June 05, 2005
Auto-ajuda e o robô cagão

What a crappy thing to do
Eu nunca tive coragem de ler um livro de auto-ajuda, apesar de considerar que a experiência deve ser informativa e hilariante. Mas tem alguns clichês do ramo que flutuam por aí e sempre me deixaram intrigado. Por exemplo, aquela história do “se você quer mesmo ajudar, não dê um peixe: ensine a pescar”. Yo, Uncle Filthy já foi alvo dos esforços mendicantes dos melhores profissionais do ramo em uns quatro continentes, e nunca, nunquinha, o mulambento me abordou dizendo, “ô, bacana, me dá um peixe, aí. Uma manjubinha só serve. Aceito atum e sardinha em lata. Aceito até só a lata. Melhor pedir do que robalo”. Esse negócio de ensinar a pescar requer equipamento –o cara vai precisar de vara, de minhoca, de baubanti. E dadas as condições sanitárias das vias aquáticas nas cidades com maior concentração de mulambento, não vai ser ajuda das mais eficientes. Duas horas na marginal do Tietê com um pregador no nariz, e o samburá provavelmente vai registrar um total de capturas de um pé esquerdo de Conga, furado na sola, um pneu careca de Kombi e 127 bagres cegos.
Outra historinha exemplar do mundo da auto-ajuda (ou similar nacional) é a do sujeito cronicamente deprimido que procura um psiquiatra contando que se sente triste, desanimado, pensa em se matar, e o bizi recomenda: “Você deveria assistir o espetáculo do famoso palhaço Birnbaum, que está na cidade, porque ele te fará esquecer todas as tristezas”. E o cara suspira e diz, “eu sou Birnbaum”. Pô, que cazzo de biziquiatra é esse? O paciente chega deprimido ao consultório (código para “me receita logo um Prozac”) e a solução que ele recomenda é ir ao circo? Não só a receita parece abstrusa em termos médicos como, yo, esse cara vai tomar o mó ralo no sindicato dos shrinks porque não recomendou que o mano se preparasse para uma longa, longa terapia, coisa de cinco ou seis anos à base de três sessões lacanianas por semana.
E tem também aquela maravilhosa frase, “denial is not a river in Egypt”. É o que, então? Uma cidade no altiplano da Búlgaria? Um clássico desse discurso contra a negação é a frase “o vício é a solução, não o problema, e precisamos tratar do problema”, mui usada em preleção para gente que passou por experiências de detox. (Eu consigo perfeitamente imaginar o junkie, detido na boca de crack pelos bravos agentes da polícia de Nova Jersey, alegando “opa, mas o mano do detox disse que o vício era a solução”. “Então você tem um pobrema”, retrucaria o sagaz meganha.)
Quando penso em auto-ajuda, lembro sempre de um dos sites mais bacanas em que trupiquei na Internet, o cujo qual divulga um autômato que passa 100% do tempo fazendo o que os seres humanos fazem durante marromenos 70% do tempo, trabalho tecnológico de notável criatividade. Auto-ajuda, da mesma forma que o robô cagão*, parece ou inútil ou ligeiramente insana, como os médicos maravilhosamente interpretados por Graham Chapman em programas do Monty Python. Prefiro me auto-ajudar pensando na imortal Nádia Lippi.
*E em homenagem aos criadores do RoboDump, aqui tem um quiz maravilhoso para ver quem consegue diferenciar serial killers de pioneiros da informática. Muito ilustrativo.