May 02, 2005
Freakonomics

"A Rogue Economist Explores the Hidden Side of Everything"
Um dos livros mais divertidos que li nos últimos meses foi Freakonomics, de Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner. Levitt é professor de Economia na Universidade de Chicago, e Dubner o conheceu quando o entrevistou para uma revista. A especialidade de Levitt é aplicar técnicas de pesquisa empírica usuais na economia a assuntos em larga medida ignorados pelos acadêmicos (um bom exemplo é seu estudo sobre equilíbrio entre diferentes estratégias que usa como base de teste a cobrança de pênaltis no futibór, publicado em 2002). Levitt explica esse interesse em assuntos bizarros contando que seu pai é um médico cuja especialidade é a pesquisa de gases intestinais (apelidado carinhosamente de “rei do pum” pelos colegas) e sua mãe é paranormal e “recebe” livros escritos por espíritos, o que sempre o levou a encarar a vida com alguma estranheza.
Be that as it may, Levitt –que ainda não chegou aos 40- vem se especializando em estudos microeconômicos de questões aparentemente corriqueiras, e os resultados que seus métodos analíticos propiciam são sempre divertidos e ocasionalmente espetaculares. Com a ajuda de Dubner, ele escreveu Freakonomics, trabalho no qual tenta responder perguntas estapafúrdias como “o que é mais perigoso: uma piscina ou uma arma de fogo?”, “o aborto tem alguma influência sobre a incidência de crimes violentos?” e “pais são importantes?” Lidando com perguntas que não costumam ser feitas (ele encontra pontos de comparação entre professores primários e lutadores de sumô, por exemplo, e entre corretores de imóveis e membros do Ku Klux Klan), e com temas que costumam provocar controvérsias, Levitt pelo menos tenta aplicar certa dose de objetividade a debates que são essencialmente emocionais (a posição dele é que existe uma correlação estatística clara entre a decisão judicial que permitiu o aborto nos Estados Unidos, nos anos 70, e a queda nos índices de crimes violentos 20 anos mais tarde –ou seja, pode-se argumentar que a queda no número de filhos indesejados reduziu o número de pessoas potencialmente desajustadas cuja propensão ao crime supera a média).
O trabalho de Levitt é interessante exatamente porque ele não tem medo de recorrer a ferramentas empíricas para tratar de questões moralmente carregadas que em geral são debatidas sem nenhuma base objetiva, por um lado, e por outro não hesita em conferir respeitabilidade acadêmica a temas que raramente atraem a atenção dos estudiosos –sumô, pênaltis, bagels. E algumas das conclusões que ele extrai com base em estatísticas são pura provocação para um e para outro campo no entediante debate sobre As Grandes Verdades que consome os Estados Unidos. Se por um lado ele estabelece que existe uma correlação estatística benéfica entre aborto e queda no nível de criminalidade, dando uma cacetada na direita, por outro puxa o tapete dos esquerdistas que odeiam a NRA ao demonstrar que as chances de que uma criança morra em acidente envolvendo arma de fogo são 100 vezes menores do que as chances de que uma criança morra em acidente envolvendo piscina doméstica.
Mas o mais legal do livro –como bem podem imaginar meus três fiéis leitores, conhecedores de minhas idiossincráticas preferências- é o capítulo seis,”would a Roshanda by any other name smell as sweet?”, no qual ele trata das escolhas de nomes mais características dos brancos e dos negros norte-americanos, e estabelece –com base em extensa pesquisa baseada em documentação do Estado da Califórnia- que, em termos estatísticos, as pessoas com nomes mais caracteristicamente black, como Imani ou DeShawn, tendem a se dar pior na vida do que as pessoas com nomes honky como Molly ou Jake (ou nomes racialmente neutros como Andrea ou Vincent). Mas em lugar de simplesmente alegar racismo, ele (e Roland G. Fryer Jr., um pesquisador negro de Harvard com quem dividiu o trabalho,) analisam uma vez mais as estatísticas e concluem que, yo, os pais que escolhem nomes como Imani ou DeShawn para os jovens herdeiros em geral são mais fudidos na vida do que os pais que optam por Jake ou Molly, e a falta de grana e de estrutura é o principal fator no handicap que os nossos amigos de nome escancaradamente étnico sofrem mais tarde na vida, e não a cor.
Alguns resenhistas criticam o trabalho por sua falta de uma teoria unificadora, mas pra mim esse é um dos pontos fortes do livro: a capacidade de tratar as questões dentro dos limites estreitos que as definem, sem necessariamente desenvolver uma grande teoria sociológica (ou da conspiração) com base em tendências mal e mal discernidas. E, ademais, os autores mantêm um blog, e a gente precisa sempre promover os coleguinhas. Sei lá se é um trabalho brilhante -ou muito útil- de economia, mas the dismal science gets a tad less dismal quando quem trata do assunto é Levitt.