February 25, 2005
Some rest for the wicked
Uncle Filthy (hopefully) volta na quarta-feira pela manhã.
Have fun, kids.
Have fun, kids.
There are no fortunes to be told, although

"(Because I love you more than I can say)
If I could tell you I would let you know"
De vez em quando (e cada vez menos), eu sinto o tempo. E não, não quero dizer em termos místicos: é uma sensação física, mais ou menos como aquela que se tem no convés superior de um ferry-boat quando o motor é acionado lá embaixo: um ronco surdo, uma vibração ligeira que informa que o treco tá vivo sob as solas dos sapatos. No entanto, quando sinto o tempo, nem sempre sei exatamente o que estou sentindo.
(Eu sinto o tempo
Revolta de continentes mecânicos em movimento contínuo)
Em 1988, por exemplo, ainda estudante, fui a um seminário em Viena, sobre a permanência –ou não- da idéia de Mitteleuropa na historiografia, e o evento estava cheio de historiadores do Bloco Oriental –tchecos, húngaros, alemães orientais, poloneses. Mesmo que o comunismo já estivesse objetivamente estrebuchando, ninguém SABIA, ninguém previa a implosão, um ano mais tarde, e os historiadores enviados a esses convescotes do lado de lá da Cortina de Ferro, eram, claro, todos super chapa branca. Mas nas fugas coletivas para as beerhausen ali por perto do Karl Luger Ring, e nas manobras para conseguir conversar 15 minutos sem intrusão dos carrancudos espiões oficiais que sempre acompanhavam as delegações de países comunistas, os sorrisos desconfiados e a angústia esperançosa daquele estranho grupo de colegas permitiam entreouvir o zumbido do tempo, a marcha da história.
(Ouço
Entre os cracks mórbidos das fraturas
O júbilo dos coros de Aleluia
Pelas profecias que se cumpriram)
Passados pouco mais de 10 anos, na Califórnia, revéillon “do milênio”, e a mesma sensação, o mesmo rangido esquisito ouvido por sob a exuberância irracional, a chuva de confetes que eu imaginava feitos de todas aquelas opções de ações que valeriam nada dentro de seis meses. Mas eu estava errado quanto ao gênero de cataclismo. Lembro de ter sentado com uma refugiada da academia no muro da casa de praia linda que um colega construiu em Half Moon Bay (e perdeu em foreclosure um ano mais tarde), bebendo uísque no gargalo e fazendo torneio de insultos ao embusteiro do Fukuyama. No piso rochoso do mar aquele rugido surdo, o tempo inexorável.
(Como um cachorro sacudindo as pulgas
O planeta purga suas dúvidas
Em abalo sísmico)
Lembro de uma longa caminhada pela praia naquele dezembro eufórico e árido, e dos violões ao longe, geeks tornados milionários cantando Nirvana em volta de uma fogueira, fumando maconha, clueless about what was about to happen. Lembro do cachorro coió andando em direção oposta à nossa pela praia, desviando cautelosamente os passos quando as ondas geladas estendiam os dedos areia dentro. Lembro de me voltar e olhar o cachorro de três pernas umas 500 vezes, enquanto caminhava de mãos dadas com a amiga, em silêncio.
(Já não espero o tempo de assassinos.)
E de onde vem esse rugido surdo em meus ouvidos?
Gruesome Threesomes

A musa Clarabela, tocando flauta solitária
Certos momentos definem todo o futuro de um relacionamento. Quando a ole ball-and-chain, depois de três tequilas, confessa sanha insaciável por um threesome com o Tico e o Teco, ô, dificurdad. Mas Uncle Filthy é homem moderno e, em vez de perder o sono tomado pelo cilmes, aquele monstro de olhos vesgos, decidiu to get even, e descobrir nimquem gostaria de dar uns cata no mundo dos quadrinhos e desenhos animados. Nove entre 10 pervertidos out there devem ter pensado “Betty Boop”, mas, sei lá. She’s kinda cliché. E o elenco dos cartoons Warner, meus favoritos, é meio deficiente no quesito “as mina”. Já o lado Disney oferece algumas alternativas –Minnie, por exemplo, se ela não parecesse o Mickey in drag; Margarida, mas ela é a um só tempo leviana demais (vive paquerando o Gastão) e nagging wife demais; Vovó Donalda, sexy, sagaz e self-sufficient, é areia demais pro meu caminhãozinho, infelizmente (been there, tried that); e aí lembrei da mulé ideal, entre as Disney: a classy Clarabela.

A musa Rosie, exibindo o fetish-wear
Clarabela, nascida em 1926 como Carolyn Cow, é charmosa, elegante e utterly discreet. Seu longo noivado com o Horácio (desde 1931) foi interrompido nos anos 60 por um breve fling com o Pateta (ou seja, she's not immune to that kind of charm). Clarabela é morena, longilínea, tem cara de intelectual (mercê dos chifres) –sem deixar de ser uma vaca: tudo que Uncle Filthy pediu. Pra completar o threesome, ninguém melhor do que Rosie, a empregada robotizada dos Jetsons –mulé futurista mas sempre vestida com aquela roupinha fetiche. Tico e Teco my ass, babe.
February 24, 2005
Eyes wide shut, mouth (and thereabouts) wide open

Prozac pras mina, monges e Durex Ducky
Macedonia: O sexólogo italiano Piero Lorenzoni alega que “os seios de uma mulher, como o seu signo, revelam sua personalidade”. Ele categorizou os tipos de seio como frutas -entre as quais melões, limões, abacaxis, grapefruits, laranjas, cerejas e peras- e alega, por exemplo, que as mina da catigoria melão “gostam de comer, e de mimos e admiração. Mas raramente gostam de sexo”. Uncle Filthy, que já tentou abrir um consultório de psicanálise por apalpamento para moças, gostaria de aproveitar a oportunidade e lembrar às suas legiões de admiradoras que a sobremesa predileta dele sempre foi salada de fruta, anyway.
Mais fila ainda no Inamps: Falando em sobremesa, cientistas britânicos constataram que o consumo de chocolate atenua os sintomas de depressão e TPM nas mina, e por isso militantes da saúde começaram uma campanha para que o NHS (Inamps ingrêiz) distribua chocolate de graça para as moçoilas da obnubilada ilha, alegando, por exemplo, que “ele poderia ser usado como substituto para o Prozac”. Se acrescentarmos a isso a decisão da Corte Suprema americana que rejeitou uma lei do Alabama segundo a qual vender vibrador é crime, são duas vitórias para a catigoria XX. (Aliás, quanto mais chocolate elas ganharem do Inamps, mais vibradores terão de comprar, e a Durex britânica antecipou a tendência: já está vendendo online o melhor amigo da mulé.)
“Essas calças te deixam gorda, Maria Alice”: Depois de tanto chocolate e vibrador, os portadores de XY decerto vão precisar de um conjunto adicional de desculpas pra dispensar as significant (b)others, e o site Dumpjeschatje está lá pronto para ajudar (infelizmente, só pra quem lê holandês), sugerindo, por exemplo, que o mano compre lingerie XG de presente pra musa. Entre outras pérolas o site tem uma carta-formulário de dispensa e um poeminha bilhete azul com rimas para os nomes neerlandeses mais comuns. Uncle Filthy nunca precisou de ajuda pra induzir a cara-metade a lhe tascar um belo pé na bunda, mas incluiu o meritório sítio em seus bookmarks. Just in case.
Depois do pé na bunda: o mano corre sempre o risco de que uma namorada zangada decepe o dito-cujo e o despache vaso sanitário abaixo, como aconteceu com um azarado no Alasca que, depois de brigar com a Dona Increnca, topou fazer make-up sex com os braços amarrados. A zinha, Kim Tram, caplóft o bingulim do sujeito, e depois o desamarrou e levou ao hospital. A polícia encontrou a ceifadeira em casa tentando limpar a cena do crime, e convocou funcionários da empresa de água, que removeram a privada e encontraram o, er, membro extraviado, reimplantado em cirurgia no domingo. Light bondage no Alasca? O cara devia ter desconfiado.
Third Eye Blind: Meus dois fiéis leitores sabem que Uncle Filthy num é ninguém sem monges budistas doing weird stuff, e o impronunciável Phra Khru Prapatworakhun, em Angthong, Tailândia, colaborou com o meu esforço de reportagem usando cola encontrada no armário de remédios do mosteiro como se fosse colírio. Se bem as notícias acima deixem bem claro que há muita coisa no mundo que ninguém quer muito ver, dude, colar os dois primeiros fechados nunca vai ser o caminho mais prático para abrir o proverbial terceiro olho.
Lovin' the spin I'm in?

"You've got me spinning, spinning, spinning 'round"
Feriado americano é mostly creepy. Por exemplo, segunda-feira foi o President’s Day. Pior, o presidente que criou o feriado do Dia do Presidente foi o Nixon, em 1971. E todo mundo sabe como aquilo lá acabou. Eu e o band of brothers (and sistahs) here terminamos trabalhando –circunstances beyond our control e tal. Perguntei pros nativos o que eles achavam do (não) feriado, e a resposta básica foi “bão, pra num trabalhar, qualquer desculpa serve”, o que me fez lembrar com muita saudade do meu torrão natal, onde essa atitude prevalece sem nenhum esforço -e onde, claro, ninguém toparia trabalhar os três dias de um feriado, ao contrário do pessoal aqui. “Ética protestante”, methinks. Se bem os protestantes estejam em séria minoria no meu barraco.
Essa é uma das chaves psicológicas pra entender os americanos: eles todos gostariam de ser mais “brasileiros”, ou seja, aparecer com qualquer desculpa pra não trabalhar em feriado. Mas o ethos nacional os impede. Ou, no mínimo, a hipocrisia nacional os impede. Se tem um país niquiq o “duplipensar” existe em termos muito práticos, welcome to the land of the frisbee, home of the babe. Que outro país atingiria paroxismos de indignação por conta de um mamilo escorregando pra fora em rede nacional? Não é como se ninguém nunca tivesse visto o material antes, for cryin’ out loud. E aí vem a justificativa permanente pra qualquer hipocrisia: é pelas crianças. Dude, as crianças viram aquilo lá bem de perto, afinal (e muito mais vezes do que Uncle Filthy em sua vida adulta, by the way). Aliás, dado o acesso à informação e o volume incontrolável de conteúdo de qualquer ordem disponíveis para quem quer que se interesse, nos Estados Unidos, a suposição de que se pode “proteger” crianças contra os malefícios do mamilo é, pior que hipócrita, ingênua. Ou, se a gente levar em conta que nem todo mundo é tão burro por aqui quanto os anti-americanos de plantão gostariam, deve ser pura sacanagem, mesmo.
A grande invenção americana dos últimos 30 ou 35 anos foi o “spin”. Ou seja, a idéia de que o que importa não é o fato, mas a forma pela qual ele é apresentado. And everybody spins like mad (não é por acaso que eles parecem tão tontos.) Alguém realmente acredita que Paris Hilton seja vítima de invasão de privacidade? (Não importa que o seja, ou não.) “Spin” é a arte de desviar a controvérsia para áreas salacious mas inócuas. Por exemplo, no caso do nosso querido “Jeff Gannon”, o inteligente spin adotado pela direita desvia a discussão para as atividades dele como acompanhante e a possibilidade de que seja closet gay, quando o problema real é a violação absurda dos códigos éticos de relacionamento com a imprensa, pela Casa Branca, ao admitir como correspondente um falso repórter trabalhando sob falsa identidade para uma falsa organização noticiosa, e por um ano. Mas o que os spin doctors sabem é que o povo não acredita na integridade da imprensa, e imagina que todos os veículos e jornalistas se comportem exatamente como “Jeff Gannon” e a Trolha News. Da mesma forma que sabem que o pessoal adora uma sacanagem da mais fútil como watercooler topic. (Todos os meus amigos que já trabalharam com notícias online, como eu, podem atestar que basta colocar um tópico com cara de fofoca na home page para fazer disparar os pageviews –se envolver góztóza e uma certa dose de maldade, ainda melhor.) Quer dizer, todo mundo gosta de ler, “horrorizado”, sobre os mamilos fugitivos, sentir aquele tingling underneath the undies, e ostentar superioridade moral a respeito. “Que absurdo, um mamilo em público!”
Não é que as organizações noticiosas sejam inocentes –mas as mais sérias pelo menos tenta(vam) seguir certas normas profissionais. Infelizmente, ficou impossível, nos últimos anos. Por exemplo, a revista Newsweek tinha em mãos todos os fatos sobre o envolvimento entre Clinton e Chupinski, mas vacilou para publicar, procurando corroboração, ponderando o valor noticioso da bagaça, a ética da questão –e terminou furada pelo site de fofocas Drudge Report. Ninguém quer correr esse risco. Por outro lado, depois de 40 anos, todos os grupos de interesses aprenderam a manipular a mídia. (No passado, havia a ilusão de que criar fuzuê público a fim de atrair jornalistas e divulgar uma causa era método lícito, dada a “nobreza” inerente das causas. Hélas, fudeu, porque toda causa se acha nobre e qualquer mongo pode usar o mesmo método.) O que a gente tem aqui é a stasis perfeita entre uma mídia completamente cínica e aprisionada nos grilhões da correção política e um público completamente hipócrita enredado nas malhas dos “valores familiares”. E a única saída é virar Amish –coisa que muita gente, pelo menas metaforicamente, vem fazendo.
February 23, 2005
...and then along came "Dub" Jones

Standing, l to r: Lester Sill, Jerry Wexler, Carl Gardner Jr., Cornell Gunter, Billy Guy, Will Jones e Ahmet Ertegun. Ao piano: Jerry Leiber (l) e Mike Stoller
Shopping for Clothes
(Leiber/Stoller/Harris)
I was shopping for a suit the other day, and walked into a department store
Stepped on the elevator and told the girl, uhn, dry goods floor
When I got out a salesman he come to me and said, ‘now, what can I do for you’?
After we go in you show me all the sport clothes, like you’re supposed to
And he said, ‘well, sure, come on in buddy, dig this fabric we got here laid down on the shelves’
He said
(Salesclerk): Pick yourself one, stand in the mirror, dig yourself
(Salesclerk): That suit is pure herringbone
Yeah, that’s a suit I’d like to own
(Salesclerk): Buddy, that suit is you
Yeah, I believe it, too
I see, for the bidness man you fitted the natural shoulder that retail wholesale indeed
It’s got the custom cuffs and the walkin’ shuff, he says
(Salesclerk): And I’m gonna let you have it at a steal
And for the playboy you have the latest in tweed with a cutaway flapped over twice
It’s a box-back two-button western mesh, he said
(Salesclerk): Uhn uhn, now, ain’t that nice?
(Salesclerk): Them buttons are solid gold
You made a deal, sold
(Salesclerk): That collar’s pure camelhair
Now you just sit down right there on that chair
Now you go back there, you get that paper and let me sign on the dotted line
Then I’ll make sure I’ll get all my payments in, right on time
(Salesclerk): Now, wait a minute buddy, let me go back there and run a little checking on you
Then the man he come back and he say, ‘sorry my man but your’
(Salesclerk): Your credit didn’t go through
Now, what you mean?
Ain’t THIS a shame? Uh, uh, uh my heart’s in pain
Pure, pure HERRINGbone
(Salesclerk): That’s a suit you’ll never own
Uh, Lord have mercy
(Fading): (I’ve got a good job sweeping, baby, I can pay...)
Nota: Eu gosto das duas formações “clássicas” do Coasters, embasadas por Carl Gardner Jr. e Billy Guy (mais o subestimado guitarrista Adolph Jacobs). A primeira, com Bobby Nunn e Leon Hughes, gravou “Down in Mexico” e “Young Blood” (“you’d better leave my daughter alone”, tonitroava Nunn); enquanto a segunda, com o hilário Will “Dub” Jones no posto de baixo e Cornell Gunter substituindo Hughes, responde por “Yakety Yak”, “Along Came Jones”, “Charlie Brown”, “Little Egypt” e “Poison Ivy”, que os pobres brasileiros conhecem em versão bastarda e nójenta como “Erva Venenosa”, genocídio cometido por uma dessas bandas de rock bananão chulé que infestavam o rádio nos anos 80. Mas o trabalho supremo da carreira do Coasters é “Shopping for Clothes”, hino que une o gênio de Mike Leiber e Jerry Stoller ao mitológico compositor Kent “Boogaloo” Harris, um dos elos perdidos na história do rhythm’n’blues. “Shopping for Clothes” é precursora direta do rap, e traz Mike Stoller, ao piano, Phil “Wall of Sound” Spector, na guitarra, e o grande King Curtis, excelso tenorista de blues e soul, para acompanhar o dramático duelo entre Guy (o comprador) e Jones (o vendedor), na perene e elusiva busca pelo terno perfeito. Orra, mano, como o Coasters era bão!
Sinner, repent: the anti-Christo is upon thee!

"The Media Gates", by Hargo (and Edie)
Em esforço subumano de reportagem, Mike McNaughty, correspondente da NoronhaNews em Cambridge, Mass., descobriu o quartel general do anti-Christo: fica em Village Street, Somerville, Massachussets. Foi lá que Hargo, artista da vanguarda câmbrica, na fiel companhia do gato Edie e da mulé dona Patricia, manifestou sua natureza tinhosa e produziu The Somerville Gates, um felômeno da arte –e tudo isso trabalhando três horas e ao preço de US$ 3,50.

Roupa suja se lava é no parque
Hargo, né Geoff Hargadon, é o tipo de artista caro ao coração do Uncle Filthy: embrulha tudo em escala pequenina. Já Christo, cujo trabalho cês podem conferir aí em cima em foto autística tirada pelo locutor que vos fala, ih, sei lá, tá ligado? Minha sensação inicial ao percorrer o corredor búlgaro do embusteiro, digo, gênio das artes era a de passear no quintal de um mosteiro budista, por sob o varal carregado de roupões lavados ao som de “ensaboa, Gafanhoto, ensaboa”. Comparem vocês mesmos. Mas, se depender do voto do Uncle Filthy, the Oscar goes to Hargo, o anti-Christo de Massachussets.
Update: Consertei o link do Somerville Gates. My bad.
February 22, 2005
Fear and loaf bread in the city

"The knife feels like justice"
The Local: Uma cidade habitável quer dizer sempre uma mulé, uma livraria e um bar (pelo menos). Bom, tendo cuidado dos dois primeiros itens, Uncle Filthy agora está elegendo o seu local, e por enquanto o favorito é o Josie Wood’s, 11 Waverly Place. Ainda que fique bem pertinho do prédio central da NYU, o que acarretaria o risco de (argh!) estudantes, os cartazes gigantes alertando que todas as identidades falsas serão confiscadas e seus portadores dedados pra campus police parecem fazer efeito. Os bartenders são todos profissas, e não estudantes ganhando grana por fora ou aspirantes a ator/escritor/artista prástico –o que garante pouco papo furado e drinques bem servidos. (Besides, no mesmo endereço e com praticamente o mesmo décor, antigamente funcionava um boteco chamado Boo Radley’s, near and dear to Uncle Filthy’s heart.)
Taras Shevchenko: Um cantinho paralelo à praça onde eu moro ganhou identidade separada, em homenagem a Taras Shevchenko (1814-1861), o poeta e pintor do século XIX que defendia a independência da Ucrânia. Em meio a muita chatura sobre a escravidão de sua terra natal blablablá, Shevchenko sai-se com pérolas como “don’t wed a wealthy woman, friend/ she’ll drive you from the house./ Don’t wed a poor one, either, friend/ Dull care will be your spouse”, na tradução do canadense John Weir. (O barman do local ucraniano perto da praça, Lys Myskyta (raposa astuta) –rua 9 com avenida 2-, recita o poema no original, depois do terceiro slivovitz).
Inbox: Já um amigo brasileiro, em visita ao supermercado do “nosso” bairro, afanou um cartaz -afixado a uma bancada cheia de ovos de páscoa- com os dizeres “não me aperta que eu sou sensível”. O amigo pendurou o cartaz –enfeitado, segundo ele, por um coelho atacado de Mal de Parkinson- no monitor do intimorato PowerMac, e até agora não levou nenhum apertão.
IM: Piper: “I told him I might conceivably be slightly pregnant, and he cursed in Spanish. Do you think I got through to him?” Filthy: “Ay, caramba!”
News Radio: “Jeff Gannon”, o falso repórter que misteriosamente passou um ano cobrindo a Casa Branca para inexistente agência de notícias online chamada Talon News (na verdade, fachada do Partido Republicano), e entre outras pérolas escreveu matéria, durante a campanha eleitoral, em que afirmava que “John Kerry pode se tornar o primeiro presidente gay”, explicou em longa entrevista no rádio que, embora tenha mesmo trabalhado como acompanhante ao preço de duzentão por hora, e embora tenha, no decurso de seus deveres profissionais, acompanhado persons of the male persuasion, não furumfou com nenhum freguês homem. Ô, and that makes everything perfectly alright, né, er, “Jeff”?
So long: Hunter S. Thompson, que me propiciou horas de gargalhadas com Fear and Loathing in Las Vegas e Fear and Loathing on the Campaign Trail, explicou muito mais do que eu precisava saber sobre os Hell’s Angels e manteve a lucidez mesmo nos tristes anos finais de vida como wacky celebrity, took the manly way out no domingo e se matou com um tiro de espingarda no coco. Provavelmente, foi um gesto de autocrítica, porque há anos não escrevia nada que prestasse. Como no caso dos Beatles, o que me irritava em Thompson não era ele, mas os "seguidores" que se inspiraram na vida de excessos do fundador do gonzo journalism e no entanto esqueceram de encomendar o talento junto com a tubaína, a creolina e a pamonha. Vamos orar que o hero-worshipping os leve a seguir o novo exemplo do mestre. “I hate to advocate drugs, alcohol, violence or insanity to anyone, but they’ve always worked for me” –words (not) to live by. Thanks for the memories, dude.
...and forever hold your pizza

"There's a trick with a knife I'm learning to do
And ev'rything I've got belongs to you"
Ele se postou na confeitaria, do outro lado da rua das Rosas, enquanto esperava a noiva. Assistiu à entrada dos convidados, viu a chegada do noivo –bundão, corno-, conferiu o relógio 30 vezes, tomou sete espressi. A idéia dele era tentar interceptá-la quando o carro a deixasse na calçada da praça, imaginando que ela atravessaria a pé o largo calçadão, o que daria tempo para que ele cruzasse a rua e a abordasse. Mas não: a limusine branca, escolha brega que só podia ser idéia da mãe dela, galgou o calçadão sem hesitar e depositou a noiva e seu séquito imediato ao pé da escadaria da igreja. Quando ele conseguiu atravessar a rua, na diagonal, correndo, ela já tinha entrado. Decidido a não desistir do plano, ele a seguiu igreja adentro. Mas a noiva tinha desaparecido em alguma das salas –sacristia?- e ele terminou por encontrar lugar em um banco, no fundo da galeria, e se sentou bem ao lado do corredor, ouvindo cochichos dos colegas de escritório que sabiam da história e demonstravam espanto com a sua presença.
Márcio era o cafajeste oficial da firrrma, aquele sujeito sobre o qual as novatas eram alertadas em dia de happy hour. Usava os métodos tradicionais da catigoria –procurava sempre as mulheres em momento vulnerável, depois de divórcio ou pé na bunda, em hora de crise no namoro, por volta daquelas datas cruciais em que as mina detestam se sentir encalhadas. Razoavelmente bem apanhado e dotado daquilo que uma geração passada definiria como “boa lábia”, Márcio tinha um strike rate respeitável. E, porque não prometia ou exigia grandes transportes emocionais, tinha lá seu fã-clube entre as mulheres: “ele pelo menos não mente. E tá sempre com vontade”, como disse em sexta-feira de quatro Cosmopolitans a maloqueira Cristina.
Já Natália era a perfeita princesinha –uma dessas devastadoras e suaves belezas morenas que brilham silenciosamente nos escritórios e faculdades, namoram os caras que estudam Medicina, se formam psicólogas e trabalham com crianças, gostosas o bastante pra nem precisar exibir muito as qualidades, elegantes o bastante pra saber que não precisam. Márcio passou os dois anos de convivência com ela no escritório tentando todos os truques para seduzi-la, sem efeito. Nas raras happy hours a que ela comparecia, Natália ria com ele e deixava passar sem resposta todas as insinuações, cantadas, propostas. Em festa de fim de ano, dançou com o conquistador barato mantendo aquela inexorável distância que mulé que não vai dar impõe com precisão de relojoeiro suíço. Mas nunca o tratou mal –porque, afinal, Natália era a perfeita princesinha.
Quando ela anunciou a data do casamento, Márcio foi à sala dela cumprimentá-la e, fiel aos seus hábitos, repetiu o convite para um drinque a dois. Pra completo espanto dele, dessa vez a princesinha aceitou. Pra espanto ainda maior, o drinque virou dois, e quatro, e heavy petting no carro. Dois dias depois, foram parar no motel. Passaram os dois meses que os separavam da data do casamento doing the dirty sempre que possível –no escritório, no carro, no motel, no apartamento dele. Era intenso, pervo, e inexplicavelmente terno. Márcio descobriu, perplexo, que estava apaixonado. Mas, ao propor que Natália largasse o noivo por ele, causou risada. E, ao insistir, teve de ouvir –“cê tá louco? Eu escolhi você exatamente pra poder trepar bastante pela última vez antes de casar, e não ter que ficar me preocupando com homem apaixonado pegando no meu pé”. E por mais que ele insistisse, a resposta era a mesma: “Márcio, só transo com você PORQUE você é o cafajeste do escritório”.
Na igreja, Márcio estava disposto a tudo. Mas não teve coragem de interceptar Natália no desfile corredor acima, conduzida pelo pai e desviando cuidadosamente o olhar. Inspirado por dois milhões de filmes muito ruins, Márcio decidiu que aproveitaria o fatídico “fale agora ou se cale para sempre” e impediria o casamento, mostraria as fotos X-rated, tiraria do bolso a calcinha que ganhara dela como souvenir em uma tarde especialmente pornô. Ele esperou, esperou, e o padre ignorou o roteiro e não fez a pergunta. O noivo beijou a noiva, alguém colocou um CD do Rush e o casal caminhou corredor afora, em direção à saída. Márcio, com os olhos marejados de lágrimas, esticou a perna pra fora do banco de igreja e tentou sem sucesso passar uma rasteira no noivo. Natália e o marido foram felizes para sempre. E Márcio agora só assiste filme iraniano.
February 21, 2005
Paint it, white

("Though white is not my favorite color")
Triste confessar isso pros meus dois fiéis leitores, mas sou membro de uma maioria (gasp!) –a dos ómi brancos heterossexuais alfabetizados de classe média. Quer dizer, na verdade, se trata de uma tremenda minoria, mas alguém no central casting decidiu que nós somos a maioria (moral) -o establishment-, e eu visto a carapuça. O que me coloca sempre na posição de destinatário das críticas de todas as minorias –se um pingüim gay é reprimido na Alemanha, a culpa é minha; se uma garçonete gorda é demitida por motivos sexistas em Las Vegas, idem; e se ninguém celebra o dia do afrodescendentezinho do Pastoreio, yo, é claro que é porque eu tomei medidas repressivas. Susan Sontag, nos anos 60, me acusou de ser o câncer da sociedade, e os ecologistas olham torto pro casaco de camurça que tenho desde que as camurças corriam livres pelas savanas da Pensilvânia (meus ancestrais ecodestrutivos provavelmente as caçavam com os dentes), e o mesmo se aplica ao par de Air Jordans que crianças escravas produziram sob o estímulo de chibata e axé music nos sweatshops da escaldante Limeira, e eu ostento pisando a calçada com a firmeza de quem threads upon the meek on a daily basis.
Minha dúzia e meia de amigos gays? Tudo token, e o mesmo se aplica ao número ainda maior de amigos afrosomething. Mulé? Objeto sexual de noite e, de dia, yo, elas não têm uma loucinha pra lavar? Meu único objetivo na vida é que ninguém zoe com os meus privilégios constitucionais, tipo, o de pagar menos imposto, o de olhar pra fralda suja com cara de “eca” antes de chamar a Maria Alice e, especialmente, o de me sentir injustificadamente superior a todos os oprimidos. Afinal, eu sou membro daquela maioria maligna que explora todas essas minorias desde que o mundo é mundo. Antigamente, ainda se esperava que, em momentos de aperto, eu vestisse a farda e servisse ao meu país como bucha de canhão (no primeiro dia da batalha do Somme, em 1916, o equivalente a um ano inteiro de formandos de Oxbridge bateu as botas liderando a piãozada em uma carga estúpida contra as metralhadoras alemãs). Hoje, a guerra –no passado meu passatempo predileto- virou videogame, e ninguém se incomoda muito quando pago as minorias para que morram em meu lugar.
Não passa um dia sem que eu me sinta feliz e agradecido pela minha condição privilegiada. A mitologia secreta do nosso clube dispõe que, a cada vez que uma mulher, gay ou não caucasiano é discriminado em algum lugar, um anjo branquinho sorri no céu, e por isso as estrelas brilham com tanta intensidade no nosso firmamento. A gente infelizmente não pode constituir organização classista, montar ONG, marchar todo mundo vestido de cinzento na parada do Straight Pride, but we’re proud alright. É raro que quaisquer dois de nós nos encontremos sem imediatamente cochichar, “yo, dude, vamu oprimí aquela minoria, ali”. E é por isso que quando os grupos de interesses especiais reclamam, eu sempre acho que é comigo. Because it feels so comfortable being part of a majority, porque me caem tão bem as vestes do clichê. É claro que quando nós, felizes integrantes da maioria privilegiada, rotulamos qualquer minoria com definições redutoras como as que as minorias empregam para nos definir, o departamento jurídico imediatamente dispara um memorando admoestatório. Mas isso é o de menas. Uma vida de riqueza e privilégio sem esforço compensa essas pequenas feridas psicológicas. E pelo menos a gente não precisa decorar nome de hidratante, se declarar “siculodescendente” no Censo e suprimir a risada quando as mana propõem mudar o nome de “seminário” para “ovulário”, ou quando os bravos militantes afrocêntricos defendem em livro a teoria de que Sócrates era afrodescendente. Thank God (that rich, fat, lazy, authoritarian white male up there) for small mercies.
Um senhor que me ajuda

"I am large, I contain multitudes"
Depois de uma disputa filosófica com a Irmandade Internacional dos Porteiros Obtusos que faria inveja ao velho Ingmar (“mas eu nunca vi o sinhô”, acusa o porteiro; “nem eu vi o sinhô”, responde o trabalhador exibindo crachá com foto, garrafa contendo litro e meio de água benta e uma cópia em papel do e-mail que o building manager mandou pro Grande Dragão da Irmandade dos porteiros avisando que tal e tal funça trabalharia no final de semana, e que o Sr. Eu tinha licença para autorizar qualquer outra pessoa a entrar no prédio), subo as escadas pensando em como muda a cara da cidade de um dia para o outro –o silêncio do sábado, vagas para estacionar diante dos prédios da avenida lá embaixo (coisa que eu nunca tinha visto), o rack de bicicletas completamente vazio a não ser pela minha (a zero grau lá fora, não é causa de surpresa).
Minha primeira visita é um menino de uns quatro anos, que o pai conduz pela mão em expedição dominical à agência do banco onde trabalhava –máquinas de escrever e de somar cobertas por capas plásticas, apenas uma fileira de lâmpadas fluorescentes acesas, e o moleque doido de vontade de brincar de escritório, pentelhando o pai até convencê-lo a abrir uma gaveta, apanhar um maço de papel velho e remover a capa de uma máquina de escrever, mostrando ao menino como operá-la. Escritórios vazios e solitários fora do horário comercial sempre suscitam visitas desse menino, que datilografava contente uma sucessão infinita de asdfg clkjh enquanto o pai, à máquina de somar, cuidava da tarefa urgente que o levara ao banco no domingo. O menino mal podia esperar pela chance de dividir um escritório com o babbo. Hélas.
Depois, ao invadir a cozinha da co-irmã três andares acima para preparar macarronada de almoço para 13 (imediatamente apelidada “last supper”), quem me visita é um moleque de 18 ou 19, que morria de nojo de carne crua até que os acidentes da vida o conduzissem a um emprego em restaurante niquiq –‘cause irony was already his albatross back then- sua função precípua era grelhar bife o dia inteiro. Trabalhar em restaurante que servia basicamente aos famintos estivadores mafiosos do próspero terminal portuário de Newark ensinou àquele adolescente descabelado e propenso a atear fogo à chapa que, yo, cozinhar almoço pra dois, 10 ou 20 é só trampo: não tem nada de mágico. E que cozinha tem um pouco em comum com jazz: sempre sobra espaço para o improviso (se bem que tacos ao curry sejam idéia ainda mais dizinfiliz que solo de bateria.)
O improviso do almoço convoca ainda outro visitante, rapaz de seus 20 e poucos, que está sem banda pela primeira vez desde os 14. Sem namorada, ô, isso nunca fui problema. Mas banda? Banda é a coisa mais importante do mundo, mano. E é esse rapaz que, à tarde, se instala ao meu lado diante do Macintosh e me ajuda a “compor” uma trilha sonora na hora, pra emprestar um certo swing aos animatics. Porque ele nunca se deixou convencer de que era possível viver sem música, e foi ele que aprendeu todas essas misteriosas maneiras eletrônicas de continuar envolvido de longe com o grande amor que nos abandonou abruptamente na marca do quarto de século. Esse rapaz é um dos meus melhores amigos: there are many ways of being a good man, ele sempre diz.
No domingo, agradecendo a moçada por mais um fim de semana de esforço acima e além etc., tenho ao meu lado um cara que acabou de completar 30 e decidiu trocar de emprego, de preferência a virar chefe. Os genes sicilianos desse moço não se relacionam muito bem com autoridades e, como os camponeses do Monty Python, ele sonha com uma “comuna anarco-sindicalista”, ou seja lá qual for o nome do regime que permite dizer "vacagá" pro rei. É esse cara que sempre me aconselha, em caso de dúvida, a fazer o contrário do que todos os meus chefes calhordas (e a maioria dos não calhordas) sempre fizeram. So far, so good. (Mas que eu mandei o pessoal lavar a louça do almoço, mandei, sim. No more Mr. Nice Guy.)
No elevador, encerrando o working weekend, recebo as duas últimas visitas –a aparição recorrente daquele bobo que ressurge não importa em que idade e perde o ar a cada vez que ela sorri. Eu meio que torço o nariz pra ele, mas, olhando de soslaio praquela moça sorrindo pendurada no meu braço esquerdo, entendo perfeitamente o que o leva a agir desse jeito. E, no espelho do elevador que nos conduz às 14 horas de indulto temporário antes que chegue o momento de nova visita ao tugúrio do porteiro turrão, me deparo com o mais leal e constante dos visitantes, aquele sujeito que me encara sério toda manhã enquanto me barbeio e repete com grande convicção: “pior é possível, Fudílson. Pior é possível”. E altamente provável, dude.
February 18, 2005
The ghost of a chance

"Which is it going to be, love or gin?
Wife or sin? Let's begin"
Tem gente que foi muito féladaputa com você na vida, nas brumas da História, e de vez em quando ressurge –por hipocrisia, arrependimento ou simplesmente to gloat, caso você continue desmantelado pela féladaputice. (Como cantava Nélson Gonçalves, ninguém é mais fiel do que um inimigo.) Ainda que as situações resultantes sejam usualmente desagradáveis, quase todos nós estamos preparados pra lidar com o eterno retorno do boquirroto, seja batendo a porta na cara, seja fingindo com igual hipocrisia que nada daquilo aconteceu ou, no mínimo, que fez diferença nenhuma. Por mais que os genes sicilianos buzinem em protesto, eu aprendi que holding grudges não é a mais produtiva das propensões. Como dizia meu paiê, “vingança é um prato que se come frio”, e ele tinha razão: tem gosto de macarrão de anteontem.
Mais complicado, pelo menos pra mim, é quando ressurgem do passado as ocasionais vítimas da minha féladaputice. Por mais que me arrependa desses momentos Mancha Verde da minha vida, eles aconteceram e, exatamente porque me arrependo, confrontá-los anos mais tarde é muito desconfortável. Pedir desculpas nunca me parece suficiente, e o único jeito de resolver essas pendengas seria voltar no tempo e não fazer o que quer que eu tenha feito de errado. (E isso, claro, talvez se deva mais ao meu constrangimento na hora de pedir desculpas do que à minha crença –honesta- de que desculpas valem mais ou menos tanto quanto literatura publicada em blog ou promessa de candidato a vereador.) Por outro lado, a gente vive em uma era de terapêutica barata, em que as pessoas acreditam em conceitos monguinhos como “closure” e na idéia de que confrontar os episódios desconfortáveis é melhor do que arquivá-los, e por sentimento de culpa já me submeti a algumas dessas sessões de roupa suja. (“Por que você me deixou no altar, Fudílson?” “Porque sua prima era mais gostosa, Maria Alice”: closure, really?)
Mas a pior das catigoria nessas jornadas a la recherche du temps perdu é a das coisas que não foram resolvidas, one way or the other –ninguém foi féladaputa, ninguém pôs as cartas na mesa, ninguém abriu o coração, sacou do Smith & Wesson, chamou a mãe de careca e o pai de cabeludo. E esse é o fantasma que mais me assusta, o da possibilidade. O da porta meio fechada (“entreaberto botão, entrefechada rosa”, em verso atroz de Machado de Assis que espero só eu lembre). Anita O’Day, uma das cantoras essenciais do panteão McNasty, gravou a versão definitiva de Let’s Begin, letra de Oscar Hammerstein II para uma das melodias mais batutas de Jerome Kern, e a bagaça diz: “Is this to be a case of kiss and never tell?/ Folly and farewell?/ Heaven, maybe hell?”. O fantasma que mais assusta Uncle Filthy chega sempre assobiando essa canção, que termina com a pergunta -ou exortação- “let’s begin(?)” -e o clã McNasty sempre foi adepto da filosofia de que não se deve deixar pra amanhã o que se pode deixar pra depois de amanhã. (Aliás, se os pessoal malicioso que lê esse negócio não fosse achar que era sacanagem, Uncle Filthy adotaria o cognome “Cunctator”, que distinguia famoso general romano cuja especialidade era o “passa minhã”.)
Mas o fantasminha excessivamente camarada não pretende esperar posto em sossego, dessa vez. E eu tô morrendo de medo de ver o que tem embaixo do lençol.
Dois Ómi que Ama(va) as Mulé

Fanny Ardant (1949- ), musa, e François Truffaut, poeta
François Truffaut (1932-1984) dirigiu 20 longas e quatro curtas, e entre eles não há nenhum “filme de menino”. Mesmo quando lida com gêneros tipicamente masculinos, como em Tirez sur le Pianiste, ou quando não há “interesse romântico”, como em Les 400 Coups, o ponto central da história é a mulé, ou, em momento de pretensão quite unlike Mr. McNasty, A Mulher. Não temam: minha idéia não é insultar tio François comparando-o a um mala como Chico Xavier de Hollanda ao lhe atribuir misteriosa afinidade com o “universo feminino”, whatever that might mean. Mas, de um modo peculiarmente masculino e demodé, é evidente que Truffaut amava as mulheres. E as retratava como ninguém.

Nathalie Baye (1951- ) e Geneviève Fontanel (1936- )
Em Baisers Volés, Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) passa o filme se debatendo entre paixões femininas (e a cena em que encontra o futuro sogro na escada do bordel é, uau, too marvelous for words). Doinel vacila entre Christine Darbon (Claude Jade), o amor ingênuo que não dá, e a melancólica Fabienne Tabard (Delphine Seyrig), a quem foi contratado para vigiar em um de seus empregos loser, como detetive. (E a visita de Tabard ao quarto de hotel de Doinel, ô, meu são jizuis.) Em Le Homme qui Aimait les Femmes, Bertrand Morane (Charles Denner) é um engenheiro que “realiza as fantasias adolescentes dos homens” ao comer mais ou menos 70% da população feminina de Montpelier. (As if.) Tem alguma coisa de profundamente solitário no personagem, no filme –como se esse amor pelas mulheres só funcionasse caso necessariamente irrealizado. (Enquanto isso, o imaturo Morane passa o tempo muito agradavelmente não realizando o amor com Nathalie Baye e Geneviève Fontanel, among many, many others.) E em Vivement Dimanche!, homenagem/paródia de Truffaut aos filmes noir americanos dos anos 40, é a resourceful secretária Barbara Becker (Fanny Ardant) que acode o patrão, o feioso, burro e turrão Julien Vercel (Jean-Louis Trintignant), quando ele é falsamente acusado de assassinar a mulher.

Claude Jade (1948- ) e Delphine "Marienbad" Seyrig (1932-1990)
São três cartas de amor –amor juvenil, amor romântico, amor impossível, amor filial, amor erótico, amor incompreensível- por mulheres completamente desbobadas: as mina dos filmes de Truffaut, aliás, são em geral sempre mais corajosas, espertas e competentes do que os homens (marromenos como na vida). A exemplo do tio François, eu tô sempre dividido entre a ternura e o assombro, diante delas. E como todo homem eu provavelmente falo asneira sem parar quando trato desse assunto. Mas, pela clarabóia do meu tugúrio tristonho nesse bas-fond enregelado em que habito, vou continuar olhando as pernas das mina caminhando pela rua –o passo decidido, o balanço, a mistura de exaltação e cansaço de todas essas dona diliça a caminho de casa ou do trabalho, da festa ou do encontro com os lucky bastards que eu vou morrer invejando*. E esses giant steps que testemunho quietinho aceleram o coração do mundo.
*Quem é lucky bastard? Todos os mano que saem com essas mulé. Se eu queria etc. todas? You bet. Not holding my breath, though.
February 17, 2005
O melhor filme de 2004

"I HAF NO HÛRRRT!"
Agora, esse negócio de Oscar aí num presta pra nada, já que o melhor filme do ano, indiscutivelmente, não foi indicado pr'uma categoria sequer –é claro que eu tô falando do espetacular Van Helsing, uma espécie de Everest das artes e paciências cinematográficas. Nenhum filme de terror que se respeite pode começar sem flash-back em branco e preto, e o de Van Helsing é maravilhoso, repleto de aldeões com tochas (outra das minhas profissões ideais, aldeão-com-tocha) e featuring o magistral duelo de interpretação entre Drácula (Richard Roxburgh) e o Dr. Frankenstein (Samuel West). E aí já temos a primeira inovação chocante de Van Helsing: quando acaba o flash-back em branco e preto, entra o letreiro “um ano mais tarde”, e o filme fica colorido. Cês repararam na puezia da idéia? Um ano, basta um ano pro mundo se colorir inteirinho.
Turns out que Van Helsing (Hugh Jackman em papel que costumava ser interpretado com verve inesquecível por Peter Cushing na abençoada era da Hammer Films) é uma espécie de James Bond do Santo Ofício, e seu encontro com o Cardeal Jinette (yeah, really), bravamente interpretado por Alun Armstrong, define mais um dos traços distintivos de Van Helsing: o duelo de sotaques bizarros. O cardeal fala uma espécie de Brooklynense decupado (parece o Joey do Friends imitando italiano), enquanto Van Helsing, também conhecido como “a mão peluda de deus” ou algo assim, tenta uma espécie de australo-aramaico que soa muito, muito convincente. Depois de se armar na oficina do equivalente século XIX de Desmond Llewelyn, Van Helsing viaja à Transilvânia na companhia do monge-inventor Carl (David Wenham), e o festival de sotaques desembesta de vez –se bem todo mundo seja transilvano, cada cantão da aprazível região aparentemente gera uma maneira very peculiar de pronunciar as fricativas. Kate Beckinsale, tadinha, merecia pelo menos uma indicação ao Oscar de coadjuvante pelo esforço em escandir “Dra-cU-la” ao modo faux transilvano, enquanto balança os peitos daquele jeito por sobre o corpete apertadíssimo. E tem também as três vampiretes noivas de Drácula que alternam entre shape de Gonzo-dos-Muppets-com-asas-e-peitões e roupinha de odalisca estilizada -Aleera (Elena Anaya), Verona (Silvia, er, Colloca) e Marishka (Josie Maran). Para não falar do indefectível Aigórr (Kevin J. O’Connor), sem o qual nenhum filme de monstro ganha o selo de aprovação da Academia Transilvana de Artes e Ciências Cinematográficas.

As noivas de Drácula em traje esporte fino
Mas mesmo com Frankenstein, princesa Salta-Peitos, irmão lubizómi, monge pirotécnico, herói canastrão, baile de vampiro em que só a mocinha aparece no espelho, papa-defuntos piadista/serial killer e a trilha sonora mais tacky desde Xanadu (é, tipo, Trini Lopez meets Rick Wakeman), quem rouba o filme é Richard Roxburgh, um Drácula que faz Bela Lugosi parecer method actor. Overacting, pra Roxburgh, é a técnica que um ator emprega nas cenas mais amenas. “B-O-M D-I-A!!!”, ele vigorosamente EXCLAMA, e contorce o rosto, leva a mão aos cabelos, ergue uma sobrancelha e baixa a outra. Mas em momento de verdadeiro drama, ah, não, aí Roxburgh realmente transcende: quando ele grita “I RRRRRÉV NO RRRRÁRT”, em confronto com as noivas sobreviventes, o coração do espectador praticamente pára de bater.
Em três décadas de visitas regulares a salas de cinema, de Alpinópolis ao Zaire, pouca vez me diverti como me diverti com Van Helsing. (Imaginem um filme Z e acrescentem mais 159,95 milhões de dólares ao orçamento, mas sem mudar uma vírgula no roteiro: é marromenos isso.) Tragédia, aventura, drama, computação gráfica digna de um Atari safra 1985, risos, lágrimas, amor, monges lúbricos, vampiras sedutoras, paisagens arrebatadoras, culinária típica transilvana: Van Helsing has something for everyone. E o duelo final em que Drácula mostra ao rival transformado em lubizómi o anular amputado sublinha a peculiar lógica do roteiro: apesar dos tiros, flechas, estacas de prata e venenos variados que lhe foram aplicados ao longo de sua variegada carreira de vilanias, o vampirão continua inteirinho. Menas o dedo amputado por Van Helsing em 1462. Não conteste: mastigue o alho, relax and enjoy it.*
* Update: O DVD tem extras ainda mais maravilhosos, aliás. (Thanks for that, McDirty.)
That’s why god made the movies

Virginia Madsen e Paul Giamatti, em Sideways
Meu passatempo favorito, assunto permanente de conversação e até mesmo profissão ideal é o cinema (meu sonho é ser “estragador de diálogo”). Já assisti filme japonês sem legenda; mostra de cinema nacionalista turco dos anos 30; Glitter, com a diva(gar) Mariah; a oeuvre comprétinha do imortal Tony Vieira, John Ford brasileiro; western da Monogram, contando quantas vezes eles matavam o mesmo índio (low budget ruleZ); e um filme inteirinho do Oliver Stone. Isso provavelmente me qualifica como cinéfilo, se bem coloque meu bom senso seriamente em questão . Agora, não é que eu seja indiscriminado em meus gostos –pelo contrário: não assisto a co-produção francesa filmada em país onde ainda não inventaram a eletricidade, o único filme iraniano que eu vi me fazia gargalhar incontrolavelmente a cada cinco minutos e tive que sair da sala, tenho tolerância zero por Steven “só-eu-sei-o-que-os-judeus-sofreram” Spielberg e Jerry “is-it-obvious?-i’ll-do-it” Bruckheimer, não entro em filme brasileiro (excetuados pornochanchada e Tony Vieira) nem pra fugir da chuva. Quando Sahib deixa a gente sair em horário humano, eu e a co-âncora costumamos ir direto do escritório pro cinema (faves: AMC 25, na rua 42, para cinemão; Angelika, Houston Street, para os indies; e Anthology Film Archives, Segunda com rua 2, para coisas de cinemateca), e do cinema pro restaurante, onde ela extravasa o seu humor crudelíssimo e eu tomo o partido dos pobres cineastas indefesos e inocentes. (Yeah, right.)
Por isso, e falando estritamente como espectador -porque crítico de cinema é profissão de gente com bingulim disfuncional (vide Manohla Dargis, do NYT)-, aproveito o fato de que pelo menos assisti as bagaças todas pra comentar os indicados ao Oscar. Começo por The Aviator, e com disclaimer: gosto de avião, gosto de old Hollywood, gosto do Scorsese, e acho que o que ele tentou com o filme –uma espécie de homenagem a Citizen Kane misturada a uma análise visual da relação entre criatividade e obsessão patológica- é way cool. But he doesn’t quite pull it off. E se bem eu não ache Leonardo tão canastrão quanto dizem, ele não parece 20 anos mais velho no final do filme do que parecia no começo. Ou 20 minutos. (Como escreveu o crítico do TONY: “those chipmunk cheeks”).
Já Ray –although Jamie Foxx kicks butt as usual- traz exatamente o que se poderia esperar daquele bundão do Taylor Hackford e de uma cinebiografia no gênero da-lama-à-fama-à-lama-à-fama-dinovo. Incluindo final com letreiro que narra a vida pós-filme do homenageado. O que nem o filme, nem o letreiro conseguem explicar é o motivo para que Ray, depois de abandonar o hediondo vício da heroína aos 35 anos, nunca mais tenha conseguido gravar um disco decente. Better let this one slide, eh?
Finding Neverland, apesar do hype todo, é magistralmente ruim –ruim que nem filme de Natal produzido para a televisão nos anos 70. Passei a sessão inteira rezando pra que o famoso peso de 16 toneladas do Monty Python caísse na cabeça daqueles fedelhos ranhentos e do saco de pulgas (o cachorro, não Depp). Do lado positivo, Kate Winslet morre no fim. O único motivo pra alguém elogiar essa nhonha é o fato de que três bilhões de mulheres querem desesperadamente dar pro Jorge Deep.
Eu gosto pacaramba de Clint Eastwood e –claro, cinéfilo e passadista- adoro filme de boxe (Fat City, do John Huston é um dos meus prediletos). O que deveria me predispor favoravelmente quanto a Million Dollar Baby. Well. Dois pobremas: Morgan Freeman e seu papel permanente de old and dignified black dude me faz ranger os dentes a cada vez que ele abre a boca de tramela. E Hilary Swank, se bem seja bonita, excelente atriz, tenha aprendido boxe suficiente pra ser filmada em close sem passar vergonha e trabalhe o filme todo com menos maquiagem do que as mina que encontro no elevador, traz em seu passado uma mácula que me causa giggle loop: foi discípula do senhor Miyagi em Karate Kid IV: How to Make a Bad Franchise Even Worse e, sempre que Clint transmite instruções pugilísticas à karate girl, I flash back to Mr. Miyagi e pronto, giggling again. Mas, whatever, pode –e deve- ganhar o prêmio.
O Oscar do Uncle Filthy, porém, goes to Sideways. Não porque seja um grande filme –aliás, creio que a intenção de Alexander Payne fosse a de fazer um filme cuidadosamente pequeno-, mas porque é uma daquelas raras misturas em dose exata de comédia e, whatever, drama, melodrama, podem escolher o nome. Tem um monte de coisa boa no filme –o texto dos monólogos gustativos de Miles, pretensão literária dolorida combinada ao amor genuíno pelo vinho e ao alcoolismo incipiente (ou, a vã esperança de que dominar o jargão da vida equivalha a dominar a vida); a tentativa de fazer o carro bater na árvore; a visita à mamma; os misteriosos meandros da amizade masculina (todo Miles tem seu Jack, como poderia dizer o Fudílson a diversos amigos). E é claro que eu me identifico 300% com Miles: literato frustrado e feinho que tomou pé na bunda e bebe até cair? Too close to home, babe.
Mas o que vale o troféu McNasty para Sideways é a cena mais importante do filme, o diálogo entre Miles e Maya na varanda da casa de Stephanie. Porque ali tem tudo que eu prezo em cinema: o set-up bem feito (eles fogem para a varanda para não ouvir o outro casal transando lá dentro), o gênio da postura de Paul Giamatti na cadeira –meio largado, meio tenso, caçando palavras-, o texto dele (que há quem ache forçado, mas, dude, como falar de si mesmo sem ser falando das coisas que se ama?), a beleza dela que começa a esmaecer da mesma maneira que as qualidades que Maya atribui ao vinho, o brilho nos olhos de Virginia Madsen (é a atriz? É a iluminação?), a mistura de tesão e desconforto, a possibilidade de amor e o medo. Eu gosto de cinema porque, no fundo, queria que a vida fosse daquele jeito, como aquela cena. E eu gosto de cinema porque não, a vida não pode ser daquele jeito, como aquela cena, mas de alguma maneira o texto, o diretor e os atores recriam, condensam, destilam 35 anos de mágoas e esperanças em três minutos de tela –enquanto o espectador idiota tenta impedir que seus olhos se encham de lágrimas.
February 16, 2005
Happy Endings, Tied Knots

Don't think I didn't see you checking out that
skank's butt, Sebastian, you manslut.
Tamanho dos dicumento: MICHAEL COLUZZI tem PINTO PEQUENO. E divulgou o fato ao mundo ao processar a empresa que vende um composto de ervas que supostamente SuperSizes It. O processo, aberto em Nova Jersey (surprise, surprise) acusa que MICHAEL COLUZZI pagou 59,95 dólares por dosagem de pílulas Alzare suficiente para 30 dias, sem que no entanto o dito cujo alzasse nem um pouquinho. Depois, ao tentar receber a restituição prometida pela fábrica Alzare, MICHAEL COLUZZI foi atendido por uma secretária eletrônica dizendo “ho ho ho”. O adevogado de MICHAEL COLUZZI diz que muitos homens se deixam iludir porque a publicidade desse tipo de produto, estrelada por médicos e astros pornô (e astros pornô brincando de médico), é “muito, muito convincente”. Em Nova Jersey, Uncle Filthy acrescenta com todo respeito. Só em Nova Jersey.
Tying the knot, the wrong way –or is it?: Já na sanguinolenta Romênia, Vasile Barbulescu resolveu amarrar um barbante em volta do bingulim para não ter que ir ao banheiro antes de chegar em casa. A visita anterior do intrépido jornalista Noronha à Romênia tinha por objetivo contar a história do homem que cortou fora o dito cujo achando que fosse um pescoço de galinha. Dois casos já constituem tendência e por isso, amigo turista, quando for a Bucareste é bom levar, além da réstia de alho, uma cueca de titânio. Just in case.
Jesus, alegria dos ómi: Ainda nos Países Baixos, o inventor ucraniano Dr. Grigoriy Chausovskiy desenvolveu uma camisinha musical que toca melodias diferentes a depender da posição do, er, órgão. O volume também aumenta à medida que o ritmo do conúbio carnal se intensifica. O Dr. Chausovskiy garante que não há risco de eletrocução (so neither of you will sing the body electric). A curiosidade do Uncle Filthy, porém, é sobre a música escolhida pro novo produto (apenas 20% mais caro que uma camisinha comum). Minha aposta é que camisinha comprada por homem vai tocar “Easy (Like a Sunday Morning)” e as compradas pelas mina, provavelmente, o “Moto Perpetuo” de Paganini.
Sonhos masculinos: Quase todo homem alimenta fantasias inconfessáveis, como a de ser invisível e estar no vestiário em dia de jogo da seleção italiana de vôlei feminino. Em Seattle, outra fantasia masculina recorrente foi realizada –aquela de ser irmão gêmeo do ginecologista: Dennis Momah, clínico geral, é irmão gêmeo do ginecologista Charles Momah e, exibindo ética médica digna de lipoaspirador brasileiro, de vez em quando “consultava” as pacientes ginecológicas se fazendo passar pelo irmão. Charles Momah se declarou inocente de acusações de estupro, indecência e fraude de seguros, no final do ano passado, e disse que era tudo culpa do irmão. Que disse que era tudo culpa do irmão. O julgamento ainda não aconteceu, porque as pacientes queixosas demoraram anos a conseguir que as autoridades investigassem suas acusações contra o(s) médico(s), apesar de um gêmeo ser magro, ter pouco sotaque e exibir cicatrizes e o outro ser gordo e falar que nem o Yasser Arafat.
Sonho feminino: Na Índia, uma noiva largada no altar em Shivshankar Dham decidiu apelar para o cavalheirismo da audiência e convocou qualquer convidado interessado em ocupar o posto abandonado na hora da cerimônia pelo noivo fujão a galgar o pódio. Balram, um dos presentes, topou a parada, e ele e Suggi completaram a cerimônia sem percalços. (Homem, de qualquer jeito, só serve pra abrir vidro de palmito e levar o lixo pra fora: tanto faz quem seja.) A desculpa do noivo pra fugir é que a menina que lhe tinham apresentado antes da cerimônia, para o casamento arranjado ainda comum na terra do elefante pinguço, era umas três arrobas mais magra do que a mulher que colocaram sentada ao lado dele no altar.
Final feliz: A diretora do zoológico de Bremerhaven, Heike Kueck, anunciou que abandonaria a tentativa de devolver os pingüins gays do estabelecimento à geladeira hétero, aposentando as pingüins suecas contratadas prum strip e dizendo que “aqui todo mundo vive como prefere” (quero ver ela estender a cortesia aos tigres deixando a porta da jaula aberta). É claro que, com a capacidade infinita dos grupos gays pra se sentirem ultrajados, organizações alemãs de defesa dos direitos homossexuais se mobilizaram para escrever ao prefeito Jörg Schulz, de Bremerhaven, protestando contra “o assédio forçado e organizado de fêmeas sedutoras” aos nobres sphenici demersi homoeróticos. No Gay Pride deste ano, Uncle Filthy vai sair de pingüim.
It's a woman's prerogative

"Another season, another reason for making whoopee"
- Você não é a...?
- Sou eu mesma. Você tá adiantado.
- Eu sempre chego uns minutos mais cedo nessas coisas, pra ver se passa o nervoso.
- Você faz isso sempre?
- Primeira vez (pigarreia e ri).
- De onde você conhece o...?
- Faculdade, moramos no mesmo alojamento. E você, de onde conhece a...?
- Eu e ela trabalhamos juntas, alguns anos atrás.
- Esse vestido fica bem em você.
- Se você quiser que eu tire para ter certeza... (Ri.)
- Eu... ahn... quer dizer... eh... uh...
- Tô brincando (ri).
- (Pausa.) Que pena. Dizem que uma mulher sempre sabe se vai ou não transar com o cara na primeira vez que o vê. Mas acho que o sindicato obriga a respeitar a regra do terceiro encontro.
- No meu caso, é sempre a tequila que decide.
- Garçom, uma tequila pra moça. Dupla (ri).
- Blind date não te faz sentir meio loser? (Tomando um gole na tequila e agradecendo o garçom com um gesto de cabeça.)
- Mulher me faz sentir meio loser (ri).
- A gente é treinada pra isso pelo sindicato. Temos até um aperto de mão secreto.
- Está funcionando direitinho. (Pausa.) Bom, cê quer ficar por aqui ou vamos jantar?
- Eu acho... (Celular). Preciso atender. “Oi. Tudo bem. Não, tudo bem, mesmo. Não, não precisa. Tô indo jantar”. Desculpa (olhando pra ele).
- Era o telefonema de resgate, né? Aquele que te daria uma desculpa pra me dizer que geleiras estão derretendo no Alasca e você precisa voltar pro escritório.
- (Ri.) Você tá mesmo acostumado com isso.
- Eu coloquei a mão no bolso e desliguei o meu celular assim que você aceitou a tequila.
- (Ri.) E qual seria a sua desculpa, a de que você precisava comparecer repentinamente a um protesto contra o massacre de focas bebês?
- Não. Normalmente digo que a minha mãe foi mordida por um dobermann.
- Ah, quanta sabedoria. Mencionar a mãe em encontro é garantia de que a moça não vai lamentar a fuga.
- (Ele ergue o copo em um brinde.) Então, jantar?
- Gostei de você. Primeiro cara que não me enrolou nenhuma vez em um encontro desses. Por isso, vou te fazer uma proposta que nunca fiz a ninguém.
- (Ele sorri, meio nervoso). Manda bala.
- Você pode escolher entre jantar comigo e esperar para ver se no futuro alguma coisa mais vai ou não rolar entre a gente, ou ir pra minha casa agora, me comer muito e nunca mais me ver.
- Sério?
- Sério. Juro pela minha mãe mortinha.
- Não é pegadinha?
- Não. Tô te oferecendo uma escolha. Simples.
- (Silêncio.)
- (Ela toma a mão dele, olha em seus olhos.) Sério mesmo.
- (Ele respira fundo, sorri.) Prefiro o jantar.
- (Ela sorri de volta, e encosta o corpo nele para um longo beijo.) Resposta certa, baby. Vamos pra minha casa.
- Mas...
- (Beijo.)
- Era pegadinha (suspiro resignado).
- (Ela sorri.) Sempre é, baby. Sempre é.
February 15, 2005
We're on the road to nowhere

Fools rush in where angels fear to thread
O lema do clã McNasty, inscrito logo embaixo da galinha preta em campo amarelo que enfeita o brasão de armas da família, é “pior não só é possível como, pra nós, altamente provável”. E o mundo não cansa de provar que os venerandos fundadores da dinastia estavam cobertos de razão. A mais recente descoberta bizarra do Uncle Filthy é uma prática pavorosa chamada “speed dating”. Quando o sujeito ou a madame tão encalhados, vão ao site da firrrma promotora, se inscrevem e participam de um encontro que envolve “de 20 a 100 profissionais solteiros (ou solteiros profissionais) iguaizinhos a você” (i.e., provavelmente losers e encalhados) em um “restaurante popular perto de sua casa”. Aí, depois de umas doses de aperitivos grátis (aposto que é Underberg e tremoço), cada participante tem a oportunidade de conversar durante oito minutos (each) com oito diferentes parceiros potenciais. Ao final da maratona, você anota no seu “dating card” se algum dos encalhado/as presentes tickled your fancy e, em caso de interesse recíproco, a firrrma coloca os pombinhos em contato para que a natureza siga seu curso (e todo mundo sabe qual é o curso, em encontro de pombo). O método tem virtudes: cê sai com oito mulé em 64 minutos, ouve de uma vez só todas as rejeições do mês, e pode voltar pra casa e se dedicar a esses passatempos de futuro serial killer –fazer maquetes da Columbine High School, arremessar aviõezinhos da Revell contra um modelo do Empire State Building.
A idéia de speed dating é tão errada, em tantos níveis diferentes, que eu acabo rindo sozinho em vez de escrever as 250 piadas que já me ocorreram. Essa firrrma aqui, por exemplo (o primeiro de 1,55 milhão de retornos no Google!), tem, tipo, um programa de fidelidade que reduz o preço por evento de 35 dólares para 19,99. Mas, dude, quem quer participar de programa de fidelidade em site de encalhado? Seria que nem clínica de desintoxação pra junkie fazer promoção oferecendo três reabilitações pelo preço de duas (ops, melhor anotar essa pra uso posterior). Ou cirurgião vesgo explicando que “em caso de erro médico, a segunda operação é de graça”. E a lista de eventos disponíveis em Nova York tem lá suas pérolas também, incluindo um evento “size matters” (alas, é pra mulheres de qualquer altura e homens de mais de 1,83, you perverts), um evento para “cool Catholic singles” (estimativa de comparecimento: sete pessoas, incluindo dois ex-padres pedófilos), e um evento para irlandeses e apreciadores da catigoria (se o cara beber uma pint de Guinness por speed date, os encontros a partir do terceiro vão todos ocorrer na fila do banheiro). Defensor ferrenho de todas as minorias, eu até pensei em escrever pros caras perguntando se alguém já tinha organizado um speed dating pra gagos, mas achei que meu interesse sociológico poderia ser mal interpretado: “M-m-m-m-m-m-m-my n-n-n-n-n-am-m-m-m-m-e i-i-i-i-i-i-i-i-is”... Campainha, next date.
Tentei arduamente convencer minha co-âncora, Ms. Mc Dirty, a me acompanhar em uma pesquisa sociológica (afinal, em Nova York o que mais tem é evento pra Jewish Singles), mas ela não quis ser chamada de geek na escola e, por isso, ontem, dia dos namorados, fui sozinho a um evento de speed dating, pra “desperately ugly loners”. Um resumo da minha experiência:
Solteira número um: “Eu gosto de longas caminhadas”.
Uncle Filthy: “Mas os cachorros não te perseguem na rua?”
Solteira número dois: “Eu jamais sairia com um republicano”.
Uncle Filthy: “É, cê faz bem em combater a idéia de tolerância zero”.
Solteira número três: “Você divide o apartamento com um colega?”
Uncle Filthy: “Com a minha mãe, mas ela deixa as visitas ficarem até as 10 da noite”.
Solteira número quatro: “Seu rosto sempre foi assim ou...”
Uncle Filthy:
Solteira número cinco: “É minha primeira vez em um encontro como esse”.
Uncle Filthy: “Mas não a última”.
Solteira número seis: “Como é que você chama, mesmo?”
Uncle Filthy: “M-m-m-m-m-m-m-my n-n-n-n-n-am-m-m-m-m-e i-i-i-i-i-i-i-i-is”...
Solteira número sete: “Você parece um pouco com o Sylvester Stallone”.
Uncle Filthy: “Você também”.
Solteira número oito: “Você tem alguma coisa contra mulheres que transam no primeiro encontro?”
Uncle Filthy, caneta na mão: “Como é o seu nome, mesmo?”
Nota sociológica: Todos os homens incluíram a Solteira Oito no dating card. Outra curiosidade sociológica: só a Solteira Seis mi selecionou.
Ac-cent-tchu-ate the Positive

Hyman (Chaim) Arluck, ou Harold Arlen (15/2/1905-23/4/1986)
As canções americanas a que a gente hoje chama standards nasceram quase todas no contexto do teatro musical ou do vaudeville. Antes de adquirirem a respeitosa classificação acima, eram conhecidas como “canções de Tin Pan Alley” –um beco na rua 14 com Terceira Avenida, em Nova York, que abrigava os escritórios dos editores de música na virada do século XX. É, editores –porque Tin Pan Alley existia desde a década de 1890, e o sucesso de uma canção, na era anterior à popularização do registro fonográfico, era medido pelo número de partituras vendidas. (“After the Ball”, de um tal Charles Harris, vendeu seis milhões de cópias em 1892.) Muita gente começou a carreira trabalhando para as editoras musicais de Tin Pan Alley –George Gershwin e Chico Marx, por exemplo, eram “song pluggers”, pianistas que demonstravam as novas canções aos potenciais compradores do jeito mais pirotécnico possível. Como toda forma de arte que não cospe no chão nem insulta as visita, a canção popular produzida em Tin Pan Alley logo ganhou uma forma reconhecível. Se vocês se interessam pelo assunto, Alec Wilder –ele mesmo um senhor compositor (autor de "While We’re Young" e "I’ll Be Around")- escreveu o trabalho definitivo sobre o tema, American Popular Song — (The Great Innovators 1900-1950), onde explica tintim por tintim o desenvolvimento da forma padrão do standard, a chamada estrutura AABA.
“AABA” quer dizer que a canção padrão era organizada da seguinte forma: um recitativo (verse) que, nos musicais, permitia a transição entre o diálogo e o canto (“Like the beat beat beat of the tom-tom”, em “Night and Day”, por exemplo), e conduzia a uma seção melódica de oito compassos (a seção A), repetida por duas vezes, seguida pelos oito compassos da chamada “bridge” (seção B) e, por fim, de mais uma repetição da seção A –assim, AABA, um total de 32 compassos de melodia. A vasta maioria das canções de Irving Berlin, Cole Porter, George Gershwin, Jule Styne, Frank Loesser, Jerome Kern (e centenas de outros) segue rigorosamente o padrão. Dada a qualidade dos compositores mencionados, seria lícito concluir que o modelo marromenos funciona.
Já Harold Arlen, que faria 100 anos hoje, é o menos “padronizado” dos grandes compositores de standards (outra exceção seria Vernon Duke). “Stormy Weather”, seu segundo grande hit (1933) e uma das canções favoritas de Uncle Filthy, é um exemplo precoce de fuga à norma, com uma estrutura de 36 compassos em vez de 32, e nada de repetição ipsis litteris da seção A –na verdade são três seções A aparentadas mas diferentes entre si, e uma queda de uma oitava na melodia logo na primeira delas (do “stormy” pro “weather”, do agudo pro grave). E Arlen –grazie tanti, tio Harold- continuou abusando da forma –em “One for My Baby”, a melodia tem esquisitíssimos 61 compassos, e o tom flutua de Mi bemol para Sol, entre o começo e o fim da bagaça; em “I Promise You” (canção linda que ninguém mais grava), são 43 compassos, em formato ABC; “Ac-cent-tchu-ate the Positive” é um standard em formato de spiritual; “Happinness is a Thing Called Joe” tem aquele final maravilhoso, melancólico, indefinido, na segunda da escala. Fact is, em um post –mesmo comprido como os meus- não dá nem pra começar a lista de composições inesquecíveis de Harold Arlen (notem, por exemplo, que não escrevi nada sobre The Wizard of Oz e “Over the Rainbow”, maior sucesso entre as mais de 400 canções deixadas por Arlen), ou pra falar de seus letristas –Ted Koehler, Yip Harburg, Ira Gershwin, o fenomenal Johnny Mercer -e das diferentes inspirações que eles propiciavam ao compositor (uma canção Arlen/Mercer não soa parecida com uma canção Arlen/Harburg, por exemplo).
Há muito a elogiar em Harold Arlen, e gente bem mais competente que eu já tratou da tarefa (Wilder e Ira Gershwin, para começar, ou o biógrafo Edward Jablonski (1922-2004), em Harold Arlen: Happy With the Blues e Harold Arlen: Rhythm, Rainbow & Blues). Por isso, fecho em nota pessoal, como sempre. Eu gosto pra caramba de todos esses caras –e “gosto” muito literalmente: sinto afeto por eles, respeito o talento, o trabalho, o humor. Também sinto enorme gratidão: nenhum deles vai saber, mas fizeram a minha vida infinitamente melhor. Arlen, no entanto, me desperta afinidade ainda maior. A atitude dele para com a tradição de sua profissão é exatamente aquela que eu gostaria de imitar em tudo que faço: compreensão, respeito e amor pela forma, evidentes em cada nota que escreveu na vida, e ao mesmo tempo uma enorme nonchalance, disposição de desafiar as convenções e quebrar as regras, sem precisar pintar o cabelo de verde, serrar porco no meio ou mostrar o bingulim no palco. Arlen costumava descrever suas melodias compridas e fora do padrão como "tapeworms" (tênias). Já eu, aqui, 100 anos mais tarde e 12 horas depois de uma dose concentrada daquela música maravilhosa, am still speechless: por isso, old buddy, aceite só o meu comovido muito obrigado*, mesmo. Feliz centenário.
*And the same goes to the lady in the polka-dot dress and to Sam Arlen, Harold’s son and a ferocious tenor player, particularly for “Dissertation on the State of Bliss” –a very apt title, if I may add.
February 14, 2005
Room Tone

"Duke Ellington's Sound of Love"
Meus amigos e conhecidos que têm profissão são testemunhas de uma das modalidades mais peculiares da minha abrangente chatice: eu sou um bostinha perguntão –do amigo adevogado, quero saber qual é o truque para redigir a pidição; pro primo cirurgião, pergunto exatamente em que freqüência funciona o bisturi a laser; do conhecido que trabalha como diretor de câmera, tento extrair detalhes sobre a diferença entre usar lente com ou sem zoom em termos de definição de plano (and don’t get me started on architecture). Coisa irritante pras vítimas, I s’ppose: os caras passam anos estudando e praticando a arte deles e aparece um chato no meio do expediente cheio de perguntas leigas. Não é que eu dê palpite –“o pedal do acelerador de partículas podia ficar mais longe do pedal do freio, Erwin”- mas deve ser obnoxious mesmo assim.
Minha vetusta manhê, em sua infinita sabidoria, sempre definiu esse meu cacoete como “cultura inútil”, e admito: minhas horas de conversa geek com o Mike sobre a evolução da computação, por exemplo, não me serviram pra nada prático. Mas, sei lá –it builds character, como diria o pai do Calvin sobre acampamentos. Esse mar de coisas desconexas e nada práticas fica em banho maria na copa-cozinha do meu célebro de minhoca, e é provável que muita coisa tenha surgido reciclada nas minhas conversas ou no meu trabalho –com certeza na forma de analogias nada apropriadas. Mês passado, enfronhado na produção de um filme para o qual o som era muito importante, peguei Jared, o técnico de som, pra Cristo da informação inútil . E aprendi uma coisa muito bacaninha. Não sei se vocês já acompanharam a filmagem de alguma coisa gravada com som direto, em locação ou estúdio. Uma providência indispensável, nessas situações, é que os técnicos de som registrem 30 segundos ou um minuto do local de filmagem em silêncio –é o chamado “room tone”, usado como elemento de fundo na mixagem mais tarde.
Parece bizarro, mas não é: uma conversa sem room tone soa flat, oca. Quer dizer, o som da sala não seria o mesmo sem o silêncio da sala. É diferente do que a gente chama de “som ambiente”, aliás –ou seja, o ruído usado como fundo para uma conversa travada na rua, por exemplo. Mas a coisa mais batuta (prum leigo) que o Jared me mostrou no intimorato PowerBook dele foi a inexistência de silêncio. (E é interessante que a única maneira de constatar silêncio perfeito seja visual e não auditiva: os gráficos registram esse hipotético zero decibel que um microfone, por exemplo, não poderia registrar, porque o microfone mesmo tem seu som.) O room tone, o silêncio de uma sala, é um som composto de milhões de pequenos ruídos espalhados pela escala de freqüências (em geral no extremo superior) –traços do barulho da rua, do rugido do vento, do estalido da madeira, da poeira pousando nos livros, dos aparelhos elétricos em standby, do passarinho piando a dois quarteirões, da conversa que faz um doppler pela rua, das moléculas de ar se movendo entre as paredes. Eu sempre achei que o silêncio de uma casa vazia me acolhendo quando chego de viagem fosse uma das sensações mais deliciosas do mundo. E agora descobri que não é silêncio: é uma forma de música aleatória que eu, e ela, e a vida, e o clima, e o tempo vamos compondo sem nem perceber. (E o room tone dominante na minha casa, de acordo com as gravações que fiz usando software gentilmente cedido pelo Jared (thanks a lot, buddy), é, eba, Sol: o meu tom predileto).
My Funky Valentine

(My flatted fifth, my hidden rhyme)
The more time we spend together, the more I fear running out of original –or at least entertaining- things to say. The McNasty clan lives by very a strict law: never bore the one you love. So, while you read the papers, I score the Web searching for new ways to make you smile. Just the other day, I caught you perusing The Less Deceived -such a becoming title for the likes of us. And though I will never claim wisdom, I won’t give up on my attempts to comprehend. (Among other things, sweet patootie, why in the world would you wear a sweater to warm up your upper landscape and leave the bottom half exposed to the elements?)
Snowed in, all cozy in the bed you found for us, enfolded by its warm embrace, I cannot help but wonder at the closeness we’ve achieved, and how fast we did it. It’s not like our story could be compared to one of those crime capers, in which plot twists and trick shots never disguise the fact that everybody knows how it all will end. Fact is, I don’t. Nothing seems predictable in our tale. And, to be perfectly honest with you, I still fear this won’t be lasting beyond the end-credits. But that doesn’t mean I don’t believe –although certainty of course isn't our strongest suit- in the success of our affair.
That word bothers me, ‘affair’. We’ve got something special going on, something that feels permanent. I mean, we don’t let small matters (ho ho ho: winter everywhere) stand in the way of our mutual enjoyment. We share, care, stare (and you, babe, you usually bare). It’s very clear that our relationship is both deeper and wider than the word 'affair' would imply. And then, one gets busy with one’s affairs, while our love is essentially lazy. (Yeah, right, like we didn’t face those 60-hour work weeks and didn’t go out every night). Some stats might come in handy, here: together, we saw 31 movies (TV excluded, of course), plus two operas, two plays, two basketball games, umpteen jazz and at least four classical and two rock gigs. We’ve been to 40+ different restaurants and bars (many of them more than once), to five museums (if we include the MoSex), to five cities (let’s extend Bayonne that courtesy), to a casino or two and –uninvited- to a porn movie award ceremony: you sure really needed Jenna’s autograph, right? (Right.) That said, whenever we have the choice, I’d rather stay home alone with you. Maybe not for a year, because I’d miss our walk-and-talks too much, but there’s nothing ever so enjoyable as to bask in the bare-bottomed glow of your exclusive company and share in your thousand laughs a day.
The radio is turned way up (obrigado, meu são jizuis, for the Swing channel), and the telephone is turned off. We hesitate between checking out the latest Christo insanity in the park and the movies, though aware that we will probably end up doing both. (It’s amazing how well we know each other by now. Kinda frightening, too.) You come up with some obnoxious theory about Billy May being a better arranger than Nelson Riddle (have I created a monster?), and I let it slide just this once (hard to be arguing with someone dressed like that, LuluBelle). Hours are passing, and we are ‘wasting our time at home; that you/ Looked so much forward to’. But it doesn’t seem wasteful (one never wastes time dedicated to what one fancies). And, in that uncanny arrangement we’ve reached without discussion, time and again I find myself believing that this may, in fact, go well: that doing our separate stuff together might allows us to enhance but also preserve whatever it is that makes us so unique.
And then of course you decide to do something about my wardrobe complaints: oh, my. That’s really not what I had in mind, dear, but you’ll get no objection from these quarters. Our time is now, and love will brook no delay. Our place is here, or, my place is wherever it is that you wish me to stay (I’m not too picky, babe -as long as we end up together). We’re probably fated to oblivion, but the going, I assure you, can be quite pleasant. (A long, long road, and you’re likely to go my way, as they say in the song.)
‘Time will say nothing but I told you so’, yet time goes on and you keep saying wonderful, witty things (you know, McDirty, you skank, you should never come up with stuff like 'climbing the Rockies' to describe a tryst between a short guy and a boob-augmented broad –particularly not if they are both at our table, and I have my mouth full, for it may cause spillage). But that’s how it crumbles, cookie-wise, when one dates the zaniest broad east of the Borscht Belt.
Phlebas, the Phoenician, boozing away at the helm of SS Busty Mermaid (oh, the joy of private jokes) probably got to see Gibraltar in his travels: it was the gate between known and unknown, throughout Ancient History. And though you’re mighty stacked, it may come as a shock to be compared to The Rock: alas, you are both my fortress and my gate, McDirty. Between the rough-and-tumble of business and the melodious solitude of this apartment you’re helping so much to make faaabulous. Between the shoals festooned with past shipwrecks and the ocean’s roar I sing about in the shower. They’re all connected, now, because of you. Only your love could bring together the roar and whispers, only the magic you made could render whole whatever it is I broke, time and again. The mighty will fall, the idols will fail –hearts of glass, feet of clay. But we will prevail, babe. Our love is here to stay.
Note: Translation available upon you-know-what.
Update: Yeah, she's smiling at me. (Favorite picture ever.)
February 11, 2005
Ô, batíria!

Ziriguidum Inseglet
No ano em que completaria 16, ele gritou seu “Fico” –enquanto a família toda ia, claro. Feriado era sempre aquela caca –expedições para a praia ou campo, horas de congestionamento, tudo lotado, chuva, tédio. Usando como desculpa a nonna que morava com a família e não viajava por motivos iguaizinhos, ele enfrentou a cara fechada do pai, os resmungos da mãe e começou a passar feriados em Sumpaulo. Um dos motivos principais era o fato de que a capacidade de patrulha da nonna era zero. Nove e meia, se tanto, ela caía dormindo, e bastava estar de volta antes das seis do dia seguinte, quando ela acordava, para escapar de qualquer controle.
Não, não se tratava exatamente de anseio irrefreável por walks on the wild side. Era mais a adultice da coisa –sair sozinho, ou o mais das vezes com outro amigo da catigoria “encostado na vó”, ir ao bar, assistir até a última entrada da última banda, dar uma canja com um dos 15 mil músicos que ele conhecia (sempre sobrava alguém tocando na cidade, em feriado –quem é que vai viajar quando pode fazer show?) Depois, longas caminhadas de volta, ou longas esperas movidas a Thomas Mann, Dostô, Thackeray, pelo ônibus da madrugada, saindo de uma em uma hora do ponto inicial na Praça da República. E havia sempre a perspectiva de que a amiga/major crush tivesse um surto de irredentismo germânico e resolvesse convocá-lo –ela sempre convocava, nunca convidava- para alguma coisa, caso cismasse de não acompanhar os pais teutônicos nas viagens de feriado à casa maravilhosa que tinham em um canto majoritariamente europeu da Riviera de São Lourenço (“argh, parece um Congresso de Nuremberg, lá”, resmungava Beate).
Ele gostava dela, ela sabia, nenhum dos dois tomava uma atitude por medo de funhanhar a amizade, feita daquela mistura de devoção e hostilidade ranheta tão peculiares da adolescência (quando ela e as amigas alemoas caminhavam juntas no colégio, ele sempre saudava a cena assobiando a “cavalgada das vaquinhas”, apelido que logo ganhou uso amplo na ala não ariana da população escolar). Eram amigos, muito a contragosto, por apego comum a determinadas coisas –um certo tipo de rock, qualquer tipo de livro- e por aversão comum a absolutamente tudo mais. Em especial aquilo que ambos, razoavelmente acostumados a passar períodos fora do Bananão, designavam “coisa de brasileiro”.
Das muitas “coisas de brasileiro” que abominavam, a mais disgusting sempre foi o carnaval. A parafernália toda causava engulhos a ambos –o frenesi compulsório, os desfiles interminavelmente bregas, as letras dos sambas, o baticum interminável de tambor (e nada de cozinhar os missionários, comme il faut), o rebolado-de-branco-dizendo-no-pé. No ano do Fico, ele ficou. Ela ficou. E os dois planejaram o evento todo –iam ouvir Béla Bartók, iam ouvir Debussy, iam ouvir o Echo and the Bunnymen novinho que ela gravara do programa do Kid Vinil. E assistiriam a um monte de vídeos. Vídeos cabeça, claro. Porque Steven Spielberg é coisa de brasileiro.
Por medo da fofoca da governanta alemoa -chamada Bertha e tudo-, o QG da operação era a casa dele. (Todo dia, exatamente à meia-noite, toque de recolher dela em feriado, o motorista passaria para apanhá-la.) E tudo ia de acordo com os planos –jovens pretensiosos ouvindo música maravilhosa e trocando opiniões very supercilious sobre livros que eles mal entendiam- até o terceiro dia, quando a nonna decidiu se manter acordada depois do toque de recolher terceira idade, pra ver a Beija-Flor na Sapucaí, o que empatava o vídeo. O filme do dia era Bergman (porque no mundo não tem nada mais clichê do que jovem cabeça), e a solução que ele propôs, acatada com muita piadinha ginasiana de parte a parte, foi montar o aparelho no quarto dos pais, onde ficava a outra TV. Deitaram na cama, very VERY self-conscious, e botaram Det Sjunde Inseglet*.
Contemplar o gênio dos outros em ação é a major turn-on, em qualquer idade. Aos 16, quase abraçados numa cama de adulto e com três dias de blablablá intelectual zunindo nas orêia, não admira que cedessem. Por sorte ou azar, o vídeo enguiçou uns 10 minutos antes da Dança da Morte. O tranco do aparelho os tirou do transe. Os dois pularam da cama, morrendo de vergonha e, enquanto ele tentava “consertar” o vídeo, ela ligou e pediu que o motorista a apanhasse mais cedo. Na terça-feira, entendimento tácito, decidiram ir ao cinema. Assistiram Ghostbusters. E na semana seguinte, de volta às aulas, ele e os outros meninos estavam sentados na mureta que delimitava o pátio quando ela passou com a gangue alemoa. Os cinco assobiaram o trecho mais manjado da cavalgada das vaquinhas.
*O Sétimo Selo
As musas B

Hazel Court (1926- )
Que atire a primeira pedra quem nunca assistiu filme B, especialmente sci-fi ou gótico barato da American International Pictures (AIP), the house that Roger Corman built*, ou terror brit da gloriosa Hammer Films. Um traço de união entre esses dois pilares da cultura do século XX é a extremamente diliça Hazel Court, que de 1957 em diante alternava papéis em produções inglesas magistrais como Dr Blood’s Coffin, dirigida pelo meu cineasta série B favorito, Sidney J. Furie (responsável pelo mundialmente famoso “firme dos chinêis do túnel”), e clássicos cormanianos como The Masque of the Red Death (1964) e The Raven (1963: o único terror em que dona Hazel terminava o filme viva, as far as I recall). La Hazel se aposentou em 1964, para cuidar da família. Tragic loss para o mundo do filme B.

Virginia North, mystery wrapped in enigma
No comecinho dos anos 70, a AIP decidiu concorrer com a Hammer, e encomendou ao diretor britânico Robert Fuest, provavelmente por conta da versão involuntariamente apavorante de Wuthering Heights que ele dirigiu em 1970, o clássico The Abominable Dr. Phibes (1971), niquiq Vincent Price mata os médicos que acredita terem causado a morte de sua mulé usando métodos inspirados pelas 10 pragas da Bíblia, sempre com a assistência de uma co-worker mudinha e terminalmente góztóza chamada Vulnavia** (Virginia North). Virginia North is quite a mysterious figure: os usuais suspeitos (IMDB, Allmovie, Britmovie) não informam sua data de nascimento, e se limitam a mencionar curta filmografia de cinco títulos, entre os quais o Bond fracassado In Her Majesty’s Secret Service (1969), em que Sean Connery foi substituído pelo top model George Lazenby no papel de agente cata-mulé. O último filme de Virginia North, a incógnita, foi mesmo o Dr. Phibes -se bem eu tenha lido em algum lugar que ela teria participado da continuação, Dr. Phibes Rises Again (1972 -com locações na cidade de Isopor, Egito), se não estivesse grávida no período das filmagens. O intrépido investigador Noronha, que leu Agatha Christie e John Dickson Carr demais quando era fedelho e se formou detetive pelo Instituto Universal Brasileiro, acredita que dona North tenha sido assassinada nas filmagens do primeiro Phibes. Mártir da arte, além de góztóza. RIP, Virginia North.
*Eu sei, eu sei que os donos da bagaça eram James L. Nicholson e Samuel Z. Arkoff, mas sem os trashies do Corman nos anos 50, o estúdio não teria durado 25 anos, como durou.
** Mário "Barata", mitológico colega de ginásio, costumava chamar a moça de "Valgina".
February 10, 2005
Emergência, calamidade e desgraça!
Cadê a Lady Jules, e cadê o blog da Jules?
(Droga.)
(Droga.)
A Nação Mano

"Boy, you've gotta carry that weight -but let's first have a beer"
Seja em Thimphu (Butão), Uppsala (Suécia), Ouagadougou (Burkina Faso) ou João Monlevade (Sibéria), nesse exato instante -sem que você os reconheça- cidadãos da Nação Mano estão em ação fazendo coisas Mano, assimquinêim entregar geladeira, empurrar buzum atolado em lodaçal, pregar praca de compensado na janela até que a dona da casa arranje dinheiro suficiente pra comprar um vidro. Os Mano estão em toda parte. Mesmo em país rico que nem a Suíça ou o Luxemburgo, se você chama alguém pra tirar entulho da sua casa, a probabilidade continua a ser de uns 90% em favor de que se trate de um cidadão Mano. Mesmo que os dicumento o identifiquem como islandês, bessarábio, panamenho. Os Mano são pervasivos, e os misteriosos elos que os unem estão além da genética ou da linguagem. Em geral trabalham nessas coisas que exigem parca habilidade –carregar tranqueira, trocar garrafão de água em bebedouro, distribuir propaganda eleitoral, auditar contas de órgão público brasileiro. Existe Mano individual, mas os cidadãos Mano funcionam melhor em contexto gregário. (Todo eletricista de bairro tem um primo que fica do lado da caixa de luz trocando os pés de lugar a cada três minutos e pedindo cafezinho, enquanto o Bezerra coça o ouvido e contempla os dois fios como Hamlet contemplava a orêia do tio.)
Em termos biológicos, o cidadão Mano sobrevive como aqueles parasitas que limpam dente de tubarão: fazendo o trabalho que é desagradável ou apavorante demais para ser feito por nós. E, claro, em geral o faz muito mal. Quando o Mano vem montar um móvel na sua casa, sempre faz parecer que é uma das tarefas mais difíceis do mundo. Mesmo que o móvel consista de três peças. Uma posição preferencial dos Mano é coçar a cabeça com expressão de dúvida, ar meditabundo. “Pô, não sei se dá pra fazer a porta da geladeira abrir da esquerda pra direita em vez da direita pra esquerda, patrão” (por mais que o manual diga que dá). Mencionar a moeda corrente da Nação Mano, porém, em geral basta para que a equipe Mano execute a tarefa, de maneira morosa e dorida, claro, mas o lustre termina pendurado. Um dia. (Uma das peculiaridades do dinheiro Mano é que ele atende por inúmeros apodos –caixinha, gorjeta, cervejinha, mancia, tip, propina, pourboire, Trinkgeld, dricks, drinkgeld, drikkepenge).
Uncle Filthy, em sua juventude doidivanas, já deu uma de jornalista-alemão-disfarçado-de-turco-para-escrever-best-seller, e foi Mano por algum tempo, trabalhando num lava-rápido. (Na verdade, o esforço de reportagem tinha por objetivo financiar o aristocrático passatempo chamado “almoço”, que à época Uncle Filthy praticava com bem menos assiduidade do que gostaria.) Mesmo que os cidadãos Mano que acabaram de sair da maison Fudílson tenham montado a perna da mesa virada pro lado errado, continuo capaz de simpatizar com o pathos da catigoria, se bem não necessariamente com seu ethos. E declaro instaurada, por isso, a Semana Mano, niquiq adotarei na minha profissão os procedimentos trabalhistas consagrados pela poderosa Nação Mano. (“Pô, mas que tamanho cê quer esse texto? Prissiza logo? Ih, cê quer o texto em inglês? Em inglês é difícil. Em inglês e espanhol? Ó, eu não garanto, mas tem o meu primo, o Adírso, que se eu chamá ele talvez vêim fazê um texto pro sinhô. Pode de sê na mão? Ih, rapaz, no computadô vai sê complicado. É que eu o meu tecrado não teim os acento. Não, eu não tenho nota fiscar, não, mas posso passá um recibo -Nogueira! Dá um papér! Limpo, pô!- Ah, metade adiantado, né, o senhor querenu. Pode deixá recado ca minha vizinha, a dona Eulália. Se ela demorar pra atender, é por causa das variz. É só esperá”.)
Key to the highway?

"Books; china; a life
Reprehensibly perfect"
Comida e sexo, né, Maggie? Call me Darwin, then. Uma cama, um fogão, uma geladeira, um chuveiro funcionando (o outro não), e a banheira fica pra semana que vem. E, claro, porque nós darwinistas não somos muito prevenidos no que tange aos aparatos da civilização, eu esqueci de comprar lâmpadas, dimóddusqui tenho dois aposentos iluminados na minha casa nova. E um computador que, justo ontem à noite quando eu queria disparar uns e-mails comemorativos, went on the blink. Manutenção do hot spot. O que me impediu de manter contato online com o meu pingüim gay interior.
Quando, exatamente, uma casa vazia ganha a cara de seu morador? Talvez nesse passeio noturno iluminado precariamente por uma combinação de duas lâmpadas de 40 watts e brilho azulado da tela do computador –as estantes vazias, novinhas: minhas estantes. E o piso de tábuas largas dispostas em diagonal que escolhi para substituir o carpete hediondo. E Blossom sussurrando dos alto-falantes afônicos do laptop e ainda assim perfeitamente audível, escada acima, escada abaixo –“I can see the stars getting blurry/ when we drive back home in the surrey/ driving slowly home in the surrey with a fringe on top”- a mais urbana das cantoras transformando uma bestaj faux-jeca de Rodgers/Hammerstein em irônica balada metropolitana: feels like home?
A casa quase vazia é um sinal, um convite e uma admoestação: blank slate, uma vez mais, e como todo dia, todo santo dia, me vem à memória um verso perfeito do poeta: “Here no elsewhere underwrites my existence”. O que quer que eu venha a fazer dessa casa é my accomplishment and my problem. A mais diliça das assessoras sem dúvida vai me cobrir de biliscão se eu resolver colocar uma cortina com o distintivo do Timão, mas a responsabilidade é minha. Em vida de muitas mudanças e reviravoltas, essa é a primeira em que consegui romper todas as amarras exatamente no momento em que precisava. Here, no elsewhere underwrites my existence. Hic et nunc, nec spe nec metu -todas essas divisas que o passado propicia. Enquanto Blossom abençoa minha casa vazia, e minha vida cheia, e minha fugaz certeza de que, dessa vez, vai.
Uma casa vazia é uma página em branco, e passei décadas convicto de que as palavras alheias, como as casas dos outros, importavam mais do que as minhas. And they probably do. But, with a little help from a friend who will regrettably remain nameless, descobri que o branco das páginas é um convite, como o vazio das casas. E as portas, como as páginas, vão estar sempre abertas. Tenho uma vida a ser escrita, uma casa a ser ocupada, um mulerão pra me ajudar a escolher as cortinas. E uma lembrança que não se apaga. So, vélkom to my humbre abode. Ricordate ogni speranza, voi ch’intrate.
February 09, 2005
Captain Has-Been and the Wayback Machine

"All we can hope to leave them now is money"
Sir John Betjeman (1906-1984) escrevia poemas pequeninos, metrificados, com rima –prática completamente obsoleta. E falava de lugares que de fato existiam, de gente que ele via na rua, e de sentimentos que essas pessoas que ele observava de um jeito completamente impiedoso reconheceriam. Betjeman era muito famoso quando vivo –Poeta Laureado, e convidado permanente a opinar about all and sundry naqueles programas intermináveis de debates da BBC que o Monty Python satiriza tão impiedosamente quanto o poeta satirizava os mores de seus conterrâneos.
"I am a young executive. No cuffs than mine are cleaner;A sense of place, a sense of time, era isso que Sir John Betjeman tinha. E é claro que quando você, tipo, se amarra ao tombadilho da sua era, afunda com ela. Como Betjeman, que passou 30 ou 40 anos brigando inutilmente contra a corrosão do passado pelo futuro, e agora sobrevive só nas memórias de leitores persistentes como eu, já que os especialistas em literatura sempre parecem considerar que os vanguardistas lidos por ninguém representam melhor suas eras do que os escritores mainstream lidos por todo mundo.
I have a Slimline brief-case and I use the firm's Cortina.
In every roadside hostelry from here to Burgess Hill
The maîtres d'hôtel all know me well, and let me sign the bill.
You ask me what it is I do. Well, actually, you know,
I'm partly a liaison man, and partly P.R.O.
Essentially, I integrate the current export drive
And basically I'm viable from ten o'clock till five."
Quem me lê under the guise of Fudílson Noronha, Esquire, provavelmente não conhece minha verdadeira identidade. Meu nome real é Captain Has-Been, e sou super-herói registrado no MTb sob a matrícula n° 943. Minha missão é defender o passado. O pobrema é que a tecnologia do futuro é sempre melhor do que a minha, dimóddusqui acabei dando um mau jeito nas costa e tô encostado no Inamps. O que não quer dizer que tenha renunciado à missão que me foi atribuída pela Cinta-Liga da Justiça. Como Betjeman, eu pelo menos resmungo pra caceta contra os estragos do tempo: com um vigésimo do talento e o mesmo –zero- sucesso. Time and place have lost to self and race, or self and face.
Não é que eu seja idioticamente passadista (não muito) –bastante coisa mudou pra melhor, muita desigualdade foi atenuada, muito absurdo foi corrigido. Cem anos atrás, mulé não votava em praticamente país nenhum. Homossexualismo era crime. Minorias (e até maiorias) raciais em n lugares eram rotineiramente vítimas de leis e regulamentos ridiculamente discriminatórios (no parque público de Xangai, até os anos 10, uma placa advertia que era proibida a entrada de chineses e cachorros). Mas um dos corolários da mudernice é a perda de senso de lugar, porque there’s McDonald’s everywhere. Tem pouca coisa mais assustadora do que viajar à Malásia, sei lá, um lugar bizarro qualquer desses, e ouvir o jingle hediondo do McDonald’s na televisão local, em um idioma que cê não entende. (Imagina trocar o jingle da Groselha Vitaminada Milani ou o da Bala Juquinha que enfeitaram minha infância pelo “cebolalface”? Bleargh.)
Tanto Betjeman quanto o Captain Has-Been se apegam ao passado porque é de lá, e não dessas idéias mongas tipo “metrópoles multiculturais”, que derivam sua identidade. E a Internet, esse mais não-lugar dos lugares, acaba oferecendo uma espécie de sense of time, sense of place substituto, no qual o passado, o lugar pessoal -porque é mais difícil demolir bytes que velhos edifícios- persiste ainda que o dono do site dê calote no provedor, por obra e graça de serviços indispensáveis como o Wayback Machine*. (E um dia um cientista louco qualquer vai inventar uma Wayback Machine física e eu enfim vou poder morar em uma São Paulo sem Minhocão e com rios de margens curvas como a fuselagem da Nigella.) Como disse Sir John, poeta menor:
"There was sun enough for lazing upon beaches,*O Internet Archive opera um sistema de arquivo de sites extintos chamado Wayback Machine; se algum dos seus sites prediletos bateu cas 10, antes de descartar o link visite o Wayback Machine, digite o URL original na caixa de busca e, nove vezes em 10, eles têm uma cópia do dito cujo arquivada.
There was fun enough for far into the night.
But I’m dying now and done for,
What on earth was all the fun for?
For I’m old and ill and terrified and tight."
Shitstorming

"Ajoelhou, tem que rezar"
Deveres profissionais inadiáveis blablablá requerem que eu encontre um jeito de criar um mood de incongruência em cinco segundos de filme, pra vender sabão nos outros 25. E, porque quando não tenho idéia nenhuma eu só penso em furumfa anyway, a coisa mais incongruente que me ocorreu foi doing the dirty com a trilha sonora errada. Ou esquisita. Ou, you know. Bizarramente inesperada. Uma vez, férias ou feriado em São Chico, canícula senegalesca do meio-dia, o casal refugiado no segundo andar da casa alugada resolve dar expressão física ao transporte emocional que os envolve e, mais ou menos aos 15 segundos das preliminares, de algum lugar surge um som de radinho de pilha tocando Neusinha Brizola*. Ou, carro atrás das árvores no acostamento de uma estrada belga, Uncle Filthy esbarra no botão do rádio e de repente os altos-falantes ribombam John Philip Sousa enquanto ele tenta desabotoar um sutiã Maginot. Ou, temporariamente fascinado por Wagner o disinfiliz decide que seria uma boa idéia etc. ao som de Das Rheingold, até que a parceira, depois de três acessos de riso com as manifestações vocais das virgens ribeirinhas, vira pra ele e diz “ô, Fu, cê definitivamente não vai fazer comigo o que tão fazendo com elas aí nesse estúdio”.
É, eu sei que a impressão que vocês vão fazer sobre a minha vida amorosa, ao ler essas coisas, é meio patética, but rest assured: a realidade é ainda mais desanimadora. Pelo menos quando a disgrama é acidental, menas pior. Triste é quando a moça resolve colocar um CD do Bon Jovi, na hora em que pede licença pra vestir algo mais confortável. Ou fuck music “da moda”. Piper, uma amiga minha aqui que é meio chegada no rala-e-roça, comentou em e-mail que num güenta mais ouvir Portishead durante o conúbio carnal, and I can symphatize. Ô, se posso. Gainsbourg, por exemplo, me tira de qualquer apartamento pela janela mais próxima em prazo de 15 segundos. Um sujeito de uma firrrma coligada me contou em um fim de semana de trabalho recente que, depois de muito xavecar uma moça que conheceu num bar, acabou desistindo de ir às vias de fato porque ela é maníaca por Senhor dos Anéis e ouve Enya. “Doing it to Enya? No way, dude. No way”. Minha co-âncora, Ms. McDirty, embora ainda seja virgem, contribuiu para a pesquisa com uma combinação hipotética entre parceiro perebento e Twisted Sister. Aliás, entre os americanos, essa combinação entre parceiro/a so-so e hair band ou nhonha que o valha parece avassaladora: pra comer alguém, eles já ouviram AC/DC, Guns’n’Roses, Metallica. E os verdadeiramente pervertidos recorrem a drogas pesadas como Simon & Garfunkel (“me & Julio down by the schoolyard” certamente soa como sugestão de alguma sacanagem very peculiar).
Mas nada disso é o tchan! (humor sofisticado é comigo): o que eu preciso é de uma combinação entre situação/local e trilha sonora que imediatamente cause risada, e que seja reconhecida como incongruente pelos espectadores sem necessidade de muita explicação (o que, infelizmente, exclui o uso de música country, já que no chamado FOT** muita gente aparentemente foi concebida ao som de Dolly Parton, e guarda bizarra e apreciativa memória genética do fato). Se “japonês tem quatro filho” fosse melodia de circulação universal, o dilema estaria resolvido. Mas, alas, é não. Por isso, apelo à amável leitora, ao gentil leitor, para que revele aqui no confessionário virtual do Pe. Noronha a sua combinação mais bizarra de fervura hormonal e trilha sonora. Podem usar os comentários ou o endereço de e-mail que consta aí à esquerda. Identidades permanecerão ocultas para proteger os, er, inocentes. E eu prometo que não vou pensar pior de vocês do que já penso agora, anyway.
* Que chilreava “Mintchura”, composição de si pópria e Joe Euthanazia (one wishes he’d done it before the Muse struck, but...), produzida, em mais um exemplo de notável serviço à cultura brasileira, pelo mago Paulo Coelho.
** Flying-Over Territory, ou seja, aquela porção dos Estados Unidos que separa a cidade de Nova York da Califórnia. No primário, aprendi conceito semelhante aplicado ao Brasil –tinha aquela faixa de território que vai da costa até uns 100 quilômetros terra adentro e une o Rio a Sumpaulo, e o resto todo era a chamada “Amazônia Legal”, terra da pororoca. (Ô, como vou levar pórrada por conta dessa.) ;-)
February 08, 2005
Em casamento de pingüim gay, nem tudo acaba em pizza

"We're too well-dressed to be straight, my dear Sebastian"
Voltando pra geladeira: O zoológico de Bremerhaven, depois de descobrir que três de seus cinco casais de pingüins eram gays (eles estavam doing the dirty há anos e não procriavam) decidiu seguir a cartilha da direita religiosa e tentar “regenerar” os animais. Quatro pingüins fêmeas foram importadas da Suécia para convencer os pingüins gays a voltar pra geladeira, mas o retrospecto parece desfavorável: não só os pingüins são bem vestidos demais pra retornar ao relaxo do mundo hétero como, pelo menos no mundo animal, é aparentemente muito difícil separar casais gays. Para não deixar as serelepes pingüins suecas na mão caso os rapazes optem por continuar gostando do Village People, o zoológico também importou dois pingüins machos.
Entrega em 20 minutos ou pode disparar os mísseis antiaéreos: Um piloto de helicóptero do exército inglês usou seu Lynx para entregar uma pizza quentinha pra namorada, que estava participando de manobras a 50 quilômetros de distância. Já que a/o namorada/o que se transforma em pizza continua a ser um sonho inatingível, delivery aéreo como esse passa a ser a melhor alternativa. Especialmente se o namorado vai em cana depois, como o nosso herói, e a moça pode comer a pizza sozinha.
“Alô, é da pizzaria? Eu queria chamar os bombeiros”: Na minha querida Land of Oz (os dois países com mais notícias legais per capita, na Internet, são a Austrália e o Camboja), um posto do corpo de bombeiros em Maroubra, Sydney, teve de ficar sem atender um chamado porque os bravos sordados do fogo estavam usando o caminhão para buscar uma pizza. Depois de retirar a pizza, o motorista saiu passeando com os amigos na viatura. Uncle Filthy, que em seus anos de crepúsculo desenvolveu benfazeja crença na harmonia, propõe que as duas atividades sejam combinadas e que as entregas de pizza passem a ser feitas pelos caminhões de bombeiro. Com a Magirus, ninguém precisa perder tempo com porteiro e elevador. E, dado o status mítico de bombeiros e entregadores de pizza, em NYC, como provedores de serviços eróticos, seria como unir o agradável ao agradabilíssimo.
“Eu sou casado, mas a minha mulher é uma jararaca”: O jordaniano Bakr Melkhem, sujeito azarado a ponto de poder ter seu prenome traduzido por Fudílson, era casado e estava xavecando uma mina online há uns meses. Quando ela enfim topou se encontrar com ele, na rodoviária de Zarqa, o Fudílson das arábias descobriu que a cyberbabe era sua legítima mulé Sanaa. Divorciou-se dela incontinenti, pronunciando por três vezes a fórmula ritual islâmica “vá catar coquinho”. Fudílson-o-brasileiro, cujos namoros online normalmente só causam estrago no tecrado, aprendeu a lição e nunca mais vai marcar encontro na rodoviária.
“...but the operation went bust”: Ninguém escreve melhor que os mano do New York Post, e a matéria sobre dona Monique Feaster que, em uma operação de redução de seios, acabou perdendo um mamilo, contém expressões como a que epigrafa esta nota. Dona Feaster tá processando o hospital, e com muita razão. Eu já imagino os argumentos da defesa –“mas ela não queria redução de seio? Então”.
Que tal umas pingüins suecas?: Mayor Mike, que surpreendeu quase todo mundo fazendo excelente governo em Nova York*, decidiu que a prefeitura apelaria da decisão de uma juíza estadual que autorizou o casamento homossexual na cidade. Bloomberg, que se diz pessoalmente favorável a que as pessoas casem com quem bem quiserem, justificou o apelo dizendo que a lei precisa ser cumprida. Uncle Filthy, em sua condição de assessor voluntário do governo municipal, sugere que Mayor Mike importe uns dois milhões de pingüins suecas pra ver se elas convencem os rapazes da cidade a abandonar a pôca-vigônha. (Todos os casais gays que conheço aqui reclamam que, ao contrário do que se vê entre os pingüins, namoro homossexual humano acaba em cinco segundos, de modo que as chances são melhores do que em Bremerhaven.)
Farewell, Hubble: Se eu precisasse de outro motivo para desgostar de W., taí -na proposta de orçamento apresentada ontem, o Presidente Jr. exclui das verbas da Nasa a grana necessária a manter o telescópio espacial Hubble funcionando depois de 2007. Muita gente está disposta a batalhar pela preservação do telescópio, que durante anos emprestou à minha vida solitária a companhia das estrelas, and I wish them luck. Dado o retrospecto do Bush em suas disputas com o Congresso, porém, hélas, já Élvis. Good-bye and thank you very much, old friend. I’ll miss you.
*Por exemplo, Bloomberg, ainda que republicano, foi o primeiro político importante dos EUA a tirar barato da histeria de compra de fita isolante e pudim em pó promovida pelos mongos do Homeland Security em 2003, ao recomendar aos seus munícipes que gastassem o dinheiro deles com coisas mais úteis.
...so grand at the game...

"It's always that way with passion
So, cowboy, learn to behave"
I watch from the bed, pretending to read the latest Hugh Thomas, while she contemplates her closet and decides on what person to wear tonight. There’s always this calculating mechanism at work, weighing different sets of things that allow her to present herself as the Minimalist (yet fashion-conscious) Designer, the Ad Exec (with a creative flair), the Midwestern Headbanger, clad in jeans but still smelling nice, the 21st Century Flapper (though equipped with bonus boobs). It’s funny, and sexy –almost as if she’s drawing mental sketches and computing what sort of crowd will she be facing, estimating the trade-off between putting it out and tucking it in. And then, when she’s apparently ready, she always runs back to find something that adds a slightly jarring note to the ensemble: a flag of personal style flapping defiantly on the face of Vogue. I tease her mercilessly about her personae, and she is familiar enough with me by now to know that punching me is the only appropriate answer, because she packs quite a powerful jab and I dread the prospect of bruised ribs.
On the street, her stride is purposeful, a fast but measured walk that matches my gait though I’m seven inches taller. She loves to walk as much as I do, and has an eye for city life that perfectly matches mine. We hold hands all the time when walking together, ever since that first walk back to the office an eternity or 11 weeks ago. It feels like forever, and I know that this might sound unromantic. But, in fact, it’s the opposite: I can’t remember not having her close, and I refuse even to consider the prospect of doing without her some day. Call me naïf, but that’s how I feel. Plus, she’s my portable party: adding her to whatever boring situation I must face turns it instantly into fun. Because we can at least trade very glib remarks about everyone and everything that surround us. Plus, if someone overhears our ill-disguised insults and the scene turns ugly, she can display her boxing prowess by covering my hasty retreat.
We share a wide –probably too wide- appreciation for any form of humor –and I really mean 'any', like watching American Idol and coming up with even weirder dialogue for freaks such as the Fat Psychic. She has an uncanny ability to conjure amazing one-liners out of thin air –it’s hard to describe, because a lot of her jokes are very visually-oriented, but she sort of frames a scene and defines it with utterly clever and yet completely absurd taglines such as 'six of one, half-portion of the other', 'winter everywhere', 'meet Kenny Rogers'. She cracks me up 10 times a day, and the temptation to while away afternoons at the office trading stupid jokes with her on the IM is really hard to resist. The best part is, people don’t get it, and probably ascribe our giggling to love. (They might even have a point.) But she’s insane enough to e-mail her mom a copy of the magnificent rap song I wrote for her (I mean, the babe, not the Mom.) So, now I have the Mossad and B’nai B’rit on my tail. Oy veh.
I can picture her perfectly at 10, wearing a pink T-shirt with a rabbit on it and listening secretly to her mother’s Joni Mitchell records, one lonesome Indiana winter. And I can also picture her perfectly at 70, wearing a 'black dress like a French war widow’s' and being very mean to dumb people at social gatherings. There’s something fiercely straight about her –and no, I don’t mean sexual orientation. It’s like unbreakable strength of character tempered by wit, a love of solitude tempered by the warmest welcomes I’ve ever received. There’s steel in her: an unbending determination to stick to what’s right and fair. And then there’s her passion for the work she doesn’t necessarily love. I quite admire the fact that she always does her best (and her best is excellent) yet recognizes that what we do for a living is alright, but, yo, let’s be sensible about it: soap would still be sold without us.
Her version of our story is, she wore me down with entreaties until I gave up and said ‘OK, I’ll do you’ –after all, she claims that she was the one who invited me out to lunch, she was the one who took my hand, she was the one who cut short a Thanksgiving break* to fly back to the city and let me sample her womanly wiles. In my version of the story, I was so in awe of her that, hey, I was meaning to try my feeble best to seduce her, but asthma and stuttering kept getting in the way. The truth probably lies closer to one of my most cherished romantic myths: it was probably dark, it was probably raining, and we stumbled onto one another. I copped a feel and wouldn’t let go, she lost her glasses and mistook me for a handsome guy. (Obrigado, meu são jizuis.) The ocean’s roar, nine billion drums.
*'Hypothetically speaking, McNasty, were a lady to jump off a cliff to be with you, would you catch her?', asks McDirty. 'It depends on her weight', McNasty answers. Happy ever after.
February 07, 2005
We Like the Moon!

“...coz it is close to us”
Você pode sair da ZL mas a ZL não sai de você, e é por isso que continuo a ser um sujeito simples, nay, simplório, o que me confere o direito a comportamento sophomor(on)ic como –ao escrever essas bestaj aqui- imaginar quem são os meus leitores. O que nunca tinha me ocorrido antes de abrir a quitandinha Noronha no dia 31 de agosto de 2004. Pra desgosto de qualquer pessoa provida de sensibilidade literária, coisas que eu escrevi já encontraram audiências nas escalas mais variadas –mas o felômeno em geral envolve invisibilidade tanto maior do autor quanto mais cresce o público. Quer dizer, nas ocasiões em que há literalmente milhões de pessoas consumindo minhas bobaj, ninguém sabe –ou se importa- quem é o autor, e o autor não tem a menor curiosidade sobre seus “leitores” –basta que eles comprem o carro, o papel higiênico ou o sabão. Meu livro mais conhecido vendeu umas 40 mil cópias em 12 anos de catálogo. Quem comprou? Beats me. E textos que eu escrevi ou traduzi pra jornais e revistas devem ter sido lidos por público na casa das dezenas de milhares de desavisados. Mas –tirando os formandos da Pink & Blue que mandam carta reclamando sobre o meu precário domínio do idioma de Shakespeare e Shakira aos jornais que cometem a imprudência de me contratar-, não faço idéia de quem me leia, ou de que efeito o texto cause. Já o blog é very personal. Até onde sei, há três categorias básicas de leitores: blogueiros que chegaram aqui by word of mouse; fellow Websurfers que não têm blogs mas estão acostumados a essa modalidade estranha de contato por computador; e amigos que fiz antes da invenção da eletricidade e acabam caindo aqui porque ou gostam do que escrevo ou vêem no blog um jeito de manter contato. O que esses três grupos têm em comum? Provavelmente a intensa vontade de que eu publique três vezes menos posts, três vezes mais curtos. E o fato de que –em todos os três casos- eu saiba ou possa imaginar com alguma clareza quem me lê.
Uma amiga que remonta à era do monitor rupestre recentemente teve a pachorra de ler a bagaça inteirinha –do falecido Noronha, o Meditabundo, ao vai-num-vai McNasty (minha mãe deve ter pago). E ela –que me conhece desde que o Apple II era risonho e franco- percebeu tendências que eu, porque abro a máquina quase sempre sem ter a menor idéia do que vou escrever, não imaginava fossem tão claramente discerníveis. Segundo dona Cláudia, o tema dominante do meu primeiro blog era a stasis: o jumento paralisado pelos faróis na linha do trem. E, ó, se bem eu zurre habitualmente, não era deliberado. Mas ela tem razão: foi um daqueles períodos em que você fica parado e espera que a vida te arraste e tome as decisões que pra você são difíceis demais. Por conta do meu apego exacerbado ao passado, o futuro em geral tem que mandar o Sargento Paranhos e sua brava guarnição da PM pra me fazer largar do poste. Mas não é só isso: o fascínio da stasis, pra mim, é exatamente não ter que escolher entre devires que se excluem mutuamente. Uma vez mais, aplico indevidamente ao mundo supra-atômico o princípio quântico da superposição, de Schrödinger: quero que o gato fique vivo e morto ao mesmo tempo (ops, quero dizer, vivo, vivo, ou levo pórrada da subrinha, de Lady Jules e de Mlle Malgardée). O problema de esperar que a vida te arraste, however, é que o tranco é dolorido –mesmo que, àquela altura especialmente, eu andasse bem acolchoado. E quando você abre a Porta da Esperança que escolheu, ou que algum inominável escolheu por você, não fica sabendo o que se escondia atrás da(s) outra(s) portas, porque infelizmente a vida não tem Lombardi.
As portas que você não quis ou pôde abrir desaparecem, e por algum tempo você esquece que isso tudo é só um símile de sexta categoria, e que por trás de algumas dessas portas têm gente que te lê e que –sabendo ou não- te é imensamente cara. Na verdade, nem é que esqueça. Você simplesmente se consola imaginando que do outro lado das paredes que surgiram no lugar de todas as portas desaparecidas, aquilo a que você escolheu não ter mais acesso continue a brilhar, a pulsar, a espalhar calor, que você sente de longe sem precisar encarar. Porque, de alguma maneira, cê quer sempre que o gato continue vivo dentro da caixa, mesmo que nunca mais vá ter coragem de abri-la. É um pouco como a Lua –ainda que a gente passe a vida sem contemplá-la, é essencial saber que ela está lá em cima, do outro lado das nuvens. E quando você percebe que, yo, certas luas orbitam por generosidade e não obrigação gravitacional, e encara a hipótese de que se colocou em uma posição que te impede de interceder para que elas continuem a brilhar, it’s fucking sad. Mesmo que você deseje freneticamente voltar atrás, as portas não estão mais lá. O que te resta fazer, como nos dias da stasis, mas com ainda menos fé, é escrever um post, mais uma mensagem na garrafa, e imaginar que um vento có(s)mico qualquer conduza à Lua sua versão da mais bela canção da era da Internet: “We like the Moon/ Oh so much more than a spoon”. E torcer para que a Lua seja parte do mais raro grupo de seus leitores: os corajosos que agüentaram até aqui sem clicar em link de mulé pelada.
We few, we happy few, we band of brothers

And no, I'm not dissing the sisters.
Thank-you speeches usually go something like ‘let me start by acknowledging so-and-so’s unstinting help; without him (or her), this achievement would not have been possible’. And that’s usually a load of crap, ‘cause, truth be told, I didn’t achieve anything. YOU did. And so I won’t try and claim this one as a personal victory (though I feel mighty fine, thank you very much). Everyone pitched in above and beyond the call of duty, and it’s your talent, dedication, esprit de corps, and wit that pulled this off, against such overwhelming odds. So, allow me to say that working with you is a daily honor and privilege, and that I sincerely hope this is the first in a long string of thank-you notes of a kind I’ll always be glad to write: we’re kicking butt and taking names, and I owe you all big time. Tonight, the booze is on me –if I can drag myself out of the bed to which I will be repairing right away, of course. You rock -each and every one of you.
Update: There is one thing people like to say above all others: 'I told you so'. And since I told you we could -and would- do it and you doubted it, now you all will have to sing it for me. I even translated these immortal words into English so as to avoid lame excuses. There you go:
'All hail Corinthians!
A champion once, a champion through
Within our hearts
It lives forever ever new
All hail Corinthians
Such glory and thrill
Thou art the pride
Of every sportsman in Brazil'
Rehearse amongst yourselves.
February 04, 2005
One step above the sublime makes the ridiculous*
"...a tua Fortuna que se rende, as tuas obras
que malograram, os planos de tua vida
que se mostraram mentirosos, não os chores em vão."**
Minha patotinha blogueira –o comendador Goiaba, Alexandre Soares Silva, Esq., Lady Jools, o espadachim Mercuccio, subrinha Nibelunga, o antípoda Rafael- em geral só desce a lenha no Bananão. Eu mesmo, o mais das vêiz, teria de alegar guilty as charged. Motivo não falta –ô, país aggravating! Mas isso me leva a esquecer, muitas vezes, a virtude redentora dos meus compatriotas: aquela capacidade de disparar setecentas piadas de extremo mau gosto enquanto o Ayrton Senna ainda tá mexendo os pezinhos em meio às ferragens do Copersucar. Não é, admitamos, uma virtude épica: se os vikings fossem brasileiros, eles provavelmente nunca teriam navegado mais longe que 25 quilômetros da costa da Noruega. (Em compensação, talvez houvesse menos suicídio na Escandinávia.) E é claro que isso permite que a gente trace uma imagem perfeita do brasileiro: é mais ou menos a de um moleque descabelado de sexta série, obcecado por tetas e bunda e pronto a soltar piada infame sempre que o professor dá as costas. A situação perpetuamente periclitante da nossa terra que tem palmeiras onde jacarés nadam de costas é prova suficiente de que esse admirável traço de personalidade –uma completa falta de respeito para com os momentos mais solenes, mesmo o velório do póprio tio- é a major empata-foda no departamento cívico. Todo brasileiro aprende a máxima do gênio Millôr –“quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos”- e tá sempre pronto a rir do pandeirão alheio. Mas confrontar otoridade? Passa amanhã.
Aliás, se esse blog aqui tivesse uma otoridade, tipo um bom editor, ele rabiscaria o lead todo, aí em cima, e me achataria a carapinha com um croque, porque o post num era pra ser sobre nada disso. Dia desses, eu tava lidando com um texto niquiq o autor mencionava que o desenvolvimento evolutivo dos ossos, nos vertebrados, se deve ao reaproveitamento do resíduo de cálcio gerado pelo metabolismo das células. And it got me thinking. Não só no fato de que muita coisa na vida é construída de resíduos mas também na idéia de que é essencial encontrar um jeito de reaproveitá-los.(Notem que, bem aqui, vou cometer um salto analógico absolutamente injustificado dos resíduos físicos pros resíduos morais ou psicológicos.) Como dizia o Professor Overy, meu muito querido orientador, “life is like a sewer system: one has to deal with shit everyday”. E é absolutamente essencial que você faça alguma coisa com os resíduos acumulados, ou o sistema entope e você termina se candidatando ao Big Brother ou ao programa do Justus. Quando o sujeito não conseguia comer alguém e descontava batucando a intimorata Remington até produzir um romance de sexta catigoria, o passado tentava emprestar certo tom de refinamento ao processo, e o honrava com nome fancy quinêim “sublimação”. Mas, na prática, trata-se só de um jeito de lidar com o acúmulo ameaçador de dejetos –a solução tanto pode ser literatura quanto pode ser tênis. Ou pode ser um blog. Pode, sim.
(E agora o jumento do Fudílson tem que encontrar uma maneira de amarrar as duas metades do post.) Os blogs, porque inconseqüentes e idiossincráticos, têm alguma coisa peculiarmente brasileira –especialmente a idéia de aproveitar a proteção do anonimato pra falar mal do patrão, do Caetano Veloso ou da Maria Alice, aquela vaca ingrata. São como a velha sublimação, mas sem o esforço que literatura de verdade exige, e sem ter que batizar personagens com nomes como “Hjordis” e “Svidrigailóv” e suicidar ou matar o coitadinho de sifílis no fim da bagaça. Num blog, e especialmente num blog brasileiro, ninguém estranha se o personagem se chama Fudílson e descreve a namorada como “aquela vagalba”. Porque ninguém leva a sério, mesmo. (Thank God for small mercies.) Mesmo que a gente passe a vida toda reclamando do Bananão, yo, é inevitável encontrar alguma coisa de bom em um país niquiq “Sublime” é nome de papel higiênico.
* Thomas Paine, Age of Reason, II
** Konstantinos Kaváfis, Poemas, "O Deus Abandona Antônio", tradução (magistral as usual) de José Paulo Paes
Eyes like sin
She could ride my cab anytime
Rachel Griffiths é uma das mina que sempre aponto como prova da minha teoria de que as mulheres mais diliça do mundo não são as paradigmaticamente góztózas –Sharon Stone ou a mala da Angelina Jolie, pra citar dois exemplos. Griffiths, sem deixar de ser um tremendo mulerão, tem aquela qualidade “girl next door” que é o sonho dourado de todos pervo (Hugh Hefner ficou bilionário explorando a tendência). E, apesar de uma carreira cinematográfica bizarra, de vez em quando é excelente atriz.
Rachel Griffiths (1968- )
Estreou no cinema em Muriel’s Wedding, filme abominável que God knows why virou cult, e fez mais uns tantos filmes aussie antes de ganhar o mercado internacional com My Best Friend’s Wedding e Jude, adaptação de Hardy por Michael Winterbottom. O único filme realmente bom que ela fez na vida, though, é o subestimado e genial My Son The Fanatic, de Udayan Prasad. Baseado em conto do também roteirista Hanif Kureishi (que depois de ser menino prodígio meio chatinho virou um grande escritor in his 40s), o filme conta a história de um taxista paquistanês que trabalha pra caceta, Pervez (interpretado pelo melhor ator do universo, Om Puri), vive na Inglaterra há mais de 20 anos e, além da mulher mala, de repente tem de encarar um filho que larga a guitarra e vira militante islâmico, enquanto Pervez começa a se apaixonar por Bettina (Griffiths), moça de vida fácil que costuma tomar seu táxi em finais de noite. Se ocês não viram, deviam. Dona Griffiths tá linda, frágil e luminosa. (E Kureishi estava cantando a bola da radicalização islâmica dos muçulmanos que vivem no Ocidente pelo menos uns cinco anos antes do Seven Eleven.) Enquanto o mundo explode em torno dele, Pervez propõe a única filosofia política possível para a nossa era boquirrota: “There are many ways of being a good man”.
Words at once true and kind
February 03, 2005
Always getting second best
Freddie King (1934-1976) e Mario Van Peebles (1957- ),
living la vida B
Sabe aquele amigo sem graça que é o último da mesa a conseguir puxar conversa com uma menina no bar? Prazer, Fudílson. Desde que me lembro, é assim: rejeitado pela Universidade Bacana na Grande Cidade, me matriculei na Universidade So What Do Outro Lado Do Rio. Sempre entrei na banda como guitarrista base. Só bato papo com góztóza em acidente de trânsito. Se a vida fosse o Studio 54, eu terminaria levando bola preta do bouncer toda noite de sexta, e iria parar no Fat Tony’s Barbecue Disco em Jersey City, dançando junto com os outros mal vestidos. Aos 20 anos, isso ainda enche um pouco o saco. Aos 30, one gets used to it. E não só: você aprende a garimpar alegrias insuspeitadas em uma vida que nunca te coloca na sala VIP. Do mesmo jeito que existe filme B, existe vida B: as strippers são todas gordinhas e a única rádio que pega no Vista Cruiser 1977 faz maratona de Huey Lewis & The News 12 horas por dia. Mas, yo, eu não troco meu Mario Van Peebles por nenhum Jude Law ou Orlando Bloom. E continuo preferindo Vincent “Low” Price a Anthony Hopkins, no departamento canastrão creepy.
Uma vida B alarga os horizontes. Cê aprende que as escolhas não se limitam às cinco que o vestibular oferece. Na complexa discussão entre Trane e Sonny Rollins como melhor tenorista mudérrno, o sujeito B repentinamente obtempera –“opa, e o Charlie Rouse? E o Lucky Thompson?” Entre Lester e Bean, por que não Buddy Tate? Melhor solista da orquestra do Ellington? Que tal Harry Carney, em vez de Jeep ou Cootie Williams? Entre B. B. King e Albert King, um sujeito vida B como eu nem vacila em escolher Freddie King. E a verdade é que a dificuldade um dia acaba se invertendo. Se você resiste bravamente às vicissitudes de uma vida B, a estatística dispõe –sob a lei do “todo urubu tem seu dia de faisão”, nas palavras imortais de Bezerra da Silva- que uma hora você se dê bem. Tipo, a góztóza do acidente de trânsito pede o seu telefone. E, precavido como sói a um espectador contumaz de filme com orçamento de 16 dólares, o homem vida B hesita. Por fidelidade às minas gagas, vesguinhas, coxas, bipolares, birruguentas que o mantiveram aquecido em tantos anos de vida na estepe. Mas também porque esmola demais, o santo desconfia.
Pra bostinhas meditabundos como o locutor que vos fala, o dilema é ainda mais grave. Quando as coisas vão inesperadamente bem -os japoneses te aplaudem em reunião, a mina mais gostosa do escritório te paquera, cê encontra uma guitarra maravilhosa abandonada em um armário-, ribomba o basso profondo da dúvida: os deuses sempre elevam aqueles a quem pretendem derrubar e, anyway, cê sempre viveu mais confortavelmente nos bas fonds do que em penthouses. E aí surge uma segunda dúvida, ainda mais insidiosa: a vida B te escolheu ou você escolheu a vida B? Ou, ainda mais grave, o que, em você, escolheu a vida B? Em terapia de regressão a dívidas passadas, ninguém era plantador de kibe no Vale do Beka’a durante o reino de Xerxes, Le Recherché. Todo mundo era faraó, cavaleiro andante, alto sacerdote do culto da xiripoca imperial da Babilônia. Será que é só você mesmo que tem certeza de que suas passadas encarnações trabalhavam como assistente de cameleiro ou terceiro carregador de liteira de mandarim obeso? Aquela professora a quem você arreliava impiedosamente na oitava série matou a charada: “esse menino nunca vai ser grande coisa”, como ela escreveu em avaliação preservada nos arquivos Noronha. Embrace your inner loser, Fudílson, porque o caminho, daqui, só pode ser encosta abaixo. E antes que te expulsem da sala VIP, melhor encher a mochila de sargadinho. Dizem que é de graça.
"I'm gonna take my trouble to the United Nations"*
"Actually, you're both"
Como bom cético, eu sempre encarei a ONU com enorme desconfiança, por motivos óbvios –especialmente porque, ao longo de 15 anos em uma das minhas carreiras paralelas como traficante de letrinhas, escrevi, traduzi e editei uns dois mil hectares de blablablá sobre planos infalíveis das Nações Unidas para isso ou aquilo e, guess what: todos fracassaram. Seria perdoável, portanto, que eu apelidasse a organização de Cebolinha e me ocupasse basicamente em fazer piadas fáceis com as sandices que ela comete –não é nem preciso muito esforço. A lista de secretários gerais é material suficiente –Trygve Lie, prenome impronunciável, sobrenome profético; Dag Hammarskjöld, God bless; U Thant (pis); Kurt Waldheim, sieg heil; Javier Perez de Cuellar (tantos trocadilhos, tão pouco espaço); o meu eterno favorito, Boutros Boutros-Ghali (do we really need a joke, here?); e Kofi Annan.
Não é que eu desdenhe o trabalho assistencial ou as organizações que tentam fazer alguma coisa para ajudar os menos favorecidos. Mas tenho birra da ONU, porque se trata de uma imensa burocracia “assistencial” que, na prática, é absolutamente incapaz de prover assistência, já que toda grana que entra é consumida bancando salário de burocratas confortavelmente instalados em Nova York, Genebra, Roma, cuja especialidade é “discutir” as “questões”. (Annan mesmo é um excelente exemplo: nascido em Gana em 1938, ele trabalha para a ONU –fora da África- desde 1962, em postos burocráticos com nomes bacaninhas como “secretário geral assistente de administração de recursos humanos e coordenação de segurança”.) Quando é preciso efetivamente fazer alguma coisa, a ONU, craro, sai pedindo dinheiro, equipamento, aviões, profissionais e o escambau aos países membros. E, pior, tem sempre um mala inútil das Nações Unidas querendo “supervisionar” o trabalho de campo conduzido por agências que efetivamente põem as mãos na massa, como a magnífica Medécins Sans Frontières ou a Cruz Vermelha. Operações de paz? Mesma coisa. A ONU sai mendigando soldados de países que não sejam controversos como fonte de assistência (tipo, o Quênia), e obviamente esses países não têm recursos ou expertise para cuidar da logística e exercer o comando das missões. Não estou sendo especialmente cínico: o histórico é muito claro. De modo que, quando Bush e Blair deram um chega pra lá na organização e decidiram invadir o Iraque regardless, minha primeira reação foi “demorou”. Não porque eu favorecesse a invasão, mas porque entregar a solução de qualquer situação urgente à ONU é marromenos que nem esperar por um veredicto justo e rápido de um tribunal brasileiro. Melhor convocar a Fadinha dos Dentes.
Uncle Filthy, no entanto, não quer mais carregar rancor no coração, e enfim descobriu a utilidade primordial da ONU: trata-se do poleiro ideal para encostar has-beens. Ator decadente, ex-presidente, cantora encarquilhada, empresário aposentado tentando comprar vaguinha no céu: tem lugar pra todo mundo nas Nações Unidas. E, porque ninguém presta a menor atenção no brouhaha interminável das causas e questões que são debatidas incessantemente, sem nenhum resultado prático, pelas muitas subagências da organização, encostar todos os malas falastrões na ONU reduz o nível de ruído da sociedade. Basta tascar os mano lá, desligar o som e enviar três refeições delivery por dia. A única mudança que eu proporia seria na forma de financiamento: em lugar de os países contribuírem com verbas para bancar as mordomias dos burrocratas, melhor criar um imposto boquirroto a ser pago por entidades que fazem muito barulho por nada –bandas de axé, redes de TV, a academia de artes e ciências cinematográficas de Hollywood, Bill Gates, o Congresso brasileiro, igrejas evangélicas, aquela firrrma de gás que tocava "Pour Élise", essas coisas. Tenho fé em que um dia ainda veremos nobre dipromata brasileira chamada Deusdéti Socorro das Chagas sentada no trono de Miss ONU.
* "Summertime Blues", Eddie Cochran, clássico da angst adolescente.
February 02, 2005
Guspinu no túmbalo
The Voice, The King, the past (is dead)
Eu sei: a cada vez que menciono Sinatra, no blog ou em conversa, tem sempre alguém que torce o nariz e pensa “My Way” –e, ó, mano, eu concordo com o esgar. “My Way” é o preço que um cara como Sinatra paga por sobreviver. (Do mesmo jeito que “I Can’t Stop Loving You” é o tributo que Ray Charles paga pela sedução da honkietude, ou que “Bridge Over Troubled Water” cantada pelo Fat Elvis funciona como multa pela enorme nonchalance que nosso caminheiro favorito demonstrava naqueles anos da Sun, ou que “Hello Dolly” serve como pulmão artificial para os últimos anos de vida e carreira de Satchmo). Live fast, die young, leave a good-looking corpse é um lema maravilhoso –quando são os outros que morrem. E nem todo mundo tem os cojones de um Beethoven, que terminou a vida e a carreira com aqueles magistrais quartetos e quintetos de cordas da casa do Opus 130. (De qualquer jeito, Beethoven era surdo e não tinha que ficar ouvindo os pedidos de “toca 'Travessia'” da platéia).
Sinatra, pelo menos, detestou "My Way" à primeira audição –não admira: é um verdadeiro Frankenstein musical. Começou como “Pour Moi”, um pop francês nauseabundo (opa, olha nós redundando), composto por Jacques Reveaux, revisado pela dupla Claude François/Giles Thibault e transformado em “Comme d’Habitude”. Paul Anka, uma espécie de Ronnie Von gringo, ouviu a canção na TV francesa, achou fofa e criou a letra em inglês, tudo isso em 1967. Em 1968, Sinatra, desesperado por produzir um disco um pouco mais moderninho e tentar roubar de volta os ouvintes perdidos para a música pop, gravou a bagaça, em arranjo xexelento do previsível Don Costa. E continuou detestando a canção –que tem muito pouco a ver com o estilo agridoce que caracteriza o melhor trabalho do cantor, truth be told. Mas The Voice perdeu a voz, o público dele envelheceu e, de alguma maneira –a posteriori, porque o disco não vendeu bem quando lançado-, a grandiloqüência Baile da Saudade de “My Way” passou a ressoar na memória das pessoas, talvez na memória do cantor, e, hélas, uma das piores coisas que ele gravou na vida se tornou “canção símbolo”. Ara, Sinatra virou astro solo incontestável em 1943, e gravou os melhores álbuns de sua vida (e provavelmente os melhores discos honky do século) entre 1953 e 1960, para a Capitol. Se você ouve falar em Sinatra e pensa em “My Way”, yo, dude, it’s your fault.
Tá cheio de mané que consegue ganhar uns trocadinhos e angariar respeito crítico “homenageando” Sinatra –Robbie Williams, por exemplo, em show grotesco no Royal Albert Hall, tentando fingir que é crooner E hétero. Para provar definitivamente que ele entende tanto de Sinatra quanto eu de Robbie Williams, o fedelho encerra o show com “My Way”, adding insult to injury. A única cover decente de “My Way” –aposto que até Sinatra concordaria, em momento de fra(n)queza- é a clássica interpretação de Sid Vicious. Robbie Williams, Michael Bublé, qualquer um desses jackasses imberbes que tentam reproduzir os cacoetes de Francis Albert sem ter a técnica, o talento e a honestidade musical que ele sempre esbanjou, deviam se tocar de que “My Way” é um hino à aposentadoria. E tomar as providências requeridas. No fórum de Davos tem sempre vaga pra mongo self-important que deseja discutir o destino do mundo (qualquer convescote que reúna o Lulá Omar, Bono, Angelina Jolie e Bill Gates é o equivalente moral de uma convenção de trekkers). Cantar é coisa séria. E se vocês continuarem insultando os meus mortos mais queridos, vou dedar todo mundo pra Al Qaeda e baixar uma fatwa on your asses.
Receitas McNasty: Perfect Evening
That long, long road
Muita chuva ou muita neve do lado de fora definitivamente ajuda. Mas não o suficiente pra criar efeito sonoro de filme de terror da Hammer, craro. Só um uivozinho ocasional. O rango vai depender da paciência dos participantes (chegar tarde e cozinhar sometimes sucks). Sugiro as orecchiette do Luca, por exemplo, acompanhadas por bruscalda feita em casa com tomate rechonchudo e afeito ao nosso querido agrotóxico (tomate orgânico é comida de sissies), e uma salada verde para apaziguar os deuses da dieta. Vinho não é muito a minha, mas a co-âncora Ms. McDirty, que já posou de enófila para disfarçar a contumaz embriaguez, descolou um tal Duca Enrico, tinto siciliano, e eu patrioticamente acedi.
McNasty's treasures
Enquanto a gente prepara o jantar, Francis Albert na eletrola, as a matter of course, já que um dos itens da noite perfeita é Sinatra Treasures, de Charles Pignone, deliciosa coleção de memorabilia do cantor, incluindo facsímiles de scripts de rádio, cartas, reproduções de ingressos de shows, cartazes de filme, e toneladas de fotos, que certa moça equipada de covinhas perfeitas me deu de presente domingo à noite, para celebrar o dever cumprido (comprido, no meu caso: semana de 110 horas de trabalho).
Days of wine and roses
Cês tão anotando? Macarrão de orelhinha, bruschetta, salada, vinho, Sinatra em forma de livro e áudio. Um bofe ou bofa que atenda aos requisitos sexo-estético-culturais do freguês é parte essencial da receita, claro. Em caso de falta, substitua por um(a) excelente amigo/a, capriche no vinho e aposte na insensatez. Sobremesa é opcional –eu mesmo não sou apaixonado por doce- mas espresso é sine qua non, porque senão o vinho dá um sono danado e estraga a porção final da soirée, que é assistir Two for the Road, DVD cortesia do pirata oficial da firrrma, já que até agora o filme só existe em VHS. Dirigido pelo gênio Stanley Donen, com roteiro de Frederick Raphael, o filme retrata o casal Albert Finney e Audrey Hepburn através de viagens de férias que eles fazem ao longo do casamento –dos dias de paquera e pobreza ao ennui do sucesso sem tesão. Uma das muitas graças da história é que a cronologia não é linear –Donen encontra um monte de jeitos de amarrar saltos temporais na narrativa, com a ajuda luxuosa de mais uma trilha genial de Henry Mancini. É romântico pra caceta, mas não otário. Depois da paixão, do tesão, do tédio, da infidelidade, do descaso, da fúria, da fuga e do retorno, what will survive of us is love. If we’re lucky enough to share it.
(And thanks for the wonderful evening, babe.)
February 01, 2005
Camisinhas sob medida? Eu uso XG, Maria Alice.
"Será que cês podem colocar umas rendinhas na bainha?"
“G22? Acertou meu porta-aviões”: Quando a firrrma faz camisinha e atende pelo nome de SakuNet, cê já sabe que a notícia vai ser boa. Em Taiwan, os homens podem cuidar das suas necessidades de roupa íntima visitando o site da SakuNet e baixando um diagrama que permite que meçam o bingulim e encomendem camisinha do tamanho correto. Huang Wanting (juro), o diretor da firrrma, alega que camisinha de tamanho errado se rasga ou escapa mais fácil. E, para evitar embaraços aos usuários do site, em lugar de identificar os tamanhos em unidades métricas, a firrrma desenvolveu um código unificado. G22 é o tamanho grande (24 centímetros de comprimento e 6,2 de diâmetro), enquanto J33 é o menorzinho (7,5 centímetros de comprimento e quatro de diâmetro). Eu já tô até imaginando a correria no Detran de Bangcoc para conseguir placa G22 pro carro dos mano. Ou as moças cochichando no escritório, “ih, esse cara aí é o mó J33”. Bingo taiuanês? Giggle loop na certa. No Brasil, claro, o dia em que abrirem a SacoNet.com.br, todo mundo vai pedir F11 pra não dar bandeira, e depois passar horas fazendo origami.
“Confessa ou eu tiro tudo, honey”: Já na ensolarada base americana de Guantánamo, os serviços de inteligência do Grande Satã empregaram mulé usando minissaia e tanguinha para interrogar os bravos militantes da Al Qaeda lá encarcerados. Um ex-sargento do exército escreveu um livro (por enquanto ainda não aprovado pelo Pentágono) detalhando as técnicas usadas nos interrogatórios, e relata, entre outras barbaridades, o caso de uma agente americana que tirou a blusa, ficou só de camiseta apertadinha e começou a roçar os twin peaks contra as costas do prisioneiro. O bravo soldado de Alá não confessou nada. “Não digo, não digo, nem que você coloque 'Oh Wee Baby When the Lights Go Out' na vitrola e faça um Gypsy Rose Lee comprétinho”.
E a Suécia se curvou ante o Brasil: Em momento digno da PM de qualquer grande cidade brasileira, um policial sueco confessou ter roubado em 17 de dezembro o mesmo banco ao qual voltou uma hora mais tarde para investigar o crime. Diz a notícia que o pessoal começou a suspeitar quando ele comprou um carro em janeiro e pagou em dinheiro, com notas roubadas no assalto. Viu, mon cher Hastings? É só usar the little gray cells.
Nazista porém limpinho: No soturno Oregon, o Partido Nazista Americano se ofereceu voluntariamente para cuidar da limpeza e conservação de um trecho de estrada, o que, de acordo com as leis locais permite que eles tasquem um cartaz na beira da rodovia informando que “Adolf cuida da faxina étnica desse trecho”, ou algo assim. O direito dos nazistas a divulgar seu civismo em público é garantido pela Primeira Emenda à constituição americana, aquela que garante a liberdade de expressão. Se eu morasse por lá, o mínimo que eu faria seria exercitar a minha liberdade de expressão jogando lixo na estrada todo dia e dando umas pernacchias pros nazis na hora da faxina.
Porque me ufano: Eu tenho o conjunto de genes mais perdedor do mundo –meio siciliano, meio polaquinho-, mas notícias como a do Sr. Piotr Kardys, que recorreu à Justiça da Polônia para solicitar que a operadora de telefonia TPSA remova o poste telefônico do meio da cozinha dele, me enchem de orgulho. Como é que o poste foi parar lá, cês querem saber? O poste já estava no terreno –foi o Sr. Kardys que construiu a casa em volta dele. Em momento de sensatez nada polaco, a TPSA contestou: “pô, por que ele não reclamou antes de construir a casa?” E a Justiça, claro, decidiu que Kardys estava certo, e ordenou que a firrrma remova o poste. (Provavelmente, presume o sagaz McNasty, eles vão ter que demolir a cozinha para isso.)
On the Sunny Side of the Street
"Leave your worries on the doorstep"
O zumbido dos ônibus elétricos, a conversa dos cobradores e motoristas, o chiado do ar comprimido dos freios na hora de estacionar, a garrafa de leite vazia na mão esquerda, o dinheiro amarfanhado e apertado no punho direito, a calçada pavimentada com um mosaico alvinegro: meio quarteirão da porta de casa até a padaria, os olhos da mamma grudados à nuca do menino o caminho todo. Cinco anos.
Meio quarteirão da casa dela até o carro, a pichação Juneca Pessoinha na parede, faça o que fizer não olhe pra trás, o eco dos passos na calçada em meio à madrugada fria, faça o que fizer não volte atrás, o andar cronometrado –nem rápido o bastante para parecer fuga, nem lento o suficiente para indicar hesitação. O carro cinco metros à frente. E aí ele percebe que esqueceu a chave.
Caminhando para o escritório, apressado, fones nos ouvidos, mochila lotada de trabalho atrasado, ele repara que quase todo mundo que passa por ele na rua ri ou sorri, e fica imaginando a que se deve a infecção de bom humor em uma cidade notória pela ranhetice. E só na porta do escritório percebe que está cantando em voz alta.
Sol de rachar coco, ladeira íngreme e pavimento irregular, os dois de mãos dadas se puxam e se arrastam rua acima porque não havia morro que não subissem, naquela viagem. Casas de madeira multicoloridas ladeiam a rua, com desnível de um pavimento entre o começo e o fim de cada estrutura. O sapato de mocinha que ela tinha decidido usar naquele dia está claramente perdendo a briga contra o pavimento irregular, as pedras lisas, as fendas seculares que as separam. Meio cavalheiro meio moleque, ele a toma no colo para os últimos cinco metros e, enfim, estão lá, no topo, 10 metros quadrados de área plana e gramada, três bancos de madeira e, 200 metros abaixo, o Mediterrâneo azul, azul, rugindo sem repouso. E de repente um flash, alguém com a cara dele sentado no mesmo banco, 120 anos antes, olhando praquele mesmo mar e sonhando sair da Sicília.
Levando a prima para a escola, ela de saia e colete cinzento, meias e camisa brancas, gravatinha e cinturão azuis, ele compenetrado, homenzinho de ocasião, tomando a mão dela em cada uma das três ruas que precisavam ser atravessadas, e o sino da igreja ao lado do colégio deliberadamente badalando o meio-dia.
O amigo que não o vê há três meses caminha ao lado dele pelo terminal do aeroporto e expressa espanto com os efeitos da dieta, querendo descobrir a fórmula mágica. Ele explica, e o amigo expressa certa dose de incredulidade, e pergunta se ele se sente bem, o que ele sente, afinal, com uma dieta dessas? “Fome”, ele responde.
O Cutlass se recusa a dar a partida, e ele caminha 12 quarteirões, estojo da guitarra na mão direita, amplificador na mão esquerda, pelas calçadas modorrentas de Bayonne, as fileiras de casas monotonamente iguais, as ruas com nome de árvore, a caminho do ensaio urgente pro show daquela noite. Na varanda de uma casa marrom, a velha mais velha do mundo está estirada em uma cadeira de balanço, um ricto assustador no rosto, e ele larga tudo que carrega na entrada do jardim e corre para dentro, subindo apressado os degraus da varanda, crente que a mulher está batendo as botas. Quando chega perto, ouve o ronco grave e contínuo. A velha está dormindo.
Os dois trocam um olhar cúmplice, guardam os respectivos óculos, se dão as mãos, ela grita “um dois três”, e partem em desabalada carreira sob o temporal que os deixara ilhados embaixo da marquise do cinema. Protegidos pelo abrigo do ponto de ônibus, ele percebe os contornos arredondados dela sob a blusa que a água tanto colava ao corpo quanto tornava transparente. Apanhado em flagrante olhando com cara de bobo-tarado, ele tira o casaco e o ajeita sobre os ombros da amiga. Ela agradece, sem jeito. Os dois recolocam os óculos.
Sem grana pro táxi e a duas horas do horário do ônibus, os quatro decidem voltar a pé da festa micada para o bairro deles, caminhada de uns 10 quilômetros. As casas do bairro da festa vão aos poucos sendo substituídas por edifícios, lojas, bancos, a primeira avenida. O silêncio que mata a conversa a intervalos de alguns quarteirões é interrompido pelo estalido seco dos semáforos quando mudam de cor. “Só falta chover”, diz o pessimista. No céu, um relâmpago.
Depois de uma semana almoçando juntos quase todo dia, ela toma a mão dele no caminho de volta para o escritório, pela primeira vez. A conversa pára, pára o tráfego, o turbilhão de camelôs e transeuntes nas calçadas da Madison desaparece. E ele repara nas últimas folhas caindo das árvores.
