June 02, 2005

 

O teu cabelo não nega


A bad hair life

Por mais que o marketing do cristianismo tenha insistido nesses dois mil anos, a vaidade continua a ser um dos sentimentos dominantes entre as ovelhinhas de são jizuis, e se manifesta em formas de maneira alguma limitadas às roupas ou à aparência. But we live in shallow times, my friends, e as vaidades de aparência são as mais perceptíveis. Não vou sair aqui em cruzada contra o Botox, os implantes de silicone, o branqueamento de dentes, o bronzeamento artificial, a lipoaspiração. Mas, pô, o ponto essencial da vaidade, methinks, é melhorar a aparência do cidadão. O que suscita diversos mistérios, entre os quais o tema do post de hoje: por que, em nome de são jizuis, o cara que tá ficando careca optaria por usar um chinó?

Uncle Filthy estava placidamente instalado no elevador, sem incomodar ninguém, folheando sua cópia da revista Vigília Caminhoneira; a porta se abre, entram dois sujeitos parrudões, de terno preto e camisa branca, shades, ar arrogante, braços cruzados à altura do peito, e, depois que eles sinalizam pro lado de fora, segue-os um sujeito que pareceria uma versão ampliada em 120% do Hervé Villechaize, não fosse um chinó escultural que acrescentava uns 30 gloriosamente falsos centímetros ao seu metro e 30. Aí, mais dois brutamontes vestidos de clone; o elevador desce.

No térreo, alguém comenta que se trata de um candidato sempre derrotado à presidência das Filipinas. Dude, será que ninguém avisou o tampinha aspirante a potentado que muito melhor a calvície do que aquele exótico espetáculo? Pensando bem, será que ninguém avisou Frank Sinatra, Burt Reynolds, Zacarias dos Trapalhões, Ted Danson, William Shatner, Donald Trump? O chinó –e equivalentes femininos como aquelas mulé que pesam 650 quilos e decidem pintar o cabelo de vermelho cobalto- é um argumento muito mais poderoso do que a religião, se o objetivo é combater a vaidade, já que o efeito prático do chinó é desmentir todas essas teorias de que, yo, o importante é a pessoa fazer alguma coisa que a leve a se sentir bem consigo mesma. Porque é mais honesto se olhar no espelho e admitir “careca” do que se olhar no espelho de chinó e achar que ninguém vai perceber. De qualquer jeito, sua caixa craniana vai servir como ponto de referência –e é bem melhor “ali, do lado do aeroporto de mosca” do que “ali, do lado daquele cara com o esquilo morto na cabeça”. Se a genética não colaborou, melhor não instalar uma placa em néon apontando para a disaster area.

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