May 09, 2005
The butler did it

Raymond Thornton Chandler (1888-1959)
Ray Chandler, além da meia dúzia de romances (mais o inacabado Poodle Springs) e da centena de contos (muitos dos quais reaproveitados sem o menor pudor como parte de romances posteriores), escreveu seis roteiros de cinema -o original The Blue Dahlia e mais cinco adaptações. Numa dessas bizarras ironias peculiares a Hollywood, Chandler acabou encarregado de roteirizar Double Indemnity (com Billy Wilder, e baseado em romance de James M. Cain, um imitador barato de seu estilo), enquanto a improvável dupla William Faulkner (é, aquele mesmo,) e Jules Furthman (do breast western The Outlaw) adaptava para as telas seu The Big Sleep. Quando estavam redigindo a famosa “cena da explicação” sem a qual nenhum filme noir ou whodunit sobrevive, os roteiristas de The Big Sleep descobriram que um dos centos assassinatos que ocorrem ao longo da trama ficava inexplicado. Reviraram o livro à procura da explicação, mas não encontraram, e o diretor Howard Hawks decidiu ligar para Chandler e perguntar quem, afinal, era responsável pela inexplicada morte. Chandler não conseguiu responder na hora, e fez a mesma coisa que os roteiristas: revirou o livro, os dois contos em que a história se baseava e suas anotações, em vão. Ligou para Hawks, completamente sem jeito, e disse que não sabia. Hawks apostou no baixo attention span do público e deixou o crime passar inexplicado, sem atrair nenhuma reclamação (pra sorte dele, isso aconteceu umas duas décadas antes do nascimento da minha irmã, que acompanha trama e continuidade de filmes como um gavião e percebeu a gafe na hora, quando viu The Big Sleep comigo pela primeira vez.)
Tem muita gente que não gosta de filme noir ou whodunit exatamente por causa da famigerada cena da explicação, sob a alegação de que essas cenas “são muito artificiais”. É claro que são. Como marromenos 98% de todas as outras cenas de cinema, a começar das furumfas e dos pós-furumfas com o famoso “lençol mágico” que sempre deixa o peito do cara desnudo e o peito da menina coberto. Já eu acho que a cena de explicação e todos os diálogos anteriores cujo objetivo é demonstrar a construção das possíveis narrativas são o maior charme do gênero. Em um filme “de mistério” (resumindo aí todos os gêneros que se pode enquadrar sob esse rótulo, dos whodunits aos filmes de suspense, passando pelo noir, pelo policial e por certas variedades de filmes que tomam por tema o sobrenatural), o protagonista em geral é alguém que investiga um mistério, e o faz propondo sucessivas narrativas com base nos depoimentos de testemunhas e nos indícios físicos que vai descobrindo. Ao longo da trama, o investigador recolhe dados e refina a narrativa, o que transforma o filme em uma espécie de bolo em camadas, contendo a narrativa que encapsula a verdade –a solução do “mistério”- e todas as demais narrativas passíveis de proposição com base naqueles ingredientes. Assim, a busca de uma solução para o mistério é a busca da narrativa “perfeita”, e o investigador é o rapsodo que recolhe as histórias e as organiza em forma “fit to be printed”.
O poder do investigador, portanto, é o poder de estabelecer a verdade em meio às incessantes tentativas de imprimir a lenda. Não admira que tamanha proporção dos maiores filmes da história do cinema gire em torno de um mistério e de um esforço para solucioná-lo e “estabelecer a verdade”. Citizen Kane, que nêguinho precisa ser muito espírito de porco para excluir de qualquer listinha dos 10 maiores filmes de todos os tempos, deve larga proporção de sua grandeza à maneira pela qual o roteiro de Herman Mankiewicz estrutura a busca –empreendida por um anônimo repórter que serve de Everyman em contraponto ao titânico magnata- pela elusiva “verdade” sobre Kane: Rosebud, as chamas, nenhuma verdade a ser estabelecida. Mas o fato é que, provavelmente mercê da falta de verdades irrebatíveis em meio ao empelotado mingau da vida, quase todo mundo adora uma cena de explicação*. Aquele detetive cheio de maneirismos que reúne os suspeitos em uma sala e explica exatamente como o assassino matou o velho milionário e fez parecer que o quarto estivesse trancado, e no processo inocenta três óbvios suspeitos e promove o romance entre o filho estróina regenerado e a leal governanta, é a imagem solitária da ordem, da verdade e da justiça incorruptível, em meio à cobiça e violência do mundo. Se ordem, verdade e justiça só existem mesmo nessa forma caricata que os filmes de mistério promovem, yo, isso definitivamente não é culpa do Marlowe.
* Eu tinha escrito que “quase todo mundo sente uma avidez atávica por cenas de explicação”, mas “atávico”, como aquela pipoca emaconhada que o Sêo Peçanha vendia no carrinho da porta da escola, é o primeiro passo na very slippery slope towards “onírico” e “catártico”, terminando, claro, em “telúrico”, parceria com Baby Consuelo e participação em disco dos Tribalistas. Sai, Satanás.