April 22, 2005
She MAKES me feel

"Soul is the ability to make other people feel what you're feeling"
Quando o mano fica apaixonado, apaixonado mesmo, “com cara de quem viu passarinho verde”, como dizia minha tia Hilda, ele padece de um monte de vontades patéticas, daquelas que –confessadas aos amigos sem querer em mesa de bar- geram apelidos inesquecíveis como “chaveirinho de etc.” Mesmo assim confesso que, yo, meu anseio romântico é fazer com que a musa sinta aquilo que Aretha Franklin evoca em forma de terremoto quando canta “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”. A B section, niquiq ela diz “oh baby, what you’ve done to me/ You made me feel so good inside/ And I just want to be/ Close to you, you make me feel so alive”, meu são jizuis. E, vejam, não é a melodia, muito menos a letra, mas o punch. Ninguém –nem divindades como Ella e Carmen McRae- cantou assim, antes. Ninguém voltará a cantar assim.

Ms Franklin and Brother Ray: Spirit in the Dark
Aretha Franklin nasceu em 1942, em Memphis, filha do reverendo C. J. Franklin, um dos pregadores batistas mais famosos dos Estados Unidos. Assinou seu primeiro contrato como cantora de gospel em 1956 (em trio com as irmãs Emma e Carolyn), teve seu primeiro filho em 1958 e, em 1960, seguiu o exemplo de alguns outros cantores de raízes religiosas e assinou com a Columbia. Nos seis anos com a gravadora, lançou bons discos, mas os executivos não conseguiam decidir se a queriam como cantora de jazz, de cocktail music ou de blues, e só quando se transferiu para a Atlantic, em 1966, Aretha se tornou –sem nenhuma contestação- a rainha do soul. Acompanhada por uma banda mostly honky (Chips Morman e Jimmy Johnson, g, Spooner Oldham, p, Tommy Cogbill, b, e Roger Hawkins, d), e gravando no estúdio Fame, em Muscle Shoals, Alabama, ela registrou 25 faixas, lançou dois LPs e colocou quatro canções entre as Top 10 das paradas de sucesso em seu primeiro ano de gravadora. (E estamos falando de material como “Respect”, “A Natural Woman”, “Chain of Fools”, “I Never Loved a Man”.) Em 1968, Ms Franklin foi parar na capa da Time, e continuou gravando álbuns magistrais até a metade dos anos 70, quando a disco music assassinou o soul. Se vocês encontrarem essa coletânea, Uncle Filthy garante: é a melhor coisa que uma coleção de discos pode incluir. Mas fujam de Aretha: From These Roots, autobiografia escrita em parceria com David Ritz: a diva fala basicamente das alegrias do soul food de Detroit (o que explica seu tamanho atual) e dos vestidos que usou em seus principais shows. Larguei na página 60.