May 01, 2005

 

The importance of elsewhere


"Here, the souvenir from Edo"

Todo mundo é um pouco caramujo: leva a casa, ou parte dela, para onde quer que se desloque. É uma mistura complicada e indissolúvel de idioma, lembranças, paradigmas, os deuses dos nossos pais, música, TV, livros (pros 3% da população mundial que ainda os lêem). Mas é mais que isso. Embora como qualquer sujeito de razoável bom senso eu sinta forte vontade de guspí quando ouço expressões como “civilização ocidental”, seja a título de elogio, seja como insulto, yo, a verdade é que ela existe, nem que seja na forma de um enorme conjunto de referências tácitas que formam uma espécie de substrato pra tudo que a gente faz ou fala. Não tô apondo nenhum juízo moral a isso; sei lá se a presença da tal civilização ocidental nimim –filho de um cantinho dela que deve ter sido criado para fins de comic relief- é boa, ou má, ou necessária. Sei, no entanto, que ela É. Esses mano tipo assim Platão, São Jizuis, Nero, Michelangelo, Elvis fazem parte do coquetel de todos nós, por mais que a mistura pareça indigesta.

Por isso é que eu nunca me considerei seriamente estrangeiro enquanto estou na área de influência básica da dita cuja. O mais nariz empinado dos países europeus pode me achar jeca e bastardinho –e com razão-, mas eu reconheço instintivamente marromenos 80% do que acontece por lá. Mesmo que eu não entenda o idioma e não capisque as referências estritamente locais, sei do que estão falando, digamos. Não é só um conjunto cultural ou intelectual de referências, aliás: é uma forma assemelhada de utilizar o espaço, uma hierarquia urbana visualmente reconhecível, ainda que longe de imutável. Basta passar meia hora numa determinada parte da cidade até lá completamente desconhecida para você e se torna possível ganhar um certo senso “do que vem a seguir”. (Do mesmo jeito que, em um restaurante de qualquer dos países fortemente influenciados pela tal cultura ocidental, dá pra fazer alguma idéia instintiva de onde fica o banheiro, digamos.) É uma sensação razoavelmente cozy –e admito que, em determinadas situações, seja capaz de entediar.

O verdadeiro “estrangeiro”, pra mim, é um lugar em que as referências me escapam completamente, onde alguém espirra e eu me sinto paralisado de medo de causar ofensa se disser gesundheit, onde os lugares das coisas não são os mesmos, no mobiliário urbano. É uma sensação muito mais estranha do que não entender quase nada do idioma, das placas (aliás, como é que uma cidade desse tamanho vive quase sem placas de rua?), dos costumes –forma-se fila no cinema? Não se forma fila? E essa bilheteira aí tá querendo me dizer que eu preciso escolher aqui que lugar quero? Putzgrila. (Até que alma caridosa me esclarece que a mocinha está tentando me alertar que o filme é falado no idioma local, e não tem legenda –exatamente o motivo para que eu o tenha escolhido, o que também não sou capaz de explicar.) Na minha visita anterior, eu via diversos lugares de fachada discreta identificados por um ideograma que, baseado em meu parco conhecimento do alfabeto de origem do idioma local, eu entendia como “sopa”. Por que cazzo tem tanto restaurante de sopa na cidade, eu me indagava, e por que eles todos são tão discretos? Até que outra alma caridosa me explicou que o ideograma queria dizer “água quente”, thus casa de banho.

Não existe senso algum de ameaça; em nenhum momento, contemplando aquela gente absurdamente bem vestida, discreta, polida e ordeira, dá pra entrar em trip paranóica de medo de multidão desenfreada linchando o demônio ocidental. Mas, yo, me sinto estranho, nessa bela e indecifrável cidade sem centro. A ponto de contrariar o poeta e encerrar dizendo que here, only elsewhere underwrites my existence.

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