May 10, 2005

 

É blogue lucrativo,
só na mão do Fudílson


Picture by Chris Jordan

A coisa mais chata dos últimos 10 anos é essa mania dos cool kids de implorar admissão nas confrarias dos nerds. Apesar da minha aptidão preternatural para a dança, jamais me candidatei a cheerleader; não fui ao prom, porque a minha manhê tava com pobrema nas bacia; e a única vez niquiq compareci a uma festa que mereceu menção na coluna da Erika Palomino foi porque na época eu fazia uns bico e me contrataram pra esculpir uma estalta de gelo em forma de anta pra homenagear a anfitriã. Mas os cool kids não mostram a mesma reserva. Não posso nem mais comprar wargame na Compleat Strategist sem esbarrar em Vin Diesel, goddamnit!

Quando instalei meu primeiro Netscape 1.0 em um 486, exatos 10 anos atrás, todo mundo que eu encontrava online era nerd, e a Internet era uma maravilhosa coleção de sites produzidos com verve, galhardia e uso indiscriminado do comando blink de HTML. Eu chegava com olheira na firrrma depois de uma noitada discutindo formatação ASCII no chat do Geocities e os meus amigos publiça, todos eles oh so übercool, ignoravam solenemente as tentativas que eu fazia de expor as maravilhas da procelosa rede mundial de computadores supermodérrrna.

De repente, a partir de 1996/7, fudeu: todo mundo invadiu aquele pacato ambiente em que nós nerds tentávamos procriar em cativeiro, e sites como o saudoso I Liek Milk desapareceram em meio à tempestade de marketing desencadeada pelas corporações. Chat? Game over. A imensa e desarticulada simpatia dos nerds foi substituída por um frenesi hediondo promovido por gente que estuda comunicações ou marketing e usa kkkkkkkk pra denotar risada. E o hype todo, claro, se estendeu aos potenciais usos comerciais da Internet. Toda firrrma criou um site –de gigantes aerospaciais a pizzarias, a Internet era o caminho do futuro. Ganhar muito dinheiro, dinheiro fácil, passou a ser o nome do jogo, e todo mundo esqueceu, em meio ao burburinho de fusões, aquisições e IPOs, o quanto do sucesso da rede se devia ao ethos de voluntariado que a criou. E no entanto, dude, muitas, talvez a maioria, das coisas mais legais da rede foram criadas por nerds que não faturaram um centavo com as invenções, e os cool kids, claro, encaravam essa “ingenuidade” com desdém, e inteligentemente apostavam em que fosse possível faturar zilhões distribuindo de graça e online, por exemplo, o mesmo conteúdo que eles vendiam caro no papel.

O crash do setor em 2000 provou quem exatamente era ingênuo e quem era realmente visionário, e os sobreviventes daquela primeira e generosa era da rede encontraram refúgio em guetos disseminados pelas fímbrias da Internet –as redes P2P, o WiFi, os Wikis, os projetos de desenvolvimento coletivo de software “alternativo” como o Linux. E os blogs. Porque os blogs, afinal, são simplesmente uma retomada do espírito descompromissado que a Web tinha antes que os féladaputa a colonizassem com seu excesso de dinheiro e sua falta de ética. Eu, porque a calamidade da “primeira” Internet foi motivo de séria frustração pessoal, custei um tanto a aderir ao novo movimento, mas ó eu aqui travêiz: simpatia, clima amistoso, o jeito anything goes, a possibilidade de conhecer gente completamente diferente de mim por intermédio dessa bizarra mistura de diário e escarradeira virtual -I Liek Blogs.

E agora os féladaputa estão tentando de novo: li pelo menos umas 30 reportagens, nos dois últimos meses, sobre o imenso potencial comercial, o uso corporativo e a “revolução dos blogs”. Yo, revolução é um treco promovido por barbudos que expelem quantidade oceânica de perdigotos quando falam, e resulta sempre na morte de uma carrada de inocentes. E a idéia de comercializar blog me soa tanto cretina –que anunciante vai querer patrocinar rants?- quanto contraproducente, porque muita gente –myself included- escreve blog exatamente pra não ter que agüentar as pentelhações derivadas de ter editores, zécutivos e clientes sempre olhando por cima do ombro, pra garantir que nos mantenhamos “nos limites”. Uma das tristes verdades a que temos todos de nos conformar um dia ou outro de nossas vidas (a não ser que sejamos esquerdistas brasileiros) é a de que quem paga as contas dita a pauta. Aqui, quem paga a conta sou eu.

(Por outro lado, senhor patrocinador, em havendo interesse é só escrever pra venal.vendido@gmail.com; creio que o conteúdo do blog se adapte muito bem a, er, comercializar produtos como vaselina –nobre similar nacional soterrado pela máquina de marketing do KY-, salgadinhos Torcida e calçados esportivos Kichute. Faço três anúncio por cinco real, e aceito tíq.)

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