July 04, 2005

 

Grandes Vultos dos Anos 70 -10


Sujismundo dos Santos (1971- )

Nos anos 70, a ambivalência intrínseca do Bananão era ainda mais pronunciada. De um lado, a obsessão com superlativos -a ponte Rio-Niterói era a maior do mundo, o rio Amazonas era o maior do mundo (“por volume de água”? Who cares?), a Transamazônica era a maior rodovia do mundo. Do outro, de vez em quando rebrilhava por sob a dose intragável de megalomania a velha preocupação brasileira com o “sou pobre porém limpinho”.

É uma das minhas frases prediletas. Não faço a menor idéia sobre a origem e, se foi algum escritor que inventou, o cara merecia estalta em praça pública. Não porque “pobre porém limpinho” represente bem os nossos pobres (que sempre me pareceram peculiarmente sujinhos), mas porque representa com perfeição as aspirações das otoridad e da classe média quanto aos Dejanílsons que trabalham de porteiro em nossos condomínios.

Na psicologia barata do Bananão, o “pobre porém limpinho” representa a banda positiva do espectro enquanto o “favelado” representa a negativa. O “pobre porém limpinho”, claro, “conhece o seu lugar”. É humilde, industrioso, agradecido pela roupa velha que ganha de presente. Não toma porres, não assalta, não encoxa menina de família no buzum, e usa instintiva e nada ironicamente expressões como “bacana”, “dotô” e “chefia” ao se dirigir aos seus nem tão pobres -mas também limpinhos-, er, superiores na escala social. O “pobre porém limpinho” é fodido na vida mas conformado. Não ofende, não ameaça.

Em 1971 e 1972, o governo decidiu fazer uma campanha publicitária com o suposto objetivo de combater os hábitos higiênicos insatisfatórios da patuléia mas na verdade para promover o ideal do “pobre porém limpinho”, e as telas de TV foram invadidas pelo Sujismundo*, um pobre porém sujinho que sujava tudo que encontrava ao seu redor. (Sujismundo é –surpreendentemente- branco, ainda que eu ache que isso se deva ao fato de que seria difícil mostrar a sujeirinha no rosto de um personagem de animação preto.) O Sujismundo, com aquele terno amarfanhado de pobre procurando emprego e a propensão a arremessar porcaria, se tornou o mó ídolo entre as crianças. (A ponto de preocupar as otoridad, que supunham que a simpatia pelo sujinho poderia derrotar os propósitos da campanha.) Ainda assim, a campanha “pegou”: lembro distintamente que as crianças se chamavam umas às outras de Sujismundo quando faziam caquinha na escola.

O Sujismundo, como o Cascão e outros heróis do fuck-lore bananal –por exemplo o Cafajeste Simpático-, é o melhor retrato de uma década iniciada com euforia megalômana e terminada em sauve qui peut, sob os auspícios daquele presidente que preferia cheiro de cavalo ao cheiro de povo. E essa imagem aí do Sujismundo astronauta (que eu não conhecia, em criança,) é um resumo diliça do ethos brasileiro, então e agora: continuamos burros e pobres e sujinhos, mas temos programa espacial, porque um dia o Bananão cumprirá nossa missão histórica: to boldly throw trash where no man has ever thrown trash before.

*Criação de Ruy Perotti e da Lynxfilm

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