November 23, 2004
Talba de tiro ao álvaro
Unreal city...
O Estado, a cidade, a maternidade, ele: o nome (que quer dizer “pequeno”, ‘cause irony was fated to be his albatross, desde sempre) como traço de união, como marca de Caim, como mau presságio. No começo, amava a cidade sem reservas –grande mãe cinzenta, ainda razoavelmente acolhedora, pelo menos lá no Jardim Microcosmo. Primeira lembrança urbana: a pilha dos paralelepípedos removidos quando a avenida em que morava estava sendo asfaltada. As viagens de trólebus com a mamma para levar almoço quente ao pai (love was that sweet back then) no centro da cidade. A escola “do bairro”. O maravilhoso bauru das Lojas Americanas na rua Direita. O banco que, como descobriu muitos anos mais tarde, imitava um famoso palazzo florentino, e que ele, menino, trouxa, imaginava seu castelo.
Depois, mesmo sob efeito da desilusão, aprendeu a amar outros pedaços da cidade –os bairros a que os perenes rolos do pai levavam a família, os lugares que ele foi descobrindo sozinho, as livrarias, os sebos, a biblioteca (ele cabulou muita aula pra perder a manhã na Mário de Andrade, lendo). Diante de amigos de fora, chegou até a desenvolver certa dose de bairrismo, a se vangloriar do parque industrial, a gritar Bélgica pra Índia alheia. Críticas à cidade-xará o deixavam puto. Descobriu os escritores da cidade, um por um. E continuou sendo andarilho incansável. Mas sabia, naqueles anos de adolescência, que era preciso ir embora, que a cidade “era pequena demais para ele”. É claro que, bostinha romântico por sob a capa do cinismo, o sonho era sempre a volta triunfal: a cidade teria seu nome, um dia. E se mandou levando o mapa da cidade tatuado em algum lugar entre as retinas e as costelas.
Às vezes, de seus exílios, sentia o cheiro da cidade sob a chuva, ouvia o chiado dos ônibus começando a circular pelas ruas molhadas de garoa nos 15 minutos que antecedem o amanhecer. Pedia notícias da cidade como se fosse uma pessoa, em suas muitas cartas. Penava de longe com as obras insanas, os prefeitos lunáticos, a lenta e deliberada deterioração daquele lugar que, faux cosmopolita, continuava silenciosamente a chamar de seu. Era um grande e complicado amor, o dele pela cidade. Como sempre, alguém já tinha definido, muito melhor do que ele seria capaz: “Gostamos de alguém porquê. Amamos alguém apesar”. De longe, aliás, os defeitos ganhavam aquele tom esfumaçado e romântico que diretor cauteloso usa pra filmar atriz cinqüentona. Quando voltou para ficar, pela primeira vez, estava certo de que they could work it out.
Mas a cidade o derrotou. O trânsito insano, a grana medíocre, a feiúra incansável, os policiais corruptos, os políticos sacanas, os cidadãos indiferentes, o ar viciado, as legiões de mendigos, a pobreza como exploração, a exploração como pobreza, os ricos escrotos, os lumpen escrotos, os jornais risíveis, as revistas mendazes, os cinemas de rua fechando, os shopping centers desembestados, os Jardins travestidos em paródia dos corsos milaneses ou faubourgs parisienses mas povoados pelos filhos da puta asquerosos de sempre, e aquele monstruoso ennui roendo, roendo.
O segundo exílio, mais curto e mais realista, matou sua paixão pela cidade. Restava amor, ainda, claro, mas o peito não queimava mais de saudade. Descobriu que era possível viver sem ela. Dessa vez foi o acaso que o arremessou de volta, contra a vontade. E o que era ruim foi ficando pior, sempre pior: cada vez menos lugares aonde ir, cada vez menos tesão por garimpar os diamantes urbanos em meio à imensa lixeira. Um dia, remexendo arquivos velhos no computador, encontrou sua lista de 10 lugares imperdíveis da cidade. Três tinham fechado, ele não ia a cinco deles há anos. E por fim até seu bar o atraiçoou. Acorda, Fudílson: tá na hora de ir embora.
Todo mundo sabe o quanto é difícil amar sem ser amado, todo mundo já penou por conta de paixão não correspondida. Mas não sei se muita gente perde tempo ponderando o quanto dói e o quanto é difícil deixar de amar. Contemplando o parque e o espigão da Paulista pela janela do apartamento que demorou tanto a escolher e para o qual já não ligava a mínima, ele pensava na cidade com a nostalgia seca de quem olha uma mulé que um dia achou insondavelmente bonita e diz, pra si mesmo, “tu era burro pra cacete, hein, mano?” Lá embaixo, os carros circulando como sempre, e como todo dia Ana Paula Arósio à espreita no outdoor do Ibirapuera com aqueles olhos esbugalhados de psicopata. Dor nenhuma. Amor nenhum. Ex-mulé na era do machismo, a cidade levaria seu nome para sempre, como ironia, acusação, escárnio, fond memory, vela votiva pelos sonhos nunca realizados. "Pode ficar com o nome", pensou. "My name is McNasty. Filthy McNasty".
And now I bid you adieu.