January 31, 2005

 

Regina Elizabeth: Os Primeiros 67


"Vieni, c'è una strada nel cuore
Dove nasce l'amore
Che non muore mai più"

O Sindicato das Manhê exige pelo menos uma cena da catigoria “quando eu morrer vocês vão lembrar de mim” a cada mês, e dona Regina segue rigorosamente as normas classistas. Fact is, não precisava, porque eu lembro da mamma todo dia, seja por imaginar o tom admoestatório com que ela saudaria certas decisões que tomo e bestajs que faço, seja porque alguma coisa aciona um verbete qualquer da vasta coleção de memórias de que compartilhamos. E, se penso na mamma todo dia, penso ainda mais em dia de aniversário. Dona Regina completa 67 anos, hoje, e por uma vez o resmungo sindical faz efeito, e paro pra pensar no milhão de coisas que seriam diferentes na minha vida caso ela não estivesse por lá, com seu humor carinhoso, suas queixas hipocondríacas, sua eterna disposição de forçar todo mundo a comer 23 mil calorias em qualquer refeição, suas lembranças ao mesmo tempo difusas e detalhadas de um passado do qual, para mim, ela sempre representou a mais calorosa das portas. Eu queria estar por lá pro café da manhã, bater a campainha com os braços carregados das tranqueiras de padaria de que nós dois gostamos tanto, e passear uma vez mais pelas alamedas da memória, de mãos dadas com ela (ainda que, depois dos cinco anos de idade, eu a tivesse proibido terminantemente de andar comigo pela rua de mãos dadas, bostinha excessivamente zeloso da minha independência que sempre fui).

Porque a mamma não é só o porto seguro para casos de emergência alimentar, ou a fonte de consolo a que recorro em dias de especial turbulência –no questions asked-, ou a única mulé que me olha e pensa sempre que eu sou lindo; ela também acabou por se tornar –incrivelmente- uma grande amiga, e origem de meu apreço por uma série de coisas do passado –o qual sempre me pareceu mais convidativo do que o presente, em parte por obra dela. Nesses rituais bizarros de amor filial e de amizade passadista, eu muitas vezes recorro à Enciclopédia Mamma em busca de informações estapafúrdias –a letra de músicas velhas que ouço parcialmente em algum lugar (“Filme Triste”, aquela das duas caveiras, os grandes hits de Orlando Dias –don’t ask- ou Núbia Lafayette)- ou de impressões sobre filmes que ela teve a sorte de ver no cinema em sua glória original, e que eu, claro, estou condenado o mais das vezes a conhecer só nas versões para cabo ou DVD. Tudo bem, essa parte dos filmes é complicada, às vezes, porque se bem ela lembre bem dos marditinho, só sabe o título em português, e quase sempre troca tudo, anyway, de modo que me cabe decifrar o que exatamente ela quer dizer com Suplício de um Tormento ou adivinhar a que filme ela está se referindo com “sabe, aquele das velhas que enterram os mortos no porão?” (Arsenic and Old Lace).

Com o tempo, a gente acabou por compartilhar de alguns ídolos (ou melhor, com o tempo, eu afanei sem o menor pudor muitos dos ídolos dela) –Sinatra, é claro, que deve ter propelido algumas centenas de quilômetros de dança na juventude de dona Regina e cujos discos foram parte essencial da dieta musical de minha infância; Cary Grant em todas aquelas comédias screwball dos anos 30 e 40; Jack Lemmon e Walter Matthau, com ou sem Billy Wilder ao leme; Gene Kelly, especialmente em On the Town; o ultra-cool Steve McQueen; e, acima de todos, o incomparável Paul Newman. Mamma casaria com o sêo Newman sem vacilar, e eu –pedindo desculpas aqui à memória do véio Luigi, ciumento como todo bom paisà- aprovo plenamente as bodas –mesmo que Paul Newman tenha apenas 1,68 de altura (informação que a mamma descobriu em um programa qualquer de TV a cabo e que decerto se arrepende de ter compartilhado comigo e a mana).

Eu tive meus maus dias com a mamma, como todo mundo –e quase sempre a culpa foi minha. Mas confesso um certo alívio com a chegada do 67° aniversário, a idade em que a mãe dela morreu e que, na opinião científica inabalável de dona Regina, ela mesma jamais atingiria. Se depender da minha macumba, a mamma vive até os 300 anos, e vou continuar pensando nela a cada dia, como hoje, e a lembrar com interminável amor do amor temperado de humor e de lembranças que ela sempre demonstrou por mim, perto ou longe, certo ou errado. A apresentação mais importante da minha vida e da minha carreira acontece dentro de duas horas e, se bem eu preferisse ter cumprido meus planos e estar por lá jogando conversa fora e celebrando o aniversário dela com um dueto de “vieni, c’è una strada nel bosco”, o fato de que tenham marcado a dita cuja justo para um dia como hoje garante que vou me sair bem –porque o amor da dona Regina vai estar comigo. Como sempre esteve. Feliz aniversário, mamma.

January 28, 2005

 

King of the hill, top of the heap


"Self-praise is no recommendation"*

Como você avalia a firrrma? Nós cumprimos suas expectativas?
Se eu disser que é o melhor emprego que já tive, vocês vão achar que estou puxando o saco. Mas na verdade eu talvez esteja apenas querendo dizer que os meus empregos anteriores sucked donkey ass. Deixem de ser pretensiosos, seus coiso. E eu tenho uma séria reclamação. Quando entrei aqui, reparei que, quanto mais zécutivo o mano ficava, mais alto o carpete. Quando visitei o escritório do presidente, tinha que ir dois caras do atendimento na minha frente abrindo caminho no carpete a golpe de facão. Eu quero meu carpete. Não ligo de trabalhar sentado no caixote de sabão já faz quatro meses. Mas o carpete é desaforo.

Alguma sugestão para melhorar o ambiente de trabalho em 2005?
Antigamente, quando todo mundo trabalhava bem vestido, inventaram a Casual Friday pra que o pessoal pudesse se descontrair no escritório, pelo menos uma vez por semana. Agora, a gente tem o casual everyday, e o único jeito de recuperar aquele clima festivo e descontraído que trabalhar sem gravata propiciava seria instituir a Topless Monday. Além disso, os casados levam vantagem injusta sobre os solteiros do escritório, porque eles têm um “bring your kid to work day”, niquiq os fedelhos se esparramam pelo escritório e ficam mexendo onde não devem. Para reequilibrar a situação, sugiro criar o “bring a drunken stripper to work day”, niquiq solteiros e solteiras podem trazer cada qual um(a) stripper para se esparramar pelo escritório e ficar mexendo onde não deve.

Como você pode contribuir para o crescimento da firrrma? Como nós podemos contribuir para o seu crescimento?
Não faço a menor idéia. Contribuir? Sei lá. Cês deviam ter pensado nisso quando me contrataram. Como assim, contribuir? Nosso acordo é, basicamente, vocês pagam meu salário, eu escrevo umas mentira plagiadas do Almanaque Capivarol, o cliente assina e o escritório de adevogacia mantém todo mundo fora da cadeia. Deu certíssimo com a Enron e com a Adelphia. Cês vão querer mesmo mudar agora? E, Sahib, a maior contribuição que você faz (e a firma paga) para o meu crescimento (circunferencial) são esses almoços no Tempo’s, no Mix, no Montrachet... Agora, aquela idéia do Topless Monday e do bring a drunken stripper to work day pode propiciar a mais agradável forma de crescimento, toméin. Assim, tipo.

Como você avaliaria seu desempenho profissional nos últimos seis meses?
Eu não hesitaria por um segundo sequer em usar a palavra “excepcional”.

Onde você vê a firrrma dentro de cinco anos?
Vamos trabalhar com aquelas ferramentas que vocês me obrigaram a aprender em tantas horas de reengenharia. Best case scenario: os acionistas decidiram acompanhar as tendências mais modernas e terceirizaram todo o trabalho para redatores de Bangladesh, designers de Botsuana e CGI guys da Moldova. No escritório aqui sobramos eu, Sahib, uma telefonista e uma mesa de bilhar. Likely scenario: Todo mundo de volta à garagem da mãe do Gary, em Cincinatti, jogando dardo em alvo com a fuça do seu Jovem e do seu Rubicão. Worst case scenario: Todo mundo ensaiando uma versão rap de "Jailhouse Rock" em Rikers Island, e, er, “namorando” um adepto da supremacia ariana chamado Big Adolf.

Onde você se vê dentro de cinco anos?
Em Rikers Island. Ou, se vocês pretendem mesmo me obrigar a responder um questionário desses a cada seis meses, provavelmente em outra firrrma. Ou, ainda, se é que uma resposta honesta não vai emperrar o SQL todo, daqui a cinco anos eu me vejo sendo o que sempre soube que ia ser: uma estatística. Nasci zero à esquerda, vou terminar estatística. Uma vitória no pool genético.

Algum comentário ou sugestão adicional?
My wife and I have asked a crowd of craps
To come and waste their time and ours: perhaps
You’d care to join us?” In a pig’s arse, friend.


*Gaius Plinius Luci, ou Plínio, o jovem, em tradução de Betty Radice -Cartas, Livro X, edição Loeb.

 

The face and the brains


"She had the most immoral eye
They called her Lorelai"

Se você, amável leitora, gentil leitor, quer mesmo ser meu amiguinho, um requisito essencial é gostar pacaramba de Gilmore Girls, série que está em sua quinta temporada (nos EUA, toda terça às 20h na rede Warner, no Brasil, toda quinta às 20h no Warner Channel), e tem –na ilustre companhia de Arrested Development- os melhores diálogos da TV americana. Tecnicamente, esse post deveria ser sobre Amy Sherman-Palladino, criadora da série e sua principal redatora, mas é dificílimo encontrar informações sobre a mulé (ela escreveu para séries horrorosas como Roseanne e Veronica’s Closet antes de criar Gilmore Girls.) Por isso, me vejo obrigado a postar sobre Lauren Graham.


Lauren Helen Graham (1967- )

Dona Graham fez um monte de séries ruinzinhas antes de ganhar o papel de Lorelai Gilmore, mas, uau, não imagino outra atriz que conseguisse disparar a metralhadora de diálogos da série com tanta graça*. A carreira de Graham no cinema é assustadora. Que preste, só Bad Santa, de Terry Zwigoff. A mais recente incursão dela à tela grande, Seeing Other People, é tão ruim, mas tão ruim, que Uncle Filthy saiu do cinema e escreveu “Seeing Other Movie” em seu querido diário. Em compensação, por volta de 2002, ela tava muito gostosa como flapper tentando migrar do cinema mudo para o cinema falado, em produção teatral de Once in a Lifetime, escrita em 1930 pela magistral dupla George S. Kaufman/Moss Hart. (E os meus amigos obcecados por pôquer dizem que ela se saiu muito bem em torneio de pôquer de celebridades.)


Amy Sherman-Palladino: a way with words

*A única entrevista que encontrei online com Amy Sherman-Palladino revela que eles costumam fazer entre 25 e 30 takes de cada cena até chegar no pique certo de diálogo –so much for spontaneity.

January 27, 2005

 

Babes in dresses


"The shore was kissed by sea and mist..."

Falando aqui na condição de observador (des)interessado, tem dois comprimentos perfeitos de vestido: aquele que fica uns três dedos acima do joelho e aquele outro que termina na batata da perna. Por quê? Beats me. Não é que os outros comprimentos todos sejam “errados” –minis são bacanas, longos são elegantes, e aqueles vestidos que exibem exatamente a covinha do joelho chegam a ser comoventes. Mas os dois comprimentos que mencionei primeiro são perfeitos. (Ressalvo que o segundo comprimento é perfeito se o vestido tiver a queda correta: um certo balanço).

Ainda como observador (des)interessado, e embora defensor declarado de all things brunette, tem uma cor de cabelo perfeita, aquela que os gringos chamam “auburn” -em português, diz o dicionário, trata-se do “castanho avermelhado”. E um comprimento de cabelo ideal para acompanhar a cor perfeita: é aquele que deixa um pedacinho de nuca exposto, e emoldura os zigomas e a curva da mandíbula na altura exata, parênteses pro sorriso.

Tem um tipo de casaco que funciona perfeitamente bem com esse cabelo, e com o vestido, e com o sapato que é alto mas plausível, e com as jóias lisas que nunca tilintam. Um modelo double-breasted, na tradição do velho Monsieur Hubert, com seis botões, e linhas puras a ponto de permitir que a moça ouse e escolha o amarelo. Tem também uma postura que faz com que todas essas coisas cintilem juntas, um jeito elegante de andar que mistura ex-bailarina com geek full-time, e os gestos minuciosos repetidos para manter os óculos no lugar, ajeitar a mecha renitente do cabelo, pousar o copo sobre a lareira.

Como observador (des)interessado, eu mal consigo manter viva minha parte no bate-papo triplo em que estou envolvido, porque lá do outro lado da festa duas moças de vestido conversam, compenetradas, ao lado da lareira. Uma, de cabelo auburn cortado à altura dos lóbulos, usa um vestido preto logo acima do joelho, com um decote quadrado, e os brincos de ônix que um observador muito interessado escolheu com a mais profunda convicção natalina; a outra, loira, usa um vestido que parece saído do guarda-roupa de Barbara Bel Geddes, rodado, calf-high, verde melancólico como aquele quadro de Van Dyck no Fitzwilliam.

A festa rodopia em volta, Carol Sloane luxuosamente acompanhada por Clark Terry canta "Gee, Baby, Ain’t I Good to You?" (there might be a god, after all), 20 conversas zumbem e, de vez em quando, em meio ao rugido marinho da sala, se ouve distintamente um tilintar de copo, dois compassos de uma risada. As mulheres de vestido deslizam pela sala. Os homens falam de grana, de esportes, de jazz, de carros. De mulheres, claro. Dona Sloane, world-weary as fuck, canta

I’ve bought you a fur coat for Christmas
And a big diamond ring
A new Cadillac car
And everything
Love makes me treat you
The way that I do
Gee, baby, ain’t I good to you?


O observador (des)interessado sorri feito um idiota.

 

The Big Sleep


AT&T Building, by Philip Johnson

ZZZZZZZ: Na retrospectiva 2002 Greatest TV Moments da BBC, o trecho de maior sucesso era um vídeo de gente que sofre de narcolepsia e cai dormindo no meio da reunião de um grupo de apoio para narcolépticos. Pô, Uncle Filthy tem um humor meio perverso, mas convenhamos –é engraçado pra caceta. Ontem, a Beeb admitiu que não deveria ter exibido a cena fora do contexto, depois de protestos da associação britânica dos pacientes de narcolepsia. Por que um programa exibido em 2002 terminou censurado só agora, cês também querem saber? Provavelmente os narcolépticos dormiram no ponto na hora de reclamar.

Proibido exibir a cobra: No rústico Dakota do Norte, projeto de lei recente proíbe que moradores do Estado tenham cobras venenosas em casa sem licença do serviço estadual de veterinária. Andrew Greff e Doug Feist, dois jovens intelectuais da cidade de Bismarck, encomendaram os ofídios pela Internet no ano passado, e costumavam exibir as cobras na cidade. Os dois jovens intelectuais disseram à polícia que se sentiam seguros morando com as serpentes porque tinha um hospital pertinho do apartamento caso fossem picados. O existencialista Greff perdeu o braço num acidente com bomba caseira, em 2004, depois do confisco do ofídio. Esse menino um dia termina presidente.

The naked truth: Para aumentar as chances de sucesso no combate a estabelecimentos de prostituição disfarçados em casas de massagem ou “clínicas de alívio de estresse”, a polícia de Houston, Texas, cancelou a regra que proibia policiais de tirar a roupa em sêuvíssio. Aparentemente, as empreendedoras profissionais do alívio do estresse escapavam ao flagrante pedindo que os homens da lei tirassem a roupa antes de oferecer seus, er, préstimos corpóreos. Agora, trabalhando infiltrados, os policiais conseguiram provas contra uma série de estabelecimentos do tipo que fez Dolly Parton famosa. Uncle Filthy, sempre curioso sobre as vicissitudes de uma carreira em law enforcement, queria muito saber onde eles escondem a arma, though.

Porque me ufano dos USA: Uma juíza do Estado de Nevada considerou que a lei de Las Vegas que proíbe que as moças façam lap dance acariciando a friguizia é “inconstitucionalmente vaga”. A lei proíbe que as moças toquem ou rocem a área de lazer do freguês, mas não define especificamente o que é admissível e o que não é. Os funcionários do condado de Clark explicaram pra juíza que toques “ilegais” são aqueles que causam excitação sexual no cliente. Ô, agora sim eu entendi. (Infelizmente para os esclarecidos funcionários do município, a juíza não.)

“Mãos ao alto. Quer jantar comigo?”: No Ohio, Estado famoso pela considerável incidência de criminal masterminds, três sujeitos assaltaram uma entregadora de pizza e levaram a grana da moça, bem como uma de mozzarella e uma de pepperoni. Um dos ladrões decidiu ligar para a vítima mais tarde e convidá-la pra jantar, porque encontrou o número de celular da menina na carteira. Como sói a um sujeito que ganha a vida roubando pizza, obviamente ligou de casa. A moça passou o número para a polícia, e agora todos nós podemos caminhar com mais segurança pelas ruas. O romântico bandido provavelmente está saboreando o pepperoni na cadeia.

Philip Johnson (1906-2005): Arquiteto responsável por difundir o trabalho do hediondo Mies van der Rohe nos Estados Unidos e pelo projeto do Seagram Building, o mais modernista e mais feio dos arranha-céus de Nova York, sêo Johnson tomou vergonha na velhice, largou o modernismo, pediu desculpas pelo flerte com o nazismo nos anos 30, assumiu que era gay e projetou o AT&T Building (Madison com 56), concluído em 1984, um dos prédios mais charmosos da cidade (agora conhecido como Sony Building). Morreu hoje. Vai com deus, Phil.

January 26, 2005

 

Mascando clichê


"Others go in for perjury"

Tipo assim, o Inácio Araújo –alguém mais lê resenha dele decidido, como eu, a fazer exatamente o contrário do que ele recomenda? E com strike rate impecável? Cada vez que o sêo Inácio elogia um filme, Uncle Filthy corre. Mas postar pra falar mal de crítico de cinema brasileiro de uma certa idade é a perfeita definição de desperdício de banda: os que não são burros e cumunistas, são burros e calhordas. Então, permitam-me mudar o alvo do meu rant, aqui, e descer bordoada na dona Satiko. Dona Satiko escreve a maioria das resenhas literárias do NYT. E tem a capacidade preternatural de dizer bobagem até quando está elogiando quem mais merece elogios. Mas eu leio, e não é por masoquismo. É mais pra tirar o pulso da curtura, digamos –que um dos dois ou três grandes jornais americanos que ainda se preocupam em manter cadernos culturais entregue a seção de livros pruma Yoko Ono dessas, well... It figures.

Uma das coisas que preocupa a dona Satiko é o uso de clichês –ela costuma descer a lenha em escritor que, no entendimento dela, abuse de clichês, e elogia a “originalidade da linguagem” dos manés que pretende promover. Então tá, dona Satiko. Clichês são ruins, basicamente porque já foram usados antes, e “originalidade” (palavrinha que eu usaria com imensa moderação, were it up to me) é jóinha. E, mais, usar um clichê (em lugar de “ser original”) indica infalivelmente falta de talento ou dedicação, da parte do autor. Eu mesmo ganho a vida traficando clichês. O que quer dizer que I’m very aware of them. Mas não acho que os coitadinhos sejam criaturas tão nauseabundas. Um clichê é um economizador de trabalho. Mas não no sentido que a dona Satiko supõe –há momentos em que usar um clichê acelera o texto, e em que as peculiaridades estruturais do clichê ajudam no set-up de seja lá o que for que você está narrando. Exemplificando: se o autor precisa de uma cena que envolva “moleque sapeca”, o abominável clichê do boné-com-aba-pra-trás (e, yo, é mesmo abominável) salva tempo. Quem olha já sabe que o moleque é sapeca. Let’s move on with the story, shall we? (E você economizou uma cena ou um diálogo qualquer que denote ou conote que estamos lidando com um moleque sapeca.) Por mais que o pessoal tire barato com o fato de que personagem de filme sempre encontra vaga para estacionar onde precisa e jamais tranca o carro, são clichês úteis: ou cês queriam mesmo ver o Dirty Harry dando 15 voltas no quarteirão antes de encontrar uma vaga? O “realismo” da cena custaria 10 minutos de tela. O filme básico de Hollywood tem 110 minutos. O clichê pode ser idiota, mas o filme anda. That's why they call it "the movies", dear.

É claro que, quando o clichê serve como fundação exclusiva do texto ou da narrativa, o livro vira uma mixórdia desprezível. Pra usar a palavrinha tão cara à dona Satiko, alguma “originalidade” é necessária. Mas isso não anula a utilidade dos clichês. Um bom narrador sabe que, em qualquer forma mais longa, não é viável manter tom elevado o tempo todo. Um romance, uma sinfonia, um filme, precisam de respiros. Escritor sensato pode usar clichê exatamente para demarcar esses altos e baixos narrativos necessários. Aliás, escritor talentoso costuma usar clichê das mais variadas maneiras –como recurso retórico, como pontuação, como paródia, como espelho irônico. E um gênio como P. G. Wodehouse era gênio exatamente porque costurava com tamanho humor e elegância os clichês de situação e linguagem mais corriqueiros e momentos de inventividade poética que fariam muito escritô experimental sofrer síncope de inveja, se escritores experimentais soubessem ler. E, adispois, a idéia de que qualquer coisa “original” é melhor do que qualquer clichê, uh oh. Clichês viram clichês porque o idioma, em sua infinita sabedoria, os incorpora. Literatura não é, ou não deveria ser só, um laboratório para experiências de linguagem. Como escreveu Larry Hart, “I like to recognize the tune”.

 

Stranger than fiction


We don't need no stinking aerodynamics

Hubert Latham (1883-1912) é uma dessas figuras que, inventada por um roteirista, seria criticada porque fantasiosa demais. Mas, no caso dele, os fatos são muito mais exóticos que qualquer ficção. Herdeiro de uma família anglo-francesa que fez fortuna no ramo da navegação costeira entre os dois países, Hubert, como bom riquinho ocioso do começo do século passado, decidiu levar uma vida de aventura, e começou ainda no exército, por uma viagem de balão entre a Inglaterra e Paris, em 1905. Tentou trabalhar na companhia de navegação da família, mas não curtiu, e virou playboy em tempo integral –pilotou lanchas de corrida em Monte Carlo, caçou elefantes na África, viajou pela Índia e Indochina. A morte do pai, em 1908, o levou de volta à França, onde em 1909 ele descobriu seu novo amor, o avião. Latham tentou aprender a pilotar com Wilbur Wright, que estava dando aulas a três pilotos franceses, mas foi rejeitado e, como bom filhinho de papai, resolveu o problema comprando sociedade em uma fábrica de aviões, a Société Antoinette, da qual se tornou piloto de testes. Entre março e junho de 1909, ele aprendeu a pilotar e testou o Antoinette IV; sofreu cinco acidentes, entre os quais duas quedas, dos quais escapou ileso.


Flying like a fish

Em julho daquele ano, Latham foi um dos três pilotos –os outros eram o Conde de Lambert e Louis Blériot (o eventual ganhador)- que decidiram disputar o prêmio de mil libras oferecido pelo Daily Mail para o primeiro aviador que cruzasse o Canal da Mancha em um mais-pesado-que-o-ar. Latham, depois de fazer uma aterrissagem forçada com o novo Antoinette no primeiro vôo de testes, tentou por duas vezes a travessia do canal. Os dois vôos terminaram no mar (no primeiro, aliás, o destróier que resgatou o piloto registrou cena da mais completa nonchalance –Latham sentado na asa superior do biplano, fumando um cigarro, acenando para o navio, e o avião lentamente afundando por baixo dele).


Hubert Latham (1883-1912), gentleman aviador

Apesar da seqüência de fracassos, Latham continuou voando e sendo derrotado em competições aéreas –na França, Alemanha e Inglaterra (e, só em 1909, sofreu ainda outras duas quedas). Em 1910, expandiu ainda mais o alcance de seus fracassos: disputou uma competição no Egito (quatro acidentes, zero vitórias), fracassou em vôos de exibição em São Petersburgo e, na França, caiu mais duas vezes em competições realizadas em Nice e Lyon. Para não perder o costume, participou de uma exibição aérea em Budapeste. E caiu. Em 1911, Latham foi o primeiro aviador a voar por baixo da Golden Gate, em San Francisco. Também deve ter sido o primeiro lunático a cair duas vezes com o avião na mesma semana, nos Estados Unidos.

Não encontrei uma estatística firme a respeito, mas Latham deve ter sofrido pelo menos 20 acidentes e 10 quedas nos seus três anos de atividade como pioneiro da aviação. Caiu em terra, no mar, em um rio, batendo em árvores. A Société Antoinette, cujos aviões surrealistas pareciam ter enorme dificuldade para se manter no ar, faliu de maneira inglória, e Latham decidiu retomar uma de suas antigas paixões, a caça. Partiu para o Congo –levando um avião, claro- no final de 1911. Ser piloto experimental entre 1909 e 1913 era mais mortífero do que ser guitarrista de rock entre 1965 e 1973. Dos 100 primeiros sujeitos que tiraram brevês nos Estados Unidos, 71 morreram em desastres de aviação. (E, na França, seis entre os 10 primeiros aviadores do país também terminaram a carreira espatifados.) Latham, sujeitinho muito mais azarado que o Dick Vigarista, evidentemente não ia morrer de maneira estatisticamente convencional. Depois de sobreviver a uma longa seqüência de desastres aéreos os mais bizarros, morreu atropelado por um búfalo durante uma caçada no Congo, em 1912.

January 25, 2005

 

Stormy Weather


"I've got my love to keep me warm"

A estrutura metálica que sustenta o mezzanino vibra, um Fá grave, quase inaudível, em resposta ao ronco furioso do vento lá fora. Bandeja do café precariamente equilibrada na mão esquerda, eu me assusto com a vibração que sinto ao tocar o corrimão. Subo com cuidado a escada circular, e lá em cima vejo a cama, a bunda empinada e os pés calçados em meias de lã tricotadas pela nonna, o rosto apoiado nos braços, os óculos que escorregaram até a ponta do nariz. Ela está cercada pelos jornais de domingo, torso apoiado sobre uma pilha de travesseiros. Levanta tarde demais para me ajudar com a bandeja, sorri, acaricia meu rosto, faz um “brrr”, recolhe a mão para dentro da manga do moletom do Mickey. Sinto o metal vibrando sob os pés, e lá fora o céu cinza escuro esconde a hora: são 10 da manhã, são quatro da tarde. Ela elogia o café, mas no segundo gole descobre que está com fome, e lá vamos os dois escada abaixo –o ommmmmmmmmmm surdo do metal chegando ao corpo pelos pés, pelos braços carregados de desjejum e jornais. Ela come umas 92 torradas com geléia. Eu rebato o café regular com um espresso.

Horas mais tarde ela entra no banho, deixa a porta aberta, coloca o Ballads do Trane bem alto. Eu sento na poltrona, colo o rosto na janela e sinto as rajadas de vento e neve chicoteando o lado oposto dos vidros com um estrondo surdo. Vida estranha, a que venho levando esses meses todos –as casas provisórias, as cartas, as causas perdidas. Sonho uma vida em que o provisório seja permanente –caixeiro viajante, jogador de basquete nas ligas menores, músico de jazz nos anos 40. Trane sussurra "Too Young to Go Steady" e eu procuro em vão uma frase de efeito que defina o estado que sonho entre o sax e a neve: o contrário de there’s no place like home -there’s no home-like place? Bleargh, tô a um passo de dizer “alteridade” em público: get a grip, McNasty. Finjo que não percebi pela janela o reflexo dela se aproximando pra roubar um beijo. (E por que cazzo eu sempre sinto esse impulso ginasiano de amarfanhar as moças quando elas saem do banho?)

Ela decidiu cozinhar, a gente não sabe exatamente se almoço ou jantar porque a sopa cinzenta lá fora impede que o tempo passe, e eu me refugio no quarto, sentado no chão, costas apoiadas à parede, e tento tocar, mas a vibração do metal interfere no ritmo. Encosto a Gretsch à grade que protege o limite frontal do mezzanino, e ouço o estranho zumbido que se propaga pelo corpo da guitarra. A televisão muda noticia vôos suspensos em toda a região nordeste. No canal seguinte, tem uns caras usando secadores de cabelo gigantes para derreter a neve que oculta as marcas do campo em uma partida de futebol americano. Ela grita lá de baixo tentando resolver uma daquelas exóticas dúvidas de cozinheira inexperiente e eu desço e diplomaticamente assumo o comando do macarrão. Conversa maluca de gente que se conhece mais do que é saudável e marromenos adivinha o que o outro está pensando –o molestador de crianças que cantava Sinatra e paquerava a própria enteada no MSN, os aviões silentes nas pistas como baleias encalhadas, mayor Mike e o estádio elefante branco, e sei lá porque um repentino e feroz abraço e a vontade de pedir juras implausíveis: bem que podia nevar para sempre, baby.

 

The X Files


"I still miss my ex, but my aim is improving"

“Porra, caralho, puta que pariu, bosta, cu”, rosnou Cláudio, assim que desligou o telefone. A secretária, que nunca o tinha visto em momento Vanderley Luxemburgo, tomou um susto, e entrou na sala para perguntar se estava tudo bem. Cláudio deu um sorriso amarelo, pediu desculpas pelo surto, garantiu que estava tudo ótimo, e quando a secretária saiu encheu a folha de seu bloco amarelo com rabiscos compostos predominantemente pela palavra “bosta”.

Cláudio tinha uma Ex-, história emaranhada e destrutiva que ele demorara alguns anos para encerrar e outros tantos para esquecer. De vez em quando, porém, a Ex- ressurgia do passado, exibindo o sempiterno talento de manipulá-lo. Cláudio se orgulhava, e chegava até a se vangloriar um pouco, de ser um sujeito civilizado, e por isso mantinha relacionamento amistoso com a dita cuja, ainda que todos os aspectos práticos da amizade terminassem ditados por ela –era a Ex- que ligava propondo encontros, em geral almoços ou happy hours, e ele em geral vacilava, enrolava, e só aceitava porque –como no telefonema daquela manhã- ela insistia impiedosamente.

A torrente de palavrões era uma expressão da impaciência de Cláudio para com a Ex-: sabia que havia sido manipulado, uma vez mais, e que novo almoço insuportável era inevitável. A verdade é que Cláudio preferiria não ir, preferiria ser exatamente como os amigos que chamavam ex-namoradas e ex-mulheres de “aquela vaca”. Mas era um bostinha self-actualized, e pensava coisas como “pô, cê ficou cinco anos com ela. Tratá-la como cachorro agora só quer dizer que foi muito idiota aquele tempo todo”. A Ex-, sempre sob a capa de uma grande cordialidade, era especialista em apontar defeitos –no meio da conversa, deixava escapar frases sobre as entradas cada vez maiores nos cabelos de Cláudio, ou apontava casualmente para o fato de que faltava um botão na camisa que ele estava usando. Se ele estivesse sem namorada, a palavra “encalhado”, em tom jocoso pero no mucho, certamente constaria da conversa; namorada jovem merecia sempre um “pegou pra criar?” e, quando ele começou a sair com uma colega divorciada de trabalho, é claro que teve que ouvir um “ah, atacando as desesperadas, hein?” Cláudio ria sem a menor vontade, e nunca contra-atacava, porque a Ex- era insuperável na disciplina de dispersar farpas em meio a um inócuo “papo entre amigos”.

Cláudio se conferiu longamente ao espelho antes de sair para o almoço –todos os botões no lugar, cabelo penteado, colarinho impecável, blazer bem passado. Lustrou os sapatos com um papel-toalha, por garantia, sorriu para avaliar o brilho dos dentes, encolheu a barriga e renovou o desodorante. A caminho do restaurante, ligou para a namorada e contou sobre o suplício –dever de cavalheiro. Ela riu e aconselhou: “Não seja tonto, baby. Se a vaca te provocar, diz que ela tá gorda”. Decidido a acatar o conselho, ele como sempre chegou na hora e como sempre teve de esperar pela Ex-. (Mais um dos truques irritantes que ela empregava toda vez –se era ela que convidava para o almoço, e se era ela que escolhia o lugar, por que cazzo não podia chegar na hora uma vezinha que fosse?)

A Ex- entrou desfilando, as usual: ela se comportava como se fosse cinco vezes mais gostosa do que era, e ninguém a flagrava no blefe. Cláudio a cumprimentou com um beijo no rosto, e ela respondeu com um daqueles complicados abraços em que as partes comprometedoras da anatomia nunca se tocam. Chegaram à mesa sem comentários desagradáveis, mas Cláudio percebeu que vinha bomba: o olhar de ansiedade na cara da Ex-, os trejeitos exagerados com as mãos. Ele pediu um Manhattan, mesmo que soubesse que os almoços cronometradíssimos que a Ex-propunha não incluíam horário para drinks, mas ela o surpreendeu acompanhando o pedido. A Ex- brindou –“a nós”-, e uma vez mais chacoalhou a mão diante do rosto dele. Cláudio enfim viu o anel, no anular direito. Ela viu que ele viu. Fez uma vozinha tímida e falsa: “Clô, preciso te contar uma coisa”.

“O Roberto me pediu em casamento” –estendendo a mão enfeitada pelo anel. Cláudio não lembrava direito quem era o Roberto, mas imediatamente cumprimentou a Ex-. “Te desejo toda felicidade”, sorriu. (Pra seu espanto, apesar do retrospecto assustador do namoro e dos anos transcorridos desde então, percebeu que, é, desejava mesmo: traço nenhum de irritação ou rancor.) A Ex-, olhos marejados de lágrimas que Cláudio subitamente não conseguia perceber se eram ou não falsas, prosseguiu. “Tem mais uma coisa...” Quase um murmúrio. “Manda bala”, disse ele, fazendo figa para que ela não aparecesse com idéia bizarra como convidá-lo para padrinho. “O Roberto... é muito ciumento”. Pausa. “Ele pediu... pra eu não te ver mais”. Cláudio teve certa dificuldade em compor um rosto para acompanhar o momento –como esconder o alívio, a ponta de alegria, por se livrar do mico sem nem parecer vilão? Fez uma cara que –esperava- dissesse “yo, tô triste mas, cê sabe, o coração tem suas razões”. A Ex- sorriu em meio às lágrimas. “Você se incomoda se a gente não almoçar?” Ele fez que não, chamou o garçom, pagou a conta, pediu os carros. Na porta do restaurante, esperando o valet parking, ela escondeu o rosto no blazer dele e chorou até o carro chegar. Antes de entrar, disse: “Eu sempre te amei”. Cláudio respondeu: “Seja feliz”. E conferiu a bunda da Ex- enquanto ela entrava no Palio. Bela bunda, pensou.

January 24, 2005

 

Aniversário: Comemore!


"Mongolóide adora interação" -Nibelunga do Cabelo Duro

Quem lê essas mar traçada já sabe que eu sou nerd. Uso óculos desde os 11 anos. Adoro computador. Sou navegador esforçado da Interrrnéte, rede mundial de computadores supermodérrna, há 10 anos. E, para carimbar meu passaporte de geek e assinar meu atestado de dork: já arrumei amigos –gasp!- em chat. Pouca coisa mais loser no mundo. Mas admito o patético fato, aqui, diante dos meus dois fiéis leitores, no interesse da transparência. Em 1996, por exemplo, comecei a conversar com uma jovem senhorita, em uma determinada sala do chat do UOL. O presidente Fh.C. tinha acabado de declarar que todo brasileiro é caipira, ou algo assim, e a gente passou a trocar mensagens em dialeto rurar. A conversa foi se estendendo, porque a jovem senhorita tinha um senso de humor invejável, e eis que subitamente éramos tio e sobrinha virtuais, envolvidos em complexas transações que giravam em torno de porcos renitentes e encomendas entregues por jegues teimosos (já que a subrinha, então, morava longe, e eu trabalhava no ramo dos jegues. Ops, nada mudou).

Ninguém –ninguém!- acreditava que aquela menina tivesse a idade que dizia ter. Porque ela não só escrevia pra caceta como era cheia das referência. Eu, proud to be a dork, sempre acreditei –os relatos dela sobre o colégio-penitenciária em que então estudava pareciam realistas demais pra ser ficção. Um dia, aproveitando o casamento de um cliente que se realizaria na cidade da subrinha, nos encontramos em pessoa pela primeira vez. Ela me mostrou o colégio-penitenciária -muralhas de um verde dostoiesvskiano-, eu dei um livro do Truffaut pra ela, batemos papo em um bar (suco de pêssego Del Valle: como esquecer?) Voltei ainda mais encantado: que menina genial. E fofa. Essa, aliás, era a mistura irresistível, na subrinha. Continua sendo: o humor cortante, a intolerância digna de velho bolchevique, e, não muito por baixo, um enorme reservatório de ternura. Que ela distribui, como deve, estritamente a quem merece.

Pela ternura e pelo humor, pelo casaco verde-mesa-de-bilhar, pela carteira aposentada (e pela biografia comprétinha) do Keroppi, pelas capivaras do McDonald’s, pela companhia em lojas de móveis, pela vaca inflável que dei de presente e ela manteve em cima da televisão, pelo amor compartilhado aos russos, ao Truffaut, a Anita e aos felinos, pelo urso de pelúcia disfarçado de coelho, pelos amigos weirdo que ela arrumou e nos quais pego carona quando em vez, pelo apetite de pedreiro, pela mártir e Dona Helena, por 50 milhões de conversas infalivelmente divertidas e percucientes ao mesmo tempo, pela gata Geni –que me ama-, e, claro, pelo texto impossivelmente brilhante que enche meus velhos olhos de retirante de orgulho sempre que o leio –no jornal, no blog, no ICQ: grazie tanti, subrinha. Os próximos 23 vão ser muito melhores.

Thoughts on a young lady’s birthday

I’d gnash my teeth, just like you do
At people who say “you’re so young”
One feels like a bear in the zoo
But, behold: all cages will someday be sprung

I’m bad at consolation, as you well know
Yet allow me to say, just this once:
You are better today than nine years ago
Both prettier and smarter, and never a dunce

So, hey, put on the party hat, grab that cake
Smile and pretend you’re awake
Sing with Gizele, down that drink, celebrate
Good things come –so they tell- when you wait

Here’s to you, dearest niece, on your 23rd
Life still sucks and the world’s still absurd
At least, you’ll have my love for one year more

Just give them the finger and I’ll wait at the door

January 22, 2005

 

Pra animar o fim de semana


Eba! Viva! Iupi!

A mais generosa das leitoras e mais divertida das comentaristas, Meg Guimarães, montou casa nova. Vou cometer uma daquelas "ousadias" de etiqueta contra as quais minha nonna alertava e convidar vocês todos pruma visita à maison Meg. (O chá é excelente.) E eu sempre adorei a palavra "flabbergasted".

January 21, 2005

 

Don't Let the Sun Catch You Crying


"Long lion days"

Na avenida que conduz da estrada para a cidade histórica, em Ravenna, ele percebeu que ali, naquele dia, naquela viagem, aconteceria alguma coisa de muito importante. Não sabia direito o que, por que, mas sabia: hoje, aqui, minha vida muda. Ignorando os protestos da mulher, estacionou a Lancia Ypsilon alugada na porta de uma loja de discos, comunicou: “vou ver discos”, e entrou na loja, atraído pela coleção de CDs de jazz e por uma foto de Beniamino Gigli -chapéu na mão, saudando a cidade de San Francisco da sacada de um hotel- que ocupava o lugar de honra na vitrine. Como de costume, ela o seguiu, mas ficou plantada na porta da loja, braços cruzados, um olhar reprovador –“você tem que parar em todas as lojas de discos e livrarias que encontra?” O dono da loja, diante de um irmão italiano sob ataque impiedoso de gringa malévola, imediatamente botou prateleiras abaixo para fazer o potencial freguês se sentir em casa. Mingus aqui, Caruso acolá, Tebaldi mais adiante. Até LP autografado do Mario Lanza foi exibido, em meio a sorrisos orgulhosos. Os dois nem olharam para a porta quando o ruído da sineta indicou que a mulher tinha saído.

No carro, cuidadosamente acomodando a sacola plástica com o LP de Lanza (presente pra mamma) e os três CDs no banco de trás, ele deliberadamente desviou o olhar para não ver nos olhos dela a mistura usual de fúria e lágrimas. “Nunca mais tiro férias com você”, ela disse. Ele deu de ombros, e como sempre encontrou sozinho no mapa o caminho do hotel que ela insistira em reservar. Ela optou por descansar um pouco no quarto, e ele disse que ia sair , passear a pé. Parou no tabacchi, tomou um espresso, comprou Il Resto del Carlino, um maço de Marlboro. Na rua, acendeu o primeiro cigarro em dois anos –se a vida ia mudar, melhor que começasse com isso: sentia uma falta inconfessavelmente dolorida de fumar. (E foda-se a saúde.) Caminhava fumando e assobiando baixinho "Ysobel’s Table Dance" (comprara mais uma cópia de Tijuana Moods, com uma capa italiana digna de livro da Brigitte Montfort), de olho em duas adolescentes alemãs ou escandinavas com coxas quilométricas expostas em shorts jeans e um andar desajeitado de mochileiras. Pensava em tirar férias sozinho, em como nunca tivera coragem de tirar férias sozinho. Andando à toa, vagamente acompanhando as placas que indicavam o caminho do Domus del Triclinio, ele encontrou por acaso o planetário da cidade. Cedendo ao habitual acesso de nostalgia, pagou as liras requeridas, entrou (o único adulto sem crianças acompanhantes), viu o universo girar por meia hora. Na saída, encontrou, encantado, o relógio solar na parede do planetário. Assobiou “Don’t Let the Sun Catch You Crying”. E achou que já tinha passado tempo suficiente pra esfriar o mau humor da mulher.

O quarto estava escuro, e ela fingia dormir, rigidamente posicionada no limite direito da cama, rosto voltado para a parede, olhos fechados com o exagero de criança tentando enganar os pais. Ele vacilou por alguns segundos –a imensa tentação de sair de novo, para nova amostra das férias solitárias que sonhava sem ter coragem de organizar- mas terminou sentando na ponta oposta da cama, e “acordando” a mulher com um ligeiro cafuné. “Onde cê foi?”, ela perguntou. “No planetário”, ele respondeu. “E as estrelas estavam todas lá?”, ela brincou. Pausa dramática: “Menos você”. Ele a viu sorrir no escuro, esticar as pernas com aquele descaso felino de ex-bailarina. Enquanto tirava a camisa, pensou que amor era uma merda. Mas não resistiu quando ela se virou para o lado dele e o puxou para baixo do lençol. No ano que vem, prometeu para si mesmo, voltaria sozinho pra acertar os ponteiros com o relógio solar.

 

Pro Luigi, no céu, com um muito -MUITO- obrigado


Maria Louisa Ceciarelli (1931 - ), ou Monica Vitti

Monica Vitti tem, e aparentemente ao quadrado, a maravilhosa capacidade das estrelas italianas para alternar looks, entre beleza lancinante e momentos do mais completo ridículo cotidiano (tipo La Loren e a mortandela em filme adoravelmente infame). Eu cresci numa família obcecada por comédia italiana dos anos “clássicos”, vá lá, tipo entre os 50s e os 70s, e descobri Vitti em filmes pastelão como L’Annatra al’Arancia, A Mezzanotte Va la Ronda del Piacere e, especialmente, Dramma della Gelosia –Tutti I Particolari in Cronaca, em que ela, humilde florista, serve de pomo da discórdia entre o pizzaiolo Giancarlo Giannini e o pedreiro cumunista Marcello Mastroianni. (E também a vi cantar em uma bizarra versão cinematográfica de La Tosca, contracenando com o insuperável Vittorio Gassman.)


Vitti como Modesty Blaise, 1966: pop (t)art

Confesso que, porque são filmes vistos na infância, não me lembro de tantos detalhes assim (mas lembro perfeitamente do meu pai e mãe rolando de rir com as bobagens do Ugo Tognazzi). Talvez sejam menos engraçados do que minha memória indica. Sei lá. Mas Vitti estava, sempre, tanto linda quanto absolutamente escrachada. E adorável. Tanto que, quando descobri os firme-cabeça, tomei um susto ao vê-la igualmente linda, mas dessa vez misteriosa e pungente, nos filmes que fez com Antonioni –L’Avventura, La Notte, L’Eclisse, Deserto Rosso e o tardio e esquisitinho Il Mistero di Oberwald. Vitti foi escalada, nos anos 60, para o papel-título de Modesty Blaise, adaptação cinematográfica dirigida por Joseph Losey e co-estrelada por Terence “El Fodón” Stamp e Dirk Bogarde, para os -então famosos- quadrinhos sobre a Bond de saias . Se bem o filme tenha terminado uma tremenda mixórdia, e assassinado as chances de carreira internacional de dona Vitti, ela tá, alas, indescritivelmente gostosa como heroína pop. No meu soturno tugúrio, dona Vitti vai sempre salvar o mundo ocidental –especialmente de minissaia.

January 20, 2005

 

“Eu também fingi os meus”


...and throw some omigods for good measure...

Oh my god: Acho que já contei uma vez, aqui ou no falecido blog Noronha, a história do meu dileto amigo e adevogado o qual, certa feita, no meio de um pé na bunda em que a dispensante alegava, entre outras barbaridades, que tinha fingido todos os orgasmos dela, salvou a honra do escrete XY ao rebater com “eu também fingi todos os meus”. Acontece que o Dr. Artur “The Law Is My Bitch” M. não só revelou sólido instinto retórico como certa capacidade de premonição, porque recente pesquisa conduzida no Reino Unido revela que 42% dos mano já fingiram orgasmos lá, ante 58% das mulé. Como ferrenho defensor da igualdade entre os sexos, não descansarei até que os mano possam fingir osgarmo inguarquinêim as mina. Our goal is 58, and we won’t wait.

Guy and doll: Em Milão, um malfeitor azarado roubou uma sex shop que só tinha 60 euros em caixa. Para compensar a exigüidade dos ganhos, ele levou também uma boneca inflável e uma roupinha-fetiche de couro. Giuseppe Manipeloso foi detido em um posto de gasolina a 12 quarteirões da sex shop, onde tentava inflar a companheira.

Dois mil... e um: A publicidade do lubrificante WD-40 menciona sempre que o produto tem dois mil usos. A puliça de Bristol acaba de encontrar o uso 2.001, e está recomendando aos donos de bares e casas noturnas da cidade que apliquem WD-40 aos assentos de privada e outras superfícies lisas usadas por usuários de cocaína para, er, spread their lines, digamos assim. Parece que cocaína e WD-40 geram uma meleca impossível de inalar nem mesmo pelo mais convicto dos Keith Richards. Uncle Filthy, pesquisador de insaciável curiosidade cientifíca, queria muito saber quem descobriu essa capacidade do lubrificante. E como.

No Canadá, nada acaba em pizza: Judy Sgro, ministra da Imigração do Canadá, se viu forçada a renunciar depois de ser acusada por Harjit Singh, dono de uma pizzaria, de dar pra trás na promessa de ajudá-lo a evitar deportação em troca de pizza de graça para a campanha eleitoral. Dona Sgro já vinha encontrando problemas depois de ser acusada de prestar favores a uma stripper romena, também imigrante ilegal. Na semana que vem, alguém vai descobrir que prometeu cidadania canadense prum contrabandista nigeriano de cerveja –porque não existe campanha eleitoral sem pizza, cerveja e mulé pelada. (E pizzaiolo chamado Harjit Singh?)

The whole world smiles with you: Estereótipos raciais ou étnicos são coisa de idiota, mas é difícil resistir a alguns deles. Por exemplo, cês já repararam nos episódios de riso público dos japoneses? Tô falando de japonês-em-grupo, como a gente vê em qualquer cidade turística. Eles são sempre very proper, e alguns até escondem o rosto quando sorriem. Mas tem uns momentos em que a mesa inteira de japas explode em uma gargalhada uníssona, a coisa mais espontânea do mundo –e eles saem do zero, da polidez que em geral ostentam praquela risada estrondosa. E aí param ao mesmo tempo e olham em volta cheios de vergonha. De que cazzo eles tanto riem, ô, Rafael? ;-)

 

Song for a Distant Lady (aka Request for a Booty Call)


To his Beloved, away to gather forage among the heathen

When you go on a trip to some Red State, dear
My state, of course, turns suddenly to blue
Boundaries crossed
My lazy heart grown used to have you near
Faces the frost
Wishing for turkey, settling for a stew

I could go on and quote another song, dear
Could google a new rhyme, out of the blue
I’d rather not
‘Cause I’ve grown used to whisper in your ear
And all I’ve got
Is the cellphone you’ve forgotten yet anew

So call me anytime on your own phone, dear
Though waiting on your call might make me blue
It feels so hot
While you’re so far to have that piece so near
(I won’t get caught
Carrying that other piece of you*: it’s out of view)

Yo, hurry back on home ‘cause I feel bored, dear
And this rhyme scheme will force me to use “blue”
For lack of thought
We both know I’m no poet, but I hear
And so you ought
That men will do whatever to get screwed

(Now, will that do, uh?)

*And thank you VERY MUCH for that one, McDirty. ;-)

January 19, 2005

 

Num vô pronto acabô


She doesn't love you, no, no, no, no

O Manual de Sobrevivência McNasty jamais seria um best seller. Ao contrário do coleguinha action hero McGyver, eu não conseguiria ensinar ninguém a fazer uma usina nuclear rústica usando dois elásticos, uma lata de Manteiga Aviação e uma pilha Eveready, e aquele famoso conselho sobre como sobreviver ao ataque de uma anaconda*, ô, Uncle Filthy não seria capaz de reproduzir sem cair na gargalhada, despertando a ira do ofídio. Mas isso não quer dizer que eu não tenha um bom conselho, e esse conselho, resumidamente, é o seguinte: em caso de dúvida, não vá.

Com 16 anos, padecendo de uma dessas paixões patéticas de adolescente (se ela me beijava primeiro que os outros mano, ao chegar na escola, meu dia estava feito; se ela me beijava por último, apocalipse), descobri a maravilhosa fórmula mágica: se você tem alguma dúvida de que ir à tal festa seja uma boa idéia, não vá. Porque, se as chances estivessem a seu favor, você não teria dúvida nenhuma. E é muito melhor ficar em casa, onde pelo menos você manda na trilha sonora, do que padecer três horas no salão de festa de um “estilo mediterrâneo” qualquer esperando que ela te dê mole, só pra terminar a noite vendo a moça arrastada pro jardim pelo Antônio Carlos, que decerto vai exibir à musa aquela menos canora das aves.

Meu mitológico amigo Hugo, fonte inesgotável de sabedoria na adolescência, usava uma expressão maravilhosa para o processo: “desbobar”. (Ele mesmo, coitado, nunca desbobou: passou anos penosos apaixonado por uma mina absolutamente intolerável. Mas os conselhos eram sempre no ponto, ainda assim.) É aquela famosa cena que filme americano de adolescente insiste em repetir: o loser no prom, o cara que insiste em confrontar a triste realidade de que ele não vai ficar com a góztóza, movido por aquela mórbida mistura de curiosidade e esperança (e, claro, porque nós, espectadores de cinema, somos todos losers, nos filmes o bundão o mais das vêiz cata a mina: perigo, Will Robinson.)

Mas o conselho não serve só pra desgraças românticas. “Na dúvida, não vá”, é a fórmula mais próxima de uma verdade universal que eu já encontrei. Se você vacila pra comprar ingressos pro “show do século” (qualquer um dos três milhões deles que acontecem por ano), não vá. Se alguém te convida pra jantar e seu primeiro instinto é rainchecking, não vá. Se te oferecem um emprego supostamente ótimo e o patrão tem cara de César Bórgia, não vá. Se a moça clean kicked you out, não forje encontros “acidentais” pra lembrá-la de que você ainda tá por lá. Porque esperança é a droga mais idiota: cria buzz mas não dá high. E depois que você aprende a dizer não, começa a descobrir prazeres insuspeitados na idéia de não ir à festa, não participar da formatura, gastar o dinheiro que gastaria no bundalelê de casamento com uma viagem caprichada procê e a noiva. E não só os, er, “prazeres solitários” (piadas no segundo guichê à esquerda), mas o prazer de saber que, quando vai, é porque realmente quer, e nunca por essa mistura de inércia e esperança estúpida que leva a gente a ir na tal festa e flagrar a musa em momento getting to know you com o Antônio Carlos. Sozinho e desbobado é sempre melhor do que otário junto.

*Em resumo: não corra, porque a cobra é mais rápida. Deite, se faça de morto, braços e pernas colados ao corpo, queixo encostado ao peito, e deixe a cobra deslizar sobre seu corpo. Depois que ela terminar o exame, vai começar a te engolir, pelos pés. Quando a anaconda chegar ao joelho, apanhe uma faca e, com o mínimo possível de movimento, enfie a lâmina entre sua perna e a boca da cobra. Quando estiver posicionado, rapidamente corte a cabeça da cobra. O conselho vem acompanhado de dois lembretes: tenha sempre uma faca. Mantenha a faca afiada.
Pô, meu, come on: eles recomendam ESSA estratégia para sobrevivência? Creio em deus padre. Melhor recomendar "tenha sempre um lança-chamas. E o mantenha abastecido". Ou, mais prático ainda: "o lugar tem anacondas? Não vá".

 

...living and enjoying, desiring and intending*...


Muralha de Lucca e porta San Donato, desenho de Piercarlo Ghibaldi

A Itália do Renascimento deve ter sido o lugar mais divertido do mundo –mistura explosiva de sacanagem e devoção, poesia e intriga, os condottieris e suas guerras maravilhosamente estilizadas (treinar um soldado era tão caro que os capitães mercenários de vez em quando decidiam batalhas sem combate: quem tivesse a melhor posição era considerado vencedor, e ciao, Giuseppe, te vejo de novo no ano que vem, se esses palermas continuarem pagando os nossos salários). Viajar de carro pela Toscana, por exemplo, é uma experiência deliciosa porque a gente termina esbarrando na tremenda colcha de retalhos microcósmica daquele passado: aldeias de 40 casas devidamente cercadas por sua muralha, com a igreja local, a torre de guarda, a sede da administração, em toda parte as marcas do furioso patriotismo local que retardou a unificação italiana por tantos séculos e deu a liderança do mundo a países jecões como a Inglaterra. E, claro, Lucca.

O mês certo pra viajar pela Itália é abril: luz esplendorosa e, se você guia por aquelas estradas ladeadas de olmos que existem desde que Ugguccione della Faggiola decidiu, em 1314, que seus soldados precisavam de sombra no caminho que separa Pisa de Lucca, em meio a colinas recobertas por 35 tons de verde, avista, ao longe, da SS439, o brilho mudo das muralhas. Yo, eu sei que sou um bostinha romântico, mas bear with me: é como uma nave espacial vinda do passado pousada no meio da vida cotidiana, a cidade. E tudo isso, claro, tem motivos históricos bem definidos: Lucca sempre foi metida a besta, mas nunca se tornou powerhouse da política medieval ou renascentista toscana. No século XIV, o único jeito de recuperar a independência foi subornar o sacro imperador Carlos IV. E as muralhas mesmas, na versão hoje preservada, só foram concluídas em 1645, quando o fuzuê político da Itália renascentista já tinha se acomodado e o país estava dividido entre o Papa e o conglomerado Espanha/Habsburgo, em termos de influência política. Quer dizer, aquelas lindas muralhas: tremendo elefante branco. E o fato de que tenham sido preservadas em sua forma original indica o quanto Lucca ficou pequena, já que não foi preciso derrubá-las para permitir a expansão da cidade, como aconteceu em outras pérolas renascentistas e medievais da região. Mas, yo, who cares?


O anfiteatro romano que virou praça, Lucca

O mais divertido é que as muralhas, no passado a expressão de um civismo defensivo, se tornaram agora a expressão de um civismo mudérninho, porque o pessoal as usa como pista para correr ou andar de bicicleta (o circuito completo tem três quilômetros, e as vistas são lindas a cada passo). I’m a sucker for History, claro, mas tem alguma coisa de imensamente civilizado no fato de que muralhas se tenham tornado um parque, e que elas tenham passado de proteção a símbolo iconográfico do orgulho local (a cidade muitas vezes se identifica, para fins de turismo, com representações estilizadas das muralhas). Sempre que penso em Lucca, me vem à memória a imagem do ex-anfiteatro romano transformado em praça (praça, aliás, equipada com um bar que toca música brasileira abominável o tempo todo, e cujo proprietário sabe a escalação de todos os escrete canarinho desde 1958), e lembro que é perfeitamente possível conservar o passado, inclui-lo no presente, tomá-lo deliberadamente como base para o futuro -e sem torná-lo monumento. (Tão demolindo um edifício aqui do lado. Fudílson, o previsível.)

Ô, que saudade da Itália.

* "Lucca is Tuscany still living and enjoying, desiring and intending. The town is a charming mixture of antique 'character' and modern inconsequence" -Henry James, in Italian Hours.

January 18, 2005

 

Which lie did they tell?


What the world needs now is muita vergonha na cara, mano

William Goldman talvez não seja um nome que o leitor médio reconheça de primeira, mas se eu acrescentar alguns dos screen credits dele como roteirista, dá pra fazer uma idéia da importância do moço –Butch Cassidy and the Sundance Kid, All the President’s Men, The Marathon Man, The Stepford Wives (o original, of course, não esse recente lixo indescritível com a bleargh Nicole Kidman), The Right Stuff, The Princess Bride, Misery. Além dos romances e roteiros (premiados com dois Oscars e três Globos de Ouro), ele publicou dois livros que são leitura essencial pra quem, como o Uncle Filthy, ainda acha que escrever pra cinema –cinema americano, claro- é o melhor compromisso possível entre grana, diversão e, ui, arte –Adventures in the Screen Trade e Which Lie Did I Tell.

Nesse último, ele analisa algumas cenas que considera especialmente bem escritas em roteiros alheios, entre elas a seqüência mais importante de Chinatown, escrito por Robert Towne, outra das lendas do ramo. (Towne é aquilo que o pessoal de Hollywood chama de “script doctor”, e costuma ser convocado pra salvar roteiros alheios que estão encontrando pobrema. Entre as cirurgias que ele executou, a mais famosa aconteceu nos dois primeiros Godfather. Francis Ford Coppola, aliás, premiado com o Oscar de roteiro pelo filme, fez questão de mencionar Towne no discurso de agradecimento mesmo que o nome dele não conste dos créditos.) Se você não assistiu Chinatown, miló pulá esse trecho (e, se ainda não assistiu Chinatown, o que você está esperando, aliás? O filme já tem 30 anos, for crying out loud.) Goldman e Towne discutem no livro se um filme como Chinatown teria hoje o impacto que teve quando lançado, e chegam à conclusão de que não, porque o incesto/estupro que é o crime primário do filme virou assunto de talk show sensacionalista de TV. Nas palavras de Goldman:”Towne feels there is so little shame in our world, now, it damages the possibility of drama at this level”. E taí o três por quatro de nossa triste era: vergonha não é mais um propulsor de arte, ou similar nacional, mas uma ferramenta pra vender psychobabble e elevar a audiência de psicopatas televisivos como o meu querido Jerry Springer.

(E no final de Butch Cassidy and the Sundance Kid, os dois bandidos/heróis, cercados e já feridos, ficam lá discutindo a possibilidade de recomeçar a carreira criminosa na Austrália, antes de abrir a porta e enfrentar mais ou menos 800 soldados do exército boliviano. Fade to black and white. Freeze.) Nice way to go, if you ask me. Se bem que morrer na Bolívia seja very low budget -e coisa de cumunista.

 

Come dance with me


"I was dreaming of the past"

Ele beirava os 14, e começava a enfrentar aquele terrível dilema dos meninos de 13: a súbita transformação das minas, de criaturas bundudas e irritantes incapazes de brincar direito de esconde-esconde ‘cause they always giggle a misteriosas divindades que é preciso propiciar a cada dia em sacrifícios cujas regras ele nem imaginava. Nosso herói era bom de briga, tinha o insulto mais veloz do oeste, sabia tocar 23 músicas dos Beatles. Mas morria de medo de mulé. Em um “bailinho”* de sábado, na cidade caipira onde passava férias, decidiu que ia tentar tirar uma moça linda pra dançar. Operação complicada, com muitos fatores a administrar: primeiro, tinha de ser música lenta, mas nada brega (era ano de Kim Carnes, Christopher Cross...). Segundo, os amigos de turma dele não podiam testemunhar o mico, ou seja, era preciso esperar que saíssem da sala onde se dançava; terceiro, as amigas dela não podiam estar por perto, pra que, se ela rejeitasse o convite, não aparecesse o corinho feminino de risadas de hiena; quarto, não podia ter muita gente dançando, mas por outro lado não podia ter muito pouca gente dançando, ao mesmo tempo; e, quinto, nem a pau ele tiraria alguém pra dançar na presença da irmã dele. Tempo passando, e nada de os pré-requisitos todos serem cumpridos. A moça linda já tinha dançado umas três vezes com o primo mais velho e mais mongo do nosso herói, pra seu profundo desespero. Lá pelo final da festa, apareceu a oportunidade: uns quatro casais estavam dançando, os amigos estavam na varanda fumando escondido dos pais, as amigas da musa não estavam por perto, a irmã não estava à vista, e alguém tascou "Jealous Guy", em versão Roxy Music, na vitrola**. That would have to do. Mas, como disse o puéta, between the vision and the act, lies the shadow, e no tempo que ele demorou pra atravessar a sala, o primo mais velho tirou a moça linda pra dançar pela quarta vez.

Corta para 15 anos mais tarde, marromenos. Nosso herói agora é escrevinhador de comerciais em uma agência de publicidade, cujas contas incluem a de um Famoso Bombom, promovido por comerciais que em geral envolvem adolescentes que presenteiam seus/suas pretês com o chocolate, em clima primeiro beijo. O filme daquele ano envolveria um moleque novinho, que chega a um baile com um Famoso Bombom para dar à sua musa, mas a vê dançando com um Altão. Decepcionado, o menino come o bombom, quando eis que a musa o cutuca no ombro, ele se volta, diz que trouxe um bombom pra ela e tasca-lhe um beijo sabor Famoso Bombom. Nada demais. Acontece que o nosso herói tinha por mania escrever versões paródicas dos comerciais que ele mesmo criava, e, de farra, criou um filme niquiq o menino leva o Famoso Bombom à festa para presentear a musa, vê a menina dançando com outro e se volta para ir embora. Quando a moça o cutuca, porém, ele ainda não tinha comido o bombom, abre um sorriso idiota e entrega o chocolate pra ela, que o agradece com um beijinho inócuo no rosto, retorna à pista de dança, tira o bombom da embalagem e o serve na boquinha do Altão, com quem a seguir troca baba desenvoltamente.

A secretária desastrada da criação sem querer terminou imprimindo uma cópia da paródia junto com as cópias dos roteiros a serem apresentados em reunião e, por uma sucessão de desastres, o roteiro chegou às mãos do cliente. Pra completo espanto de todo mundo, o gerente de produto do Famoso Bombom decidiu que queria fazer a paródia, além do filme “sério”. Nosso herói ficou encantado com a proposta, e estava tudo pronto para a produção. Mas o dono da fábrica de Famoso Bombom leu o roteiro e quase teve uma síncope. Filme cancelado. Moral da história: “cinismo” é o nome que os milionários dão à honestidade sempre que acreditam que ela possa afetar as vendas de seus chocolates. Outra moral da história: se você pretende fazer cagada, faça rápido.

* “Bailinho”, no Brasil Colônia, era uma festividade caseira que envolvia trocar a lâmpada de um cômodo qualquer da casa por uma “luz negra”, ligar a eletrola e entregar os pés aos cuidados da impiedosa Terpsícore. ** No Brasil Colônia, “vitrola” ou “eletrola” era um eletrodoméstico portátil que servia para tocar “discos”, objetos circulares feitos de vinil e que permitiam reprodução eletromecânica de sons gravados.

January 17, 2005

 

THE TALK


"Teardrops on the letter, I've got from you
They made me realize, every word you wrote is true"

Pesquisa informal conduzida pela NoronhaCorp na semana passada indica que 12 entre 10 marmanjos morrem de medo dessa conversa. A CONVERSA, cês sabem: aquela que explicita compromissos –or lack thereof- em um romance que até aquele momento flutuava sem contornos definidos, envolto na nuvem de hormônios e sentimentos sem nome que fazem com que gente que não diz mais “manhê, acabei” quando vai ao banheiro passe a se comportar como pré-adolescente, com direito a risadinhas compulsivas e rubores abestalhados. Já 12 entre 10 das mina consultadas pelos nossos laboriosos pesquisadores contra-argumentam que os mano, basicamente, padecem daquilo que os conselheiros sentimentais americanos apelidaram “fear of commitment”, e o medo da conversa é a expressão mais clara desse outro medo aí.

Permitam-me aqui tomar por exemplo da situação um cidadão hipotético –vamos chamá-lo Fudílson- que poderia estar enfrentando esse tipo de enrascada. Valho-me uma vez mais dos privilégios reservados ao narrador onisciente e escancaro já nas preliminares: não, o Fudílson não tem medo de compromisso. Mas mesmo assim tem medo DA CONVERSA. O medo da conversa tem muito pouco a ver com o medo de assumir compromissos afetivos para com uma dama à qual, alas, nosso herói dedica afeto. O vilão da história é mais esquivo, e atende pelo hediondo nome de “pressuposto”.

Funciona assim: dois adultos descobrem que têm interesses eróticos mútuos. Ou que gostam de basquete. Ou que o senso de humor de alguém é irresistível a ponto de quererem passar horas e horas com a pessoa trocando gargalhadas diante dos trocadilhos mais idiotas. Já que é uma situação hipotética, vamos limpar o campo de jogo: os dois são solteiros, nenhum dos dois tem filhos, os dois têm carreiras marromenos resolvidas. Isso teoricamente deveria significar uma enorme liberdade para definir os parâmetros de como eles namoram (ou similar nacional). Mas, alas, mexendo os olhinhos em todos os quadros da mansão mal-assombrada a gente encontra sempre o Pressuposto. E o Pressuposto dispõe que se duas pessoas se dão bem, têm gostos e preferências compatíveis, funcionam agradavelmente entre os lençóis e não têm bois (ou vacas) na linha devem “levar adiante” o relacionamento delas. “Levar adiante” quer dizer, o mais vezes, a progressão genérica “morar junto/ casar/ fazer filho/ happy ever after”. Vejam, eu não tô atribuindo a nenhuma das duas partes responsabilidade primordial pelo Pressuposto. O Fudílson não pensa na dona Increnca dele imaginando que ela esteja planejando e manobrando incessantemente para levá-lo ao altar –até porque sabe que, ops, he’s far from being a great catch. Mas o nosso herói supõe que ela tenha em mente o Pressuposto, como ele tem, e como todo mundo mais parece ter.

O medo DA CONVERSA, portanto, é o medo de confrontar e potencialmente contrariar o pressuposto. Para exemplificar, digamos que o Fudílson não queira casar, ou morar junto, e definitivamente não queira filhos. O mundo do Pressuposto leva suas vítimas a acreditar que esses fatores são completamente circunstanciais –ou seja, o Fudílson não quer se casar (com a dona X), não quer morar junto (com a dona Y) e não quer ter filhos (com a dona Z). Mas, tão logo tenha encontrado O Grande Amor, alas, tudo isso muda e as convicções que ele defendeu durante anos, bumba, se vão ralo abaixo. (O que representa, no mínimo, um tremendo desrespeito ao livre arbítrio e à honestidade moral do Fudílson, da parte dos navegantes do Pressuposto.) Assim, seguir o Pressuposto, por mais afrontoso que seja aos olhos do Fudílson, passa perversamente a ser considerado “prova de amor”, enquanto contrariar o Pressuposto se torna, sempre, uma declaração de desinteresse.

E não só isso que enrosca. Tem também uma questão prática que é muito delicada e muito embaraçosa. Ou seja, qual é a hora certa de ter A CONVERSA? Quando, exatamente, o Fudílson deve informar a detentora de seus afetos de que, “ô, Maria Alice, eu te amo, e quero ficar com você. Mas basicamente não quero casar, ou morar junto, ou ter filhos”. (É, eu sei: a frase soa cínica pra danar, sob o cânone do Pressuposto, mas será que é tão cínica, mesmo?) Nenhuma das hipóteses quanto ao timing soa animadora –se o Fudílson parte para A CONVERSA, digamos, no terceiro encontro, é cedo o bastante pra que a moça não perca tempo demais com um relacionamento que talvez não vá lhe propiciar o que deseja. Por outro lado, é um tremendo corta-barato: os dois mal tiveram tempo de explorar as diversões que os levaram ao rala-e-roça e já tá lá aquele enorme paralelepípedo: “Lovely, but no ring from me, dear”. Plus, sempre vai soar pretensioso (se a Maria Alice, ao receber um comunicado desse tipo no terceiro encontro, olhasse feio pro Fudílson e respondesse “mas quem disse que eu quero casar com você, criatura?”, até ele daria risada). Por outro lado, esperar, sei lá, um ano, pode parecer enrolação –“só agora você vai me dizer isso, seu biltre?” Porque, veja, o narrador onisciente gostaria de deixar bem claro que o Fudílson não é calhorda. Confuso e teimoso, com certeza, mas não calhorda.

No passado não tão distante, e tremendamente hipócrita, a vida romântica era regida por centos rituais, quase todos pavorosamente cafonas, mas, yo, pelo menos havia um guia para a forma que essas coisas deveriam tomar. Agora, amores, paixões, casamentos, amizades com benefícios, casos, mercy fucks, ménages, contratos de servidão sadomasô, noivados, namoros -hétero, homo, bi e assexuais- proliferam como fungos, e os rituais, tadinhos, só funcionam como paródia (melhor não esquecer que “loveletter” virou nome de vírus). É difícil decidir o que dizer, como dizer e –especialmente- quando dizer. E as palavras, coitadas, depois de tantas reciclagens nos beiços de galãs mexicanos, astros de comédia romântica, estrelinhas de sitcoms, colunistas de conselhos, diálogos lame-o de Sex and the City, perderam completamente a capacidade de dizer com um mínimo de convicção coisas simples como “yo, eu gosto de você”. (O narrador onisciente, aliás, em momento de luminoso desespero romântico uns meses atrás, decidiu chutar o balde, voltar à quarta série e dizer –literalmente- “eu gosto de você” pra mulher mais diliça do mundo. Para sorte dele, ela tem mais senso de humor que senso crítico e entendeu.) Então, meninas, tenham uma certa dó dos rapazes quando eles respondem com grunhidos neanderthal a qualquer tentativa de “discutir a relação”. E vocês, rapazes, tenham em mente que as meninas talvez prefiram ouvir a verdade em lugar daquelas clássicas enroladas masculinas, quando não houver grunhido que os livre DA CONVERSA.

A CONVERSA do Fudílson, cês querem saber? Já rolou. O namoro sobreviveu. Tem uns mano que definitivamente nascem com mais sorte que juízo.

 

Don’t give a flying fuck


Sorriso amarelo e nariz vermelho: é Lula Lá.

O governo do Lulá Omar, se mais nada, pelo menos é bão em comic relief, e a saga da aviação presidencial, com todo seu charme de tempestade em copo de branquinha, é um dos pontos altos dos 24 venturosos meses do reino eneadáctilo. Quando o presidente Fh.C. começou a soltar balão sugerindo a substituição do “Sucatão”, os potestro da oposição contra o presidente viajante causaram o abandono da proposta. Mas a idéia –como a política econômica do PSDB, aliás- ressurgiu logo no começo do paraíso trabalhador. A primeira justificativa era de que seria preciso trocar o Sucatão porque o aparelho, supostamente produzido em 1958, estava correndo o risco de desabar como as obras da prefeitura da Marta. Turns out that o Sucatão na verdade foi produzido em 1968 e, ainda que vá deixar de servir como Kombi do sindicato aérea para o presidente e sua entourage, continuará em uso pela FAB, para reabastecimento da frota de caças mudérninhos que protege o nosso país contra os marcianos –afinal, nada melhor que um KC-135 safra 1968 para lidar com os nossos Mirages e F-5s dos anos 70 (cuja substituição, aliás, foi tratada pelo governo do Lulá Omar como bem menos urgente do que a do Sucatão, já que a concorrência para escolha dos novos caças brasileiros foi cancelada pela equipe que ora nos governa com presciente sabedoria).

Quando surgiram protestos quanto ao preço do avião novo, o Lulá Omar e seus estrategistas de comunicação abandonaram a justificativa de segurança e passaram a afirmar que a operação do novo avião presidencial economizaria bufunfa pro governo, porque a hora de vôo do dito cujo custa um terço do preço da hora de vôo do modelo substituído. Magavilhoso, não fosse o fato de que o Sucatão vai continuar voando. Ou seja, o avião não precisava, efetivamente, ser substituído por motivos de segurança e, em governo que prega austeridade, trocar de avião desnecessariamente cheira a hipocrisia (plus, gastar US$ 56 milhões que não precisariam ser gastos alegando que isso vai propiciar economia dentro de 11 anos é, well, a cara de todo governo brasileiro desde o Pedrão). E isso sem a gente entrar no mérito do custo das viagens presidenciais –sejam do Lulá Omar ou do Fh.C. Minha estimativa amadora é de que a cada vez que um presidente brasileiro abre a boca no exterior, o país perde um bilhão de dólares em investimentos. (E se, como no caso do Eneadáctilo Mandatário, o foro preferencial para o nhém-nhém for a ONU, provavelmente uns dois bilhão.)

Tem também a questão do nome –Santos Dumont? Come on. Santos Dumont era um rentier filhinho de papai que vivia em Paris sustentado a pão-de-ló com base na mais-valia extraída pelos capatazes paternos à custa de lambada nas costas dos bóias-frias que operavam as fazendas da família em Minas (copiei essa frase de um petista). E “inventou o avião”, ainda que o 14-bis fosse capaz de voar apenas em linha reta, três anos depois que os irmãos Wright testaram extensamente o Flyer, aparelho cujo vôo podia ser controlado nos três eixos essenciais à operação de uma aeronave mais pesada que o ar. (Conceito, aliás, que, se alguém tentar explicar ao presidente, é capaz de fazê-lo desistir de viajar de avião.) Se eu fosse o Stedile, liderava o Movimento dos Sem Turbina (MST) em invasão imediata do novo avião presidencial, exigindo que o nome fosse trocado. Minha sugestão é que o Lulá Omar adote o nome “Galinha Preta” pro seu novo brinquedinho –homenageando o animal que simboliza o Bananão. Afinal, como sabe todo bravo militante que freqüenta o Demarchi, se galinha não voasse, por que alguém ia chamar o prato de “frango a passarinho”?

RIP: Bezerra da Silva (1927-2005), o maior letrista da música brasileira ("urubu não vem na terra pra pegar seu rango/ porque tá com medo de virar galeto"), que conheci por obra do Aguinaudo (true name), office-boy malaco de uma das firrrma para a qual contribuí com minha prosopopéia. Vai fazer muita falta.
Thanks: Cláudia F., que leu o blog inteiro e sugeriu um novo tagline: "Erudição a serviço da bandalheira". We aim to serve, dudette. (Em breve, novas instalações.)

January 14, 2005

 

We Are Family


NoronhaCorp proudly presents... the ultimate reality show

Eu fiquei surpreso quando me selecionaram pro reality show –nem toda rede de TV arriscaria entregar papel central no seu programa de maior audiência a um estreante de meio metro, desdentado e careca. Mas as pesquisas indicavam que o formato precisava de sangue novo, e eu entrei para o elenco. No começo, era fácil –eu só chorava, e o voto de simpatia do público me colocava na posição de anjo toda semana. Passei seis temporadas sem ir ao paredão uma vezinha sequer. Mas aos seis anos comecei a enfeiar, fiquei com uma orelha de abano danada, e os meninos da escola, querendo sacanear a pequena celebridade, só me ensinavam palavrão. Por sorte, tinha sempre uma empregada desastrada ou um moleque com cara de maconheiro querendo namorar a minha irmã que eram indicados ao paredão em meu lugar, ou eu com certeza teria sido eliminado do programa.

O maior risco que corri no reality show apareceu na sétima temporada, quando os executivos da rede, preocupados porque o programa tinha perdido o primeiro lugar de audiência para uma atração concorrente chamada TV Linchamento, repetiram o truque e selecionaram outro bebê para o elenco, para ser meu “irmãozinho”, e ainda por cima lhe deram o nome de Rafael (eu, coitâââdo, terminei batizado como Afrânio Jr., justo no episódio em que o padre Moacir foi eliminado do programa depois que O Dia, alertado por uma denúncia anônima, publicou acusações de assédio sexual contra ele). Eu sabia que a parada ia ser dura –no final da temporada, tinham sobrado na casa só o Pai, que sempre contava com o voto de simpatia dos paus-mandados, a Mãe, que nunca ia ser eliminada em programa de TV assistido por brasileiro, minha “irmã”, que andava com uns nano-shortinhos e de top diáfano o tempo todo, a empregada daquela temporada, uma mulata magistral que ganhou em segundo o concurso da globeleza em 1997, eu e o nenê. Tava na cara que eu poderia ser eliminado. Mas ninguém passa sete temporadas em horário nobre de rede nacional sem aprender um truque ou dois, e eu disfarcei a voz, liguei pro juiz Darlan e denunciei a rede por uso ilegal de mão-de-obra infantil. Com isso, e com a revelação de que a empregada globeleza tinha começado a vida com o nome Wanderley, escapei e continuei no elenco. Mas foi por pouco.

Na temporada 14, o Pai foi eliminado –literalmente, pobrezinho. Parece que as câmeras ocultas o flagraram na cozinha dando uma encoxada na Sandrinha, uma “prima do interior” que estava morando na casa (foi o ano em que a rede decidiu que o programa precisava de mais sexo, para concorrer com a novela Água Benta, cuja trama envolvia um convento/spa topless administrado pela ordem de Santa Aldine [Muller]). No episódio seguinte, a Mãe decidiu preparar uma paella especial pra comemorar o aniversário de casamento, e o Pai terminou excluído do programa por motivo de salmonella. A Mãe se consolou com o Ramiro, o entregador de pizza pagodeiro que fazia participação especial no programa já havia umas temporadas, e eu aprendi muita coisa nas aulas particulares de Química que a Sandrinha me dava. Infelizmente, depois de uma denúncia anônima ao juiz Siro Darlan por sedução de menores, Sandrinha e Ramiro foram também eliminados do programa.

Na temporada 18, minha “irmã” saiu do programa para ser dançarina em uma banda de axé. A rede decidiu que o único jeito de preservar na grade de programação o lugar do reality show, que àquela altura estava em 36° lugar no ranking de audiência da TV aberta, logo atrás de Bingo Bin Laden, um programa de ação em tempo real em que velhinhas jogavam bingo ao vivo e uma bolinha em cada sorteio era na verdade uma bomba, seria transformar a nossa casa em pensionato, porque do elenco original só restávamos a Mãe e eu. Aproveitando minha aprovação no vestibular pro curso de Turismo Sexual na Universidade Garotinho Rosinha, em Belfort Aquilo Roxo, a rede convidou meia dúzia de universitários para o novo elenco. Foi uma temporada estranha, porque de vez em quando, no jantar, a Mãe me lançava um olhar esquivo, perturbado e, normalmente, um episódio mais tarde, algum dos nossos hóspedes desaparecia. (As câmeras do porão capturavam imagens ocasionais da velha subindo de lá com uma pá ao ombro, mãos e rosto sujos de terra, que segundo ela provinha da horta.)

Agora chegamos à temporada 30. Mamãe, coitada, tem muita dificuldade pra se movimentar, e eu a carrego de um canto pra outro da casa. A rede de televisão faliu há 10 anos, e no ano passado perdemos nosso horário no canal comunitário. O programa continua, porém. Transformei a casa em hotel, e instalei Webcams em todos os quartos. O elenco muda cada vez mais rápido. Tem gente que mal fica meia hora. Por uma estranha coincidência, quase todo mundo que apresento à minha emaciada e reclusa mãe termina eliminado ao final do episódio. De noite, antes de dormir, além das vozes de todos os colegas de elenco que dividiram as telas comigo ao longo dos anos e não consigo tirar da cabeça, ouço sempre a música tema do programa. "We are family. And I’ve got my mummy with me".

 

Sisterly Love? Not likely.


"Abuse? For a woman? In Hollywood? Use your imagination!"

Linda Fiorentino é uma dessas atrizes que normalmente a gente admira em segredo, porque os filmes que ela faz são tão ruins que fica difícil esconder que o motivo básico do apreço é a gostosura da moça, e não o fato de que trabalhe bem, ou tenha feito algum filme –remotamente- bonzinho (pelo menos não como leading lady). Em meio a uma carreira-bomba, pro gosto do Uncle Filthy se salva After Hours, do Scorsese, niquiq ela faz um papel pequeno como escultora tarada. Dona Fiorentino fez também o primeiro Men in Black, e Dogma, do Kevin Smith, os dois so-so mas não ofensivos. O papel que definiu a carreira da moça, porém, foi o de Bridget Gregory, femme fatale de subúrbio no noir de pobre The Last Seduction: depois do filme, dona Fiorentino o mais das vezes é convidada para fazer papel de perva maligna em filme esquemático, o mais notório dos quais é o horroroso Jade.


Clorinda Fiorentino (1960 - )

Caçando informações para descrever a minha diliça da semana, eu finalmente descobri o motivo da minha bizarra atração por ela: dona Fiorentino é italianinha de Philly, duas coisas que aquecem o coração do Uncle Filthy. Filadélfia é uma das cidades mais maloqueiras dos Estados Unidos (por exemplo, os torcedores do time local de basquete, o 76ers, costumam vaiar Papai Noel, hino nacional, prefeito, freira, minuto de silêncio, qualquer coisa que atrase o começo do jogo), e La Fiorentino é a cara da cidade, nesse sentido: por mais elegante que esteja, é fácil imaginá-la assobiando e xingando o juiz ou gesticulando ferozmente para reclamar do preço dos canolis na Iannelli’s do Italian Market, na rua 9. Stiletto heels and dagger-shooting eyes são uma das minhas combinações prediletas numa mina. (E eu nunca vou esquecer a minha italianinha de Philly, alas: one hit to the body, it comes straight from the heart.)

January 13, 2005

 

Trouble in Mind


"Yeah, the sun gonna shine in my back door someday"

Todo dia, antes de dormir, eu rememoro a lista de gente de que gosto, e me preocupo: será que a máquina de costura daquela velhinha lá tá funcionando como ela esperava, será que as pernas a incomodam muito no calor? E a sinusite daquela moça, será que deu sossego apesar do tempo maluco? Os patrões malignos tão sendo menos truculentos com a jovem senhorita ali de cima, e os gatos dela tão deixando em paz as persianas diquiridas (presumo) em excursão ao ABCDOG? O chefe tá se virando bem sem mim, estamos cumprindo as metas? A minha editora predileta tá mantendo a calma diante dos psicopatas que emperram as coisas na firrrma lá dela? O amigo dos anos plúmbeos tá conseguindo pagar as dívidas? O amigo que tomou pé na bunda tá bebendo demais? O inescrutável amigo oriental tá conseguindo trabalho suficiente na modorra do começo do ano? A amiga erudita tá se acertando com o namorado e a dieta –ao mesmo tempo? O amigo de adolescência vai mesmo fechar o lojinha? A patológica confreirinha tá se ajeitando com casa e cargos novos? A mocinha dos gibis vai conseguir logo arrumar um emprego e escapar daquele manicômio? E aquela linda e silente senhôura que sempre tenta parecer três vezes mais tough cookie do que é, tá –mesmo- bem?

Deve ser por isso que as pessoas rezam: para criar a ilusão de que a preocupação que sentem de longe pode se transformar em influência benéfica de alguma espécie. Por outro lado, também é uma forma prática de transferir a responsabilidade a são jizuis –“ó, mano, eu fiz a lista toda, com RG e endereço: te vira, agora”. Pros incréus que nem eu, não funciona. Pros céticos, que nem eu, é muito difícil acreditar que good vibrations enviadas genericamente sirvam mesmo pra beneficiar alguém –wishing well pode ser fofo, mas depositar quinhentão na conta bancária é que efetivamente faz diferença. Nem todo problema é prático, nem toda ajuda é material, porém. Por mais que a gente empreste ou dê dinheiro, ofereça carona, carregue caixas, troque pneus, apanhe pacotes, hospede o primo mongo, vai ter sempre um zilhão de coisas que não temos como influenciar, e fazem sofrer àqueles que queremos bem. And that sucks ass, como diria o Kyle.

Mlle Magnólia, a mais diliça das leitoras aqui desse muquinfo, outro dia lembrou delicada e oportunamente –bem à maneira dela- que por sob o verniz da civilização a vida continua darwinista –rango, sexo- e tudo que fazemos tem por objetivo precípuo garantir essas duas coisas. Mas como qualquer bom sujeito que acaba sendo arrastado por tsunami ou chacinado em genocídio, eu prefiro acreditar que, yo, talvez a gente possa deliberadamente ser um pouco mais ou “melhor” que isso, e que essas pessoas todas a quem meus pensamentos talvez não beneficiem, por mais positivos que sejam, deveriam ainda assim constar do meu checklist noturno –porque pensar nelas me faz bem, ainda que indiferentes os resultados das minhas preces laicas. É uma miércoles ter de dar essa meia-trava a cada vez que tenho um impulso idiota de generosidade imaterial -ou a cada vez que meus “bons sentimentos” afloram- para questionar os meus motivos, a eficiência –ou ineficiência- daquilo que sinto para a vida desse elenco de fantasminhas a quem quero tão bem, sem muito ajudar. No entanto, o cinismo da era torna obrigatório duvidar dos meus motivos. Solidariedade é o ópio dos mongos, como disse o Noronha, compaixão é masoquismo indolor, mas duvidar de mim mesmo a cada que vez que sinto o que sinto, graças a são jizuis, pelo menos não me faz deixar de sentir. Ainda. E por isso, admitindo previamente a quem interessar possa a inutilidade completa dos meus sentimentos, eu mesmo assim fecho os olhos a cada noite desejando, “yo, ocêis tudo: fiquem bem”.

 

The History Channel


"It's called THC for a reason", said Andrew, the wise.

Austreloo foi um combate
Do valente Napoleão
Tinha russos, prussianos
E franceses de montão
Mas eu num entendo direito
Fiz arguma confusão
Foi num alpe ou no deserto?
Foi no inverno ou no verão?
Napoleão foi derrotado?
Napoleão foi campeão?
Austreloo foi um combate
Do valente Napoleão

Ou num foi não?

January 12, 2005

 

Geeky Love


"Jocks only think about sports; nerds only think about sex"*

Frank era apaixonado por Christy desde os 14 anos. Ele junior high, ela, com 16 pra 17, colega de sua irmã na high school, e o nerd sempre de olho comprido a cada vez que as duas se trancavam no quarto pra fumar maconha e ouvir soturnas bandas inglesas dos anos 80 que ele detestava mas fingia admirar. Claro que a disparidade de idade impedia grandes ambições, da parte dele. As duas –Christy e a irmã- saíam com marmanjos de 19, 20, com bigodes, carros. Frank, que usava óculos fundo de garrafa e adorava RPG e computadores, era esperto o bastante pra não tentar nada que o impedisse de desfrutar a “amizade” passageira com a mulher mais linda do universo. Christy o tratava como cachorro, no melhor dos sentidos: ignorava a baba e fazia cafunezinhos ocasionais, que pra ele eram motivo de horas triunfais de conversa com os outros nerds, em meio às partidas de GURPS.

Quatro anos mais tarde, quando Frank descolou uma bolsa para uma das universidades gringas mais cobiçadas, tomou um susto ao encontrar Christy, que estudara na mesma cidade e decidira juntar dinheiro trabalhando em Raleigh por uns tempos, antes de se mandar para Stanford e a grad school dos sonhos dela. Porque ele continuava nerd e ela continuava amiga (a distância) de sua irmã –burra e cabeleireira for life aos 22-, reataram o contato na universidade, onde Christy tinha um de seus 17 empregos, lá como housing official, descolando casa pra ragheads variados com as famílias perenemente falidas da região. Quando a agenda amalucada dela permitia, os dois saíam, estritamente amigos, no hanky panky. Se bem ter 19 quando a musa tinha 21 fosse mais animador, Christy passava o tempo todo falando do namorado, um sujeito chamado Matt por quem Frank tomou a mais instantânea antipatia. Matt ganhara bolsa em Stanford, e se mandara, deixando a namorada. Frank não se conformava que um sujeito que tirou mega-sena deixasse o bilhete do outro lado do continente, mas sabia que falar mal do amado era péssimo caminho pro coração –ou, no mínimo, pras calçolas- da amiga.

Christy se mudou pra Stanford no ano seguinte, mas manteve contato com Frank por e-mail, chat. E quando ele, por sua vez, terminou a faculdade, evidentemente escolheu Stanford pra fazer grad school (como bom nerd, tinha bolsa e crédito para estudar onde quisesse). Christy, que tinha morado uns tempos com Matt, ainda seu amor, estava com quarto vago no apê em Menlo Park, porque o amado tinha sido contratado por uma empresa de Internet iniciante em San Luis Obispo, a uns 200 quilômetros de distância, e estava trabalhando as 90 horas por semana regulamentares do ramo, e dormindo por lá. Para Frank, era o paraíso: rachar apê com a musa, e o namorado sempre distante. Frank, como todo bom apaixonado enrustido, tinha criado um monstro extremamente fedebundo para servir de amor à dona diliça: safado, escroto, mentiroso, metido a besta, galinha... O que não esperava encontrar, como descobriu nas fotos espalhadas pelo apê, era um coreano. Difícil conciliar a imagem de beach bully construída com tanto cuidado e a foto do sujeito dentuço e sorridente, com ligeira cara de susto, que decorava a mesa de cabeceira da musa. Mas esses orientais, todo mundo sabe, são traiçoeiros pra caceta.

Frank morava no apê há um mês quando enfim conheceu sua nemesis em pessoa. Christy estava fora, em mais um de seus ainda centos empregos (ela era a única do trio a não ter bolsa de estudos), e Matt entrou com a mochila nas costas. “Ô, cê deve ser o Frank, né?”, perguntou sorridente. E completou a pergunta com um aperto de mão e um desses meios abraços sem jeito que homens trocam entre si pra demonstrar apreço. “A Christy fala muito de você”. Frank estava determinado a detestar o calhorda, mas que nada: passaram os dois dias da visita conversando ininterruptamente, papo de nerd, e a musa mútua sorrindo, encantada, diante da simpatia que unia seu velho amigo e seu amor.

Christy se formou, e arrumou emprego em San José, mas o trio decidiu manter o arranjo –os três alugaram uma casa juntos, se bem que Frank passasse bom tempo fora, com a namorada que arrumou ou estudando, e Matt continuasse trabalhando longe. Quando Frank concluiu o curso, com um ano de avanço, Matt ofereceu-lhe emprego na firrma, que àquela altura já estava virando um desses Everests instantâneos dos anos 90. Frank aceitou, e ele e Matt alugaram um apartamento em San Luis Obispo pra usar durante a semana, se bem que, como bons nerds da década da bolha, normalmente dormissem mesmo no escritório, com as máquinas ligadas, cercados por caixas vazias de pizza. Com o tempo, descobriram que Christy era um dos temas prediletos de conversa , e como é normal entre homens que gostam muito de uma mina e não podem admitir o fato um ao outro, se concentravam sempre nos defeitos da musa.

Certa manhã de sábado, os dois chegaram à casa de Menlo Park e encontraram a parte de Christy toda vazia, e um bilhete em cada quarto: cansada de namorar nerd distante e de esperar pedido de casamento que não vinha, a musa se mandara com um professor de Stanford contratado pelo MIT. (E, no bilhete de Frank, pedia que ele tomasse conta de Matt.) Os nerds, abandonados, sobreviveram ao final de semana com uma sessão maratona de Doom, e voltaram a San Luis Obispo pra trabalhar ainda mais do que era o costume, nos meses seguintes. Não falavam muito sobre a musa, mas continuaram amigos, morando juntos. Em 2000, logo antes do crash da tecnologia, venderam as ações que tinham acumulado na firrrma durante aqueles anos todos e abriram um negócio próprio, de equipamentos pra Internet sem fio. Frank se casou com uma prima coreana de Matt. Matt se casou com a secretária que tinha pedido todas aquelas pizzas consumidas pela dupla durante oito anos. Em 2004, a empresa deles fez um IPO, e os dois embolsaram mais de US$ 100 milhões. O produto mais vendido é um roteador para redes sem fio. Chamado Christy.

*Lewis (Robert Carradine), no magistral Revenge of the Nerds (1984)

 

The songs we were singing


Barbara Bach (1947 - ). Ringo era burro; Lennon era um gênio.
Go figure.

Começo confessando uma certa ambivalência com relação aos Beatles. Nunca foram a minha banda preferida, mesmo na safra deles, e passados 40 e poucos anos a gente vê com enorme clareza que as “revoluções” todas que eles supostamente corporificavam eram a major crock of shit. Mas resta sempre a música, e a música –descontada toda a ranhetice hippie e ideológica que veio a cercar a banda- é ocasionalmente muito boa, rápida, irônica: quase tão supimpa quanto os produtos contemporâneos da Stax ou da Motown –e isso é dizer muito, porque não tem música pop (no contexto moderno do termo) melhor que o soul.

Agora, tudo isso admitido, beatlemaníaco é foda. Pior que eles só os mano que tentam insistir em que justo eu ouça, sei lá, Zeca Baleiro, sob a alegação de que é mó pop legal. ELE É FANHO, folks. Por conta da chatice dos beatlemaníacos “paz e amor”, eu terminei por pegar certa birra do Lennon, admito. É fácil esquecer que ele sempre foi o irônico, o rocker radical do grupo, quando a gente pensa em give pizza a chance (e, besides, como homem, é difícil perdoar um mano que podia catar quem ele quisesse e escolheu a Yoko Ono; Ananias, o baterista da banda, mostrou inteligência muito maior ao escolher Barbara Bach). O que me deixa com o dilema de Paul McCartney. Quem viu aquela caixinha de DVDs dos Beatles não consegue evitar uma certa vontade de estrangular Macca, que trabalha como uma espécie de gerente de museu, administrando memórias, estabelecendo versões, abusando da falsa modéstia com o transparente objetivo de posar de gênio. (George Harrison, o adepto da filosofia oriental menos pacato que conheço, não cansa de ironizar McCartney o documentário todo.) Mas, de novo: McCartney canta muito, toca muito, e compôs algumas das melodias pop mais memoráveis dos últimos 40 anos. Difícil –prum velhinho romântico como eu, ao menos- descartar o trabalho do mano com o desdém mudérninho que a subrinha Nibelunga exibe, por exemplo.

Tudo isso porque dia desses reencontrei velhos amigos e, pra terror dos circunstantes desarmados, a noite terminou com violão. E com uma canção singela, até simplória, dessas em que McCartney incorpora –ou, no caso, rememora- o Zeitgeist –“but we always came back to the songs we were singing at any particular time”. Porque é esse exatamente o sentimento: a trilha sonora é parte essencial da história pessoal de cada um de nós, e não só isso como é um traço compartilhado entre todos nós que (con)vivemos o tempo daquelas canções. (Ou, pra quem nasceu passadista como eu, o amor por canções velhinhas é um traço de união com gente por vezes distante que a música permite aproximar.) Uma das coisas que ouço de muita gente a quem reencontro com menos freqüência do que gostaria é “pô, Fudílson, ouvi tal coisa e lembrei de você”. É motivo do maior orgulho estar associado à música, na memória dos outros (e por “música” I mean de Bartô Galeno e a inesquecível “Carro Hotel” a Jussi Björling derrubando o teatro com “Si’pel Ciel”). ‘Cause we always come back to the songs we were singing at any particular time.

January 11, 2005

 

Encontro Consonantal


"A, B, C, D, E, F, G
I've never learned to spell, at least not well"

Quando Zbigniew Brzezinski foi convidado para um encontro em Reykjavik com o empresário russo foragido Mikhail Khodorkovsky, ele não imaginava que a jornada resultaria em incidente internacional e atrairia a atenção da CIA, do MI6, do SDECE, do BVD, da NBA e do PSDB. Disfarçados em meio à multidão de torcedores que assistia a uma partida de knattspyrna do Knattspyrnufélag Reykjavikur, os dois debateram uma possível transferência da sede da Yugansknefgaz, de Volokhogolansk para Schenectady.

Enquanto isso, na cidade de Abiaé, Ana estava decidindo se aceitava ou não a proposta de casamento que lhe fora apresentada por João.

Em Hvaldursfjörd, submerso em meio à neve que recobria impiedosamente a costa da Noruega, o tenente-comandante Per Olafsson Trygsvaliet observava pelo periscópio de seu moderno submarino classe ZZWK Y28z a aproximação do cargueiro polonês Warzsawiski Spozywczy, supostamente carregado do agente bacteriológico conhecido como ynefrenezina-z. Trygsvaliet esperava ao lado do posto de rádio a confirmação de que o cargueiro tinha mesmo sido cooptado pelos guerrilheiros da Frente de Libertação da Baixa Belarus, que seria transmitida por Brzezinski diretamente de Reykjavik assim que Khodorkovsky conseguisse contato com seu informante em Ljubljana por meio do celular via satélite Kyocera.

Enquanto isso, na cidade de Abiaé, João olhava de olho comprido, girando o chapéu nas mãos, para a noiva indecisa, rosário entre os dedos, murmurando o terço em meio ao chilrear das corruíras.

 

Heaven is in the details


"Once I planned to write a book of poems entirely about the things in my pocket. But I found it would be too long; and the age of the great epics is past".*

Ela gosta de se arrumar para o trabalho ouvindo música, e a reboladinha diante do espelho é recompensa suficiente mesmo que o repertório não seja sempre o meu preferido. E tem o hábito dela de cantar exatamente um verso de uma determinada música –sempre aquele mesmo verso (“and she kisses me windy”), naquele mesmo ponto da canção, sempre slightly out of tune, sempre com um sorriso reminiscente desenhado no mesmo canto dos lábios onde nascem as covinhas que motivam minha enxurrada de bobagens. Eu digo e faço qualquer coisa pra ver aquele sorriso, a luz que inunda os olhos à medida que os lábios se distendem, a ligeira pausa e o instante em que ela tenta definir se eu poderia concebivelmente estar falando sério, e aí o momento cintilante em que amor e humor se misturam, as covinhas in bloom, a risada estrepitosa (e, muitas vezes, se eu estiver perto o bastante, a porrada que levo por estragar o complexo embate entre a musa e o batom).

Se bem eu tenha sempre apreciado o lado épico das coisas, sabia desde fedelho que aquilo era só literatura. Minha vida, minha saga, sempre foi conduzida na menor e mais comezinha das escalas, e eu gosto assim, pra ser bem franco. Não é como se eu um dia tivesse sonhado singrar o Mar Oceano e acabasse contador. Meu Everest tem um metro e setenta, e me deixa sem ar como o de verdade. Por exemplo, a presilha que ela instala compenetradamente na bagunça do cabelo: como é que ela sabe que é exatamente ali que eu tenho vontade de enroscar os dedos, no buzum, a caminho do escritório? Tem uma gramática dos gestos mútuos que eu aprendo com prazer muito maior do que o Longman e o Cegalla jamais me propiciaram. (E que ela nem pense duas vezes antes de tirar meus óculos e esfregar a poção mágica que usa nos dela pra desengordurar as lentes: Houston, we have ignition.)

Eu sei, eu sei, leitora cínica, leitor impaciente: é beociamente romântico escrever essas bestaj. Mas a vertigem do detalhe vai sempre me arrastar, e se me perder em detalhes impede muitas vezes que eu veja a famosa big picture, o mundo das coisas pequenas oferece recompensas que eu nem pensaria em trocar. Porque a questão aqui não é o “amor”, a “paixão”, ou qualquer desses outros convenientes rótulos que a gente usa pra reduzir a experiência da intimidade aos cânones da expressão verbal: é mais a capacidade de ler alguém, de ler o mundo, pelos menores indícios, a capacidade de criar uma sintaxe a dois que ao mesmo tempo abarca e exclui o que nos cerca. Já fui acusado, e muito injustamente, de ser “sedutor”, and that’s bullshit. O que importa é ler as coisinhas pequenas e emprestar a elas a emoção honesta que sempre falta aos épicos. Porque a maior aventura é catalogar esses gestos bestas da vida todos e encontrar as tais palavras, true and kind, or at least not untrue and not unkind, que me permitam dizer. Sem dizer.

*G. K. Chesterton (1874-1936), em "A Piece of Chalk", Tremendous Trifles (1909)

January 10, 2005

 

O Buda do subúrbio


"You're the cutest jailbird I ever did see"

A bolsa Prada ou a vida, fofo: Em Atlanta, Geórgia (quero ver o Hoagy Carmichael fazer música com essa história), a polícia local e o FBI estão à procura de um cidadão de 1,90 metro, usando um sobretudo, um lenço de pescoço branco e uma longa peruca negra, que entregou um bilhete ao caixa do Wachovia Bank niquiq o elemento alegava estar armado e pedia grana. O caixa entregou uma sacola de dinheiro e o she-male do submundo escapou tropeçando nos saltos altos. O transformista do crime se inspirou em um sujeito de bigode que foi capturado no ano passado depois de tentar roubar um banco em Rome, no mesmo Estado, trajando um vestido florido e um chapéu de mulé.

It’s always fair weather: George Trottier, 65, ceguinho e meteorologista autodidata, desde 1969 ganhava 300 mango por mês para prever o tempo em duas rádios de Massachussets. Foi despedido no final do ano porque não acertava uma, mas protestos dos ouvintes levaram a empresa que opera as duas rádios e voltar atrás. Ou seja, entre duas formas de mentira, todo mundo prefere aquela à qual está acostumado. O que explica que tenha gente que ainda leia a Veja.

Nice package: A Wal-Mart, empresa cujo critério básico de contratação é “respira? You’re hired”, teve que despedir um velhinho de 65 anos que recebia os consumidores na entrada de uma de suas lojas (em DesMoines, veja bem) porque o animado senior citizen produziu uma série de fotos dele póprio peladão e com o bilau protegido por uma sacola de compras da cadeia de supermercados, que passou a distribuir aos fregueses da loja, alegando que aquele ia ser o novo uniforme da firrrma em função de um corte de despesas. Tá bom que eu deixo o velhinho do supermercado empacotar minhas compras, dora em diante.

Hellhound in my trail: Em New Jersey (eu si orgulho demais do Estado que me recebeu em meu primeiro sojourn americano), José Rodriguez, de Perth Amboy, foi detido reincidindo em flagrante delito de doing the dirty com o cachorro da vizinha. O dilema jurídico do caso é que nem bestialidade nem sodomia são ilegais no Estado (makes sense, porque senão ninguém se casaria por lá). Rodriguez provavelmente vai terminar processado sob a cláusula de ataques pela retaguarda da Patriot Act. E pode se defender alegando que, como chicano praticante, entendeu errado quando sugeriram que ele fosse à luta doggie-style.

Voto na urna e bola na rede: O primeiro-ministro romeno Adrian Nastase, que vem sendo "acusado" de homossexualismo pela imprensa, se ofereceu pra provar que é macho furumfando com as mulheres ou namoradas dos jornalistas que o acusam de agasalhar o cocréti. Tem gente que se sacrifica mesmo pela pátria. Já Sven Goran Eriksson, técnico da seleção inglesa de futebol, recita a escalação do escrete alabastrino quando invade a grande área, segundo a namorada dele, dona Nancy Dell’Ollio, que aproveita pra acrescentar que Eriksson inclui os 22 jogadores no mantra. “Tobias; Zé Maria, Moisés, Zé Eduardo e Vladi...” Ih. Sorry about that, benzão.

O terceiro olho: Hoa Trung Nguyen, 47, monge budista em Sydney, decidiu romper seu voto de celibato com uma profissional do sexo. Para provar que bad karma é bad karma, ele escolheu justo uma policial disfarçada, e acabou em cana. O monge tentou se defender alegando que estava só brincando, mas o juiz o condenou com base no vídeo da tocaia: Nguyen, usando o roupão de monge por baixo de um sobretudo de pervertido, abordou a policial do sexo e perguntou quanto é que saía uma troca de prana rapidinha. Como eu vivo dizendo: religião ascética com monge gordo, uh oh.

Trial and error: Clive Worth, 55, do País de Gales, foi barrado de um serviço online de encontros por “lack of commitment”. O cidadão marcou encontro com 119 senhôuritas por meio do DatingDirect.com, nos últimos cinco anos, e passou mais de 100 delas na vara. Worth, que pagava 85 libras anuais pelo serviço, disse que as mina tinha reclamado de viajar para encontrá-lo e, na hora H, ele não propor fazer delas muléres honestas. Mas o bravo internauta do amor justifica dizendo que ainda não encontrou a mulé certa. (But he sure does try, innit?) Uncle Filthy, que ainda não chegou nos dois dígitos, acaba de se cadastrar lá com o pseudônimo “Welsh Rarebit”. Dessa vez eu desencalho.

 

Gadgets, furumfa e escalpos: Uncle Filthy’s Las Vegas Adventure


O pavilhão do Mal

Viajar é a coisa mais legal do mundo, especialmente pra quem já anda entrado em anos como your favorite uncle here e não mais aprecia os prazeres da carne com a freqüência febril da juventude, mas, beware: turismo* é uma merda. E nos Estados Unidos, país que padece de uma variedade peculiarmente insana de pragmatismo/racionalismo, ainda mais pior de ruim. (Por exemplo, holidays in hell, Ocean City, Maryland, que consiste de praia, boardwalk e uma fileira de hotéis que se estende por seis quilômetros, e, na fachada oposta, avenida, e comércio/restaurantes –loja de praia, supermercado, McDonald’s, sorveteria, loja de praia, supermercado, McDonald’s, sorveteria, loja de praia, supermercado, McDonald’s, sorveteria: juro.) Vegas é inguauquinêim, mas com arquitetos muito mais insanos (e, no entanto, deve ser uma sensação indescritível, prum arquiteto, projetar um desses hotéis/cassinos gigantes sabendo que o treco vai ser implodido dentro de 10 ou 20 anos: monumental e transitório, uma espécie de carro alegórico estático encalhado na Strip durante duas décadas de carnaval).


Jenna makes love like a porn star

Minha empreendedora co-âncora Ms Smelly McDirty, em ingente esforço de reportagem, descobriu que em outro canto da vivaz Las Vegas estava acontecendo a Adult Entertainment Expo 2005, e lá foi nóis na fita, para testemunhar a noite de histórico triunfo da escritora Jenna Jameson, que ganhou o troféu Biggus Dickus nas catigoria Melhor Atriz –Filme, Melhor Cena de Furumfa de Casal –Filme, e Melhor Cena de Furumfa entre Minas –Filme. Go, Jenna. (Os visitantes da exposição normalmente param nos estandes** pra tirar foto apalpando o pandeirão ou os peitos das starlets pornô que ficam por ali dando, er, sopa. Quite elegant.) E eu voltei pro hotel pensando em Deadwood (quem fizer trocadilho infame com “woody” vai casar com a Vera Loyola), que graças à diliça dos gadgets pude assistir esses dias no computador. (Sahib tinha gravado no TiVo, e mandou queimar em DVD pra mim: thanks, boss.) Very long story very short: Vegas é Deadwood 130 anos mais tarde, e a história dessa transição do lodaçal sem lei para a disneylândia sem alma descreveria perfeitamente os Estados Unidos, se pudesse ser contada. Infelizmente, é tarefa pra quem escreva muito melhor que eu. Mas a violência engarrafada do mundo corporativo que transformou Deadwood em parque de diversões e expulsou a máfia de Vegas pra tornar a cidade mais convidativa pros gordinhos de classe média que usam calça de moleton no cassino e perdem as economias da família ao som de Barry Manilow é infinitamente mais assustadora, por desumana, do que a violência hands on de Al Swearengen no seriado.


These arms of mine

Pra escapar à violência, eu como bom nerd confio nos gadgets, a começar do TiVo. Com o TiVo, você grava em formato digital os programas que quiser na TV, e assiste sem comerciais, nos horários que preferir. Elimina os inconvenientes do vídeo, e facilita converter pra outras mídias digitais, como o DVD. Way cool. Espero que um dia chegue ao Brasil para gáudio dos meus amigos devotos de Gilmore Girls. Já na CES, o gadget que eu mais simpatizei foi um monitor (vide foto acima) da BenQ, firrrma de Taiwan que produz só aparelhos divertidos (como o celular quadrado Z2). Um monitor cheio de tentáculos? É nóis na fita. Tem também o megafofo Archos PMA 430, que toca música, passa vídeo e oferece conexão wireless com a Internet. Já a Olixir tem um drive portátil que permite descarregar porcaria da memória do computador; pesa 50 gramas, armazena até 60 gigas e oferece conexão PC Card, USB, FireWire e SATA. Very useful. Tem também o Sony Librie, um “livro eletrônico” que parece de papel. Lá se vão os meus 30 anos como colecionador de livros. E tem esse treco genial da SanDisk, que permite conectar flash card a portas USB de computador sem cabo. Pra quem tira muita foto com a câmera digital e esquece o cabo toda vez, como certas pessoas cujo nome começa com S e termina com tacey, Fudílson recomenda.

Mas que Vegas parece que vai ruir a cada passo, parece.

*Por exemplo, você pode viajar a Roma sem fazer turismo, mas não pode viajar a Las Vegas, Cancún ou Porto de Galinhas sem fazer "turismo", pronunciado com aristocrático muxoxo de desdém e cofiar de bigodes.
** Update, e não sei como fui esquecer disso no post original: Entre os pornô-expositores, estava a firrrma que adotou como nome o pseudônimo que o Noronha pediu a são jizuis, a Ben Dover Productions. Ha! Witty, smart, classy!

January 09, 2005

 

"This torch that I found..."


Francis Albert, crooner/croupier, dealing at Sands casino, circa 1950s

One For My Baby
(Harold Arlen/Johnny Mercer, 1943)

It's quarter to three, there's no one in the place
Except you and me
So set 'em up, Joe
I've got a little story you ought to know
We're drinking, my friend, to the end
Of a brief episode
Make it one for my baby
And one more for the road

I've got the routine, so drop another nickel
In the machine
I'm feeling so bad, wish you make the music
Easy and sad
Could tell you a lot, but it's not
In the gentleman's code
So make it one for my baby
And one more for the road

You'd never know it, but buddy I'm a kind of poet
And I've got a lot of things to to say
And when I'm sad and gloomy, you simply gotta listen to me
Till it's talked away

Well that's how it goes, and Joe I know you're gettin'
Anxious to close
So thanks for the cheer, I hope you didn't mind
My bending your ear
This torch that I found, must be drowned
Or it soon might explooooooode
So make it one for my baby
And one more for the road
That long, long road...

January 07, 2005

 

Down with everything that's up


"...their separate ways of building, benediction, measuring love and money: ways of slowly dying."

Do aeroporto MacCarran (800 vôos por dia, o sétimo mais movimentado do mundo, proclama orgulhoso o painel luminoso) para o verdadeiro centro da cidade (The Strip, pátria dos cassinos) a distância é de uns dois quilômetros, ou marromenos cinco horas de congestionamento. O estande do meu freguês está localizado a 300 metros da Strip, no South Hall 4 do centro de convenções (que tem 200 mil metros quadrados mas, quando ocupado por 100 mil basbaques correndo atrás do Jackie Chan pra pedir autógrafo, fica com cara de lavabo). A atração principal, este ano, são televisores gigantescos, incluindo uma linha com telas de 102 polegadas. Eu mesmo sempre fui defensor da teoria de que TV com mais de 14 polegadas e sem ser preto e branco é coisa de nouveau riche, mas confesso que depois de dar uma conferida nos coxões da Beyoncé em tamanho sobrenatural destorci o nariz, um pouco.

É uma cidade estranha pra caceta –500 mil habitantes na área urbana, 1,5 milhão no condado de Clark. Dependendo da fonte consultada, o número estimado de quartos de hotel é de 100 mil a 120 mil, que abrigam um suarento rodízio de 35 milhões de visitantes por ano. O número de carros de aluguel é seguramente maior do que o número de carros de moradores. O que é bizarro se levarmos em conta o fato de que não tem lugar pra estacionar (afora o valet parking que, a não ser que você esteja preparado pra dar gorjeta da ordem de US$ 20, demora uma hora e 40 pra trazer seu Hyundai de vórta de Utah, Estado cuja principal função econômica deve ser a de fornecer estacionamento pra Las Vegas.) Cê pode alugar qualquer veículo aqui –não vi nenhum tanque de guerra na rua com adesivo da Avis mas, fora isso, tem pra todo gosto: Caddies vintage, Jaguares dos anos 50, Ferraris, Maseratis e Lamborghinis (o mano tem que fazer um curso na loja antes de sair com o carro, e deixar um rim como garantia). Transporte coletivo, se existe, como a Conceição, ninguém sabe, ninguém viu.

Las Vegas, como Los Angeles, oferece superávit de mulé gostosa. Ou, pelo menos, “gostosa”. As meninas vêm pra cá à procura de uma carreira como show girls, e o excedente vai resvalando para as profissões “acessórias” –cocktail waitress, hostess de restaurante e cassino, manobrista (no Casino Royale, todas as manobristas são moçoilas bem fornidas). Sem esquecer, claro, a profissão mais velha do mundo. E essa legião de mulheres de idade que vai dos 18 a não muito mais de 30* ilustra outro dos aspectos da cidade: pouca gente “é” daqui. Boa parte dos moradores é transitória, como os turistas, se bem que por períodos mais longos. Não se vê garçonete de 45 anos, show girl de 53. É parte essencial da irrealidade cultivada pra pegar trouxa, digo, satisfazer os clientes. Do mesmo jeito que o mais hediondo dos hotéis da cidade, o Paris Las Vegas, oferece uma réplica da torre Eiffel e “uma cena de rua” parisiense indoors, completinha com figuras “francesas” pitorescas –pintores com bigodão carregando cavaletes, tocador de sanfoninha- que não existiam em Paris nem quando le Horse était très Crazy, não se vê entre a população feminina “nativa” de Las Vegas –pelo menos a parcela exposta ao público- nenhuma mulé “normal”. Legiões de loiras e contingentes menores de ruivas falsas, todas generosamente equipadas de air-bags, sorriem e chamam os mano de “honey” em todo lugar. (As garçonetes todas praticam a arte de quase espetar o ombro do sujeito com a peitaria, aliás, no momento de servir o drinque. Especialmente entre os muitos colegas amarelos presentes à convenção, o movimento causa casos instantâneos de estrabismo.)

É difícil dizer, pra ser franco, se isso aqui é mesmo uma cidade. Quer dizer, com certeza o é, pra quem mora aqui (conheci uma moça megacompetente que nasceu aqui e só saiu para a faculdade –amanhã escrevo mais sobre isso). Mas o fato é que Vegas funciona como uma espécie de Disneylândia menos cínica (já que eles pelo menos não ficam regurgitando inanidades sobre “family values” quando o objetivo principal é embolsar o dinheiro dos trouxas). Nesse sentido, a cidade não é exatamente comparável a outros lugares cenográficos –Versalhes, o manicômio do Sol; ou os castelos tutti-frutti de Ludwig II, o maluquinho da Baviera; ou a esquizofrenia de pretensões cívicas pífias, purismo estético mal orientado e pau no cu dos pobres que foram pra lá construir a cidade que é a marca da nossa querida Brasília. Eu não sei exatamente como definir Vegas, mas sei o que a cidade é: um lugar feito para morrer. Uncle Phil, tirado completamente do contexto aqui, mas, who cares, said it best:

"I listen to money singing. It’s like looking down
From long french windows at a provincial town,
The slums, the canal, the churches ornate and mad

In the evening sun. It is intensely sad."

*Um dos primeiros casos célebres na revanche dos porcos capítalo-chauvinistas, aliás, envolvia o direito dos cassinos de mandar embora garçonetes que não se enquadrassem a determinadas normas de aparência -peso, apresentação, uso de maquiagem. Uma garçonete de 40 anos que não queria seguir o regulamento alterado pelo muquinfo abriu processo quando foi demitida. Perdeu, perdeu na apelação e o caso foi rejeitado pela Corte Suprema. Já Élvis.

 

Sweet bird of youth


Anna Helene Paquin (1982 - )

Eu tendo em geral a confinar minhas fantasias eróticas a atrizes marromenos da minha geração (Henriqueta Brieba, hélas, povoou muita madrugada solitária no meu catre imundo), mas de vez em quando me deixo vencer pela tentação. Um desses nocautes morais é obra da muito diliça Anna Paquin, que sobreviveu a grandes adversidades como por exemplo ganhar Oscar aos 11 anos em filme de Jane Campion, contracenando com o ator mais canastrão de todos os tempos, Harvey Keitel (inesquecível como Brooklyn Judas em The Last Temptation of Christ –“yo, Jeezaz, how ya’dôin’?”).


"Let´s deflower the kid"


Miss Paquin sobreviveu ao trauma e terminou trabalhando em dois dos filmes de que mais gostei nos últimos anos –enlouquecendo o professor Philip Seymour Hoffman em 25th Hour, de Spike Lee, e deflorando Patrick Fugit em Almost Famous (“if only you were rich, and taller, and older, and English, and a guitar player”, diz Polexia Aphrodisia, personagem de Paquin, ao William Miller de Fugit, em momento romântico da película). Nascida no Canadá, criada na Nova Zelândia e estudante da Colúmbia, dona Paquin ficaria muito bem na poltrona do Uncle Filthy –if only I were younger, thinner, rich and a movie star.

January 06, 2005

 

Viva Las Vegas!


A fortune won and lost in every deal

Yo, city of pneumatic boobs
Amidst the lonely crowds of never-weres and has-beens
Pray find within your whorish, greedy heart
A plastic, manic smile with which to greet
This unlikely visitor, no slave to your charms
But a born loser, duty-bound to meet
Your endless appetite: we all are what we eat

Yo, phony impersonator of a past
Conceived in boozy stupor by those cads
Once employed at dusty Burbank movie lots
I see your Venice, and the water stinks
I see your Egypt, and the mummies do
A child-molester moonwalk under boos
Out of a bus bringing morons from Tennessee

So, Vegas
No use baring your yellow fangs at me
We both know where it’s at:
Let’s roll the dice, and forever hold our peace

January 05, 2005

 

Los Justos (1981)


"El que agradece que en la tierra haya música"*.

Jorge Luís Borges

Un hombre que cultiva su jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
El tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada.
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.

* Last night, there were lots of lone cats at Iridium. The bar stools were all taken even before the tables got full. Jazz makes for strange bedfellows, or stool fellows, and I soon found myself involved in lively and noisy conversation with a righteous babe from Australia, two crazy-haired Japanese jazz buffs in their early 20s who knew EVERYTHING about Mingus, and an Italian couple who had around five words of English between the two of them but were making themselves abundantly clear even before I stepped in to translate some. We had lots of fun and, since the place wasn’t packed, were able to watch the two sets. The bar crowd ended up by swearing eternal, jazz-and-booze-induced, friendship, exchanging phone numbers and e-mails and repairing home feeling much warmer than the weather would allow. Of course I didn’t intend to call them or write them, but the righteous babe (who plays upright bass, by the way) wrote me a lovely little note. And that got me thinking about the Borges’ poem above. Those who are thankful because there is such thing as music, though most of the times unaware of one another, are truly saving the earth. Cheers, folks.

 

Ô, Meu, e as Mina?


"You make my heart melt like hot fudge on a sundae"...

A vida sexual do Fudílson nunca foi um mar de rosas (ainda que, ui, o nome Rossana me ferva os hormônio). Eu não chego a extremos de fiasco como os do Sr. Adan Morales, que invadiu a casa errada ao pular a janela pra tentar fazer um séquissinho com a mulé do patrão, mas as fãs do meu blog, ao contrário das devotas de Pablo Neruda, não se reúnem peladas aqui em frente pra tirar foto homenageando o Noronha (frase, aliás, cuja sonoridade me lembra clássicos como “descabelando o palhaço” –“o Fudílson taí?” “Não, tá no banheiro homenageando o Noronha”.)

Lady Jules, minha fada madrinha, sem nem saber que em 2005 eu tinha decidido ser mais, er, pró-ativo na busca de conjunção carnal com o belo sexo, me mandou ontem um link com genial sugestão de cantada. Sêo Don Diebel, purported expert on how to get girls, sugere que o cidadão compre um fantoche na Ri Happy, vá ao bar e (vou citar literalmente porque o estilo de Diebel per se já é um deleite) “cutuque o ombro da moça com o fantoche e, quando ela se virar para contemplá-lo, aproxime o fantoche do rosto dela e diga algo como ‘yo, môzão, quer dançar comigo?’ Mova o fantoche para cima e para baixo com sua mão quando disser a frase, como se o boneco estivesse realmente falando. E não esqueça de usar uma voz muito idiota” (essa última parte do conselho me parece meio redundante, ma...) Segundo Diebel, a mulé vai morrer de rir e provavelmente vai aceitar o convite para dançar, porque as mina adoram homens com senso de humor –se bem que a blibiotecária gostosa que escreve aqui nesse blog expresse discordância afirmando que, se um sujeito se aproximasse dela no bar com um fantoche, ela badalava as bolas do indigitado (sujeito, não fantoche). A iracunda bibliotecária impugna a expertise de Don Diebel, que se denomina “the number 1 singles expert”, comentando com considerável dose de cinismo que o Don provavelmente é especialista em solteiros porque nunca conseguiu deixar de ser um deles (a foto lá em cima empresta certa autoridade à tese da percuciente comentarista).

Apesar do meu fraco por bibliotecárias gostosas, eu ainda assim vou botar ficha nos conselhos do seu Diebel, que dora em diante substituirá o hitherto inexpugável Max Sussol (autor de Como Conquistar as Mulheres Sexualmente) no tatame de meu guru. E pra conferir a eficiência do método, Uncle Filthy localizou um site niquiq as cantadas são rankeadas de acordo com a freqüência de uso e a porcentagem de sucessos. (Se bem que o ranking me pareça capcioso –na catigoria* Straight to the Point, por exemplo, a cantada mais eficiente, com strike rate de 83,33%, parece ser “I wanna put my thingy into your thingy”.) Infelizmente, é tudo em inglês, o que impede o teste do clássico “você está tão deliciosa que eu te faria um vestido de saliva”, sugerido ao editor por um amigo portuga que prefere manter o anonimato para não apanhar da Dona Eugénia. As God is my witness, esse foi o último Ano Novo que Uncle Filthy passou jogando rugby pelado em Taiwan.

* Na catigoria Innuendo, Uncle Filthy encontrou uma cantada de elegância tão invulgar que fez a co-âncora Smelly McDirty, usuária contumaz da máquina de Xerox da firrrma, guspir café. Sujeito encontra a musa na máquina de Xerox da firrrma: “Reproducing, eh? Need any help?” Ô, meu são jizuis, e tem gente que diz que o humor sofisticado morreu.

January 04, 2005

 

Vida, sexo, grana e morte (e Natalie Wood que ninguém é de ferro)


Natalie Wood (1938-1981) e Gypsy Rose Lee (1914-1970)

Fui assistir Sideways desconfiado, porque filme favorito a Oscar tende a ser piegas, em geral, mas Alexander Payne, cujos dois filmes anteriores (Election e About Schmidt) já eram bem bacaninhas, se saiu ainda melhor no novo trabalho. Com elenco de gente que eu estava acostumado a ver em produção indie ou como coadjuvante em série de TV, o filme é, a um só tempo, megafofo e nada piegas. Uma dupla de amigos losers (Paul Giamatti e Thomas Haden Church) sai em viagem vinícola pelo Napa Valley para celebrar a despedida de solteiro de Jack (Haden). Miles (Giamatti, que já tinha mostrado a que veio em American Splendor e repete agora, com ainda mais punch, o desempenho de loser incisivo) é um escritor fracassado, e Jack não quer muito casar. No vale, os dois conhecem Maya (Virginia Madsen, muito diliça no filme), e Stephanie (Sandra Oh, que prova em papel maiorzinho o timing maravilhoso de comédia que já indicava nas pontas que costuma fazer). Não vou contar o resto, mas recomendo ver. Vale os 15 mango, fácil.

Na minha cesta de presentes de Natal, Biz contribuiu com Striptease, de Rachel Shteir, que analisa a ascensão, queda e morte do strip tradicional no mundo do burlesco americano. Dona Shteir é cabeça, associate prof na DePaul U, mas escreve com muita graça e sem grandes clichês. As fotos não são da variante sacanagem, mas (beware, dona Ieda) tem pelo menos uma very yummy de Gypsy Rose Lee. E as imagens dos teatros e arredores do mundo do strip que recheiam o livro espalhadas em meio ao texto são quase tão enjoyable quanto seriam as das mina. Pra todos os pervertidos adeptos da sacanagem vintage, cotação cinco mão peluda.

Já Sahib, com a sutileza notória dos executivos, me presenteou recentemente com Greenback, de Jason Goodwin, uma história muito divertida da evolução do dinheiro –em suas inúmeras modalidades- nos Estados Unidos. Goodwin é mais um desses ex-jornalistas transformados em historiadores improvisados que, o mais das vezes, fazem os historiadores “de verdade” passar vergonha. Sobre grana, ele diz: “O dinheiro é uma crença que precisa ser compartilhada com outras pessoas. (...) ...todo mundo precisa concordar quanto ao que ele representa: aceitamos o dinheiro porque contamos com que os outros, por sua vez, também o aceitem. O dinheiro funciona porque funciona”. The madness of crowds, pra citar um dos meus livros prediletos.

Por acaso, um dia antes do tsunami, comecei a ler When Life Nearly Died, de Michael Benton, professor de paleontologia e diretor do departamento de ciências planetárias da Universidade de Bristol, que um fellow devotee de Godzilla (go, Japs!) me deu no ano passado. Cruzando informações com muitas outras disciplinas, ele reconstitui a maior extinção da história da Terra, ocorrida 251 milhões de anos atrás e responsável pela destruição pelo menos 90% da vida planetária, tanto terrestre quanto aquática. Benton descreve o que aconteceu, de acordo com as mais recentes interpretações científicas, propõe um modelo para explicar como a vida prevaleceu, e termina comentando sobre a recente retomada da idéia (científica) de catastrofismo, que tinha sido escorraçada dos manuais no começo do século XIX, e as controvérsias resultantes. Mó bacaninha. Walking in their footsteps.

 

Paying my rant


Galeria de Heróis McNasty: Senador Joe "Tailgunner" McCarthy (1909-1957), o caçador de fanhos

Alô conflito de interesse, aquele abraço: Mesmo no Bananão, é costume evitar certos flagrantes –ninguém aponta para o Ministério da Justiça, por exemplo, um titular ativo de banca de adevogacia: o sujeito seria obrigado a se afastar do lojinha, pelo menos durante o mandato. E o Partido dos Tatu-Bola (PT), agremiação que ora nos governa com presciente sabedoria, teria um chilique, um ou dois governos atrás, se Fh.C. convidasse Armínio “Raposinha” Fraga pro BC mas dissesse que num tinha pobrema, não, ele podia continuar trabalhando pra George Soros. Ao canoro ministro Raul Gil, no entanto, a regra não se aplica: aparentemente não existe conflito de interesse entre sua posição ministerial e sua carreira continuada em um ramo de atividade que pode ser diretamente influenciado por decisões do ministério que ele rege. Já que todo ministro deveria ser presumido honesto (ou desonesto) igualmente, a única explicação para a exceção é o fato de que até o PT considera o Ministério da Cultura como “café-com-leite” (tipo irmão mongo no esconde-esconde). Em sendo assim, doravante Uncle Filthy pretende pagar a parte de seus impostos que financia o Ministério da Cultura com dinheiro do Banco Imobiliário.

Bode velho estrupa ninfeta: Já o Outro Baiano Maligno, poli-inválido praticante de muitas barbaridades culturais (quem consegue esquecer o filme Cinema Falafel e os crimes musicais cometidos por ele contra a oeuvre de gênios da raça como Vicente Celestino, Odair José e Peninha?), passou batido pela acusação de dirty old man, talvez por falta de publicações combativas como The Sun e National Enquirer na mídia bananal, ainda que a Ex-Mulé de Baiano Maligno se tenha um dia gabado em entrevista de que o Peninha-cover, então com 630 anos marromenos, a passara na vara quando ela tinha 13. Não é por acaso que o Outro Baiano Maligno terminou trinando uns cucurrucucu, paloma, a mando de Pedro Almofadón, fino cultor do sexo bizarro.

Hoje não que eu tô de Chico: O cara é fanho e cantor há 40 anos, o que deveria ser argumento suficiente, se bem seja forçoso reconhecer que, aplicado rigorosamente, o critério deixaria só uns quatro vocalistas empregados na MPBD (música pra boi dormir). Mas o old blue eyes similar nacional raramente leva as cacetadas que merece da mídia. Por exemplo, se a ditadura era tão féladaputa e inaceitável, como exatamente ele justificava receber uma grana da Embrafilme pelas muitas bestaj de cinema em que esteve envolvido 20 ou 25 anos atrás? Se você tá ganhando um estipêndio do calhorda que te censura, que moral tem pra criticar a censura? Além do que, já não tinha cineasta ruim o bastante no Brasil? Precisava mesmo ficar trazendo o Ruy Guerra de volta toda hora? E, é claro, será que ele toca “Vai Passar”, aquele sambinha de potresto digno de um aluno de sexta série, quando recebe o Fidel prum churrasco de criancinha em seu bunker carioca? Certas ditaduras são mais iguais que as outras, hélas.

Mais velhos que a Jovem Guarda: Se você tá batendo nos 70, mano, a única vanguarda que ocupa é a das filas especiais pra caco velho nos bancos e supermercados. A não ser, claro, que você seja “agitador cultural” no Bananão, e continue vendendo na quentinha, a cada ano, a mesma baba de quiabo que punha à mesa na época da série Jânio é um Gênio. (Zé Celso, hélas, só optou por encenar sua revolucionária montagem de O Rei da Vela porque ainda não tinham inventado a luz elétrica.) On a related note, outro hábito peculiar da nossa pátria, mãe gentia, é distribuir "troféu revelação" pra gente de 45 ou 50 anos. Young at heart, eh, what?

capsMuitoLock.com: Alguém mais aí fica de saco cheio quando tem de seguir as contorções ortográficas de nome de firrrrma mudérninha? Tipo, comBi.ned.com? Ou grafar "Fordfiesta"? Ou escrever "Academy Award TM" em vez de usar “Oscar” de uma vez? Alguém mais se irrita quando lê que a pessoa era do “female gender”? (Pros vanguardistas velhinhos como Uncle Filthy, palavras têm gênero. Pessoas têm sexo –quer dizer, algumas. Uncle Filthy mesmo num come ninguém.) E se irrita ainda mais quando alguém tenta explicar que talvez haja só dois séquissu mas existem cinco gêneros? Alguém arreganha os dentes quando encontra num texto “O Le Monde” ou “O The New York Times”? E esse uso hediondo de “cativeiro” que os jornais adotaram –como designação para o local de cativeiro, e não a condição de estar cativo? (A mãe do Robinho, tadinha, “passou por três cativeiros”.) Tudo bem, eu sei que o dicionário aceita a acepção “local de cativeiro” para a palavra, mas qual é a fonte usada para justificá-la? O Globo, 1991. Ou seja, o jornal pode usar “cativeiro” pra designar “local de cativeiro” porque o jornal usa “cativeiro” para designar “local de cativeiro”. Mas em qualquer livro de prisão crasse com mais de 50 anos de uso, cê vai encontrar frases como “foi um longo e árduo cativeiro”, e nunca “no cativeiro tinha umas cortina imunda”.

Caça aos fanhos: Bob Hajdu, autor de uma biografia soberba de Billy Strayhorn, escreveu Positively 4th Street, história dos anos folk de Bob Dylan e Joan Baez. Porque gosto da 4th Street, comprei o livro no sardão, e encontrei logo uma pérola. Explicando a visão do cantor folk cumunista Pete Seeger sobre o papel da música, Hajdu cita: “’We don’t need professional singers. We don’t need stars’”. E comenta: “The idea surely ran counter to the prevailing cultural tenets of glamour and professionalism. Down with the aristocracy of the Hit Parade, up with egalitarian amateurism. A message with appeal to the disenfranchised, the disconnected and the tone-deaf...” Ou seja, até os fanho são culpa do cumunismo. Não é à toa que a era do cruzado anticumunista senador Joe “Tailgunner” McCarthy, maior ídalo do Fudílson, abarca os anos dourados da música americana –bebop, mainstream jazz, standards, Sinatra na Capitol, os songbooks de Ella-, tudo isso insidiosamente demolido pela conspiração musical vermelha e substituído por Joan Baez, os Monkees e Liberace, quando McCarthy foi defenestrado. Se eleito for, Uncle Filthy vai imediatamente organizar uma lista negra (afrodescendente? departamento jurídico, faiz favô?) de fanhos e tirar todo mundo do rádio.

Torture never stops: Onde estavam os protestos desses brasileiros chatos -que a gente é forçado a conhecer em aeroporto americano e apontam o triste episódio de Abu Ghraib como prova de que os Estados Unidos são tão hediondos quanto o Iraque- nos 24 anos em que Saddam Hussein ordenou a tortura e execução extrajudicial de dezenas de milhares de pessoas no mesmo presídio? The answer, my friend, is blowing your nose, the answer is blowing your nose.

January 03, 2005

 

Janus Jumps


"Now, by two-headed Janus, Nature hath framed strange fellows in her time"*

Com 26 anos, Fernando se casou. Com 27, arrumou uma amante. Era como se as duas coisas fossem igualmente inevitáveis, como se o Grande Roteirista lá em cima tivesse imposto a duplicidade. Não que Fernando se sentisse peão na tragicomédia do Olimpo: pra ele, tanto casar quanto arrumar uma amante, assim, “UMA AMANTE”, como se costumava ter no tempo de seu pai, eram marcas de uma maturidade e sofisticação que não conseguia sentir de outro jeito. Não é muito elegante admitir essas coisas, mas me aproveito do manto do narrador onisciente pra dizer que Fernando –como muito mais gente que leva esse tipo de relacionamento em caráter mais ou menos permanente- morria de tesão pela mecânica da duplicidade: as desculpas, as mentiras, as manobras, as horas ou minutos roubados, as trepadas sumárias perdoadas ou mesmo compelidas pela condição de “amasiado” (e até a palavra “amasiado”, com suas conotações de folhetim de porta de cadeia), eram parte indissociável do prazer. Fernando não amaria tanto a amante se ela fosse outra coisa que não amante. E não sentiria tanta ternura pela mulé se ela fosse outra coisa que não corna.

Fernando não sentia culpa, não sentia pena, não se colocava no lugar de nenhuma de suas duas mulheres. Se recusava a acatar a tese implícita de que qualquer pessoa tivesse direito a 100% de sua atenção, de seu afeto, de suas ereções, de seu tempo. Sofismava pra deslizar ao largo do dilema moral, alegando, para si mesmo, que nunca prometera fidelidade a ninguém. Por outro lado, Fernando provavelmente se sentiria ofendido caso o classificassem como calhorda. “São coisas diferentes, Adriana”, discursava mentalmente para a amante: “Não dou a ela o que dou a você”. E para a mulher, dizia, sem dizer: “Pô, Cris, você preferiria que eu transasse com você pensando em outra mulher?” Duplicidade era um modo de vida, pra ele. Em casa, na escola, faculdade, trabalho, Fernando estava sempre pensando uma coisa e dizendo outra, aceitando acordos inevitáveis com toda espécie de demônio mas ressalvando mentalmente um isso ou aquilo pra servir como saída de emergência, caso o tinhoso viesse cobrar o pandeirão do ectoplasma em alguma encruzilhada. Encontrava paralelos simplistas e convenientes para se justificar: amava Cris, como amava o cinema, mas precisava de Adriana, da mesma forma que precisava do emprego como supervisor de mídia. Uma coisa não negava ou excluía a outra, claro. (Mas ele não estendia o paralelo muito adiante do bingulim –porque sabia que largaria a mídia de olho fechado caso pudesse ganhar a vida com cinema, e sabe deus se largaria Adriana caso Cris fosse mais chegada à perversão número 18.)

Foi o amor pelo cinema, aliás, que pôs fim ao idílio erótico que Fernando vivera por uns dois anos (já que, dude, como diria o narrador onisciente se bem que tarado, tem pouca coisa mais diliça que chegar em casa de encontro com a amante e splóft a titular). Porque Cris não ia ao cinema sozinha, ele costumava assistir filmes com a amante o tempo todo, arrazoando que dificilmente encontraria a mulé na fila da bilheteria. Era um esquema conveniente e barato para reduzir um pouco o estigma de usucapião erótico que esses casos que giram eminentemente em torno de furumfa portam como uma espécie de fungo moral (besides, a amante era melhor companhia cinematográfica que a mulé, já que Cris tinha não só o infeliz hábito de gostar mas a tendência deprimente de chorar em genocídios cinematográficos como Tomates Verdes Fritos). O dobre de finados foi O Paciente Inglês. Depois de ser arrastado pela mulher muito a contragosto para assistir à bestaj, Fernando teve de encarar o suplício pela segunda vez, já que prometera a Adriana que assistiria ao filme com ela, e não podia revelar a “infidelidade”. Chegaram atrasados como sempre, e Fernando foi comprar uns munchies enquanto Adriana ia ao banheiro. Na porta, esperando a amante, Fernando engasgou com o Mentex vendo a mulé sair do banheiro. E antes que arrumasse uma desculpa, diante do espanto de Cris, Adriana, por sua vez, saiu do banheiro e lhe tascou o maior beijo –“corre, senão a gente não encontra lugar”. Fernando, depois de tanto ensaiar aqueles discursos todos, tomou ar e disse "er". E Cris se apresentou: “Oi, eu sou a Cris. MULHER dele”.

Seis meses depois, morando com Adriana e trabalhando como frila em uma produtora de filmes publicitários (já que sogro que arranja emprego facilmente vira ex-sogro que despede), Fernando continuava culpando o féladaputa do Anthony Minghella, aquele destruidor de lares.

* Milk Shakespeare, The Merchant of Venice, I, 1.

 

A linha de sombra


"For all that has been said of the love that certain natures (on shore) have professed to feel for it, for all the celebrations it had been the object of in prose and song, the sea has never been friendly to man. At most it has been the accomplice of human restlessness, and playing the part of dangerous abettor of world-wide ambitions"*.

Quando eu era moleque, desenvolvi o hábito de ler compulsivamente –com direito àqueles clichês do tipo ler com uma lanterna embaixo das cobertas depois do toque de recolher. Não tinha nenhum preconceito e nenhum discernimento especial. Aliás, acho que só me interessei tanto pela leitura porque era uma coisa que eu podia fazer sozinho numa casa sempre cheia e na qual não era considerado admissível que as crianças tivessem TV em seu quarto. Meus livros prediletos, craro, eram os de aventuras, todos machistas, racistas, imperialistas, eivados de clichês e previsíveis (ainda que, se alguém tentasse me explicar isso, então, levaria como resposta o “ai, santa”, em tom abichalhado, que minha gangue escolar reservava para exprimir o mais profundo desdém.) Quando eu tinha uns 12 anos, cruzei pela primeira vez, sem saber, a linha de sombra que separa minhas aventuras (ainda) tão queridas da, vá lá, “literatura”. Uma das vantagens de viver em meio a uma família que considerava Harold Robbins e os romances de banca da série Júlia e Sabrina como bons livros –pra não falar da minha tia supostamente inteligente-e-que-estudou-em-Londres (I wonder what) mas ainda assim vivia sob a estranha ilusão de que Graciliano Ramos e Guimarães Rosa fossem a mesma pessoa- é que ninguém tesourava o que eu lia. (A mamma, por exemplo, acatou sem a menor reclamação, dois anos mais tarde, meu pedido de comprar Ulisses na edição do Círculo do Livro, já que nem eu nem ela sabíamos que o treco era ilegível, e nos baseamos simplesmente na resenha da revista.)

O livro que me levou pro lado negro da força tinha muito em comum, superficialmente, com os romances de aventura. Aos 12, eu estava na mó fase pirata: Salgari e Sabatini eram os meus prediletos, e em meio ao tédio paulistano da minha vida de quatro-olhos, eu vivia içando a bujarrona e singrando mares nunca dantes navegados. Meu livro de piratas predileto era Sandokan, o Tigre da Malásia –como Edgar Rice Burroughs, o pai do Tarzan, que nunca foi à África, Emilio Salgari mal saiu de Verona, em vida, mas o oceano Índico que ele criou na minha imaginação era muito mais vivo e colorido do que a contraparte real. Um dia, na banca, descobri Lorde Jim, nessas edições baratas, e lendo a contracapa –mó propaganda enganosa, aliás- imaginei que se tratasse de mais um romance de aventuras –um marinheiro branco que se interna nas selvas malaias e vira rei da indiarada? Uau! Lendo Lorde Jim, pimba, I was hooked. Joseph Conrad, capitão do Otago, ao contrário de Salgari navegara por lá, por aquele mar de crepúsculos purpúreos, tufões, temporais inclementes, estreitos traiçoeiros. E ao desconforto romântico dos personagens de Salgari, sêo Korzeniowski acrescentava um tremendo desconforto moral. Os protagonistas de Conrad são sempre estrangeiros onde quer que estejam. E a natureza que os cerca, se bem deslumbrante, tem sempre uma ameaça na manga do colete. Pensei muito em Salgari e Conrad nesses dias de tsunami –naquele mar impiedoso que eles descreveram, inventaram, e na linha de sombra que divide a vida e que a gente cruza com o coração opresso. Os romances de aventura e a sofisticada ficção moral de Conrad, que teoricamente soam antiguinhos diante de tanta teoria dos gêneros e blablablá lítero-político, na verdade parecem muito mais realistas do que o ecobabble que nos vem sendo vendido nas últimas décadas: a natureza, alas, não é cuddly. O conceito de equilíbrio natural é uma ficção romântica pior que as emaranhadas tramas de Salgari. A natureza, aquele grande mar e suas cores e vagalhões, só podem ser descritos como “indiferentes”.

Seria divertido trabalhar em ritmo de filme B e alegar que o tsunami foi a vingança da Mãe Natureza contra os turistas, o turismo, a industrialização de uma relação que deveria ser “sagrada” –afinal, todo homem de boa vontade sabe que Cancún não passa de um campo de concentração niquiq a tortura principal é aprender a macarena-, mas que nada: se bem eu sempre tenha gostado da idéia de comparar terremotos ao cachorro que sacode as pulgas (Fudílson, o apocalíptico), o tsunami prova que esse não é um bom símile. O totó expulsa as pulgas porque elas o incomodam. As placas tectônicas se movem porque se movem. Não importa o que nós, as pulguinhas morais do planeta, estejamos fazendo cá em cima. E resta ainda uma linha de sombra a ser cruzada. O fato é que, como Salgari escrevendo de sua casa em Verona ou como Conrad e seus protagonistas perenemente estrangeiros onde quer que se encontrem, eu contemplo essas tragédias de fora. Tem uma certa obscenidade inerente ao voyeurismo de tragédias, e a mim não serve de desculpa o fato de que deveres e compromissos profissionais me obrigam a contemplar a devastação. Mesmo depois de doar uns merréis e um bom tanto de horas de trabalho ao esforço de assistência, eu continuo me sentindo escroto. Porque o que me ocorre escrever para lidar com a calamidade é um ensaio subliterário qualquer, sobre um mar que nunca existiu ou deixou de existir 120 anos atrás. Para o voyeur de disgrama como eu, os “moradores locais”, alas, a maioria absoluta das sei lá quantas dezenas de milhares de vítimas, são como extras marronzinhos em filme de Hollywood: ninguém quer mesmo saber o que acontece com eles no final da história. Mas eles SÃO a história. Não as ondas cinematográficas, não os turistas (há males que vêm para bem, aliás, se o tsunami ajudar a reduzir o número de jet skis). E pra toda essa gente cujos idiomas não falo ou leio e cujas vidas foram destroçadas pela calamidade du jour, eu como sempre nada tenho a dizer. (Ai, santa.)

*Joseph Conrad, The Mirror of the Sea, 1906

January 02, 2005

 

Pay no worship to the garish sun


Gig from Hell(oween), circa 1984:
Dave 'Boogie Boy' Braun (1965 - 1989)*

"I see the needle and the damage done
A little part of it in everyone"

* Thanks to Ben and Mo for the picture and for being there

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