June 08, 2005
Num faz, e ainda assim rouba

"Governar é superfaturar viadutos"
As pessoas “politizadas”, no Brasil, costumam, craro, ser de esquerda –ninguém que não seja de esquerda usaria uma palavra horrorosa como “politizado” pra se descrever. E entre os politizados paira sempre aquele ar de horror incrédulo para com o povo, porque o povo é “ingênuo”. O argumento chave dos politizados pra explicar o apego do povo a figurinhas difíceis como o engenheiro Paulo Maluf é que a patuléia, “ingenuamente”, ainda acredita no velho chavão do “rouba mas faz”. E, porque o “rouba mas faz” é ingênuo –e anátema- os esquerdistas brasileiras terminam sempre com uma fórmula que, se expressa francamente, poderia ser resumida em “faz que faz, mas pelo menas não rouba”. E esse “pelo menas não rouba” é motivo de imenso orgulho entre os sábios proponentes da, er, “cidadania”.
Tenho uma mui querida amiga que por alguns anos, antes de emigrar, trabalhou no ramo de planejamento urbano em Sumpaulo. Entre outras coisas, o trabalho dela envolvia visitar essas comunidades pitorescamente batizadas como “Jardim Sapo”, “Vila Joanete”, “Cidade Caó”, e perguntar à patuléia local de que os moradores mais sentiam falta em seus bairros. A resposta era sempre “puliça”, em primeiro lugar, e “açougue”, em segundo. Claro que os politizados ignoravam solenemente as duas coisas –a primeira porque puliça é atribuição do governo estadual e eles representavam o município (o que faz muita diferença pros assaltados, let me add), e a segunda porque pedir açougue pra prefeitura, como votar em cara que rouba mas faz, era evidentemente expressão da tremenda ingenuidade do povo –se bem possa representar também que a pesquisa foi feita na hora da janta.
Já eu, que nasci mulambento e trabalhei em lava-rápido, não vejo ingenuidade nenhuma nessas opções. É assim, ó: o populá sabe que, inevitavelmente, o político vai roubar. É da natureza da política brasileira, e pouco importa o partido. O cara que “rouba mas faz” faz alguma coisa e, mesmo que seja viaduto superfaturado do nada pra lugar nenhum, o populá decerto já considerou a hipótese de um dia ter de morar embaixo de viaduto: esse tipo de obra é como um seguro contra o desabrigo. Em resumo, pra muita gente que escolhe o “rouba mas faz”, a presença física da obra representa alguma coisa, enquanto o tipo de prioridade que muitos governos de esquerda propõem, as obras “sociais”, uh oh. Porque o populá sabe como é tratado pelos funcionários públicos e nos serviços públicos quando o governo é de esquerda: igualzinho a quando Genghis Khan era prefeito. Quer dizer, sob critérios perfeitamente racionais, muita gente prefere obra cretina a programas sociais, porque a dinheirama gasta deixa alguma coisa. Não é ingenuidade: é puro amargor.
Enquanto isso, os politizados que não acham que a demanda por puliça e açougue mereça atenção desenvolvem, claro, um plano urbanístico caracterizado por essas coisas que esquerdista adora, assimquinêim centro cultural. Basta vagar um barracão em qualquer periferia que aparece um esquerdista querendo fazer centro cultural. Porque, yo, o populá com certeza vai querer sair de casa onde tá vendo Yoná Magalhães seminua em Irmãos Ferrugem pra fazer um curso de mamulengos. Ou aprender a dançar o lumbago. Ou assistir a uma oficina de artesanato típico do Piauí (tudo que se pode fazer com uma combinação de areia e caveira de burro).
Por isso é que é divertido ler as desculpas esfarrapadas dos petistas agora que começam a surgir todas essas denúncias de que o virginal partido, além de não fazer porra nenhuma, também rouba. Vamos ver se eles se lembram das técnicas cumunistas que decoraram quando eram membros da Libelu(ftal) e partem pra autocrítica. Só espero que não seja em praça pública porque vai voar muito, muito perdigoto.