March 21, 2005

 

Museu de Cera McNasty


Waxing nostalgical

Eu nunca consegui entender por que as pessoas vão a museus de cera. Em um museu de verdade, cê vê coisas que nunca viu, ou pouco viu, e há um certo esforço em apresentá-las sob as normas, vá lá, “científicas” da pesquisa histórica. Em museu de cera, o cara vai ver uma figura tridimensional das mesmas celebridades às quais num consegue escapar por meia hora em sua vida cotidiana, e usualmente paramentadas com a indumentária que as torna notórias (o que deve implicar que Jacko em breve surja em jailbird suit e acompanhado de um menino marromenos da altura de sua virilha, chez Madame Tussaud). Mas sempre achei meio bizarro que as pessoas se dispusessem a passar horas numa fila pra ver estalta perecível das Spice Girls.

No entanto, pensando bem, eu também visito os meus museus de cera –e nesse final de semana, espetacularmente shitty by any measure, acabei dando o benefício da dívida a não um, mas três deles. Eu já gostei pra caramba de Woody Allen, e continuo achando que Crimes and Misdemeanors um dia vai terminar reconhecido como o grande, grande filme que é, mas admito que a produção recente do tio Konigsberg é waaaay boring. Por isso, não pretendia assistir Melinda and Melinda, até que li crítica do sêo A. O Scott, ou algo assim, sobre o opúsculo, no New York Tabloid. O texto ia naquela lengalenga de crítico de jornalão até que o Scott on the Rocks decide ressaltar que “Mr. Allen, depois de uma carreira de cinco décadas como cineasta em Nova York, enfim incluiu dois personagens negros, sem sensacionalismo ou estereótipos”. Pô, Scott brite, qual é? Tem lei de cotas pra presença de afrodescendentes em filmes? As histórias de Allen se passam basicamente entre os judeus e WASPs da classe média alta da cidade –por que cazzo ele deveria necessariamente incluir uns blacks nos roteiros? As tokens? Ou, como a Grobo, em funções servis (pra, aí também, ser acusado de racismo?) E, by the way, por que ninguém reclama a mesma coisa quando jovens cineastas negros fazem filmes sobre life in da ‘hood? “Mr. DeShawn Al-Kwaanza infelizmente não cuidou de incluir personagens hispânicos ou caucasianos que reflitam o caldinho de raças da megalópole”. Mas, hélas, o filme é uma miércoles, mesmo. Se as entrevistas procedem e Allen pretendia homenagear os grandes George S. Kaufman e Ernst Lubitsch, terminou é guspinu no túmbalo dos mano.

E falando em crítico de cinema, tudo bem que Pauline Kael era mala, mala, mas pelo menas existia alguma consistência intelectual por trás das diatribes que ela regurgitava, e alguma explicação para que encontrasse genialidade em uma penca de filmes que ninguém via, então, e ninguém –graças a deus- nunca mais vai ver. Já Manohla Dargis,a principal resenhista de cinema no New York Tampon, emula a ranhetice de Kael, exibe a mesma deselegância no trato de filmes que vivem muito bem sem os críticos, mas, alas, talento que é bom, none. E a crítica dela a The Ring Two é prova boçal da alegação. Dedica um total de um parágrafo a tirar barato do filme e, pra completar a centimetragem, gasta 2,5 mil caracteres generosamente aconselhando Naomi Watts sobre como conduzir sua carreira. Quando Uncle Filthy e subrinha nibelunga foram ver o primeiro The Ring, o sempiternamente sábio Oramdir resumiu o filme muito bem: “Nota 2, e nota 10 pros mamilos da Naomi Watts”. I rest my case. Mas que é hilário ver crítico cabeça detonando horror trash refilmado com participação especial de Sissy Spacek relembrando Carrie Bradshaw, a estranha, ô, se é.

Não sei se algum dos meus dois fiéis leitores é dado a esses hábitos juvenis, mas eu ainda espero certas coisas com aquela sensação de que, yo, elas têm necessariamente de ser boas –o disco novo de num-sei-quem? Playoff da NBA? O novo romance do escritor de thrillers favorito? Um filme como The Aviator? TEM que ser bom. É, eu sei: ótimo jeito de me decepcionar mais vezes do que seria estritamente necessário. Dimóddusqui quando acorri ao Shubert Theatre para assistir a Spamalot, eu estava mais preparado do que habitué da sessão da meia-noite do Rocky Horror Picture Show –eu e metade da audiência, aliás. (Tinha um cara em algum lugar do teatro que passou a peça toda repetindo os bordões de The Holy Grail, e sempre na hora errada, coisa que os Pythons teriam apreciado pacaramba, se estivessem lá.) Até ri bastante com alguns dos sketches. Mas faltava alguma coisa. Era como um show de uma ótima banda cover: os caras sabem tocar, tiraram tudo nota por nota, até desafinam menos que os originais -mas falta alguma coisa essencial, um certo élan. Plus, uma parte essencial do humor do Monty Python é a Britishness deles, o respeito avassalador pela tradição e pompa, a famosa fleugma imperturbável, o amor pela excentricidade, tudo misturado e acrescido de toques surrealistas. Ninguém é tão engraçado quanto as otoridad nos sketches dos Python. Os americanos, cujos mitos sociais e culturais são muito mais democráticos e igualitários, don’t quite get it. No fim, acho que me diverti mais com a parte “nova”, do espetáculo, que consiste de uma série de paródias a shows da Broadway e coisas como American Idol, muitas das quais a cargo da maluquete (e gostosa) Sara Ramirez. E tem pelo menos uma canção, “The Song that Goes Like This”, que se aproxima do padrão de qualidade dos Python (pra mim, é especialmente engraçada porque é uma espécie de fórmula infalível pra compor um hit do Andrew Lloyd Webber, um sujeito que tá na minha lista de 10 pessoas a serem instantaneamente assassinadas whenever I meet them).

O diretor da bagaça é o very, very overrated Mike Nichols, que todo mundo diz que é gênio mas, como provam Closer e quase tudo mais que ele fez, é uma espécie de Gerald Thomas big budget –fala pelos cotovelos, posa de ousado e é só mais um pilar do establishment dizendo “porra” na missa. Eric Idle, o único Python envolvido, provavelmente não quis zoar muito com os trechos que manteve do original, porque os integrantes do grupo são famosos pelo respeito homicida ao texto de seus sketches. E o resultado é mais um desses mega-shows da Broadway. Não é que eu não tenha chorado de rir, mas, yo, ri mais ainda com a unintentional comedy de Phantom of the Oprah no cinema. Humor baseado em respeito é uma fórmula fadada ao fracasso e, se os Pythons a tivessem seguido no final dos anos 60, não nos teriam brindado com as horas de gargalhadas que espalharam pelos palcos e telas. Tasca aí mais meia dúzia de estalta no museu de cera, mano.

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