das mulheres sinalizando freneticamente o status de “yours for the taking”, e no entanto, a 20 milhas de casa ele sabia que não, não ia rolar. Não podia rolar, não devia rolar, não ia rolar. E saber que aquela efusão toda de tesão, álcool e alegria ia terminar com um beijo no rosto, uma proposta chocha de novo encontro que nenhum dos dois jamais levaria adiante –ela por raiva, ele por covardia- o enchia de ainda mais uma variedade –essa quase inédita- de culpa: a vontade era pedir que ela parasse o carro por cinco minutos pra dizer, “ô, nenê, infelizmente eu num vou te comer”. E o conceito infantilóide de honradez que carregava consigo como marca permanente de acne moral o teria levado a fazê-lo, não fosse a certeza de que ela imediatamente riria e alegaria que, bom, nem estava pensando em dar, de qualquer jeito.
Um Mustang, um casal, um cantor e 17 formas de culpa na estrada para casa em uma noite fria de sábado. Na porta do prédio, a angústia de descer rápido do carro antes que a tentação apresentasse nova face, essa quem sabe irresistível, e a vontade de prolongar a conversa, e o olhar no rosto da moça esperando o convite para o nightcap, e o medo de fazer misturado ao medo de não fazer, a vontade de beijar o ponto em que o osso da omoplata se une ao pescoço, a decepção permanente com a bundamolice irremediável: “Tá tarde, preciso entrar”, ele disse, como uma teenager em filme B, e aproximou o rosto do rosto da moça para um beijinho de boa-noite, dobrando o pescoço em ângulo acrobático pra evitar qualquer risco de que lábios se encontrassem por acidente ou “acidente”, o brilho da compreensão e da decepção nos olhos dela, o desespero de encontrar a chave certa para todos os portões e portas que ele teria de atravessar antes de chegar à fortaleza da solidão, e o medo súbito quando viu a janela do lado do passageiro se abrindo. “Obrigada por uma noite adorável”, ela disse, com um sorriso na voz. “Te ligo amanhã”. Ele contemplou as lanternas peculiares do Mustang dela desaparecendo Quarta Avenida acima. Entrou em casa e nunca mais dormiu.
Museu de Cera McNasty

Waxing nostalgical
Eu nunca consegui entender por que as pessoas vão a museus de cera. Em um museu de verdade, cê vê coisas que nunca viu, ou pouco viu, e há um certo esforço em apresentá-las sob as normas, vá lá, “científicas” da pesquisa histórica. Em museu de cera, o cara vai ver uma figura tridimensional das mesmas celebridades às quais num consegue escapar por meia hora em sua vida cotidiana, e usualmente paramentadas com a indumentária que as torna notórias (o que deve implicar que Jacko em breve surja em jailbird suit e acompanhado de um menino marromenos da altura de sua virilha, chez Madame Tussaud). Mas sempre achei meio bizarro que as pessoas se dispusessem a passar horas numa fila pra ver estalta perecível das Spice Girls.
No entanto, pensando bem, eu também visito os meus museus de cera –e nesse final de semana, espetacularmente shitty by any measure, acabei dando o benefício da dívida a não um, mas três deles. Eu já gostei pra caramba de Woody Allen, e continuo achando que Crimes and Misdemeanors um dia vai terminar reconhecido como o grande, grande filme que é, mas admito que a produção recente do tio Konigsberg é waaaay boring. Por isso, não pretendia assistir Melinda and Melinda, até que li crítica do sêo A. O Scott, ou algo assim, sobre o opúsculo, no New York Tabloid. O texto ia naquela lengalenga de crítico de jornalão até que o Scott on the Rocks decide ressaltar que “Mr. Allen, depois de uma carreira de cinco décadas como cineasta em Nova York, enfim incluiu dois personagens negros, sem sensacionalismo ou estereótipos”. Pô, Scott brite, qual é? Tem lei de cotas pra presença de afrodescendentes em filmes? As histórias de Allen se passam basicamente entre os judeus e WASPs da classe média alta da cidade –por que cazzo ele deveria necessariamente incluir uns blacks nos roteiros? As tokens? Ou, como a Grobo, em funções servis (pra, aí também, ser acusado de racismo?) E, by the way, por que ninguém reclama a mesma coisa quando jovens cineastas negros fazem filmes sobre life in da ‘hood? “Mr. DeShawn Al-Kwaanza infelizmente não cuidou de incluir personagens hispânicos ou caucasianos que reflitam o caldinho de raças da megalópole”. Mas, hélas, o filme é uma miércoles, mesmo. Se as entrevistas procedem e Allen pretendia homenagear os grandes George S. Kaufman e Ernst Lubitsch, terminou é guspinu no túmbalo dos mano.
E falando em crítico de cinema, tudo bem que Pauline Kael era mala, mala, mas pelo menas existia alguma consistência intelectual por trás das diatribes que ela regurgitava, e alguma explicação para que encontrasse genialidade em uma penca de filmes que ninguém via, então, e ninguém –graças a deus- nunca mais vai ver. Já Manohla Dargis,a principal resenhista de cinema no New York Tampon, emula a ranhetice de Kael, exibe a mesma deselegância no trato de filmes que vivem muito bem sem os críticos, mas, alas, talento que é bom, none. E a crítica dela a The Ring Two é prova boçal da alegação. Dedica um total de um parágrafo a tirar barato do filme e, pra completar a centimetragem, gasta 2,5 mil caracteres generosamente aconselhando Naomi Watts sobre como conduzir sua carreira. Quando Uncle Filthy e subrinha nibelunga foram ver o primeiro The Ring, o sempiternamente sábio Oramdir resumiu o filme muito bem: “Nota 2, e nota 10 pros mamilos da Naomi Watts”. I rest my case. Mas que é hilário ver crítico cabeça detonando horror trash refilmado com participação especial de Sissy Spacek relembrando Carrie Bradshaw, a estranha, ô, se é.
Não sei se algum dos meus dois fiéis leitores é dado a esses hábitos juvenis, mas eu ainda espero certas coisas com aquela sensação de que, yo, elas têm necessariamente de ser boas –o disco novo de num-sei-quem? Playoff da NBA? O novo romance do escritor de thrillers favorito? Um filme como The Aviator? TEM que ser bom. É, eu sei: ótimo jeito de me decepcionar mais vezes do que seria estritamente necessário. Dimóddusqui quando acorri ao Shubert Theatre para assistir a Spamalot, eu estava mais preparado do que habitué da sessão da meia-noite do Rocky Horror Picture Show –eu e metade da audiência, aliás. (Tinha um cara em algum lugar do teatro que passou a peça toda repetindo os bordões de The Holy Grail, e sempre na hora errada, coisa que os Pythons teriam apreciado pacaramba, se estivessem lá.) Até ri bastante com alguns dos sketches. Mas faltava alguma coisa. Era como um show de uma ótima banda cover: os caras sabem tocar, tiraram tudo nota por nota, até desafinam menos que os originais -mas falta alguma coisa essencial, um certo élan. Plus, uma parte essencial do humor do Monty Python é a Britishness deles, o respeito avassalador pela tradição e pompa, a famosa fleugma imperturbável, o amor pela excentricidade, tudo misturado e acrescido de toques surrealistas. Ninguém é tão engraçado quanto as otoridad nos sketches dos Python. Os americanos, cujos mitos sociais e culturais são muito mais democráticos e igualitários, don’t quite get it. No fim, acho que me diverti mais com a parte “nova”, do espetáculo, que consiste de uma série de paródias a shows da Broadway e coisas como American Idol, muitas das quais a cargo da maluquete (e gostosa) Sara Ramirez. E tem pelo menos uma canção, “The Song that Goes Like This”, que se aproxima do padrão de qualidade dos Python (pra mim, é especialmente engraçada porque é uma espécie de fórmula infalível pra compor um hit do Andrew Lloyd Webber, um sujeito que tá na minha lista de 10 pessoas a serem instantaneamente assassinadas whenever I meet them).
O diretor da bagaça é o very, very overrated Mike Nichols, que todo mundo diz que é gênio mas, como provam Closer e quase tudo mais que ele fez, é uma espécie de Gerald Thomas big budget –fala pelos cotovelos, posa de ousado e é só mais um pilar do establishment dizendo “porra” na missa. Eric Idle, o único Python envolvido, provavelmente não quis zoar muito com os trechos que manteve do original, porque os integrantes do grupo são famosos pelo respeito homicida ao texto de seus sketches. E o resultado é mais um desses mega-shows da Broadway. Não é que eu não tenha chorado de rir, mas, yo, ri mais ainda com a unintentional comedy de Phantom of the Oprah no cinema. Humor baseado em respeito é uma fórmula fadada ao fracasso e, se os Pythons a tivessem seguido no final dos anos 60, não nos teriam brindado com as horas de gargalhadas que espalharam pelos palcos e telas. Tasca aí mais meia dúzia de estalta no museu de cera, mano.
March 18, 2005
Keep me moving, yeah (right)

"See how it feels, goin' mobile"
Até os 25 anos, eu não era grande coisa como homo domesticus. Pelo contrário, até –costumava sempre carregar na mochila os implementos básicos pra passar um ou mais dias fora sem precisar voltar à, er, “base” para obter suprimentos. E, nos meus anos juvenis de Estados Unidos, os carros que tive serviam como quase-casas: uma penca de livros, muda de roupas, apetrechos de banho, um saco de dormir, tudo sempre pronto, no porta-malas protegido por uma corrente da espessura de um braço, pra evitar que algum aventureiro lançasse mão das únicas coisas verdadeiramente preciosas que eu tinha, então –instrumentos, amplificadores, esses trecos.
Uma das minhas canções prediletas era "Going Mobile”, do Who, especialmente o trecho “I don’t care about pollution/I’m an air-conditioned gypsy/ That’s my solution/ Watch the police and the taxman miss me/ I’m mobile”. Se era ingenuidade juvenil? You bet. Mas era também indicativo de ansiedade, ou de inconformismo, ou de respeito à mais persistente das tradições adolescentes, fugir à responsabilidade. De uma certa forma, saber que eu não precisava ficar “lá”, não importa o lá, e estava sempre pronto pra partir era uma espécie de fortaleza –a fortaleza do desapego, talvez. E o meu lado historiador, à época, vivia fascinado com os povos nômades, com as sucessivas levas de fedebundos a cavalo expelidas pela estepe em direção às partes civilizadas da Eurásia. Pra não falar dos músicos, claro, de todos aqueles sujeitos que eu idolatrava e para os quais casa, o mais das vezes, era um quarto de hotel no bairro black de algum lugar.
Apesar desse hipotético amor pela mobilidade, porém, eu já começara a acumular tranqueira –livros, discos, partituras-, e o meu lado gay (afinal, ninguém escapa impune a um segundo grau que supostamente o habilita “técnico em arquitetura”, god forbid), sentia o empuxo da maré doméstica –ter uma casa, ter uma boa casa, ter uma bela casa. E a mistura habitual de acomodação, relacionamento afetivo estável, um vislumbre de dinheiro me conduziu ao infame settling down. Comecei a ficar very fussy com coisas de casa, o que exatamente comprar como mobília, que iluminação usar para exibir a parte da minha biblioteca que eu usava como ferramenta de bazófia, na sala. Morando junto com uma moçoila chegada a fazer ninho, logo me vi habitué de loja de treco –Ikea, Habitat, Tok & Stok. Encontrei consolo no Larkin, como sempre (“books, china, a life/ reprehensibly perfect”), mas nos momentos de insatisfação profissional, afetiva, até política, eu ainda sentia, amortecido sob a pilha de almofadas, esquecido no escuro pelas luminárias suecas, o ímpeto surdo da mobilidade, me convocando para a pilhagem.
Deve ser por isso que, apesar de estar uma vez mais fazendo ninho, ainda me surpreendo ao apanhar a guitarra e, sem intenção, me ouvir dedilhando aquela seqüência de E, F#m, D, G, D/F#, e cantarolando a canção do tio Pete. Por mais que a vida me tenha tornado pacato, caseiro, oh so utterly pussy-whipped, de vez em quando ainda abro a janela e ouço lá fora, entre o tamborilar da chuva e o chiado dos carros, o relincho distante dos cavalos da minha horda de um. (E aí, claro, fecho a janela correndo porque Ms McDirty tá morrendo de frio, roubo um beijo no trajeto entre a janela e o fogão, ponho a água pro chá. Ma che mobilidade, que nada.)
This hurly-burly of insanity

"They were lovely illusions, reaching high, built on sand"
Truísmo: envelhecer é inevitável. Propósito: não ser ridículo ao longo do processo. Na era da juventude cover e das plásticas assustadoras, tem poucas, vá lá, “celebridades” que conseguem administrar “age, and then the only end of age”, sem esbarrar no Botox ou sem estadia undercover na ilha do terror do Dr. Pitanguy. Uma das raras exceções é Marianne Faithfull, que foi uma das moças mais diliça dos anos 60 (embora, admito, de aparência meio sujinha pro gosto do Uncle Filthy) e sobrevive 40 anos mais tarde exibindo com elegante dignidade os efeitos, e até os estragos, do tempo. (Plus, aprendeu a cantar, o que mais que compensa a perrrca em termos de looks.)

Marianne Evelyn Gabriel Faithfull (1946- )
Faithfull acabou por largar o pop insosso –até as boas composições do namorado Mick Jagger e Keith Richards soavam bundinhas em sua voz, back then- e passou por aquelas desventuras geracionais características –major addiction to heroin, dificuldades com a polícia- e outras nem tanto –viveu homeless durante dois anos depois de perder o contrato com a gravadora e se afastar dos amigos, na procura desesperada por heroína. Mas, como sói aos aristocratas vienenses de quem descende (uma linhagem que inclui, entre outros maluquinhos, o barão Leopold von Sacher-Masoch), Lady Marianne se recuperou e, em 1995, celebrou Kurt Weill com 20th Century Blues, um CD ao vivo que inclui, além das composições do homenageado, a deliciosa faixa título, de Noel Coward, e a megadiliça “Want to Buy Some Illusions” –(“want to buy some illusions/ slightly used/ second hand?”), composta por Friedrich Hollaender, o compositor favorito de Josef von Sternberg, para A Foreign Affair, de Billy Wilder, e gravada originalmente por Marlene Dietrich. Se eu sobreviver a asma, Al Qaeda, American Airlines, amores e alcachofras, quero esbarrar nos 60 parecido com Ms Faithfull: com a cara que os anos venham a me dar e sem medo de olhar no espelho.
March 17, 2005
Nature calls

"If the worst... of flawless weather is our falling short"
Minha sina é me apaixonar por mulé que gosta de praia, ou, pelo menas, de vida praiana, anfíbia. Sou urbanóide demais pra encontrar poesia nos folguedos costeiros –praia é um monte de areia (ou desagradáveis pedregulhos variados) do lado de cá, um monte de água do lado de lá. Minha idéia de tédio é uma dessas viagens de carro à beira-mar em que os companheiros de jornada periodicamente contemplam a paisagem marinha e proclamam coisas como “olha só que azul!” É, dude, eu vi. Não precisa repetir pela sétima vez. Uma das minhas namoradas praieiras desenvolveu a hipótese de que o provável era que eu não gostasse das praias turísticas, das barraquinhas vendendo frituras variadamente fedorentas, das pessoas ouvindo pagode e se empanturrando, e por isso começou a me arrastar para praias desertas, “intocadas”, na casa do caraco –e, surprise, depois de 15 horas arrebentando a suspensão em estradas de terra: água de um lado, areia do outro. Passar o dia na areia tendo os miolos lentamente derretidos por sol de 35 graus e tomando cerveja morna is hardly my idea of fun, ainda que eu admita que caminhar por uma praia tranqüila ao amanhecer ou ao cair da noite tem inegável charme. Pelo resto do dia, uma varanda com vista, uma rede, cinco litros de água e três livros provavelmente will see me through.
Por outro lado, a cidade –qualquer cidade- me encanta. Nem Tegucigalpa me convenceu a ficar quietinho no hotel e comer exclusivamente em lugar com cardápio bilíngüe. E é claro que essas preferências indubitavelmente neuróticas derivam da minha aversão à natureza. Pro Uncle Filthy, “natureza” é um lugar em que gnu faz cocô. Já arrastei caras-metades nem um pouco voluntárias a passeios de 15 horas por marromenos todos os quarteirões de Veneza, mas se alguém me convida pra ver a selva amazônica, respondo (e já respondi de fato), “não, brigado, eu vi do avião”. Nem é que eu seja especialmente destruidor da ecologia: se a maioria da humanidade acha mesmo que é preciso preservar a natureza, acato sem o menor problema –desde que seja bem longe de mim.
Evidentemente tem um componente “ideológico”, vá lá, na minha preferência: pouca gente é mais irritantemente burrinha e intrometida que os ecologistas, e há poucas causas menos meritórias, por exemplo, do que esses grandes esforços de “resgate” de baleia encalhada onde não devia. Até porque dona Natureza não teria paciência nenhuma com baleia que encalha, como não o tem para com nerd de óculos que tropeça no caminho dos trigue. O pior dos ecolôs é que tentem vender como “novidade” –e sejam acatados pela mídia- esse mélange de pseudociência requentada e técnicas folk para que o homem viva “em harmonia” com o planeta. Uma das coisas que me levou a abandonar –gargalhando- a minha simpatia genética pelo anarquismo, digamos, “clássico” foi ler as sandices do príncipe Kropótkin sobre a “cooperação natural”. Mas pelo menos ele era russo -o que justifica qualquer sandice- e viveu 100 anos atrás, o que explica as falácias. Qual é a desculpa do Greenpeace?
Quando ouço o chamado da natureza, portanto, coloco logo o sinal de “ocupado” no ICQ. Há momentos na vida em que você se vê forçado a encarar o fato de que, yo, definitivamente não serve pra certas coisas. Nem imagino como fosse o processo de seleção pra ser contratado como aldeão com tocha em uma horda mongol, mas tenho certeza de que eu não pronunciaria com convicção suficiente os “ughs” requeridos, na dinâmica de grupo. E tampouco sei o que dizer diante da inefável beleza da natureza. Normalmente, pra não irritar a namorada, contemplo o mar da janela do carro e digo, “olha, Maria Alice, que azul. Que azul”.
It’s (not) very nice to go traveling

"Come fly with me, let's fly, let's fly away"
O canivete suíço que você costuma carregar com você desde que o ganhou do nonno com 10 anos de idade? Melhor deixar em casa. Mesmo no fundo da mala, sabe deus o que os caras do raio-X vão achar. E preste atenção nas meias, nada de buracos, já que as chances de que te obriguem a tirar os sapatos no aeroporto são de 90%. Como os sistemas de reconhecimento facial automatizados que o sagaz departamento de Homeland Security vem empregando se deixam confundir facilmente por óculos escuros (é tudo versão beta), shades aumentam a chance de que algum burocrata da segurança nacionar te faça passar por revista constrangedora, com direito a manipulação de áreas anatômicas que a maioria de nós só gosta apalpadas por dearly beloved persons.
E tem, claro, a saga para chegar ao aeroporto (Nova York enfim inaugurou uma conexão ferroviária com o JFK, mas a explicação “viram só? É simples!” que o site da MTA oferece sobre como utilizá-la deixa todo mundo completamente confuso.) O check-in demora horas, e o ticket da bagagem tem marromenos a mesma chance de devolver sua mala no local de destino do que um bilhete da Federal. Nos aviões, don’t get me started. Porque a maioria absoluta das linhas aéreas anda cambaleante, o que era ruim ficou ainda pior. A latinha em que o piloto transmite suas mensagens à cabine se tornou ainda mais inaudível –“nós estamos sobrevoando o quê? Lower Mongolia?”-, os comissários de bordo ainda mais impacientes, a borracha do frango aéreo agora é reciclada, e os talheres em todas as classes foram substituídos, mercê do 11 de setembro, por uns trecos de prástico que obviamente não têm a menor chance de cortar o ex-pneu de um Scania 1978 servido à la fode. Pra quem tem 1,88, como eu, viajar coach é um exercício de ioga, já que o intervalo entre os assentos obriga a manter os joelhos marromenos na altura da orêia (e não quero nem imaginar como o WM se vira). E agora, se o indigitado viaja abaixo de executiva, em muitas linhas aéreas ele tem de pagar pelo amendoim rançoso e pela Fanta Uva (sem contar que os drinques, mesmo os pagos, têm o álcool racionado por instrução “secreta” da FAA).
A teoria da minha brilhante co-âncora Ms McDirty é que essas dificuldades todas são uma espécie de lembrete proferido pela Ética Protestante Co. e pelo Espírito do Capitalismo Inc.: por que cazzo cês acham que merecem férias, ô? O contínuo preparativos-aeroporto-avião é uma espécie de purgatório que o desertor da labuta tem de encarar antes de se provar apto para o paraíso do resort em Baja Ascalzola. Mas eu não consigo deixar de pensar que já houve um tempo em que a viagem em si era parte da experiência, em que o viajante não era simplesmente um embrulho retirado a contragosto por um parcel service qualquer de seu local de origem e entregue, amarrotado e tardio, uns dois dias depois no endereço errado. Se as viagens do passado eram lentas e perigosas, elas também eram fascinantes, e permitiam que o sujeito se aclimatasse, desenvolvesse ao longo do percurso um rapport com seu novo ambiente (o que é uma maneira extremamente elegante de descrever as alegrias do escorbuto, pódiscrê). O método atual de viagem é o pior dos dois mundos –demora, incomoda, dá margem a uma quantidade inacreditável de erros e não permite à vítima sequer um vislumbre do planeta que ele está supostamente atravessando. Pra mim, só duas maneiras de viajar são aceitáveis: o velho método de carregar cinco baús em um navio a vela ou vapor e demorar seis meses para chegar à Índia ou o “beam me up, Scottie”, popularizado pelo nosso querido capitão James T. “Pança” Kirk. Todo o resto é assimquinêim sala de espera de aeroporto, camisinha ou cinto de segurança. Os mano usam porque são obrigados, mas todo mundo odeia.
March 16, 2005
We dance whene'r we're able

"With footwork impec-cable"
Diabo tudo bem, mas de roupa: Dean Young, a quem o destino já amaldiçoou o bastante ao lhe atribuir por residência a cidade de Clovis, New Mexico, agora está sendo processado porque o Ford Focus dele tem adesivos com diabinhas peladas em posições comprometedoras (inclusive o de uma diabinha com a boca na cauda de outra, o que insinua sexo oral, segundo a puliça). Uncle Filthy, diante da complexa interação entre Satanás e sexo, procura sempre se lembrar da injunção de Reginaldo Rossi, segundo o qual se o demônio estivesse com essa bola toda decerto não tinha chifre.
Medo de dentista? Here’s why: John Hall, dentista na provocante Cornelius, North Carolina, está sendo processado porque aspergiu seu sêmen na boca de pelo menos seis pacientes mulé com uma seringa. A polícia descobriu cinco seringas com vestígios de sêmen do dentista no consultório, ele inventou uma desculpa patética, e agora cabe ao juiz decidir. Não bastam os preços abusivos, o “não vai doer nada”, os bate-papos que eles puxam quando o paciente está sob o efeito de três anestesias e com algodão suficiente na bochecha pra interpretar Don Vito Corleone, agora isso? Sai pra lá, Mengele.
Criminal masterminds: Steven Jakaitis tinha um plano infalível para roubar uma drogaria em Quincy, Massachussets. Infelizmente, caiu dormindo dentro do carro em ponto morto, diante do estabelecimento, com uma meia de nylon na cabeça, uma arma de espoleta no borso e um bilhete, no banco de passageiro, que dizia “estou armado NÃO acione o alarme”. A polícia foi alertada por um freguês que viu o mascarado dormindo dentro do carro. A dificuldade do caso, suponho, seja descobrir em que crime enquadrar o elemento, porque infelizmente os códigos penais ainda não incluem a catigoria “burrice”.
No need to call the Scotland Yard: O homônimo Robert Downey (a junkie, by any other name...) foi detido (e condenado a sete anos de prisão) depois de tentar assaltar uma livraria usando uma banana como suposto revólver. O barconista, percebendo a curvatura do implemento, não entregou dinheiro nenhum, e o malfeitor foi capturado do lado de fora da loja, porque tinha apertado demais o capuz que usou para ocultar o rosto, e não conseguia tirá-lo. Rajiv Menon, o desafortunado adevogado que ficou com o mico de defender o mancebo, primeiro tentou a famosa "defesa Chewbacca" criada por Johnny Cochrane, mas se viu reduzido a afirmar que a tentativa de assalto não passava de uma “farsa incompetente”, alegando que ninguém se assustou. Se eu fosse promotor, além de tudo acusava o cara de reckless endangerment, porque podia ter matado o balconista de rir.
É a nonna!: Meus amigos jornalistas em geral não gostam desse tipo de matéria, porque um tanto gimmicky, mas uma repórter do site Netscape para mulheres com mais de 40 saiu às ruas de Boston e Nova York usando uma peruca grisalha, para ver se seria tratada de maneira diferente. Em Boston, levou cantada dos pedreiros hispânicos, em Nova York foi repreendida na academia de ginástica pela postura, e em um bar de paquera um cara perguntou por que ela estava de peruca. Por mais gimmicky que seja, é uma das poucas maneiras práticas de avaliar as reações a diferenças de raça, sexo, porte, todas essas melecas que constam de aviso na porta do elevador. A reportagem é velhinha, mas vale a leitura.
We seek incest and impersonate Clark Gable: Estréia amanhã na Broadway Spamalot, musical baseado em The Holy Grail, do Monty Python. O espetáculo aproveita as três canções do filme e inclui novas composições de Eric Idle e John Du Prez, mas infelizmente o elenco é todo americano, se bem que entre os protagonistas esteja o grande David Hyde Pierce. O destaque entre as novas canções é a pérola “Fetchez la Vache”, que Uncle Filthy já baixou em MP3 e dedica a todos os devotos dos Sensational Six. (Pena que Carol Cleveland não esteja escalada.)
Mixed couples

"The thousands of marriages
Lasting a little while longer"
Carl está sempre de preto –calças, camiseta, blazer, botas, shades- e acende o próximo cigarro na bituca do anterior (aparentemente, o pessoal da geração dele não sabia que cigarro prejudica o condicionamento físico). Deve ter perto de 60 anos, aparenta 50, e é o sujeito mais sarcástico que já conheci. Depois de 30 anos na Broadway e em Vegas, dançando sob o comando de Bob Fosse e maltratando chorus girls, “Andrew Lloyd Webber made me give up, that whiny prick”, ele agora ganha a vida –confortavelmente (só nos Estados Unidos, sweet lord)- desenvolvendo coreografias para desenhos animados. Angie, a namorada, é uns 25 ou 30 anos mais jovem, dona de uma loja de roupas no Brooklyn, e os dois se tratam com amarga ironia o tempo todo (quando um completa as frases do outro, à maneira dos casais irritantes no mundo inteiro, é sempre com sarcasmo). Mas, de alguma maneira estranha, é evidente que se amam, e que o “afetuoso” modo com que ela o apresenta como “my –quite literally- old man” e ele rebate com “I’m only in it for the blow jobs” esconde/expõe, se não amor, pelo menos uma dessas misturas complicadas de attachment erótico, amizade, afeto e uma ponta de ódio que propelem os melhores casais. E, quando nos despedimos à porta do restaurante, Angie conclui: “Yeah, I needed a father figure –drunk and abusive”. E Carl: “Guys my age need a trophy girlfriend. A dumb one, if you’re lucky”.
Takeshi é engenheiro, e tem cara de quem não tira a gravata nem pra tomar banho (usa camisas com bolso, sempre ocupado por uma régua de cálculo e duas canetas). Se bem aparente uns 30 anos, caso caísse de pára-quedas nos anos 60 ou 70 provavelmente sobreviveria sem grande dificuldade. Mas, à paisana, Takeshi exibe uma peculiaridade das mais endearing: onde quer que vá, fotografa as coisas com o celular e envia as fotos para a namorada, uma japinha modern girl que usa estranhas maria-chiquinhas no cabelo curto e retribui com fotos em que aparece nos lugares trendy de Shinjuku mandando beijos e mais beijos. Dia desses, em passeio por rua enfeitada de lojas dedicadas à moda feminil, Takeshi me mostrou a fórmula matemática que desenvolveu para converter tamanhos de roupa de mulé do padrão japonês para o americano. E agora eu sei por que, no meio das reuniões mais chatas, de vez em quando um sorriso ligeiramente ensandecido ocupa as inescrutáveis feições do meu guru da automação veicular quando ele confere as mensagens no telemóvel.
A melhor amiga da patôa tá solteira, e um bom amigo de Uncle Filthy acaba de levar um pé na bunda, dimóddusqui –inútil ao desagradável- we try our hands at matchmaking. (Uma breve digressão: sou péssimo nisso. Mesmo quando supostamente dá certo –por exemplo, apresentei ao melhor amigo a mina com quem ele veio a se casar-, cinco anos mais tarde, no divórcio, a culpa, é claro, vai ser minha.) Uma semana depois, o comitê se reúne para avaliar os resultados da transação e, pisando em ovos, explico à minha co-âncora que o R. não tinha se entusiasmado muito com a T. (ou seja, em homenês, “man, was she fucking boring! And that hair!”). Ms McDirty, de sua parte, diplomaticamente afirma que, bão, os dois talvez não fossem exatamente o par ideal. Aí, sábado à tarde, T. liga para a patôa nos convidando para um double date. O cabelo aparentemente não era tão ruim assim.
Lady L. se separou do marido há alguns meses. Tecnicamente, não faz mais parte de um casal. Mas, como no caso das pessoas que têm um membro amputado e sentem dor na perna ausente, o marido vai com ela a todo lugar, e as pausas repentinas que ela faz na conversa para exclui-lo do discurso o tornam ainda mais presente –como se ela laboriosamente recortasse a figura dele em todas as fotos do álbum de família. É uma dor féladaputa, e todo mundo se sente desconfortável na presença do casal fantasmagórico. Lady L. infelizmente não tem a menor inclinação natural por pisar na jaca, e se comporta com aquela dignidade atônita que faz com que a mágoa perdure por muito mais tempo do que deveria. Se eu fosse mais amigo de Lady L., recomendaria uns 15 porres e one-night stands, ou pelo menos que ela reclamasse bitterly do ex- em público, acusando-o por toda sorte de crimes, de infidelidade a bingulim pequeno, passando por mau hálito. Mas não -como eu, ela sempre vai optar pelo estoicismo manqué, e provavelmente sofrer o triplo. Wish I could tell her that.
March 15, 2005
Wheels of fortune

Mini Cooper, by David Irving
Eu não gosto de dirigir –prejudica minha leitura. E nunca fui um desses caras obcecados por automóveis, embora tenha lá meus momentos de fraqueza e me apanhe contemplando extasiado um Alfa 156, ou um Jaguar vintage, ou qualquer carro produzido por Detroit na cintilante era do “who gives a fuck about the environment”. Mas não teria coragem de cair com a grana necessária a comprar e manter um desses carros-fetiche. E –porque feioso e grisalho- jamais teria coragem de sair à rua ao volante de um deles, anyway, por conta da cláusula de supercompensação de bingulim pequeno que todo transeunte automaticamente atribui a essa catigoria de motorista.
De qualquer jeito, pra minha sorte, sempre me senti mais atraído pelos carros excêntricos (quando todos os meus colegas de firrrma compraram Land Rovers, continuei com o Uno). E na categoria excêntrico, quase nada se compara ao maravilhoso Morris Mini, produzido ininterruptamente entre 1959 e 2000 pela BMC, depois Rover, no Reino Unido (a versão bastarda atual, da BMW, é bunitigna, mas não dá pro cheiro).
O Mini foi criado por Sir Alec Issigonis. Por conta da invasão anglo-francesa do Egito em 1956, e do racionamento de petróleo resultante, a BMC queria lançar um carro pequeno e que gastasse o mínimo possível de combustível. Sir Alec projetou um clássico instantâneo, antecipando muitas das tendências futuras quanto a tamanho, economia, tração dianteira, suspensão independente... E, com uma versão especial preparada pelo lendário John Cooper, o pai do moderno carro de Fórmula 1, o Mini se tornou imbatível nas pistas de rally.

Morris Mini, versão japonesa
Nos anos 60, depois de se tornar o carro de estimação de Peter Sellers e dos Beatles, de contar com a Rainha Elizabeth II como garota-propaganda (ela foi fotografada refestelada no assento traseiro de um Mini em um passeio de teste) e de ter conquistado o apreço de figurões do cinema e do automobilismo como Steve McQueen e Enzo Ferrari, o Mini ganhou papel central na iconografia da era, especialmente a versão em British Racing Green com a Union Jack pintada sobre o teto branco.
O meu Mini era um modelo Mini Cooper, amarelo, fabricado em 1967, o ano em que o Herman’s Hermits gravou seu clássico álbum Dr. Pepper’s Lonely Losers Club Band, e me serviu lealmente durante quatro excelentes anos. Na chuva constante e na neve freqüente, ao longo de uma tese, três namoros, uma viagem insana até as Highlands, uma viagem ainda mais insana até a Itália, commuting incessante pra Bovington e Cambridge, o intrépido King’s Own Bugger me deixou na estrada UMA vez. (E os resultados foram excelentes. Vai escolher bem assim onde quebrar lá em Clacton, mano.)
Ao meu Oldsmobile Cutlass, ao meu Chevy Nova (“honk if you’re horny”), ao meu Mini Cooper, ao meu Fiat 147, ao(s) meu(s) Uno(s), ao meu mui querido Dizzy e –last but never least- ao “meu” sparkling Toyota Prius, which boldly drove me to places no sane person ever went before, deixo aqui essa singela homenagem.
The butler did it

"With vilest worms to dwell"
Um dos meus pesadelos totalitários mais elaborados envolve acordar cedo um dia qualquer, ligar a televisão e descobrir que o nefasto dinossauro Barney, os teletubbies e os puppets da Vila Sésamo todos adotaram o formato CSI, e estão cantando e dançando tendo nas mãos um monte de microscópios e ziplock bags pra guardar provas físicas de crimes. Não só a série CSI original se multiplicou por três como diversos outros seriados que marromenos seguem o esquema que ela propõe ocupam a grade das emissoras –Cold Case, Crossing Jordan, NCIS, Without a Trace, Medical Investigation... (Uncle Filthy mesmo, no seu falecido blog Noronha, publicou alguns trechos do similar nacionar que ele escreveu, intitulado IML.) Difícil ligar um canal aberto no horário nobre americano e não encontrar um prizunto sendo autopsiado.
A título de caveat emptor, já aviso aqui que não, não gosto de CSI, e não assisto a nenhuma das variantes da série regularmente. Mas creio que um dos motivos para o fascínio que ela exerce é o fato de que subverte ao menos em parte a estrutura narrativa convencional do whodunit. As narrativas “de mistério” convencionais tendem a se concentrar na figura do investigador –quer sejam conduzidas subjetiva, quer objetivamente, Holmes, Poirot ou o tenente Columbo raramente estão “off-camera”. Mas CSI emprega, nos trechos cruciais de “solução do mistério”, uma narrativa que exclui completamente os personagens –as cenas são relatadas do ponto de vista dos objetos. (Pra quem não assiste muito, um resumo típico: o perito recolhe um objeto no local do crime e descobre traços de um determinado produto químico; com base nisso desenvolve uma hipótese sobre a maneira pela qual o crime foi cometido, revelada ao leitor na forma de uma tomada filmada do ponto de vista do objeto recolhido, com direito a imagens microscópicas e congêneres, se necessário.)
Provavelmente sem nem saber, os produtores de CSI realizam, com essas tomadas que se sucedem ao longo do episódio à medida que os indícios se acumulam e novas hipóteses surgem, um dos sonhos do modernismo, o de quebrar o domínio das formas convencionais de narrativa. Como naqueles livros chatíssimos do movimento noveau roman niquiq a ação é observada do ponto de vista de um gato ou de uma batedeira, essas pequenas seqüências de solução presuntiva do crime, em CSI, excluem completamente o ponto de vista humano. É a incorruptível “voz da ciência” falando para estabelecer a luz da verdade. E isso é tanto o ponto forte quanto o calcanhar de Aquiles do programa –porque, yo, inúmeros exemplos de cacas laboratoriais provam que essa tese de infalibilidade, incorruptibilidade e objetividade científica é marromenos furada (vide as mancadas do laboratório do FBI que quase serviram para inocentar Timothy McVeigh, o sujeito que demoliu o Federal Building de Oklahoma, ou os erros periciais do Crime Lab da polícia de LA que ajudaram a inocentar O. J. Simpson.) E, claro, os casos que as bravas equipes de perícia do CSI solucionam vão necessariamente se tornando mais e mais gimmicky –porque a maioria dos crimes não envolve dificuldades exóticas requerendo milagres da ciência para identificar o culpado, mas isso pega mal na televisão. Portanto, como nos casos criados por Agatha Christie, as situações do CSI se tornam cada vez mais formalistas e artificiais: é o crime em ambiente de estufa.
Enquanto a franquia CSI realiza os sonhos dos modernistas –not with a bang but with a whimper-, uma outra série de TV –essa sim uma das minhas favoritas- também tenta lidar de maneira objetiva com o mundo das coisas, dos artefatos. Adam Savage e Jamie Hyneman, os dois apresentadores de MythBusters, procuram maneiras científicas de confirmar –ou negar- diversas lendas urbanas ou clichês do cinema e televisão –da mulher gorda cujo pandeirão entala na privada de um avião devido à sucção ao velho truque de amarrar o eixo traseiro de um carro que está de tocaia a um poste, o que arranca as rodas do veículo quando tenta sair em perseguição (e como o ministro Gilberto, eu adoro rima em “ão”). Os dois heróis da ciência provam de maneira cabal que fazer xixi no trilho eletrificado do metrô não mata, que a sucção gerada por um navio que está afundando não arrasta os náufragos para o fundo, e testam toda a gama de truques cinematográficos que supostamente paralisam veículos –da banana no escapamento a colocar açúcar no tanque de gasolina.
São duas maneiras diferentes de lidar com a vida dos objetos, com seu comportamento, sua poesia, sua relação para com os humanos. Enquanto os divertidíssimos rapazes do MythBusters analisam as propriedades míticas que conferimos aos objetos e tentam confirmá-las ou negá-las usando critérios de validação científica (ou seja, objetificando o humano), os roteiristas de CSI constroem um mundo em que objetos contam histórias sobre outros objetos (entre os quais, corpos), e encontram uma estranha alma pulsando nos artefatos supostamente inanimados (ou seja, humanizam os objetos ao permitir que eles narrem suas histórias). Mesmo que CSI seja chato pacaramba, merece major props for that. Além disso, série que tem Jorja Fox nunca vai ser tão insuportável assim.
March 14, 2005
I'm free to sing my song
any old time

A casa de um homem é seu castelo
Um dos livros cruciais da minha vida foi o Four Essays on Liberty, do Isaiah Berlin. Eu sei, eu sei, ele ficou demodé (já vi o trabalho de Berlin desdenhado como “mere history of ideas posing as philosophy”), mas o ensaio "Two Concepts of Liberty", de 1958, foi uma das coisas mais importantes que eu já li (minha santíssima trindade abarca esse ensaio, a história de Fleetcraft, em The Maltese Falcon, e “Dockery and Son”, do Philip Larkin –não é à toa que sou esquisito). No ensaio, Berlin define a distinção essencial entre duas formas de liberdade que ele descreve como “freedom from” (ou liberdade negativa) e “freedom for” (liberdade positiva). Pra minha alma diletante de adolescente, ler que “if the liberty of myself or my class or my nation depends on the misery of a number of other human beings, the system which promotes this is unjust and immoral. But if I curtail or lose my freedom in order to lessen the shame of such inequality, and do not thereby materially increase the individual liberty of others, an absolute loss of liberty occurs”. Porque isso me revelava que, yo, liberdade não necessariamente coincide com justiça e igualdade, ou as promove. Quer dizer, há uma fratura essencial entre os elementos do “liberdade, igualdade, fraternidade”. Porque eu posso concebivelmente querer viver livre dos meus soi-disant irmãos.
Já que as vertentes utópicas ou autoritárias da política terminaram desacreditadas e até ridicularizadas no século XX (nosso querido caudilho Chávez e o grande Fidelito notwithstanding), o debate “ideológico” moderno ficou reduzido a uma discussão entre diferentes facções de liberais –os liberais do “freedom from”, que querem restringir ao máximo a influência do governo na vida do indivíduo, e os liberais do “freedom for”, que acham que cabe ao governo, ao Estado, “promover” a liberdade por meio de medidas como, por exemplo, a ação afirmativa. Seria uma simples discussão de igrejinhas não fosse por a freedom for inúmeras vezes invadir o território considerado sagrado pela freedom from (a ação afirmativa mesma serve como exemplo). Eu, por instinto, sou ferrenho defensor da freedom from e inimigo figadal da freedom for. Pra mim, que o governo intervenha para decretar, por exemplo, que é preciso haver uma porcentagem determinada de mulheres, ou afrodescendentes, ou caucasianos, em um órgão representativo vai ser sempre um cerceamento da liberdade dos eleitores. (Da mesma forma que os defeitos na representatividade da Câmara brasileira sempre me irritaram –o mínimo de oito e o máximo de 70 deputados implicam que o voto de um eleitor de Roraima valha X vezes mais que o de um paulista, em termos de representação, o que implica que o eleitor paulista tenha sua liberdade restringida.)
Mas meu apego à freedom from, como eu disse, é instintivo, emocional. Não é uma questão de debate polido sobre ética ou filosofia. E isso é estranho, já que eu nunca passei por essas situações de medo permanente que caracterizam a vida das pessoas que vivem irremissivelmente sem freedom from. Porque, em última análise, é perfeitamente possível reduzir a equação a isso: “freedom from” é dormir confiando em que nenhum coturno derrubará a porta e nenhuma vala comum me aguarda no meio da madrugada –um conforto essencial do qual pelo menos um terço da população do mundo continua privado. Os Estados Unidos, habitados por incontáveis legiões de paranóicos (possivelmente genéticos), aparentemente são o único dos países ricos a sentir esse problema –daí as milícias e o apego -que muita gente civilizada considera incompreensível- ao direito protegido pela Segunda Emenda, o de portar armas. Porque a Segunda Emenda garante, exatamente, o direito de receber a bala o portador do coturno que derruba portas. (O desígnio histórico da Segunda Emenda nunca foi proteger o direito a chacinar adolescentes na escola Columbine, por mais que Uncle Filthy aprove a idéia de reduzir o número de adolescentes, mas proteger o direito de resistir à opressão.) Outro dia, a sensata Economist publicou reportagem de capa sobre a intrusão maciça do governo britânico na privacidade de seus cidadãos, e o editorial daquele número dizia: “Britons are lucky people and complacent ones. The liberties they take for granted have evolved over a thousand years or so. The idea that any one government should seriously undermine them seems implausible. It isn’t”.
Pra mim, é isso: não quero governo buzinando na minha orelha e fotografando minha rua em nome da “segurança pública”. Sempre que a freedom for interfere com a freedom from, terminamos perdendo mais um pouquinho de liberdade. E entre liberdade e igualdade vou invariavelmente escolher a primeira. Até porque sem ela a segunda se torna um pesadelo ideológico como aqueles que o mundo inteiro (menas as progressistas Cuba e Coréia do Norte) descartou com um suspiro de alívio 15 anos atrás.
Peel me a Grape

"Hey, good looking, what you've got cooking?"
Para comemorar o alvissareiro fim de uma dieta, nada melhor do que comer. Ou, pelo menos, escrever sobre comida. Epicuro pode ter sido o patrono da idéia de que o prazer sensorial é a única saída, mas a culinária grega clássica consiste basicamente das limitadas variações oferecidas por azeitona e bode, o que meio corta o barato, a não ser para os bravos defensores da buchada, entre os quais provavelmente a subrinha nibelunga, que sempre foi chegada em rango de pedreiro. Mas eu prefiro começar por Marcus Gavius Apicius, especialista em culinária sob os imperadores romano Augusto e Tibério, a quem meu recente ídalo Plínio, o jovem, “acusa” de ter aparecido com a idéia de forçar gansos a comer figos, o que aumentaria as proporções de seus fígados e acabaria resultando um dia no patê de foie gras. O legado de Apicius são os dois primeiros livros de receitas ocidentais, De Condituris e De Re Coquinaria. Quase tudo que os romanos faziam, faziam muito bem, e as receitas traduzidas aí permitem conferir. (Mas não tem nenhum daqueles pratos geniais que a gente via os caras comendo no Asterix, tipo confeito de língua de cotovia. Alas.)
Já a culinária chinesa, além da divisão por regiões que os fãs do gênero já conhecem bem, também pode ser dividida em “culinária do palácio”, “culinária dos mandarins”, “culinária das pessoas comuns”, “culinária dos templos de floresta e montanha”, culinária das minorias étnicas e culinária de países estrangeiros. A família Kung, cujo membro mais famoso, claro, é Confúcio, ficou famosa pela qualidade de sua cozinha, e uma das subcategorias da culinária chinesa são as chamadas “receitas confucianas”. Se bem o espírito aventureiro de Uncle Filthy no que tange à comida se tenha tornado lendário (eu já comi ovos de amendoim Verinha, afinal), realmente não sei se vou encarar “os oito imortais cruzando o mar etc.”, até porque barbatana de tubarão vai ser difícil de encontrar no minimart.
Pra salvar a reputação dos gregos pós-bode com azeitona, no entanto, surge Andreas Staikos, cujo Les Liaisons Culinaires mistura um triângulo amoroso e dicas e receitas da culinária grega. Dimitris e Dâmocles são dois vizinhos apaixonados pela cuisine tradicional de seu país, e pela mesma mina, Nana, e duelam ao fogão pra saber quem fica com a sobremesa. Não é nenhuma obra prima da literatura, mas diverte. E vem com 17 receitas minuciosamente explicadas para os clássicos da cozinha grega. Eu sempre simpatizei muito com a possibilidade de uma combinação entre comer alguma coisa e comer alguém.
Não sei se as receitas renascentistas compiladas pelo doutor Alessando Giacomello vão prestar, mas Florença continua a ser uma ótima cidade para ser surpreendido tropeçando em restaurantes simpáticos, com preços decentes e comida muito boa, como por exemplo aquele muquinfo sem nome que todo mundo chama de Gianni, na galeriazinha que sai da Borgo degli Albizzi, e prepara a melhor bruschetta do universo.Ou, claro, a Cantinetta Antinori, no Palazzo Antinori, perto do Battistero. E mesmo com temperatura de cinco abaixo de zero, quem resiste a um sorvete na Vivoli (Isola della Stinche), saindo da Via Ghibellina, ou no Coronas Cafe? A única parte ruim de viajar pra Toscana no inverno é que não tem camelô na rua vendendo coco em pedaço.
Back home, eu e Ms McDirty, depois de séria ponderação entre o hambúrguer do The Diner, no Brooklyn (logo ao lado da Williamsburg Bridge) e o do Madison Pub, na avenida homônima, ficamos com o segundo. É barato (numa cidade em que alguns restaurantes muito pretesionsos cobram 40 e até 50 dólares por um hambúrguer -vide Old Homestead e DB Bistro Moderne) e tem aquela cara greasy que um bom sanduba carece. E o pub é um delicioso anacronismo, porque está lá desde 1920.
And as for home cooking I would really, really like to share with my two loyal readers some of the wondrous adventures Ms McDirty is leading me through (“has anyone ever tried to boil lettuce?” is a fairly representative soundbite), but I’d rather stay alive. Though, with some of her experimental dishes, maybe I won’t for very long. (Her cooking always brings to mind one of the best lines in Four Weddings and a Funeral, the one about “fish a la banana”.)
March 11, 2005
Dungeons, Dragons,
Dorks and Diesel

"I'll pimp-slap a spell on yo' sorry ass, mofo"
O perene debate entre forma e conteúdo foi resolvido por WO há uns 30 ou 40 anos, quando a cisão central da sociedade deixou de ser a que separa os haves dos have-nots; desde então, a distinção essencial é a que opõe cool e uncool. (Trocadilhos tupiniquins na terceira gaveta da caixa de comentários, gradissido.) Em Almost Famous, um dos filmes mais bacaninhas dos últimos anos, Cameron Crowe (cujo site oficial leva o nome “The Uncool”) transforma o crítico de rock Lester Bangs em implausível Grilo Falante, sempre acautelando o jovem padawan William Miller –most decidedly uncool- a não se deixar cair em tentação. Pode parecer esquemático, e é, um pouco –cinema precisa ser, afinal-, mas, yo, a tentação existe, não? Ninguém passa impunemente por 26 milhões de comerciais dizendo que usar o desodorante X ou beber a cerveja Y são o caminho mais fácil pra dar uns catas numa top model, ou que os cabelos cintilantes fornecidos pelo xampu Z vão conduzir a dama aos másculos braços do Edwin Luisi. Não é que o pessoal literalmente acredite nisso, mas há decerto um efeito sedimentar. Porque a, er, “sociedade de consumo” vence pelo cansaço, claro. Quem é que tem saco de ficar ligadíssimo o tempo todo, examinando rótulo de maionese pra ver se a gosma não contém extrato de bebê foca ou boicotando a cerveja Y porque ela explora o pandeirão feminino como estrumento de marketing? Sai pra lá com esse Index, Ralph Nader.
Por outro lado, as coisas que mais fazem com que eu me sinta confortável comigo mesmo são quase todas very uncool (e creio que o mesmo se aplique a todo mundo). Provavelmente porque muitas delas se instalaram no meu coração e memória de maneira insidiosa, antes que a cenoura da sofisticação e o cajado da jequice começassem a ser aplicados em dose regular contra o jumento Fudílson. (Ih, ó o cara, mano.) Na prática, isso quer dizer que ainda que eu consiga acompanhar os pessoau nesses exercícios de dropping names e dropping brands que servem como fulcro do intercurso conversacional hodierno (man, that fella sure can write), às vezes (quase todas as vezes) o que meu coração realmente almeja é aquele suco de uva que fica girando hipnoticamente dentro de um aquário em estabelecimentos comerciais antiquados de tradicionais bairros paulistanos. E o que me leva a fazer em público essa espantosa admissão é o fato de que Vin Diesel, o segundo melhor ator do universo (Mario van Peebles continua inexpugnável) confessou em entrevista que era –e é- completamente viciado em Dungeons & Dragons. Pô, meu, até eu que tenho atestado de honra ao mérito em acampamento geek costumava olhar com certo desdém pros mano que jogavam RPG.
E aí, justo na hora em que os valentões da praia decidem chutar areia nos nérdson do RPG, irrompe Diesel, o vingador, cobrindo todo mundo de pórrada (e provavelmente entoando um mantra qualquer de RPG, tipo “SARSICHA! SARSICHA!”). É um momento estranhamente libertador, pra mim e pra todos vocês –blogueiros, cultores do Mupy, colecionadores de desenho animado, air guitar players, viciados em GTA e The Sims. Porque Diesel confessou em público que costumava freqüentar a Compleat Strategist, loja de jogos de simulação nova-yorkina que sempre contou com a friguisia do Uncle Filthy para seus wargames, now it’s sorta cool to be uncool. Em vez de ir a evento pra arrecadar ainda mais dinheiro pro vagabundo do Dalai Lama ou imitar compulsivamente as roupas de Krusty-the-Clown que Sarah Jessica Parker desfilava em Sex and Dissídio, agora todos nós, closet geeks, podemos enfim sair desse armário e bradar “say it out loud, I’m nerd and I’m proud”. Se bem que o mais provável seja que, se o Vin não ajudar a segurar, continuemos não comendo ninguém.
She Jane, me lame

"Even if others don't see this, I'm glad that I do", said Jane with a meaningful look to the ape man's loincloth
Ieda, a fabulosa mantenedora de um dos blogs mais ranzinzas da Internéte, não se conforma com as mina que seleciono para o posto de diliça da semana, e o argumento dela é forte: Marilyn Monroe. Mas guys are supposed to have bad taste, for cryin’ out loud, e, yo, vou continuar entretendo pensamentos libidinosos sobre a Clarabela. Pra ver se corrijo pelo menos parcialmente meus pecados, no entanto, esta semana vos ofereço uma diliça vintage, a megacoxuda Maureen O’Sullivan.

Maureen O'Sullivan (1911-1998)
A produção da Hollywood dos anos 30 é normalmente dividida em “antes do código” e “depois do código” –o infame código Hayes, adotado pelos estúdios em 1930 como mecanismo de autocensura. A maioria dos estúdios demorou uns aninhos para impor o código na plenitude de sua burrice e, com isso, os dois primeiros (Tarzan the Ape Man e Tarzan and his Mate) dentre os seis filmes de Tarzan estrelados pela dupla Johnny Weissmuller-Diliça O’Sullivan deixam entrever uma séria dose de sacanagem (tipo, Tarzan está ferido e Jane vai rasgando as roupas pedaço a pedaço para servir de bandagem; quando ela está reduzida a uma sumária minissaia avant-la-Quant, vira pro homem macaco com cara de slut e diz “acho que você está fazendo de propósito"). O’Sullivan fez também o excelente The Thin Man, em que William Powell e Mirna Loy interpretam o casal Nick e Nora Charles, criado por Dash Hammett; interpretou Kitty no hediondo Anna Karenina com Greta Garbo; e foi a mocinha em A Day at the Races, dos irmãos Marx. Além disso, O’Sullivan não só é pioneira do moderno frisson for threesomes como o inexplicado relacionamento entre Tarzan, Jane e a espevitada Chita para sempre atiçará a curiosidade do Uncle Filthy, cujo ele, como sabem seus amiguinhos de Orkut, has a fine eye for bestiality.
March 10, 2005
No future, no future for me

Just imagine: nine levels of traffic
A autobiografia de Vittorio Gassman, um dos meus ídalos, se chama “un grande avvenire dietro le spalle”, algo como “há um brilhante futuro no meu passado”, e essa sempre foi uma das minhas obsessões –os futuros do passado. Quando eu ainda tinha alguma vontade/ilusão de seguir carreira acadêmica, meu projeto de tese de doutorado era marromenos esse: pesquisar sobre visões de futuro representativas de determinados momentos e culturas do passado, e conduzir um estudo comparativo de porvires imaginários. Era uma idéia característica da era: o colapso do comunismo representava a morte de um monte de porvires, boa parte dos quais apocalípticos. (Era engraçado, aliás, imaginar que desculpa o bando de amigos slackers que tinham atravessado a década de 80 vadiando em meio a maconha e ecstasy encontraria pra continuar bundando, já que, yo, o mundo não ia acabar mais em holocausto nuclear dentro de um ou dois anos.)
David Szondy tem um site bacaninha a respeito do tema, falando de visões sobre vida em outros planetas, cidades do futuro e assuntos congêneres, entre os quais minha mistura favorita de gênio e charlatão, Nikola Tesla. Mas há diversas outras fontes sobre as visões de futuro, como a feira mundial do Brooklyn, em 1939/40, ou a feira mundial de Chicago em 1893, ou, ainda, os grandes planos urbanísticos fracassados da história de Londres. Imaginar o futuro é atividade que exerce fascínio quase irresistível. (Um dos motivos para que eu desconfiasse seriamente do cumunismo, quando moleque, era o fato de que, para um movimento utópico, eles eram meio fracos na representação do “paraíso dos trabalhadô” –marromenos se limitavam a indicar que a “ditadura do proletariado” (god forbid) seria sucedida pela “sociedade sem classes”, mas não enfeitavam o lumpenhimmel com anjinhos tocadores de harpa, à maneira cristã, ou bebedouros de vinho e mulé zerinho, como os muçulmanos. Dimóddusqui a utopia cumunista sempre me pareceu uma espécie de paraíso crente administrado pelo INPS, a pior combinação concebível.)
Já David Butler, que dirigiu filmes e programas de TV consistentemente ruins por marromenos 40 anos, brindou o mundo, em 1930, com “Just Imagine!”, uma combinação djóinha de ficção científica e musical, niquiq um sujeito atingido por um raio acorda 50 anos mais tarde em Nova York, onde, em 1980, as pessoas todas têm números em vez de nomes e precisam de aprovação do governo pra casar. Em meio a diversas idéias bizarras sobre a cara que o futuro poderia ter, o filme dá uma tremenda bola dentro, já que os bebês “futuristas” são todos cozidos em tubo de ensaio. A maior virtude do imbroglio, claro é a diliça Maureen O’Sullivan, dois anos antes de conquistar a imortalidade erótica como a Jane do Tarzan Johnny Weissmuller. A música, se bem que entregue aos competentes Lew Brown, Buddy DeSilva e Ray Henderson, de “Sweet Georgia Brown”, é uma séria fonte de unintentional comedy, mas o filme tem seus momentos, pra quem gosta de humor razoavelmente excêntrico. E a viagem do cara a Marte pra provar ao governo que ele merece uma chance de dar um cata em O’Sullivan é, well, indescritível.
Minha g-g-g-ge-ração (com perdão do clichê), que os executivos de marketing batizaram Geração X(ispita), tem por marco histórico dois falsos gritos de negação do futuro –o “God Save the Queen!” urrado por Johnny Rotten quando ainda éramos crianças e o decreto de fim da história ejaculado pelo nefasto Fukuyama quando o Gorby ainda nem tinha dado um nip and tuck na mancha da careca. E no entanto continuamos aqui, uma forma de futuro chegou (and it kinda stinks). O único futuro que eu realmente continuo esperando é a clonagem, porque assim arrumo uma Tina Fey só pra mim.
And oh so very very

"I'm not going to buy my kids an encyclopedia. Let them walk to school like I did."*
Dizem que a melhor enciclopédia de todos os tempos é a 11ª edição da Britannica (disponível online aqui e aqui), publicada em 1910/1911. Foi a última das enciclopédias “clássicas”, produzida ainda na tradição fundada pelos enciclopedistas franceses, e ao mesmo tempo a primeira enciclopédia “moderna”, porque todos os 29 volumes saíram no espaço de pouco mais de um ano (anteriormente, os volumes eram publicados à medida que ficavam prontos, e o intervalo entre A e Z chegava a 13 anos em certas edições). Além disso, foi a última edição da Britannica produzida na Inglaterra: depois dela, o controle da publicação foi vendido para a Sears, e a responsabilidade editorial transferida da Cambridge University Press para a Universidade de Chicago. Entre os mais de 1,5 mil responsáveis pelos verbetes da 11ª edição, temos o príncipe anarquista russo Piotr Kropótkin, Henry Ford, Albert Einstein, Sigmund Freud, Bertrand Russell, Ernest Rutherford, o poeta Swinburne, T. H. Huxley e Edmund Gosse.
O que me diverte na 11ª edição é o tom ligeiramente sacana que boa parte dos verbetes assume. O fato de que boa parte dos responsáveis pela enciclopédia se tenha formado intelectualmente no século XIX implica que, como bons adultos responsáveis, todos saibam que, yo, objetividade é um mito, e portanto nem tentem escrever de um ponto de vista “neutro” sobre os assuntos que os encantam. É claro que é uma postura perigosa, já que há sempre o risco de que o responsável puxe a brasa para a sua sardinha política, intelectual ou moral, mas na era eduardiana, bem ou mal, era considerado possível selecionar um especialista e confiar na honradez dele para que representasse devidamente as posições antagônicas sobre o seu tema.
O financista Jacqui Safra, que adquiriu a Britannica em 1996, supostamente já está tocando uma edição 2011, e what a difference a century makes. Se alguém decidisse convidar “especialistas” modernos para redigir a nova versão, o resultado seria marromenos:
Internet, by Al Gore: “Em 1982, decidi tirar uma folguinha da política, fiz uma faxina na garagem, aprendi digitação com o método ‘Collideorscape: A Guide to Drunken Typing and Irish Barroom Brawls ’, da imortal Joyce James, e inventei a Internéte, rede mundial de computadores supermodérrrna. (Aliás, 15 anos mais tarde, meio desocupado como vice-presidente, fiz outra faxina na garagem e clonei uma burra chamada Tipper)”.
Software, by Bill Gates: “Em 1975, eu e Paul Allen inventamos o software. Nunca ninguém tinha usado software antes de a gente inventar o software. E nos anos 80, nós inventamos o sistema operacional Windows. Nunca ninguém tinha inventado um sistema operacional como o Windows. Aliás, a gente tá processando a humanidade para que ninguém mais possa usar a palavra ‘windows’ sem licença da Microsoft. Se você tem janela em casa, melhor pagar uma licença já antes que gente tome medidas desagradáveis. Nos anos 90, eu procurei o meu amigo Al Gore e comprei a Internéte, que ele tinha inventado na garagem dele. A Internéte agora é minha. Só minha. Ouviram?”
Pedofilia, by Michael Jackson and John Paul II: “O amor dos sacerdotes católicos e dos astros pop decadentes por crianças do sexo masculino vem sendo alvo de repetidas aleivosias, mas está cientificamente comprovado que quando Billy John ajoelha, tem que rezar. Ah, é, e homossexualismo e aborto são pecados. Uh”.
Weapons of Mass Destruction, by Tony Blair: “Quando um tirano que desrespeita as normas da comunidade internacional há anos começa a produzir armas capazes de atingir os quartéis das nossas tropas em Chipre em apenas 15 minutos, o que vocês queriam que eu fizesse? E como eu podia saber que aquela gosma esquisita que os americanos fotografaram do satélite era na verdade uma fábrica de tabule? É parte de minha responsabilidade como primeiro-ministro tomar todas as providências para impedir um ataque com tabule, quero dizer, armas químicas. E esses pakis de Brixton que se cuidem, com o kebab. Não vamos tolerar terrorismo doméstico”.
Weapons of Mass Destruction, by George W. Bush: “A América defende a liberdade em todo o mundo e não vai tolerar que um sujeitinho do eicho, quero dizer heixo, do mau (mal?) tenha armas nuque... nucule... nunque... nucli... Ah, caceta, bombatonha, pô, chama a Condy, logo. Cooooooondy!”
* Yogi Berra
March 09, 2005
Namoro via Internet é uma gelada

Em pé, Rathbone; sentados, l to r, Karloff, Lorre e Price
Propaganda é a alma penada do negócio: Na cidade de Botosani, norte da Romênia, uma funerária que atende pelo convidativo apodo “Eternidade” se tornou sucesso de vendas quando começou a distribuir panfletos sobre caixões, enterros e lápides nos asilos de velho locais. É um daqueles casos em que Uncle Filthy considera lícito empregar a expressão “público-alvo”. A única sugestão para melhorar uma idéia que já é batuta seria seguir o exemplo do sagaz Vincent Price, no maravilhoso “The Comedy of Terrors”, dirigido por Jacques Tourneur em 1963 para a minha querida AIP. Price, um papa-defuntos a caminho da falência, começa a assassinar velhinhos para atrair clientela, com a ajuda de seu fiel escudeiro Peter Lorre. O único ancião que ele não consegue matar é seu sogro, Boris Karloff, dono da funerária. Filme com Price, Lorre, Karloff e oferecendo participações muito especiais dos grandes Basil Rathbone e Joe E. Brown (o Osgood de Some Like It Hot), tudo isso sob a batuta de Tourneur, diretor do lendário Cat People original, decerto deveria servir como inspiração aos mano romeno.
Criminal masterminds: Um traiçoeiro amarelo armado de faca se deu mal quando invadiu um dormitório da polícia, em Haramachi. O confuso facínora aparentemente estava planejando roubar um escritório da Japan Railways que fica logo ao lado do quartel. Como Uncle Filthy quando acordou sem os rim na famosa banheira do motel em Santa Cruz de la Sierra, o malfeitor nipônico, depois de capturado pelos policiais de cueca, disse que “eu não estava muito preocupado com o meu destino, mas não imaginava que fosse terminar onde terminei” (vide nota abaixo, by the way).
Vão-se os anéis, os dedos e o juízo: Charles Gonsoulin, um espécime notável de ómi romântico, terá todos os dedos das mãos e a maioria dos dedos dos pés amputados, logo que sair da prisão canadense e for deportado de volta aos Estados Unidos. O intrépido aventureiro decidiu visitar a namorada em Quebec e, porque não podia viajar legalmente ao Canadá (foi condenado por assalto a uma loja em 1984), o morador de LA pegou um buzum de sua terra natal até o Dakota do Norte e atravessou a fronteira a pé. Foi encontrado dentro de um bloco de gelo em um campo de golfe em Emerson, Manitoba, que fica a marromenos 2,5 mil quilômetros de Quebec. O apaixonado-mas-meio-beócio-em-geografia (que conheceu a mina na Internet em 2002), declarou que “é melhor ter amado e perdido [os dedos, acrescenta Uncle Filthy] do que jamais ter amado”. A co-âncora de Mr. McNasty, sempre atônita diante da inteligência masculina, fez aquele sinal de OK dos gringos.
Melhor a mamma não atender: A empreendedora New Frontier Media, uma das líderes no mundo do triple X, vai começar a vender gemidos de astros e atrizes pornô como ringtones para celulares. Se bem Uncle Filthy continue achando que celular é um instrumento concebido por uma unholy alliance entre Satanás, as manhê e todos os empregadores do universo, ele muito apreciaria a oportunidade de ter um ringtone do Paulo Silvino dizendo “ai, como era grande”, para receber mensagens de suas fãs no intimorato Blackberry.
Animal Planet: Na Colômbia, a polícia de Arauca apreendeu um jerico chamado Pancho que esteve envolvido em um acidente de trânsito com uma motocicleta. A porta-voz da polícia explicou que acidentes que causam ferimentos graves sempre implicam em apreensão dos veículos envolvidos. E no Arkansas, promotores públicos intimaram Murphy Smith, um viralata de cinco anos, a depor contra seu proprietário Albert K. Smith, acusado de assassinato. O totó foi levado ao tribunal para depor na quinta-feira, mas animais (excetuados os promotores) não são admitidos no recinto. A promotora que fez a cachorrada até que se saiu bem: “O animal era bonzinho, e provavelmente teria sido uma testemunha muito cooperativa”. (O totó foi incluído na lista de testemunhas porque o dono lhe escreveu uma carta da prisão.)
Eu não não queria escrever sobre isso: Uma coleguinha de trabalho nova, Phuong/Phoebe, está ensinando rudimentos de vietnamita ao Uncle Filthy, sempre interessado em escrever mal em mais um idioma. A lição da semana “explicava” como os vietnamitas fazem perguntas, e é assim, ó: toda pergunta é apresentada na forma de uma negativa (“cê não quer ver se eu tô na esquina?”), e respostas afirmativas são apresentadas na forma de dupla negativa (“eu não não quero ver se você está na esquina”), enquanto as respostas negativas são apresentadas em forma afirmativa (“eu vi sua irmã na esquina”). Vocês não querem parar de ler essa bestaj agora mesmo? Eu não não quero.
Do Nothin' Till You Hear From Me

"At least consider our romance"
I know that, behind the menu you hold up high to hide your face, you’re bravely trying to suppress a laugh. I know also that you will give up any time, now, and that once more I’ll get to hear that bubbly, noisy celebration of whatever’s absurd around us. And that, in turn, will make me laugh, though I worry about offending the waiter, who bravely tried to ‘explain the menu’. (Whenever the menu needs explanation, one probably needs to be looking for another restaurant, claimed wise Ms McDirty two nights ago at the Vietnamese place. Hear, hear.)
We’re here to celebrate another milestone in our extended fuckfest (how’s that for a label?): another set of satisfied parents. (Though, of course, your sister had it right from the start: ‘don’t worry, McNasty –as long as you don’t laugh manically all through dinner or show up with a meat cleaver, they’ll probably be OK with you. To have another spinster taken out of their hands will surely be a relief’). And then this morning UPS showed up with a Glendronach bottle sent by that doughty step-dad of yours, me shipmate Eli. It seems I’m (at least temporarily) acceptable.
You look damn fiiiine tonight, woman: love the boots, love the long, dark skirt, love the blouse and the scarf. I’d even claim love for the coat, but I gave you that and it might seem a wee bit self-serving. And of course I know you’ve chosen spectacles instead of contact lenses as yet another elaborate way of at once teasing and pleasing me. Yeah, shallow as that might sound, I love you for your beauty, and I also love you for –though pretty as fuck- walking back from the ladies’ room like regular folks. No catwalk bounce, for you. (The favorite McDirty way of deprecating someone is ‘he/she tries too hard’ –and that surely figures.)
After quite some months of enforced sobriety, I find myself utterly drunk while we walk home. And you’re kinda tipsy, too. We take it slower than usual (the fact that winter is finally giving in to some hint of spring surely helps), and spread boozy laughter throughout the streets. We’ve grown close enough now to develop a sort of telegraphic wit –anticipating not only the joke but also the rebuttal, doing dialogue and voice-over at once, stopping every ten yards to exchange ferocious kisses. Fact is, McDirty, I love being drunk. (Got you there, eh, what?)
When we get home I as usual hang by the door, intentionally fumbling with the keys, because that allows you the chance to glide to the stereo and put on some music. (One of the things that got me hooked onto you: turning the music on first thing, instead of the TV, whenever you get home.) You’ve developed an uncanny ability to find my favorite tracks with no hint whatsoever on my part, and this time you choose Clark Terry’s ‘Do Nothin’ Till You Hear From Me’, the one with the slow, old-fashioned Ben Webster solo followed by Terry’s ever more emphatic statements –‘yo, woman, don’t you listen to no ho. I’m down with you, woman, ‘cause you fiiiiine’-, that wonderful trumpet referring to Louis, to Cootie, to Miles, but always utterly personal. That’s what I like so much about Terry, you know –the timeless quality, his ability to play trad, to play swing, to play bop, to play modern, sometimes all at once, without sounding like anyone but himself.
And that, of course, is what I like about you. Gallivanting around Tuscany or grimacing at bad designs in a visit to BoConcept, there’s this explosive mix of wit and vision, steadfastness and flux, emotion and irony. Our nightcap, then, while we embrace in the dark listening to Terry’s wonderful solo, is both an end and a beginning, a toast to our successful weekend, our latest, greatest pitch, our boozy evening, our future, and an invitation to the darker darkness that beckons beyond the stairs. A darkness more than night.
E lucevan le stelle.
Update: "Black hole sun, won't you come/ And wash away the rain/ Black hole sun, won't you come, won't you come"
March 08, 2005
For heaven rest us, I'm not asbestos

"My heart won't let my feet do things they should do..."
Quando eu tinha uns seis ou sete anos, costumava passar a maioria das férias e feriados em São Vicente, em um simpático prédio na quininha entre a praia de Itararé e a chamada “prainha”. O mundo era muito mais civilizado, e as mães costumavam deixar que as crianças, mesmo as pequenas, brincassem sozinhas na prainha ou no pátio do prédio, entre as pilastras. E foi lá que eu arrumei o meu primeiro major crush, ou melhor, foi lá que o meu primeiro major crush me arrumou –uma garota que também passava férias no prédio, tinha a minha idade, se chamava Lu. Lu costumava correr para onde eu estivesse e pegar na minha mão, e eu fugia dela como o diabo da cruz. Pior, ela sempre queria se esconder comigo, quando a gente brincava de esconde-esconde, e com a descuidada imperícia das mina deixava sempre o pandeirinho de fora, o que me levava invariavelmente a ser capturado mais cedo do que meu orgulho másculo apreciaria. Injuriado em meus brios, portanto, um dia decidi que a única solução seria reclamar pra mãe dela, a dona Diva. Dona Diva me ouviu com péssima imitação de seriedade, mas disse que conversaria com a filha. No dia seguinte, chegando ao pátio depois da praia matinal e do almoço, encontrei a tchurma toda sentada nos bancos, a Lu de cara feia. Propus imediatamente um esconde-esconde. E Pérsio e Ricardo, meus dois melhores amigos de férias, se levantaram e imediatamente puxaram o corinho: “Tá namorando! Tá namorando! Tá namorando!”
Uns três anos mais tarde, quarta série, era minha vez de estar completamente apaixonado, por uma menina de óclinhos, claro, que usava com graça inefável aquelas boininhas de gabardine que vinham como complemento das capas de chuva. “Estar apaixonado” queria dizer “estar completamente desprovido do uso da fala” sempre que ela chegava perto de mim e, em momentos descontraídos, dar uns empurrões (literais) nela quando a tchurma vadiava pelo pátio trocando piadinhas na hora do recreio. Amor sem esperança, como vocês vêem, até o dia niquiq a irmã Otília, minha professora, decidiu que sortearia duplas de alunos para fazer um determinado trabalho e, em uma demonstração de sorte que a vida nunca mais me ofereceria, leu lá “Fudílson e Maria de Lurdes”. Eu, coração afeito ao sofrer mercê de anos como torcedor do Curintcha, imediatamente ergui o braço e celebrei o anúncio com um urro digno de coadjuvante em filme de kung-fu. Maria de Lurdes, do lado oposto da sala, sorriu para mim com certa dose de carinho, mas depois do vexame público -surprise, surprise- nunca mais consegui falar com ela.
Com 14 anos, eu gostava assaz da Ana Elisa, mais uma ilustre figura na minha galeria de mulé de óclinhos, mas a Ana Elisa, hélas, gostava do meu melhor amigo, e aí fiquei naquela incômoda posição de confidente-com-parti-pris, sofrendo vicariamente com a alegria alheia, lidando a cada dia com conflitos sérios de lealdade (eu sabia o que melhor amigo aprontava, e também sabia as barbaridades que ela costumava dizer sobre ele). Pressionado, recorri à sabedoria ancestral do clã McNasty e decidi fugir hoje porque isso possibilitaria fugir de novo amanhã. E em uma festa chatésima, tomei um pifa hipotético de um ponche que misturava vinho Chapinha, laranja e álcool Zulu, e atraquei Adriana, a prima magricela e vesguinha da Ana Elisa, depois de ter dançado com ela uma música dos Carpenters. Na segunda-feira, de volta à escola, Ana Elisa me virou a cara. Uma semana depois, deu um pé na bunda do namorado. Passou seis meses sem falar comigo, e quando, em outra festa regada a bebida igualmente nauseabunda, tomei coragem de perguntar a Adriana (com quem eu continuava dançando músicas dos Carpenters e me atracando em base semi-regular) que cazzo tinha acontecido, ela me olhou, incrédula: “Minha prima gostava de você, seu idiota”. Deu-me as costas e saiu pisando duro, com aquele andar peculiarmente feminino que consegue expressar indignação com a bunda.
Desisti para sempre de entender as mulheres.
At least, she tried

"Não se esqueça: mesmo que a moça não seja uma dama, você sempre tem de ser um cavalheiro"
A primeira mulher independente que conheci na vida foi a tia Hilda. Era tia de minha mãe, não minha, e se mudou de Curitiba para São Paulo logo depois da revolução de 30, como secretária de um dos coronéis que o nefasto Gegê indicou como interventores no Estado. E não voltou mais pro Paraná (a família se dividia entre Paranaguá e Curitiba). Tia Hilda, que então tinha seus 22 anos, arranjou emprego em um banco, o Brasul, e montou apartamento em Sumpaulo.
Nunca se casou, e passou o resto da vida trabalhando para o mesmo banco, controlado pela família Lattes. À maneira extremamente discreta dela, tia Hilda era uma pioneira da autonomia feminina –bancava a família materna, que vivia em circunstâncias menos que ideais depois da deserção do bisavô Horácio, e também ajudava minha mãe e minha vó, que viviam ocasionais pindaíbas causadas pelas aventuras e desventuras profissionais do meu avô Hamilton, irmão de tia Hilda. Reza a mitologia familiar que a tia teve um longo e nebuloso affair com um sujeito –que suponho casado- e , ainda que ele tivesse proposto algumas vezes “fazer dela uma mulé honesta”, optou por manter a solteirice (lembro claramente de ouvi-la dizer que “homem não presta para viver em apartamento, e eu não presto para correr atrás de homem recolhendo as bitucas").
Não, não tem nada de épico na história da tia Hilda. Mas ela viveu essa vida comum às mulheres modernas do mundo inteiro com uns 30 ou 40 anos de avanço. E imagino que, até que a passagem do tempo viesse a permitir que vestisse o confortável manto de “solteirona”, fosse uma vida muito mais complicada do que ela deixava transparecer. O que nunca abalou seu notável senso de humor. A primeira lembrança que tenho da tia Hilda é exatamente a risada, um contagiante “hihihihi” cada vez mais agudo, acompanhado invariavelmente por lágrimas que lhe afloravam aos olhos e que ela enxugava com um lencinho de renda depois de remover os óculos.
É claro que, porque nasci quando ela beirava os 60, não convivi com a tia Hilda em seus anos mais ativos. Mas ela sempre foi minha parente favorita –e por larga margem. No começo, obviamente, era porque ela me mimava like there’s no tomorrow –meus dois ursos de pelúcia prediletos, o Pançudo e o Faper (que era maior que eu quando o ganhei) foram obra da minha tia mais querida. Com o tempo, porém, nos tornamos estranhamente amigos e, quando eu ficava de saco cheio da parte italianada da família (coisa que se tornou cada vez mais comum à medida que eu crescia), me refugiava com ela, o mais das vezes no apartamento de praia em São Vicente.
Tia Hilda sempre se esforçou por fazer de mim um perfeito cavalheiro à maneira dos anos 40 e, se bem os resultados devam ter ficado muito abaixo da expectativa -pelo menos do ponto de vista dela-, eu continuo grato por todas as lições, ainda que sua aplicação prática seja cada vez menos possível. Mas era divertido sair para jantar com a tia sessentona, aos 10 anos, e receber discretamente por baixo da mesa o dinheiro pra pagar a conta. Ou aprender a caminhar de braços dados com uma dama. Ou descobrir as minúcias sobre andar sempre entre a dama e o meio-fio, abrir as portas, levantar da mesa quando a dama fosse “empoar o nariz” (expressão que ela sempre usava mal conseguindo abafar o riso).
Meu hediondo vício em cultura inútil? Culpa da tia Hilda, também, que me alimentava com zilhões de livros sobre aviação, foguetes, e com uma magistral versão encadernada e completa da revista Tesouros da Juventude, que ela encontrara em um sebo e que eu lamento até hoje ter deixado para trás em uma de minhas 500 mudanças. O apartamento dela em São Vicente era repleto de livros bizarros, por exemplo uma vasta biblioteca de Seleções, encadernadas em tomos anuais, cobrindo o período 1942-1970, marromenos. E tia Hilda não vivia sem palavras cruzadas, uma aflição que confesso ter demorado muito a superar. Quando não conseguia resolver um enigma qualquer, ela perdia o sono e, sabendo que eu dormia tarde, muitas vezes me ligava, não importa o continente, pra que eu a ajudasse a “matar” a charada.
Guardo as cartas que recebi dela nos meus muitos endereços com o maior carinho. Sempre que alguém menciona a surrada expressão “grace under pressure”, a imagem que me vem aos olhos é a da tia Hilda, rindo até chorar com as histórias que inventava sobre seu canário hipotético, o Beldroegas. Em dia de efeméride idiota que nem hoje, é inevitável que eu recorde das mulheres da minha vida. E a tia Hilda, que continua a me lembrar –do céu- que preciso chegar primeiro que a dama à porta, e segurá-la para que entre (mas elas andam muito mais rápido hoje, viu, tia?), com certeza está no top three.
Update: Li no blog do Marcelo Leite que morreu hoje César Lattes, provavelmente o maior cientista da história brasileira, descobridor do méson pi e filho do seu Giuseppe, patrão da tia que estrela o post acima. Quando eu tinha 10 anos, em visita à casa dos Lattes com tia Hilda, o professor César me explicou de maneira cintilantemente clara e elegante que cazzo vinha a ser a relatividade geral. Nunca esqueci. Vai com deus, professor.
March 07, 2005
Perchance to Dream

"O sleep, o gentle sleep, nature's soft nurse..."*
A Nielsen publicou hoje os resultados de uma pesquisa sobre sono, conduzida em 28 países, segundo a qual 37% dos respondentes em todo o mundo não vão para a cama antes da meia-noite. Na Ásia, essa proporção é de 40%, ante 34% nos Estados Unidos e 32% na Europa. A surpresa é que o país mais coruja do mundo é Portugal-meu-avôzinho, niquiq 75% das pessoas não dormem antes da meia-noite. A pesquisa também indica que as pessoas estão indo dormir mais tarde, entre outras coisas, devido à disponibilidade de serviços online 24 horas para comprar um monte de coisa. (E, aliás, como a pesquisa foi respondida via Internet, provavelmente os portugueses demoraram mais pra dormir porque tinham que ficar acordados respondendo ao questionário, ora, pá.)
Nossos irmãos asiáticos vão dormir mais tarde e acordam mais cedo (72% dos indonésios acordam antes das 6h), e 51% dos americanos dizem que, se o patrão deixasse, tirariam uma sonequinha na firrrma. (Os americanos também constataram, em um estudo separado, que 100 mil acidentes de automóvel por ano são causados por motoristas com sono, a maioria dos quais com menos de 20 anos –does that ring a bell, Japs?) Já os países latino-americanos não constam da pesquisa, provavelmente porque deram um passaminhã no seu Nielsen.
As estatísticas do Uncle Filthy são muito mais tristes –nunca durmo mais de duas horas de uma vez; a cada vez que tô sonhando com Julianne Moore cantando “Put the Blame on Mame”, acordo assustado e corro pra bombinha de asma; e quando tomo uísque suficiente pra dormir, tem sempre alguém com martelo pneumático ou furadeira que decide trabalhar cedinho justo naquele dia (deve ser algum féladaputa de um indonésio).
Eu já afirmei muitas vezes aqui que sou um bostinha invejoso. Mas a minha maior inveja é de gente que dorme 10 horas por noite e acorda ainda com sono na manhã seguinte. Ou gente que assiste filme hediondo na TV e cai dormindo. Ou gente que decide ler o meu blog às três da manhã sabendo que, yo, that will surely put them to sleep. (Eu mesmo tentei isso em umas madrugadas de insônia e na verdade perdia o pouco sono que tinha abismado com as cacas que deixo passar na pressa de postar duas vezes por dia.)
Good night, Mary Ellen.
*Henry IV (2), 3, 1
The Reverse of the Medal

Patrick O'Brian demonstrando o uso dos canhões,
a bordo da fragata Rose
Tem um monólogo famoso do Seinfeld, niquiq ele estabelece a distinção entre amizades de infância e amizades adultas alegando que, quando criança, basta a outra pessoa dizer que também gosta de cherry soda pra alguém responder “então você vai ser o meu melhor amigo para sempre”. E ele tem razão: quanto mais o tempo passa, mais complicado sair da casca e fazer amigos. Mas tem dias em que você, grisalho, ainda se apanha tomado de imensa simpatia por alguém com base em motivos flimsy, como o apreço compartilhado por determinado escritor, músico, marca de uísque, lugar.
Foi marromenos o que senti ao conhecer o Eli, nesse final de semana, e a ponte entre nós foi o late, great Patrick O’Brian. O encontro tinha tudo pra ser sem jeito, ou pelo menos era isso que eu antecipava –tem sempre um milhão de possibilidades de desastre na hora de conhecer a família da namorada, especialmente quando eles vêm para a cidade basicamente com o propósito de avaliar o cafajeste, aka McNasty, que anda conspurcando o intocado buquê de Ms McDirty. Mas que nada. Tanto Mrs. McDirty quanto o marido, Eli, são gente finíssima, tem excelente senso de humor e, no caso do Eli, gosto literário impecável. Quando ele viu meu caixotinho de O’Brian, ficou com os zóinho iluminado que nem moleque (a ponto de ganhar o dele no domingo, aliás). E, obviamente, passamos o resto do final de semana ignorando solenemente as meninas e discutindo importantes questões náuticas.

By Patrick O'Brian (Richard Patrick Russ), 1914-2000
Um dos blurbs promocionais que a editora usa em The Complete Aubrey/Maturin Novels diz algo como “... he has erased the boundary separating a debased genre from ‘serious’ fiction. O’Brian is a novelist, pure and simple, one of the best we have”. And it got me thinking. Por que será, meu são jizuis, que sempre que um crítico cabeça tem que elogiar um livro que venha de fora do milieu intelectual/acadêmico, o suposto elogio necessariamente surge ressalvado por essas cláusulas salva-cu como “separating a debased genre from ‘serious’ fiction”? Livros ou são bons ou não são, e that’s that. Pressupor que um “gênero” seja intrinsecamente “debased” só serve para explicar por que ninguém liga a mínima pra literatura, há cent’anni, e no entanto livros “de gênero” continuam a ser escritos e vendidos aos milhões. Pra mim, é um insulto que os críticos insinuem que Chandler ou Hammett eram bons APESAR de escreverem livro de detetive (and the same goes for Bradbury ou Walter M. Miller na ficção científica, ou para "Plum" Wodehouse e Millôr, no humor). Minha opinião honesta é que a ressalva oposta seria muito mais pertinente: “Esse Jonathan Franzen aí até que escreve tão bem quanto um autor de policiais, apesar de (coitâââââdo) trabalhar no gênero ‘literatura’”.
Eu sei, eu sei, there I go on another rant. Mas a pretensão desse bando de punheteiros que estuda Letras, dá aula na Universidade de West Bumfuck e acha que tem mesmo poder curatorial sobre aquele fedebundo cadáver, a literatura, me deixa furioso. (Lembrei de um dos irmãos Campos, Humberto ou Afrânio, não sei bem, criticando um prêmio qualquer de poesia porque este havia sido concedido a um “fazedor de sonetos”. Ô, meu, tipo, vaisifudê. E lembrei também de outro brilhante humorista que nunca ganhou carteirinha de literato, Sérgio Porto [Stanislaw Ponte Preta], que, comentando a lei do concubinato, conclui dizendo que os “beneficiados” deveriam encerrar suas pidições com “e, aliás, concubina é a sinhóra sua mãe”.)
Por sorte, o número de leitores “genéricos” no mundo supera de longe o número de devotos da literatura. (E esses leitores de genéricos tendem a ser mais aplicados em sua devoção ao “entretenimento” que consomem do que os leitores cabeça o são com relação à ambrosia intelectual que lhes ocupa as terrinas. O’Brian, o genérico, por exemplo, é celebrado em sites que descrevem seus navios, traçam cronologias das carreiras de seus personagens, oferecem mapas sobre os combates navais –reais e hipotéticos- mencionados nos 21 romances da série Aubrey/Maturin, e indicam recursos como glossários, dicionários navais, e congêneres. Até mesmo o preguiçoso Uncle Filthy pesquisou mais do que queria sobre as peculiaridades dos navios a vela, mercê de seu apreço à literatura de mictório*.) Assim, em meu nome, em nome do Eli, e em nome de milhões de leitores de literatura genérica, quero deixar uma enorme pernacchia pro seu Mark Horowitz e pra todos os críticos literários de meia pataca. Vão tudo dar meia hora de bunda, mano.
* Há também um livro de receitas para os pratos mencionados nos romances, os guias de Dean King sobre os aspectos históricos dos romances (bem como sua biografia de O’Brian), dois CDs com a música que Aubrey e Maturin costumam tocar em seus saraus, além da fragata Rose (rebatizada HMS Surprise depois de ser usada na filmagem de Master and Commander: The Far Side of the World), aberta a visitas no museu marítimo de San Diego.
Update -Um trechinho do mestre: "I have had such a sickening of men in masses, and of causes, that I would not cross this room to reform parliament or prevent the union or bring about the millennium. I speak only for myself, mind -it is my own truth alone- but man as a part of a movement or a crowd is indifferent to me. He is inhuman. I have nothing to do with nations or nationalism. The only feelings I have -for what they are- are for men as individuals: my loyalties, such as they may be, are to private persons alone".
March 04, 2005
Don't you worry 'bout a thing

"They say your style of life is a drag"
Quando Dave -grande amigo, pianista ainda maior, bandmate predileto- me convidou para tocar em casamentos com a banda do tio dele, confesso que a reação inicial foi torcer o nariz –“wedding band”, afinal, sempre foi pejorativo dos mais estabelecidos entre os músicos (o equivalente brasileiro seria “Peninha côuve*”). Eu ainda era ingênuo ou teimoso demais para perceber que, até entre as wedding bands, havia bons músicos, ou gente tão apaixonada por música quanto eu. On the other hand, o cachê era de 250 dólares por noite, mais gorjeta (e pais da noiva e do noivo nunca deixavam a banda passar sem gorjeta) –argumento irrebatível pra alguém cujo emprego mais bem pago estava rendendo 10 dólares por hora. Lembro do meu teste com Irv, o tio do David –eu desconfiado de que ele usasse peruca (estava certo), ele desconfiado de que eu não soubesse ler partitura (estava errado). “Are you a sight reader? I really need a sight reader”, ele resmungou, desconfiando que, como soía aos roqueiros, eu não soubesse mesmo ler música, ou lesse tropegamente, à maneira de deputado brasileiro depondo em caso de corrupção. Desafiado, pedi uma partitura, e ele me passou o playbook do guitarrista, mandou que eu escolhesse alguma coisa ao acaso e tocasse. Assim, a primeira canção que toquei com a banda do Irv foi “Arthur’s Theme (Best That You Can Do)”, sucesso no nauseabundo falsete de Christopher Cross. Mau presságio?
Antes dos 20 anos a gente costuma ter certeza de muita coisa, e eu tinha certeza de que faria sucesso com música um dia, se não exatamente na forma de um McCartney ou Ray Charles, pelo menas como um Mose Allison ou Warren Zevon –succès d’estime, carradas de ironia. Por conta dessa certeza injustificada, eu vivia obcecado com a idéia de não “me vender”, de não comercializar o objeto da minha paixão. Quer dizer, não é que eu visse problema a priori em faturar uma grana com o fruto do labor of love, mas considerava inadmissível mascatear o amor por dinheiro –sucesso material teria necessariamente de ser uma nota de pé de página ao sucesso estético. Por isso, moralmente, uma banda como a do tio Irv me soava marromenos tão aceitável quanto colocar a namorada na zona –porque, dude, tinha Barry Manilow naquele playbook (e mais, e pior: tinha “Lemon Tree” em versão Trini Lopez, tinha arranjo “swinging” de “Hava Naguila”, tinha “Noite Feliz” ao modo Ray Connif. Tinha até reindróssquifó.)
Nem eu, nem o Dave entendíamos por que, meu são jizuis, alguém manteria uma banda durante tantos anos pra tocar aquilo. (A resposta evidente –“porque é o que a platéia quer ouvir em festa da firrrma, casamento e ocasiões natalinas, e porque músico também paga aluguel”- era inteligente demais pra que a gente aceitasse.) Assim, aproveitávamos todas as chances pra fazer pequenas sacanagenzinhas (por exemplo, inserir o nefasto riff de “Smoke On the Water”, disfarçado de centas maneiras, em quase todas os temas), reprovadas por tio Irv com caretas frenéticas que faziam a peruca dele oscilar perigosamente por sobre o fraque azul celeste que ele costumava ostentar. E, sem nem perceber, evidentemente melhoramos muito como músicos –nem todo aspirante a soulman tem, aos 19 anos, a chance de tocar com uma big band uma ou duas vezes por semana, por pior que seja o repertório. (Até hoje consigo ler uma partitura de saxofone, por exemplo, e transpor instantaneamente a melodia para o piano ou violão, mercê daqueles anos de casamentos.) E tio Irv, mão-de-vaca como bom judeu de anedota, insistia sempre em que a gente cantasse, fizesse backing –porque assim ele podia contratar menos músicos. Além disso, o motivo para que tivesse inserido os dois fedelhos em um conjunto com idade média de 47 anos era ganhar a possibilidade de tocar tipo uns róque, quando a audiência exigisse. Nessas ocasiões, freqüentes, tio Irv e os velhinhos da banda se mandavam cedo e deixavam a gente lá como quarteto, quinteto, tocando hectares de “Satisfaction” e “Light My Fire” às três da manhã pros mano e as mina que não conseguiam comer ninguém.
Tio Irv morreu em 2002, depois de liderar a wedding band mais popular da Jersey shore por 35 anos. No começo da década de 90, inconformado com a praga de DJs e sintetizadores que competiam com ele pelo mercado de eventos, chegou a encostar a banda por alguns meses. Mas o chamado de um restaurante em Atlantic City –uma espécie de churrascaria bingo dançante povoada por múmias- o atraiu de volta aos palcos e, com o revival do swing dancing, alguns anos mais tarde, tio Irv morreu não só fazendo o que amava mas, incrivelmente, fazendo o que amava em lounge de yuppie em Manhattan. (Com direito a obituário de duas colunas no Newark Star-Ledger –who cares about those uppity fellows at the NYT, anyway?) Já Uncle Filthy, que tem agora mais ou menos a idade que Irv tinha quando largou a orquestra do Golden Nugget para organizar sua banda, em 1967, continua giggling sempre que ouve reindróssquifó. E Dave –o herdeiro para quem tio Irv lutava por preservar a banda com tanto cuidado, em meio à chatura Korg dos anos pós-disco- morreu em 1989, à maneira usual dos músicos frustrados.
Sempre que penso nos dois, lembro de Dave quebrando o pau com tio Irv para incluir no repertório da banda um arranjo que nós tínhamos escrito para “Don’t You Worry ‘bout a Thing”, de Stevie Wonder, música que costumávamos tocar e cantar um para o outro em todas as ocasiões de desastre musical e amoroso (e, dude, eram mais ou menos 25 por mês, naqueles anos). Tio Irv achava absurdo perder tempo ensaiando uma canção que “ninguém conhecia”. Mas, como sempre, acabou cedendo à nossa insistência, e nunca vou esquecer do casamento em que Dave, ao piano, chamou o tema, apesar da cara feia de Irv, e do sorriso de orgulho velado do tio –aplicadamente tocando maracas- quando a pista de dança lotou. Nos piores dias da minha vida, lembro da alegria daquela madrugada –a música nem tinha parte de guitarra e eu feliz, cantando e batucando tamborim como se fosse brasileiro, a terça perfeita que Dave pegava contra o meu vocal, os velhinhos dos metais arriscando uma bizarra coreografia, a pista lotada de honkies massacrando a salsa, a bridesmaid de óclinhos que sorriu como uma supernova, me mandou beijo e foi embora sem falar comigo, o noivo dançando com quatro pés esquerdos e chorando de alegria. And I don’t worry 'bout a thing: Dave and Irv will see me through.
*aka Caetano Veloso
La Belle Noiseuse

"On ne sent jamais aussi belle que quand on a fait l'amour. C'est le meilleur lifting".
Diálogo (real) entre Uncle Filthy e uma significant (b)other, uns 13 anos atrás:
Ela: “Vamos ver La Belle Noiseuse, do Jacques Rivette?”
Eu: “Ih, filme francês, Rivette, sei lá...”
Ela: “É sobre um pintor em crise de inspiração, até descobrir uma nova modelo”.
Eu: “Cê tá completamente insana, nêga?”
Ela: “Tem quatro horas de duração”.
Eu: “Not bloody likely”.
Ela: “A modelo é Emmanuelle Béart e ela fica sem roupa três horas e 20”.
Eu: “Onde é que tá passando, mesmo?”

Emmanuelle Béart (1965- )
Se dona Béart num é a mulé mais góztóza do mundo, tá certamente no top ten. E fez uns dois ou três filmes com que eu simpatizo muito, a começar por Il Viaggio Di Capitan Fracassa, do véio Ettore Scola, com o hilário Massimo Troisi e a diliça Ornella Muti. É uma adaptação de Le Capitain Fracasse, de Théophile Gautier, romance ao gênero Scaramouche, e um francelho qualquer gets to do the nasty cas duas. Os críticos não gostam, mas who cares? No La Belle Noiseuse citado (mercifully, existe em DVD uma versão de duas horas, conhecida como La Belle Noiseuse –Divertimento), Rivette consegue demonstrar, ainda que com sua lentidão característica, o, vá lá, “processo criativo” do velho pintor (Michel Piccoli), que, entediado com a mulé (Jane Birkin) encontra na modelo Béart uma nova inspiração. E em Nathalie..., que Anne Fontaine dirigiu com base em argumento de Philippe Blasband, o mesmo de Une Liaison Pornographique, Béart é a call-girl contratada por Fanny Ardant para seduzir o marido, Gérard Depardieu, e contar em detalhes os segredos da furumfa. O fim é bestóide, mas a situação é legal. Ou talvez o fim também seja legal –ver as duas musas juntas obrigou Uncle Filthy a recorrer freqüentemente à bombinha de asma e ele terminou meio dôdjão. Daniel Auteil é a major lucky bastard, mesmo.
March 03, 2005
There's got to be a morning after

"Você é meu amorzinho, você é meu amorzão"
André era seletivamente gago. Falando de futibór, por exemplo, o moço era a regular Demosthenes. No trabalho como engenheiro, idem –pronunciava “concreto protendido” e “vergalhão de aço de elevada tensibilidade” sem nem parar pra respirar entre as sílabas. Mas, no que tange a mulé, desastre: demorava cinco minutos pra dizer o nome. Não se tratava exatamente de gagueira –era uma hesitação sem tamanho, como se todas as possibilidades de fracasso passassem diante de seus olhos no intervalo entre o olhar e a fala, o que deixava um enorme hiato na conversa, entre o aperto de mão e o “prazer, André”.
Mesmo quando ele conseguia transpor as barreiras iniciais, as conversas de André cas mina eram marcadas por longos silêncios. Seguidos de monossílabos. O suposto allure do tipo fortão e silencioso é bem menor quando a significant (b)other acaba de discorrer cinco minutos sobre o futuro do namoro e recebe como resposta, depois de um silêncio perturbador, um hesitante “pode ser”. André não levava jeito para se apresentar ao, er, “universo feminino” como porta-voz do perpétuo dilema hamletiano. O mais das vezes, soava mesmo era tonto.
Conviveu aos trancos e barrancos com a dificuldade por alguns anos, até que um projeto o arremessou aos braços da mulé que tinha pedido a são jizuis: stealth sexy, humor maravilhoso, morena, covinhas, apreciadora da arte perdida do western. E arquiteta. Arquitetos e engenheiros, todo mundo sabe, convivem mal. Engenheiro taciturno e arquiteta bubbly, uh oh. Mas André se tomou de imediata simpatia (e muito mais) por Ana Paula. Que também simpatizou com o engenheiro incomumente acessível e prestativo com quem dividia a responsabilidade na construção de uma galeria de arte. Sempre que o assunto era trabalho, a conversa fluía bem, e a dupla encontrava rapidamente soluções de compromisso para a maior parte das picuinhas que dividem as catigorias. Mas quando Ana Paula convidava o engenheiro para almoçar, o mutismo imediatamente retornava.
Ela levou seis almoços para descobrir que não, ele não era casado, sim, morava sozinho, não, não tinha filhos, sim, queria ir a uma festa com ela no final de semana. André, de seu lado, completamente encantado pela colega, ficava ainda mais travado, e virava noites sonhando com a magia do silêncio confortável. No sábado da festa, ele parecia debutante. Trocou de roupa três vezes. Ligou pros amigos pra pedir conselho. Passou quatro vezes na porta da floricultura, comprou um buquê na quinta, terminou escondendo as flores no porta-malas, e ainda assim chegou meia hora adiantado. Pra passar o tempo, sentado no carro, ligou o celular e ficou jogando Tetris, sentindo maus presságios a cada vez que caía do topo da tela um daqueles malditos degrauzinhos.
Chamou Ana Paula ao interfone com rigorosa pontualidade, e ela desceu imediatamente. No caminho, falaram da obra, e de outras obras, ele explicando o caso da famosa escadaria oscilante desenhada de zóinho puxado por renomado arquiteto nipobrasileiro, ela rebatendo com exemplos seletos de paranóia engenheiral. A provocação mútua era a conversa mais íntima que já tinham travado, e André chegou à festa convicto de que, com a ajuda de exatamente dois uísques, destravaria o bastante pra expressar suas (más) intenções. Mas o plano desandou imediatamente. O ex- de Ana Paula, motivo principal tanto para que ela fosse à festa quanto para que tivesse convidado o forasteiro, estava lá, mas acompanhado de namorada nova, e a arquiteta dos sonhos de André imediatamente deu o tiro inicial em um porre de ajuntá cachorro.
Carimbando “desastre” na noitada, André batalhou por mais de uma hora para convencer Ana Paula, sete tequilas mais tarde, a ir embora. O percurso da casa até o carro foi marcado pela elegante trilha sonora do vomitório. Chegando ao Astra, André abriu o porta-malas para procurar um pano que permitisse à amiga limpar os sapatos (como boa bêbada, ela estava obcecada por aquele detalhe), e Ana Paula viu o buquê. Os dois ficaram completamente sem jeito, por motivos opostos e complementares, e o racional engenheiro decidiu que só havia uma coisa a fazer: glicose na veia. Mas Ana Paula não queria ir ao PS, ou pra casa (os pais não podiam vê-la naquele estado). Terminaram no apartamento de André. Ela caiu no sono mais ou menos às quatro da manhã, depois de seis visitas ao banheiro. E ele dormiu sentado na sala.
Manhã seguinte, momento ainda mais embaraçoso: ela morrendo de vergonha da gafe, ele morrendo de medo de que ela supusesse que ele se aproveitara, ou imaginara se aproveitar. André separou algumas peças de roupa que pudessem servir a Ana Paula, deixou o chuveiro ligado, se refugiou na cozinha. No celular da arquiteta, 75 mensagens da mãe desesperada, que ela conferiu irritada enquanto se vestia. No elevador, apertou o térreo em lugar do subsolo. “Vamos dar uma volta a pé”, convidou. Dois quarteirões rua abaixo, ele apontou para a “impressão artística da fachada” exibida no tapume/outdoor de um prédio em construção e riu: “Só arquiteto”. Ela rebateu: “Engenheiro não entende nada”. E os dois se deram as mãos e caminharam até a padoca em silêncio. Silêncio completamente confortável. Eram nove horas da manhã.
When pigs fly

"Clutching forks and knives to eat their bacon"
Porco chauvinista: Frank Vermeiren, veterinário belga, fez pelos porcos quadrúpedes o que Serge Gainsbourg fez pelos congêneres bípedes, e gravou um CD afrodisíaco para os nossos amiguinhos suínos. Ao que parece, as porcas ficam doudinhas ao ouvir a gravação dos grunhidos excitados de um macho (acompanhados por contrabaixo e sintetizador Casio, aposta Uncle Filthy), e quanto mais alto melhor. O amigo Oramdir, que assina a revista Pig International e presenteou Uncle Filthy com um exemplar cuja capa ostenta alemoa gostosa abraçada a um porco, com certeza vai querer.
Not kosher: O eficiente correio teutônico entregou na sede do Parlamento, em Berlim, um cartão postal enviado da Inglaterra e endereçado ao “Führer Adolf Hitler, Reichstag, German Parliament, Berlin, Germany”. O cartão chegou carimbado pelo correio com um carimbo de “redirigido devido a endereço incorreto”. Ainda que o pessoal do Parlamento tenha achado que era piada de mau gosto, o correio explicou que “se o endereço existe, entregamos a carta, não importa que o destinatário esteja vivo ou morto”. O que me lembra o caso de um cartão de aniversário enviado pelo meu amigo Cláudio à vó dele em Belém, que chegou à casa da velhinha três anos mais tarde (um ano depois de ela ter morrido), devolvido pelo correio de Berlim (e provavelmente acompanhado por um carimbo do correio brasileiro dizendo “Belém, Berlim, tudo a mesma coisa”).
Meu Brasil brasileiro: A cidade de Montes Claros, terra natal do aristocrático clã Malgardée, está promovendo o leilão de três máquinas de aumentar o bingulim, para pagar o salário do funcionário de uma sex shop falida. A juíza que autorizou o leilão disse que espera grandes resultados. Já Fortaleza se despede de Sheridan Gregorio, turista holandês que torrou toda a grana nas férias e, embora tivesse a passagem de volta, não tinha dinheiro para pagar a taxa aeroportuária, e por isso passou cinco meses que nem Tom Hanks em The Terminal, ou seja, sendo um ator muito ruim e muito superestimado. Não, quero dizer, trabalhando de faxineiro pra juntar a grana. Gregorio diz que o povo brasileiro o tratou muito bem. Deve ser porque é a primeira vez que um gringo veio fazer faxina pra gente, em vez do contrário.
Lethal Weapon 2.0: Tawny Peaks, dançarina exótica famosa depois de ser processada (e absolvida) em caso de agressão com peitão (ela acertou o olho de um cliente com as mamárias perfuro-cortantes enquanto dançava), removeu os implantes e colocou um deles à venda no eBay. O arrazoado da empreendedora dançarina: “pô, é o primeiro peito processado por agressão”. Até agora, o maior lance foi de 71 dólares. No processo, a vítima comparava as armas, er, brancas de Ms. Peaks a “dois blocos de cimento”. O caso foi decidido no programa de TV People’s Court, quando o ex-prefeito Ed Koch, de Nova York, que servia como “juiz”, ordenou que uma especialista examinasse as armas do crime, as quais, depois de apalpadas, se revelaram “macias”, se bem pesassem um quilo cada, segundo a profissional da balística mamária.
O melhor jornal do mundo: Meu querido Sun destaca hoje os resultados de uma pesquisa sobre o que um sujeito faria caso acordasse transformado em mulher. Um em três, previsivelmente, apalparia os peitos. Mas as diferenças regionais são fascinantes: 70% dos homens do sul do Reino Unido começariam pelo apalpamento, ante apenas 14% dos escoceses. Já nos Midlands, beware: mais homens apalpariam a maquiagem das mina do que os boobs. Entre outras fantasias masculinas em caso de troca, também temos sair para uma girls' night out e comprar sex toys. Menos na Escócia, onde 80% dos mano iriam à loja comprar vestidos novos.
Já as mina, exibindo o bom senso que caracteriza a catigoria, dizem que se acordassem transformadas em homem aproveitariam pra comer o quanto quisessem sem se preocupar com o peso. Elas também gostaram da idéia de não ter de pegar fila pra ir no banheiro. No sul, 50% apalpariam os naughty bits imediatamente, ante 27% na Escócia. E quase metade delas tentariam fazer amizade com um ex-namorado para saber por que levaram pé na bunda. Uncle Filthy, por sua vez, se acordasse transformado em mulher, aproveitaria para passar o dia inteiro chorando e chamando todos os homens de insensíveis.
March 02, 2005
What's the story, morning glory?

"I've a feeling there's a lot you're concealing"
Ele morria de vergonha do hábito de esticar a noitada até o limite da grosseria, que prevalecia entre seus amigos. A turma sempre terminava expulsa do bar em meio a reclamações, enquanto os garçons sonolentos empilhavam cadeiras diante das mesas vizinhas, vazias há uma hora. Mas ele não conseguia dizer boa noite na hora em que a conversa morria, ou o sono batia, ou as meninas bunitignas da mesa ao lado iam embora. Não tinha coragem de se despedir com um ciao geral, oferecer uma carona genérica aos necessitados e procurar consolo no edredom de ursinho que arrastava feito o Linus adolescência e juventude afora. O evangelho da era dispunha que “pode rolar”. O que, exatamente? Beats me. E toca a dormir sete e meia da manhã, depois de um último uísque, de um sanduíche indigerível comido em horário bárbaro, de um café impensado.
No dia seguinte, claro, aquela sensação de estômago forrado de concreto, e a cabeça desconfortável, oca, como naqueles casos de surdez induzida por tempo demais ao lado dos alto-falantes, mas afetando igualmente todos os sentidos –vista turva, olfato ausente, gosto de cartolina na boca. E aquelas tardes de modorra malsã, de vez em quando tomadas por soluções do gênero “hair of the dog”, emendando uma ressaca na seguinte (the horror, the horror), seguidas por noites de rotina boêmia que se tornavam tão chatas quanto uma manhã de segunda-feira no escritório. Tudo em nome da “diversão”, e daquela esperança bêchta de score something –mulé, bebida de graça, festa, aditivos químicos variados.
Depois de um ano disso, ele tava realmente de saco cheio, e uma noite, depois de fusão de duas turmas igualmente chatas e sem rumo em uma mesa gigante de bar na Vila Madalena (tem coisa mais chata do que mesa gigante de bar? Tem coisa mais chata do que a Vila Madalena?), decidiu que ia sair de fininho. Deixou uma grana com o amigo mais chegado, fez que ia ao banheiro e, na porta, encontrou meia dúzia de desgarrados que tinham decidido abandonar o boteco e ir para a casa de um trio de meninas que haviam acabado de conhecer, para fazer macarronada às duas da manhã. A contragosto, foi: precisavam de um segundo carro para o traslado. E enquanto o pessoal cozinhava e se espalhava pelo andar de baixo, ele terminou com uma das donas da casa em um quarto do piso superior, assistindo a The Treasure of the Sierra Madre Madre, dublado no Corujão. Caíram dormindo antes do “we don’t need no stinking badges*”, cada qual para um canto, e o esquadrão da macarronada, que tinha chegado à casa da dezena, nem deu pela falta da dupla.
Na manhã seguinte, acordou sem ressaca, às oito, cobriu com uma colcha a moça que dormia meio torta, desceu, lavou a cara na pia da cozinha e inspecionou os detritos da festa antes de sair silenciosamente. Da casa vizinha, uma velhinha cautelosa o olhou de cima abaixo e, diante do aceno gentil dele, sorriu e desejou “bom dia”. “Pareço um vampiro”, pensou, estranhando o sol ao parar na padoca favorita, onde pediu uma média e um pão na chapa, enquanto lia as notícias do futibór na Gazeta Esportiva que alguém esquecera no balcão. “Cê acha que o Brasil ganha hoje?”, perguntou o cara duas banquetas pra esquerda. “Ganha sim. Paraguai é freguês”, ele respondeu. Eram nove da manhã.
*Na versão Herbert Richers, provavelmente "nós não precisamos de distintivos fedorentos".
Incipit Vita Nova

"Nel cor mi si comincia uno tremoto,
che fa de' polsi l'anima partire"
Chi è questa che vèn, ch'ogn'om la mira,
che fa tremar di chiaritate l'âre
e mena seco Amor, sì che parlare
null'omo pote, ma ciascun sospira?
Guido Cavalcanti (1255-1300), Rime, IV

Villa Rigacci
Piace sanza dubio piú uno principe che abbia del prodigo che uno che abbia dello stretto; e pure doverrebbe essere le contrario, perché el prodigo è necessitato fare estorsione e rapine, lo stretto non toglie a nessuno; piú sono quelli che patiscono dalle gravezze del prodigo, che quelli che hanno beneficio dalla sua larghezza. La ragione adunche a mio giudicio è che nelli uomini può piú la speranza che el timore, e piú sono quelli che sperano conseguire qualche cosa da lui, che quelli che temono di essere oppressi.
Francesco Guicciardini (1483-1540), o adversário do Niccolò, Ricordi, 72
Lo usare parole contro al nimico poco onorevoli, nasce il più delle volte da una insolenzia che ti dà o la vittoria o la falsa speranza della vittoria; la quale falsa speranza fa gli uomini non solamente errare nel dire, ma ancora nello operare. Perché questa speranza, quando la entra ne' petti degli uomini, fa loro passare il segno; e perdere, il più delle volte, quella occasione dell'avere uno bene certo, sperando di avere un meglio incerto.
Niccolò Machiavelli (1469-1527), o adversário do Francesco, Discorsi sopra la prima Deca di Tito Livio, 27

Residenza dell’Alba
Fottiamci, anima mia, fottiamci presto
perché tutti per fotter nati siamo;
e se tu il cazzo adori, io la potta amo,
e saria il mondo un cazzo senza questo
Pietro Aretino (1492-1556), Sonetti Lussuriosi, I

"Tramontate, stelle! All'alba vincerò!"
Voi ch’ascoltate in rime sparse il suono
di quei sospiri ond’io nudriva ’l core
in sul mio primo giovenile errore,
quand’era in parte altr’uom da quel, ch’i’ sono
Francesco Petrarca (1304-1374), Canzionere
(Rerum Vulgata Fragmenta), I