April 27, 2005
Pest from the Past

Futuro serial-killer
Todo mundo tem aquele casal de amigos que causa constrangimento público ao usar endearments ligeiramente patéticos no restaurante, quinêim: “não é mesmo, ucho?” E o cara, olhando de esguelha pros amigos malévolos, murmura, “é sim, (pigarro), ucha”. Não é que chamar o/a cara-metade por apelido carinhoso seja inadmissível, mas há sempre a questão do foro. No restaurante, em mesa com três outros casais compostos respectivamente por duas pessoas que se odeiam, duas pessoas que se chifram mutuamente com o mesmo jardineiro e duas pessoas que conhecem ou o fofucho ou a fofucha marromenos desde que nenhuma festa existia sem um disco do B-52, dude, convenhamos, wrong place, wrong time.
Outro perigo, nessa catigoria, é a mãe. Sujeito que leva namorada ou potencial namorada para conhecer a mãe –um ritual universalmente aceito de que a bagaça está ficando séria- passa a macarronada toda de coração na mão temendo o momento em que a nobre matriarca vai abrir o baú, sacar da kriptonita (os 237 álbuns de fotografia), e discorrer longa, longamente, sobre os piores momentos na tundra de uma infância very sheltered: o dia em que ele usou fantasia de coelho em uma peça da escola, as audições na escola de piano, o fato de que as garotas do primário (estudei no Instituto Padre Chico) corriam atrás do sujeito gritando “lindo, lindo”. O cara lá, semanas ou meses se esforçando pra parecer dark, brooding and mysterious, e a mamma mostrando foto em que ele aparece fingindo que toca uma guitarra de prástico com três cordas, ao lado de um bonequinho do Ronnie Von: pô, manhê, I won’t be getting any nookie tonight.
Administrar a intimidade e editar o passado são duas coisas que me preocupam permanentemente, e que se relacionam estreitamente nos, er, desvãos escuros da alma. Tem coisas que, uns 40 anos atrás, jamais seriam mencionadas em público, e agora alimentam programas de televisão niquiq mulheres cujos maridos as trocaram pelas sogras debatem com homens que fizeram operação de mudança de sexo mas sentem falta de fazer xixi em pé, tudo isso mediado por um apresentador que é uma espécie de cheerleader da patuléia indignada. Não trago nenhum trauma, da minha prosaica infância –não fui abusado de maneira alguma, e na última vez em que minha mãe tentou me dar uma (merecida) sova, quanto eu tinha marromenos oito anos, ela terminou abrindo o pulso, sob meu corinho jubiloso de “deus castiga, deus castiga”. Mas continuo certo de que o psychobabble vigente, o qual dispõe que expor publicamente os traumas, taras ou vícios é uma maneira de “normalizá-los”, constitui tremenda sandice. Se a vida te sacaneou em um período no qual você era incapaz de se defender, contar isso ao mundo não vai reduzir a dor. Pelo contrário: vai te enquadrar permanentemente na categoria dos freaks, ou servir como uma espécie de muleta universal –“ih, liga não: o Fudílson levava muito tapa na orêia quanto era criança e ficou assim, coitâââdo”.
Portanto, Maria Alice, quando eu te chamo de “benhê” na frente dos nossos amigos, yo: I don’t really mean it. Viu, ucha?