May 05, 2005
My kind of dame

Lauren Bacall (née Elizabeth Joan Perske), 1924
O ingrediente número um de um bom filme noir é necessariamente a femme fatale; o gumshoe pode até ser bundão (vide Dana Andrews em Laura ou o protodetetive Glenn Ford em Gilda), mas a mulé precisa de alguma maneira convencer o espectador de que, yo, duas piscadas daqueles longos, longos cílios seriam suficientes pra tirar qualquer sujeito do bom caminho. É por isso que a longa série de noirs da dupla Alan Ladd/Veronica Lake, que inclui alguns dos trabalhos mais respeitados do gênero, nunca me convenceu: Lake tem cara de nota de 13 reais. Uma das convenções do gênero noir clássico é a de que a femme fatale sempre promete tacitamente ou sugere implicitamente um largo catálogo de perversões, mas nunca põe as parte na roda, pra usar uma expressão aristocrática; a fim de que essa stasis seja possível, a mulé precisa aliar sedução e mistério, encontrar um delicado equilíbrio entre a oferta física de seus curvilíneos dotes e a esquiva psicológica que faz com que o sujeito se disponha a fazer qualquer coisa pra, enfim, galgar aquela estalta da liberdade. (Por isso, aliás, o noir moderno funciona menas bem: no noir moderno, as mulheres dão.)

Bacall e Bogart em The Big Sleep
Nesse sentido, a femme fatale por excelência é –e só poderia ser- Lauren Bacall, ainda que, tecnicamente, nos grandes filmes noir* em que trabalhou, Bacall jamais tenha sido a mulé maligna. Ela chegou ao cinema por intermédio de Howard Hawks, que recebeu de um editor da Harper’s Bazaar cópias do teste de Bacall como modelo. Os dois concordaram em que a cover girl tinha a melhor bunda do universo, e Hawks assinou um contrato pessoal com a moça e escolheu To Have and Have Not como veículo para sua estréia. Opondo menina Lauren a Humphrey Bogart, com quem viria a se casar, o filme serve perfeitamente como resumo do que Bacall viria a representar: o tremendo sex appeal, o olhar oblíquo, direto e difuso a um só tempo, a voz grave, rouca, repleta de ironia, muito mais madura do que os 19 anos que La Bacall tinha, quando da filmagem; a promessa de infinita sacanagem e ao mesmo tempo o sentimento de que não havia nada de falso naquela aparição. Bacall, na fase noir, é um resumo do que todo homem sonha, mistura de perversa polimorfa e menina da porta ao lado, sedutora mas sem frescura, o tipo da mulé pra quem a letra de The Lady is a Tramp cai como uma luva. E, yo, nada na história do cinema é mais pornô do que dona Bacall dizendo “Oh, maybe just whistle. You know how to whistle, don’t you, Steve? You just put your lips together and... blow”.
*To Have and Have Not (Howard Hawks, 1944); o noir/spy flick Confidential Agent (Herman Shumlin, 1945); The Big Sleep (Howard Hawks, 1946); Dark Passage (Delmer Daves, 1947); Key Largo (John Huston, 1948). Dos não noir, assistam How to Marry a Millionaire (Jean Negulesco, 1953), nem que seja porque traz Bacall e Monroe juntas (e Betty Grable de brinde).