November 30, 2004

 
Aliás, se ocês estiverem procurando o que ler e estiverem de saco cheio de mim (really, I do go on and on about nothing in particular, don't I?) façam-vos um favor e vão ler o Rafael, que está mostrando ao Sol Nascente o que é que o Bananão tem.

 

(Skip without reading)

Em uma nota de profunda e injustificada bazófia pessoal, e só como lembrete em futuros dias sombrios, novembro, alas, acabou. E eu venci.

11 DOWN! 18 TO GO!

E obrigado a todo mundo que, mesmo sem saber, ajudou.

 

Tara, vício, fetiche e agentes inteligentes


Batendo o martelo

Preliminares: no Estado de Andhra Pradesh, Índia, o governo está distribuindo uma camisinha grátis com cada garrafa de bebida alcoólica vendida. A idéia é juntar a sede com a vontade de comer, ou algo assim. Uncle Filthy, cujo strike rate é sempre infinitesimal, gostaria de propor ao Presidente Nove-Dêdo o programa reverso pro Brasil: nêguinho compra um pacote de Giltex, a camisinha ministerial, e ganha uma garrafa da branquinha. Pra garantir que ao menos um dos dois itens seja usado.

Conto de fodas: Em Dresden, Samira, 22, a cantora que interpretava Branca de Neve no festival natalino da cidade, foi demitida pelo prefeito por ter posado nua em uma banheira para uma revista de, er, boas festas. Dietrich, Günther, Siegried, Reiner, Franz, Wilhelm e Hervé Villechaize, os sete anões do espetáculo, escaparam impunes, porque a banheira aparentemente estava cheia.

With a little help from Anatel: Não podia faltar a Land of Oz e, down under, um sujeito que se alega depressivo e viciado em sexo pelo telefone (quite painful, eh, what?) foi dispensado pelo ombudsman das telecomunicações de pagar os 10 mil dólares em contas incorridas na prática do “ai, como era grande”, er, oral. Que levante a palma peluda quem nunca discou por amor.

Pornoaquê, quero aqui: Em Edimburgo, organizações feministas que certamente não têm uma loucinha pra lavar estão protestando contra a prefeitura por ter permitido a instalação do Pornaoke Lounge, um clube niquiq os marmanjos bebem e improvisam diálogo e trilha sonora para vídeos pornô. O clube, que se reúne quinzenalmente, permite aos rapazes exibir sua criatividade inventando falas e efeitos sonoros para clipes eróticos de 30 segundos, nos quais, aliás, as partes pudendas aparecem encobertas pela saudosa bolinha preta que dona Solange inventou. Infelizmente, as escocesas não querem topar com marmanjo saindo bêldo do pornaoquê e tentando um improviso com elas no double-decker:It’s pure titillation and I dread to think what could occur when these gentlemen leave the premises”. Especialmente se eles estiverem vestidos de entregadores de pizza.

Sticky fingers: Já o meu querido New York Post abrilhantou o final de semana com matéria que propugna que as mina se viciam em pornografia tanto quanto os mano, aduzindo que 28% dos usuários de sites pornô são mulé (dados da Nielsen/NetRatings para outubro). Philip Recchia, o Bob Woodward do sexo suburbano, relata a história de dona Lori, 37, que perdeu o marido porque esperava o sujeito ir dormir e saía pela Internet slurpando virtualmente. Recchia conta que o casamento acabou quando o marido apanhou dona Lori em “flagrante e-licto”. Go, Phil.

Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe sete anos: se fetiche é seu nome do meio, dia 10 de dezembro vai a leilão o sketch original daquele famoso vestido branco que Norma Jean usou em The Seven Year Itch. O croquis, de autoria do estilista (Billy) Travilla, o perene favorito da atriz, será colocado à venda com outros itens de memorabilia hollywoodiana, incluindo a única foto autografada da mocinha ao natural.

Agentes inteligentes, executivos nem tanto? Robert J. Stevens, presidente da Lockheed, explica o que sua empresa pode fazer pra ajudar Bush Jr. a escapar do imbroglio no Iraque, dizendo que “we’ve now created policy options where you can elect to put a human in or you can elect to put an intelligent agent in place”. Viram? Pra certas missões agora se pode escolher entre um ser humano e um agente inteligente. O que explica a ascensão de Schwarzenegger. E o barbeiro do Donald Trump.

November 29, 2004

 

Epitaph for a might-have-been


Chanson trouvée: "Inside Out"

I would swallow my doubt
turn it inside out
find nothing but faith in nothing
Want to put my tender
heart in a blender
watch it spin around to a beautiful oblivion
Rendezvous
Then I’m through
Now I’m through
with you
Through with you

 

No sleep till Brooklyn


"and anyway for all the things you know
tell me why does the river not flow"

Cerimônias eram importantes para ele, e por isso cruzar o rio naquela noite para a primeira visita à casa da (wow!) namorada era um "marco histórico”, e causa de certo frio na barriga. Enquanto ela tagarelava sem parar, no táxi, sobre o filme e o final de semana, ele contemplava o percurso, a velha ponte (lembrando, incongruentemente, porque memória indiscriminada era sua benção e praga, que o primeiro idiota a morrer saltando de lá, em 1885, se chamava Robert E. Odlum). Não era exatamente medo: era a sensação da noite anterior a uma grande viagem, aquela mistura de ansiedade, pressa e certa hesitação, de vontade de chegar de uma vez, sem enfrentar o percurso, e algum temor quanto ao que se pode encontrar no ponto de destino. Como todo homem, ele tinha medo de intimidade. Mas os anos recentes de rollercoaster físico, emocional enfim ensinaram o que deveria ter sabido desde sempre: que intimidade era exatamente o objetivo do imbroglio, e não uma espécie de tributo que o tesão paga à respeitabilidade. Gostasse ou não, ele era filho dos anos 60, e trazia as cicatrizes ambivalentes da década, a idéia de que era possível, e até desejável, doing the very, very, very, very, very nasty com uma mulher e ao mesmo tempo escapar à intimidade. Afinal, “somos todos adultos”, Filthy, dear.

Giant step, aquela travessia: até lá, continuava a ser possível definir a coisa como um fling, como um affair intenso entre colegas, como mais um item a ser ticado na lista de experiências eróticas obrigatórias (quem se lembra do teste da Jane, uns anos atrás?) Os jogos todos tinham ocorrido em campo neutro, e em clima de férias, ou de suspensão da moralidade convencional, porque tudo era tão divertido entre eles naqueles dias: pra que rotular? O impulso abstruso dele era entrar no apartamento da moça carregando a noiva no colo, ou qualquer sandice dessas, mas na verdade eles ficaram se beijando freneticamente na porta enquanto ela procurava a chave às cegas na bolsa –meio tesão perene, meio um jeito de adiar o inevitável. Os olhos são a janela da alma, o decote é o mapa da mina e a casa é o dono da casa –a dele, por exemplo, no passado um modelo de discreto exibicionismo (cada móvel, cada livro, exposto por um motivo) tinha virado uma quizumba inabitável. Mas a dela era razoavelmente organizada –a sala, pelo menos: austera, correta, parecida com as roupas que a namorada usava no escritório. O quarto, que o interessava mais por pelo menos uns três motivos, ela não o deixou ver: entrou correndo com um gritinho, insistindo em que ficasse na sala. Claro que ele não resistiu e foi atrás dela, e a encontrou tentando dar um jeito no torvelinho de roupas espalhadas por cima da cama. A desordem o deixou encantado, e também causou certo sentimento de culpa: não admira que a casa estivesse uma zona. Ela tinha dormido lá só uma noite nos últimos oito dias.

Passaram uma hora dando um jeito no quarto, levando roupas pra lavar na lavanderia do andar, fingindo que aquela domesticidade aconchegante lhes ocorria naturalmente. Era estranho, pra ele, dividir a casa com alguém que dividia a casa com alguém. A roomie, por sorte, não estava, nem voltaria por mais alguns dias, emenda de feriado. Mas a existência dela ajudava a explicar o contraste entre o quarto da namorada, cheio de personalidade, e a sala branda. Ele gostou mais do quarto, especialmente porque parecia lived-in. Havia preocupação estética, claro (a profissão da ocupante nem permitiria o contrário), mas também uns detalhes meio foda-se: uma poltrona feia e convidativa, por exemplo, encaixada na curva da bay window.

Assistiram juntos a um filme horrível, e ela dormiu na metade. Ele, como sempre, insone: química zumbindo com especial intensidade naquela noite de descobertas. Deixou a moça dormindo e encontrou um canto na sala para ligar o laptop, verificar e-mails. Como era seu hábito, em visita a casa alheia, dedicou atenção à estante, aos discos. Na sala, a metade da estante que cabia à namorada era evidente: os escritores prediletos de ambos eram assunto constante de conversa, e havia também os livros de design, e a coleção de livros infantis clássicos para a qual ele já havia contribuído com um Collodi diliça comprado na Strand. Ele sorriu apanhando os três E. B. Whites: edições antigas, amareladas, marcadas em letra de criança com o nome dela, e um carimbo de Pepe le Pew. Sono nenhum, ele lia as aventuras de Charlotte, e pensava na namorada menina, encarando a escola em Fort Wayne nos anos 80, até que ela surgiu na soleira da porta da sala, com uma camisa de futebol americano que ele não queria nem imaginar de onde veio, e perguntou, doce: “Sleepless, big fella?” Ele assentiu. Ela se instalou ao lado dele no sofá, xeretou o que estava lendo, riu, e ofereceu companhia –empreitada à qual dedicou valente meia hora antes de pegar de novo no sono, no colo dele.

Na manhã seguinte ele acordou na cama, para onde a tinha levado e onde o sono enfim o derrubara. Um bilhete na mesa de cabeceira dizia: “Went shopping for breakfast. BRB. S.” Sozinho na casa da namorada pela primeira vez, não posso negar que a tentação dele era fuçar, abrir gavetas, procurar esqueletos nos armários, não tanto por paranóia ou curiosidade mórbida mas porque, yo, como não querer saber tudo sobre ela? No entanto, se limitou cuidadosamente a observar o que a namorada tinha deixado aberto à observação –as gravuras, os desenhos, os CDs, as fotos de família na mesa de cabeceira. Cedeu a uma tentação constante (sua versão pessoal do objet trouvé) e ligou o som, sem trocar o disco: era o seu I Ching, revelação via música aleatória. E porque nada podia sair errado naquele fim de semana, encontrou no disco uma ruidosa epifania.

No banho, ficou pensando em intimidade, nos detalhes doces que, para ele, sempre tinham importado mais que o Kama Sutra de certas memórias: pensou nos anéis que a primeira namorada deixava sobre o piano quando tocavam juntos, no moletom encardido do Mickey que alguém usava para dormir, no ritual matinal das lentes de contato de mademoiselle Magoo, no roupão cinzento, olhos intensos e cabelos sem artifício de um amor sem esperança, na laboriosa gelatina em quatro camadas que uma menina incapaz de cozinhar preparava depois de ouvi-lo confessar sua tara infantil pelas delícias da Otker. Pensou na generosa tentativa de acompanhar sua insônia que dona dorminhoca empreendera horas mais cedo, e nos disfarces pueris que adotavam, como descer do ônibus em pontos consecutivos para ninguém no escritório pensar que tinham dormido juntos. Saiu do banho repleto de afeto. Cinismo é de rigueur, ele sabia. E sabia perfeitamente de que maneira acabam as intimidades. Mas, depois de seguir a instrução do avental e beijar a cozinheira, na minúscula área entre o fogão e o balcão, voltou à estante e apanhou o Pinóquio dos anos 30 que comprara para a nova namorada. E, na folha de rosto, além do nome dela e da data do presente, encontrou um Pepe le Pew, carimbado no canto superior direito. O carimbo da infância nos livros comprados à beira dos 30, a persistência da menina de óculos encontrada nas fotos de família à beira-cama como parte essencial do mulerão que via ao fogão, encheram o peito dele de ternura em dose digna de filme natalino, e ele invadiu a cozinha como Genghis Khan invadiu Bokhara. Intimidade, baby, é o melhor dos afrodisíacos. Melhor desligar a torradeira primeiro, though.

November 27, 2004

 

Lulu's Back in Town


Home is where the heart is

Gotta get a half a buck somewhere
Gotta shine my shoes and slick my hair
Gotta get myself a boutonniere
Lulu's back in town

November 26, 2004

 

Jogo dos sete(centos) erros


Dan Betzer and Louie tell the Bible Classics, Volume III*

Uncle Filthy convida a amável leitora, o gentil leitor, a apontar os sete erros da foto (cortesia do genial museu de capa de disco do inferno administrado pela zonicweb: siga o link e vote), mesmo que saiba, claro, que com apenas sete erros não dá nem pra começar a lista.

Vamos lá. Primeiro, a barba falsa do, er, pastor Dan Betzer. Cês têm certeza de que querem que as crianças aprendam história da Bíblia com um pervertido disfarçado? Segundo, qual é mesmo a lógica de um DISCO de ventriloquia? Terceiro, como é que a gravadora deixou essa idéia brilhante chegar ao Volume III? Quarto, por que o fantoche tá pegando no cajado do pastor? Quinto, as ovelhas ao fundo tão fazendo papel de Agnus Dei? E pra quem? Sexto, se o Dan Betzer faz o papel do profeta, o Louie é quem, o, er, burning bush? Sétimo, era isso mesmo que o Gary Sinise fazia antes de chegar a Hollywood? Inquiring minds want to know. (Contribuições serão retribuídas com jello shots.)

Ah, e the Land of Oz uma vez mais contribói para o desenvolvimento da civilização: a polícia distribuiu por engano fotos pornográficas de crianças a 1,8 mil escolas públicas em Nova Gales do Sul. Como parte de uma investigação, os policiais estavam tentando identificar crianças cujas imagens constavam de fotos apreendidas nos computadores de pedófilos detidos, e na hora de editar os arquivos para que revelassem só os rostos das vítimas, alguém fez um Tuma e lá se foram arquivos completos para boa parte dos destinatários. Polícia da Austrália: eliminando o intermediário no mercado de pedofilia.

Bom final de semana. Uncle Filthy signs off.

*Cliquem na imagem para ver versão ampliada e distinguir os detalhes, ui, salacious.

 

The ocean's roar, nine thousand drums


Johnny Mercer (1909-1976)

John Herndon Mercer nasceu rico, mas a falência do pai depois do crash de 1929 o deixou na pindaíba. Virou cantor para pagar as contas, e começou a compor. Depois de ganhar um concurso de calouros, se tornou MC e vocalista da orquestra de Paul Whiteman, em 1932. A lista de standards do moço, em parceria com alguns dos melhores compositores da era, é tão longa que não vou correr o risco de selecionar e cometer injustiças. Mercer fundou a gravadora Capitol, nos anos 40, e aquele prédio genial e esquisito em forma de pilha de LPs que sedia a empresa até hoje, em Los Angeles, foi idéia dele. (Mercer vendeu suas ações na Capitol, em 1954, ano em que o prédio foi inaugurado, para cumprir uma promessa de juventude: pagar as dívidas do pai.) Com Rube Bloom (1902-1976), em 1939, Mercer compôs "Day In, Day Out", uma das minhas canções favoritas. Sinatra na caixa, McNasty. And the same old pounding in my heart, babe.


"Day in, day out
The same old hoodoo follows me about
The same old pounding in my heart whenever I think of you
And, darling, I think of you
Day in and day out

Day out, day in
I needn't tell you how my days begin
When I awake, I awaken with a tingle
One possibility in view
That possibility of maybe seeing you

Come rain, come shine
I meet you and to me the day is fine
Then I kiss your lips
And the pounding becomes
The ocean's roar
A thousand drums
Can't you see it's love
Can there be any doubt
When there it is
Day in, day out
"

 

This tumult in the clouds*


Os alemães as chamavam "Nachtlexen"
(Ao fundo, um Yakovlev Yak-9P)

Na Segunda Guerra Mundial, se bem mulheres tenham servido em grande número nas fileiras das forças armadas de diversos países, não era comum que fossem empregadas em missões de combate. Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, mulheres foram empregadas como pilotos pela RAF e pelo USAAC, mas estavam limitadas a transportar aviões das fábricas para as bases aéreas, onde os entregavam aos rapagões. Na Alemanha, Hanna Reitsch, famosa piloto de testes, foi um dos últimos aviadores a chegar a Berlim, quando os russos estavam fechando o cerco à cidade, em 1945 (pousou na Unter der Linden, principal avenida da capital alemã). A missão dela seria transportar Adolf Hitler para fora de Berlim; quando o Führer se recusou a partir, ela conseguiu decolar, escapando aos caças soviéticos. Apesar de muito condecorada, nunca chegou a ser admitida formalmente à Luftwaffe.


Major Natália Meklin, heroína da URSS

O único país que empregou mulheres –mais de mil delas, de fato- como pilotos de combate na guerra foi a União Soviética. Organizadas pela pioneira aviadora Marina Raskova, as três unidades de combate aéreo soviéticas formadas exclusivamente por mulheres executaram mais de 40 mil missões, e milhares de outras soviéticas serviram em unidades mistas da força aérea vermelha. Aproveito o espaço que costumo reservar à diliça da semana para homenagear as valentes aviadoras. Stálin com certeza não merecia o sacrifício, mas as meninas merecem cinco minutos da nossa atenção e todo o nosso respeito. (E essa major Natália aí could fly me to the moon whenever she wished.)

*W. B. Yeast

November 25, 2004

 

New York Conversations


"Just a New York conversation, rattling in my head"

No buzum M3 dirigido a cada manhã com impecável cortesia por Ms. Shaneequa T. Williams, corpo de lutadora de sumô, sorriso de sílfide, às oito da manhã de uma segunda-feira. O menino vietnamita ou tailandês, cabelo tingido de amarelo pálido em corte repicado, tatuagem da Hello Kitty no bícep magricelo exposto pela blusa meio de mulé que ele usa –decote redondo, meio bufante-, em contraste com as calças black jeans manchadas de tinta, os coturnos, o sobretudo ensebado, sobe acompanhado pela namorada gordinha, jeito de cantora folk guatemalteca, sem casaco apesar do frio, calça exibindo o “cofrinho”, flip-flops (aka Havaiana de gringo) revelando as unhas do pé pintadas em patriótico red, white and blue. Os dois estão mastigando barras de cereal com cheiro de Tang, e a menina, depois de slurpar demoradamente o pescoço do rapaz impassível, enfim faz uma pausa e pergunta, “yo, o que a gente vai fazer no Kwanza?”

Na calçada da rua 10, diante de um brownstone que abriga ao rés do chão um “consultório” de psychic (no East Village, duas em cada três lojas são consultório de vidente ou salão de manicure com nomes como “Cindy’s Palace of Nails”). Final de tarde, duas thirtysomethings bem ajeitadinhas emergem da Mme Sosostris, e a morena big hair, com sotaque inconfundível de Nova Jersey, pergunta pra loirinha pálida: “E aí, o que ela disse?”
“Eu venho aqui a cada seis meses e ela diz sempre a mesma coisa. E o pior é que nunca lembra de mim”.
A amiga, com aquela cadência que tento reproduzir há anos sem nunca conseguir com perfeição: “Girlfriend, you should hold on to the 20 bucks and read your past instead”.

No Pier 86, Irv, “Brooklyn, born and raised”, ele mesmo perto dos 86 mas lúcido e vigoroso como deve ter sido aos 20, trabalha como monitor voluntário guiando veteranos de guerra em visita ao Intrepid, um porta-aviões da Segunda Guerra transformado em museu. Meia dúzia de marinheiros velhos, dos 50 aos 70, estão por lá, e um deles pergunta se Irv serviu no Intrepid durante a guerra. Irv laboriosamente levanta a manga da camisa e mostra a tatuagem: “Franklin”. “I served on board the Franklin, the toughest mother in the fleet. The Evil Eye was a pussy ship”. Depois, vendo os moleques de escola morrendo de tédio em visita coletiva ao museu, resmunga, “to think I’ve almost gotten my ass blown to bits by kamikazes three times, to protect THEIR freedom”. Ele ri quando aperta minha mão. Thanks for the memory, Irv.

E pra terminar, materiazinha legal da Reuters sobre o debate acadêmico quanto ao uso de instant messengers pra fofocar no trabalho. Aparentemente, a rádio-pião online começa a ganhar respeitabilidade. Dona Danah Boyd, que está preparando tese de doutorado sobre o assunto, tasca lá que “’but the bad student is engaging in a meta conversation’, one that she and some other researchers believe is sometimes a source of valuable information and new ideas”. Pódiscrê. Tira esse firewall daí, Grande Irmão.

 

The Thanksgiving Song


Gretsch Double Anniversary, 1961
(The third-best partner ever to share my bed)

(Verse)
The T-shirt you left under my pillow
Bears your perfume, but not your warmth
Come back and fill it, will you?
I’m bored
I’m blue
I’m out of sorts

(A Section)
The waiter asked about the lady
The doorman said your name out loud
I’m proud just to share a sentence
I’m thrilled, fulfilled, but there’s a cloud

Am I supposed to sit and wait here
To roast and baste, dear
To dream of you?
Am I supposed to boot the ‘puter
To lunch at Hooter’s
To depart
And start
Anew?

I’ll celebrate the holiday, dear
I’ll toss and turn, here
I’ll hide the blues
But when I hear the planes go by, near
I’ll look and pine, dear
And think
Of you

(B Section)
So while turkeys mourn
And pilgrims pray
While families bake
And children play
You should remember
Many miles away
Someone will say
Some hearty thanks
And add your name

(A+ Section)
For this is the season to be thankful, dear
And though you’re not near
You can be sure that I thank you
And though all love is give and take, pray
Just give me leave to say
That I thank you for all you gave

Babe, I’m so thankful to be thanking you


The closer I get to you...

(Thanks to Adrian for letting me buy the guitar, and at such a price. Thanks to Johnny Mercer*: “the ocean’s roar/ a thousand drums”. And, you two, my thank-you song is available for password-equipped listeners at the (212) voicemail box. Go, Turkey!)

* Update: E Oscar Hammerstein II:

"I keep wishing I were someone else
Walking down a strange new street
Hearing words that I have never heard
From a girl I’ve yet to meet (...)

But I feel so gay, in a melancholy way
That it might as well be Spring
It might
As well
Be Spring"

(E quem fizer piada de gay morre a mãe.)


November 24, 2004

 

God bless the child that's got his own


"Love will make you do things
That you know is wrong"
(Prez e Lady Day, 1957)

Eu sempre fui mais fã de Ella que de Billie Holiday, porque meu perpétuo amor pela música de preto americano morto se baseia, em larga medida, na idéia de que melancolia pode ser sardônica. Uma das minhas birras com o retrato que os “críticos”, acima de tudo os brasileiros, costumam pintar do blues, aliás, é exatamente essa: sempre ressaltam que o blues é o canto da tristeza dos escravos e negros oprimidos blablablá, mas esquecem de apontar um fator essencial: o blues canta a deprê, sim, mas canta –sempre- a virada, a volta por cima. A estrutura tradicional das canções já aponta nessa direção: os dois primeiros versos repetidos são o set-up, e o terceiro é o release. Um dos primeiros blues registrados (sob o rótulo “work song”, em 1878) serve perfeitamente como exemplo: “You take this hammer, take it to the capt’n/ You take this hammer, take it to the capt’n/ Go’n tell him I’m gone”.

Ella, porque é mais light-hearted, lida melhor com esse aspecto brincalhão, sarcástico (se os negros não podiam linchar os brancos, podiam tirar um barato com a cara deles, ao menos). Já Billie, muitas vezes, soa grandiloqüente –“watch me suffer”, parece ser o convite- e, sei lá, se bem eu compreenda os motivos pessoais e históricos para o sentimento que ela expressa, sinto falta do punchline que La Fitzgerald tantas vezes providencia com o sorriso inferido na voz (pra quem quiser entender melhor o que estou dizendo, é só ouvir os outtakes de "Ding-Dong the Witch is Dead", no Harold Arlen Songbook). Mas Billie não é só deprê, ou o canto militante da raça, ê ô (é, eu num encaro "Strange Fruit"): como diz Whitney Balliet (com Dan Morgenstern e Nat Hentoff a santíssima trindade da crítica de jazz), a fonte essencial de inspiração vocal de Holiday é Louis Armstrong. Eu sei, parece esquisito, mas prestem atenção nas modulações, nas pequenas piadas sonoras, na rouquidão induzida. Em seus melhores dias, especialmente quando acompanhada pela gangue de Count Basie e particularmente pelo grande amor de sua vida e –arguably- melhor tenorista do universo, Lester “Prez” Young, Billie era divertidíssima, e "God Bless the Child", que ela compôs com Arthur Herzog, continua a ser uma das grandes canções sobre grana da era do jazz.


Billie Holiday (Eleonora Fagan Gough), 1915-59
Ao fundo, Freddie Green (g), Count Basie (p) e Jo Jones (d)
Arquivo fotográfico do baixista Milt Hinton

Mas sempre que começo a ranzinzar demais sobre Billie eu reviro a discoteca e coloco o CD de The Sound of Jazz (da série Columbia Masterpieces e relativamente fácil de encontrar), trilha sonora de um especial de TV de 1957 que tentava mostrar o, er, “estado do jazz” àquela altura do campeonato, sob o ataque anencefálico do rock. A idéia era capturar o ambiente de estúdio, com os músicos usando roupa “de rua”, coisa que Lady Day não curtia nem um pouco. Mas o resultado é genial: Billie com um vestido simples, sem gardênia no cabelo, sem ares de diva, cantando "Fine and Mellow" acompanhada por Lester Young, Coleman Hawkins, Ben Webster, Gerry Mulligan (the luckiest honky ever) e Roy Eldridge (e mais a suntuosa cozinha de Basie). É uma espécie de canto do cisne para Prez, que faz o melhor solo do programa e um dos melhores de sua vida, e para Lady Day. Tudo que o jazz tem de melhor está ali: elegância, melancolia, verve, humor e, pra completar o pacote, os dentes arreganhados da ironia: “Love is just like a faucet, it turns off and on/ Love is just like a faucet, it turns off and on/ Sometimes when you think it’s on, babe, it has turned off and gone”.

Lady Day e Prez, como Ray Chandler, fecharam a torneira do amor em 1959, o ano em que o mundo acabou, pra todos os efeitos práticos. Mas isso é tema para entediar o Hipotético Leitor, a Suposta Leitora, um outro dia. Enquanto isso, som na caixa, McNasty: “Mama may have, Papa may have/ But God bless the child/ That's got his own/ That's got his own”.

 

Salty Peanuts


He ain't heavy, he's my brother

Na voluntariosa Virgínia, um moleque de 13 anos foi preso por tentar seqüestrar uma stripper. O empreendedor fedelho ligou para o serviço de dança exótica, marcou com a moça em uma casa vazia na sua rua, recebeu a mulher e a engambelou dizendo que o sêuvíssio era pro irmão. Quando ela percebeu e quis sair, ele apontou uma espingarda pra Gypsy Rose Lee du jour e disse “bump and grind, sister”. A dançarina escapou, dedou o moleque e ele foi preso. Com 13 anos eu também queria perder a Virgínia, mas, pô, Billy Bob, pra isso existem as primas.

É fato bem sabido que no País de Gales realmente não tem nada pra fazer, mas a distração encontrada pelo tarado Mark Haddock empresta novo sentido à expressão “time gone to waste”: ele instalou câmeras ocultas nos dois banheiros de sua casa e acumulou mais de 100 fitas de vídeos com mulheres, er, you know. Mark, casado, foi condenado a 12 meses de prisão, e explicou que padece desse estranho fetiche desde os 17 anos. Uncle Filthy confessa mórbido interesse pelos assuntos que levam mulé sempre em dupla ao banheiro, mas pelo menas a minha tara é em áudio.

Em post de notícia bizarra, não poderia faltar the Land of Oz, ca-la-ro. Um anúncio online promovendo o vencedor do reality blow Australian Idol, Casey Donovan, por engano traz link conduzindo ao site do homônimo Casey Donovan, que se vangloria de ser “o primeiro astro pornô gay do mundo”. Na análise da minha estimada co-âncora Smelly McDirty, “o Casey Donovan australiano faz com a zorêia do público a mesma coisa que o outro Casey Donovan faz com o etc. do elenco”. Case closed.

Na cidade mundialmente conhecida como The Big Pimple, Shane Forbes, um programador de computadores, redescobriu a roda e constatou que, sempre que ia ao bar acompanhado de mulé, era mais paquerado pelas mina do que se fosse com marmanjos, e por isso criou a Wingwomen.com, que ao custo de módicos 50 doletas por hora fornece moçoilas que acompanham marmanjos a bares e os ajudam a conhecer outras moçoilas. Uncle Filthy é tradicionalista e sempre gostou de ser wingman dos amigos que cometem esse tipo de sandice –xavecar mademoiselles em lugar público-, já que a atividade fornece munição pra anos de aluguel, mas admite que a idéia parece excelente, até porque –no caso dele- dinheiro é o único jeito de obter elogio do belo séquisso.

E termino com mais uma trágica história de triângulo amoroso, essa por sorte coroada por final feliz, ou pelo menas com o triunfo da justiça. O elefante Zhongbo foi absolvido pelo assassinato de seu tratador, no zoológico de Kunming, China. Era temporada de acasalamento, e Zhongbo, tomado por l’amour fou, perdeu o controle ao ver o tratador, armado de escadinha e balde, se dirigindo aos aposentos de sua amada, SukiMo. O ciumento paquiderme fez com o tratador o mesmo que o Banco Santos fez com os investidores (menas os pára-anormal como o ex-presidente Ribamar), mas o tribunal veterinário popular da província de Yunnan levou em conta as circunstâncias atenuantes e inocentou o Lindomar Castilho da jângal. SukiMo, por outro lado, recorreu ao tribunal de apelação paquidérmico e solicitou uma restraining order, alegando que não queria mais aquela impetuosa tromba por perto.

November 23, 2004

 

Talba de tiro ao álvaro


Unreal city...

O Estado, a cidade, a maternidade, ele: o nome (que quer dizer “pequeno”, ‘cause irony was fated to be his albatross, desde sempre) como traço de união, como marca de Caim, como mau presságio. No começo, amava a cidade sem reservas –grande mãe cinzenta, ainda razoavelmente acolhedora, pelo menos lá no Jardim Microcosmo. Primeira lembrança urbana: a pilha dos paralelepípedos removidos quando a avenida em que morava estava sendo asfaltada. As viagens de trólebus com a mamma para levar almoço quente ao pai (love was that sweet back then) no centro da cidade. A escola “do bairro”. O maravilhoso bauru das Lojas Americanas na rua Direita. O banco que, como descobriu muitos anos mais tarde, imitava um famoso palazzo florentino, e que ele, menino, trouxa, imaginava seu castelo.

Depois, mesmo sob efeito da desilusão, aprendeu a amar outros pedaços da cidade –os bairros a que os perenes rolos do pai levavam a família, os lugares que ele foi descobrindo sozinho, as livrarias, os sebos, a biblioteca (ele cabulou muita aula pra perder a manhã na Mário de Andrade, lendo). Diante de amigos de fora, chegou até a desenvolver certa dose de bairrismo, a se vangloriar do parque industrial, a gritar Bélgica pra Índia alheia. Críticas à cidade-xará o deixavam puto. Descobriu os escritores da cidade, um por um. E continuou sendo andarilho incansável. Mas sabia, naqueles anos de adolescência, que era preciso ir embora, que a cidade “era pequena demais para ele”. É claro que, bostinha romântico por sob a capa do cinismo, o sonho era sempre a volta triunfal: a cidade teria seu nome, um dia. E se mandou levando o mapa da cidade tatuado em algum lugar entre as retinas e as costelas.

Às vezes, de seus exílios, sentia o cheiro da cidade sob a chuva, ouvia o chiado dos ônibus começando a circular pelas ruas molhadas de garoa nos 15 minutos que antecedem o amanhecer. Pedia notícias da cidade como se fosse uma pessoa, em suas muitas cartas. Penava de longe com as obras insanas, os prefeitos lunáticos, a lenta e deliberada deterioração daquele lugar que, faux cosmopolita, continuava silenciosamente a chamar de seu. Era um grande e complicado amor, o dele pela cidade. Como sempre, alguém já tinha definido, muito melhor do que ele seria capaz: “Gostamos de alguém porquê. Amamos alguém apesar”. De longe, aliás, os defeitos ganhavam aquele tom esfumaçado e romântico que diretor cauteloso usa pra filmar atriz cinqüentona. Quando voltou para ficar, pela primeira vez, estava certo de que they could work it out.

Mas a cidade o derrotou. O trânsito insano, a grana medíocre, a feiúra incansável, os policiais corruptos, os políticos sacanas, os cidadãos indiferentes, o ar viciado, as legiões de mendigos, a pobreza como exploração, a exploração como pobreza, os ricos escrotos, os lumpen escrotos, os jornais risíveis, as revistas mendazes, os cinemas de rua fechando, os shopping centers desembestados, os Jardins travestidos em paródia dos corsos milaneses ou faubourgs parisienses mas povoados pelos filhos da puta asquerosos de sempre, e aquele monstruoso ennui roendo, roendo.

O segundo exílio, mais curto e mais realista, matou sua paixão pela cidade. Restava amor, ainda, claro, mas o peito não queimava mais de saudade. Descobriu que era possível viver sem ela. Dessa vez foi o acaso que o arremessou de volta, contra a vontade. E o que era ruim foi ficando pior, sempre pior: cada vez menos lugares aonde ir, cada vez menos tesão por garimpar os diamantes urbanos em meio à imensa lixeira. Um dia, remexendo arquivos velhos no computador, encontrou sua lista de 10 lugares imperdíveis da cidade. Três tinham fechado, ele não ia a cinco deles há anos. E por fim até seu bar o atraiçoou. Acorda, Fudílson: tá na hora de ir embora.

Todo mundo sabe o quanto é difícil amar sem ser amado, todo mundo já penou por conta de paixão não correspondida. Mas não sei se muita gente perde tempo ponderando o quanto dói e o quanto é difícil deixar de amar. Contemplando o parque e o espigão da Paulista pela janela do apartamento que demorou tanto a escolher e para o qual já não ligava a mínima, ele pensava na cidade com a nostalgia seca de quem olha uma mulé que um dia achou insondavelmente bonita e diz, pra si mesmo, “tu era burro pra cacete, hein, mano?” Lá embaixo, os carros circulando como sempre, e como todo dia Ana Paula Arósio à espreita no outdoor do Ibirapuera com aqueles olhos esbugalhados de psicopata. Dor nenhuma. Amor nenhum. Ex-mulé na era do machismo, a cidade levaria seu nome para sempre, como ironia, acusação, escárnio, fond memory, vela votiva pelos sonhos nunca realizados. "Pode ficar com o nome", pensou. "My name is McNasty. Filthy McNasty".

And now I bid you adieu.

 

Doin' the (Mc)Nasty


Earl Moran (1893-1984)

Porque arrumou sua primeira, única e última namorada em 1978, quando ainda era esbelto, tinha dentes e cabelo, o Muro de Berlim estava, ui, ereto e Maggie Thatcher was just starting to get it on, Uncle Filthy entende perfeitamente o conceito de um museu do sexo, ainda mais porque defendo os direitos tradicionais masculinos como o de virar pro lado e dormir pós-, pensar em Bunny Yeager durante ou imaginar a date pelada antes do, er, main event. Por isso, decidi prestar homenagem especial a essa cintilante jóia de um passado pruriente, o sexo, e ontem eu e uma colega de pesquisa histórica organizamos uma sex evening, com o auxílio luxuoso do Museum of Sex (Mosex, acrônimo que aposto conta com a adesão de todos os interessados na nobre arte de doin’ the dirty).


Alberto Vargas (1896-1982)

O museu (5th Ave @ 27, $ 14.50) no momento abriga duas exposições, "Vamps & Virgins", sobre a evolução da fotografia (e desenho) de pin-ups nos EUA de 1860 a 1960 (ô, aligria!), e "Sex Among the Lotus", que trata dos 2.500 anos de pôca-vergonha na China. Como devoto, er, leitor daquela seção de fotos pornô vintage da Nerve, Uncle Filthy se divertiu pra caramba com a primeira das exposições (e a assistente de pesquisa ficou toda cheia de uis e ais diante de certas peças de vestuário feminino clássico: a meia-arrastão não vai morrer tão cedo, se a amostra presente à exposição é relevante); e se comoveu nostalgicamente com a seção da exposição chinesa niquiq a milenar sabedoria oriental dispõe que o sujeito, er, intercurse freqüentemente para obter vida longa e saudável, mencionando como exemplo o lendário “Imperador Amarelo”, que atingiu a imortalidade depois de doing the nasty com 12 mil moças. (O lado ruim do conselho, however, é que, para tanto, os sábios chineses recomendam evitar a ejaculação e preservar a força do yang masculino: não é à toa que ficaram com os zóinho puxado).


George Petty (1894-1975)

Depois de um acesso de asma causado por um desenho do Earl Moran, Uncle Filthy e a co-pesquisadora partiram para a segunda tarefa da sex evening, e foram jantar no Pam Real Thai Food (44 W 49th @ 9/10), muito apropriadamente localizado em Hell’s Kitchen, e renomado por seu cardápio afrodisíaco, que inclui o famoso creme de durian (e o que elas querem não é molian he he: ainda bem que a assistente de pesquisa num sabe português). Comida legal e barata, se você é fã do gênero, e cheia de ingredientes reconhecíveis para os brasileiros, tipo banana e manga.

Tendo preenchido ao menos parcialmente seu imenso vazio interior, os intrépidos pesquisadores partiram para a pièce de résistance: uma sessão das 10 e 50 de Kinsey, com Liam Neeson fazendo o papel do pioneiro americano da pesquisa da furumfa, um cientista very hands-on de acordo com as biografias mais recentes. O filme não é tão ruim quanto poderia, se bem o diretor atenda por Bill Condon, o que é wink wink nudge nudge demais para um opúsculo em que o membro viril tem papel de destaque, digamos. Mas bom também não é. O cara pára no meio do caminho entre aquelas cinebiografias americanas convencionais em que todo distúrbio de personalidade é culpa de mãe domineering e pai repressor e as ousadias indie em que o protagonista transexual se apaixona por um estoniano hermafrodita e termina assassinando seis freiras de cinta-liga fazendo road trip em uma Kombi. Não mata de tédio, mas tem lá seus momentos constrangedores. E Laura Linney como perva, ainda que a contragosto, putz, sei não. A nobre co-pesquisadora dormiu a meia hora final, o que não parece muito boa indicação pra filme sobre sexo (vai ver se Uncle Filty dormiu um minuto que seja durante Belinda dos Orixás na Praia dos Desejos).

Dimóddusqui, graças à mistura de Alfred Kinsey e galang soup, e como sói acontecer quando o assunto envolve sexo e eu, a noite terminou meio broxada. (Placar final: imperador amarelo 12.000, Uncle Filthy 0.)

November 22, 2004

 

Bespectacled Sod


"The horror, the horror..."

Alguma alma pouco caridosa mostrou esse treco pra minha mãe, e ela ralhou comigo: "Filthynho Eduardo, seu menino levado, você só fala de bebida e mulé, mulé e bebida. Desse jeito vai ser burro que nem os seus primos". Portanto, lá vai a lição de casa, mamma:

High Noon In the Cold War: Kennedy, Khrushchev and the Cuban Missile Crisis (2004), de Max Frankel, que em 50 anos de carreira foi de assistente de faxineiro a editor-chefe do New York Times, é um novo relato sobre a crise dos mísseis de 1962, usando fontes reveladas há pouco tempo. Tem um lado campanha eleitoral –Frankel, coração liberal como sói aos jornalistas da geração dele, usa o estilo cerebral e ponderado do governo Kennedy na condução da crise mais extrema da guerra fria como ferramenta para achincalhar indiretamente o tosco jeito texano de fazer política externa na era Bush. Os detalhes são bacanas, a prosa é jóia, mas o mundo mudou demais nos últimos 42 anos para que se possa afirmar que a crítica subjacente tem sustança.

Let the Sea Make a Noise: A History of the North Pacific from Magellan to MacArthur (1993), de Walter McDougall, professor de história na UPenn e autor também de The Heavens and the Earth: A Political History of the Space Age (1986). McDougall cobre 400 anos de história da região, e as seções sobre a construção da ferrovia transiberiana, o terremoto de San Francisco em 1906 e a exploração russa do Alasca kick major butt. Ainda mais por $ 10 no sardão.

Blood and Champagne: The Life and Times of Robert Capa (2002), de Alex Kershaw, traz a melhor análise que já li sobre o mais famoso e controverso trabalho de Capa, a foto de um soldado no momento em que era abatido por um tipo fatal, na Guerra Civil Espanhola, a qual muita gente alega ter sido posada. Capa (1913-1954), André Friedman, em Budapeste, fez fama ao fundar a agência Magnum, com Gerda Taro, e definiu o papel do fotógrafo de guerra pelo restante do século (morreu bem à maneira da catigoria, aliás, ao pisar em uma mina do Vietminh enquanto trabalhava na cobertura da guerra francesa da Indochina, em 1954). O livro é curto e bacaninha. Infelizmente, porque nem sempre demonstra muita simpatia pelo protagonista, os administradores do espólio fotográfico de Capa não permitiram que fotos de autoria dele fossem usadas como ilustração. Vale a pena mesmo assim: muitos ótimos “causos” dos afetos e desafetos do fotógrafo.

The Poet (1996), de Michael Connelly, é o primeiro grande sucesso na carreira do escritor, mas eu só fui ler agora, também mercê do sardão de um dólar. Jornalista investiga a morte do irmão gêmeo, policial assassinado por um serial killer. Trama das mais bem construídas, mas o protagonista habitual de Connelly, o detetive Hyeronimus “Harry” Bosch, do LAPD, me faz uma certa falta. (Deve ser porque tenho antipatia a thriller em que o investigador é jornalista. A maioria dos jornalistas que eu conheço não conseguiria investigar o conteúdo das próprias cuecas.) Mesmo sem o Bosch, é grudento-o leitor fica agoniado pra saber como acaba. E funciona especialmente bem no buzum ou no metrô –pocket é bom formato pra going mobile.

Empire Adrift: The Portuguese Court in Rio de Janeiro 1807-1821 (2004) é o melhor livro sobre o transplante da corte portuguesa para o Bananão que eu já li, e seria injusto não elogiar ou recomendar só porque o Patrick (Wilcken) é meu amigo há centos anos. Mr. Wilcken tem o melhor olho que conheço pra detalhes bizarros, e estes não faltavam na corte de João VI. Os retratos cruéis e precisos de Carlota Joaquina e de Pedrão I valeriam o livro, mas tem muito, muito mais. Corram lá e comprem.

E pra terminar um dos livros mais diliça que li recentemente, Moscow Memoirs, de Emma Gerstein (1903-2002). Gerstein era membro do círculo literário dos poetas Anna Akhmatova e Ossip Mandelstan, nos anos 20 e 30 (foi amante de Lev Gumilov, o filho de Akhmatova perseguido por Stálin), e decidiu –aos 95 anos- contar os podres da turma. Gerstein é tida como uma das maiores especialistas na obra de Mikhail Lermontov, e passou os perigosos anos soviéticos anotando tudinho. O livro é uma mistura de memória, história política e literária, observações pessoais e birra infinita para com dona Nadezhda Mandelstan, mulher de Ossip, retratado por Gerstein como consideravelmente menos heróico e bem mais humano do que nos acostumamos a ler (ela revela, por exemplo, o poema pró-Stálin ejaculado por Mandelstan em 1937). É o melhor livro sobre essa turma desde The Guest from the Future, de György Dalos, que relata a visita do ensaísta britânico (nascido na Rússia) Isaiah Berlin a Akhmatova, em Leningrado, 1945. De quebra, traduções impecáveis de John Crowfoot para poemas de Mandelstan e Akhmatova (alguns dos quais inéditos), como esse, de Akhmatova:

Gold rusts and steel decays
Marble crumbles away. Everything is on the edge of death,
The most reliable thing on earth –sorrow,

And the most enduring –the almighty word

 

Heaven, I'm in heaven...


"... but then Monday morning my bank manager calls and..."

Stacey nunca foi ao CBGB (315 Bowery), embora esteja morando por aqui há quatro anos. Proponho corrigir o faux pas, e damos a partida para o final de semana com uma visita ao bar, depois de deixar a mala dela no apê. É cedo para os shows, mas o sopa de letrinhas continua divertido, seedy, com as bartenders indie-gostosinhas de sempre. Fazemos hora por lá enquanto Lucy enfrenta o turnpike para nos encontrar. Quando ela chega, temos de correr para o Angelika (18 W Houston, metrô 6 ou F, $ 10), onde sou voto vencido e me obrigam a assistir uma nhaca francesa –Lucy diz que “é inspirado no Tchecóv, você gosta, seu mala”, e a Stacey comenta, “e é homenagem ao Truffaut, você gosta, seu mala”. Obedeço, como sempre, e perco 99 minutos assistindo ao horroroso Le Petite Lili, de Claude Miller, que pode ser resumido como “gaivota anencefálica passa uma noite americana no inferno. And so do the viewers”. Virtude redentora, pra quem gosta da diliçinha Ludivine Sagnier: ela passa metade do filme pelada, marromenos. Na saída, eu tenho o prazer de repetir “eu não disse?” até que chegamos ao Madras Café (79 2nd Ave), um veggie indiano bizarro onde tudo custa $ 8,95 e tem uma placa em hebraico dizendo, segundo a Stacey, que a comida é kosher (?!). Eu tava com vontade de comer masala dosa (I’m a sucker for Bangalore food), e um colega indiano recomendou o restaurante. Gostei pra caramba. Por conta da ressaca monumental da quinta, we call it a night e voltamos pra casa. Boa noite, Mary-Ellen.

Sábado, acordo ao meio-dia pela primeira vez desde que saí da Transilvânia. As moças foram se empetecar no salão Markyytho, e eu aproveito pra botar a fofoca online em dia com a sis, uma amiga brasileira, a ex-. Quando elas voltam, very turkey (ô, humor sofisticado, Fudílson), já estamos atrasados para encontrar Mike e Juanita na Strand (828 Broadway @ 12 St), melhor sebo do universo. Não vejo o Mike –old, dear friend- há uns três anos; nesse meio tempo ele tomou um pé na bunda da mulé, mudou de emprego e cidade e –lucky baaaahstard- as usual arrumou uma namorada maravilhosa, Juanita. Como é normal acontecer entre os meus amigos, todo mundo hits it off instantaneamente e, uns cinco livros mais tarde, Mike (o único nova-yorkino legítimo da turma) decide apresentar às moças a melhor doceira da cidade. Vamos a pé, segundo o Mike pra já ir queimando as calorias que a visita vai propiciar. Mas basta passar na calçada diante da Veniero’s (342 E 11th Street) pra acumular umas 500 calorias. Até eu, que não sou muito chegado a doce, me lambuzo lá com um mil-folhas. Completamos o pograma da tarde com nova caminhada, para Il Posto Accanto (192 E 2nd Street), onde a mãe e o padrasto do Mike os esperam para combinar a programação noturna e dar carona pro casal de volta a Queens. O padrasto do Mike, Tyrone, é uma figura: serviu 40 anos na força aérea, mas sempre nas bandas (é trombonista), e virou uma mistura de militar reformado (todo alinhado e cortês) e músico malaco (cheio de gírias velhas e hip). O bar é ótimo, e Tyrone é queridíssimo por lá (serviu na Itália uns 15 anos, por conta da OTAN, e fala bem o idioma). Combinamos a roubada noturna, e cada um pra sua casa.


Put on your dancing boots

Eu só me deixo convencer a ir ao Supper Club (151 E 50th St @ 3rd, $ 25) porque Tyrone, renomado pé-de-valsa, me garante que a big band da casa é maravilhosa. Mike, que sempre foi geek-cabeça, depois do divórcio, por influência do Tyrone e da Juanita, virou exímio ballroom dancer (diz ele, enquanto Juanita revira os zóinho). Como as meninas todas querem um pretexto pra dress up, às 22h estamos todos no Supper Club, mesa pra oito. No passado, diz Tyrone, o local era o Edison Theatre Ballroom; hoje em dia, parece um pouco cenário do Roger Rabbit, o rango não é bom o bastante pro que custa, o uísque é caro. Mas, ó, dançar com big band a três metros das zorêia: não tem preço. Some pointers, though: eles são cagados com reservas (tinha um monte de gente reclamando na portaria); se você chegar depois das 23h, paga só $ 15 de couvert e não é obrigado a jantar (antes, $ 25 e tem que pedir comida); a bebida é ridiculamente cara; marmanjo só entra de sapato, paletó e camisa social (gravata não precisa, mas quase todo mundo usa). A maior vantagem: o treco fica aberto, e a banda toca, até as 4h. Não sei se vou virar freguês, dada minha relação cordial mas distante com a musa Terpsícore, mas vale uma visita ocasional. Especialmente pra ver Tyrone e Ruth (mãe do Mike) dançando. Putz. Que inveja. I could have danced all night. Se soubesse dançar, claro. (As for fleet-footed Michael, alas, he dances like a MIT researcher.) Cinco da manhã: ótima hora pra ir dormir.

Aí, domingo. Brunch com Stacey no Iridium, ao som de Bob Dorough (Lucy olhou pra gente com incredulidade, virou pro lado e continuou dormindo). Stacey era fã de Dorough sem saber, porque ele é compositor de umas musiquinhas famosas de criança, aqui, tipo, a canção da multiplicação, da programação infantil da ABC. Ficou encantada com o sujeito. Eu fiquei encantado com o omelete. (Mentira, tio Bob!)


McNasty Museum of Modern Art

Chegamos ao MoMA (11 W 53rd Street, metrô linha E ou V, $ 20) às 14h, como combinado. Depois de sete anos de reforma e ampliação, o museu foi reinaugurado sábado, e é um dos mais confortáveis* que já visitei. Elegante, clean, bem organizado, grande e integrando perfeitamente as alas previamente existentes, especialmente o trabalho do Philip Johnson (jardim de esculturas, nova ala) nos anos 50 e 60. O projeto é de um japonês chamado Yoshio Taniguchi, que consegue combinar o mais estrito modernismo (basicamente vidro e concreto, sem firula) com uma elegância formal e uma atenção ao detalhe que faria inveja ao faraó Niemeyer ou ao lunático do Gehry, se eles tivessem senso crítico, coisa que suas, er, “obra” num demonstram. O museu reabre, aliás, com uma mostra do trabalho de Taniguchi, chamada "Nine Museums" (quase todos no Japão: check it out, Rafael). Os quadros, ocês querem saber? Ah, aqueles lá de sempre –mulé com cara de vaca, espermatozóides coloridos, garatujas descomunais. Mas só o prédio vale o preço do ingresso (e na sexta, das 16h às 20h, é de graça).

Fechamos a tarde com um vinho em casa, e depois Lucy deixa o casal dançarino na Penn Station e nos dá carona até o Algonquin (59 W 44th Street), antes de voltar para a plácida Princeton. Stacey e eu encerramos o final de semana com um show genial de Barbara Carroll (que nos seus anos de Carlyle costumava interromper canções pra reclamar de espectador que mascava amendoim alto demais), interpretando Harold Arlen ("don't know why/ there's no sun up in the sky/ stormy weather/ since my gal and I ain't together/ it's raining all the time, all the time"), um dos meus faves. Minha designer predileta me dá carona no táxi (e cochila no meu ombro), antes de retornar ao inóspito Brooklyn.

Em casa, às 23h, bate primeiro o cansaço do final de semana corrido, depois aquela sensação de felicidade, e por fim o gene McNasty se manifesta com seu habitual pessimismo: Nova York é sem nenhuma dúvida a cidade mais legal do mundo se você é adulto e tem QI de três dígitos, mas viver desse jeito com salário em Brazilian scale, uh oh. O nada extravagante final de semana descrito aí em cima, descontados os livros e outras comprinhas que não entram no entertainment budget, me custou por volta de mil dólares (noitada de quinta incluída). Em suma, felicidade tem preço. Por isso, gentil leitor, amável leitora, prezado patrão, cortês cliente de freelancers, tratem de me mandar trabalho pra caramba, antes que eu seja forçado a viver só de falafel. Uncle Filthy merece. (E se alguém acrescentar a rima ginasiana, vácagá.)

*Update: Claro que, falando de museu confortável e espacialmente bem organizado, o melhor continua a ser o Kimbell Museum, do Louis Kahn (1901-1974). Só o sistema de clarabóias e espelhos móveis que ele bolou para prover iluminação natural direcionada aos quadros já justificaria a visita (aliás, a iluminação é miló que os quadros, anyway). Mas tem o grande e vital inconveniente de ficar em Fort Worth, Texas. Ugh. Se o azar o conduzir naquela direção, though, vale muito a visita.

November 21, 2004

 

I am a camera*


Lucy and Juanita, aka Naima: to meet them is to love them


Mike, the lucky baaaahstard, and Stacey: old friends, new friends

*Marromenos: se alguém souber como cortar as fotos do mesmo tamanho, agradeço a esmola. Comprimir, I mean. Aprendi a usar esse treco ontem, afinal.

November 19, 2004

 

Salve lindo peitão da esperança!


"It's better to burn out than it is to rust"

Ninguém mais comemora o Dia da Bandeira. Na minha primeira infância, era data ainda célebre, creio que por injunção da junta castrense (uma das minhas primeiras lembranças envolve assistir, do colo do meu pai, uma misteriosa cerimônia do Sesquicentenário –tenta pronunciar “sesquicentenário” com asma aos quatro anos pra ver o que é bom pra tosse). Agora, ninguém mais lembra. Thank God for small mercies. Mas já que a gente não celebra mais o símbolo augústulo do pasto, melhor exibir consciência ecológica e reciclar a efeméride para fim mais útil. Eu, por exemplo, vou usar o dia da bandeira para dar algumas.

Começo por apontar, sem nenhuma surpresa, que os dois extremos do espectro ideológico estão fazendo um rala-e-roça básico, de novo –da mesma forma que no Brasil os nacionalistas de extrema direita e os marxistas de extrema esquerda se encontram em defesa da sandice, nos EUA os neocons do freedom everywhere e os liberais da catigoria nation builder defendem, com argumentos até assemelhados, a invasão do Iraque para promover a democracia, e por inferência outras invasões a outros países igualmente autoritários –Arábia Saudita, Egito e Paquistão já foram citados. Se vocês acham que é exagero, dêem uma bizoiada no mais recente livro do ultraliberal Noah Feldman, e contrastem com o sêo Perle, por exemplo. Crazy minds think alike. Um dos bons argumentos em favor de ser oldcon, como eu, é que a gente não precisa apoiar essas bestaj.

Bandeira 2, then: passei os últimos meses esperando (no sentido de acalentando esperanças sobre) duas decisões, mutuamente excludentes em seus efeitos. A primeira, duas semanas atrás, como eu antecipava, foi desfavorável. Hoje saiu a segunda: salve o lindo pendão da esperança, baby. Ganhei um tugúrio no andar de cima, enfim. Agradeço a torcida de quem sabia e a simpatia de quem não. É nóis na fita, longer, bigger and uncut.

Flagging a ride: Yo, the both of you, blonde and brunette, Uncle Filthy wants to thank you both very much for the ride yesterday. Remember, though, that he is old enough to be your uncle, and have mercy on him this weekend.

Por fim mas não menos importante, bandeira branca: você obviamente não lê isso aqui, mas, caso venha um dia a fazê-lo, saiba: se precisar, de qualquer coisa, wherever, whenever, I’ll be there. No questions asked. E de graça como sempre.

E, bandeira extra movida pelo mais singelo afeto: Lady Jules rules.

Update rapidinho, às 17h55min: I'm off for the weekend. Play nice, kids. Cya on Monday.

 

Society Red


"While the rest of the species is descended from apes,
redheads are descended from cats"*

Eu, se bem que aspirante a gentleman, sempre preferi as morenas, especialmente as de olhos escuros, mas agora estou enfim livre para admitir que a dona do meu coração (cinematográfico) é ruiva, e já faz uns 10 anos. Julianne Moore, cuja carreira recente no cinema descambou para a chanchada, continua ainda assim a ser mulé mais diliça das telas. Eu a vi pela primeira vez em Vanya on 42nd Street (1994), último trabalho do meu querido Louis Malle. O filme acompanha ensaios da versão de David Mamet para Tio Vânia, do Tchecóv, minha peça predileta. E dona Moore faz a magnífica Yelena. Ô, diliça, ô, melancolia. Do mesmo jeito que é fierce e melancólica a interpretação dela como Sarah Miles em The End of the Affair, de Neil Jordan, o melhor colorista do cinema moderno.


Julianne Moore (1961- )

Moore começou a carreira fazendo novela diurna na TV, em As The World Turns, e trabalhou em uma quantidade inacreditável de filmes ruins esses anos todos. Mas tem sempre Cookie’s Fortune e Short Cuts, do Altman (este último famoso por uma cena, er, bottomless, de dona Moore, ui), The Big Lebowsky, dos Coen, os dois do Todd Haynes, pra quem gosta (include me out), e aquela chatice to The Hours, que não vi e num gostei (já que tinha lido o livro e detestado). É muito difícil esquecer as transições que dona Moore engendra entre dona de casa very proper, amante pornô endiabrada e católica fervorosa, em Fim de Caso. Bomba por bomba, eu preferiria morrer com a redhead bombshell, alas.

* Mark Twain

November 18, 2004

 

Multimedia Man-About-Town


"The Bronx is up and the Battery is down"

Lá na terrinha não costumo pegar buzum ou metrô. O metrô por não me servir, nos meus trajetos habituais, o buzum porque demora e vive lotado. Acabo me deslocando pela cidade de carro, apesar de detestar dirigir e de perder a boa meia hora de leitura ao começo e final do dia que ir ao escritório de condução me oferecia em outras cidades, outras eras. Por aqui, o contrário: vou trabalhar de ônibus, saio do trabalho pra, er, “balada” (God forbid) de metrô e volto pra casa de táxi (ou no paddy wagon dos manguaceiros). E my baby me deu um iPod –sonho de consumo enfim realizado.

Dimóddusqui virei o ómi murtimídia, especialmente quando levo comigo nas minhas expedições o horrorível celular com câmera da firrrma. Hoje apanhei o metrô pra almoçar uptown (no DT UT Café Lounge, que tem hotspot e tudo) com ex-colegas de uma das empresas afogadas no maremoto da Internet em 2000 e 2001, e fui me sentindo aqueles homens-banda de vaudeville –laptop na mochila, iPod no bolso do blaser, celular no bolso da calça, e como leitura de buzum um dos volumes da Palatina que afanei na casa da Lucy. Experiência divertida –na orêia, uncle Roger grasnando

“you welcome me with open arms
and open legs
I know only fools have needs
but this one never begs


e no livro mean old Palladas resmungando: “que a nenhum homem que foi advogado seja permitido se tornar juiz, mesmo que se prove melhor orador que Isócrates. Pois de que forma, se não corrupta, pode servir um homem um dia contratado de maneira não mais respeitável que uma prostituta?” (Espero que o Palladas nunca tenha precisado de adevogado.)

...enquanto lá fora a cidade cintila ao sol que brilha frio entre as nuvens de fim de outono. Tecnologia é a coisa mais legal do mundo, especialmente quando o celular me assusta com peculiar aviso vibratório em região nada pudica da anatomia e encontro lá uma mensagem: “Are we on for tonight?” Como canta uncle Pete no iPod, “we’re only acting out an imitation/ of what a real love should have been/ then suddenly”... I smile. E recorro ao hotspot pra responder citando Palladas, o resmungão: “This is life, and nothing else is: life is delight; away, dull care! Brief are the years of man. To-day wine is ours, and the dance, and flowery wreaths, and women. To-day let us live well; none knows what may be to-morrow”.

(Mas Uncle Filthy sabe, crianças: se a noite é de vinho e dança, a manhã é de ressaca e sentimento de culpa. Don’t try this at home.)

 

McNasty: the Early Years


Escola risonha e franga...

Para a Meg, just 'cause

Na virada do mês, Uncle Filthy recorreu aos McNasty Files (aka manhê) em busca de fotos de família para “sacanear”, como diz lá o ajudante do comissário Montalbano, e em meio aos álbuns recentes havia uma daquelas cartolinas duplas que se usava produzir na escola a cada ano, no jurássico: de um lado uma foto do fedelho segurando caneta-tinteiro Parker diante de um mapa do Bananão, do outro uma foto da classe alinhada nos degraus que levavam ao pátio. (O inspirado fotógrafo se identifica apenas como “Estúdio Juracy”.) Os quatro anos do primário foram os únicos que passei estudando na mesma escola, com os mesmos colegas, e ainda identifico cada um deles, na foto. Minha gangue de segundo ano, todos fazendo caretas disfarçadamente para a câmera, já exibia os papéis que um dia viriam a se transformar em personalidade: Ricardo, alto e simpático, o bom moço e favorito das mães; Paulo César, cabeludo, já encarnando um protogalã; Cláudio, cabelo de reco, cara de cientista louco; os gêmeos do mal, Roniel e Reginaldo, um magrinho e o outro gordinho, os dois espoleta pra cacete; este vosso narrador, já então funcionando em modo “I’m a camera”. Mas falta alguém na foto, talvez a pessoa mais importante daqueles anos: o Hélcio.

No bestiário daquela infância pré-correção política, a gangue costumava chamar o Hélcio de “aleijado”. Ele usava botas ortopédicas pesadas, aqueles aparelhos metálicos nas pernas, e caminhava com enorme dificuldade, ajudado por duas muletas. E, porque chuva de cocô nunca vem em dose moderada, era vesgo, tinha orelhas de abano e uma voz de fanho de piada. Eu não percebia na época os cojones de titânio que aquele moleque tinha de ter para, aos sete ou oito anos, enfrentar a escola a cada dia apesar disso tudo, e vivia vacilando entre a piedade apavorada (“que isso não aconteça comigo, meu são jizuis!”) e a repulsa grupal instintiva ao freak in our midst. O problema é que não havia como estabelecer um relacionamento “normal” com ele. Por exemplo, no horário do recreio, se ele estava sentado por perto e alguém decidia jogar bola, eu ficava paralisado: o normal seria jogar, mas será que fazê-lo não implicava bazófia (“eu tenho perna, você não te-em, tralalala lala la”)? E havia, claro, a crueldade constante dos moleques menos observadores e mais malvados do que eu: os Evil Twins, que costumavam chamá-lo de “aleijado” na cara dura, e ficavam conjecturando maliciosamente como é que ele fazia pra mijar. E, ó, amável leitora, gentil leitor, Uncle Filthy tem de confessar que, nessa, he has been weighed, he has been measured and he has been found wanting. Porque, se nunca ativamente cruel contra o sacaneado pela sorte, eu muitas vezes acompanhei a risada alheia à custa dele.

Mas o relato está se tornando excessivamente unilateral: Hélcio não era exatamente uma cobaia de experiência científica, e era moleque e fodido demais pra se comportar com o estoicismo requerido dele em dose heróica a cada dia. De vez em quando, ficava puto, chorava em público. Uma vez, perseguido pelos gêmeos que queriam saber como fazia no banheiro, terminou mijando nas calças. E, com o passar do tempo, desenvolveu sua forma peculiar de crueldade contra os pentelhos que o atormentavam ou riam dele: identificava uma peculiaridade qualquer que desagradasse o sujeito e chamava atenção para ela em voz alta –apelidou o Reginaldo de “Jarrão”, chamava o Paulo César de “Ronnie Von”, e um dia me chamou de “marica”, porque minha desavisada mãe vivia na escola “ajudando” as freiras. Rebati, é claro, com o inevitável “aleijado”. Mas dessa vez fui eu que terminei chorando no banheiro, de raiva e arrependimento. E passei a tomar especial cuidado pra não ofender o colega. Na infância, eu era seriamente propenso a “acidentes” –cair do telhado ou da bicicleta, atravessar portas de vidro correndo- e devo ter passado uns dois anos engessado, no total, entre os seis e os 14. Um dia, braço engessado, eu assistia ao futebol no pátio, sentado ao lado do Hélcio, e os moleques me chamando pra jogar –“joga no gol, Filthy, pô, o gesso ajuda a defender”. Eu estava tentado, mas respondia que não, apontando para o gesso. Até que o Hélcio, acenando com a dita cuja, olhou pra mim e disse: “Desculpa de aleijado é muleta”. Caímos os dois na gargalhada. Eu nunca mais esqueci o momento.

“Desculpa de aleijado é muleta”, vindo de quem veio, se tornou o primeiro dos meus lemas, o antecessor de “o que não se pode falar, deve-se calar”, do “shut up and deal”, dos versos de Kaváfi* que eu tento seguir como mandamento, dos epigramas exortatórios e admoestatórios do sêo Paulus Silentiarius. Quando Biologia, Química e Física me traem, eu me lembro sempre do Hélcio, do “desculpa de aleijado é muleta” e daquela insondável dignidade que ele exibia por simplesmente estar lá todos os dias, no matter the slings and arrows of outrageous fuck-ups. Porque o avesso do “shut up and deal” pessoal é dizer pro mundo intolerante e pras pessoas sequiosas demais de perfeição nos outros que “ó, são essas as cartas que eu recebi. Não tô reclamando. Não quero piedade. Não quero compreensão. Sou capaz de cuidar da minha vida. Now it’s your turn to shut up and deal”. Useful to get that learnt.

Nunca mais vi os moleques daquela turma de escola, e nunca mais vi o Hélcio, depois da quarta série. Mas lembro perfeitamente do motivo para que ele não estivesse na foto, aquele dia: o Roniel ficou azucrinando enquanto ele se esforçava para subir a escadaria sem ajuda (Hélcio nunca aceitava ajuda), e o meu amigo terminou perdendo a paciência e acertando uma bela muletada na área de lazer do pentelho-mor da classe, conquistando a imorredoura honra de ser o primeiro aleijado suspenso na história do colégio. Roniel deve estar cantando sopranino até hoje, e espero que o Hélcio tenha carregado vida afora aquele intransigente senso de valor pessoal que esfregava a cada dia nas fuças da adversidade. Here’s to you, bud.

* "O Deus Abandona Antônio" (1911), Konstantinos Kaváfis, em tradução de Zé Paulo Paes:

“Como se pronto há muito tempo, corajoso,
como cumpre a quem mereceu uma cidade assim,
acerca-te com firmeza da janela
e ouve com emoção, mas ouve sem
as lamentações ou as súplicas dos fracos...”


November 17, 2004

 

It's President Season!


"You wascawwy pwesident!"

No terno mas temível Tadjiquistão, um monumento de celebração à paz chamado “Vida Eterna” desabou e quase matou cinco pessoas. Preciso completar a piada? Smart, smart readers.

Na penitenciária de Strangeways (o cara que inventou o nome merece um prêmio), em Manchester, UK, o principal totó farejador de drogas está jurado de morte pelos detentos. As autoridades penitenciárias afastaram o consciensioso animal de suas funções por alguns dias, mas o bravo Sherlock quadrúpede já está de volta à mais querida das atividades caninas –cheirar as pudendas de gente que preferiria não estar ali.

Já dona Christina Sharp (uh oh), moradora da aptly named Zanesville, está processando o ex-namorado James Patterson por ter supostamente usado em um best seller cenas de furumfa descritas por ela. Das 13 acusações, só quatro ainda não foram derrubadas. Um dos trechos contenciosos goes like this, ó: “Com graciosa coreografia, à luz da lua, ele a conduziu, em vai e vem constante, um cha-cha-cha sensual que os levou à janela”. Ui. Lembrei do indelével hit Cha-Cha-Cha de Las Secretarias (“cha-cha-cha de las taqui-meca-no-gra-fas”).

E no incomparável Arkansas, uma firrrma pediu aos funcionários que por favor não levassem os rifles de caça ao escritório esta semana, porque os presidentes Bush, Clinton e Carter comparecerão à cerimônia de inauguração da biblioteca presidencial Bill Clinton, logo ao lado, na quinta-feira. A inauguração coincide com a temporada de caça ao veado, ocasião que aparentemente faz os amistosos cidadãos de Little Rock andarem sempre com o rifle no carro. Praise the Lord and pass the ammunition.

 

Garden Party


Land of the free, home of the brainy

It’s that sort of couple-y thing that I usually dismiss out of hand as too boring, but then, again, can be construed as the backbone of any long-term relationship –if one’s not interested in dinner parties or in going with the missus to her friend’s watercolor exhibition premiere in Bumfuck NJ, better try and get another arrangement going before it is too late. And I must admit, also, to some nostalgia, or not exactly that: to some reminiscent what-ifness, let’s say, about one of the prospective futures that lie buried in my past. Plus, the host told me on the phone that John von Neumann used to live next door, way back when. Maybe some remains of greatness will rub onto me. God knows I need any boost I can get.

The crowd is cliché, but not offensively so –tweed jackets with elbow patches mingle with ponytails, pearl necklaces and dashikis stop by one another to chat amiably, and the guest and ‘the missus’ (a man) are both bright and funny. I sort of hoped to see George Kennan, maybe ask for his autograph (hey, you have your idols, I’m entitled to mine) but he’s like a hundred years old, and I bet he doesn’t go out much –if he lives here, alas. The prevailing lingo is strange – 'wasn’t it supposed to be faculty only?', asks a broad, looking askance at two young, geeky, casually-dressed fellows (who in the end reveal themselves as visiting professors from some godforsaken Eastern European hellhole, invited by Peter Paret). ‘Tenure’ is a sacred word for these guys, and since my date has just gotten hers, I hear a lot about it. When told what I do for a living, people look at a loss for words (as I do, to be honest). But informed that I was once one of them (‘he was one of R. O.’s best and brightest at King’s’, says the Limey host), they warm up a bit.

It’s an island of privilege, and even if most of these guys feel somewhat threatened by the current right-wing ascendancy, they hide it well. Being an Ivy League tenured professor is about as safe a position as can be gotten. Those guys are under no financial or political pressure, and even the ‘publish or perish’ dictum is relaxed, because they are over the hump already. People marvel at Lucy’s getting tenure at 38 –it means she will have at least 27 years of guaranteed professorship, if she wants it. I sort of envy them their security, their intellectual polish (there are no frauds here, let it be said –even the guys who sprout silly ideology all the time are first-rate researchers). But their security and isolation translates into vicious backbiting, back-stabbing even: to intrigue is to succeed, and every last scrap of ‘distinction’ is worth fighting for in the most childish way (Lucy told me a lot of horror stories about parking spot wars, for instance). So, even supposing I could –and I do sincerely have my doubts- I don’t know if I would like to be one of them. I am a lousy backscratcher, and an even worse backstabber. A lonely walk along the garden (it’s cold, so they’re having an indoors garden party) allows me to steal a glance at the Von Neumann’s house next door, and suddenly I find out that I have no regrets for what I might have had, here. Though I’m glad for Lucy and mighty proud of her, this is definitely not my thing.

The problem, then, is finding out what ‘my thing’ is. As usual. Time will tell. Or maybe won’t:

'Time will say nothing but I told you so
Time only knows the price we have to pay
If I could tell you, I would let you know'

November 16, 2004

 

Letter to a friend about girls


"Mourir pour une cause ne fait pas que cette cause soit juste"*

Como disse a portuguesinha do decote inolvidável no Chez Neptune em Fréjus, no dia em que criarem o Nobel de conversa de bar, dude, a gente enfim vai ter uma chance de ver reconhecido nosso único talento. O que a mascote leonina e beldade dos encantos abissais não sabe, porém, é que jamais vai ter a chance de presenciar a arte em seu estágio mais elevado: a famosa conversa sobre mulé que elas sempre desconfiam envolva muito mais baixaria do que de fato acontece entre os ómi, se é que a gente serve de exemplo. Mas, mesmo entre grandes amigos, há limites severos para o papo: um certo pudor de expor sentimentos, quem sabe, ou cuidados com o vocabulário, porque um tropeço verbal é matéria pra anos de estocadas (e é claro que só menciono o assunto porque a memória e a cautela em geral me atribuem o papel de desferi-las). Ademais, prefiro torcer pro Palestra a admitir romantismo. Embora a essa altura eu evidentemente não consiga enganar mais ninguém.

Por exemplo, aquela menina que faz uma pausa quase imperceptível e me olha fugazmente nos olhos antes de rir, pra conferir se é mesmo piada: nunca consegui falar dela. Ou aquela outra, cuja mecha de cabelo que sempre escapa do abrigo na curva da orelha eu desconfio deliberada -“sem querer querendo”, como me ensinou ainda outra moça, que faz da má televisão uma espécie de poesia. E do teu lado, sei, tem aquela moça com a cicatriz quase invisível no queixo, o dente lascado: a vontade inconfessável de não permitir que ela se quebre. Tem a misteriosa correspondente de algum cafundó internacional da firrrma, que manda estapafúrdios e-mails assinados “I love you” e um dia pergunta “você é homem ou mulher?”, e aquela amiga da sua irmã, de opção preferencial XX, que ri combinando provocação, convite, rejeição e escárnio, e a gente sabe, ela sabe que sabemos, e nós sabemos que ela sabe.

É uma legião de minas povoando nossas conversas, dude, o tecido de nossa memória coletiva, o combustível das nossas aventuras, o motivo das nossas risadas quase sempre auto-irônicas. A japonesa que dançava como uma deusa e obviamente escolheu sair com o D. V. (vale pra todas as 650 minas que preferiram sair com o D. V.), seu Grande Unrequited Love, e o Grande Unrequited Love por mim que o seu Grande Unrequited Love criou e demoliu em uma semana. Eu sei que tem sujeitos da nossa fachetária que preferem dedicar o tempo deles a fazer carreira com mais afinco, a galgar a escadaria da pirâmide corporativa, a trocar o BMW Series 5 pelo BMW Series 7, a descolar o telefone de alguma starlet da Globo e exibir no Antiquarius pros amigos. Mas como disse Geoffrey Jukes sobre my dear old General Brusilov, “ele parecia talhado para o sopé do generalato, não seu píncaro”: é nóis na fita, Gennady Raphaelóvitch. Em vez de escrever o Grande Romance Americano, você disse uma vez elogiando o John Cheever, melhor correr atrás dele, e levantou pra conversar com aquela morena de olhar basilisco da firrrma concorrente, no Austra, days of beer com chaser de steinhäger porque você não queria "exagerar no uísque". Right.

Tudo isso, dude, pra propor aqui um pacto solene: let’s not talk about it. Ou pelo menos vamos trocar solenemente uma meia dúzia de cartas salva-cu daquelas que abrem a prisão no Banco Imobiliário. Porque a verdade é que tem coisas que não se pode dizer aos amigos, ou a nós mesmos. Melhor assistir Punch-Drunk Love pela sexta vez, parar de futucar o dente dolorido da memória com a língua irrequieta da esperança (exímio frasista, exímio frasista), e lembrar da portuguesinha estonteante que eu não cantei em Fréjus porque achei que era sua, pra descobrir 50 quilômetros a oeste que vice-versa. Melhor cantar "One For My Baby" pensando na oportunidade perdida. E lembrar com carinho que, hélas, na falta de um Nobel de conversa de bar, ela pelo menas insistiu em pagar todos aqueles uísques.

*Henri de Montherlant (1895-1972), Les Célibataires (1934)

 

Aye, Creuza


Philip Milton Roth (1933- )

Virei a noite lendo um livro, amável leitora, gentil leitor. Não é exatamente uma novidade, dada minha insônia, mas no caso de The Plot Against America, novo romance de Philip Roth, o motivo foi entusiasmo pelo texto, e não quizumba química nas tripa. Aí, dediquei-me à soneca do raiar do dia, porque detesto ver o sol nascer, tomei banho, perdi pra barba por três sets a zero, tomei a condução e cheguei ao escritório para descobrir que, ô, diliça, tô com a agenda livre pela manhã. Fazendo a ronda dos blogs, achei esse link genial lá no Alexandre: rolei de dar risada. Concordei mentalmente a cada parágrafo, bati palmas umas duas vezes, e fiquei cá a pensar sobre escritores e críticos.

Por exemplo, a dona Satiko, crítica de literatura do NYT, não gostou muito do novo romance de Roth: alega que o plot político ou de história alternativa é muito menos bem desenvolvido do que a história íntima da “família Roth” que o escritor posiciona numa das pontas da narrativa. Pô, dona Satiko, quero crer que –como indica o título à moda dos quadrinhos e a pintura em traços largos das figuras históricas- o contraste seja proposital. (No livro, Roth usa uma “família Roth” hipotética e um “Phil Roth”, story-telling boy, para narrar como teria sido a vida de uma família judia em Nova Jersey caso o herói da aviação Charles Lindbergh*, anti-semista pró-nazi babão, se candidatasse e vencesse a eleição de 1940 contra FDR –o Roosevelt, não o Fabio). Que Roth escreve pra caralho não deveria ser novidade: gostando ou não do estilo e dos temas, o talento, ali, abunda, como diria o Noronha. Mas, especialmente desde American Pastoral, o texto dele ganhou uma grandeza de russo velho, e se afastou da sátira aloprada ou das kafkianices do começo de carreira. O novo romance é como um encontro entre os dois Roths –o moralista da trilogia americana (American Pastoral, I Married a Communist, The Human Stain) e o experimentalista de Operation Shylock, Portnoy ou aquele romance maluquete sobre beisebol (também história alternativa) cujo nome me escapa. E é bom pra caralho.

Mme Coincidência torna impossível não contrastar as sandices colhidas pelo Alexandre em depoimentos de escritores brasileiros e aquilo que iluminou minha madrugada no texto de Roth, e tentar, er, definir, ao meu modo tacanho, “o que é escrever”. Na ourivesaria do tio Philip ao descrever o bairro de sua família, um subúrbio judaico de Newark nos anos 30 e começo dos 40, encontro uma possível resposta: escrever é evocar a vida. Não confere dignidade a quem escreve ou lê, não “conscientiza”, não remove montanhas, não muda picas. Mas silenciosamente ilumina. E aí me ocorre ainda outro poema lembrado imperfeitamente, esse do Zé Paulo Paes:

silêncio
por dentro sol de graça
o resto literatura
às traças!

Roth começa o romance com “fear presides over these memories, a perpetual fear”. E eu encerro o meu texto com um plágio, minha área de expertise: “Awe presides over my reading, a perpetual awe”. Que eu jamais perca esse deslumbramento.

*Qualquer pretexto pra citar Billy Wilder me serve: Quando estava dirigindo The Spirit of St. Louis, a cinebiografia de Lindbergh, Wilder foi abordado no restaurante da Paramount pelo roteirista e dramaturgo Ben Hecht, sionista dedicado: “Pô, meu, você é judeu, perdeu quase toda a família pros nazistas e vai dirigir filme sobre anti-semita?” E Wilder, imperturbável: “Na minha versão, o avião cai e ele morre afogado em 1927”.

November 15, 2004

 

Every Day I Have the Blues


Joseph Goreed, better known as Joe Williams* (1918-1999),
blues and jazz singer extraordinaire

The lady is no jockey, but she taught me how to ride

ou

My heart is heavy as lead
Because my baby has spread
Well, something in my bed (and I wasn’t there
)
Somebody was, though

*Os ad-libs são sempre melhores que a letra original

 

Comissão Paranormal de Inquérito


Chico Xavier e Roy Orbison são a mesma pessoa

Eu sempre adorei CPIs, que funcionam como a versão Bananão daqueles inquéritos perpétuos que os americanos conduzem sobre o uso de sonda anal em Roswell (ou Abu Ghraib). As CPIs brasileiras modernas, aliás, se inspiram no modelo americano, desenvolvido em 1950/51 com a comissão de investigação presidida pelo senador Estes Kefauver sobre o crime organizado. Kefauver (ou Cowfever, como preferia o desafeto Harry S Truman) sacou que audiências transmitidas ao vivo pela televisão seriam ótimas para promover sua pré-candidatura à presidência, e saiu posando de holier-than-thou, intimidando supostos mafiosos diante da audiência jequinha. A maioria das comissões de investigação americanas, como o similar nacional, resulta em jack shit de resultados práticos. (A exceção sendo Watergate, para cuja investigação parlamentar Ben Bradlee, editor-chefe do Washington Post, aquele pilar da ética jornalística, passava hot tips ao senador Teddy Kennedy.) Com a chegada dos anos 80 e as ridículas audiências sobre pornografia e violência em letras de rock promovidas pelo Senado* sob pressão de um grupo de mulé de político liderado pela repulsiva Tipper “meu marido inventou a Internet” Gore, os gringos deixaram de lado esse recurso, substituído nas manchetes pelos promotores “independentes” como Kenneth Starr, o inimigo de Bill “fumei mas não traguei, ela chupou mas não engoliu” Clinton.

Já no Bananão as CPIs, quase sempre promovidas pela combativa agremiação que ora nos governa com presciente sabedoria, persistem (quer dizer, pelo menos aquelas que não tomem por alvo aliados do PT), se bem os resultados práticos de tanto blablablá, tirando momentos preciosos preservados pela TV Câmara -“Vossa Excelência é um safado”, diz um deputado, e o outro rebate: “Vossa Excelência é um filho da puta”- tenham sido sempre pífios. Dr. Arthur “the law is my bitch” M., meu consultor jurídico, analisando o desempenho das CPIs brasileiras prum estudo acadêmico, constatou que, por falhas de due process, elas mais fodem que ajudam o trabalho da Justiça. E é fato: tirando o indiciamento do Zangado por assédio moral e o do Atchim por difusão de moléstia contagiosa, a investigação parlamentar sobre os anões do orçamento ficou por isso mesmo, pra citar apenas um exemplo. Mesmo assim, eu acho que, como os comunistas, as CPIs deveriam ser preservadas em cativeiro, nem que seja pelo comovente espetáculo dos discursos do senador Suplicy, remexendo a mesa constantemente, enquanto pigarreia, à procura do papel do j’acuzzi.

Minha idéia, por isso, é aproveitar a feliz coincidência que nos brindou com um deputado ao mesmo tempo petista e do além, Luiz Carlos “Dr. Fritz” Bassuma, para aperfeiçoar o ferramental de investigação parlamentar. Sob a iluminada liderança de Bassuma, a mesa (branca) da Câmara agora comandará Comissões Paranormais de Inquérito. O deputado se concentra, recebe um Hercule Poirot ou Felinto Müller, pega na mãozinha do deputado André Luiz ou de Inocêncio de Oliveira (come on, se você não fosse culpado, por que se chamaria Inocêncio?) e a verdade jorra de sua boca na voz escrofulosa dos espríto invocado. “Mon cher Hastings, use as pequenas células cinzentas. O deputado matou oito, cuspiu no steinhäger Becosa do líder da bancada e já saiu de Pavão Dourado do Ocaso Imperial no desfile de fantasias do Clube Imperador do Meriti”, pronunciaria o redoutable detetive belga. Como guerreiro incansável “em pró” (expressão que ele aprendeu assistindo CPI) do sincretismo, Uncle Filthy considera que acusação sem accountability, religião-espetáculo e deputado do PT cantando "Pretty Woman" na Câmara porque recebeu visitinha imprevista de Chico Xavier/Roy Orbison durante a sessão (ops!) são receita ideal para, er, construir cidadania. Plus, “voto fantasma” gets a whole new meaning, this way.

*Derrotar as bruacas exigiu a bizarra aliança de Frank Zappa, Dee Snyder, do Twisted Sisters (mother of all hair bands), e John “Sunshine on My Shoulders” Denver. Pop goes the weasel.

 

The gift you gave is desire*


Tracey Thorn (1962- )

Eu nunca fui a Hull, uma espécie de Paranaguá no norte da Inglaterra, como descreve um amigo escocês que teve o azar de conhecer bem as duas localidades, mas a cidade, e sua universidade, abrigavam, no começo dos anos 80, duas das minhas paixões brit: o poeta Philip Larkin, que dirigia a biblioteca universitária (morreu em 1985), e Ben Watts e Tracey Thorn, dois estudantes que formaram o Everything But the Girl, chupinhando o nome de uma loja de produtos para noivas da cidade. O Larkin eu raramente consigo passar sem citar, provavelmente pra profundo tédio dos meus dois leitores, mas acho que Ms. Thorn até agora não havia emprestado sua graça a estas mal digitadas.

Moreninha feia de voz melancólica, Ms Thorn é a única cantora não mala que se salvou da enxurrada de chatinhos dos anos 80. (Só virou mala uns 10 anos mais tarde, quando gravou com o Massive Attack e o EBTG aderiu à eletrônica.) Em 1984, ano central na mitologia pessoal de Mr McNasty, Thorn e Watts deram canja no álbum de estréia do Style Council, banda formada por Paul Weller ao sair do Jam, e o EBTG gravou seu primeiro disco. Tanto "Paris Match", de Weller, quanto "Each and Every One" e "Fascination", de Watts/Thorn, são pequenas pérolas de melancolia gente grande em meio ao bullshit gótico/new wave/new romantic da época. E Thorn canta como um anjo. Mas com voz amarfanhada por excesso de cigarro e conhaque barato. Ô, que saudade do EBTG acústico.

The Paris Match
"I'm only sad in a natural way
And I enjoy sometimes feeling this way
The gift you gave is desire
The match that started my fire
"

Each and Every One
"Being kind is just a way to keep me under your thumb
And I can cry because that's something we've always done
You tell me I'm free of the past now and all those lies
Then offer me the same thing in a different guise
"

Fascination
"There must be so much, I know,
That you cannot forget
And I mustn't wish your life began
The day we met
"

* Tecnicamente já é segunda-feira. Cadê os vagabundos brasileiros online? Eu queria fofocar, não postar. Minhã num é dia da Mula-Sem-Cabeça ou efeméride de semelhante jaez? Oras.

November 13, 2004

 

Accounts due


In the wee small hours of the morning

It’s been one hectic week, folks, and uncle Filthy has earned his keep: five concerts (each one great –Mingus Mingus Mingus Mingus!), four movies (from the amazing The Incredibles to the utterly laughable remake of Alfie, and including the boring restored version of Sam Fuller’s The Big Red One, plus Ray: quite bad, but the soundtrack is great, I loved Ray Charles and am a Jamie Foxx fan, so...) I’ve written six ads, four commercials, around a dozen blog posts, nine news pieces for clients back home. Paid homage to the Big Kahuna down at the central office. Met a dozen different old friends for lunch, dinner or drinks. Answered two hundred or so e-mails, then lost six-months worth of messages in an Outlook crash. And now I’m in the boondocks with my baby (for a barbecue, no less) and will sign off for a deserved weekend’s rest. See you on Monday. Take care.

November 12, 2004

 

We’ve tried to run the city. But the city ran away.


"And I'm wasted and I
Can't find my way home"


Nota: É comprido. Read at your own peril.

Bravata e pânico: o resumo da experiência dele ao longo da adolescência, sempre falando demais, sempre ostentando com empáfia certezas que nunca sentira. Como no dia da primeira briga, data oficial do final da infância –medo gelado contraindo o estômago, deixa disso, empurra-empurra, o adversário cuspindo, e lá estava ele, disparando porrada de olho fechado, completamente certo da derrota, até que de repente o sangue espirrou do nariz do oponente magrinho, tão assustado quanto ele, tão compelido quanto ele ao ritual matcho da vida de escola. Ou o primeiro show, a banda high-fiving, eufórica, “vamu detoná”, na sala de aula que passava por camarim, mas, no palco, pânico: ele tocou a primeira entrada inteira de costas pra platéia. E, bostinha pretensioso, passado o medo, computado o aplauso, diante dos amigos se comparou a Stu Sutcliffe.

País novo, casa nova, idioma novo, começar a faculdade dois anos mais novo que quase todos os colegas: pânico. Tinha 17 anos, sonhos grandiosos, talento limitadíssimo. Se bem seu temperamento o tornasse perfeito para o anonimato, ainda sonhava em segredo com a popularidade –guitar hero, comedor, modesto herói salvando desconhecidos num incêndio (como todo menino, ele um dia quisera ser bombeiro). Na prática, anônimo: o sufoco para formar uma banda que aceitasse seu purismo musical claustrofóbico, a vida circunscrita na casa dos parentes velhinhos, o ramerrão burocrático da escola, trabalhar em todas aquelas coisas nada glamourosas que só vêm a servir de fonte de anedotas pitorescas passados 20 anos –chapeiro de hambúrguer, garçom, motorista de rabecão (emprego conquistado porque, graças à mãe, ele era provavelmente o único moleque de quase 18 no Estado inteiro que tinha um terno preto no armário e pouca acne). Bravatas (que ninguém ouvia). E pânico (meu, será que tomei a decisão errada e tô condenado a ser mais um joão-ninguém nesse fim de mundo?)

Ela era dois anos mais velha, e discretamente diliça. Namorava um sujeito ainda mais velho, infinitamente chato, que fumava maconha e falava mal do Reagan o dia inteiro. Ele nunca soube por que ela o tomara por amigo. Mas se tornaram inseparáveis: redigiam ensaios em dupla, conversavam o dia inteiro, ela intermediava encontros com amigas gostosas, ele a ensinou a tocar I Shot the Sheriff na guitarra. O endosso de uma das vixens da classe o tornava instantaneamente menos bundão. A banda que ela ajudou a montar, se não ideal, pelo menos atraía 50 ou 100 gatos pingados ao bar de beira-campus em que tocava uma vez por semana, e ela sempre lá, aplaudindo, assobiando, “go, baby”. O namorado chato aparecia às vezes: gostava de Boomtown Rats, um perfeito exemplo prático para a expressão “abaixo da crítica”. Para desgosto dele, que vinha desenvolvendo alarmante crush de proporções catastróficas pela amiga, o namoro era sólido: três anos. E, como sempre, pânico: melhor não falar nada. Sabia bem seu lugar na escala geral das coisas.

Depois de muito lobby dela e de muita arenga do tio-avô e da tia-avó que o hospedavam e respondiam por seu bem-estar diante da família no país de origem, decidiu alugar um apartamento. No prédio dela, claro, uma arapuca decrépita ocupada metade por universitários perpetuamente falidos e metade por aposentados negros de Newark, que se iludiam com a idéia de estar “morando na praia”. Era uma kitchenette, como se diz em bom português, e sambada que dava dó. Mudou-se no meio da semana, arrumou seus poucos pertences, meio desanimado com a mobília cambaia, as paredes encardidas (filhinho da mamãe e nem sabia, o nosso herói), mas ainda assim orgulhoso: sua primeira casa. Na sexta, atravessou o rio pro primeiro show de sua vida na Cidade –no clube sopa de letrinhas onde tantas das bandas que o inspiraram haviam começado. Pra sua tristeza, ela não apareceu, e ele terminou dormindo com uma ou duas finlandesas chamadas Minna, contrabandeado para o albergue que as hospedava no bairro do alfabeto. No sábado, foi direto da Cidade pro trabalho –oito horas na biblioteca e depois um banho rápido na universidade e mais 10 horas tirando draft beer no balcão do bar. Chegou ao apê às cinco da manhã, 46 horas sem dormir e, quando abriu a porta, encontrou um novo sofá (usado), paredes recém-pintadas, uma estante de caixas d’água coloridas, uma cara de lar. E na parede oposta ao sofá-(cama), pichada com a letra inconfundível da amiga, a gigantesca inscrição “Teenage Wasteland”. Caiu dormindo com um sorriso nos lábios.

Levantou só ao raiar da segunda-feira, e a primeira providência do dia foi estacionar o Cutlass na frente da única floricultura da cidade, esperando impaciente que a proprietária nonagenária chegasse. Gastou metade das gorjetas do sábado (e dispensou metade das refeições da semana) no primeiro e exagerado buquê de sua vida, voltou ao prédio, onde escreveu o mais curto e honesto bilhete de todos os tempos (“Thanks. Love, F.”), usou a chave que ela lhe confiara e deixou as flores no apê da amiga, em cima da mesa. Aí, pânico: passou a manhã de aula tentando evitar um encontro com ela, a tarde de trabalho na biblioteca do centro de jazz preocupado com a possibilidade de que o namorado mala encontrasse as flores e entendesse mal (ou bem demais), a noitinha de ensaio agoniado com a possibilidade de que as flores fossem over, fossem corny, fossem brega como ele. Chegando em casa às nove, encontrou um bilhete na porta: “Join me for dinner, no matter how late”. Relembrou o trecho fatídico do diário de Hölderlin (“o mais triste, diante da mais bela das flores, é ter de dizer ao coração, por vezes bastante orgulhoso: cala. Não te é destinada”), mas tomou banho e bateu de leve à porta da amiga. Ela usava o vestido que ele mais gostava, orange como na canção de Mingus, velas iluminavam a sala, uma garrafa de vinho esperava aberta na mesa. Beijaram-se nos lábios, de leve, mas isso se tornara costume, uma marca de “how special you are, sweet boy".

Pode ter sido o vinho. Pode ter sido Steve Winwood cantando "Can’t Find My Way Home". Pode ter sido um triunfo da insana combinação genética que uma vez a cada 10 anos o arrastaria por esse mesmo caminho, mas por uma vez ele ignorou o pânico, abandonou a bravata, e deixou o coração falar, enquanto o macarrão horrível que ela cozinhara esfriava nos pratos. E, tendo dito o que precisava dizer, e agradecido tudo que tinha por agradecer, levantou, beijou a mão da amiga, assustado com a lágrima solitária que descia pelo rosto dela, e fugiu pra casa. “Cagão, cagão, cagão, palmeirense, cagão”, repetia ele, roído de remorso, arrastando os pés corredor abaixo. Mas, às duas e meia da manhã, ela tamborilou com as unhas na porta. “Dispensei o J.”, comunicou. E a natureza seguiu seu curso. (Meu, 20 anos esperando pra usar essa frase!)

Namoraram pouco menos de um ano. Ter convencido um mulerão como aquele a largar o namorado por ele, um quatro-olhos sem jeito e com sotaque bizarro, só serviu pra agravar o ciclo de bravatas e pânico. O fato é que ele não sabia namorar. Ainda trazia muito de machismo involuntário, toda a insegurança do mundo, e ao mesmo tempo o wanderlust, a sensação de que, se a primeira e mais difícil viagem ia tão bem, por que não continuar na estrada? Foi exigente, manhoso, turrão, mau amante, galinha, egoísta. A afinidade instantânea que os tornara amigos terminou soterrada sob um Krakatoa de reclamações. Ela cedia mais que ele, mas, ainda assim, pânico: dava pra ler em seus olhos uma perigosa e férrea ponta de nostalgia pelos dias em que não precisava servir de baby-sitter pro namorado. Ele aproveitou as férias de verão para visitar a família, e não renovou o contrato do apê. “Esqueceu” de avisar a namorada. Na volta, comunicou que pretendia morar na Cidade. O apê novo era igualmente barato e sórdido. Mas não ostentava na parede a benção irônica da musa. E foi no quarto de quatro metros quadrados que ela não ajudara a decorar que a namorada o flagrou com três irlandesas chamadas Moira, manhã de domingo, depois de hora e meia cavalgando trem e metrô para uma visita.

Ele se considerou dispensado; ela era orgulhosa demais para entrar em contato. Desmancharam por inércia, e ele fugia dela o tempo todo na universidade. Os dois se gostavam demais pra sair reclamando um do outro, e ficou tudo por isso: compartilhavam de alguns amigos, de alguns lugares, mas ele passava cada vez mais tempo na Cidade, enquanto ela preferia o lado de lá do rio. Em pouco tempo, ele arranjou namorada nova, bonita como ela, muito menos generosa. E ela retornou ao namorado bundão, à maconha, ao “Reagan sucks". Na última quinzena do segundo ano letivo, o pai dele adoeceu, e ele voltou órfão do país natal, no final do verão. Ela ficou sabendo, e imediatamente ofereceu ajuda, mimos, o carinho generoso do passado. Voltaram a ser amigos, with lots of scar tissue. Ele decidiu concluir o curso em outra escola, e para o graduate school optou por outro país. Mas mantiveram contato –cartas, telefonemas, visitas ocasionais.

Acompanharam de longe os acidentes e incidentes, os namoros, casamentos, reviravoltas profissionais, ela sempre espantada com a disposição dele de mudar de vida, lugar, profissão, mulher, ele sempre respeitoso para com a vontade férrea que ela exibia de construir uma carreira no árido e sedutor campo de estudos que um dia haviam compartilhado. Ele não sabia, mas a lembrança do furioso romantismo tímido que demonstrara naqueles meses a acompanhou em todos os namoros, em todos os casamentos: um menino desajeitado, eloqüente, gaguejante e inesquecível. Ela não sabia, mas as mulheres da vida dele fracassavam, invariavelmente, quando comparadas à sua generosidade, à avidez com que o abraçava, ao sorriso em seus olhos quando trocavam em público as palavras-código de um amor intenso mas cuidadosamente invisível, à lembrança da benção torta inscrita na parede.

Com a Internet, se reaproximaram, depois de uns 10 anos de contato esporádico. Em um encontro que deveria ter sido passageiro –ele em viagem de trabalho, ela em fim de casamento-, fagulhas pra todo lado, nostalgia entre lençóis, tremendo sentimento de culpa. Ele ainda não tinha aprendido que é possível ser amigo de mulé. Ela ainda não tinha aprendido a não ceder à maré da memória. Mas a trepada furtiva concluiu o trabalho de reaproximação. Viram-se, os dois na entrada dos 30, amigos de novo como naqueles meses vertiginosos em que se conheceram. Era como amigos, descobriram, que as coisas funcionavam entre eles. E, porque já tinham idade suficiente pra enfim compreender, descobriram a graça infinita daquele status que os pragmáticos americanos definem como “friends with benefits". Por sorte, os ciclos de euforia e depressão dos dois se intercalavam: tinha sempre alguém do lado de cima da gangorra.

Pra quem vê de fora, os dois parecem namorados, agora que a história e a geografia os reconduziram ao estado-jardim, à ilha-maçã. Passam todo tempo que podem juntos, felizes porque o acaso lhes ofereceu esse momento de pausa. Na quinta-feira, tarde, noite e madrugada, não se perderam de vista, ela austera, professoral e sexy, ele mal-ajambrado mas se sentindo charmoso como o diabo. Depois da ronda das livrarias, jantar nostálgico em Little Italy, novo show maravilhoso da big band favorita, doses e doses do uísque que enfim compartilhavam, caminharam de volta pra casa, apaixonados, um pelo outro, cada um por outra pessoa, os dois pela cidade, cantando "Give it Back to the Indians" diante dos olhares atônitos dos balconistas vietnamitas nas delis 24 horas. Ele dormiu orgulhoso, ela dormiu saciada. De manhã, acordando atrasado para o trabalho, ele encontrou primeiro o bilhete na mesa de cabeceira –“headed back to P. for a meeting. See you later. Love. L.”. E, no espelho do banheiro, em glorioso batom vermelho, outra amostra da letra inconfundível da amiga: “Middle-age wasteland”. Não sei se foi o xampu, mas ele chorou no chuveiro.

 

She says 'cooch' a lot


This guy just make passes
At girls who wear glasses

Senso de humor maligno, propensão inesperada a cuss words meio retrô e olhar completamente impiedoso: Tina Fey é a mulé mais diliça do universo. E, pra agravar meu sofrimento, she is quite a babe, too. Linda, aqueles óclinhos, muito engraçada, casada com outro e não sabe que eu existo: minha mulher ideal. O mais legal de Ms. Fey é que não faz humor de mocinha . Exemplo rápido: “Uma pesquisa recente diz que 73% das mulheres têm vergonha de suas vaginas e, pelo que eu vi, fazem muito bem. O estudo diz também que 24% delas não olham para a própria vagina há um ano ou mais, mas isso é porque a cabeça de Colin Farrell está sempre no caminho”. Ou “Shuan Shuan, uma panda gigante chinesa, foi levada ao Japão esta semana na esperança de que se acasale com Ling Ling, o panda do zoológico de Tóquio. Os biólogos estão otimistas, porque é bem sabido que Shuan Shuan é a maior vagaba. O acasalamento de Ling Ling e Shuan Shuan foi intermediado pelo amigo Pimp Pimp".


Elizabeth Tina Fey (1970- )

Ela escreve para Saturday Night Live desde 1997, ganhou o posto de redatora chefe em 1999 (a primeira mulher a conquistá-lo) e apresenta o Weekend Update com Jimmy Fallon desde a temporada de 2000/1. Escreveu o roteiro de Mean Girls (2004), que seria muito melhor sem as girls e só com a fêçôra Tina, e acaba de renovar contrato com a NBC por quatro milhões de dólares –mais dois anos de dona diliça escrevendo o programa. Li em entrevista outro dia que, até reencontrar o cara com quem veio a se casar, um sujeito que trabalha na área musical do SNL, não tinha arranjado uma paquera sequer na cidade. Alas. Melhor que ela mesma conclua: “According to a new study, women in satisfying marriages are less likely to develop cardiovascular diseases than unmarried women. So don't worry, lonely women, you'll be dead soon”.

November 11, 2004

 

Life, death, and thanks for the laugh


"What passing bells for those who die as cattle
Only the monstrous anger of the guns"

Há 86 anos, terminava a Primeira Guerra Mundial: total de mortos estimado em 8,5 milhões de soldados e entre seis milhões e 13 milhões de civis, incluído o genocídio dos armênios. Nos meses finais da guerra, a epidemia de gripe espanhola infectou 525 milhões de pessoas em todo o mundo, causando mais 21,5 milhões de mortes. A seguir, a guerra civil russa matou mais nove milhões, e os conflitos na Turquia do pós-guerra outro milhãozinho. Lest we forget.

Hoje, Yasser Arafat, um safado de marca maior que faute de mieux acabou vestindo o manto de grande esperança de um povo profundamente injustiçado, bateu cas 10. Não se iludam: there’s coming a major shitstorm, e vai chover na gente também. (E tinha que cair num 11/11 –os muçulmanos já têm treta com o número, e agora...)

Por fim, e muito mais importante, 39 anos atrás, entre os manguezais de Ipanema, a parteira trazia ao mundo o seu, o meu, o nosso Main Homie, para tentar compensar um pouco a solenidade da data. Bro, perco –de novo- a festa, mas deixo aqui meu mais sincero agradecimento ao sujeito que me apresentou às delícias canoras de Núbia “Lama” Lafayette, explicou muito mais do que eu queria saber sobre o talento stealth de Eric Carmen, expôs as virtudes de doing the dirty com uma gordinha ao som de Chris Isaak, ofereceu ribombante segunda voz em todas as minhas interpretações de “Perfídia” naquele saudoso boteco chileno da Vila Olímpia, esteve lá sempre que devia e -mais importante, e justificando o apelido Mr Houdini que os amigos agradecidos lhe conferiram- nunca esteve lá quando não. Pra não mencionar o fato de me ter perdoado, de coração, mesmo que tenha sido eu o filho da puta que o apresentou à ex-mulé. Espero que o presente e o telegrama cantado topless tenham chegado, mas aproveito para declarar aqui em público minha eterna gratidão. Cheers, bro, por esse e por mais muitos outros. You’ll always be my bitch. (Biz sends her love and her, er, “standing invitation”. Isso quer dizer o que eu acho que quer dizer?). Amor,

joe

 

Shut up and deal


"I guess that's the way it crumbles, cookie-wise"

Meu filme predileto começa com uma voz em off recitando estatísticas (o que talvez servisse pra explicar meu apego ao cálculo atuarial como ferramenta romântica, mas deixa pra lá), e termina com o casal enfim reunido, na noite de ano-novo, para uma partida de gin rummy –e quando Mr. Baxter tenta dizer “senhorita Kubelik, eu te amo”, a mocinha rebate, apontando o baralho: “Shut up and deal”. Pô, como não me apaixonar?

Eu sou consumidor confesso de comédias românticas, admitida já de saída a ruindade dilacerante do gênero. (Afinal, os mano e as mina passam metade da vida obsessivamente preocupados com os seus relacionamentos: o que há de tão estranho em assistir a filmes sobre isso? Tá me chamando de fruta? Quem for ómi góspi aqui.) The Apartment funciona muito melhor que a média porque combina aos star-crossed lovers habituais uma parábola apimentada sobre a mistura malsã de carreira e vida pessoal, representada ao longo do filme pelas chaves que C. C. Baxter (Jack Lemmon), o protagonista, vai ganhando e perdendo, cedendo e recuperando.


(1959: "Be a mensch!")

O complemento sociológico ideal para The Apartment é um livro chamado The Organization Man (1956), de William Whyte, um retrato acurado e impiedoso da ascensão do “executivo” nas corporações americanas do pós-guerra. O título ganhou vaga no dicionário, definido como “um funcionário que sacrifica sua individualidade pelo bem de uma organização”. O “cínico” Billy Wilder (“realista” é uma definição muito melhor) usa Baxter, carreirista mas relativamente bom sujeito, como protótipo do organization man, disposto a tolerar cada vez mais interferência em sua vida pessoal (representada muito literalmente no filme pelo empréstimo do apartamento em que mora para que os executivos da firrrma possam entreter as amantes) em troca da perspectiva de ascensão nas fileiras da seguradora. Na cena mais bacana, o patético Baxter está sentado batendo os dentes em um dos bancos à beira do Central Park, no começo de uma madrugada de inverno, esperando que o chefe da vez execute a amásia da vez, antes que possa voltar pra casa e dormir: em troca de acesso à hierarquia, o cara perde acesso à própria vida, e vive nessa penumbra gelada dos aspirantes involuntários a calhorda.

Porque o filme é uma comédia romântica, o amor é o veículo da “redenção”, essa mais bizarra das convenções cinematográficas. Quando Baxter descobre que Fran Kubelik, a mina por quem ele tem um major crush na firrrma, é uma das visitantes de seu apartamento, ele inicialmente cede ao cinismo mas, diante da avalanche de sordidez que varre a organização de cima abaixo, termina optando por devolver ao chefão e amante de Kubelik (Mr. Sheldrake) o sinal doirado do sucesso profissional -a chave do banheiro dos executivos- e abandonar Nova York. É a última e mais decisiva chave do filme. Sheldrake, que enfim decidira “fazer de Kubelik uma mulher honesta” (depois de ser dispensado pela pâtôa em função das fofocas de escritório), conta a ela, na noite de Ano-Novo, que Baxter largara o emprego, e aí vem uma das seqüências românticas mais fofas e mais imitadas da história do cinema: Shirley McLaine, diliça modern girl, cabelos curtos, olhos luminosos, correndo feito maluca pelas ruas de Nova York* rumo ao apartamento de Baxter, enquanto os fogos do Ano-Novo começam a explodir pela cidade.

Bud: “Did you hear what I said, Miss Kubelik? I absolutely adore you”.
Fran: “Shut up and deal”.

Can’t argue with that, now, can you?

*E quem não sonhou com cena semelhante em sua vida é o mó bundão. Tá? Besides, que a mina tenha corrido atrás do mano, largando o papel de bonitinha desavisada e manteúda em troca da aventura da igualdade, é sinal premonitório da imagem que o cinema construiria para as feministas. Mas isso é tema pra outro post.

November 10, 2004

 

Drinks, sex and jazz


Orange was the color of her dress

New York City is blessed with so many different charms that picking one for special mention is quite boorish, but, man, having the Mingus Big Band and the Charles Mingus Orchestra playing two nights a week in town sure must be the top (and all my love to Sue Mingus, the most wonderful woman this side of heaven). I went out last night to check the Big Band debut at their Iridium (Broadway@51st, $ 25) residency, and it was the best gig ever for them –I saw this unit play at least 50 times, so I know what I’m talking about. And now I can catch the slightly smaller line-up of the Charles Mingus Orchestra at Fez Under Time Café (Lafayette @ Great Jones) every Thursday, as tradition requires, and for just 18 bucks. So –read it and weep, earthlings- my jazz line-up is now as follows: Bob Dorough at Iridium ($ 21.95) for the Sunday jazz brunch (good irony music plus an excuse for drinking this early in the day? There must be a God); the Vanguard Jazz Orchestra ($ 20) at the Village Vanguard (178 Seventh Avenue South), under the management of yet another great lady of jazz, Lorraine Gordon, every Monday; the Mingus units on Tuesday and Thursday and Chico O’Farrill Afro-Cuban Jazz Big Band most Sunday nights at Birdland (315 West 44th St, $ 20). I feel pretty, oh so pretty.

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Biting the hand that feeds me was never my thing, particularly when it’s feeding me bucatini at Tempo’s (256 Fifth Avenue, Park Slope, Brooklyn, 718-636-2020 and it’s worth the trip across the river), but, dear Mr or Ms Hypotethical Reader, I swear to goodness that when I strike out on my own, my business will be known as Poor, Nasty, Brutish & Short (PNBS:SP). ‘Nuff said.

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Tonight I managed to sleep five hours at a stretch for the first time since early September. Plus, lost some pounds. Even after booze and bucatini. The Filthy McNasty jazz & booze diet.

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And a short piece of advice: NEVER let your ladyfriend talk you into buying musical condoms, particularly the ones that play Jingle Bells*. Yuletide didn’t come on account of laughing. Jeeez.

* I date an aspiring comedian from NJ, you see, and, well, talent being what it is, 'jingle balls, jingle balls' is a natural born joke. Or a stillborn one.

November 09, 2004

 

Manhattan 2.1, by Pfizer


Richard Rodgers, Lorenz Hart & Filthy McNasty (off-screen)

At his age one needs Viagra
If he wants to try and drag a
Babe to his place
Avoid losing face

He has tried all other fixes
Been to doctors, shrinks and witches
All over town
The buster’s still down

They’ll have Viagra
Plus catuaba and spanish fly
She will dress sexy and
He’ll cry

It’s very chancy
The guy’s a pansy, and she knows
With every day that goes
She wiggles boobs and bows,
Then she blows

And tell me what scene
Compares with her in
That G-string
So tight sometimes her face
Goes green

This great big fella is an old sex toy
But girls just cannot enjoy
He needs Viagra
To give them any joy

She will go bonkers
If he can’t conquer
Her love moat
And tries to bribe her with
A coat

All love is phoney
But if you want a boney, go
To that drugstore you know
Where aphrodisiac’s sold
Just be bold

And there’s a strip club
Where ladies will rub
His old tool
It’s sort of silly but
That’s cool

This great big fella is an old sex toy
And if you intend to enjoy
Give him Viagra
And he will give you joy

 

The Quiet Americans


Freedom from fear

Caveat emptor: I begin by stating my unreserved love and admiration for the United States. So, if you're interested in anti-American rants, skip to the next two million blogs. That said, and American welcome and hospitality to me notwithstanding, I can see why lots of people abroad have their beefs with the US of A, and I can even sympathize with some of those beefs. But my theme here is not an international take on what the US looks like from abroad, and not even an international take on what Americans look like from abroad. After all, nationality is always cliché. What interests me today is trying to depict what Americans do look like up close. Because the latest wave worldwide seems to be the fear of that dread beast, the Common American, the folk with 'a lower level of formal education' who -gasp!- just gave another term to George W. 'Evil Incarnate' Bush, and, worse, based on -gasp!- 'moral issues'.

So, let's break it down a little: whenever 'progressive people' mobilize in favor of a 'progressive' cause, that is to be applauded. Whenever 'conservative people' mobilize in favor of a 'conservative' cause, that is seen as a threat to acquired freedoms. Well, sorry for being the one who brings this up, my enlightened and liberal friends the world over, but the thing is, conservatives are scared, and have been for quite a long time. What changed is, they are no longer the 'silent majority' that supposedly elected and reelected Tricky Dick Nixon; no, they are now a very vocal majority, and thanks to brilliant grass roots work led by Karl Rove (you can criticize him all you want, but face it: the guy knows his business), they are moving in for the kill. Liberals and special interests groups shoved changes down their throats for years on end, and they had to live with that, albeit a lot of those changes were not only mildly unwelcome but utterly objectionable to them, on moral grounds. One messes with moral issues at one's own peril, alas. And these folks won't be messed with anymore.

But my point is, are they truly fanatical minions of right-wing thought and action? Sorry to disappoint yet again, but, no, they aren't. Lots of the guys who voted conservative this time are not right-wing activists. Like voters anywhere else, they are people who vaguely identify with a portion of an agenda, and so vote for it. These last few days, I've been meeting people who voted conservative for a lot of reasons and, alas, some of those people are even pro-choice. Or gay*. Sounds inconsistent to you? So it does to me. The fact is, the 'right-wing zealot' stereotype describes a minority within a minority within a minority, i.e., the activist few among the Republican voters that went to the polls. And it means, let's say, 10 percent of the American voters, at most. So, it probably seems unfair to you that those fanatical 10 percent will drive the national agenda for the next four years. Tough titties, baby: much smaller minorities drove the political agenda for the past 40 years, and the conservatives had to put up with that.

I know, I know, that makes me sound like a 'right-wing zealot' myself, but this is not the case. I'm pro-choice, because I'm not a woman, and it would be presumptuous of me to try and decide a matter like that for them; I'm pro-gay marriage, like I'm pro-any kind of marriage (even those involving people and vegetables), because marriages are something that should be decided between the prospective spouses, no matter their sex. But, above all, I'm a dispassionate observer. And I'm pro-Democracy. So, the voters had their say. Everyone must abide by it. Bearing in mind that this newly-developing stereotype about right-wing zealots is so ridiculous as the ones (true) right-wing fanatics sprout incessantly about gays, liberals and any other of their bêtes noires. The way to stage a comeback against the right-wing tide is fighting a better campaign next time, with a better candidate, less rainbow-coalitioning and more attention to what people say. Voters are never as stupid as the elites secretly hope they will be. And the quiet Americans will make their voice heard, now and again, as much as their say might disappoint pundits here and elsewhere.

*A quick example: a gay Jewish friend of mine, born and living in NYC, i.e., not your typical Republican, chose Bush over Kerry. I kidded him about it, and he explained: 'Well, since Kerry didn't have the cojones to come forward and declare support for gay marriage, I felt free to base my vote on other issues, and I think Bush will be better for defense. Plus, I own a business: Bush means less taxes for four more years at least'. Makes perfect sense to me, don't you agree? But go label this guy or his vote.

November 08, 2004

 

2Pac to the rescue


Hit'em

We ain't singin', we bringin' drama
Fuck you and your motherfuckin' mama

 

Talk is cheap


"You can kill with the best of them
But your smile remains so sweet"

I’ve always resisted applying philosophical or scientific principles to daily life, because it’s sort of sophomoric and, plus, models that work well for atoms and physical forces do not necessarily apply to moral issues, on account of scale and a range of other factors. That’s alright, as far as it goes, but to those, like me, who try to live their lives outside the scope of traditional or religious moral systems, remains the question, to quote a popular novelist, of 'how to be good'. I guess there has never been a day in my life, ever since I came to the conclusion that there was no God, in which I didn’t query myself: Am I being good? Am I doing right? Is that how I’m supposed to act? Because there is that huge gray area between self and the domain of law, in which most of our human interactions happen, and this field is not bound either by law or by individual whim. So, it is about those things that I worry myself sick. The whole ‘not being an asshole’ field.

That doesn’t mean I don’t fuck up, alas. One of the bad things about not buying established moral systems lock, stock and barrel is the clash between my expectations about what’s right and the other person’s (or people’s). So, what I take as 'being good' is not necessarily seen as such by those my actions come to affect. And my expectations regarding their being good towards me are not always fulfilled, either. Thus, things will always end up in a compromise: let’s agree to disagree. And moral relativism, that shitty plague of our age, rears its ugly head. Because it’s oh so very easy to equate 'being good' with 'whatever makes me comfortable, dude'. The tricky part is building one’s own ethics or moral code and then adhering strictly to it, with no hanky-panky, no escape clauses, no bullshit excuses. I.e., though laboring under the constraints of moral relativism (because each person will establish what’s good and what’s not for oneself), one shouldn’t cheat, and go moral relativism one better, so to speak, by adopting a morally relative stance towards it. (This is getting more confused by the line, I know.) So, let’s resort to an example: if cheating on your romantic partner is wrong under your moral code, then it IS wrong. You shouldn’t allow exceptions for special circumstances. There should be no escape clauses built-in, i.e., ‘cheating on my girlfriend is morally wrong unless she’s being a bitch to me, or unless Cameron Diaz is involved’.

That sounds silly enough for my purposes: applied morals, let’s say. And because it’s so workaday and so silly, it is hard to dignify it under the weighty label ‘morals’. But then that exactly should be the source of any lay moral system: silly commitments undertaken with respect to one’s own life. Because whenever one abandons religious or mainstream moral tenets in exchange for a personal take on ethics, there is always the horrendous risk of moral rationalization, a concept that can be recognized a mile away by the use of lines such as 'for the greater good of the many' (we don’t mind killing quite a lot of the few). I can hear Mr or Ms Hypothetical Reader groaning, already, ‘oh, no, not again: here he comes with the Gulag, the Shoah, the killing fields’, and, you know, fuck that: how can one ignore them, the piles upon piles of dead laid at the altar of Greater Rationality, Progress, Pure Race, Class Struggle? I take all of that VERY personally. Because I can quite easily see myself lying there amidst the rotting bodies. I’m ugly enough, weak enough, mediocre enough to die a statistic. My folks traveled steerage all the way through History and even if I now can afford the occasional Business ticket, I live under constant fear of being found out and escorted out of the plane. THAT’s what I mean by ‘personal’ morals. It can’t get any more personal than that, in fact: Stalin, Hitler, Pol Pot were out to get ME. And the only way to defend against them is that every single person develops the guts to say, 'yo, I’m killing no one, man, fuck the officer’s orders'.

Because the only thing I fear more than my third class ticket to History’s faceless victims sweepstake is being caught unawares and siding up with the tyrants by default, greed, spite or carelessness. That’s even worse, more repulsive, than the gas chamber, the bullet to the back of the head, the death by deliberate starvation so many of us, losers, have suffered at the hands of supposedly luckier losers that were only doing their masters’ bidding. This is what really gives me nightmares: to wear Feldgrau instead of the striped suit, to pull the trigger instead of taking the bullet, and to feel not a thing while doing it. I spent years steeling myself not to be ruthless. Fuck ruthless. I know that not being cold, ruthless, ambitious, determined, whatever, makes me weaker than I could have been. I CHOSE that. Or at least I think I did. I will never 'go for the jugular', no matter how many reengineering shit is pumped into my head to try and make me competitive. Of course that might come from the not so dirty not so little not so secret fact that I’m probably not good enough, anyway. I can analyze with the best of them and point quite cruelly at each of my own weaknesses: the inability to direct rage outwards chief amongst them. Because I quite lack this ruthless 'quality', I blame myself for all fuck-ups. And, man, do I suffer, both physically and morally, plus with the guilt I always end up carrying whether or not it’s my burden to shoulder.

And I'm well aware that this is also a cop-out, that renouncing to play the ruthless game means giving up control of my life, to a worrisome extent, and could possibly benefit those exact same tyrants I concern myself so much about. But, as the poet said,

'Life is first boredom, then fear
Whether or not we use it, it goes
And leaves what something hidden from us chose
And then age, and the only end of age'

And he's right, as usual: it's not so much what I chose, but what something hidden from me, but still me, chose in my stead. And, to that extent, I must bend (though preferably not bend-over) and go with the flow. Watch me go, babe. Watch me go.

November 06, 2004

 

Addicted to the rhythm


... Reefer Madness

We didn't quite got anything going, so the word 'dumping' is not that accurate, but, long story short, she was the one doing the dumping, although of course it was me who ended up blurting some incredibly stupid line about love as a destructive power, and how much better it would be for all (two) involved were it to be removed from the equation as of right then. Besides the utter silliness and bad, Televisa-like, drama quality of the line (yeah, I worry about my lines even when I’m getting dumped, so what?), the other big problem about it was the painful fact of its patent truth. Among “grown-ups” -something she repeated quite a lot that day- the polite way out of those embarrassing moments is lying through one’s teeth. I sorta did, and she sorta did, and the meeting was short, so no great pain was had by all, but Captain Has-Been here had to go and blurt one precious kernel of truth amidst the slaying ritual.

I’m a guy with no recognizable addictions. None. Though currently fat against my will, I can live on next to no food; I don’t drink much; I have never smoked; I don’t do drugs. I like reading, a lot, but managed to lose any compulsive attachment to books. Meaning, I can live without them, for a while at least, if need be. I won’t speak here about sex-related addictions, because even online exhibitionism must have its limits, but I don’t need to get any specific perversion going to enjoy it: plain old bump-and-grind will do, thank you. ‘That must make for a very boring life’, would say the friendly reader (if I had one: Lord, I miss my readers, already). And I could answer by pointing to my only shot at addiction: your old friend Filthy, Mr or Ms Hypothetical Reader, is sadly addicted to romantic love.

The beginner’s stage is flirtation: I love it. I love innuendo. I love asides knowingly delivered. I love sweet nothings whispered in my ear, or hers. It does not necessarily involve sex, or even the intention of sex. It’s more like a sizing-up done through an elegant, useless, old-fashioned mechanism. I know, flirting is very out, in this our age of sexual harassment. But then, what is the whole world of online dating, and blogging, and chat-rooms but a huge flirt central? I’m good at it, or so they tell me. But that does get me into trouble when it comes to the second stage, the tentative intimacy of prospective lovers. Because I’d need to subtract from my weight in kilos thrice the inches my schlong needs added. Plus, I’m sometimes quite shy in person.

If you saw the classic Reefer Madness, you know what I’m talking about: flirting is like that first distant whiff of marijuana smoke coming from the beach, while you’re at home trying to do your homework. Intimacy is a shared bong. And love? Love is like trying to come back from Chihuahua in a 1973 VW van loaded with three tons of Acapulco Gold. Very, VERY risky. But addiction requires that one’s common sense, best judgment and experience be ignored, and that the van of love be loaded with all those dreams grown in the flirtation stage and refined in the intimacy build-up period, till the Reality Patrol turns on the lights, the siren wails and the cops confiscate the whole shebang. (And then the babe usually says, 'yo, officer, that's all his fault'.) Useful to get that learnt. And learnt. And learnt. And learnt.

 

Autumn in New York


... is often mingled with pain

Though I’m really tense while arriving at the airport, after a excruciatingly bad week, and after letting paranoia get the best of me regarding Dubya’s triumph, its effect on the Customs guys and my possible outing as a closet liberal, it’s Lucy that worries me most. Not only on account of our messy background, but on account of my sorry current state: I look like shit and I know it.

She jumps me as I exit Customs, fierce as ever, surrounding me in a tangle of arms and legs, and then she pauses, looks me in the eye, and whispers, ‘baby, what have they done to you?’, and kisses me. ‘That bad, eh?’, I kid her, and lower her by the waist, at arm's length, so that I can get a good look at her. She put on some weight around the butt, nothing untoward, though, but this is still Lucy as I’ve known her, seemingly forever –blonde, leggy and kooky, a sort of Mira Sorvino-like stealth hottie. Then I pay attention to her hair and catch a telling detail: she’s now sporting one lonely strand of deliberate gray hair amidst her dark blonde tresses. 'So, Morticia', I tease her, and she punches me: 'It’s my tenure ‘do'. I laugh with her. 'You know, they should have kept to the silly traditions and given me a ring or something. And then I thought that letting a little gray show would buy me some respect from those brats'. I laugh, reassure her that she looks great, mentioning that most guys would love to give Morticia Addams a roll in the hay, anyway, and ask: ‘What about... you know. The basement'. Another punch.

We laugh our way to the car. We keep walking and talking along that long Newark parking lot, and I’m on the lookout for one of her disgustingly ugly vehicles –rusty Saabs, Ford Pintos, that lousy Yugo she had in the late 80s, but to my surprise she flips a key chain and pop goes the Beemer. She actually blushes when she sees the look on my face. ‘It’s my mom’s current beau’s late wife’s car’, she mumbles, while I add ‘and the dog ate my homework’, under my breath. We head to the city in comfortable silence, like only old lovers can , her tiny hand resting on my thigh. Sometimes, after one blind roller-coaster ride too many, knowing exactly what to expect is life’s greatest blessing. I know everything there is to know about Lucy. At least in the sense of being reasonably comfortable with the range of surprises she can pull. And, right now, that's exactly what the doctor ordered. So, equipped with leggy blonde, Beemer and a pad right next to the U, I ride straight into town thinking, alas, of you.

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