March 31, 2005

 

Have you ever been experienced?


"Nothing is great or little other than by comparison"

Quando as pessoas lembram do Gulliver, de Jonathan Swift, costumam se concentrar nas aventuras dele em Lilliput (a terra dos pequeninos) e Brobdingnag (a terra dos gigantes). Mas a parte mais interessante de Travels Into Several Remote Nations of the World, pra mim, é a visita a Luggnagg, onde ele descobre uma raça de imortais –porque a imortalidade dos struldbrugs é completamente literal: eles simplesmente não morrem, mas continuam envelhecendo, decaindo. Quando penso em experiência, penso logo nos struldbrugs –se a imortalidade é assim, teria sido melhor não saber, por um lado; por outro, o acúmulo de experiências é um pouco como esse perpétuo envelhecimento: porque você tá senil, não necessariamente aprende com elas, mas o sedimento fica, aquele imenso monturo de coisas que afetam –em geral de maneira adversa- o teu deleite com o que quer que a vida traga de novo.

Tem uma poesia especial na “primeira vez”, toda primeira vez. E se você é amaldiçoado com uma memória como a minha, vai ter sempre seus momentos struldbrug e comparar a sinfônica magia da primeira vez em que ela tirou a roupa na sua frente com o arremesso desmazelado de peças casa adentro, uma noite qualquer do futuro. Não é que a beleza tenha desaparecido (ou, aliás, que os efeitos sejam inferiores em termos de concupiscência, aquela mais fudilsoniana das palavras), mas resta sempre uma diferença ranheta entre o prazer de se saber o que vai surgir por sob as vestes e o prazer de não saber. Pros outros mongos que, como eu, já saltaram de pára-quedas, é fácil explicar: parte do frisson, afinal, é exatamente não saber se vai abrir.

Eu não sou idiota (cartas de discordância no terceiro guichê à esquerda) e sei perfeitamente que experiência é útil, e que economiza trampo, tempo, nos salva de erros, evita sofrimentos. Mas o preço é cruel: nunca mais sentir aquele peculiar friozinho na barriga. Na gíria da guerra civil americana, dizia-se que os soldados que passaram pelo primeiro combate “had seen the elephant”. E depois do elefante, claro, todo cavalo é galinha, ou algo assim.

Minha única quimera, meu santo graal, minha pedra filosofal, é exatamente encontrar maneiras de reconciliar o assombro e a experiência. Durante anos, música e literatura mantiveram esse poder, na minha vida (literatura e música dos outros, let me add, que a experiência me ensinou a não ser pretensioso). Mas até nisso tenho sentido o efeito da law of diminishing returns. Não é que tenha deixado de lado meus velhos amores; o problema é a freqüência muito menor com que encontro livros ou discos que me transformam num chato intolerável daqueles que saem disparando e-mail pros amigos dizendo “dude, ocê TEM que ler ou ouvir isso”. E a deserção dos meus fiéis escudeiros deixa apenas o desanimador campo das aventuras galantes como fonte de maravilhas. Amor, como sabem meus dois fiéis leitores, termina sempre diante da dotôra Rosimeire, no plantão da madrugada da delegacia da mulé. Mas é o único field of endeavor em que “possibly i like the thrill/ of under me you quite so new”. Infelizmente, a prática requer a colaboração da mulé (ou similar nacional, que eu não discrimino as maiorias, não). Hélas.

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