June 01, 2005

 

Serenity Now!


Larry David (r) e Larry Charles, the brains behind
"Seinfeld" and "Curb Your Enthusiasm"

Eu sou consumidor compulsivo de humor –de quadrinhos no jornal a sitcom, de Mussum aos irmãos Marx, não passa um dia sem que eu dedique nem que seja meia horinha ao consumo do meu estupefaciente predileto. E a não ser que você seja um espectador muito, muito peculiar, é difícil negar que, de 1989 para cá, o panorama do melhor humor do mundo passa necessariamente por Larry David.

Pra quem trabalha no ramo do humor, especialmente se o cara é judeu e nasceu em Nova York, a figura tutelar dos últimos 30 anos tem de ser Woody Allen, um dos poucos comediantes que se deu bem em todas as áreas da disciplina –ele começou vendendo gags para os humoristas de night clubs, foi redator no lendário programa televisivo de Sid Caesar (em companhia de pesos leves como Carl Reiner, Mel Brooks, Neil Simon, Larry Gelbart), fez carreira como stand-up comic e terminou chegando ao cinema com What’s Up Tiger Lilly, um filme japonês de espionagem para o qual escreveu diálogos dublados antológicos.

Para a geração que o seguiu, portanto, Allen era o exemplo a ser emulado. E Larry David (nascido em 1947, 12 anos depois de Allen), de certa maneira incorporou ao seu trabalho porções essenciais da persona desenvolvida pelo predecessor –o sujeitinho ansioso e resmungão quintessentially Jewish, sempre razoavelmente desconfortável com qualquer que seja a situação em que está envolvido, compulsivamente neurótico e propenso à auto-ironia. Mas deu o passo à frente que Allen nunca teve coragem de tentar, e simplesmente abandonou qualquer ambição “artística”: os personagens de David, tanto o George Costanza de Seinfeld quanto “Larry David”, de Curb You Enthusiasm, em momento nenhum oferecem qualquer indicação de grandeza.

Allen sempre recheou seus filmes e contos de citações (ou paródias) cabeça –de Flaubert a Kafka, de Tolstói a Bergman. Com base no que David escreve, é impossível dizer se ele é culto ou não (pequenos indícios como as referências irônicas a Death of a Salesman ao longo das temporadas de Seinfeld ou paródias cinematográficas magistrais que às vezes passam despercebidas nos episódios indicam que sim, mas ele jamais faz uma citação explícita.) David opta por deliberada renúncia a qualquer vestígio de grandeza, seja moral, seja intelectual, seja de sentimentos. E –brilhantemente- faz com que todo mundo se identifique com os seus alter egos apenas por meio da patologia e da neurose. Os personagens de David não assistem Ophuls; discutem Star Trek: Wrath of Khan.

E a verdadeira grandeza de tudo que David escreve está exatamente na rejeição àquilo que é grandioso, e até mesmo à autoria (boa parte dos diálogos de Curb Your Enthusiasm são improvisados –e todo mundo que assiste Seinfeld sabe que David escreve os melhores diálogos do ramo). Para o humor de Larry David, não há temas proibidos, e a barreira entre “bom” e “mau” gosto que impera na televisão é solenemente ignorada. David faz piadas sobre raça e racismo, sobre religião, sobre dinheiro, sobre masturbação (dois dos melhores episódios em suas séries giram em torno do cinco contra um). E não perdoa nem mesmo os tabus mais cabeludos –em episódio da quarta temporada de Curb Your Enthusiasm, um rabino convidado a jantar na casa de David diz que vai levar um “survivor; David entende que se trata de um sobrevivente do Holocausto, e pede ao pai que convide um amigo, também egresso dos campos de extermínio, para que o sobrevivente se sinta menos solitário. Turns out that o “sobrevivente” convidado pelo rabino era ex-participante do reality show Survivor, e é claro que David promove um patético arranca-rabo entre sobrevivente e survivor sobre o que é mais difícil, Auschwitz ou comer minhoca.

O trabalho de David nega, em episódio após episódio, o mito mais caro à arte e ao entretenimento modernos: em Seinfeld e em Curb Your Enthusiasm, não existe um vislumbre sequer de redenção. A vida não faz sentido, o mundo é terminalmente escroto, e você acaba preso, ou morto. Como disse David ao ser aplaudido de pé pelo merecido Emmy que ganhou com o roteiro de “The Contest”, episódio que celebra a punheta na quarta temporada de Seinfeld: “This is all well and good, but I'm still bald”.

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