April 18, 2005
My Life: Director's Cut

Omar Naim dirige Robin Williams em The Final Cut
Naquela velha discussão sobre quem “faz” os filmes, quase todas as partes levam crédito: produtores, diretores, roteiristas, até atores (ainda que atores, de acordo com wise old John Ford, sejam “gado”). No entanto, todo mundo que trabalhou um pouquinho no ramo sabe que as disciplinas “acessórias” agrupadas sob o simplório título “post-production” (ou, no Brasil, “finalização”) têm papel essencial. Sem trilha, edição de som e, acima de tudo, edição bem feitas, nenhum filme presta –e muito filme nhaca é salvo do lixo completo pelo trabalho dos editores (vide Black Hawk Down).
Omar Naim, jovem cineasta libanês, foi direto ao ponto em seu primeiro longa, The Final Cut. Em uma sociedade de um futuro não muito distante, os pais que têm grana podem optar por fazer com que seus filhos recebam, ainda durante a gestação, um chamado “implante Zoe”, que grava todas as imagens e sons que a pessoa encontra na vida. Depois da morte do usuário, seus familiares podem usar o implante Zoe para recordar o mundo –literalmente- pelos olhos do falicido. Para isso, recorrem aos serviços de uma profissão que tem um tanto de guilda e um tanto de sacerdócio, os “cutters”, que editam –em uma maravilhosa engenhoca com cara retrô chamada “guillotine”- o material registrado no implante, criando uma “rememory”, uma espécie de bestofe em vídeo de uma vida.
É uma das premissas mais elegantes para um filme distópico ou de ficção científica desde 12 Monkeys –muito mais inteligente do que a do very overrated Matrix, por exemplo. Não vou discutir detalhes do filme porque está em cartaz por aí, mas a tese central, de que arte e memória são essencialmente trabalho de edição, é exposta sem didatismo e sem blablablá excessivo ainda que o protagonista seja Robin Williams. Filmado em vídeo digital e repleto de detalhes inexplicados e diliça (por exemplo, todos os carros que ocupam as ruas da cidade sem nome em que o filme transcorre são modelos vintage), o diretor só dá uma derrapadinha ligeira no final, quando escorrega para o campo do thriller.
Eu sempre gostei de Snake Eyes, de Brian de Palma, pelo bravo –se bem fracassado- esforço de demonstrar que a verdade das câmeras não é tão verdade, e o velho chavão “uma imagem vale mais do que mil palavras” não vale nem as oito palavras que desperdiça. Naim se sai ainda melhor ao falar de privacidade, câmeras onipresentes, memória, liberdade e sobre o inevitável esforço de editar a vida que todo mundo termina empreendendo por covardia, culpa, sensory overload ou em busca daquela fugaz vagalba, a respeitabilidade. Pra quem gosta de distopias amenas, não se incomoda com Robin Williams e sabe que a edição final da vida nunca vai ser feita pelo vivo, o filme de Naim é ótima pedida. (O título The Final Cut, aliás, é deliciosa ironia, vindo de um diretor novato e cucaracha: no jargão dos estúdios, “final cut” é o poder de edição final, ou seja, de determinar efetivamente o que aparece na tela, que normalmente só é concedido aos diretores mais fodões –e às vezes só a posteriori, como prova a epidemia de versões “director’s cut” que surgiu pra arrancar dinheiro dos trouxas na era do DVD.)