May 11, 2005

 

R-E-S-P-E-C-T


"Quem se curva diante dos opressores
mostra a bunda aos oprimidos"

No ginásio, eu tinha um feçô que era uma espécie de almanaque do bad cliché, e o favorito dele sempre foi “vocês estão confundindo liberdade com libertinagem”, o cujo qual, sempre que pronunciado, me arremessava ao mais terrível dos giggle loops (a palavra “libertinagem”, mesmo sem o resto do clichê, continua a ter esse efeito, aliás, passado um quarto de século). A lembrança do clichê hediondo me ocorreu enquanto eu tentava com a maior honestidade descobrir por que correção política me causa hilaridade. O paralelo é claro: correção política é uma maneira de aplicar a todas as coisas uma demão de respeitabilidade -mas respeitabilidade dessa ordem caricata tão cara às otoridad e aos maus professores. Correção política está para os últimos 30 anos assim como peruca e meia de seda estavam para a corte de Versailles. Velhacos bem vestidos continuam velhacos. E por mais que o mano se force ou seja forçado a escrever “transgênero”, mentalmente ele vai estar pensando “traveco”. (O risco inerente da correção política, aliás, é que ela tenha efeito inverso ao que pretende e termine emprestando conotações racistas aos termos supostamente neutros que adota –ou vocês não percebem o desdém incipiente com que os racistas empregam o termo “African-American”?)

Não, don’t fear, nada de rants contra a correção política –que pra mim é fonte de perpétua diversão (chamar convescote acadêmico de “ovulário” porque “seminário” é machista? Come on.) No entanto, a busca renitente por respeitabilidade que os PCs promovem me parece patológica. Há uma diferença essencial entre ser respeitado e ser respeitável, e o que a correção política consegue, no máximo, é tornar suas catigorias “respeitáveis”, com todas as aspas. Temo que o mesmo esteja começando a acontecer, aliás, com os blogs. Minha ogra madrinha, Lady Jules, em debate filosófico dia desses, disse que blogueiro é o rock star do século 21, com direito a groupie e calça de couro. Já tem sociólogo, antropófago, fêçô de literatura e psicanalista cravando as garras no “felômeno blog”, e todo mundo sabe o que acontece quando eles tomam conta do debate. Há umas duas semanas, em Paris, rolou uma conferência chamada “Les Blogs”: perigo, Will Robinson. Quando intelectual francês finca o óclinhos num tema, a diversão sai correndo pela porta oposta gritando “popô niqui mamã passou talquinho jamais será empalhado na Sorbonne”.

Os americanos costumam dizer que o 11° mandamento é “não serás apanhado”, mas Kunta Kinte McWanker-Smith, patriarca do clã Noronha-McNasty, sempre insistiu em que o 11° mandamento, ou o primeiro, pra todos os efeitos, deveria ser “não te levarás a sério”. À medida que aumenta o número de leitores do meu bestiário, me pego penteando o cabelo ou trocando a camiseta furada da campanha de Jacaré do Gás à vereança por uma camisa sociar da Garbo, antes de me sentar ao intimorato CompuBras para postar. Pra recorrer a mais um clichê professoral barato, respeito é bom e (até) eu gosto, mas o único respeito que vale a pena receber é aquele que me é dado voluntariamente por todos os meus três leitores. Meu medo é que esse interesse todo em tratar blog como coisa “de gente grande” elimine a (falta de) hierarquia natural que é uma das graças essenciais do brinquedo. Todo mundo aqui vale o que escreve (eu sei, Maria Alice, tô no setor de 1,99), e o respeito conquistado dessa maneira é muito mais saboroso do que aquele que poderia advir de um veredicto de crítica literária. No dia em que estudante capixaba de neurolingüiça analisar meu blog em tese com título quinêim Idioletos Urbanos na Blogosfera: Um Prolegômeno, fecho o lojinha e volto pra pintura rupestre.

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