May 08, 2005

 

The Hollow Men


"And I became Death, destroyer of worlds"

Dia de efeméride, parada, análise estratégica, celebração hesitante, estatísticas. Há quase exatamente 60 anos matamos o ogro, ou os nossos ancestrais o fizeram, em nosso benefício, e em meio às incertezas do presente há sempre a memória daquela dia luminoso: o sol da vitória nascendo sobre as ruínas da Europa. Meu treinamento profissional, se bem empregado usualmente para fins que escandalizariam meus mentores, permitiria que eu discorresse sabiamente sobre aquelas coisas todas –balanço de poder, impasse, as ironias que sobrevieram a derrotados como Alemanha e Japão e a vencedores como a União Soviética e o império britânico, “o século americano”, a vitória –45 anos mais tarde- das decadentes democracias que fascistas e cumunistas encontravam tanta facilidade em considerar obsoletas, ou o fato de que, não importa de que brejo o leitor –ou o autor- provenha, a guerra de alguma maneira afetou sua vida. Mas a verdade é que eu passei os últimos três dias pensando nos mortos.

Eles descansam lá em seus monumentos de guerra, valas comuns, cemitérios, registros, arquivos burocráticos, fotos, filmes, memórias, em forma de sombras impressas nas paredes de Hiroshima e Nagasaki pelas explosões nucleares que tudo destruíram mas preservaram a silhueta de pessoas desintegradas. Uma montanha –ou cordilheira- de mortos, um oceano de cadáveres, um país enorme cujas fronteiras são os oito aterradores anos da guerra e cuja população é formada pelos 50 milhões, 80 milhões, 100 milhões de mortos que ela produziu direta ou indiretamente.

(Bala de pistola na nuca; bala de fuzil ou metralhadora na cavidade abdominal; concussão, descompressão explosiva ou dilaceramento causado pela detonação de granadas de artilharia ou bombas aéreas; morte por incêndio; por queimadura causada pelas incendiárias de fósforo -cujas chamas não podiam ser apagadas com água; sufocação causada pela destruição de alvéolos pulmonares por gases venenosos; sufocação causada por monóxido de carbono; envenenamento; fome, tifo; malária; diversas modalidades de febre da selva; crupe; rubéola; outras epidemias; golpes de baioneta; facadas; desabamentos; contaminação radiativa; atropelamento por tanque de guerra; dilaceramento por minas terrestres; dilaceramento por estilhaços ou shrapnel; enforcamento; suicídio por qualquer dos métodos acima citados; colisões aéreas, navais, entre veículos terrestres; ataques de animais selvagens; sede; doenças pulmonares, cardíacas, estomacais; falta de motivo para continuar vivendo.)

A verdadeira parada da vitória é feita desses cadáveres, desses pedaços de gente, dos membros amputados, dos restos calcinados, dos esqueletos que continuam brotando nos velhos campos de batalha da Rússia como lembrete de que nada foi esquecido e nada foi perdoado. E isso é a única coisa essencialmente importante sobre o que aconteceu uma vida atrás: nada esquecer, e nada perdoar. Quando penso na guerra penso nos números, sim, penso nos mortos, penso nos cadáveres deixados para trás como resíduo pela indústria da destruição, penso nos esqueletos que nenhum forno era capaz de calcinar por inteiro, penso nos milhões de chineses e bengalis mortos de fome –definhando lentamente por obra de qüiproquós logísticos causados por uma guerra que em nada lhes importava. Mas nunca me perco nos números, nunca me deixo hipnotizar pelo fascínio macabro e desumano das imagens, pelo desmantelamento visual da mecânica humana. Sempre que a vertigem da racionalização me assola, fecho os olhos e penso não “nos mortos”, mas em um morto, um soldado, uma vítima do genocídio, uma mulher morta por bomba a caminho do mercado. Uma vida besta como a minha, sem nenhuma aspiração altaneira ou possibilidade de grandeza, extinta. E sei que, apesar do alívio por os “bons sujeitos” (e alguns sujeitos realmente péssimos) terem vencido, yo, não tenho nada a comemorar. A única coisa que me é dado fazer pelos mortos é permitir que repousem em paz.

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