March 21, 2005

 

Yours for the taking


Body and soul (with no particular place to go)

Todos os sinais verdes para ele: o cabelo que ela ainda trazia levemente desordenado no ponto que ele amarfanhara à maneira brincalhona de um adolescente, a alegria nos olhos que não se desviavam dos dele por um segundo sequer, os lábios ligeiramente inchados formando uma moldura cherry red para o sorriso e a ponta da língua rosada que surgia de vez em quando como um lembrete de que, yeah, sex included, o vestido azul marinho que desenhava uma estranha janela trapezoidal para o colo, a corrente escura que acentuava os ossos salientes das omoplatas e o aclive dos seios, com um pendant cuja ponta repousava exatamente no limite superior do cleavage. No carro, o estranho, lento e torto percurso que ela escolheu de Duchess County para a cidade, Van Morrison sendo Van Morrison –too long in exile-, o movimento incisivo e coordenado das pernas a cada vez que ela trocava de marcha no Mustang stick-shift, expondo um palmo de coxas níveas, o zumbido da bebida, a voz pastosa entre os países baixos, o coração e o cérebro recomendando go, go, go, mas o sopro gelado na boca do estômago disparando ordens de cease and desist.

Dada a oportunidade, todo mundo pode ser calhorda. Ele sabia. Tinha sido. Sabia, mais: voltaria a ser. Mas não necessariamente naquele dia, naquela hora. Em meio à música e ao zumbido do vento que sibilava pelos pontos mal vedados de atracação da capota conversível, ele se ouvia sendo flirty, sendo –a seu modo- charmoso, sendo naturalmente –esperava- engraçado, e cronometrava as pausas e as reações dela –as risadas, os olhares intensos lançados nos trechos retos da estrada, a capacidade incomparável e inesperada que ela demonstrava de alimentar o innuendo, e fazer dele uma estranha bola de neve quente, cheia de promessas, ou uma espécie de ovo de páscoa gelado por fora mas repleto não de bombons e sim de sacanagem, ou até melhor, de promessas de sacanagem de um tipo que ele sonhara durante anos, e exatamente com uma mulher como ela. “Carrots, silence, exile”, ele disse, tentando destraduzir o mote de “astúcia, silêncio, ervilha” que Van Morrison e aquele outro irlandês tarado lá lhe haviam sugerido depois do terceiro Jameson, e a risada dela enchendo o carro, os ouvidos, a alma.

Homens –pelo menos os românticos irrecuperáveis como ele- passam anos sonhando com momentos como aquele –a mais desejável das mulheres sinalizando freneticamente o status de “yours for the taking”, e no entanto, a 20 milhas de casa ele sabia que não, não ia rolar. Não podia rolar, não devia rolar, não ia rolar. E saber que aquela efusão toda de tesão, álcool e alegria ia terminar com um beijo no rosto, uma proposta chocha de novo encontro que nenhum dos dois jamais levaria adiante –ela por raiva, ele por covardia- o enchia de ainda mais uma variedade –essa quase inédita- de culpa: a vontade era pedir que ela parasse o carro por cinco minutos pra dizer, “ô, nenê, infelizmente eu num vou te comer”. E o conceito infantilóide de honradez que carregava consigo como marca permanente de acne moral o teria levado a fazê-lo, não fosse a certeza de que ela imediatamente riria e alegaria que, bom, nem estava pensando em dar, de qualquer jeito.

Um Mustang, um casal, um cantor e 17 formas de culpa na estrada para casa em uma noite fria de sábado. Na porta do prédio, a angústia de descer rápido do carro antes que a tentação apresentasse nova face, essa quem sabe irresistível, e a vontade de prolongar a conversa, e o olhar no rosto da moça esperando o convite para o nightcap, e o medo de fazer misturado ao medo de não fazer, a vontade de beijar o ponto em que o osso da omoplata se une ao pescoço, a decepção permanente com a bundamolice irremediável: “Tá tarde, preciso entrar”, ele disse, como uma teenager em filme B, e aproximou o rosto do rosto da moça para um beijinho de boa-noite, dobrando o pescoço em ângulo acrobático pra evitar qualquer risco de que lábios se encontrassem por acidente ou “acidente”, o brilho da compreensão e da decepção nos olhos dela, o desespero de encontrar a chave certa para todos os portões e portas que ele teria de atravessar antes de chegar à fortaleza da solidão, e o medo súbito quando viu a janela do lado do passageiro se abrindo. “Obrigada por uma noite adorável”, ela disse, com um sorriso na voz. “Te ligo amanhã”. Ele contemplou as lanternas peculiares do Mustang dela desaparecendo Quarta Avenida acima. Entrou em casa e nunca mais dormiu.

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