March 18, 2005
Keep me moving, yeah (right)

"See how it feels, goin' mobile"
Até os 25 anos, eu não era grande coisa como homo domesticus. Pelo contrário, até –costumava sempre carregar na mochila os implementos básicos pra passar um ou mais dias fora sem precisar voltar à, er, “base” para obter suprimentos. E, nos meus anos juvenis de Estados Unidos, os carros que tive serviam como quase-casas: uma penca de livros, muda de roupas, apetrechos de banho, um saco de dormir, tudo sempre pronto, no porta-malas protegido por uma corrente da espessura de um braço, pra evitar que algum aventureiro lançasse mão das únicas coisas verdadeiramente preciosas que eu tinha, então –instrumentos, amplificadores, esses trecos.
Uma das minhas canções prediletas era "Going Mobile”, do Who, especialmente o trecho “I don’t care about pollution/I’m an air-conditioned gypsy/ That’s my solution/ Watch the police and the taxman miss me/ I’m mobile”. Se era ingenuidade juvenil? You bet. Mas era também indicativo de ansiedade, ou de inconformismo, ou de respeito à mais persistente das tradições adolescentes, fugir à responsabilidade. De uma certa forma, saber que eu não precisava ficar “lá”, não importa o lá, e estava sempre pronto pra partir era uma espécie de fortaleza –a fortaleza do desapego, talvez. E o meu lado historiador, à época, vivia fascinado com os povos nômades, com as sucessivas levas de fedebundos a cavalo expelidas pela estepe em direção às partes civilizadas da Eurásia. Pra não falar dos músicos, claro, de todos aqueles sujeitos que eu idolatrava e para os quais casa, o mais das vezes, era um quarto de hotel no bairro black de algum lugar.
Apesar desse hipotético amor pela mobilidade, porém, eu já começara a acumular tranqueira –livros, discos, partituras-, e o meu lado gay (afinal, ninguém escapa impune a um segundo grau que supostamente o habilita “técnico em arquitetura”, god forbid), sentia o empuxo da maré doméstica –ter uma casa, ter uma boa casa, ter uma bela casa. E a mistura habitual de acomodação, relacionamento afetivo estável, um vislumbre de dinheiro me conduziu ao infame settling down. Comecei a ficar very fussy com coisas de casa, o que exatamente comprar como mobília, que iluminação usar para exibir a parte da minha biblioteca que eu usava como ferramenta de bazófia, na sala. Morando junto com uma moçoila chegada a fazer ninho, logo me vi habitué de loja de treco –Ikea, Habitat, Tok & Stok. Encontrei consolo no Larkin, como sempre (“books, china, a life/ reprehensibly perfect”), mas nos momentos de insatisfação profissional, afetiva, até política, eu ainda sentia, amortecido sob a pilha de almofadas, esquecido no escuro pelas luminárias suecas, o ímpeto surdo da mobilidade, me convocando para a pilhagem.
Deve ser por isso que, apesar de estar uma vez mais fazendo ninho, ainda me surpreendo ao apanhar a guitarra e, sem intenção, me ouvir dedilhando aquela seqüência de E, F#m, D, G, D/F#, e cantarolando a canção do tio Pete. Por mais que a vida me tenha tornado pacato, caseiro, oh so utterly pussy-whipped, de vez em quando ainda abro a janela e ouço lá fora, entre o tamborilar da chuva e o chiado dos carros, o relincho distante dos cavalos da minha horda de um. (E aí, claro, fecho a janela correndo porque Ms McDirty tá morrendo de frio, roubo um beijo no trajeto entre a janela e o fogão, ponho a água pro chá. Ma che mobilidade, que nada.)