December 30, 2004

 

Annus Mirabilis


"Love is Love's reward"

It was the best of times, it was the worst of times, e, em meio a tsunamis pessoais e planetários, o ano termina como todos terminam: com retrospectivas de melhores momentos e votos –os meus, sinceros- de todas aquelas coisas que os bons sujeitos desejam uns aos outros: grana, saúde, paz, amor, e 12 meses de isenção contra a estúpida e aleatória crueldade que escangalha vidas pelo mundo afora.

Agradeço a muita gente presente mesmo que de longe –mamma, sis, subrinha Nibelunga, minina Mazela, Serginho, Japs, Doctor Ox, the Prof, Lady Prof, F.A. (and kids). Agradeço também aos old reliables, corações adamantinos, humor impecável: Biz, Gus, Mike, João “Coqueiro”, Júlia (e Mirtão), Luiza, CE, Berta (& família), Gi (a melhor editora do universo). Agradeço aos mano da firrrma lá –Bwana, Gê, Bella, Zebrinha, Edu (Branco), Edu (Preto)- e aqui: Sahib, Adrian, Miriam, Giovanna, Trix, Addy, Fiona, Martin, Roman, e aos gentilíssimos mano do OH: I owe you all bunches.

Agradeço aos escritores* de todo dia –Tio Phil, Robert B. Parker, Zé Korzeniowski, Pepys, Plum, W. B. Yeast, tio Wystan, tio Isaiah, tio Kingsley- e a novos companheiros como John Dryden (dude, por que demorei tanto pra ler o poema que dá título ao post?), os dois Plínios, Vladímir Voinovich, Michael Connolly, a megadiliça Zoë Heller (Candace Bushnall com célebro), Steven Hayward (rabidly conservative, maybe, mas vai escrever bem assim na casa do caceta), Hillary Spurling, Paulus Silentiarius, Lamartine (porque há virtudes na prolixidade).

Agradeço ao eterno Millôr (o Brasil não te merece, véio), ao tio Ivan Lessa, a Dave Barry e Paul Krugman, aos anônimos e brilhantes jornalistas da Economist (leio desde os 17, vou morrer lendo), aos pervos da Nerve e aos libs da Salon, a P. J. O’Rourke, ao pessoal do Sun e do New York Post, que me faz rolar de rir todo dia. E aproveito o ensejo pra agradecer a moçada dessa lista de blogs aí à esquerda, que em 2004 fez com que se reduzisse bastante o tempo que eu dedico à leitura dos escritores mencionados acima (no mean feat, folks: olha a companhia em que vocês andam nos afetos do Fudílson).

Aproveito para estender a lista de agradecimentos virtuais não só aos blogs cuja leitura virou vício mas às pessoas que os escrevem e de quem me fiz amigo: o humor e a gentileza de todo mundo aí –vocês sabem quem vocês são- foi uma das recompensas inesperadas desses meus meses de desventuras “literárias”. Beijo especial pra duckie, em seu exílio de Ano Novo, e pra Lady Jules: queria mesmo ter escrito aquele poema do Larkin que usei para celebrar o teu aniversário, milady. Jooles ruleZ. (E ao Alexandre: morro de inveja do seu texto.)

Pra ir encerrando o apanhado, hélas, tem dois nomes que não posso esquecer:

Maria de Lurdes –neither hope nor fear: but the sense of sheer perfection, so unreacheable yet so near.

Charlotte: the Rockies may crumble, Gibraltar may tumble.
(Or, as wise old Dryden would put it:
Errors, like straws, upon the surface flow;
He who would search for pearls must dive below
”.)

Com Espuma de Prata ou Veuve Clicquot, um ótimo feriado pra todos vocês. Até 2005.

*Dessa vez não vou mencionar músicos (tá, vai: Trane, Ella, Blossom, Clark Terry) ou cineastas (but I sure do miss Billy Wilder), ou lá vem mais um ilegivelmente quilométrico post do Fudílson.

Update, com recomendação de Ano Novo do Uncle Filthy: Gretchen Parlato. Isso é que é cantora, não aquela mala da Diana Krall. (Além do que, o português de gringa dela cantando "Flor de Lis" já vale o show.)

December 29, 2004

 

The pre-fuck agreement


Love and marriage go together like the proverbial fish and the notorious bicycle

Uncle Filthy levou seus jovens pupilos pra almoçar, pra celebrar o final de um ano turbulento mas divertidíssimo, porque perdeu a festa oficial da firrrma, realizada enquanto ele se esbaldava com comida da mamma na semana do Natal. Nove à mesa, e todo mundo rindo a toa porque a manhã foi de boas notícias: Sahib patinou da matriz para anunciar bônus rechonchudinho de final de ano e conquista de um freguês que a gente vinha batalhando há 10 meses e começa a comprar rosquinha na nossa padaria dia 3. Num demorou dois Manhattans pra que o assunto resvalasse pra baixaria, claro. O estopim, dessa vez, foi Giovanna, curvilínea beldade que, da Campania via Flatbush, enfeita os nossos corredores e, pra desgosto escancarado da ala masculina, vai mesmo casar com um bestalhão qualquer que não é a gente. (Com direito a corinho de vaia e tudo.) O papo do casamento suscitou a questão do pre-nup –aqui, dada a sanha judicial do americano médio, a abundância de adevogados cujo prato predileto é tort, e decisões judiciais com arrazoado digno de sketch do Monty Python, pouca gente arrisca, er, contrair matrimônio sem definir primeiro quem fica com o totó e com as algemas de pelúcia em caso de divórcio. Giovanna diz que, pra ela, nada de pre-nup: vai confiar nas leis do Estado de New Jersey pra preservar sua (suculenta) integridade física e patrimonial.

Do casamento, a conversa, craro, descamba para a lua de mel, e vai terminar como sempre com o Olaria em campo: furumfa, e especialmente furumfa bizarra. Todo mundo tem um caso de horror pra compartilhar, for sure: questões de higiene pessoal, efeitos sonoros menas que excitantes, solicitações que nem Aline19 Gaúcha Comprétinha atenderia sem cobrar adicional de insalubridade, furumfas em cama cuja mesa de cabeceira ostenta retrato da mamma, o intrépido casal que terminou entalado no banheiro do avião quando tentava ingressar no Mile High Club, mocinha vomitando com o etc. na boca (história do Roman, claro), Fiona e o namorado rural cujos cachorros ficavam sentados no chão contemplando a cama com olhar reprovador enquanto o casal did the dirty, nomes patéticos para as pudendas póprias, nomes infantilóides para as pudendas alheias, mulher com um peito bem maior que o outro (Trix –pra espanto silencioso da mesa toda), acidentes com prótese dentária, a rima certa pra clitóris: the horror, enfim, the horror. (E, pra sorte do Uncle Filthy, a única pessoa presente que poderia depor contra ele took the Fifth e não mencionou o endearing habit de cantar o hino do Timão no momento do osgarmo que ele leva consigo do Bananão pra todos os seus paradouros.)

Para unir o inútil ao desagradável, portanto, Uncle Filthy propôs aos coleguinha a criação de um contrato de pre-fuck que as, er, partes interessadas preencheriam rapidamente antes de quaisquer episódios de rala-e-roça. Pra facilitar a vida, aliás, o formulário padrão do contrato de pre-fuck poderia ir impresso no verso da embalagem de camisinha. As pessoas ticariam lá suas listas de dos e don’ts, trocariam os dicumento e, em estando bom para ambas as (ui!) partes, é assinar e partir para o abraço. Além das atividades óbvias –sexo oral (com direito, sugestão do Martin, a opções “góspi” e “engole”), anal, auricular, posições excêntricas, obrigatoriedade de orgasmo simultâneo, obrigatoriedade de orgasmo, orgasmo, pelamor de deus-, entre outras sugestões eu gostaria de destacar o role playing (“I don’t mind doing a little Lady Godiva, but no horses in the bedroom, thank you”: Abby); o sadomasoquismo (“if the person is truly S&M, he or she can tick both boxes and dispense with the need of a partner”: Giovanna); threesomes, surubas e assemelhados: (“Anything, as long as the numbers are even, or else I’d always be the odd man out”: Martin). Um consenso entre as mulé: homem com pêlo nas costas é o maior no-no. Homem com pêlo em qualquer lugar que não os usualmente aceitáveis, aliás (ouvido, nariz, essas coisas: no-no). Um consenso entre os ómi (e Trix): no means no, we all can live with that, but then yes shouldn’t mean perhaps. (E o Roman, that cheap bastard, quer que as mulé rachem o custo da camisinha, mas foi voto vencido. Por oito a um, aliás.)

Assim que nossa ilustre diretora geral de arte e designer, minha co-âncora Smelly McDirty, curar a ressaca e trabalhar no layout, posto o modelinho do pre-fuck aqui pros meus dois fiéis leitores. Sugestões serão, como sempre, muito bem-vindas.

 

Closing Time


"I know who I want to take me home"

Japonês só padece, em banda de rock brasileira. Especialmente se o sujeito insiste em contrariar o destino histórico dos amarelos e opta pela guitarra em lugar do teclado –porque, todo mundo sabe, negócio de japonês é Casio. Norio adorava rock, desde fedelho –e, mais, adorava o rock “certo”, nada dessas punhetas de rock progressivo, Dire Straits, Brit Pop: o japinha vibrava com grunge, indie rock, guitar punk, sabia de cor a escalação de cada banda genérica daquelas que um dia borbulhavam de Manchester como água refluindo em boca-de-lobo, e tocava uma guitarra seca, objetiva, sem firula, pesada mas honesta, com um leve retrogosto lírico nas levadas lentas. Depois de muito sacrifício tocando em sub-Skanks, proto-Legiões, Nirvana-covers, ele enfim conseguiu montar a banda certa, com uns mano exatamente sintonizados, vocalista carismático, aquela qualidade indefinível que aos analfabetos sói chamar “atitude”, o mínimo requerido de equipamento decente. Adotaram o nome “Santa Granada”, depois de uns meses tocando como “Monstros com Zíper” e “Nevermind”, e ganharam alguma fama no (i)mundinho indie paulistano.

Norio, depois de oito anos e umas 10 bandas, estava de saco cheio de ser acusado de niponismo, e a primeira providência de palco que tomou com a banda nova foi comprar óculos escuros modelo paredón, à moda de Roy Orbison, que lhe cobriam metade do rosto, escondendo os olhos étnicos. Depois de ver inúmeros colegas músicos pagando mico com adereços assustadores como lenços de cabeça (o guitarrista solo de sua banda sub-Skanks ganhou o carinhoso apelido “Dona Maria” por conta do lenço de cabeça que o deixava com cara de lavadeira), Norio optou pelo monocromatismo monstruoso e tocava só de preto, óculos de lentes escuríssimas, Les Paul black-on-black. Enquanto o vocalista e o outro guitarrista se espalhavam pelo palco, ele mantinha sempre o posto, ainda que usasse o braço da palheta com agressividade, descendo porrada na guitarra. Os solos eram a cara dele: curtos, cheios de ataque, barulhentos mas sempre precisos. Como muita gente que termina em cima do palco, Norio era na verdade morbidamente tímido. Em bandas anteriores, estava acostumado a tocar base, ficar no canto, mas o Santa Granada era muito mais a cara dele. Com o passar dos meses, desenvolveu um certo fã-clube, meninas em seus late teens que viviam na beira do palco provocando o guitarrista deliberadamente dark, tentando arrancar um sorriso do inescrutável oriental roqueiro. Porque Norio nunca sorria, no palco: strange stage persona, para um sujeito no fundo afável.

O palco, a guitarra, são o maior dos bully pulpits: o músico é o foco da atenção de todo mundo, e a maioria dos roqueiros termina arrogante ou histriônica por isso. Norio era um dos raros casos de sujeito que sobe ao palco muito mais para ver do que para ser visto. E por isso os óculos escuros: não para esconder os olhos à observação, mas para esconder o olhar observador. É claro que, por mais original que fosse, Norio não deixava de ser roqueiro, o que implica que observasse, basicamente, mulé. Mas a maldição do japonês-no-rock o limitava basicamente a observar. Não que nunca tivesse catado, mas sem a abundância que beneficiava nêgo muito menos talentoso.

Show de final de ano em um muquinfo lotado, Norio como sempre discretamente feroz no seu canto do palco (disposição clássica, a da banda: baterista e baixista um passo atrás, um guitarrista em cada ponta, vocalista no meio), e uma dupla de minas mais velhas que suas stalkers usuais não tirava os olhos dele. No break, ele passou por elas em direção ao bar, e conferiu as qualidades, por trás das lentes escuras: camiseta Ghost World, tatuagem de Betty Boop no braço, cabelos sobrenaturalmente negros, uma; ruiva-de-garrafa, barriga de fora, sorriso sacana, celular da Hello Kitty, a segunda. Elas sorriram pra ele na passagem, e Norio respondeu com o seco aceno de cabeça que usava para cumprimentar fãs afoitas. Segunda –e última- entrada, temperatura de 57 graus, joint is jiving, e as duas dançando logo ali na sua beirada do palco, a morena gritando furiosamente os “white light/white heat” da cover predileta da banda.

As duas ficaram até o último bis, e encostaram no palco para conversar enquanto Norio enxugava cuidadosamente o suor das cordas com a flanela que usava pendurada no bolso traseiro da calça, empacotando a Les Paul. “Cara, eu adoro o Velvet”, disse a morena. Norio: “Nós também”. A ruiva, risonha: “Olha, Mô, ele fala!” Morena, para a ruiva: “Será que ele tem nome?” Norio: “Norio”. As duas se apresentam –Mônica, Rachel-, e ele termina de guardar a guitarra, deixando o papo morrer naturalmente. “Fala, mas fala pouco”, diz Mônica. “Boca fechada...”, responde ele. “Não entra língua”, completa a ruiva. As duas riem estrondosamente, ele impassível. “Bom, senhoritas, preciso ir”, diz, vestindo a jaqueta também preta e levantando guitarra e amplificador. “Prazer”. As duas oferecem o rosto para um beijo de despedida, e ele se vai. Na rua, enquanto espera o manobrista trazer o carro, tira os óculos escuros, sonhando com a mina a quem não será preciso dizer lhufas. Porque é só assim que vale a pena falar. E Norio sorri, pra ninguém, porque sabe que ela vai aparecer. Someday. Soon.

December 28, 2004

 

Unique Distance from Isolation


The beach at Jaffna, Sri Lanka, D+1*

(For Charlotte, as atonement for guilty pleasures.)

While tempests roar outside
I watch you sleep and hold my hand up close
To the sliver of your face the blankets chose
As an offer to those manic winter gods

I’m duty-bound
To wake you up and pull you out of bed
While tempests roar outside, but I feel bad
To touch your face and call your name out loud

Your eyes seem glad
To meet my eyes against the morning snow
You smile while tempests roar outside, although
The world around us wakes up feeling sad

Being in love
Is finding life when quakes shatter the earth
And watching death at work while we give birth
To a selfish creature born of lust and joy

*If you want to help with relief work or donations, please find more information at http://tsunamihelp.blogspot.com/. Bloggers everywhere are doing their bit -and lots of help are needed. Thanks.

 

First Dates


"She's going to turn me down and say
'Can't we be friends?'"

Ricardo –“Ricardinho”, como preferiam as tias solteironas que mimavam o jogador de rugby como se ele não tivesse 1,90 e pesasse 90 quilos- era um sujeito tímido. Aos 17 anos, estava terminalmente apaixonado por uma colega de colégio, Carina, um ano mais jovem, e obviamente não tinha a menor idéia de como conquistar a moça. Pediu conselho à irmã mais nova, Sandra, que estudava na mesma classe que a musa, e a irmã, depois de extrair as horas de zombaria requeridas à custa do “grande e bobo”, como o chamava, apareceu com um esquema genial em sua simplicidade. Já que Ricardinho jamais teria coragem de simplesmente convidar a mina pra sair, o negócio era armar um cinema para toda a turma, e avisar a todo mundo, exceto o prospectivo casal, que não fosse à sessão. Depois de uma semana de doloroso planejamento, a coisa ficou marcada pro sábado. Uma hora antes do horário do filme, Ricardinho já estava lá, deixando uma marca “sala das preocupações” no piso do shopping center, à espera da musa. Cinco minutos antes da sessão, surge Alessandra, outra colega de escola, e cumprimenta Ricardinho com um beijo, perguntando se o pessoal ainda não tinha chegado. Ele gagueja, fica sem ação: não pode contar à menina o combinado, afinal. Sorri, enrubesce, e os dois esperam até o último minuto. Ninguém mais aparece. Ricardinho e Alessandra terminaram casados, depois de trocarem o primeiro beijo ainda durante o filme. Sandra até hoje jura que esqueceu sem querer de avisar a cunhada sobre o combinado. Ninguém –nem ela- acredita.

Charlotte tinha acabado de se mudar de uma cidade pequena para Pittsburgh, uma metrópole decadente na Pensilvânia. Período complicado –pais divorciados, mãe começando a namorar o sujeito que viria a se tornar seu padrasto. Charlotte tinha 16 anos, e nunca namorara. Não se enturmou muito bem na escola nova –era bonitinha demais pra ser nerd, inteligente demais pra andar com atletas ou festeiros, cautelosa demais pra fazer amizade com a turma da maconha e manguaça. Mas, como todo mundo aos 16 anos, queria namorar, for cryin’ out loud. Com o passar das semanas, percebeu que um menino quieto e razoavelmente bonitinho da classe não tirava os olhos dela. Levantou informações sobre o sujeito –o consenso era de que o rapaz vivia “na dele”- e deu início àqueles lentos flertes que fazem com que os tímidos procriem ainda menos que os pandas. Um dia, o moço ofereceu carona. Charlotte aceitou, e quando saíram juntos da escola descobriu que era carona no carro da mãe dele. Mãe de corpo presente, claro. Apesar dos mixed signals, ela acabou aceitando o convite do menino para um encontro, uma festa na casa de amigos no sábado à noite. Dando início a uma tradição que se perpetuaria pelo resto de sua vida, Charlotte trocou de roupa seis vezes antes que o moço chegasse, e mesmo assim fez com que a mãe o deixasse esperando enquanto voltava ao vestido que tinha escolhido inicialmente. O moço estava de blazer, todo acanhado, e a cumprimentou com um aperto de mão. Quase não conversaram a caminho da festa e, quando chegaram, nada de música, nada de movimento. Charlotte –boa filha de mãe judia- entrou em paranóia de date rape, mas esperou para ver. Foram recebidos pelo dono da casa, que apanhou os casacos dos dois e os conduziu à sala, onde um grupo de adolescentes estava sentado em círculo. Todo mundo cumprimentou o date de Charlotte, que a apresentou. Eles encontraram espaço no círculo, e o dono da casa apanhou a Bíblia e perguntou: “Onde a gente tinha parado, mesmo?”

Quando Fudílson tinha 14 anos, decidiu convidar uma menina bonitinha e inteligente que conhecera em uma viagem de férias para jantar e um cinema. Fudílson, coitââââdo, já então lia demais, não cansava de ver comédias românticas, e queria desesperadamente ser o William Holden pra Audrey Hepburn da moça. Mas era brasileiro, pobre e despenteado. Quando a menina aceitou o convite, e ainda deu bronca porque ele demorara demais a ligar, Fudílson, freneticamente inseguro, começou a pedir conselhos a deus e o mundo sobre como fazer para que o encontro desse certo (o pai, distraído como sempre com o futebol, se limitou a abrir a carteira e oferecer dinheiro: foi a única contribuição útil). Vestido desconfortavelmente (obra da mãe), armado de cinco mil conselhos sobre cavalheirismo* (obra de tia Hilda), estimulado por inúmeras sugestões dos amigos sobre como apalpar a área de lazer da mina, e apupado pela mana com um “parece um óminho”, Fudílson recusou a oferta paterna de carona, pegou o buzum numa tarde de sábado e foi ao encontro do destino. A mina o recebeu de jeans, camiseta, casaco, bamba, e gritou para dentro de casa –“manhê, tô saindo”- enquanto o cumprimentava com um abraço. Fudílson, engomadinho, estava se sentindo um pingüim em Uganda, mas a conversa fluía tão fácil quanto naqueles dias vagabundos de férias na praia. O filme –“The Wall”-, os dois acharam ótimo (amor ensurdece), e o jantar regado a milk-shakes em uma lanchonete perto da Paulista até hoje tem estrela no Michelin dos afetos. Fudílson teve que insistir pra pagar as entradas, e ela bateu o pé até rachar o jantar. Ele fez questão de acompanhá-la de ônibus até a casa dela, e se despediram no portão com um beijo longo e abraço confortável. Ela ficou olhando enquanto ele se afastava, e esperou que chegasse à metade do quarteirão antes de perguntar: “Da próxima vez, posso levar meu namorado?” Fudílson quase morreu do coração mas, antes que encontrasse resposta, ela correu até ele, repetiu o beijo e disse: “Tô brincando, seu tonto”. Amor é humor.

*Entre outras coisas, não deixar a moça pagar nada; não deixar que ela caminhe entre o cavalheiro e o meio-fio; sempre levantar quando ela sai da mesa do restaurante; sempre abrir as portas para ela; no frio, oferecer casaco; sempre cumprimentá-la pela aparência (especialmente se ela estiver feia); ligar para agradecer pelo encontro; não falar de outras mulé na frente dela. (Eu continuo usando uns 85% dessas regras, aliás, e continuo não comendo ninguém.)

December 27, 2004

 

Masters of the Universe


"Eu tenho a força, Maria Alice!"

Semana passada, acumulei umas tantas horinhas de tradução simultânea, em benefício da mais diliça das visitas, e enquanto tentava explicar pelo menos em linhas gerais o que andavam dizendo os velhos amigos que saem debaixo das pedras e aparecem armados de Peterlongo na saison en enfer natalina, percebi até que ponto o vocabulário afetivo, romântico e sexual da “minha geração” (ai, Fudílson, deixa de ser pretensioso) herdou ou formou expressões que não descrevem muito bem o que está de fato transcorrendo no imbroglio. Boa parte do vocabulário é belicoso –“conquistar” uma mulher, “ganhar” (no sentido de vencer, e não no de ser premiado com) uma mina. Não se preocupem: eu não vou fazer um sermão politicamente correto, nem propor chamar seminário de “ovulário”, como as discípulas enfurecidas de Ms Faludi. O que me pareceu curioso é até que ponto esse vocabulário descreve mal o processo que supostamente retrata. Porque há muito pouco de conquista em uma “conquista”, e vitória militar nenhuma quando se “ganha”. Da mesma forma que “comer”, esse deselegante e simpático termo que enfeita as memórias eróticas da minha geração (ih, Fudílson, qual é, mano, deixa de viadagem), não funciona muito bem como representação física do ato, em nenhuma de suas variedades.

Esse vocabulário “amoroso” todo, se a gente acatar as interpretações feministas mais agressivas, descreve mais relações de poder do que o processo do afeto: a parte ativa, agressora, subjuga a parte passiva (coreografia dos mano chacoalhando estrovengas e gritando “Eu tenho a Forçaaaaa!”), e põe pa drentru, de preferência na posição papai-e-mamãe, que é pra manter as mulé sempre embaixo. Na prática, todo mundo sabe que sexo é o pobre do Fábio Alfredo implorando uma furumfinha dias a fio, enquanto Maria Alice, a subjugada, decide se já atormentou, puniu ou simplesmente entediou o cara o bastante. Quer dizer, o vocabulário “agressivo” é só um remanescente de eras em que a relação entre força física e poder talvez exercesse efeitos mais práticos (uma espécie de vestigial tale da linguagem). E, mind, pra não correr o risco de ofender os possíveis pendores feministas de qualquer das minhas duas leitoras, não pretendo afirmar aqui que machismo não exista, que as mulheres não sejam discriminadas profissionalmente, que elas não sejam vítimas preferenciais de certo tipo de violência. Mas os termos arcaicos usados pra designar essas atividades amorosas se esvaziaram de qualquer agressividade, porque todo mundo sabe que “comer” não quer dizer comer, e “conquistar” não quer dizer conquistar. As palavras são recicladas e os sentidos que elas vêm a adquirir nem sempre correspondem ao que a etimologia disporia –um exemplo seria “hecatombe” (para os gregos, o sacrifício de cem bois)-, e em certos casos até mesmo a contrariam, como em "dizimar" (para os romanos, executar cada décimo soldado de uma legião para reprimir atos de covardia e deserção).

Ouvindo meus amigos falar sobre “as mina” que eu “ganhei” marromenos às duas da manhã na longa noite da ditadura, a obsolescência do vocabulário e das atitudes que a gente adotava naquela época pra tentar parecer mais confiante e menos apavorado do que se sentia de fato diante de Mulé, a Gigantesca Esfinge, é causa de ridícula nostalgia, porque eu sei exatamente o quanto as coisas mudaram, em mim, no mundo. Que eu ainda empregue esse vocabulário pra designar atividades muito diferentes e atitudes diametralmente opostas, 20 anos mais tarde, é medida do meu saudosismo, talvez, do meu apego às coisas que se esvaem. Mas também é medida de uma lacuna na linguagem, de uma falha, de um hiato qualquer na minha facilidade verbal –que dizem imensa (ui, Fudílson). Se bem o meu tesão seja a igualdade, não tenho palavras que descrevam o processo. Porque não se trata de “conquista”: quero o frisson da invasão e a doçura do consentimento emaranhados sem que seja possível distinguir causa de conseqüência. Muito tempo atrás, defini minhas preferências afetivas com a expressão “eu amo as mulheres que tropeçam”, e é fato: o tropeço, essa manifestação de um Acaso benfazejo, é o caminho –e talvez o único caminho- para que minha utópica igualdade de desiguais nasça sem que eu precise recorrer a todas essas fórmulas imprecisas de um passado em que todo mundo tinha muita certeza de seu lugar no mundo e vivia miseravelmente. Se isso dá certo? Já tomei sérias esnobadas de mulé a quem tratei com extremo respeito e completa lealdade. Mas isso é pobrema da mulé, não do meu método. Tem pouca coisa mais divertida do que apreciar à deux a puerilidade dos clichês amorosos do passado. E nada mais divertido do que (tentar) explicar à musa alienígena o que exatamente o old buddy quer dizer (no contexto da conversa) com “dar um pimba na gorduchinha”.

 

Grandes Vultos do Meu Passado


... com o seu ronco mardi-TO...

“Vitão” é um exemplo desses apelidos sacanas em que adolescentes se especializam. Com 50 raquíticos quilos distribuídos por exíguo metro e 67, Victor Hugo não era exatamente o sidekick que alguém pediria a deus em uma era marcada por constantes brigas de rua. Mas, baixinho e fracote ou não, nunca arregou de um confronto. (Às vezes, eu e Renato, que sempre acabávamos encarregados de resgatá-lo quando encurralado, preferiríamos que arregasse, aliás.) Vitão era uns dois anos mais velho que a gente, e foi também um dos primeiros na turma a começar a trabalhar. Ralava desde os 14 anos em um banco, primeiro como office boy, depois como auxiliar de sei lá o quê. Filho temporão de pais já aposentados, e ainda mais durangos que os nossos, o sonho do Vitão era comprar um carro. Pra ele, carro = minas. E quando fez 18, detonou a poupança de quatro anos de trabalho e comprou um carro, um Fuscão. Vocês, jovenzinhos crescidos em companhia de carros importados como símbolo de status, não devem ter muita idéia das delicadas sutilezas que o mercado automobilístico do Bananão comportava, way back when. O carro “popular” era o Fusca. O carro a que os moleques aspiravam como símbolo de status, ou seja, o carro “de boy”, era o Passat TS. O Fuscão* era uma espécie de Fusca maquiado pra parecer esportivo: o carro de quem queria passar por boy, mas não tinha dinheiro. (Notem que “boy”, aqui, é usado à maneira paulistana vigente naquele século distante, como redutivo pejorativo para “playboy”.)

Dimóddusqui o Fuscão usado do Vitão era ao mesmo tempo um símbolo de status e um atestado ambulante de que ele, e nós todos, definitivamente estávamos enquadrados no extremo loser do espectro sócio-erótico. Mesmo assim, a gente se divertia pra caramba com o carro, que o Vitão batizou como “John Player”, em homenagem aos cigarros que patrocinavam a Lotus na Fórmula 1 a lenha. Eu era um dos principais beneficiários, aliás –Vitão e o Fuscão me carregaram pra uma porrada de shows e ensaios. Cena comum às quatro da manhã de uma sexta-feira, naquele ano vaticinado por Orwell, era a gente tentando encaixar seis caras, guitarra, amplificador, baixo, no John Player, ao final de mais um show na linha “o rock’n’roll não morreu, mas estamos fazendo o possível”, em um bar sujinho da Adolfo Pinheiro. E o sábio Vitão provou que tinha razão em seu argumento central: por obra e graça do Fuscão, começamos a sair com –gasp!- mulheres! E Vitão, o motorizado, alguns meses mais tarde não só arrumou uma namorada mas uma namorada que etc. em base regular. A essa altura, porém, eu já tinha saído da pátria, mãe gentil, e acompanhava as novidades pelas cartas que o pessoal me mandava –ninguém mais regularmente, aliás, que o Vitão, o qual revelava talento insuspeitado como narrador ou cronista da vida adoravelmente besta que meus amigos continuavam levando em minha ausência.

Na temporada de festas, uns dois anos mais tarde, aproveitei o break das aulas e as passagens baratas propiciadas pela desregulamentação promovida por Reagan e fui passar Natal e Ano Novo na terrinha –Natal em casa, e Ano Novo na praia com a velha turma. O Bananão estava no meio de um congelamento de preços, salários e o escambau, promovido pelo meu xará ministro Fudílson sob a égide do sábio Sarney, e o país tinha começado a fazer estragos entre meus amigos. Vitão mesmo acabara impossibilitado de fazer faculdade, por falta de grana, e vinha considerando trocar o banco pela promissora carreira de vendedor de carnê do Baú. Mas estava feliz, porque tinha enfim encontrado o grande amor de sua vida, Eliete, a quem conheci naquela viagem à praia. O pessoal continuava sacana, e o apelido dado aos dois era casal 10 –ele magrinho, baixote, ela grande e gordinha. Os dois, claro, completamente mesmerizados pela atração mútua que os unia, davam um foda-se pros apupos, e pareciam, pra minha mais completa admiração, perfeitamente pacatos e felizes juntos. Eu só acreditava em amores torturados, tortuosos. Amor simples e seguro como aquele só podia ser coisa de gente burra. Não? Pois é, não.

Perdi um pouco o contato com essa turma –não tínhamos tantos interesses comuns, e com o tempo eles divergiram ainda mais-, mas recebia esporadicamente notícias do Vitão. Ele se casou com Eliete, abriu negócio, faliu, ficou na pindaíba, teve filhos, se recuperou, ficou na pindaíba de novo. Mesmo de volta ao Bananão, eu pouco o via. Mas os esparsos encontros eram sempre ótimos, porque meu velho amigo manteve intactos o senso de humor e, se não o otimismo, ao menos a visão benigna e pragmática que sempre teve sobre a vida. No Natal, nos encontramos em uma festa. Ainda casado com Eliete, os dois ainda merecedores do apelido “casal 10”, e dessa vez acompanhados do filho e da filha, que têm hoje a idade que tínhamos quando me enturmei com Vitão. Meu amigo Victor Hugo e sua família afetuosa e divertida resumem o que o Brasil tem de melhor: o humor diante da incompetência e das adversidades, a esperança –ainda que muito pé no chão- de que as coisas um dia melhorem. E o afeto sem reservas por um passado que a presença de gente como ele torna muito mais cintilante do que as estatísticas indicariam. Here’s to you, bud. Feliz Ano Novo. E da próxima vez eu levo o violão.

* Isso serve pra demonstrar a crítica social incorporada com inconsútil elegância ao trabalho de poetas como a dupla Artílio Versuti e Jeca Mineiro. Porque “Fuscão Preto”, imortalizada na voz de Almir Rogério, retrata exatamente a tensão social no confronto entre o lumpen excluído das rodovias e a classe média defendendo ferrenhamente seus privilégios ao volante do similar nacional. “Construçãomy ass.

December 25, 2004

 

Let my love open the door


"When everything feels all over
Let my love open the door (to your heart)"

Ali, meu amor, naquela vilinha hoje protegida por um guarda-noturno dorminhoco e um portão de segurança, passei alguns anos da minha infância risonha e frantic. Dobrando aquela esquina, à esquerda, o prédio de tijolos que você elogiou já naquela época abrigava o hospício feminino, mas ainda não tinha passado pela reforma que o deixou com cara de escola pública Late Victorian. As pacientes de vez em quando escapavam e vagueavam pelo bairro, fazendo caretas horrorosas e falando sozinhas, ocasionalmente peladas, uma delas certa vez com um penico na cabeça. Normalmente era o bonachão porteiro da fábrica da Arno, ali naquela rua hoje tornada intransitável pelas faculdades, que tomava as doidinhas pelo braço como cavalheiro em novela da Tupi e as conduzia de volta ao hospício. Nós, meninos “de rua” numa época em que o termo não queria dizer o que quer dizer hoje, sentíamos medo e fascínio ao vê-las: tão perto, tão inacessíveis. Não, meu amor, eu não vivi a vida inteira nesse bairro, se bem os cumprimentos dos padeiros, borracheiros, eventuais transeuntes e dos mano que fazem carreto ali na frente da favelinha pareçam indicar o contrário. Na verdade, passei os 10 primeiros anos da minha vida em parte mais distante e ainda mais fuleira da cidade. (Ela abre uma das garrafas de champanhe que roubamos para lubrificar o passeio, abaixa um pouco o CD, e a gente desliza pela madrugada natalina em confortável terceira marcha, a caminho da ZL.)

Aqui, meu amor, por onde hoje passa essa avenida nauseabunda batizada em honra do pai de um de nossos muitos prefeitos ladrões, ficava o córrego da minha infância, cujas margens gramadas ou lamacentas abrigavam minhas aventuras com balões, papagaios, bicicletas. Esse cruzamento no passado era o lugar da ponte que ligava minha casa ao meu primeiro colégio; como eu tinha vergonha de ser levado pela mamma, ela costumava me seguir pensando que eu não percebesse, e eu costumava sempre verificar por sobre o ombro se ela estava lá, meio quarteirão atrás, me olhando de esguelha: just in case, meu amor, just in case. Essa avenida, os morros terraplenados que ela oculta, o riacho já então poluído mas pelo menos ainda aparentemente líquido que o asfalto engoliu aí por baixo, é o retrato escarrado (muito literalmente) do que fizeram com a minha cidade. Não, meu amor, eu não conheço bem Pittsburgh, mas acho que não é a mesma coisa: não é que a indústria básica da cidade tenha decaído, e... rust never sleeps. Aqui, a cidade foi devastada enquanto crescia, e até mesmo porque crescia. A regra de ouro dos pais da pátria, meu amor, é sempre substituir o que quer que exista por algo ainda mais feio. Como aquela história da Fran Leibovitz, que procurou um amigo sessentão para que o cara assinasse uma petição contra a demolição de um prédio histórico em NYC. O cara assinou, e disse “lembro de ter assinado 30 anos atrás quando fizeram uma campanha contra a construção do edifício”. (E a gente mata a primeira garrafa de champanhe, bebendo no gargalo, designated driver my ass, janelas abertas, ela sem sapatos, cabelo curto voando ao vento, o vórtice dos olhos.)

Esse é o centro velho da cidade, meu amor, que foi abandonado pelas empresas em troca daqueles bairros horrorosos onde visitamos clientes essa semana. Especialmente à noite, quando o efeito Calcutá dos ambulantes e a feiúra gerada pela má conservação dos edifícios ficam escondidos sob a magia das luzes amareladas, é a única parte da minha cidade que faz algum sentido visualmente –as proporções dos edifícios, seu posicionamento, a largura relativa das ruas e avenidas, a relação entre forma e função, a distribuição do comércio. Ainda que escondidos por trás das grades instaladas em todo lugar para impedir que o povo os use, o centro tem até espaços públicos, meu amor. E belas vistas. E uma certa elegância proto-européia que marcava nossa vocação de êmulos, de fâmulos. O neologismo que criei pra definir a cidade, meu amor, pra definir meu amor e meu ódio por ela, minha ternura nostálgica e meu desdém permanente, é “jecopolita”. Porque é isso que nós somos: tão, tão jecas, e ainda assim, à maneira dos porões de estiva nos transatlânticos da emigração, titulares de um cosmopolitanismo dos pobres que -porque, yeah, eu sou um dos jecas- às vezes enche meu coração de orgulho sem nenhum motivo. E de volta ao bairro, meu amor, as casas iluminadas, as portas abertas, a música escapando para a rua por conta da festa: essa foi a cara da cidade, no passado. No bairro do nonno paterno, bairro de operários, bairro de oriundis pobres, se usava colocar cadeiras na calçada diante das casas, à noite, e jogar conversa fora com os vizinhos. Foi no século passado, meu amor, mas ainda dentro do horizonte da minha memória pessoal. Quando eu tinha oito anos, eu e minha gangue de maloqueiros da Água Rasa costumávamos cobrir o percurso das nossas casas à várzea do córrego que nos servia de playground caminhando por sobre os telhados, sob os insultos dos vizinhos. Menino no telhado hoje? 190 na hora. É claro que é só nostalgia, meu amor, é claro que é só saudade de coisas que talvez nunca tenham existido com essa intensidade lírica que às vezes –como agora- me enche os olhos de lágrimas. Mas eu queria poder te mostrar a cidade como um dia foi, ou como um dia eu a vi. Queria que meu amor abrisse a porta dessa beleza arredia, dessa cidade submersa sob o asfalto, dos jardins transformados em terminais de ônibus, das praças transformadas em estacionamentos. Queria que meu amor –por você e pela cidade- abrisse a porta para o passado, que se vai fechando inexoravelmente. (A segunda garrafa de champanhe acabou, os dois fora do carro, abraçados contemplando o sol nascer por sobre os prédios, e a mesma canção datada e nostálgica repetida e repetida, loop de memórias, partidas e chegadas).

É marromenos isso, meu amor, que eu queria te dizer.

December 24, 2004

 

Faithful friends who are dear to us...*


"I hope Santa won't overlook these."**

"The main reason Santa is so jolly is because he knows where all the bad girls live." -George Carlin

"I stopped believing in Santa Claus when I was six. Mother took me to see him in a department store and he asked for my autograph." -Shirley Temple


"I've cleaned out the bank to play Santa Claus."**

"Christmas begins about the first of December with an office party and ends when you finally realize what you spent, around April fifteenth of the next year." -P. J. O'Rourke

"Christmas at my house is always at least six or seven times more pleasant than anywhere else. We start drinking early. And while everyone else is seeing only one Santa Claus, we'll be seeing six or seven." -W. C. Fields, the original Filthy McNasty

* "Have Yourself a Merry Little Christmas", by Hugh Martin and Ralph Blane
** Pin-up work by the amazing Freeman Elliot (1922- )

December 23, 2004

 

Playing with my choo-choo toy


Jontex Express arriving at plataform 69

... e aí o trem entrou no túnel. Na Alemanha, a Marklin, tradicionalíssima fabricante de trens de brinquedo, lançou para o Natal um novo modelo que traz um vagão pintado com as cores de uma fábrica de camisinha. Dentro, uma camisinha Billy Boy. Na embalagem do trenzinho, o comprador encontra instruções ilustradas sobre como colocar a Billy Boy no seu John Thomas, caso conheça uma Peggy Sue. "Just found joy, I’m as happy as a baby boy, when he’s playing with his choo-choo toy"...

Cavaleiro da triste figura: Na Espanha, o bilhete vencedor da loteria de Natal, conhecida pelo mimoso nome El Gordo e de prêmio principal avaliado em 390 milhões de euros, foi vendido na lotérica La Bruixa D’Or, localizada na cidade de Sort (com isso, El Gordo sai para apostadores de Sort pela segunda vez). Já Uncle Filthy acertou um mono na Mega-Sena milionária de Natal. Resolução de Ano-Novo McNasty: da próxima vez melhor não jogar na Lotérica Copa 90, e muito menos na Vila Cocô.

Ships arriving too late to save a drowning reindeer: A arma predileta dos ecologistas é o terrorismo moral. Um beócio da World Wildlife Foundation alertou ao mundo insensível que a oficina de Papai Noel corre o risco de afundar porque a calota polar está derretendo. A seguir, o Greenpeace vai avisar que o depósito de ovos do Coelhinho da Páscoa vai derreter, e o Sierra Club promoverá manifestação de protesto contra a presença de aeroportos em zonas urbanas, porque isso atrapalha o trabalho da Fadinha dos Dentes. A World Fairy Creatures Alliance vai exigir que a ONU negocie o Protocolo da Terra do Nunca, proibindo o rio de chocolate do Willy Wonka e o canibalismo da bruxa de Hansel e Gretel, mas ao mesmo tempo reprimindo a agressão do lenhador, aquele destruidor da natureza, contra o lobo de Chapéuzinho Vermelho, cujo ele o lobo -garantem- vai virar vegan.

Losing his religion, maybe getting a dose of clap: O Camboja é meu exemplo de país feliz. Depois daqueles anos de história hedionda, com Pol Pot, genocídio, guerra civil e invasão, agora sempre que aparece notícia sobre o país na mídia envolve monges putanheiros. Meses atrás, eram os dois budistas que tinham deixado o mosteiro para se engraçar com as minas da barraquinha de cerveja do outro lado da rua. Esta semana, o governo proibiu a execução da canção e videoclipe "Wrongly Quitting Monkhood for Love" (por que eu não pensei nesse título pro meu disco solo?), que segundo o ministro da informação “afeta a dignidade dos outros monges, que estão se esforçando para sacrificar seu vigor físico e mental para se dedicar aos ensinamentos do Buda”. Enquanto isso, o herói do videocripe cambojano tá abraçando e beijando a mina no laguinho. (O diretor do vídeo garante, porém, que o cara se arrepende e volta a ser monge depois que a ingrata o troca por outro ex-monge mais gordinho.)

Mãos ao alto, fofa! Em Zagreb, um ladrão foi capturado depois de nove meses de crimes e de roubar 26 lojas, porque costumava chamar as vítimas de “benhê”, “fofa”, e dizer “pega um dinheirinho pra você, môzão”, o que permitiu a alcagüetes identificá-lo e denunciá-lo às otoridad. O meliante se anunciava dizendo “isso aqui é um assaltozinho”. Na Croácia (as well as elsewhere), o crime pode compensar, mas ser polido não compensa nem um pouquinho.

Bookish, withdrawn and too easily bored with love: E para provar aos meus colegas de nerditute que sim, nóis consegue comer alguém e pode até procriar em cativeiro, pesquisa divulgada hoje informa que o melhor lugar pra paquerar em Nova York é a livraria, especialmente a Barnes & Noble. Uma porta-voz da empresa disse que o resultado não era surpresa, e que alguns casais que se conheceram nas lojas da rede haviam pedido para realizar lá suas cerimônias de casamento. Uncle Filthy aprova: cê faz a cerimônia na seção de handicrafts, a lua-de-mel na de sexo, escolhe os móveis na de utilidades domésticas, briga com a patôa na de feminismo, tenta a reconciliação na de auto-ajuda e termina no subsolo, livros jurídicos (ou satanismo e santería, mas essa área só funciona pra quem tiver cartão de crédito terminado em 666).

 

"Songbird sweet and sour jane"


Starvin' Marvin Plays Songs of Love, 2001-2004

“Noite de abertura”, disse o baterista mulherengo com um sorriso sacana certa quarta-feira de setembro, em 2001, e a banda entrou no palco rolando de rir para o primeiro gig de uma carreira meteórica (shows uma vez cada centos meses, passa longe, ninguém vê). Introdução “sanfônica” com arranjo by your very own Uncle Filthy, “The South Park Suite” –“Stinky Breeches”, “Getting Gay With Kids”, “Chef’s Salty Chocolate Balls”. (Minha única esperança como músico, depois dos 30, sempre foi que a platéia se divertisse tanto quanto a gente.)

(song remains the same, Big Daddy prefere tocar essa em Pi, o baixo sempre some na mixagem, pede pro Lôriva reduzir o eco eco eco eco, o melhor lugar pra guardar a guitarra é em pé atrás da porta do banheiro de empregada, e agora com vocês the notorious Panda, tem certeza que aquela mina é mesmo sua prima, com um backing vocal muito especial do Doctor Ox, meu esse tecrado do estúdio é marca Kong, será que o PA mostra o cofrinho de propósito quando ajeita a bateria, só preconceito sem preto, e não esquece de dizer pro Alex onde ele pode enfiar a gaita Hering, manera na baixaria que minha mãe vem ver o show, esse saxofonista que vai tocar com a gente é irmão daquele Jerico, o nome do bar é Gayote, com aquele nariz quem precisa de baqueta, gol de quem, o Inacinho Bacalhau sola do mesmo jeito que o Galeano dibra, eu sempre pensei que essa letra fosse stinky bitches, vou te apresentar como Fábio Minhoquinha, eu ainda vou tocar com duas strippers numa jaula, pô joe você já é um homenzinho será que dava pra cantar com voz mais grossa, song is over)

“Noite de fechadura”, disse o baterista que agora namora uma bizicóloga ciumenta qual peixeira napolitana, no dia 22 de dezembro de 2004, e a banda entrou no mesmo palco da estréia rindo como em todos os 53 shows. MC Honky abriu com a fórmula ritual –“som na caixa, Lôriva”- e pela primeira -e última- vez na meteórica carreira desse felômeno pop tocamos mais de duas horas. No 19° bis, só tinha sobrado no set list o novo medley que Uncle Filthy arranjara como despedida para os amigos de tantos shows nesses últimos 20 anos –uma terna combinação de "Should I Stay or Should I Go" e "Papai Noel Velho Batuta". Detalhe sentimental, obra da sempre atenta Pati: todos mundo de gorrinho de Papai Noel. Jingle balls, buddies. Thanks for the laughs. E a gente com certeza se ouve –afinal, Nélson Ned um dia chegou ao Carnegie Hall.

December 22, 2004

 

Stormy (Horny) Weather


"What is this called again?"

Tem pouca coisa mais diliça no universo do que ver a moça andando pela minha casa, vestindo minha camisa, fuçando meus livros. A mágica às vezes vive a menos de um metro do hábito.

Tem pouca coisa mais diliça no universo do que deitar num colchão que já conheceu dias melhores mas sempre feels like o mais confortável do mundo e contemplar a moça iluminada só pela luz azulada do computador, respondendo e-mails e lendo as bobagens que eu escrevo com aquele sorriso secreto.

Tem pouca coisa mais diliça que uma caminhada vespertina e silenciosa pelo parque, de mãos dadas, sob a chuva. Aliás, tem pouca coisa mais diliça do que um amor pela chuva compartilhado sem grandes retóricas.

E tem coisa nenhuma mais diliça do que ver a moça se atracando ferozmente com o sonho de padaria que eu não posso comer.

 

Máquina contra pesadelos ACME


"What's up, Doc?"

Minha co-âncora Smelly McDirty não consegue parar de rir a cada vez que repito o nome “Pernalonga”. Sei lá se a palavra tem som tribal demais pra ouvidos acostumados a vocábulos melodiosos como Poughkeepsie ou Kalamazoo, mas o resultado é infalível. Eu: “Pernalonga”. Ela: gargalhada. O que me espanta, no entanto, é a onipresença da puerra do coelhinho. Onde quer que eu tenha ido –e Uncle Filthy viajou bastante, difundindo a palavra do Patrocinador e o evangelho do sabão em pó-, o pessoal assiste Pernalonga, Daffy, o Road Runner. Piada com a ACME* é hit certeiro em todos os continentes. Os nomes variam – Hortelino, Pato Lucas, Lollo Rompicollo- mas o humor maravilhoso que aquele bando de lunáticos criou no estúdio da Warner Bros. funciona em toda parte. Por mais que o mundo tenha virado, vá lá, “aldeia global”, são poucas as coisas instantaneamente reconhecidas –e apreciadas sem grandes adaptações- por quase todas as culturas. Desenhos animados, especialmente os clássicos, com certeza batem na tecla do “arquétipo”, ou qualquer outra expressão surrada usada pra denotar aquilo que existe de comum entre os seres humanos infinitamente desiguais.


"Yeah, blogs are literature"

Eu sempre fui a major sucker for cartoons. Ainda hoje, descasado e orgulhoso por meu abstinente papel em limpar um pouco a sujeira do pool genético, termino assistindo até mesmo aos desenhos “de criança”, tipo o filme do Bob Esponja. Mas nada se compara aos cartoons da Warner, especialmente aos produzidos, dirigidos e roteirizados pela dupla Chuck Jones/Mike Maltese. Bugs, Daffy, Yosemite Sam, Elmer Fudd, Pepe le Pew, Marvin the Martian continuam a ser a minha forma predileta de Prozac. E, porque sou um bostinha obsessivo, obviamente não me limitei a abrir a(s) latinha(s) de antologia Warner em DVD e dar risada. Cacei o máximo possível de informações, livros, biografias. Chuck Jones (1912-2002), por exemplo, deixou dois volumes de memórias maravilhosos, Chuck Amuck e Chuck Reducks (as editoras brasileiras são idiotas demais por não comprar os direitos: com certeza venderiam muito bem). Tio Chuck conta muita história legal, mas a minha predileta data da época em que o Leon Schlesinger Studios (produtor dos Merrie Melodies originais) foi comprado pela Warner Bros. Preocupado com a quantidade de tipinhos excêntricos que povoavam a unidade de animação, o estúdio designou um gerente mala pra supervisionar o trabalho e garantir que não houvesse desperdício. Na época, os desenhistas trabalhavam em ritmo de fábrica, mas, pra sacanear o tal gerente, subornaram um office-boy no escritório dele e, a cada vez que o executivo decidia atravessar o complexo da Warner e visitar os estúdios de animação, o moleque ligava para avisar, e todo mundo imediatamente parava de trabalhar e começava a tocar ukelele, jogar pingue-pongue, goof off. O gerente ficava histérico, ameaçava o staff inteiro de demissão, Schlesinger se desculpava em sotaque alemão de vaudeville, e eles repetiam tudo de novo na semana seguinte.


Bîp-bîp

Eu não sei até que ponto essas maluquices inspiraram diretamente a criação de desenhos animados, mas o ambiente decerto explica pelo menos em parte as origens do Road Runner, que, pro Uncle Filthy, é não só o melhor desenho animado curto de todos os tempos mas deveria ser considerado também como uma das maiores realizações artísticas do século XX. Na série de desenhos do Road Runner, Chuck Jones e Maltese depuraram os elementos do desenho animado clássico (o formato de mais ou menos seis minutos que era padrão desde os anos 30) e transformaram o gênero em uma jóia formal –como a ópera chinesa, o hai-kai, o soneto elizabetano, o bebop. Eles tiveram o culhão de eliminar os diálogos, ou seja, dispensaram a presença avassaladora de Mel Blanc, que é um dos maiores responsáveis pelo sucesso do Pernalonga. Reduziram o elenco a um único personagem, Wile E. Coyote (porque o Road Runner mesmo não é exatamente um personagem, mas uma abstração). E adotaram como cenário os cânions do deserto do sudoeste americano –quer dizer nada de cidades, casas, planetas, paródias de filmes, todos os elementos que enriqueciam a tradição dos cartoons Warner anteriores. Com essa mixaria –um coiote fracassado, um passarinho apressado, o deserto cortado pelas rodovias, e, claro, por fim mas essencialmente importante, o luxuoso auxílio do catálogo ACME de reembolso postal-, eles criaram 43 episódios de impecável rigor filosófico. Porque o que Jones, Maltese e companhia fizeram com a série foi transformar a eterna frustração dos sonhos, anseios e instintos do coiote em piada cósmica. E é evidente que eles sabiam que o coiote somos nós: sempre desesperados por agarrar o bip-bip que representa nossa vontade e nosso desejo, e sempre traídos pela nossa incompetência física, pela nossa ambição, pelos frutos da civilização que supostamente deveriam nos ajudar a superar as limitações naturais (quer dizer, Chuck Jones e Italo Svevo tinham muito em comum). Quando moleque, eu assistia o Road Runner e dava risada com o humor pastelão. Agora, rio o dobro. Porque a Física, a Química, a Biologia e a ACME vão sempre, sempre me deixar na mão. E o féladaputa do passarinho vai dar aquela meia-trava que caracteriza sua maligna e involuntária ironia e vai buzinar duas vezes para mim, antes de retomar a empoeirada trajetória que o leva do nada pra lugar nenhum.

* Update: Informação manjada, mas sempre pode ter alguém que ainda não saiba: ACME quer dizer American Corporation Making Everything.

December 21, 2004

 

Play that funky music, white boy


Honk if your're a honky

(Esqueci o principal: For Charlotte, who gets jiggy with me on a regular basis.)

Yo come round posse and listen tight
McNasty will score some cooch tonight
She’s a Jewish princess, I’m a pizza boy
But I will make that girl say oy

McNasty is here to represent
And he ain't gonna brook no argument
She’ll be my girl, I’ll be her goy
I’ll buy her some bling-bling and a new sex toy

Honkies have a right to rap their ‘hood, (y’all)
I’m white and I’m Brazilian but I’ve got ‘tude
I’ll rhyme her booty and I’ll rhyme her boobs
Call her sweet patootie just like I shoulds

I will call her rabbi and study the Kaballah
And learn to sing them songs from Tin Pan Alla
I’ll even watch some flic with that gal Barbra
And bomb the shit out off of every bum in Gaza
I’ll call for the mohel and have him shear some inches
(Yo, better let this out, what if he flinches?)
I’ll do anything to get the girl I like
Even if my friends will call me kike

McNasty is here to represent
And he ain't gonna brook no argument
I’ll be her goy, she will be my girl
(And ‘coz she killed Jesus I’ll go to hell)

 

No Ho Ho


Cortesia de Al Moore, o substituto do grande Vargas na Esquire

“Brinde com champanhe Espuma de Prata” resume perfeitamente minhas memórias natalinas. Ao som de um dos dois LPs que compunham a discoteca de minha avó materna residente: Christmas with Conniff. (O outro? Sentimental Eu Sou –O Melhor de Altemar Dutra). A temporada de festas pede, claro, lembranças sentimentais, ou na melhor das hipóteses agridoces. Mas não: o Natal sempre me deixou de saco na lua. E continua deixando, especialmente com essa árvore púbica féladaputa piscando diante da minha janela a noite inteira, e o facho do holofote torto a ela vinculado dançando até ser engolido pelas nuvens de poluição. Traveling: Ana Paula Arósio com sorriso de aeromoça no outdoor, ao fundo o caixote da Bienal. O cocoruto da Oca. Aquela estranha construção em forma de ralador de queijo. A empena imunda do prédio do Detran. O obelisco vestindo camisinha. E a árvore, que leva todo basbaque cujo carro tem placa de cidade que nem Jacutinga a brecar onde não deve, e contemplar, atônito. Cê sabe que o mês vai ser uma merda quando encontra gente que ainda se espanta com o milagre da luz elétrica.

E –the horror, the horror- não obstante a mala cheia de presentes, esqueci de alguém aqui, alguém mais acolá, o que implica visita a shopping center em algum momento entre hoje e quinta. (Os comerciais natalinos de shopping centers que vi na TV ontem, enquanto ciceroneava a mais diliça das visitas em excursão às maravilhas do broadcasting bananal, eram suficientemente apavorantes: ator obeso com sorriso de Fast Tony, your friendly Newark used car dealer, atriz enrugada e cantor romântico-sertanejo recomendam, nay, imploram visita a locais de comércio que eu não freqüento sem passaporte, tipo “Shopping Anália Franco” e “Shopping Interlagos”). Só o demolition derby de catar vaga no estacionamento já acabaria com a alegria natalina de qualquer um. (Uma das regras do decálogo urbano de Uncle Filthy é que cidade onde não se pode fazer compras na rua* é essencialmente inabitável. Uncle Filthy nem sempre segue seu próprio decálogo.) E temos, claro, as histórias de horror natalino, tipo a mina que trabalha com sister McNasty, ganha 800 mangos por mês e quer comprar um boné Diesel ao modesto preço de 500 caramurus, porque é isso que se usa nas festa-rêiv.

Tem gente que critica a comercialização do Natal, já que aparentemente a festa toda é em honra de um carpinteiro indie que geria a firrrma da família do mesmo jeito que os filhos do Roberto Marinho estão gerindo a Grobo, mas os presentes são a única virtude redentora da efeméride: se é pra agüentar tio chato, primo burro, disco do Ray Conniff, show dos três tremores, gente que diz “tin-tin”, lágrimas de crocodilo e a árvore do mal que pisca pra mostrar aos alienígenas exatamente onde mirar os mísseis, eu exijo suborno. E caro. Jingle bullshit. (E se Papai Noel aparecer na chaminé da mamma, I’ll bust a cap on his honky ass.)

*Se alguém pensou “Jardins”, pode colocar o chapéu de burro e ficar ali sentado no cantinho da classe, olhando pra parede.
** O versinho do calendário diz:
"December's queen is never mean
But her kindness has its causes-
Would you believe the gifts she received
Are from a dozen Santa Clauses?"

December 20, 2004

 

Surinamala, o carrasco do Sri Lanka...


Sri Lanká, ilhá, ilhá du amô, Sri Lanká...

Kit piada Fudílson: Eu sei que o título do post parece letra de axé, mas o profissional da morte em epígrafe, "Suranimala" (pseudônimo), 24, nunca assistiu a uma execução, se declara assustado diante do cadafalso e ninguém no governo lhe forneceu uma corda. Ele foi instruído a praticar com sacos de areia, a namorada tem vergonha da profissão dele e o casal nem teve coragem de contar aos sogros. Talk amongst yourselves.

Mostrando os dicumento: Em matéria assinada por T. A. Badger, primo de Eight A. Beaver, a Associated Press informa que as dançarinas exóticas de San Antonio, Texas (piada com texano perde cinco pontos, porque é tão fácil), terão de portar um crachá exibindo o nome de guerra. Uncle Filthy, que acha qualquer forma de body art extremely appealing, sugere que as moças tatuem o nome de guerra em lugar facilmente visível (ou seja, dada a profissão, qualquer lugar). Pra evitar que a dança exótica redunde em prostituição (mente imunda, a dessa gente –que correlação existe entre mulé dançando pelada abraçada a um mastro metálico e sexo?), as dançarinas de San Antonio não podem ficar a menos de um metro dos fregueses durante as coreografias. A exótica profissional Dona Tempest, que não sabe onde vai exibir o crachá, arrazoa com a experiência advinda de árdua prática: “Se você fica a um metro daquele cara e a um metro desse outro, termina sentada no colo de um terceiro”.

Senhoritas dos anéis: A nova produção de Das Rheingold, de Wagner, pela Royal Opera House de Londres, vai começar com três Rhinemaidens usando apenas “perucas estrategicamente colocadas” (mais ou menos como começa qualquer filme do Burt Reynolds). A estilista Marie-Jeanne Lecca criou o visual, que consiste basicamente de perucas azuis para a área do púbis. Em suma, todo mundo vai poder realizar a fantasia de ver a Smurfette pelada.

Que las hay: Na Colômbia, a polícia, para “proteger a conduta moral e os bons hábitos do povo”, apreendeu 292 bonecas de vudu na província de Quindio, ainda que não haja lei contra o transporte ou comércio desse tipo de produto no país. O CSI Bogotá se recusa a examinar a, er, “evidência”, porque os técnicos têm medo de bruxaria.

Why I love New Jersey: No aeroporto Newark Liberty International, que atende regularmente Uncle Filthy em suas viagens to and fro, um pacote de falsos explosivos usado para testar a segurança das instalações acabou embarcado por engano em um vôo, e só foi recuperado em Amsterdã. Ainda que o bravo Newark Star-Ledger afirme que a segurança do aeroporto deixou escapar um em cada quatro pacotes contendo falsas armas e explosivos em testes conduzidos no terceiro trimestre, Ann Davis, porta-voz da Transport Security Administration, diz que “a segurança do aeroporto de Newark é do maior calibre”. Ato fálico ponto 50.

E terminamos com manchete genial na home page do UOL: “ONU deve priorizar emissões de gases dos países pobres”. Indeed. Contra flatos não há argumentos.

 

Whispers of mortality


A Brazilian bastard foresees his death

Não é que ele encarasse a morte com desdém, à maneira desses personagens de ficção que a afrontam embriagados de adrenalina, intrépidos diante do adversário invencível ou serenamente contemplativos. Sabia que a ceifadeira foi feita para ceifar; e já convivera com o fruto dessa colheita, talvez até em escala um tantinho maior do que era comum entre os sujeitos de sua idade, origem, status. Houve um período de sua vida em que se sentia como esses pilotos da RAF em filme da segunda guerra: a cada missão, mais um leito vazio no aeródromo. Perdeu familiares e amigos para males prematuros –em alguns casos, absurdamente prematuros-, perdeu colegas de banda para overdoses, perdeu seu primeiro amor para um acidente de carro, um de seus melhores amigos para um assalto que valeu ao assassino filho da puta e jamais identificado um relógio de 50 mangos e os 35 reais que a vítima levava no bolso, a caminho da padaria. E, se bem que à sua maneira cautelosa, tivera lá seus potenciais encontros com a Grande Inclusão: planadores, asas-delta, pára-quedas, outras quedas sem nenhuma forma de freio, centas fraturas, avião bimotor perdendo uma turbina em meio a tempestade de raios, um carro que saiu rodando como pião em um dia de chuva no primeiro viaduto da Radial Leste e terminou miraculosamente apontado na direção certa, sem bater em ninguém ou detonar o guard-rail e espatifar algum desavisado lá embaixo. Mas nenhuma dessas experiências o afetou morbidamente. E se bem o seu poeta predileto fosse um hipocondríaco sempre preocupado com a morte, “um dia mais perto, agora” (e com razão: morreu relativamente moço, aos 63), ele tampouco devotou grandes preocupações intelectuais à morte. Ateísmo simplifica a equação, quanto a isso: a morte é o botão de desligar, e não é preciso que o mano se preocupe quanto ao que acontece quando a máquina pára.

Estava acostumado a certas limitações físicas –miopia, asma, disfunção hormonal amena e cíclica que optara por controlar com o mínimo de interferência química. Conviver com as suas modestas quizumbas de saúde, e com uma família que, ao contrário, transformava qualquer espirro em épico, fizera com que desenvolvesse uma teoria utilitária de saúde: saúde é um estado ideal, como a felicidade (obrigado, Svevo), e um homem racional como sempre pretendera ser aprenderia a viver 75% saudável, digamos, sabendo que era a melhor média a que podia aspirar em termos práticos. Até que começou ele mesmo a padecer dessas formas meio exibicionistas de doença que o incomodavam, por histriônicas, nos outros. Perdeu o controle do ciclo hormonal, agora furioso em lugar de ameno. Perdeu o sono. Passou a sofrer de tonturas dignas de mocinha do século XIX. Desmaiou aqui e acolá. Sangramentos inexplicados se tornaram ocorrência comum. Demorou um pouco a recorrer ao médico, mas o fez. As primeiras intervenções resultaram em nada de prático: sem cura e, pior, sem diagnóstico (e ele lembrando Millôr, que um dia escreveu que muita gente morre desse mal terrível chamado diagnóstico). Porque a vida dele andava uma caca em quase todas as frentes –namoro muito ruim, problemas no trabalho e de falta de trabalho-, começou a empacotar todas as más tendências na mesma caixa, com o rótulo Meu Fracasso, e a matutar sobre as estatísticas do ramo paterno de sua família, no qual um bom número dos homens (seu pai incluído) morrera de piripaque cardíaco X entre os 35 e os 50. E racionalizou tudo isso, de um jeito levemente insano, na forma de uma (auto)condenação à morte.

Morrer, que ele sempre encarara como ao mesmo tempo acidental e estatisticamente inevitável, passou a ser um objetivo imposto à sua revelia mas que ele mesmo assim ia perseguindo sem descanso. E com a Grande Inclusão dormindo no sofá de seu apartamento moral, digamos, é claro que a emoção dominante em sua vida passou a ser o arrependimento, pelas escolhas erradas e pelas escolhas não feitas. Com a morte tão perto, ele transformou o olhar impiedoso com que sempre julgara suas limitações, o seu tão querido reality check, em discurso da promotoria: em vez de constatar que errou, e como, e saber de alguma maneira que os erros eram inevitáveis porque “eram ele”, eram o avesso inevitável dos acertos, ele começou a se acusar. (O que, claro, só agravava o processo, em uma doença movida em larga medida por depressão.) “Cê vai morrer vendendo sabão. Cê vai morrer longe das pessoas que mais amou. Cê vai morrer perto do que te faz morrer. Cê vai morrer sem ter corrido o risco de jogar tudo pro alto e fazer o que você realmente ama. Cê vai morrer sem correr esse risco, aliás, depois de ter vivido anos preservando a liberdade necessária a correr riscos: ou seja, cê vai morrer em cima do muro, como um peessedebista, e isso é o mais imperdoável”. Por outro lado, esse súbito medo de morrer, ou, mais precisamente, a urgência que a idéia da morte iminente emprestava a tudo, destravou um pouco a férrea autocrítica: pela primeira vez na vida, ele escreveu sem ser pago. Tomou coragem e se aproximou de alguém que o encantava a distância, e tentou dizer o quanto ela era imensa e maravilhosamente importante, única. Porque ele sentia ali, por sob o humor e sofisticação –tanto a verdadeira quanto a fachada que ela ostentava pra parecer ainda mais fodona do que era- dor parecida com a dele.

Win some, lose some, como sempre: a mina, ele perdeu. Mas a coragem de assumir riscos e a urgência de fazer alguma coisa, qualquer coisa, pra sair da areia movediça o recompensaram de outras maneiras. A morte decidiu voltar pra região nebulosa que a escondia. (Se bem que certas noites ainda durma no sofá: por isso, talvez, a insônia.) Tarde demais pra que lhe fosse útil na crise, ele lembrou de sua história predileta. Ainda que sempre aspirante a intelectual, a coisa mais importante que ele lera na vida (claro, porque irony was his albatross) foi uma historinha contada como digressão em livro de detetive. Em The Maltese Falcon, o detetive Sam Spade conta à cliente Brigid O’Shaughnessy “a história de Fleetcraft”. Spade, anos antes, fora contratado para investigar o desaparecimento de um cara chamado Fleetcraft, que saiu pra trabalhar certa manhã e nunca mais voltou. Depois de investigar durante algumas semanas, não achou o cara, ou qualquer pista, e desistiu do trabalho. Passados alguns anos, investigando outro caso, em uma cidade próxima, reconheceu o tal Fleetcraft saindo de um restaurante. Ficou curioso, e começou a segui-lo. Descobriu que ele trabalhava na mesma coisa, tinha uma mulher parecida com a mulher que deixara, uma casa igualzinha à primeira. Spade decide dar uma prensa no cara, porque quer uma explicação para o motivo de ele ter desaparecido. E Fleecraft conta que, naquela manhã em que saiu de casa pra trabalhar, passou por um edifício em construção. Um andaime se desprendeu e caiu, se espatifando a um metro dele. E ele começou a pensar que poderia ter morrido ali, sem ter feito nada do que realmente queria na vida. Por isso, decidiu desaparecer. Spade interfere e acusa Fleetcraft de ter construído, depois da fuga, uma vida igualzinha à que tinha inicialmente. E Fleetcraft diz: “É. Você se acostuma aos andaimes que caem. Depois volta a se acostumar aos andaimes que não caem”. Quando nosso herói leu esse treco pela primeira vez, com 14 anos, parecia o mais perfeito resumo filosófico da vida. Mas aos 35, mercê do sêo Schrödinger, ele enfim desenvolveu uma fórmula melhor: o importante é saber que todos os andaimes caem e não caem ao mesmo tempo (eles são todos produzidos pela ACME). Ter certeza da morte, e portanto não viver assombrado por ela, não implica acreditar que cada um dos andaimes vá cair. Mas, porque eles podem cair, é melhor ceder de vez em quando aos impulsos românticos e irracionais, deixar que alguém leia o opúsculo, dizer o que se tem de dizer, aceitar propostas sem avaliá-las, er, até a morte -não só porque pode ser a última oportunidade mas também porque a verdadeira morte é se acostumar exclusivamente aos andaimes que não caem. (E aí caiu o andaime e ele morreu.)

December 19, 2004

 

A night at the opera


Rodolfo: "Bela come un'aurora"
Mimi: "Hai sbagliato il raffronto.
Volevi dir: bella come un tramonto".

Quando a vida ganha contornos de melodrama, nada melhor que uma ópera para recolocar as coisas em perspectiva. Mas, mind, nessas horas só serve ópera italiana. Num dianta vir com Wagner, ou Il Impresario (Der Schauspieldirektor), ou Bizet. No Met, me dei mal: as alternativas eram Rodelinda (tipo do nome that makes me giggle), do Handel, sábado, ou um treco chamado Cata Cana na Cabana, algo assim, do tcheco Leos Janácek, na sexta. Eu não tava afim de ver a rodela de ninguém, ou de acompanhar a tragédia dos bóias-frias russos no reino do czar Alexandre III, e procurei refúgio numa das mais simpáticas tradições de Nova York, a Amato Opera. Anthony e Sally Amato há 57 anos produzem ópera de repertório na cidade. Desde 1964, têm um teatro, o Amato Opera, 319 Bowery, onde produzem pelo menos cinco óperas por temporada. Em dezembro, La Bohéme. Eu sei, eu sei, Puccini é uma espécie de Roberto Carlos da ópera, mas eu gosto, o que cês querem que eu faça? Mesmo que seja mais uma daquelas histórias de amor destruído pelo ciúme em que a mina tosse até morrer (148 óperas com esse tema, pelos meus cálculos). Pra não mencionar o fato de que o pueta protagonista se chama Rodolfo, nome decerto muito comum na Paris de 1830 (o cenário do imbroglio).

O teatro dos Amato tem só 107 lugares. Ou seja, toda ópera vira, forçosamente, ópera de bolso. (No caso de La Bohéme, o teatro deles provavelmente tem dimensões semelhantes àquele –hoje reformado e ampliado- em que il signore Giacomo testava suas óperas na minha mui amada Lucca.) E é sempre uma experiência interessante, poder acompanhar take intimista de um gênero que normalmente funciona em modo grandiloquente. Anthony Amato dirige a produção e rege a orquestra (de câmera, se tanto: o fosso também é pequeno), enquanto dona Sally (no passado soprano renomada) cuida da parte administrativa e dos figurinos. Richard T. Cerullo, que trabalha com eles há mais de 20 anos, faz milagres para criar e produzir cenários que acomodem as exigências da trama operística no espaço limitado do palco (e eles já produziram até Aída, nesse teatro: camelo bonsai, methinks). É claro que há um certo toma-lá-dá-cá. Eles não têm grana pra pagar cantoras como a soberba Renée Fleming. E, porque a idéia é que as produções funcionem como uma espécie de escola de ópera, entre seis e 10 elencos se alternam. (Mais de 10 mil cantores passaram pelas óperas dos Amato, dos quais mais de mil encontraram emprego nas companhias de ópera estabelecidas.) Mas ontem, o elenco era bom, e o aconchego do teatro servia perfeitamente pra ilustrar a vida boêmia da rapaziada que vivia entre a sórdida taverna e o humilde tugúrio no sótão. Satisfiz minha necessidade de melodrama em italiano, minhas duas acompanhantes derramaram sentidas lágrimas e saímos pra comer macarrão e tomar chianti logo que a última tosse de Mimi deixou de ecoar no teatro. Long live the Amato Opera.

* Marvel 1602, texto de Neil Gaiman, traço de Andy Kubert e pintura digital de Richard Isanove, kicks butt and takes names. Gaiman e Alan Moore, “escritores de quadrinhos”, provavelmente escrevem melhor do que 90% dos escritores cabeça que existem por aí. O que deve servir pra provar que blog é literatura. He.

 

"Clouds like breasts full of milk..."


That's how you get the babe

Caveat Emptor: Antes de descobrir os agridoces encantos das mina, a imperiosa paixão da música e a compulsão da leitura, Uncle Filthy se apaixonou por aviões. Ao contrário de outras obsessões de infância, como Paula Saldanha e o urso de pelúcia Pançudo, o amor por aviões –especialmente os velhinhos- persiste ainda hoje. Portanto, não esperem que eu encontre muito que criticar em um filme como The Aviator: só a reconstituição das filmagens de Hell’s Angels, com centos biplanos da Primeira Guerra dançando freneticamente nos céus da Califórnia, já valeu meu ingresso. Mas tem muito mais coisa legal no filme. A começar do trabalho de câmera e da seleção de cores de Robert Richardson, cuja especialidade é criar efeitos de época (trabalhou com Oliver Stone, John Sayles e Scorsese). Porque The Aviator é um filme sobre Hollywood, tanto quanto um filme sobre aviões, Richardson usa padrões pictóricos vintage para os diferentes trechos do trabalho. Para a porção que se passa no começo dos anos 30, ele recria o padrão de cores dos primeiros filmes coloridos, que não reproduziam o verde muito bem; mais à frente, adota um padrão de contraste mais saturado, típico dos filmes dos anos 40. Usa também um visual típico de cinedocumentário para as cenas envolvendo o avião gigante de Howard Hughes, bem como uma seqüência em branco e preto. Mas as transições entre os diferentes padrões não incomodam, e eles se enquadram perfeitamente às viradas de trama. Muito elegante.


Réplica do Hughes H1 usada por Scorsese em The Aviator

Uma cinebiografia de Howard Hughes parece estranha como tema para Martin Scorsese, o mais costa leste dos cineastas americanos. (O projeto seria originalmente dirigido por Michael Mann, outro mano ace com as câmeras). Mas o fato de que Scorsese tenha pouco em comum com o excêntrico milionário-aviador-cineasta-comedor que tomou por tema oferece um certo distanciamento que faz com que o roteiro funcione melhor (na mão de um Spielberg, por exemplo, Hughes terminaria sendo muito mais simpático). Leonardo DiCaprio está muito bem como Hughes (o que não é novidade: o sujeito é tão bonito que raramente leva os elogios que merece como ator). Mas o resto do cast, surpreendentemente, é meio pobrema. Cate Blanchett, que em geral trabalha bem, exagera horrores para interpretar Katherine Hepburn. Kate Beckinsale, que antes de virar musa dos vampiros costumava ser boa atriz (vide Cold Comfort Farm), precisa comer muito feijão para convencer como Ava Gardner. Jude Law como Erroll Flynn? Give me a fucking break, dude (é marromenos como escalar o Zacarias dos Trapalhões pro papel de James Bond). E Alan Alda como o senador Brewster, “vilão” (vá lá) do filme, definitivamente não convence (provavelmente porque o diálogo que o roteirista John Logan lhe oferece é dos mais esquemáticos). Tem também o sempre impecável John C. Reilly, e aquela mina do No Doubt, cujo nome não sei, como Jean Harlow. Odd. Mas os detalhes visuais de Scorsese é que são a verdadeira diliça: ele explica com a câmera aquilo que aproxima a paixão de Hughes por aviões da paixão dele por mulheres. E a obsessão do milionário com a peitaria feminina (e leite) pontua o filme primeiro como piada visual e depois como indício da loucura que o vai consumindo. Não vou contar mais nada, porque sabe deus quando o filme estréia no Brasil. (Só uma dica: think Citizen Kane). Mas se ocês gostam de avião, cinema e mulé, vejam, vejam.

December 18, 2004

 

Wish granted


View from Pier 11, East River, 1936 and 1998

I Wish I Were in Love Again
(Richard Rodgers and Lorenz Hart)

(Verse)
You don't know that I felt good, when we up and parted
You don't know I knocked on wood, gladly broken-hearted
Worrying is through, I sleep all night.
Appetite and health restored
You don't know how much I'm BORED!

(Song)
The sleepless nights, the daily fights
The quick toboggan when you reach the heights
I miss the kisses and I miss the bites
I wish I were in love again

The broken dates, the endless waits
The lovely loving and the hateful hates
The conversation with the flying plates
I wish I were in love again

No more pain, no more strain
Now I'm sane but -I would rather be ga ga

The pulled out fur of cat and cur
The fine mismating of a him and her
I've learned my lesson but I wish I were
In love again

The furtive sigh, the blackened eye
The words: 'I'll love you 'til the day I die'
The self deception that believes the lie
I wish I were in love again

When love congeals, it soon reveals
The faint aroma of performing seals
The double-crossing of a pair of heels
I wish I were in love again

No more care, no despair
I'm all there now -but I'd rather be punch drunk

Believe me, sir, I'd much prefer
The classic battle of a him and her
I don't like quiet and I wish I were
In love
Again

December 17, 2004

 

Auguri, Luigi Domenico


"Sicilia, Sicilia mia - Sicilia Sicilia mia
Semu luntani semu luntani ma
Fra genti strani pinzamu sempri a tia"


A primeira dificuldade é sempre descobrir a melhor forma de tratamento. Na infância, eu te chamava de “senhor”, na tua frente, e de “pai”, na tua ausência. Mais tarde, em uma daquelas manobras sacaninhas de quase adolescente que tenta descobrir até que ponto se pode escapar com pequenas ousadias na área da etiqueta, comecei a te chamar de “véio”, se bem soubesse que –porque grisalho prematuramente- o apelido não te agradava. Hoje em dia, sou eu que tô grisalho, e de qualquer jeito não ficaria bem te chamar de “véio” em uma carta para celebrar teu 63° aniversário. De modo que opto por uma novidade, e começo essa carta com “Caro Luigi”.

Caro Luigi: como você leu logo acima, eu tô grisalho, provavelmente tão grisalho quanto você naqueles últimos anos de vida. E não só isso mudou, véio (ops, desculpe -força do hábito): o mundo inteiro mudou, convulsiva e vertiginosamente. O Muro de Berlim? Demolido. A URSS? Extinta. São Paulo? Devastada por um terremoto em câmera lenta que começou sem que ninguém percebesse, quando você ainda era vivo, e ainda não terminou. O Timão? Chegamos a ser o melhor time do Brasil, por uns bons cinco anos. Hoje em dia, eu esperaria em vão por um e-mail teu, em lugar de ficar aporrinhando o carteiro como no passado. Falando em mudança, tô me mudando, de novo –esse, aliás, é um dos poucos hábitos que você legou e eu mantive, se bem as minhas mudanças usualmente não envolvam oficiais de justiça. As meninas vão bem, à maneira altamente neurótica delas. E não, cê não tem netinhos póstumos, ainda. (Se o milagre da vasectomia persistir, aliás, não vai tê-los nunca, pelo menos não do meu lado do pool de genes.)

Penso sempre em você, Luigi. Cê lembra de quando quebramos a mesa de vidro fumê da mamma jogando botão? Ou de quando você tirava o quadro predileto dela da parede para pendurar o alvo de dardos e, na hora de recolocar a cena de caçada inglesa, tinha que ficar manobrando para esconder as marcas que os dardos extraviados para fora da cortiça deixavam na parede? Muitas das minhas memórias de você são desse tipo, véio. Lembranças de molecagem compartilhada. Era mais como se você fosse um irmão mais velho, nessas horas. (E faz completo sentido, aliás: afinal, cê foi um dos irmãos mais novos naquela sua família de mongos, e provavelmente me tratava, anos mais tarde, como teus irmãos mais velhos te trataram um dia.) Lembro também de momentos mais “solenes” –das raras ocasiões em que a mamma conseguia te coagir a me dar broncas diretamente, e você vinha com um discurso todo preparadinho, pronunciado ao modo sem graça de estudante recitando Bilac no colégio. Nunca tive medo de você –esse tipo de medo, ao menos- e, ó, isso é um tremendo elogio, pensando bem. O que mais me lembro é do futebol: de assistir futebol com você, do desespero apaixonado que você me legou junto com a opção preferencial pelo Timão (pensa bem, véio: por que o Corinthians, prum siciliano?), e de jogar futebol com você e sempre perceber o teu mal disfarçado ar de decepção com a minha irremediável grossura, ainda mais comparada à habilidade dos primos. Porque você gostava dessas coisas “de menino”, e era um bostinha extremamente competitivo: fazia questão de ganhar de mim em todos os jogos (eu nunca fui “café-com-leite”), e de fazer sua dancinha da vitória.

Não é por acaso, then, Luigi, que eu tenha optado por dedicar meus esforços na vida a coisas que não te interessavam ou que você não fazia bem. Um dos hábitos que a tua extrema competitividade me legou foi exatamente fugir a comparações diretas com você. Cê jogava bola bem? Eu sempre preferi andar de bicicleta. Cê queria ganhar em qualquer coisa, até no palitinho? Eu prolongava minhas sessões de oito maluco com os amigos, mesmo quando podia ganhar, porque preferia o jogo à vitória. Cê dançava bem? Eu optei por tocar. Cê sempre foi bendito entre as mulheres, com esse teu ar de galã italiano série B? Eu, hélas, não (se bem que, nesse caso, não tenha sido por opção). Você sempre se deu bem na vida (ou pelo menos sempre escapou às piores conseqüências dos teus muitos erros) usando o teu charme fácil, a tua conversa de vendedor. Eu nunca vendi nada a ninguém. Teria, aliás, imensa vergonha de tentar. E a tua competitividade, o teu pep talk na linha “você tem sempre que tentar ser o melhor”, me fez abominar a idéia de competição. Se bem eu provavelmente leia por mês mais livros do que você leu a vida toda, você é que era cheio de certezas. Eu, quanto mais aprendo, mais tenho dúvidas. Nada disso, melhor ressalvar, tem por objetivo servir como declaração de ódio, ou como psychobabble que atribua às tuas escolhas a responsa pelos meus pobrema. Você jogou as cartas que te foram dadas, como eu joguei as minhas. Nos dois casos, poderíamos ter jogado melhor, ou quem sabe talvez merecêssemos mais sorte.

Das muitas lembranças que tenho de você, uma das primeiras, e decerto a mais forte, é a de estarmos brincando na praia em São Vicente, eu com uns quatro anos de idade, se tanto. Caminhando uns 10 metros mar adentro, me carregando “de cavalinho” como era teu hábito, você se deteve e me fez ficar de pé sobre teus ombros. E, sem aviso, movido por um impulso de pedagógica cretinice, me arremessou de cabeça na água: sink or swim, Fudílson. Não pretendo debater os méritos do método, prum menino que tinha certo medo de água, mas, véio, o mar ali mal tinha dois palmos de profundidade. Terminei com a cabeça enterrada na areia, me debatendo desesperadamente, crente de que ia me afogar. Você provavelmente me resgatou em menos de 10 segundos (era só me levantar pelos fundilhos do calção, afinal), mas tive tempo suficiente, ali, naquele instante de pânico submarino, pra descobrir duas verdades essenciais sobre você, sobre mim e sobre a vida: teu pai pode te amar, Fudílson, mas o mais das vezes ele não tem a mínima idéia do que está fazendo. (Useful to get that learnt.) Some lucky bastards perdem a inocência quando vêem prima gostosa trocando de roupa. Eu, pfui: cuspindo água salgada e tirando areia dos zóio, no dia -e, sem querer reclamar: foi cedo demais- em que perdi a confiança incondicional que sentia quanto ao meu pai.

Essa carta não é um diálogo. Você se foi há muito, muito tempo, e esse “você” que descrevo aqui, aliás, é só o personagem que a minha ficção pessoal te atribui, claro. Mas, ainda que inventado, tem enorme importância na trama. Que eu continue, tantos anos passados, a escolher o contrário do que imagino você faria, em determinadas situações, demonstra perfeitamente o meu medo de competir com você ou contra a tua memória, o meu respeito por você, e a minha compreensão quanto às tuas falhas. Eu juro que eu queria, véio, não só nessa carta mas na vida, ter demonstrado, além de medo, compreensão e respeito, também o meu amor por você. Mas essa é outra disciplina em que só consigo funcionar por antítese: nunca fui siciliano o bastante para dizer ou mostrar –ao contrário de você, que sempre me fez sentir como se eu fosse o filho que pediu a Deus. (Ainda que eu tenha chegado sem que ninguém pedisse). Por isso, em lugar de um “eu te amo” pífio e tardio, encerro com votos de feliz aniversário –como se você ainda estivesse aqui. Porque, pra mim, você está.

 

How beautiful you were, and near, and young


"So let us melt, and make no noise"

Nanda, responsável por um blog secreto altamente diliça (que ela não me deixa linkar aqui), comenta minhas bobagens às vezes sob o delicioso pseudônimo “menina do blog ao lado”. É uma das minhas mais fiéis leitoras (a outra é a mamma), e me mimoseou ontem com um link muito bom para um site de mulé pelada à moda antiga, pelo qual I fondly thank her (operative word: fondly). Os tios de uma certa idade sempre precisam de a little help from their friends.


"Love sometimes would contemplate, sometimes do"

No site que ganhei de presente, encontrei uma série de nus de autoria da retratista Zinaida Ievgenêvna Serebriakova (1884-1967), que eu até agora conhecia só como pintora “séria” (o quadro mais famoso dela se chama “Castelo de Cartas” e mostra quatro fedelhos ranhentos construindo o cujo mesmo). Apesar de esse blog vir primando até agora pela mais estrita moralidade, resolvi compartilhar com a turbamulta do, er, talento pictórico que Mme Serebriakova exibe com tamanha desfaçatez.


Zinaida Ievgenêvna Serebriakova (1884-1967), auto-retrato

Como a self-pin-up Bunny Yeager, Mme Serebriakova é um dos raros casos de mulé trabalhando do lado de cá da câmera (ou do cavalete), na, vá lá, “indústria do erotismo”, especialmente nos anos que anteceram o Women’s Lib. É sempre divertido e informativo ver o que as adversárias consideram erótico (porque a visão masculina do erotismo, claro, é necessariamente tosca blablablá). E vive la difference.

December 16, 2004

 

Hitler's last gamble


"The answer is: 'Nuts!'"
In Memoriam: Staff Sergeant Anthony P. LoSchiavo, KIA with CCB, 9th Armored Division, near St. Vith, Belgium, on December 18, 1944

Na madrugada do dia 16 de dezembro de 1944, a Alemanha lançou sua última grande ofensiva da Segunda Guerra Mundial. Três exércitos, com cerca de 500 mil soldados, 1,8 mil tanques e blindados de combate, apoiados por cerca de três mil canhões e lança-foguetes, se lançaram contra um setor mal defendido da frente aliada nas Ardenas (Bélgica). O objetivo de Hitler era separar os exércitos americanos dos britânicos, e tomar o porto de Antuérpia, principal terminal logístico dos aliados ocidentais na Europa, para forçá-los a uma paz em separado que permitiria aos exércitos nazistas concentrar forças contra os soviéticos.


O ataque alemão, 16 a 19/12/1944

Era o inverno mais frio em quase um século, e o mau tempo impedia que os aliados tirassem vantagem de sua imensa superioridade aérea. Os americanos, à custa de 75 mil baixas, em seis semanas de batalha ininterrupta, conseguiram deter e repelir o avanço alemão, que em sua maior extensão chegou muito perto do rio Mosa, a última barreira que separava as tropas nazistas de Antuérpia.

O mundo mudou muito nesses 60 anos. E mudou essencialmente por conta deles, esses moleques assustados e imberbes mal e porcamente entrincheirados em meio à neve. Tony caiu em batalha aos 20 anos, deixando grávida em Newark a menina com quem se casara na última licença antes de embarcar para a Europa. Não sei se ele morreu pela liberdade, pela democracia, em defesa do mundo livre. Mas sei que em última análise ele morreu por todos nós. Lest we forget.

 

Phat play, fat crowd


Marbury fucks up; Ben Wallace soars

Pelo menos 10 graus (dos nossos) abaixo de zero ontem à noite, de modo que se vocês por aí estão planejando Natal ou Ano Novo na costa leste, venham agasalhados. Eu não passei frio, however, porque estava comodamente instalado na seção 107 do Madison Square Garden with my baby assistindo ao confronto entre o pífio New York Knicks e o Detroit Pistons. É, ao vasto rol de taras inconfessáveis do Uncle Filthy sói acrescentar o basquete. Ressalvo aqui que, se tivesse que pagar os 245 mangos que custa o ingresso nessa localização, uh oh. Por sorte, a firrrrma tem season tickets para o Knicks, uma permuta qualquer que beneficia os departamentos em rodízio. (Tem umas 20 pessoas que assistem aos jogos, e a firrrma tem dois lugares; isso quer dizer uns oito jogos por ano por cabeça, de graça, na temporada regular. Not bad at all.) Pagando, eu teria sérias dúvidas: $ 245 de entrada, cerveja a $ 6, refrigerante a $ 3,25, dógão a $ 4,25 (e dógão “gourmet” –talk about oxymoron- a $ 6). Se o indigitado for de carro, não encontra estacionamento por menos de 30 dólares (se bem digam que existe um mítico local que cobra vintão). Quer dizer, uma noitada como a de ontem, ao ritmo normal americano de comilança esportiva, sairia a uns 300 dólares per capita. Tem muita coisa miló em que gastar 300 dólares, na cidade.

O ritual americano do esporte envolve basicamente duas coisas: much ado about nothing, de um lado, e muita, MUITA, comida, do outro. Não dá pra assistir um minuto de jogo sem que o órgão toque alguma coisa, uma corneta dispare, o telão exploda em “zings” e “pows” à maneira do clássico seriado do Batman, a voz de Frank Sinatra surja from hell cantando “New York, New York”. Quando algum dos times, ou a TV, pede tempo, os alto-falantes disparam pérolas pop tipo, sei lá, Journey, e as cheerleaders entram correndo. (A coreografia do Knicks envolve notável sincronia de rabos-de-cavalo balançando e peitarias chacoalhando em uníssono. Very impressive.) E, enquanto isso, munch munch chomp chomp ininterruptos em todo o ginásio. (Vai ver que a barulheira incessante dos alto-falantes tem por objetivo ocultar o repulsivo ruído de 19.673 pessoas mastigando ininterruptamente.) Um cara na fileira de baixo comeu seis dógões durante o jogo. E o sujeito ao lado da minha co-âncora Smelly McDirty tomou umas 11 cervejas.

A minha teoria sobre esse impressionante apetite americano é que a população do país é composta por gente etnicamente morta de fome –sicilianos e calabreses, irlandeses, alemães morenos, polaquinhos, ex-escravos- e a memória de jantares em que uma batata tinha de ser dividida entre mãe, pai e os 14 filhos persiste nos genes. O país todo tem uma relação mórbida com comida, movida a surtos de excesso seguidos por meses de consciência culpada e de dietas “milagrosas”. E tem um lado “capitalista” no imbroglio. Por exemplo, mano tá no cinema e pede uma pipoca média e um refrigerante pequeno. Custa, digamos, cinco dólares. O balconista, que obviamente fez treinamento de marketing à base de sonda anal, imediatamente oferece porção gigante dos dois itens, por sete dólares em vez de cinco. O mano agradece e diz que não, e o balconista persiste: “Mas é O DOBRO de pipoca por dois dólares a mais”. E a isso eles chamam “prover valor ao consumidor”. Uh oh.

O lado B do disco, é claro, surge na preocupação compulsiva com dietas. (Como dizia a mulé gordinha de um amigo magérrimo que tenho no Rio, “estamos um pouco gordos”, e toca adoçante no coitado.) Tem uma pesquisa anual bacaninha -não posso linkar aqui porque é só pra assinantes- que compara o que as pessoas dizem que comem com o que as pessoas de fato comem, nos EUA. Ano após ano, as pessoas dizem que seus hábitos alimentares estão se tornando mais saudáveis. Ano após ano, sobem as vendas de hambúrguer e batata frita. Something’s gotta give. E de qualquer jeito há muito dinheiro a ganhar dos dois lados do ciclo. A Atkins Nutritionals, por exemplo, firrrma que distribui alimentos para a famigerada dieta homônima, agora vai lançar um serviço via celular: o cara pode consultar via conexão wireless o conteúdo de carboidratos e o valor calórico de cada porcaria que decidir comer, e recebe estatísticas quanto ao efeito da comida sobre seu peso e sua dieta. Uncle Filthy, que não pára de ter idéias de marketing geniais ainda que não devidamente reconhecidas, mandou e-mail pro ectoplasma do sêo Atkins sugerindo que seria ainda melhor se o celular do gordo tivesse um software sensor e, a cada vez que o cara entrasse em restaurante não vegan, o telefone dispararia tocando aquela música do passo do elefantinho. Recebi em resposta um e-mail de um robô muito polido agradecendo my valuable input.

A parte boa da noitada, além do basquete em si (Jamal Crawford tá jogando horrores pelo Knicks), foi descobrir que a co-âncora, alas, é mais fanática por basquete do que eu. Obsessão esportiva num é coisa que se admita à namorada antes de seis meses –e nesse caso a recíproca era verdadeira. Ms McDirty é torcedora padrão hooligan do Indiana Pacers, e ontem foi ao jogo toda paramentada com as cores do time, para torcer contra o Detroit (inimigo mortal do Pacers). É divertido, se bem que preocupante, ver a sua co-âncora renomada pela finesse incorporando uma Mancha Verde, com direito a instruções detalhadas sobre onde exatamente o juiz podia enfiar o apito. Nenhum de nós era torcedor automático de qualquer dos dois times, mas, na hora H, terminamos adversários –ela torcendo pelo Knicks por birra contra o Pistons, eu torcendo pro Pistons porque é um desses times sofridos, maloqueiros e ocasionalmente campeões que me lembram o meu mui amado Curintcha. Plus, tem Ben Wallace, portador da melhor afro da história do basquete. Tive que agüentar Ms McDirty zoando a minha orêia o jogo todo (o Pistons chegou a ficar 16 pontos atrás), mas no quarto período, jogo no finzinho, Knicks um ponto à frente e com a posse de bola, eu profetizei: “A bola vai pro Marbury e ele como sempre vai errar”. Dito e feito. O Pistons recuperou a bola, Chauncey Billups tomou falta e Detroit venceu por um ponto. O que quer dizer que eu ganhei a aposta completamente diliça contra a co-âncora. Que dógão, que nada.

*Nota tecnológica rápida: o Yahoo criou um serviço de mapas com o qual o sujeito não só descobre o caminho para onde quer ir mas verifica em tempo real, online, como é que está o trânsito no percurso. Por enquanto funciona só nos Estados Unidos. Mas valeria o peso em ouro em Sumpaulo. Piratas, ahoy!
** Update, mas só pra quem compartilha das propensões politicamente incorretas de Uncle Filthy: Grand Theft Auto: San Andreas é, mesmo, genial. Produto da maior coolitude (pra roubar a apropriada expressão que Lady Jules tomou de empréstimo a alguém). Com especial destaque para o luxuoso auxílio de Samuel L. Jackson nos voice-overs.

December 15, 2004

 

O outro guitarrista


"And you better pick yourself up from the ground
Before they bring the curtain down,
Yes, before they bring the curtain down"


O outro guitarrista é sempre um puta mala.

O outro guitarrista sempre abusa do overdrive.
O outro guitarrista ainda não aprendeu a regular o amplificador.
O outro guitarrista quer sempre um chorus extra pra solar.
O outro guitarrista sempre tasca o volume no sete quando você regula no seis; e sobe pro oito quando você aumenta pro sete.
O outro guitarrista sempre quer tocar o seu riff; você nunca quer tocar o riff dele.
O outro guitarrista sempre te pede palheta emprestada, e reclama que não é a que ele gosta.
O outro guitarrista sempre quer cantar a sua parte do backing vocal.
O outro guitarrista sempre quer cortar o seu solo.
O outro guitarrista sempre prefere tocar com outro guitarrista que não você.

O outro guitarrista é você no espelho.

Mr CE and Mr B: é Natal. Vocês são compadres. Best buddies. E tocam bem demais juntos. Portanto, deixem de viadagem. É uma ordem. Uncle Filthy dixit.

 

Nel mezzo del cammin di nostra vita


"Tant'è amara che poco è più morte
ma per trattar del ben ch'i' vi trovai,
dirò de l'altre cose ch'i' v'ho scorte"


are made for walking, and in this new, improved Times Square, tourists abound and slushy rain keeps the cabbies all snuggly indoors, so I decide to walk home, awash in booze and equal measures of cheer and self-pity: cheer on account of the music, self-pity ‘cause the sneezy one I hold dear decided to stay home for the evening (and I can’t help but dreaming booze-induced dreams about the Unreachable Love back in the land of Was). If the sea was whisky, I would gladly drown, but I really, really should rethink this notion of getting my whole authorized daily caloric intake in the shape of booze. Mayor Rudy decided to clean up the neighborhood, and replace the tittie bars and massage parlors with clean, family-oriented fun such as an NRA theme bar (so, shooting one’s load is bad, shooting one’s rifle is good). He didn’t quite succeed, though, and the pitches from the doormen working for the remaining skin-trade establishments are so funny I feel almost tempted to go in (plus, I swear to goodness that they can say 'naked' in 200 languages). But I manage to keep my track record clean: nel mezzo del cammin di nostra vita, I've never been to a strip joint. I walk down Fifth Avenue, past Madison Square Garden and Madison Square Park, past the Flatiron Building gleaming amidst the rain just like it did in that Stieglitz picture back in 1903, swing left on 23rd, then right on Lexington, get half-round Gramercy Park (my posh-poor youthful dream, having access to a park of my own - ‘cause I love the Common Man, right, as long as he’s not that common, and only authorized personnel will be admitted to my very own private park, thank you very much), and then down Irving to 14th Street, past Broadway: home-free now

(Em 1943, o governo fascista italiano raspou o fundo do tacho do potencial humano e convocou jovenzinhos e velhinhos para ajudar a defender a Sicília contra a iminente invasão aliada. Uma das unidades precariamente equipadas formadas para isso foi a 202ª Divisão Costeira, encarregada de defender as praias próximas de Palermo contra um possível desembarque aliado. Meu tio-avô tinha 20 anos, e conseguira escapar do serviço militar obrigatório mercê da simpática e eficiente corrupção siciliana: pé chato, asma, seja lá qual fosse a desculpa, o certificado não resistiu à emergência e lá foi ele se unir aos convocados, armado de um enferrujado Mannlicher calibre 8 mm capturado quando da derrocada austro-húngara no Piave, em 1918, e cinco balas. Meu tio-avô é a única pessoa inteligente do clã McNasty, e apostou com os amigos que seria o primeiro soldado da unidade a se render aos americanos. Ainda que o desembarque tenha acontecido a mais de 100 quilômetros de Palermo, ele ganhou a aposta, e foi parar em New Jersey, num campo de prisioneiros de guerra. Depois da rendição italiana, os prisioneiros sicilianos nos EUA receberam a oportunidade de se apresentar como voluntários para trabalhar, ajudando o esforço de guerra americano e ganhando salário de gente grande, além de mordomias como fins de semana de licença fora do campo. O zio se mentiu marceneiro, e começou a trabalhar para uma família ítalo-americana que tinha uma marcenaria em Mulberry Street. Em seis meses, ele engravidou a filha de 15 anos do patrão, casou e virou americano. Manteve a marcenaria aberta em Little Italy até os anos 60, mas os aluguéis subiram demais e acabou por se transferir a Nova Jersey, onde ele –e a firrrma- funcionam vigorosamente até hoje.)

but something keeps me walking (hey, THAT’s where they got that slogan!) down University Plaza, and instead of going home I turn left on 8th and check out the apartment I so fervently hope to buy in Cooper Square, and then head down Lafayette, thinking about my great-uncle and his everlasting love for Little Italy while I stroll down Mulberry, Baker, Centre, all those streets I heard sung-about lying silent under the slushy rain. In nel mezzo del cammin, wet to the bone, and all I have to show for it is my ability to cope with losses, my will to survive while everything that once mattered to me slowly fades beyond my reach –music, writing, loved people, loved places. And the all-abiding fear of reinventing myself yet anew as one of the backstabbing bastards, another drone sprouting corporate babble and yearning only for my year-end bonus, my house in the Hamptons, my boob-enhanced, cocaine-slimmed 19-year old lover bought straight from the assembly line at Hooters Corp. Because I’m so mediocre, I fear mediocrity worse than I fear death. But then I get a glimpse of the Brooklyn Bridge tower rising above the mist under yellow floodlights, and I remember what lies beyond the bridge –not 'death, a whole day nearer now', but love, a whole night fiercer, and I keep walking under the drizzle

(Em 1986, aluguei um apartamento perto do Tompkins Square Park. O parque era uma mistura de puteiro, lar de homeless people e mercado de drogas; andar sozinho pela rua depois de uma certa hora era pedir pra ser assaltado. Os apês eram relativamente baratos. O meu cintilante domínio devia ter robustos 40 metros quadrados de área útil. Mas era térreo e tinha um jardim, que basicamente servia como área de despejo de bitucas de maconha dos vizinhos de cima, e também como residência de um gato amarelão com mais cicatrizes que o George Foreman. O gato me adotou, e ganhou o nobilíssimo apelido Gaettano, pronunciado à siciliana, provavelmente o centésimo pet name na mal-encarada carreira do sujeitinho. Fui feliz ali: aprendi a cozinhar, alimentei minha paixão nascente por standards e jazz com discos emprestados pelo tio Morgenstern na Rutgers, conheci biblicamente uma quantidade apreciável de damas (as três irlandesas chamadas Moira, a menina-do-sebo-St-Marks, a prima da menina do sebo St. Marks, uma alemã chamada Petra que um dia disse “upon this rock I’ll built my…”). Nunca fui assaltado, provavelmente porque os três assaltantes locais eram porto-riquenhos e eu costumava jogar futebol com eles no parque, sempre de manga e calça comprida por conta do mar de cacos de garrafa que enfeitavam o pavimento. Descobri recentemente que aquele brownstone foi derrubado no final dos anos 90, para a construção de uma loja de conveniência e Kinko’s: nome muito apropriado. O gato Gaettano, 118, deve continuar por lá, se bem provavelmente atendendo pelo nome Kinky.)

until at last I find the destination my drunken feet chose in my stead, and my gaze beholds Ground Zero, the Big Emptiness, the Great Scar, and as befits sentimental booze-hounds everywhere my eyes are suddenly filled with tears: Rome housed one million people in the heyday of the Empire, and after invasions, decay, plagues and lousy Popes, it entered the Renaissance with just 80,000. The city was so empty that up to the 1700s new Romans could, and did, live comfortably by “recycling” old Imperial buildings and relics: no new construction required. Bokhara was one of the busiest towns in Asia and held the richest Moslem archives in the world before Genghis Khan arrived; just 2,000 people were left alive among the ashes when his army departed in 1220. Baghdad was home to one million Moslems in the Abbasid Caliphate era. Successive Mongol invasions reduced it to 40,000 by 1258. Leningrad, Kharkov and Stalingrad were reduced to rubble during World War II, as were Berlin, Hamburg, and Dresden (and countless smaller towns –Caen, Königsberg, Cassino…) And Grozny (Chechnya) was destroyed by Russian bombardments as recently as 1995. Make no mistake: whenever a city is deliberately destroyed, civilization as a whole is the victim. And I know perfectly well what I am talking about: my own city was slowly but surely destroyed by the greed, incompetence and utter negligence of the people who were supposed to manage and preserve it –myself included. (Whenever Brazilians come up with that tired truism, the one that claims ‘we at least have no earthquakes or terrorism’, my urge is to tell them: ''cause we don’t need them, buddy. We’re managing to fuck everything up quite well without outside help, thank you very much’.) I know, I know, quite a lot of idiots felt some sort of perverse joy in watching the towers –‘pride of the Empire’, eh, what?- fall, but, hey, once and for all: THEY WEREN’T FUCKING SYMBOLS (in fact, they held the stupid title of 'world’s tallest buildings' for barely three years). The Port Authority –which manages all public transportation in the New York metro area-, owned the World Trade Center, and, besides being an office complex, the building served as a railroad terminus for working people coming into town from New Jersey. The rent money paid by Evil Capitalist Exploiters was used to subsidize the city’s subway system. And don't get me started about the dead: they were a veritable cross-section of New York, illegal immigrants and tourists, money managers and paralegals, janitors and businessmen, black, white, brown, yellow and all shades in between. To kill them, and to try and kill a city, in the name of any ideology is not only unforgivable, but also beyond understanding. As much as I can rationalize the situation, and knowing full well that the Americans did to cities elsewhere much the same that was done to theirs, my heart won’t condone it, the same way it does not condone bombing a residential neighborhood in Baghdad because rumor had it that Saddam used to sleep there once in a while. Watching The Scar in the dead of the night, aimless construction work going on and on because, er, the city never sleeps, what I really grieve for is the slow death of my own city, the long agony of my country. But that’s just nostalgia, and I'd already gotten my share of nostalgia earlier tonight: 'Nostalgia in Times Square', courtesy of the Mingus Big Band. It’s all behind me, now –that city of the dead, that dying country, that love that was never ever meant to be, as much as I hoped otherwise. My feet are hurting (I guess I’ve done ten miles on foot today) but I feel compelled to walk back home. Because this is home now. The rainy skyline. The lonesome floodlights. The streets

 

Song for an accidental singer

(For Charlotte, on the occasion of her karaoke première)

That note you couldn’t reach last night at Pieces
Felt prettier than any Trane has blown
For beauty sometimes shines in what one misses
Much brighter than perfection ever shone

That song you couldn’t carry sounded wittier
Than a letter-perfect take without a soul
And a freckle-covered face is so much prettier
Than eyes hidden behind Ms. Lauder’s kohl

So what if you sing flat when sharp’s intended?
You’re sharp instead of flat when we’re alone
And notes are written so they can be mended
By the splendid sound we make when on our own

So let the deaf-at-heart shout out their jeers
For I hear your love song and my heart cheers

Update: O blog é meu e decidi deixar o puema aqui em cima for sentimental reasons. Quem for ómi góspi aqui. Vai encará? Didn't think so.

December 14, 2004

 

Paying some final dues...


"And she don't have to wave her hair, or even wear fancy clothes,
I wouldn't even care, if she don't wear nylon hose, oh".

Welcome to Late Bloomers Antiques*, the most charming vintage clothing store in the city.
205 West 37th Street
New York, New York 10018
Call 212.730.8855
patsy@latebloomersantiques.com

* (Se a garrafa chegar à inóspita ilha, enjoy. Como eu te disse um dia, vale a visita.)

 

Titanic Fast-Forward


Sleeping with the fishes

Captain: 'Whattahell is that fat broad doing up there on the bo...?'
(Glub Glub Glub)

 

Backstage passes, backstabbing bastards


"This is the winter of our discontent..."

Eu consegui fazer carreira em um ramo notório pelas panelinhas e fofocas basicamente porque não presto atenção ao que dizem no escritório. Escrevo “simipagam” do mesmo jeito que na adolescência meus amigos fumavam “simidão”, e meu interesse pelas peripécias políticas da firrrma em geral se esgota no minuto em que desligo a máquina e corro pra casa pra não perder Coupling (ou, pra ser franco, umas nove horas antes disso). Mas, por mais desavisado que nêguinho seja (e eu sou recordista), é impossível sobreviver ou fazer carreira sem um mínimo de horse-trading. Até que o sujeito termina acidentalmente promovido para um posto que oferece um backstage pass, e pode contemplar de perto o estilo de vida “servaj” dos alpinistas corporativos. Tem gente que trabalha e espera que a qualidade do trabalho baste pra garantir ascensão –são tanto os melhores quanto os primeiros a rodar no downsizing. Tem gente que trabalha e conspira o mínimo necessário a preservar o posto, mas sem necessariamente jogar a nonna da escada para garantir promoção. Tem gente que conspira compulsivamente, sob a ilusão de que ser “insider” é a pista rápida para manter ou ganhar terreno, mas não tem por objetivo sacanear ninguém específico. (É mais uma espécie de sauve qui peut preventivo). E tem os maquiavéis de botequim, que manobram sem parar pra passar rasteira nos outros mesmo que isso lhes propicie vantagem nenhuma.

Dia desses conheci um desses nanonicolaus, que me convidou prum almoço porque queria conhecer “the new kid on the block”. (Você já sabe pra onde a conversa vai, se o mano usa esse tipo de expressão em e-mail pra desconhecido.) A conversa conspiratória já seria chata o bastante se o napoleãozinho de Nob Hill não usasse, pra fofocar, o doublespeak corporativo du jour. Tem pouca coisa mais irritante que jargão corporativo, especialmente quando você sabe quanto os consultores ganham por hora pra aparecer com formulações majestosas como “cross-pollinating endeavor fields”. (Ju-ro.) E o hobbit da Hallmark from hell fica tentando estabelecer interesses comuns entre nós, patinadores do fast-track. As if. O pior, aliás, é não poder mandar o cara pastar, nem bocejar abertamente, nem soltar qualquer uma dos três bilhões de tiradas que me ocorrem durante o almoço (até porque ele não ia entender, mesmo). O abantesma, tenho certeza, um dia vai ocupar um desses cargos sopa-de-letrinhas, e meu emprego pode depender dele. Por isso me vejo forçado a recorrer à minha modalidade de doublespeak, pra responder ao venal com o inócuo. Lembra um pouco esses documentos oficiais do Pentágono, que na prática querem dizer “vamu tascá 150 toneladas de bombas em Cartum e ver se acertamos alguém”, mas formalmente afirmam que “our policy vis-a-vis collateral damage disposes that the use of randomly-spread cluster ammunition is consistent with the current rules of engagement for the Lower Nile theater of operations”.

É triste, porque eu tenho genuíno apreço estético pela vilania (ninguém porta meus genes sicilianos impunemente). Mas em vez de Ricardo III eu me deparo sempre com esses tristonhos escriturários do mal, essa escumalha de amanuenses. Falta grandeza à peçonha que eles espalham, falta visão. O calhorda moderno se parece muito com Jack Lint (Michael Palin), o burocrata torturador de Brazil, que não vê problema nenhum em deixar a filha brincando no escritório enquanto ele dá uma chegadinha na cela de tortura e detona um prisioneiro. A marca da nossa era de eterna repetição é a do burocrata como vilão. Por mais que os políticos e a imprensa tentem demonizar Saddam e quejandos como “novos Hitlers”, o vilão padrão das últimas décadas é Adolf Eichmann, o funcionário exemplar que “só” organizava a logística do extermínio, durante a segunda guerra –uma reles função técnica sem nenhuma consideração moral implícita, claro. E como o chavão da história em farsa ainda continua valendo, o que os babacas das firrrma fazem é simplesmente repetir em ponto pequeno essas grandes e (literalmente) atrozes generalidades históricas. Com os resultados que todo mundo viu nas Enrons e Bancos Santozes da vida. Esse almoço vai ficar entalado na minha memória por anos. Especialmente porque o Eichmann da Eighth Avenue pagou a conta. U pesci fet d'a testa, como diria o nonno.

December 13, 2004

 

Cinemateca McNasty


Curtis and Lancaster being nasty

Oba! Viva! Eia! Sus! Essa semana tem, no Film Forum (Varick St @ 6th), uma sessão especial de Alexander MacKendrick, he of Ealing comedy fame, incluindo sua estréia americana, o genial Sweet Smell of Success. De quebra, Whisky Galore, a comovente história de uma ilha ao largo das Highlands escocesas que fica sem uísque durante a segunda guerra, baseada em livro de Compton Mackenzie, escritor muito engraçado e indevidamente esquecido.


By Preston Sturges, 1940

E no American Museum of the Moving Image, em Queens (mas vale a viagem), uma sessão de Christmas in July, do Preston Sturges, o único filme dele que ainda não assisti. Dizem que o museu mesmo é muito bacaninha. Nunca visitei. Foi instalado no antigo complexo de estúdios da Paramount em Astoria. E tem em cartaz uma exposição sobre comerciais de campanha presidencial, de 1952 a 2004, a que pretendo assistir por duplo dever de ofício. Tomara que os silvícolas de Queens não me trucidem (ir a Queens é tão sinistro quanto atravessar o rio em São Paulo e ir pro Morumbi, Butantã ou outras regiões de nome aborígene).

 

Music is my mistress


"On me your voice falls as they say love should,
Like an enormous yes."

Quando Duke Ellington (co-)escreveu uma autobiografia, escolheu o título "music is my mistress", que sempre me pareceu a mais perfeita definição para a relação entre músicos e Música. A ambigüidade deliberada do termo (“mistress” é tanto “mestra”, ou “senhora”, quanto “amante”) descreve com perfeição o que eu e outros músicos, profissionais e amadores, sentimos com relação a essa fugaz madame. Porque, como mestra, ela ensina; como senhora, ela ordena; e, como amante, ela encanta, seduz, satisfaz e escapa. Eu sei, eu sei, um zé mané como eu -e minha longa sucessão de no hit wonders- não merece dividir um parágrafo com o duque. Mas essa é outra das atrações da música: ser músico, por menos proficiente ou bem-sucedido, é ser parte de uma gigantesca fraternidade que atravessa fronteiras e séculos com a mesma equanimidade. De alguma maneira, Duke Ellington e seu somos “colegas”, e provavelmente encontraríamos assunto pra conversar umas boas horinhas, se porventura o acaso nos aproximasse –no mínimo, teríamos ídolos compartilhados como território comum, e o amor dos músicos pelos pioneiros que abriram caminho para eles é sempre genuíno. Quer dizer, a disparidade absurda de talento entre Ellington e moi não impediria que Willie “The Lion” Smith e os outros gênios do stride piano servissem como denominador comum a esse hipotético bate-papo. (E a coisa também funciona, aliás, em escala menos estratosférica: já bati papos agradabilíssimos com pagodeiros, e com adolescentes devotos do heavy metal, em sala de espera de estúdio. O (handi)craft da música é um forte traço de união entre os mano do métier, mesmo que as escolhas estéticas não tenham nada em comum entre elas e que eu prefira ouvir broca de dentista a ouvir pagode ou heavy metal.)

Pra quem é ensimesmado ou (aspirante a) brainy, como eu, música tem um segundo componente essencial: o impacto físico. Música não é só para o célebro, e muitas vezes nem um pouquinho pra ele. Emotion in motion, se me permitem o clichê. Ou, no dictum imortal de George Clinton, “move your ass and your mind will follow”. Música não é refletir, mas participar. E, por isso, talvez seja a única arte que funciona melhor coletivamente do que com o sujeito trancado em casa punhetando sozinho. Mesmo que ocê prefira pratos cabeça como os da segunda escola de Viena ou, a exemplo de Uncle Filthy, padeça de inexplicável apego a Bela Bartók ou à Quarta de Shostakóvitch, a idéia de estar lá, como parte da orquestra ou da platéia, quando a música “é feita”, uau. (Eu não confio em gente que nunca tenha sentido goosebumps por conta de música, ou pulado pela sala sem nem perceber, ou arriscado solos de air guitar. E tenho sempre em mente as palavras do Rei quanto à “música” da platéia: “Eu sempre sei que estou tocando em Memphis porque o pessoal aqui bate palma no contratempo”.) Pras vítimas do nosso século e tanto de modernismo blasé, e bullshit decorrente, música ensina que arte, sem emoção, pfui. E é claro que música serve perfeitamente pra ilustrar a vacuidade das ideologias. Quanto mais “conceitual”, quanto mais formalista e intelectualizada, mais morta, mais fria. Não admira que a música “erudita” tenha virado peça de museu e que a molecada continue aderindo com o traseiro ao partido de George Clinton. Pra mim, que sempre derrapei perigosamente à beira do abismo “cabeça”, música foi a talba de salvação. Dialogar com a bunda alheia tem charmes insuspeitados, alas.

E música evidentemente tem lições mais pessoais e mais dolorosas a oferecer: quando você não tem aquela centelha fulgurante de talento que diferencia os gênios dos reles estrumentistas, música passa a simbolizar o grande amor não correspondido. Ou correspondido apenas esporadicamente -a amante provocona que te visita de meia sete-oitavos pruma furumfa ocasional mas, alas, se recusa a fazer de você um homem honesto. Os acordos a que você chega com a música que ama mas não domina servem de modelo pra todas as outras coisas que vai amar sem conquistar, na vida. Porque a música concede com uma mão o amor que recusa com a outra, mas a soma nunca é zero. Resta sempre a Graça: o sentimento que ela desperta, expressa mas não necessariamente incorpora. E quando você tem a oportunidade de compartilhar um fim de semana com tanta gente pra quem música representa essa mesma Graça, não é rancor ou amargura que vem à tona. Essa reunião de banda has-been, por intervenção da música que vai ser sempre our mistress, se transforma em celebração do amor e dos amores de que a gente compartilhou e compartilha. Que todo mundo esteja mais gordo, mais careca, mais casado, mais distante não elimina a alegria diabólica da música. Eu sei perfeitamente que um observador objetivo, entrando naquela garagem transformada em estúdio com o cuidado habitual do B., veria um monte de trintões enferrujados caçando pateticamente a juventude perdida e os sonhos desfeitos. Mas não é isso que diz o meu coração, não é isso que dizem meus ouvidos. Tocar, com esses mano, diante desses espectadores, e com esse repertório, não é uma exumação do passado irrecuperável, mas a construção de uma ponte entre o que fomos, o que somos e o que vamos continuar sendo, mercê da mais elegante e fugaz das mistresses. Música é minha vida, e esses caras e moças com quem divido o palco sem nenhuma pretensão a reconhecimento ou estrelato são minha melhor família. Porque passados tantos anos eles ainda reconhecem o que pretendo dizer já na terceira nota. E sorriem com a cumplicidade que a sujeição à mais doce das mestras propicia. After the fire, the fire still burns.

December 12, 2004

 

There's a thorn tree in the garden...


"Die schönste blume..."
Drawing by Alexander Cozens (1717-1786)

"And if I never see her face again, I never hold her hand
And if she's in somebody's arms, I know I'll understand
But I miss that girl
I still miss that girl"

December 11, 2004

 

This great big city is a wondrous toy


Photos by Berenice Abbott (1938) and Douglas Levere (1997)

'All of this - the shared apartment in the Village, the illicit relationship, the Friday-night train to a country house - was what he had imagined life in New York to be, and he was intensely happy'.
-John Cheever

'New York is to the nation what the white church spire is to the village - the visible symbol of aspiration and faith, the white plume saying the way is up!'
-E. B. White

December 10, 2004

 

The kindness of strangers


It feels like home.

Eu nunca fui muito chegado a confiar na kindness of strangers. Ou dos conhecidos, for that matter. Aqui, na selva de asfalto, cujos habitantes são renomados pela mistura de neurose e falta de educação, muito menos. Bom, pra variar, when push comes to shove, eu tava errado. Ontem, enquanto satisfazia minha compulsão por flanar no caminho entre o escritório e o bar, tive um desses dizzy spells que mocinha-que-ainda-não-se-sabe-enceinte costumava sofrer nos filmes de antigamente. Minhas pernas bambearam, e só não caí porque consegui me apoiar num bravo Mercury Sable que tava dando sopa ali no meio-fio. Mas tomei um susto. Um sujeito que vinha guiando rua abaixo percebeu, parou, largou o carro em mão dupla (o que rendeu diversos tributos à moralidade de sua progenitora) e veio me oferecer ajuda. “Are you alright, buddy?”, me olhando, preocupado. Eu fiz que sim, mas o cara mesmo assim me levou pelo braço até o mercadinho em frente, onde o moleque do caixa me ofereceu uma cadeira. Alguém me pagou um café. Eu logo recuperei o equilíbrio, agradeci, expliquei que estava tomando um remédio que causava tontura. O sujeito do carro me deixou o cartão. O moleque do mercadinho me ofereceu outro café. Selva de asfalto my ass.

Esse último mês veio repleto de gentilezas inesperadas, a maior parte das quais eu jamais vou poder retribuir. Tain Watts me cumprimentou com um high-five ontem no Fez –“pô, onde cê tava terça-feira?” –Filthy-the-groupie. E a bartender de nariz empinado não só me serviu meu uísque e água sem que eu pedisse como rejeitou o pagamento dose a dose que é praxe do bar. “I’ll run you a tab, McNasty”. (É, ela sabia meu nome.) E me beijou na saída, dizendo “see you next week”.


From "my" bedroom window.

O dono do apê que tô tentando comprar, a quem conheci por acaso e nunca me viu mais gordo, pediu meu telefone e ligou pra explicar detalhes sobre o prédio. Me explicou as regras de co-op e disse que ia fazer lobby pro pessoal aprovar minha candidatura. O cara foi tão simpático, mas tão simpático, que saiu pra beber com a gente ontem à noite. Ele e a namorada, grávida. Os dois tão de coração partido por deixar a cidade, mas com o preço do apê compram uma casa de quatro quartos em Bayonne, e decidiram casar e fazer (mais) filhos.

No karaokê, terça, minha sedutora versão de "Adelita" à maneira de Nat Cole recebeu o luxuoso –e não solicitado- apoio vocal do duo Greg & e Guillermo, o casal gay que organiza as karaoke nights no Pieces. Sem eles, eu não teria ganho em terceiro, como se costumava dizer na minha infância. (É claro que a versão yodel dos dois para "Fernando", do Abba, embora hors concours por decisão da dupla, foi a melhor interpretação da noite). Venceu um sujeito hirsuto de nome ininteligível, apelidado Brutus pela platéia, com uma interpretação rasta de "On My Own", de Nikka Costa.

E Sahib (o Bwana de Bwana) decidiu sem nenhum motivo começar a me pagar mais cedo o salário de gente grande ao qual eu só faria jus quando a papelada toda rodar, marromenos em março. Alguém ainda se admira que eu esteja muito menos resmungão do que costumo? Só espero que eu possa um dia retribuir as gentilezas imerecidas. (And special thanks to Lucy for her many and completely undeserved kindnesses.)

 

Director's Cut


McDormand, by Leibovitz

Quando Frances McDormand ganhou o Oscar, por Fargo (1996), o discurso de agradecimento dela incluía a imortal declaração “eu dormi anos com o diretor pra conseguir esse papel”. (Frances é casada com Joel Coen.) O humor sacaninha é um dos motivos para que Ms McDormand mereça posição no meu panteão das diliça. A seleção digamos exótica de papéis é outro: ela continuou fazendo filme esquisito mesmo depois de ganhar prêmios galore. E eu tenho um fraco por filme esquisito. Ms McDormand fez, por exemplo, e no mesmo ano, Lost Boys e Almost Famous, dois filmes de alta bacanice que lhe valeram indicações ao Oscar e passaram meio despercebidos.


Frances McDormand (1957- )

Ms McDormand é das raras atrizes modernas que funciona em padrão Barbara Stanwyck –convence como gangster moll, tem timing genial de comédia e, se tiver que interpretar mulé sofrida, chora convincentemente, tudo isso com um rosto que fica substancialmente distante dos padrões de beleza usuais das estrelas de cinema. E fez uma Blanche DuBois de arrepiar no teatro, em 1998. Frances will always be able to depend on the kindness of this here stranger.

December 09, 2004

 

Educação Sentimental (into the black)


"L'avenir nous tourmente, le passé nous retient,
c'est pour ça que le présent nous échappe".

Domingo. Sandra saiu de casa cedo para passar o dia com a mamma, deixando Sérgio em casa pra curtir o futebol na companhia dos amigos. Dez da noite, ela ainda não tinha voltado, e ele estava preocupado. Perto das onze, ligou para a sogra. “A Sandra? Nem apareceu aqui hoje”. Sérgio entrou em pânico, mas não quis assustar a velha. Ligou pras amigas de Sandra. Para a polícia. Fez a ronda dos hospitais, a madrugada toda. Nada, nem sinal. Não dormiu, e saiu agoniado para o trabalho segunda cedo. O dia passou sem notícias, e no final da tarde ele ligou para a editora onde Sandra frilava. Ela estava lá, e interrompeu a reclamação dele na segunda sentença. “Vem me buscar quando fechar. Precisamos conversar”. A “conversa” era um monólogo -leitmotiv: fuss und arsch. Sandra não deu explicações, não aceitou argumentos, não recuou um palmo. Ele, furioso, ofendido e em pânico, largou a mulher –que se recusava a dizer onde estava hospedada- no metrô, e foi pra casa se sentindo otário. No dia seguinte, depois de 10 telefonemas vãos, acabou concordando em deixar o apartamento a disposição dela para que o esvaziasse de suas coisas, no final de semana. E quando voltou de Minas, domingo, Hiroshima em Higienópolis –até espelhos de interruptor de luz ela tinha levado.

Seis meses de inferno. A cada vez que insistia em contactá-la, ela respondia com queixas, recriminações, críticas. Foi acusado de crueldade, mesquinharia, insuficiência peniana, desatenção, mau hálito, burrice. Ouviu frases como “mulher que nem eu não suporta viver com um cara que admira os Estados Unidos”. (Ele anglófilo, ela francófona: nunca motivo de briga até ali.) E de todos os amigos comuns que tinham (três anos de namoro, dois morando juntos) surgiam notícias sobre Sandra e o novo namorado, nova casa, nova vida. A suspeita –ou certeza- de infidelidade já era uma miércoles, mas o fato de que Sandra negasse qualquer influência desse fator sobre o pé na bunda era ainda pior. Porque, enfim, é melhor ser dispensado quando a mulé amada se apaixona por outro (vaca, mas pelo menos romântica) do que ser dispensado por um catálogo de defeitos que começa pela escolha de desodorante e termina na falta de capacidade intelectual para compreender as sutilezas de Derrida. Como todo otário abandonado, Sérgio terminou por se conformar. E descobriu que a melhor maneira de encarar a situação era não encarar: parou de se interessar por ela, de pedir informações, de alimentar esperanças de reconquista ou desejos de vendetta. Tesourou todos os amigos que insistiam em mencionar o tema. E pôs o assunto pra dormir, ressalvando, de si para si, como sói aos melancólicos e românticos de armário, que estaria lá, se e quando ela precisasse.

Uma amiga, que virou namorada, o apresentou às composições de Erik Satie. Aprendeu tudo que precisava sobre le désespoir agréable. E sobreviveu. Mudou de apê e emprego, foi promovido. Uma noite, dois anos depois do cataclismo, chegando em casa de madrugada depois de um fechamento enroscado, encontrou um recado de Sandra na secretária. “Preciso muito falar com você”. Por sorte, ela não deixara o número e, ainda que uma nota de tentação lhe acelerasse o pulso, fez o que tinha aprendido: ignorou o apelo e foi dormir. Mas Sandra voltou a ligar, dessa vez deixando o número. E ele continuou ignorando. As ligações se repetiam, quase todos os dias. Até que um dia ela ligou na redação. Ele atendeu, reconheceu a voz, ficou sem ação. Ela explicou, solicitou, implorou, e ele –sem jeito de levar aquela conversa na presença da editoria inteira- cedeu: dia seguinte, no bar, às dez. Chegou atrasado, mercê do fechamento, e ela já estava lá, bonita como sempre, ansiosa como sempre, roendo as unhas manicuradas. Ele hesitou antes de beijá-la no rosto, e depois se sentou. Conversaram fiado, ela querendo saber como a vida dele andava, ele lacônico. Até que Sérgio perguntou: “E então?” E Sandra despejou um Himalaia de explicações, desculpas, psychobabble, mentiras, provavelmente algumas verdades. De um lado, Sérgio se sentiu feliz por ver confirmadas muitas das suas queixas, por vê-la admitir muitos dos erros que ele lhe atribuía, se desculpar pelos chifres, explicar as acusações. De outro, ressabiado como é normal nos mano de coração partido, não conseguiu deixar de interromper o stream of (guilty) consciousness alheio e perguntar: “Mas por que isso, baby, e por que agora?” E ela deixou escorrer duas lágrimas gordas e cintilantes pelos zigomas notáveis que são jizuis lhe deu e respondeu: “Porque eu te amo. Porque eu quero voltar pra você”.

Se isso aqui fosse um filme, Sérgio deixaria que a emoção triunfasse sobre a desconfiança, deixaria que as lágrimas comovidas da mulher que mais amara varressem as cicatrizes que as cagadas do passado causaram, e abriria os braços pra ela. Mas ninguém é otário a vida inteira (tá bom, excetuado quem acredita em astrologia), e ele se levantou, deixou uma nota de 10 mango em cima da mesa pra pagar o uísque e disse, já dando as costas para Sandra e aquele dirty mess que só mulé é capaz de causar: “Fuck you and the horse you rode in on”. E riu, descendo a escada, ao lembrar que ela não entendia inglês.

 

Walking in the winter wonderland


"Later on, we'll conspire
As we dream, by the fire"

Caro Nico,

Deve fazer bem uns 30 anos desde a minha última carta –precoce quando criança, para gáudio da família e professores, precoce ainda hoje (departamento de piadas gratuitas, terceira porta à esquerda). Não sei se Vossa Reverendíssima vem acompanhando com afinco meu desempenho nos últimos meses (o software para tracking de bons meninos sempre dá pau na temporada de festas), e por isso me apresso a declarar: I’ve been good. Não que não tenha escorregado aqui e ali, mas pelo menas posso garantir que nos meus tropeços quase sempre sou eu –e só eu- que me machuco. Continuo a ser, Vossa Reverendíssima, o bom sujeito que normalmente tenho sido –generoso quando posso, tolerante em tempo integral, inimigo das ideologias sangrentas, sempre disposto a encontrar algo de bom a dizer sobre (quase) todo mundo (Caetano Veloso e o PT excetuados). E, mais –pode se preparar para uma surpresa-, minha cartinha de 2004 vem para dispensar-vos do delivery natalino.

Deve ser a primeira carta que chega às mãos enluvadas de Vossa Reverendíssima em 17 séculos dizendo que “não, ‘brigado, já tô servido”, mas pode acreditar: este ano, melhor se concentrar em quem talvez precise mais que eu de uma prova absurda e extemporânea de que o Acaso pode ser benfazejo. Aqui, velho amigo, a lareira estará acesa, mas as botas de feltro penduradas por sobre o mantelpiece já estão repletas de mimos (não vou entrar em detalhes porque sei que vocês, prelados, não precisam de janela para certas intimidades). Se quiser passar para uma visitinha, garanto o rango, o eggnog, quem sabe um copo daquele arak pelo qual Vossa Reverendíssima, dadas as origens étnicas, decerto deve ter um fraco. Lá fora, Vossa Reverendíssima, as pessoas caminham apressadas, encapotadas, carregadas de pacotes, todo mundo à espera da primeira neve. E aqui dentro um inesperado sol setentrional brilha sem pudor e sem controle no meu coração. Por isso, old buddy, fique com o meu agradecimento por anos de presentes não retribuídos, e, not least, pela entrega antecipada e imprevista do pacote deste ano. Abraço pra patroa, beijo no Rudolph, e chibatada nesses anõezinhos vagabundos. Grazie mille, dude. I owe you one.

December 08, 2004

 

Educação Sentimental (out of the blue)


"Le bonheur est un mythe inventé par le diable pour nous désesperer"

Desde o primeiro dia de aula, Sérgio decidiu que Letícia era a mulher dos seus sonhos: bonita, gostosa, descolada, mas witty, culta e nada fútil. Computados areia e caminhão, ele decidiu pela aproximação indireta, porque o Sérgio, cês sabem, era exemplar imaculado daquela rara criatura, o “homem comum” –nem feio nem bonito, nem rico nem pobre, nem chato nem cool. Trabalhando com a cautela mineira que herdara do pai, mais ou menos por volta do terceiro semestre tinha cavado um lugarzinho no círculo de leais escudeiros de Letícia, e por conta disso recebia migalhas de afeto e montanhas de informação sobre a complicada vida sentimental dela –o professor com quem ela saía, o cara casado com quem tinha um caso, o namorado cineasta. Sérgio tinha ciúmes, se roía, mas agüentava o tranco, sempre arrazoando que melhor um pouquinho do que nada. A areia, o caminhão.

O que Sérgio não sabia, então, é que Letícia era dessas moças instintivamente inclinadas a manipular o afeto de todo mundo que a cercava, posicionando cada planeta e satélite cuidadosamente com respeito ao Sol de seu ego descomunal. E a cada vez que os elementos do sistema solar leticiano começavam a se desalinhar por efeito de manguaça ou das demais substâncias recreativas tão populares entre os universitários, a polícia gravitacional interferia, na forma de Letícia se fazendo de desentendida diante das tentativas de expressar amor, ou concupiscência, vindas dos planetinhas insubordinados. O que Letícia compreendia sem esforço, e seu séquito ainda não, era o valor da stasis, dos conflitos irresolvidos, do balanço perfeito entre exasperação e esperança que deixava todos os elementos pendentes de seu sorriso ou de sua cara feia, sempre disponíveis e nunca recompensados.

E isso durou por mais algum tempo. No sexto semestre, o sistema ruiu, porque Letícia houve por bem traçar o namorado de uma das meninas que a seguiam como groupies. Partidos foram tomados. Queixas berradas em público. Turmas cindidas. Ao final do processo, restavam a Letícia Sérgio e mais ou três basbaques, um dos quais aluno de segundo ano. A redução do território fez com que Letícia aumentasse a dose de migalhas: beijou Sérgio em uma festa. Disse que, se não fossem tão amigos (suspiro)... Intensificou as confidências, com detalhes cada vez mais dirty. Sérgio vivia momentos de expectativa torturante: a cada festa, cada encontro, a tantalizante possibilidade arfando ali a centímetros de seus olhos. Até o dia em que, por acaso, flagrou Letícia beijando o moleque do segundo ano no corredor escuro de uma festa. O moleque sempre fora alvo de afetuosa chacota por parte dos veteranos astronautas letícios: a trêmula insegurança dele na presença da musa, o olhar que não conseguia desviar dela. Claramente, o menino era café-com-leite no prolongado campeonato do “um-dia-eu-como”. Mas ao flagrar o beijo, o que Sérgio viu foi o seu beijo. Ao assistir à tentativa do moleque de prolongar ou aprofundar a experiência, Sérgio se viu exatamente no mesmo lugar, fazendo o mesmo, e se imaginou ainda ali, 30 anos mais tarde, sempre à espera das migalhas aspergidas de acordo com os caprichos de Mme Sol. E, em voz alta, assustando o casal, disse “nem fudendo”.

Sérgio nunca mais saiu com Letícia. Se a vida fosse um filme, ele teria encontrado closure em algum momento de epifania, ou a musa teria enfim reconhecido o verdadeiro amor, aquele que supera todos os obstáculos blablablá. Mas nossa história termina no banheiro masculino da faculdade, com o cauteloso Sérgio disfarçando a letra e escrevendo “Letícia chupa. 262-5597".

December 07, 2004

 

Dura lex, kissing lez


We don't need no stinking badges...

Não sei se é Karl Rove, spin king supreme, que está coordenando a manobra, mas a “operação Corte Suprema” do governo Bush tá rolando de acordo com os sonhos mais bem irrigados da direita cristã. William Rehnquist, o presidente da corte, tem câncer de tireóide e, embora tenha dito que não pretende renunciar ao posto, corre o buzz de que ele no mínimo abandonaria a presidência, voltando a ser juiz “regular". Para o comando do tribunal, o último balão da direita é Clarence Thomas: cartada das mais elegantes. Indicar Thomas, que é negro, forçaria os democratas a incorrer no ônus de rejeitar o primeiro “minoritário” com chances de presidir a Corte Suprema. Por outro lado, porque as opiniões escritas pelo avantajado juiz são alvo de piadas constantes da parte dos adevogados aqui, dada a má redação e precariedade dos argumentos, o senador Harry Reid, que vai assumir a liderança da bancada democrata no Senado em janeiro, já disse que trabalharia pela rejeição de Thomas. O que deixaria a porta aberta à indicação de Antonin Scalia, o mais conservador (e intelectualmente talvez o mais brilhante) dos nove juízes (além de ser cupincha escancarado dos Bush –o filho dele e W. trabalharam juntos, por exemplo, e Scalia redigiu a decisão que pôs fim à recontagem dos votos na Flórida em 2000). Se, além disso, Rehnquist acabar renunciando por motivos de saúde, W. poderia aproveitar a vantagem clara dos republicanos no Senado e indicar um juiz ainda mais conservador. Com Scalia na presidência da Corte e um novo juiz “de direita”, os conservadores ficariam a um voto de derrubar a decisão Roe vs. Wade.

Já o secretário (eletivo) da Justiça do Estado de Nova York (e blogueiro) Elliot Spitzer seguiu o exemplo de muitos antecessores, de Tom Dewey a Rudy Giuliani, e anunciou candidatura ao governo do Estado, pelos democratas, em 2006. Esse mote de perseguir criminosos do colarinho branco já ajudou muito nêguinho a chegar ao palácio do governo em Albany. E, dada a escassez de bons pré-candidatos democratas à presidência em 2008 e beyond, se Spitzer ganhar a eleição estadual em 2006, ele teria boas chances de indicação para a Casa Branca, pra desgosto de Hillary Clinton (que teria de disputar a vaga contra ele já em Nova York). Pesquisas indicavam que Spitzer, antes de se declarar candidato, levava vantagem de 44% a 41% sobre o republicano George Pataki, atual governador.

E a plausível série The O. C. (niquiq o elenco inteiro –pais, filhos e agregados- parece ter exatamente a mesma idade) não vem mantendo, em sua segunda temporada, os índices de audiência da primeira. O pessoal da produção se inspirou na Grobo e decidiu que a solução é fazer com que a irritante Marissa Cooper (Mischa Barton) arrume uma namorada lésbica por alguns episódios. Me loves the New York Post.

 

DNA = QED? NDA!


"I could not love, thee, dear, so much
Loved I not honor more
"


Jan Marzsaweck tinha 17 anos quando deixou a fazenda dos pais perto de Czestochowa, cavalgando para a guerra como pocztowi, ou membro do séquito, de Kasimir Pultulski, Rotamistrz (coronel) do regimento local de cavalaria. Os otomanos, aproveitando a revolta nacionalista húngara de Imre Thököly, em 1679, haviam anexado a Hungria e invadido o território austríaco com um exército de 140 mil homens, liderado por Kara Mustafa. Em 1683, deitaram cerco a Viena, defendida por apenas 11 mil soldados. O imperador Leopoldo I Habsburgo abandonou a capital para tentar montar uma força de resgate. Por intervenção do Papa Inocêncio XI, Jan III Sobieski, rei eletivo da Polônia desde 1674, organizou um exército de 30 mil soldados para ajudar a deter o flagelo islâmico que ameaçava a Europa. Marzsaweck, cujo pai criava cavalos, decidiu que a fé e a honra não podiam prescindir de seus serviços, e fugiu de casa para se integrar à Husaria (cavalaria). Em 12 de setembro de 1683, um exército cristão de 65 mil soldados composto por poloneses, bávaros, saxões, austríacos, soldados de Holstein e da Turíngia, além de refugiados húngaros leais aos Habsburgo, sob o comando geral de Sobieski, enfrentou a hoste otomana em Kahlenberg, perto de Viena. Uma carga da Husaria polonesa –cavaleiros portando lanças de seis metros e com armaduras enfeitadas por asas gigantescas-, liderada por Sobieski em pessoa, desbaratou o exército otomano e pôs fim aos dois meses de cerco. Os turcos deixaram 20 mil mortos no campo de batalha. O exército aliado sofreu duas mil baixas fatais, entre elas Jan Marzsaweck, 17. (Em 1772, demonstrando a espécie de gratidão a que os poloneses já deveriam estar acostumados, o Império Habsburgo se uniu à Prússia e à Rússia e desmembrou a Polônia. O país só voltaria a se unir sob governo autônomo em 1918.)


The Polish Eagle, soaring...

Pawel Marzsaweck era entusiasta do alpinismo desde o começo da adolescência. Dedicava as férias a galgar os montes Cárpatos, e quando chegou o momento do serviço militar, no verão de 1938, se alistou na brigada de montanha polonesa. Em setembro de 1939, depois de perder metade dos efetivos tentando resistir ao avanço do 8° Exército alemão, boa parte dos soldados da brigada conseguiram atravessar a fronteira com a Romênia. Depois de meses em campos de internamento, em meio a ameaças, fome e angústia, a pressão diplomática da França, parceira da Romênia na moribunda “Pequena Entente”, permitiu que os soldados internados partissem discretamente para Marselha. Pawel, como bom polaco eternamente devotado à "honra" e "liberdade", imediatamente se alistou nas forças polonesas livres, e terminou na Noruega, em junho de 1940, tentando impedir que os nazistas conquistassem Narvik. De novo derrotado, de novo evacuado, serviu por alguns meses na Escócia sob comando britânico, e no ano seguinte foi transferido à brigada polonesa livre estacionada no Egito, com a qual ajudou a defender Tobruk em 1941. Promovido, foi encarregado de integrar novos voluntários poloneses chegados ao Oriente Médio (alguns deles a pé) via União Soviética. Depois da invasão alemã à URSS, em 1941, Stálin decidira permitir extra-oficialmente que voluntários poloneses da região ocupada pelos soviéticos se alistassem nas forças livres sob comando britânico (apesar de, em 1940, ter ordenado o fuzilamento de 10 mil oficiais poloneses em Katyn.) Pawel voltou à linha de frente em 1943, na campanha da Itália, como parte do II Corpo Polonês, sob o 8° Exército britânico. Em maio de 1944, os aliados decidiram empregar as tropas polonesas para atacar o Monte Cassino, fortificado pelos alemães, que vinha bloqueando o avanço aliado para Roma desde novembro do ano anterior. No dia 18 de maio de 1944, os poloneses conquistaram o Monte Cassino, ao custo de 3.779 baixas, entre as quais Pawel Marzsaweck, que expirou dizendo “Zwalniają Polska”. (Em fevereiro de 1945, na conferência de Yalta, Grã-Bretanha -que entrara na guerra para defender a independência da Polônia- e Estados Unidos traíram seus aliados poloneses e entregaram o controle do país a Stálin. A maioria dos soldados da liberdade poloneses optou pelo exílio. Muitos deles encontraram enormes dificuldades pra fazer o governo britânico pagar-lhes as pensões devidas como veteranos de guerra, décadas mais tarde.)

No retrovisor da genética, o panorama é sempre quixotesco. Causas nobres, batalhas perdidas e covas em terras distantes. Traição, sacanagem e cataclismos históricos pra todo lado. Por mais que o meu coração dispare quando leio as –tantas, meu são jizuis, tantas- histórias de forlorn hopes que marcaram a trajetória do meu clã de perdedores séculos afora, não é a honra que me comove, mas a insana centelha de esperança que cada um desses quixotes ostentava, a idéia de que “fazer a coisa certa”, não importa qual fosse a sandice da hora, era o dever do apaixonado, do patriota e do cavalheiro, e que se dane o mundo das estatísticas e probabilidades. Eu admiro cada um deles, e sei que talvez seja a essa intrépida insanidade que devo o pouco de bom que trago no peito, mas, dude, times have changed, honor is a whore, e eu quero o meu em dinheiro.

December 06, 2004

 

"O inferno são os outros"...


...disse o outro.

Depois que Bertie Russell e Alfred North Whitehead destrincharam a história do cretense mentiroso, nos Principia, quase 100 anos atrás, o único grande paradoxo filosófico que restou pra perturbar a modorra alimentada a reality show e correção política do século XXI é aquele que envolve as pessoas inúteis que promovem reunião na firrrma e o Microsoft PowerPoint, manifestação satânica que infesta todas as telas corporativas. (Especialmente essa última versão ainda mais from hell porque equipada com musiquinha.) Foram os idiotas que não têm o que fazer em reunião que inventaram o PowerPoint? Ou foi a Microsoft que inventou o PowerPoint para encher as reuniões de idiotas e manter seu monopólio maligno com mais facilidade?

Nêguinho apaga a luz, briga com o projetor, briga com o laptop e aí de repente começa: um slide de PowerPoint: “BEING PROACTIVE IS”... e o palestrante, em benefício dos cegos e dos analfabetos (ou melhor, dos visually underprivileged e das vítimas da síndrome da rejeição gramático-ortográfica), entoa “being proactive is”... E a coisa se arrasta por 70 slides, muitos dos quais contendo animações que, porque o pessoal tá dormindo, têm de ser exibidas de novo ("BEING PROACTIVE”, aí as palavras avuam e aparece: “IS”...) A menina do pool, que passou a manhã toda brigando com a copiadora, entra na sala e distribui cópias em papel da apresentação. O palestrante pergunta se alguém tem dúvidas. Nêguinho faz perguntinhas perfunctórias, mas morrendo de medo de o cara resolver ligar a máquina de novo. A menina simpática que trabalha pro cliente do PowerPoint chato boceja. Você tira os óculos e esfrega os olhos tentando imaginar que está sob uma cachoeira no Sri Lanka assistindo a um concerto de alaúde interpretado por Marisa Berenson topless, mas acaba imaginando um slide de PowerPoint acompanhado por aquela musiquinha padrão Casio que a Microsoft comprou do espólio do John Denver, dizendo “BEING TOPLESS IN SRI LANKA IS”..., e plóft. É como aula interminável de análise sintática: o desespero pela sineta do recreio. E ela vem, em forma de coffee break. No café, você aborda a menina simpática do cliente, e ela em exatos 10 minutos responde as cinco perguntas que justificam a reunião. Mesmo assim, todo mundo volta pra sala para mais uma rodada de PowerPoint. E mais perguntas. E mais bocejos.

Para sobreviver às reuniões, Uncle Filthy aprendeu alguns truques, em seus 12 anos de experiência como cavalgadura bípede. O truque do ar condicionado geladíssimo e seu efeito sobre a anatomia feminina, alas, ninguém mais usa. (Era o meu predileto aos 25 anos.) A alternativa mais moderna é o chamado “Blackberry gambit”: quem tem Blackberry ou smartphone consegue fingir que está tomando notas sobre a reunião no aparelho, quando na verdade tá no MSN ou SMS com os colegas. Divertido, especialmente se a firrrrma paga a conta. Tem o recurso da abstração zen: deixar que o escurinho da sala e o zumbido do projetor criem aquele clima hipnótico, e imaginar a Marisa Berenson topless pintando a Vênus do Botticelli, mas usando a Ornella Mutti como modelo. O importante, nesses casos de corpo presente mas mind in the gutter, é lembrar de interferir na conversa a cada X minutos. (Nesse ponto, a experiência musical do Uncle Filthy ajuda: quando colega de banda chato resolve fazer solo de bateria, cê fica pensando em conta bancária, ou na morte da bezerra, mas se lembra de a cada 32 compassos fazer um obligatozinho pra ninguém pensar que morreu. Same thing at the office.) Mas o conselho mais importante pra escapar a reuniões é: seja promovido, invente uma desculpa e mande um subordinado no seu lugar. Aliás, isso deveria fazer parte do compensation package: x de salário, y de fringe b, z de housing allowance e você só precisa participar de metade das reuniões. Aí cês iam ver o que é profissional motivado.

(E a reunião, como os zumbis tão queridos da Ieda, remains undead: porque depois que ela acaba, você começa a receber memorandos recapitulando o que foi discutido. Mensagens de e-mail repetindo as mesmas perguntas. E, claro, porque o Mal nunca descansa, uma cópia da apresentação em Powerpoint que tem uns 12 megabytes e entope o seu e-mail banda monga por 15 minutos justo quando cê tava esperando mensagem dela. No futuro, quando os mutantes-andróides dominarem a Terra, tudo que restará da espécie humana serão apresentações em PowerPoint. E o decálogo do porvir começará por “Being proactive is...”)

 

I need a break, and I wanna be a paperback writer...


Robert Harris (1957- )

Eu sempre fui um bostinha invejoso. E como não existe grupo de apoio pra catigoria, vou me confessar aqui mesmo: “Bom dia, meu nome é Fudílson, e eu morro de inveja”. Tenho inveja do Ivan Lessa. Tenho inveja dos sortudos que têm Telecaster vintage early 50s. Tenho inveja de quem nasceu rico, ou ficou rico sem trabalhar. Tenho inveja de nêguinho que definitivamente não merece mas desperta e mantém o amor de mulé muito melhor do que ele. Tenho inveja de quem nasceu bonito, só tem doença classy, não toma susto quando olha no espelho. Tenho inveja do Papai Noel que Lauren Graham traçou naquele filme. Tenho inveja de quem nasceu na Noruega. Mas acima de tudo eu morro da mais profunda e impotente inveja diante dos escritores de best sellers. E não, não é ironia. Por mais que os pretensiosos afirmem o contrário, escrever best sellers é difícil pra caramba. Romances “de arte” são fáceis: o autor não precisa se preocupar com aquela incômoda criatura, o leitor, e se o texto for irremissivelmente chato sempre resta alegar que a posteridade, grande niveladora das injustiças estéticas, o compreenderá.

Quando ouço gente de óclinhos-cabeça bashing, sei lá, Paulo Coelho ou Stephen King, eu arreganho os dentes. Não que eu goste do que eles escrevem –li nada do primeiro, dois livros do segundo- mas, como dizia a gravadora em imortal coletânea do Rei, “50 million Elvis fans can’t be wrong”. E, ademais, há outros “escritores-de-best-sellers” (pronunciado assim, com muxoxo sonoro) que me agradam e que, do alto da minha cadeirinha de leitor de 300 livros ao ano, posso afirmar sem hesitação nenhuma: escrevem bem. Alguns, muito bem. É claro que best sellers tendem a ser formulaicos, ou esquemáticos, mas, yo, has anyone heard of Shakespeare? (E não, ele não era original back then e se tornou esquemático a posteriori porque copiaram as fórmulas que inventou: sempre foi esquemático, pelo menos em termos de plotting; sempre foi muito bom.)

Tudo isso pra dizer que eu dava o pâncreas pra escrever como Robert Harris. Harris começou como jornalista, na Beeb, Observer e Sunday Times, e antes de partir para a ficção publicou cinco títulos: uma história das armas bacteriológicas e químicas, uma biografia de Neil Kinnock, líder trabalhista nos anos 80, e a chamada “media trilogy”, com livros sobre o tratamento da imprensa do Reino Unido à guerra das Falkland, a construção da imagem pública de Sir Bernard Ingham, czar da energia nuclear brit, e Selling Hitler, que descreve com absoluta precisão e humor maravilhoso a história dos diários falsificados de Hitler comprados a peso de ouro pela Stern, no começo dos anos 80.

Depois disso, ele decidiu que escreveria ficção. Começou com Fatherland , o melhor romance de história alternativa na linha “e se os nazistas tivessem vencido (ou, mais especificamente, empatado) a guerra?” A mistura de fatos e ficção e a distorção de fatos da história real para enquadrá-los na progressão da história alternativa são conduzidas com enorme elegância, respeito aos detalhes e domínio do plot. O segundo romance dele, Enigma, é um mix ainda mais rigoroso de fatos e ficção (e rendeu um filme assistível). Harris criou uma trama de mistério que se passa em Bletchley Park, o centro britânico de decodificação na Segunda Guerra Mundial, e combina fatos históricos (entre os quais mensagens efetivamente decodificadas no local e no período em que a ação transcorre) e crime fiction. O terceiro, e pior, Archangel, mesmo assim tem muita informação bizarra sobre o passado tenebroso da União Soviética. A trama gira em torno de um filho de Stálin que poderia a vir ser o salvador/ditador da Rússia em meio às crises políticas e econômicas dos anos 90.

O mais recente, Pompeii, é um romance histórico que mistura mistério e a erupção do Vesúvio no ano 79, pra não mencionar informações das mais detalhadas sobre o funcionamento do sistema romano de aquedutos (com citações extensas de Vitrúvio, megagênio sempre injuistamente esquecido), sobre a vida cotidiana no sul da Itália, sobre as relações entre mestres, homens livres e escravos e sobre a ciência dos vulcões. Com tudo isso, ele consegue produzir uma narrativa rápida (350 páginas em paperback), detalhada, interessante, tensa e -nas páginas finais, que relatam a erupção- comovente sobre o efeito dos cataclismos na vida dos zé-manés que nem eu. Tudo isso por oito dólares. Way to go, Mr Harris.

E, pra tornar mais blissful ainda um fim de semana que já está na lista dos 10 mais, comprei Casanova in Bolzano, mais um romance do Sándor Márai, e esse traduzido diretamente do húngaro, ao contrário de Embers, ou A Gyertyák Csonkig Egnék (se os dicionários online não me traíram, algo como “À Luz dos Candelabros”), cuja versão em inglês foi traduzida da tradução alemã. (Excetuada Lady Jules, não se pode confiar em tradutores, mesmo). Em português, não sei de que versão As Brasas foi traduzido, mas diz a Internet que o livro traz um posfácio de Marinella D’Alessandro, a tradutora do romance para o italiano (a versão francesa, de 1958, também é tradução direta.) De qualquer jeito, mesmo que twice-removed, se vocês decidirem ler só um romance em 2005, Márai com certeza é uma das melhores pedidas.

December 05, 2004

 

'Cause I've got cat class...


...and I've got cat style*

"Stray cat strut, I'm a ladies cat
I'm a feline Casanova, hey, what about that
Got a shoe thrown at me by a mean old man
I grab my dinner from the garbage can"

*Porque todo vira-lata tem seu dia de Bengal cat.

December 04, 2004

 

...just want your extra time and your...


The hues of bliss more brightly glow,
Chastised by sabler tints of woe


Bliss*
noun 1 perfect happiness; great joy. 2 a state of spiritual blessedness.


*Kiss, n. A word invented by the poets as a rhyme for 'bliss'. It is supposed to signify, in a general way, some kind of rite or ceremony appertaining to a good understanding; but the manner of its performance is unknown to this lexicographer. Ambrose Bierce (1842 - 1914)

December 03, 2004

 

Unlucky charms, perhaps


"Last year is dead, they seem to say,
Begin afresh, afresh, afresh"

A tradição da firrrrma aqui (na medida em que um treco criado quatro anos atrás pode ter tradições) é que na sexta-feira as pessoas do departamento saiam pra almoçar juntas, e almoçar direito: nada de deli, nada de sanduba. Éramos sete à mesa no italiano, quatro moçoilas, três marmanjos, e o assunto, claro, só podia ser a principal preocupação da humanidade: quem comeu quem, ou similar internacional. (“How many ages hence/ shall this our lofty scene be acted over/ In states unborn and accents yet unknown!”, if memory serves.) Minha preocupação primordial é não sorrir que nem bobo pra alguém do outro lado da mesa, e por isso eu mais ouço que contribuo. As meninas reclamam de cantadas manjadas. Roman, o galinha/galã oficial do estabelecimento, rebate que, pô, o objetivo é só puxar assunto. Martin: "E se o Brad Pitt encostasse em vocês dizendo que ‘xi, o céu perdeu um anjinho’, cês iam achar lindo”. Porque eu sou el jefe, fica todo mundo esperando que eu pronuncie um veredicto. Mas eu não tenho opinião. Adoro pick-up line barata, por um lado, e por outro nunca usei nenhuma: nunca cantei mulé desconhecida em lugar público. Tendo a simpatizar com os dois pontos de vista: pras minas, deve ser uma miércoles levar cantada patética; pros caras, a obrigação de abordar e a probabilidade de rejeição de 97% num são exatamente conducentes a originalidade poética. Plus, Martin is right: cantada brega dada por cara bonitão é muito mais raramente rejeitada. Been there, seen that.

Giovanna conta que, nos meses que se seguiram ao 11 de setembro, a cidade abestalhou-se eroticamente: todo mundo começou a furumfar like there was no tomorrow, e qualquer cara que entrasse no bar e se declarasse bombeiro recebia logo umas três ofertas de blow job. Martin: “que saudade!”. Todo mundo ri muito, e ou reclama ou se gaba de um jeito meio histriônico que denota, no complicado território das verdades pessoais, dose considerável de insatisfação. A teoria toda da revolução sexual era “descomplicar” o sexo. Fact is, se há inúmeras maneiras novas e agora socialmente aceitáveis de se satisfazer, há igual número de motivos novos para frustração. E o fato de que as pessoas se sintam livres para ter o tipo de conversa cada vez mais explícita que vai acontecendo na mesa não é, na verdade, sinal de maturidade ou de liberdade sexual, porque é exatamente o tipo de conversa –marcada até pelos mesmos acessos de giggling- que uma turma semelhante teria no ginásio (com a diferença de que o riso adolescente pelo menos tem a desculpa da expectativa ou antecipação).

Nem é que eu seja pudico: innuendo é um dos meus pratos prediletos de conversação. Mas continuo a perceber com muita clareza a distinção entre sexo e falar de sexo, ver sexo, ler sobre sexo. E o exemplo mais prático está em certas frases que flutuam em minha direção vindas do lado oposto da mesa, porque até mesmo os pronunciamentos mais inócuos vêm carregados da indescritível –faute de mieux- “comunhão de almas” celebrada horas mais cedo entre o Duke Ellinton no despertador e o Niagara do chuveiro. Assim, embora me una aos ginasianos na ruidosa celebração da genitália propiciada pelos cinco litros de Chianti do almoço, minha conversa de sexo é outra, e poderia ser conduzida em sala lotada sem assustar as velhinhas. Mas, wow, quanta coisa cabe nas palavras mais inócuas.

Enquanto esperamos a conta, pergunto qual foi a melhor cantada que cada um dos presentes já levou. Giovanna enrubesce e diz que foi Chanel n°5 dentro de uma caixa –vazia- de camisola. (Way to go, dude!) Martin ri e diz que foi “OK, I’ll do it. Drop your pants”. Roman se vangloria, como sempre: “Nossa, você é a cara do John Cusack, só que mais gostoso”, teria dito a desavisada. Abby confessa que caiu diante de um “heaven must be missing an angel”. Eu digo que nunca levei cantada porque sou muito feio. (Vaias.) Miriam conta que o marido, depois de 10 anos de casados, uma noite a levou pra jantar, dançar e dormir no St. Regis, e disse: “Lembre-se sempre de que eu faria tudo de novo”. E por fim ela me olha nos olhos pela primeira vez em duas horas e diz: “Foi um e-mail perguntando ‘o que a gente comeu no almoço, mesmo? Não consegui olhar para o prato nenhuma vez’”. E entre os apupos dos meninos e os suspiros das moças, é minha vez de enrubescer e esconder o focinho no guardanapo. Joe Bandeira is what they call me/ Down ‘round Mexicali way.

 

Mangia che te fa bene


Some like it hot

Programas de culinária, como filmes de sacanagem, a priori deixam o espectador insatisfeito, já que em ambas as catigorias o prazer primordial não deveria ser visual. Mas cabe uma exceção avantajada quando a apresentadora é Nigella Lawson. Tem quem diga que a moça é uma espécie de tease –Jimmy Kimmel, por exemplo, alega que ninguém precisa ficar esfregando o alho nas coxas com aquele olhar naughty antes de preparar um almoço, for crying out loud-, mas que é divertido ver Nigella biting, ah, ladies and gentlemen, isso é. E ela também consegue atrair a simpatia do eleitorado feminino, porque é mais, er, roliça do que a convenção moderna dispõe (pra mim, tá de ótimo tamanho, muito obrigado.)


Nigella Lucy Lawson (1960- )

Nigella é filha de Nigel Lawson, saudoso chanceler do Erário britânico na era da minha perene musa, a Baronesa Thatcher, e, depois de alguns anos como crítica de gastronomia no Spectator, virou a “domestic goddess” oficial do Reino Unido (cada país tem a musa doméstica que merece, hélas, como bem o provam Ana Maria Braga e Martha “Jailbird” Stewart), se bem que, modesta, confesse: “I am not a chef. I am not even a trained or qualified cook. My qualification is as an eater”. Ui. Deixo a conclusão desse breve e amoroso sumário à minha co-âncora Smelly McDirty, que outro dia viu dona Lawson preparando uma custard pie e imediatamente propôs um título que garantiria best seller anywhere: Creams and Custards to Lick Off One’s Own Skin*, by Nigella Lawson.

*I bet she meant “bosom”.

December 02, 2004

 

O Noronha falou, o Noronha avisou...


Só no forévis

Bragging rights, ou por que os “analistas” de política internacional da imprensa brasileira merecem ser chamados exatamente disso: se bem tenha ressalvado que o trecho abaixo não se referia especificamente à eleição de 2 de novembro, e se bem –God forbid- não queira vestir o fardão de expert, em 7 de outubro o Noronha escreveu, naquele blog magnífico que fazia a delícia de seus quatro leitores:

Fact is, multiculturalismo não é uma progressão natural, para a maioria absoluta das sociedades. E tampouco é uma bandeira política empunhada por grandes partidos. Os avanços do multiculturalismo são vitórias da tolerância, mas tolerância é um conceito que pressupõe que exista uma mainstream cultural disposta a “tolerar” –com todas as implicações que a palavra acarreta- o espaço conquistado pelas minorias. O problema é que a agenda nem tão secreta dos proponentes do multiculturalismo dispõe a co-igualdade das culturas, quer dizer, os manos que cultuam a Santa Sandália de Surabaya deveriam estar em pé de igualdade com os adeptos das religiões estabelecidas. Eu vejo o mérito moral da idéia, aliás, mas isso não se aplica necessariamente às maiorias que existem em cada sociedade.

Quando o calo aperta, como no caso do terrorismo islâmico, as sociedades instintivamente se dividem em “eles” e “nós”. E os fatos voltam a saltar aos olhos, por mais que a correção política os desaprove: os EUA são, sim, uma sociedade judaico-cristã, o que, aliás, não é demérito nenhum. E a cagada mais séria dos multiculturalistas é conceder essa bandeira, por mais esfarrapada que seja, aos inimigos. No us and them da política contemporânea, a turma do “us” tem Deus do seu lado, e a outra turma tem aquela coalizão extravagante de Dykes with Bykes, Black Gay Men Married to Republicans, Tree-Huggers of America, Legalize It, Save the Whales e Leprechauns Should Get the Right to Vote. Quem cês acham que vai ganhar*? God (ops) knows.

E não é que exatamente esse fator definiu a eleição? A guerra cultural do novo século opõe sandeus que acreditam em “valores”, com direito às aspas mais insultuosas, a chorões que acreditam em “entitlements” (idem, idem). Porque esses “valores” são supostamente tradicionais, é mais fácil –especificamente para os conservadores- montar uma estrutura política em torno deles. Os liberais, tadinhos, não têm causa em torno da qual amarrar o burro, e só querem defender aquela pilha de direitos especiais para grupos idem acumulada em 40 anos de choradeira. E só terão chance de ganhar eleição futura porque o novo governo Bush vai ser muito, muito, muito ruim. Pior que o primeiro. Mas isso não servirá para anular a vantagem dos conservadores na guerra cultural, em médio prazo.

O que mais me assusta nisso tudo não é a capacidade “profética” revelada no texto, e sim o fato de que os supostos experts bananais não tenham percebido o óbvio dessa análise, por mais que ele ululasse. Pra resumir, leiam mais blogs, e não leiam a Veja. Os blogs pelo menas são grátis e –na maioria deles- o leitor tem o privilégio de xingar o autor rapidinho quando discorda de alguma bestaj, enquanto a Veja, como reclamava o sujeito da banca onde eu comprava mexerica, não serve nem pra embrulhar fruta na feira.

 

If you're going to the City, you better have some cash


I say tomayto, you say tomahto...

A temperatura anda entre os cinco e os 10 graus, dos nossos, nesse final de outono, o que é mais um estímulo para andar a pé. A cidade é um textbook case de adensamento vertical, mas não é todo bairro, toda rua, que oferece aquela sensação de cânion –você como que esmagado lá no fundo entre as paredes altíssimas de edifícios que decolam vertiginosamente. Por boa parte da cidade, e especialmente no meu território habitual –o bairro “boêmio” em que uma kitchenette (“studio apartment”, diz dona Veronica, a corretora bunitigna que me atende) custa, fácil, 300 mil dólares-, os prédios têm entre três e seis andares, e uma relação simpática com o entorno. É perfeitamente possível viver sem carro, na ilha. Aliás, o contrário é verdade: muito difícil viver de carro, na ilha. A maioria absoluta dos prédios não tem garagem. O estacionamento é caro. A tolerância zero na verdade é abaixo de zero quanto a delitos de trânsito e estacionamento. As multas custam os olhos da cara. Esse é provavelmente um dos motivos para que o americano “médio”, that very elusive creature, não goste da cidade. Na maioria das demais metrópoles, a relação morador/carro fica perto do 1:1, e nos casos mais esquizo, como LA, há, efetivamente, mais carros do que gente. (Estamos falando de um país em que, nos anos 50, as grandes fábricas de carros compraram, e promoveram o desmonte de, grande parte dos serviços de transporte coletivo -especialmente as linhas de bondes- nas cidades de médio e grande porte, para promover as vendas dos rabos-de-peixe.)

Os hábitos são diferentes, na cidade. Necessariamente. Espaço é escasso, e caro. O que gera um dos paradoxos locais mais divertidos: o coração da ilha é o consumo, e há muita, MUITA grana rolando, mas para a maioria das pessoas, se comprar é fácil, e se os preços são (comparativamente) acessíveis, falta, na outra ponta, lugar pra guardar a tranqueira toda em casa: clutter is king. Outro efeito da falta de espaço é que as pessoas saem mais do que em outras cidades. Compreensivelmente. Um “bom” apê aqui tem de 50 a 70 metros quadrados. Muita gente divide apês ruins de 40 metros quadrados, entre duas ou três pessoas. Você sai de casa ou fica louco, em suma. A falta de espaço e as dificuldades de estacionamento e de deslocamento em automóvel também resultam em diminuir o tamanho das compras do dia-a-dia. Se você estava acostumado a fazer compras semanais de médio porte e uma compra mensal maior, na terrinha, pode esquecer: o esquema da ilha é comprar alguma coisinha todo dia, no caminho de ou para o trabalho. Isso reduz o fator burro de carga. (Uma das coisas incompreensivelmente idiotas aqui, aliás, é o fato de que todo mundo carrega compras o tempo todo, mas boa parte das lojas ainda usa sacos de papel pardo como embalagem. Ou sacos plásticos fininhos cujas alças se arrebentam facilmente. O que nos leva a outro acessório essencial: a tote bag, sacola de compras resistente e de alça longa que se pode carregar ao ombro ou levar na mão como uma sacola de feira das nossas. Ou a mochila, especialmente se ela tiver compartimentos separados para o computador e as compras, como a que eu uso.)

As cozinhas são especialmente pequenas. Deixar louça por lavar é impensável, por falta de espaço e porque as cozinhas muitas vezes dividem o espaço da sala. Cozinhar usando centas panelas, como muita gente faz lá em casa, no way, José. É essencial ter o maior número possível de economizadores de trabalho, gadgets galore. (Sempre garantindo que a cozinha disponha de hook-up points: em muitos dos apartamentos mais velhos, por exemplo, não dá pra instalar lavadoras de louça.) Quase todos os prédios oferecem lavanderias, com máquinas de lavar e secar para uso coletivo. Mas pendurar roupa à nossa maneira é praticamente impossível (até porque a maior parte das cozinhas/áreas de serviço ficam na entrada dos apartamentos, sem janelas). Dependendo do seu estilo de vestir, trampo e habilidade (or lack thereof) com o ferro de passar, selecionar uma lavanderia de confiança e perto de casa é muito importante. Diarista? Melhor seguir a recomendação dos amigos. E elas fazem cara feia (ou cobram mais) se a casa está muito messy. Custa entre 50 e 90 dólares, por três a cinco horas de trabalho. Se você é tarado por frutas, como eu, por exemplo, o Farmers Market da Union Square (segundas, quartas, sextas e sábados, 8h às 18h) é o canal. E fica perto da Strand: uvas e livros. Um conceito essencial pra quem quer morar por aqui é o de “percurso” –você tem de organizar o seu ou os seus trajetos regulares para facilitar as tarefas cotidianas. Por sorte, o comércio e os serviços estão espalhados por toda a cidade. Mas o ideal é que você tenha uma drugstore e uma grocery store no trajeto entre o metrô e seu prédio, por exemplo. Assim, carrega compras volumosas por menos tempo. Lavanderia, idem. As coisas menos volumosas é possível comprar perto do escritório, na hora do almoço. Escolher exatamente onde morar requer que todos esses fatores sejam levados em conta (e aí você sofre um acesso de idiotia e se apaixona por um apartamento exótico no bairro da sopa de letrinhas que não oferece nenhuma dessas conveniências).

E, por fim mas definitivamente muito mais importante: if you’re going to the city, escolha bem o seu (a sua) guia. A minha acabou de aparecer na entrada do café onde digito essas mar-traçada, com um sorriso de 300 gigatons e as bochechas rubras de frio, usando o vestido very fancy que um freguês satisfeito comprou de presente. Na companhia certa, troco o Flatiron por Flatbush, no questions asked. (Mas, pra terminar o treco em nota cautelar: “and if you stay up in the city, child/ there’s just two things I hope/ that you don’t take money from a woman/ And don’t start messing ‘round with dope.) Uncle Mose dixit. Uncle Filthy signs off.

December 01, 2004

 

Blog é literatura? Sei lá, mas é verbete.


A blog, by any other name...

A editora gringa Merriam-Webster divulgou ontem que a palavra mais consultada em seus dicionários online durante o ano de 2004 foi “blog, verbete definido pelos entomologistas da firrrma como “website contendo um diário pessoal online com reflexões, comentários e –freqüentemente- links”. A palavra “blog será sacramentada como parte do idioma de Shakespeare e Shakira na edição 2005 do Merriam-Webster Collegiate Dictionary.

Vocês, blogueiros, aparentemente estão se tornando, argh, respeitáveis. Eu preferiria continuar atendendo à descrição proposta por Johnny Mercer -

You’re much too much
And oh so very very
To ever be
In Webster’s* Dictionary


- mas, como sempre, fui voto vencido. Pelo menos, quando alguém perguntar o que é blogue, posso mandar o cara consultar o dicionário. (O cujo ele, infelizmente, continua a não definir expressões que me enchem a alma patriótica de orgulho, tais como “Brazilian Butt Lift” e “Brazilian Bikini Wax”). Parabéns a todos, e feliz aniversário ou thereabouts pro blog de alguém. Cheers.

* Noah Webster (1758-1843), o pai do dicionário moderno, lançou o primeiro Webster’s Dictionary em 1828, com a epígrafe “a educação de nada vale sem a Bíblia” (provavelmente para promover a tradução das Escrituras em que estava trabalhando, lançada em 1833).

 

Beautiful oblivion


''cause the moon has spread rocks in my bed'

(For Charlotte*)

Love does not become me. I’ve always had an exquisitely-tuned eye for ridicule anywhere around me, and being in love is, above all, the embodiment of ridicule. That said, I fall in love, from time to time. Ridicule takes a back seat, and I do exactly what everyone does in those situations, and provide entertaining mishaps to observers all and sundry. Because I don’t exactly 'fall' in love; no -I crash down with it, or I’m crushed under it. Even when requited (and I've been lucky against all odds in that area), love overwhelms me. It has to do with my personality, I guess. Because I’m usually very self-aware, very collected, being in love triggers the opposite behavior. Nobody is that cool, nobody is that perfect, and I know it, but 'knowing' doesn't cut it, when compared to 'feeling' it. So, I endow the object of my affection with such an array of sterling qualities, I pin such high hopes onto her, that love becomes as heavy a burden to her as it is to me. But then, it's not her fault. And yeah, it IS my fault. I'm too much of a rationalist to cop a plea by alleging that 'the heart wills what it wills'. Because what exactly would I do if my heart willed me to kill every Moslem in my neighborhood?

So this is how love, young love, becomes that uncanny mélange of delirious joy and permanent guilt –unceasing yearning for the Promised Land in her, set against the dark, irrational undertow that suffuses my passion: a desire of losing myself in a feeling I can’t control. ('Beneath it all, desire of oblivion runs'.) When love is requited, all those things end up by working perfectly fine, though. Because the object of my affection sees me as very worthy, she is usually flattered, albeit ironically, by my exaggerated attention. Unrequited love is a bitch, however, and not because my feeling is refused. I can always recognize her absolute right to reject me, and I can always abide by whatever rules she wants implemented. I don’t plead, I don’t insist, I don’t stalk, I don’t look for second chances, gleams of hope, chinks in her armor. I don’t expect understanding, and I abhor mercy. The only thing that really brings me down is 'the freak treatment', is imagining myself, and my love, seen through her eyes as something either phony or disturbed. Because that costs me my truest voice. I’m always willing to admit to any and all mistakes, love-wise. I’m King Fuck-Up, and I know it. But I don’t conjure my feeling out of thin air. I don’t present it uninvited, from my freak hide-hole to her airy castle. And, above all, I ask for nothing in return and never avail myself of the (sometimes plentiful) opportunities to win some cheap compensation in love’s stead. So why, oh why, being righteous feels so empty, meu são jizuis?

It’s like a rock swept down by a volcano eruption, mysteriously ending up in your living room, unrequited love. It starts very hot and very cumbersome, and you have to feel your way around it gingerly so as to avoid getting hurt again and again by the same disaster. But then it cools down, and even if it’s still too big a burden to be removed without help, you sort of get used to it. It’s there. To stay. And though you bump against it sometimes, triggering the same old pain all over again, you learn how to avoid it, you trace your path around it, you learn a trick or two on how not to stumble against it in the dark. But it stays there. ‘Til one day it’s cold enough to be seen for what it was, is. And you can see the gold lodes, the gems shining underneath the charred surface. You get to remember with a smile how witty that rock once made you, how sharp, how seemingly talented. And because that love was, is unrequited, you can get some measure of pride from the fact that, hey, this is your rock. This rock is you. The pain, the gems, the gold lurking underneath. And the warmth you sense deep down below the blackened surface: your warmth, your generous though flawed heart. You know, then, that, yeah, no matter what your losses were, you’ll pull through, and not as a freak. And one day the crazy designer broad from Changing Rooms will find that strange rock in your living room and turn it into a coffee table. Or your girlfriend will tip the super 20 bucks to cart the ugly motherfucker away. Either way, you will watch it go as awkwardly and as gracefully as you managed to watch her go, that day. But now you’ll be able to smile.

* (With thanks for all that spinning. Cobwebs and strange, babe. )
Update: And that is the coolest drawing ever. Period. ;-)

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