May 02, 2005
Fortress of solitude

"Unreal city, I had not thought death had undone so many"
Cês acham muito cafonas aqueles bares ou restaurantes localizados no topo de edifícios, com vista panorâmica? (Aliás, cafona é usar a palavra “cafona”, que está fora de circulação marromenos desde a época niquiq mulé usava peruca Kanekalon –que as mães guardavam cuidadosamente em crânios de gesso assustadores empoleirados nas penteadeiras de seus quartos, quando a infância era risonha e spooky- e ómi usava uma bolsinha de mão que atendia pelo mimoso apodo de “capanga”. Bad, but not nearly as bad as a fanny pack, yo.) Eu vou ter que admitir aqui diante de todos os meus três fiéis leitores que não resisto a um bar e restaurante panorâmico nem que ofereça jantar dançante e show de música típica da região. E se a bagaça for giratória, então, é nóis na fita três vêiz por semana.
Quase toda cidade fica bonita, vista de cima, de longe –especialmente à noite. “Distanciamento olímpico”, afinal, descreve exatamente essa situação: de cima da montanha, é fácil se sentir poderoso, é fácil ignorar as pequenas e grandes irritações que cercam aquela infinidade de percursos pintados no grande quadro pontilhista da cidade. Mas meu fascínio é de outra ordem. Não observo de cima como quem observa o formigueiro funcionando sob um tampo de vidro. Enquanto meus olhos contemplam aquela ordenada correnteza de faróis e lanternas, de trens rigorosamente pontuais entrecruzando o panorama a intervalos precisos, eu “ouço” a cacofonia daquela gente toda –o mar de histórias que se agita lá embaixo. É, eu sei, essa bestaj do mar de histórias é tão clichê quanto pensar em formiguinhas, mas é hipnótico: contemplar a cidade pulsando lá embaixo como um grande organismo, e saber que cada um daqueles conjuntos de luzes que se movem carrega, uma, duas, quatro, duas mil e quinhentas histórias provavelmente não épicas, mas infinitamente intrincadas, saber que cada uma das partículas de luz que compõem aquela correnteza tem liberdade para alterar seu destino, seu percurso, e que mesmo assim a corrente caudalosa de luzes vai continuar se movendo.
Do 49° andar de um edifício que abriga esse estranho bar e restaurante em que a garçonete pergunta se você vai querer complemento vitamínico com os drinques, a cidade desconhecida ganha o nexo ilusório que a correnteza de luzes oferece –como se as vias expressas que canalizam essas luzes todas indicassem o caminho “natural”. Mas lá, num quadrante sombrio da paisagem, um par solitário de luzes vermelhas pisca por um segundo e desaparece: trabalhador chegando em casa num bairro em blecaute, caminhão de entrega encerrando a rota, veículo de manutenção de parque estacionado para a noite? Mar de histórias: a cidade transformada em uma grade de marcos e fluxos luminosos, mas, yo, quantos corações batendo no interior de todos esses carros. Os Grandes Solucionadores provavelmente olhavam o mundo sempre dessa altitude, sempre supondo reconhecer os marcos, os grandes fluxos. E quanto mais o tempo passa, mais desprezo eu sinto por eles todos. Quanto mais alto a vida te leva, mais importante resistir à tentação do distanciamento olímpico. Porque duas horas mais tarde você vai ser só mais um barulhinho na cacofonia, comodamente instalado por sobre o par de faróis azulados e o par de lanternas vermelhas que te levam pra casa, cortesia de Noguchi Seito, motorista engomadinho.